Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 4 de 12 · parte 1/3

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Um Defeito de Cor

Capítulo dois

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Aprendemos também as primeiras palavras em português, uma língua que desde o início me pareceu uma música suave, com as palavras cantadas e muito bonitas. Todos os guardas que nos vigiavam falavam português e uma ou outra palavra nas nossas línguas, e um deles disse que não era para nos acostumarmos, porque só ficaríamos na ilha até terem certeza de que não estávamos doentes, e também para melhorarmos um pouco a aparência. Por causa disso, gostavam que tomássemos sol e caminhássemos, nos alimentavam bem e ainda podíamos comer tudo o que encontrássemos pela ilha.

Um dia nos fizeram cortar os cabelos uns dos outros, nos deram roupas limpas e disseram que o tempo de vadiagem tinha terminado. Em barcos separados para os que tinham e os que não tinham marcas de ferro, fomos levados para a cidade que víamos ao longe e que parecia ser muito bonita, a que ficava em cima do morro e da qual desde o início achei que fosse gostar bastante.

Cruzando a baía, olhei uma última vez para a ilha e vi um navio grande ancorando, provavelmente com outros carneiros, que ocupariam os nossos lugares.

Capítulo dois

O Hoje é o irmão mais velho do Amanhã, e a Garoa é a irmã mais velha da Chuva.

Provérbio africano

O desembarque

Enquanto os remos do barco venciam lentamente a correnteza em volta da Ilha dos Frades, eu não sabia para onde olhar. Sentia vontade de permanecer na ilha, mas, ao mesmo tempo, queria seguir em direção àquela cidade que tão magicamente começava a se mostrar. Do barco já era possível vê-la quase inteira, fazendo uma suave curva para abraçar o mar, como um colar de contas em volta do pescoço. Contas que brilhavam à luz do sol, contas verdes da vegetação que descia pelas encostas, contas brancas das grandes casas construídas em cima do morro, contas coloridas das construções que se espalhavam ao pé das encostas e quase se misturavam com o verde e o azul do colo do mar.

Quando o barco ancorou, muitas pessoas se aproximaram falando a língua do Brasil, que, para mim, continuava parecendo mais música do que qualquer outra língua que eu já tinha ouvido. Alguns brancos acompanhavam um ou outro desembarque, mas a grande maioria era de pretos como nós, com tons de pele e aparências tão diferentes uns dos outros que eu imaginava ver uma África inteira em um só lugar, e tinham os rostos tão alegres que até pareciam nos dar boas-vindas.

Não senti mais medo de virar carneiro, pois se tantos chegados antes de nós não tinham virado, seria muito azar se acontecesse justo na nossa vez. Havia um grande

movimento, não apenas de barcos carregando pessoas, mas principalmente de cargas, caixas e mais caixas, baús e tonéis com mercadorias como frutas, peixes, tecidos e muitas outras coisas que eu não conhecia.

Pretos enormes, como eu pouco tinha visto antes, transportavam tudo sobre os ombros, sozinhos ou aos pares, ou até mais que aos pares, dependendo do tamanho e do peso do objeto carregado. Estariam nus se não fosse um pedaço de pano que cobria apenas a região do membro, com os corpos suados brilhando ao sol, fortes e com músculos que dançavam sob a pele conforme o esforço. Trabalhavam cantando, o que era bonito de ver e ouvir, fazendo movimentos muito parecidos, como se tivessem ensaiado. Quando passavam uns pelos outros, eles se cumprimentavam, como em África, e ouvi alguns dizendo Okuji ni o (Okuji ni o: "espero que vos tenhais levantado bem").

O que mais me impressionou foram as mulheres vendedoras de peixe fresco ou frito, quitutes e refrescos.

Eu nunca tinha visto roupas tão bonitas. Dava para perceber que a maioria delas era da África por causa das marcas que tinham no rosto, mas estas eram as únicas evidências, pois se vestiam de um modo tão lindo, tão diferente, que eu nunca teria sido capaz de imaginar. Os cabelos estavam cobertos por turbantes grandes, feitos com tecidos brancos rendados, lisos ou enfeitados com búzios, conchas e contas de todos os tamanhos e de todas as cores.

Usavam blusas costuradas sobre os ombros e nas laterais, com o comprimento até a metade das pernas, que ficavam escondidas dentro de saias muito rodadas.

Geralmente, tanto a blusa como a saia eram brancas, embora algumas também se vestissem de amarelo, de verde, de azul e de rosa. As blusas, que até pareciam vestidos, eram de um tecido transparente e muito leve, escorregando pelos ombros, enfeitadas com bordados caprichados.

Elas também tinham panos jogados sobre um dos ombros, que, mais tarde, eu soube que no Brasil são chamados de pano-da-costa, da costa da África. O

pescoço e os braços eram enfeitados com colares e pulseiras dos mais coloridos, ou então dourados, que atraíam a luz do sol e ficavam ainda mais reluzentes.

Algumas mulheres tinham os pés calçados, à moda dos brancos, com sapatos abertos e presos por tiras que subiam pelas pernas em interessantes trançados. Fiquei tão fascinada por elas que só queria saber onde conseguir roupa igual, e tentando guardar na memória cada detalhe, nem prestei muita atenção ao trajeto que fizemos.

Só me lembro de ter passado por uma rua estreita e malcheirosa, de onde víamos o interior das casas, de um lado e do outro, algumas transformadas em comércio e outras mantidas como moradia. As pessoas também trabalhavam no meio das ruas, fazendo sapatos, trançando palha, bordando roupas e fabricando chapéus, além de outras atividades, deixando ainda menos espaço para quem passava por elas.

O mercado

Ao deixarmos a ruazinha, saímos em outra mais larga, na qual andamos bem pouco antes de entrarmos em um armazém. O espaço era grande e arejado, aberto para a rua com três enormes portas em forma de arcos que tomavam quase toda a parede da frente. O armazém já estava cheio de gente, e lá ficaram apenas os que não tinham nenhuma marca a ferro, pois tal marca indicava quem já tinha saído de África tratado de compra.

Apesar de não estarem marcados, fui separada também de todos os muçurumins, e mais tarde soube que eles tinham grande valor e eram vendidos em lugares especiais. Fomos recebidos com certa alegria pelo branco que parecia ser o dono daquele local e que, ainda

na rua, andou em torno de nós, apalpou nossas carnes, alisou nossas peles e provou o gosto deixado no dedo, abriu nossas bocas e olhou os dentes, e, por fim, fez sinais de aprovação. Quando entramos no armazém, percebi o motivo da felicidade, pois ele tinha um bom estoque de pretos, mas, juntando todos, não dava um de nós. Pareciam mesmo carneiros magros, bichos maltratados e doentes.

Quase todos estavam nus e eram homens e mulheres de várias idades, desde crianças de colo até idosos, todos tristes e muito diferentes dos pretos que eu tinha visto pelas ruas, sadios, fortes e, por que não dizer, alegres.

Os que estavam no armazém pareciam não agüentar o peso do próprio corpo, que se resumia a quase que apenas ossos, e era por isso que permaneciam quietos o tempo todo.

Em bancos encostados às paredes ficavam os mais velhos e os mais doentes, sentados ou deitados.

Espalhados por todos os cantos do barracão, no chão de terra ou sobre esteiras de palha já se desmanchando, os mais jovens formavam grupos de acordo com os locais de onde tinham saído de África, o que era fácil de saber por causa das marcas nos rostos ou das línguas que falavam. As mulheres se acocoravam ao redor de fogareiros improvisados com barro e chapas de ferro que sustentavam tachos de comida.

Elas olhavam, mudas, tanto para o fogo como para as vasilhas onde preparavam algo que nem de longe poderia ser chamado de refeição, apenas água onde boiavam pedaços minúsculos de verduras e ossos.

Algumas crianças, magras e barrigudas, dormiam perto delas, outras estavam penduradas em peitos murchos, e outras ainda, um pouco mais velhas, brincavam de atirar pedrinhas para o ar e apanhá-las antes que tocassem o chão, como muitas vezes eu, a Taiwo e o Kokumo brincávamos em Savalu.

Os homens também formavam grupos, mais pela companhia, porque mal se falavam, deitados ou agachados, com os braços em volta dos joelhos e as cabeças enfiadas entre as pernas. O comum a todos eram os ossos, que de tão aparentes quase rasgavam a pele sem viço e sem cor definida, coberta por imensa quantidade de escaras. Tenho quase certeza de que nós também estávamos bem parecidos com eles quando desembarcamos, magros, tristes e com aparência de bichos, e nos fizeram muito bem os dias na Ilha dos Frades, ao ar livre, podendo tomar sol, tomar banho, e com comida suficiente para, além de não passarmos fome, ainda nos fartarmos com frutas, muitas que eu não conhecia e eram bem gostosas.

Mais tarde, em África, senti muita falta delas. Os pretos que estavam naquele armazém provavelmente tinham ido do navio para lá, sem passar pelo período de descanso e recuperação. Ou estavam lá havia muito tempo, à espera de alguém que se interessasse por eles, não sendo cuidados por quem apenas intermediava a venda e não tratava bem de peça alheia. Na verdade, tamanho descaso fazia com que se tornassem peças que ninguém nunca ia querer.

Homens, mulheres e crianças tinham os cabelos raspados, mas alguns deixavam crescer pequenos tufos no alto da cabeça. As mulheres, na tentativa de imitar as que ficavam no porto, passavam grande parte do tempo amarrando e desamarrando lenços em volta da cabeça, enfeitados com qualquer coisa que fosse possível conseguir por ali, como palha, pedras e barro. Mas não ficavam bonitas, por mais que tentassem.

Nem as crianças eram bonitas. Aliás, a única coisa que se podia perceber naqueles pretos era o ódio nos olhos de alguns deles, que até os guardas pareciam respeitar, mantendo uma distância segura. Até mesmo nós, talvez por estarmos mais bem-vestidos e mais saudáveis, fomos

alvos de tais olhares. A sensação era de que a qualquer momento eles correriam todos na nossa direção e nos matariam, vingando em nós o tratamento recebido.

O grupo no qual eu cheguei permaneceu unido, e ninguém conversou conosco durante um bom tempo. À

noite, a temperatura esfriou e me senti desconfortável por todos aqueles que estavam nus, ou quase nus, inclusive as crianças, que choravam. Os guardas que ficavam do lado de fora das portas fechadas gritavam alguma coisa que as fazia calar, mas que eu não compreendia por não entender ainda o português.

Fiquei aliviada quando o dia amanheceu, pois tinha dormido muito mal, incomodada, com medo, mas vencida pelo cansaço provocado por emoções tão diferentes. Uma das mulheres do nosso grupo puxou conversa com outra das que já estavam no armazém, e ela disse que tinha chegado havia muito tempo e que infelizmente ninguém tinha se interessado por ela, um problema bastante comum para os que não eram vendidos logo nos primeiros dias.

Quem acabava de chegar tinha a preferência por estar mais bem alimentado, e quanto mais tempo ficava ali, menores eram as chances de ser escolhido, porque a comida era pouca e irregular. As vezes mal dava para as crianças, que tinham certas prioridades, seguindo uma norma estabelecida por eles mesmos. Mas quando a fome apertava, esqueciam até mesmo esta regra, colocavam as crianças para dormir e dividiam a comida entre os que tinham mais influência no grupo.

Muitas das crianças não estavam acompanhadas de pai ou mãe, ou porque tinham viajado sozinhas, menos provável, ou porque ficaram órfãs durante a viagem, ou tinham sido separadas da família por compradores que se interessaram somente pelos adultos. A conversa atraiu outras mulheres, que estavam apenas observando,

desconfiadas e curiosas para saber quando tínhamos saído da África, de que região éramos, a que tribo pertencíamos, como estava tudo por lá.

Quando encontravam alguém da mesma região ou tribo, perguntavam por parentes e conhecidos, e às vezes aconteciam coincidências. Na segunda ou terceira leva anterior à nossa, havia um homem que conheceu a família de um rapaz que já estava no armazém e contou que a aldeia deles tinha sido arrasada, que os que não foram capturados estavam mortos.

Eu não sabia o motivo, mas tinha absoluta certeza de que não teria o mesmo destino que aquelas crianças, que alguém me escolheria logo e nada seria tão ruim assim, mas fiquei me perguntando se algumas delas já tinham tido o mesmo pensamento e a mesma certeza em vão. Mas elas pareciam indiferentes a tudo que acontecia ao redor, ou por estarem brincando ou por ficarem quietas a um canto, sozinhas, caladas, como se quisessem ficar invisíveis, como quando eu fechava os olhos na viagem de Savalu para Uidá e todo o mundo desaparecia.

A venda De fato, aconteceu que fui mesmo escolhida no segundo dia. Tão logo as portas do armazém foram abertas, começaram a chegar homens dos mais diferentes tipos, sabedores da notícia de que havia peças novas. Uns brancos, outros nem tanto, alguns com roupas bem parecidas com as que vestiam os brancos que nos pegaram em Uidá. Percebi uma pequena mudança nos rostos de todos aqueles que já estavam ali antes de nós.

Parecia que renasciam a cada manhã, como se tivessem dentro deles um sol que surgia forte e que, com o correr do dia, ia enfraquecendo, até desaparecer por completo com o fim da tarde.

A cada manhã renovavam a esperança de serem escolhidos para, enfim, deixarem aquele lugar que aos poucos ia acabando com eles, roubando saúde e, principalmente, dignidade. Era desonroso ficar no armazém por muito tempo, dia após dia, sendo preteridos e humilhados, rebaixados a um ponto em que não serviam nem mais para carneiros. A comida era pouca, levada uma vez por dia por um homem que a entregava a uma senhora bastante idosa e respeitada, que cuidava da preparação e da distribuição. Todos tentavam viver às boas com ela, que tanto poderia favorecer como prejudicar alguém.

Não percebi se ela estava no armazém esperando para ser escolhida ou se aquele era o seu trabalho. Em comparação com a comida que recebíamos na Ilha dos Frades ou mesmo no navio, já que parecia ser para a mesma quantidade de pessoas, não chegava nem à metade. Além do mais, era apenas farinha, água, poucos legumes de péssima qualidade, já passados do ponto, e um pedaço de carne escura e malcheirosa, que depois me disseram ser carne de baleia, da pior qualidade.

Os brancos entravam, olhavam ao redor e apontavam os pretos pelos quais se interessavam. Então, um dos empregados se aproximava dos pretos e batia em seus ombros com uma vara ou gritava de longe para que eles se aproximassem, caso já entendessem o português. Não importando se era homem, mulher ou criança, o comprador apalpava-lhes todo o corpo e os fazia erguer os braços e mostrar as plantas dos pés, como a minha avó tinha feito em Uidá. O empregado do armazém batia com um chicote em suas pernas e eles tinham que pular, para ver se reagiam rápido, e depois tinham que abrir a boca e mostrar os dentes, para então gritar o mais alto que podiam. Senti vontade de rir quando vi este ritual pela primeira vez, talvez mais pelo nervoso de saber que também teria que passar por ele, mas desejando que acontecesse logo, que eu fosse logo escolhida e levada

embora.

Caso contrário, estaria condenada a ficar, quem sabe, até morrer, visto que a grande maioria dos compradores não se interessava por crianças. Quase todos os que tinham chegado junto comigo foram vendidos ainda de manhã, o que fazia aumentar a tristeza, o desânimo e o ódio dos que permaneciam. Sabendo das poucas chances que eu teria e que não deveria perder nenhuma delas, tentei me manter limpa e demonstrar alegria, pois percebi que a aparência contava muito. Primeiro foram vendidos os homens e as mulheres que estavam mais bem compostos e pareciam mais saudáveis, risonhos até, orgulhosos de serem escolhidos antes dos outros.

No meio da tarde eu já sentia muita fome, pois a comida não tinha dado para todo mundo. Os que estavam ali antes da nossa chegada foram os únicos a se servir, e em quantidades moderadas. Foi quando entrou um homem muito distinto, de meia-idade, seguido de perto por dois pretos também alinhados, embora tivessem os pés descalços. Ele pediu uma preta que soubesse cozinhar e algumas se apresentaram, voluntariamente ou depois de serem chamadas pelo empregado do barracão, que primeiro tentava vender as peças mais antigas, que os compradores recusavam para escolher as que estavam em melhores condições.

Acabou sendo escolhida uma senhora que tinha viajado no meu navio, uma que eu vi chorando no dia em que levaram o marido morto para ser jogado no mar. Depois, o homem pediu um preto que entendesse de pescaria, e como já não havia mais homens da nova leva, ficou com um dos antigos que, na verdade, não tinha nada de antigo, era bem moço ainda, embora magro e maltratado. Quando parecia que já estava se preparando para ir embora, feliz com a compra, correu os olhos pelo armazém, como quem procura uma vaca entre carneiros, parou e apontou a bengala na minha direção.

Antes que ele se arrependesse, e antes mesmo que me chamassem, corri para ele e me apressei a fazer todo o procedimento, o que me valeu uma chicotada de reprimenda por parte do empregado, mas também algumas risadas de todos que estavam prestando atenção. Isso porque nem todos prestavam atenção, alguns pareciam completamente indiferentes em relação ao próprio destino, não se importando se fossem comprados ou não, se vivessem ou não. Mas eu queria viver e consegui arrancar uma gargalhada daquele que seria meu futuro dono, o que foi um sinal de permissão para que todos fizessem o mesmo. Logo o armazém tinha uma atmosfera menos triste, onde ecoavam algumas risadas tímidas e outras bem escandalosas. Como percebi que estava agradando, resolvi continuar. Dava um salto, levantava os braços, mostrava a planta dos pés, punha a língua para fora, berrava, corria ao redor de um círculo imaginário, me agachava e ficava de pé, dava pulos no ar e repetia tudo em seguida.

Eu já estava ficando cansada quando o homem também se cansou de rir e passou a conversar em português com o empregado, e eu sabia que estava perguntando o meu preço. Fiquei muito feliz por ter sido aceita e me lembrei da minha mãe, da minha avó, da Taiwo e do Kokumo, e achei que eles também teriam rido se tivessem visto o que eu tinha acabado de fazer, e que estariam mais felizes ainda por eu ter sido escolhida no meu segundo dia no armazém. Mesmo não sendo mais para presente, eu não ia virar carneiro.

O homem que tinha acabado de me comprar sentou-se ao lado de uma mesa que servia de escritório em um dos cantos do armazém, onde ele e um dos empregados trataram da assinatura dos títulos de compra e venda.

Os dois pretos que o acompanhavam já sabiam o que fazer e logo nos amarraram, eu, a cozinheira e o pescador, e nos levaram para perto da mesa, onde quiseram saber os nossos nomes, os nomes de branco Á

que tínhamos recebido em África ou na Ilha dos Frades.

O do pescador era Afrânio, e então passou a se chamar Afrânio Gama, e a cozinheira ficou sendo Maria das Graças Gama. Quando eu disse que me chamava Kehinde, o nosso dono pareceu ficar bravo, e um dos empregados perguntou novamente, em iorubá, que nome tinham me dado no batismo. Eu repeti que meu nome era Kehinde e não consegui entender o que diziam entre eles, enquanto o empregado procurava algum registro na lista dos que tinham chegado no dia anterior.

O que sabia iorubá disse para eu falar o meu nome direito porque não havia nenhuma Kehinde, e eu não poderia ter sido batizada com este nome africano, devia ter um outro, um nome cristão. Foi só então que me lembrei da fuga do navio antes da chegada do padre, quando eu deveria ter sido batizada, mas não quis que soubessem dessa história. A Tanisha tinha me contado o nome dado a ela, Luísa, e foi esse que adotei. Para os brancos fiquei sendo Luísa, Luísa Gama, mas sempre me considerei Kehinde. O nome que a minha mãe e a minha avó me deram e que era reconhecido pelos voduns, por Nana, por Xangô, por Oxum, pelos Ibêjis e principalmente pela Taiwo. Mesmo quando adotei o nome de Luísa por ser conveniente, era como Kehinde que eu me apresentava ao sagrado e ao secreto.

A primeira casa

Do armazém, seguimos em direção ao cais, de volta pelo caminho que eu já tinha percorrido, e mais uma vez pude reparar nas mulheres que tanto me fascinaram, prometendo a mim mesma que um dia usaria aquelas roupas e seria muito mais feliz do que jamais tinha sido, pois foi esta a imagem que elas me passaram, a de felicidade, apesar de tudo. Chegando ao ancoradouro, um barco com mais três pretos estava à nossa espera, e um pára-sol foi aberto sobre o nosso dono assim que ele

embarcou.

Depois que todos estávamos sentados, quatro pretos tomaram seus lugares nas laterais do barco e remaram de modo vigoroso e cadenciado, como se mentalmente cantassem uma música que impunha o ritmo da travessia. Fiquei alegre ao pensar que estava voltando para a Ilha dos Frades, mas logo tomamos outra direção, tendo à nossa frente a maior das ilhas da Baía de Todos os Santos, que depois eu soube se chamar Itaparica.

A ilha crescia e ficava mais bonita à medida que nos aproximávamos, e eu já via suas imensas praias de areia muito branca e palmeiras que pareciam as de África, e, mais para dentro, morros cobertos por florestas que eu também imaginava como as do meu reino. O barco contornou algumas pedras ao longo da costa e atracou em uma das pontas da ilha. Desembarcamos e seguimos primeiro pela praia, para depois entrarmos por uma trilha em meio às árvores. Nós, os pretos, íamos a pé, mas assim que pisamos a areia, o nosso dono já tinha esperando por ele um meio de transporte que achei muito engraçado, e depois vi que era comum entre as pessoas ricas da terra.

Uma espécie de cadeira com encosto alto e sem os pés, pois, no lugar deles, logo abaixo do assento, estavam fixadas duas grossas ripas de madeira, que se estendiam paralelas para a frente e para trás de quem estava sentado. Ajoelhados, dois pretos apoiavam as ripas sobre os ombros, uma de cada lado, que eram cuidadosamente erguidas depois que o ocupante se sentava. Os pretos pareciam

acostumados

àquele

trabalho,

e

era

importante que tivessem mais ou menos a mesma altura, para que a cadeira não pendesse para um dos lados.

Mesmo assim, não devia ser nada confortável para o ocupante, que corria o risco de perder o equilíbrio a qualquer solavanco ou em um terreno inclinado. Mas o nosso dono, o senhor José Carlos de Almeida Carvalho

Gama, de quem herdamos o apelido (Apelido: sobrenome), preferia o desconforto à caminhada, sempre.

A casa ficava a poucos metros da praia e era das maiores que eu já tinha visto, e a mais bonita. Entramos pela lateral do terreno, grande, cercado de árvores comuns, de árvores com frutas e de muitas plantas floridas. Na frente havia palmeiras e um jardim muito bem cuidado, até o limite com a areia da praia. Nos fundos, em meio a árvores que mais adiante se fechavam em densa mata, havia dois enormes barracões rústicos e pintados de branco. A casa era azul-clara, com as molduras das janelas e das portas pintadas de azul-escuro, a mesma cor das vigas de madeira que sustentavam o telhado da varanda que abraçava toda a construção.

Na sombra desta varanda havia algumas cadeiras e redes, plantas em vasos e algumas pretas cantando e costurando, ao lado de três pretos já idosos, que trançavam palha para fazer balaios ou esteiras. O sinhô José Carlos, era assim que ele gostava de ser chamado, mandou que um dos empregados levasse a cozinheira para a senzala pequena e o pescador, para a senzala grande. Para mim, ele disse qualquer coisa que não entendi por ser em português, mas achei que era para segui-lo, o que fiz até a porta da cozinha. Ele entrou e fez um gesto para que eu ficasse esperando do lado de fora da porta, onde apareceram duas mulheres, olharam para mim e tornaram a entrar. Surgiu então uma terceira, mais velha e gorda, vestindo saia e blusa sujas de carvão, que me ofereceu um bom pedaço de bolo e um copo de leite.

Ela começou a conversar comigo em português e eu respondia em iorubá, não me lembro exatamente o quê, mas acho que devo ter entendido. Não era difícil entender o português, eu apenas ainda não conseguia falar. Enquanto comia, com gosto e fome, ela me olhava

com pena e carinho, e quando devolvi o copo vazio, falou em iorubá que eu tinha que aprender logo o português, pois o sinhô José Carlos não permitia que se falassem línguas de pretos em suas terras, e que qualquer coisa de que eu precisasse era para falar com ela, que se chamava Esméria. E que também era para eu ficar com ela na cozinha até o anoitecer, quando me levaria para a senzala pequena, onde dormiam os escravos que trabalhavam na casa.

A cozinha era maior do que toda a minha casa em Savalu e quase do tamanho da casa da Titilayo, em Uidá. Em um canto havia um enorme fogão a lenha onde a Esméria trabalhava, vermelho, da cor do cimento que cobria o chão. Em uma das paredes havia um armário com várias panelas e uma pia enorme, onde uma outra preta, mais nova que a Esméria e chamada Firmina, lavava uma pilha de coisas de cozinha e de mesa, que eu passava a conhecer a partir daquele momento.

Havia também uma mesa sobre a qual, do teto, pendiam molhos de alho, pedaços de toucinho e outras comidas que eu também não conhecia. Ao lado da porta de saída, perto da qual eu tinha me sentado para observar tudo com muita curiosidade, ficava uma outra porta por onde a Esméria entrava e saía diversas vezes, com os ingredientes que usava para fazer a comida. Ao sair, sempre trancava a porta com uma chave que carregava amarrada à cintura. Uma terceira porta, bem em frente de onde eu estava sentada, levava ao interior da casa, velado por uma cortina.

Quando o jantar ficou pronto, um preto muito bem-vestido apareceu para pegar as travessas, muitas, onde a Esméria ia ajeitando a comida de várias qualidades, cada uma disposta em sua própria vasilha. Fiquei tentando imaginar, pela quantidade e variedade, quantas pessoas moravam naquela casa. O preto se chamava Sebastião e era quase branco no seu jeito de andar e de

falar, tendo até os pés calçados, como também era o caso da Antônia, que apareceu para ajudá-lo, vestida com roupas diferentes das que a Esméria e a Firmina usavam.

Depois do jantar, foram os dois também que carregaram tudo de volta para a cozinha, travessas, pratos, copos, talheres e a comida quase intocada. A Esméria me deu um pouco do que tinha sobrado e disse para eu comer rápido e não contar a ninguém, enquanto ela e a Firmina faziam o mesmo. Depois que as duas terminaram de lavar, secar e guardar a louça, com a Antônia e o Sebastião sentados à mesa e conversando em voz baixa, a Esméria me levou para a senzala pequena, onde também dormiam todos que eu tinha conhecido.

A Esméria riu quando perguntei sobre aquela história de virar carneiro e disse qi também já tinha pensado assim.

Em iorubá, ela me explicou o que era um escravo, alguém por quem o dono tinha pagado a quantia que achava justa e que lhe dava o direito de ter o escravo trabalhando pelo resto da vida, ou até que ele pudesse pagar pela liberdade que tinha antes de ser comprado.

Eu não sei se entendi direito naquele dia, mas a explicação conformada me pareceu justa, e acho que até fiquei feliz por saber que os brancos não nos compravam porque apreciavam a nossa carne. Gostei também quando ela disse que eu seria escrava de companhia da sinhazinha Maria Clara, a filha do sinhô José Carlos. Ele era casado com a sinhá Ana Felipa, mas a mãe da sinhazinha Maria Clara era a sinhá Angélica, que tinha morrido no parto. O sinhô José Carlos então se casou de novo e não teve mais filhos, o que fazia da sinhazinha uma criança bastante solitária naquele mundo de adultos.

Antes de mim, ela tinha tido uma outra companhia, uma moça mais velha, que foi vendida pela sinhá Ana Felipa

quando começou a se dar ao desfrute dentro da casa. A Esméria recomendou que eu me comportasse bem, nunca dizendo nada que não fosse perguntado, nunca fazendo o que não fosse pedido e nunca desobedecendo ou questionando, mesmo quando achasse que uma ordem estava errada ou era injusta. Era assim que as coisas aconteciam entre pretos e brancos, e era assim que deveriam continuar, pois eu nunca poderia mudá-las e tinha até muita sorte de estar entre os escravos da casa, mais bem tratados do que os que viviam na senzala grande e trabalhavam na lavoura, no engenho ou na pesca da baleia. A Esméria disse ainda que a sinhazinha era uma menina muito boa, pois tinha herdado a bondade da mãe, de quem todos sentiam falta.

A senzala pequena era um cômodo não muito grande, simples, com as paredes pintadas de branco do lado de fora e no tijolo cor de barro do lado de dentro. O chão era de barro alisado, mas muito limpo, sobre o qual estavam estendidas algumas esteiras. A Esméria colocou uma para mim ao lado da dela e mostrou onde dormiam a Firmina, o Sebastião e a Antônia, que eu já conhecia, e onde ia dormir a Maria das Graças, que tinha sido comprada junto comigo para ajudá-la na cozinha. As outras esteiras pertenciam ao Tico e ao Hilário, dois moleques que eram uma espécie de faz-tudo na casa-grande e que estavam sempre fugindo do trabalho, escondidos pelo mato.

Havia ainda a esteira da Josefa, que estava na casa preparando o banho e os quartos para os nossos donos dormirem, a do Eufrásio, o capataz, que estava vigiando os pretos da senzala grande e esperando a hora de trancá-los dentro das baias, e a da Rita, a arrumadeira, que normalmente dormia na casa-grande, na cozinha, para o caso de o sinhô, a sinhá ou a sinhazinha precisarem de alguma coisa durante a noite. Eu estava cansada por causa do dia agitado e de tantas novidades, mas feliz por estar ali e pelo trabalho que ia fazer, e

principalmente por causa da Esméria, de quem gostei bastante. Queria ter ficado mais tempo pensando na minha avó ou mesmo na Titilayo, que devia estar preocupada por falta de notícias nossas, mas peguei no sono tão logo larguei o corpo na esteira.

Sinhazinha

Antes de o sol nascer, a Esméria me acordou e fomos até a praia, para que eu me lavasse. Ela disse que um bom banho devia ser tomado em água doce, mas no momento o mar mesmo servia. Àquela hora da madrugada, já eram muitos os pretos que estavam acordados, alguns também tomando banho de mar, outros já trabalhando, circulando entre a praia, a casa-grande, as plantações e as senzalas, homens e mulheres carregando imensos balaios equilibrados sobre as cabeças ou amarrados às costas. Muito mais homens que mulheres, e até aquele momento eu não tinha visto nenhuma criança.

Depois do banho, a Esméria me deu roupas melhores do que o pano que eu usava amarrado ao pescoço desde o desembarque, mas ainda longe de serem iguais às das mulheres que eu tinha visto no atracadouro. Eram roupas simples, uma bata e uma saia comprida até o tornozelo, brancas. Os pretos da senzala grande usavam roupas quase iguais, mas feitas de outro tipo de tecido, mais grosso e com listras brancas e azuis. A Esméria disse que as minhas não eram roupas novas e nem para crianças do meu tamanho, mas estavam bem conservadas e que depois perguntaria à sinhá se precisava providenciar outras, já que eu ia ficar dentro da casa, onde os pretos não deviam fazer má figura.

Ela também disse que eu estava bonita e que não falaria mais comigo em iorubá, pois eu precisava aprender logo o português. Alertou novamente que nunca, nunca mesmo, eu poderia falar iorubá ou eve-fon perto do sinhô, da sinhá, da sinhazinha ou do Eufrásio, pois seria castigada. Não me pareceu difícil, pois eu achava a língua bonita e já entendia muitas palavras, faltando apenas aprender a pronunciá-las direito.

Na cozinha a movimentação já era grande, e a Esméria mal teve tempo de comer o mingau que a Antônia tinha preparado para todos nós. O dia na casa começava cedo, pois quando o sinhô José Carlos acordava, com os galos, a mesa do desjejum já devia estar posta. A Esméria parecia nervosa com o meu primeiro dia na casa, e eu também, desejando nunca ter deixado Savalu, que não era tão bonita quanto a Ilha dos Frades ou a Ilha de Itaparica, mas era onde eu tinha nascido e conhecia muita gente, onde tinha a minha mãe, a minha avó, a Taiwo e o Kokumo, e não ficava preocupada em saber se as pessoas iam gostar de mim ou não, porque já gostavam. A manhã já ia pelo meio quando a Antônia apareceu para me chamar; demos a volta por fora da casa e fomos até a varanda para encontrar a sinhá e a sinhazinha.

A sinhá estava sentada em uma cadeira de balanço e nem levantou os olhos do bordado que tinha no colo. A sinhazinha Maria Clara, em meio a almofadas e bonecas, brincava sobre uma esteira feita de panos coloridos. As bonecas dela tinham rostos com olhos, boca e nariz, e cabelos e roupas de verdade, parecendo gente, muito diferentes das que a minha avó fazia para mim e para a Taiwo. Quando chegamos perto e a Antônia disse o meu nome, ela levantou o rosto e era a pessoa mais bonita que eu já tinha visto, e ao mesmo tempo não parecia ser real.

Era como uma de suas bonecas, uma boneca viva. Na verdade, eu não só a achei bonita, mas também senti medo ou um certo estranhamento quando percebi os olhos, que me pareceram de vidro ou de água do mar, pois nunca tinha visto gente com olhos daquela cor. Os do sinhô também eram azuis, como notei mais tarde,

mas de um azul mais escuro, que não chamava atenção.

Além dos olhos azuis, ela tinha o rosto muito branco, a boca pequena e cor-de-rosa e os cabelos da cor de cabelo de milho.

Estava usando um vestido também azul, do mesmo tom dos olhos ou do mar, e que se espalhava feito água ao redor dela. A sinhazinha me olhou com certo interesse, mas não retribuiu meu sorriso, provavelmente tinha me achado menos interessante e muito mais feia que os outros brinquedos, porque foi isso que a Esméria disse que eu seria para ela, um brinquedo, e era como tal que eu deveria agir, ficar quieta e esperar que ela quisesse brincar comigo, do que ela quisesse.

E apenas esperar, foi o que fiz durante todo o resto da manhã. Esperar que alguma coisa acontecesse que não fosse a sinhá Ana Felipa gritando de tempos em tempos para dentro de casa e logo sendo atendida pelo Sebastião ou pela Antônia, ou pelos dois juntos.

Fazendo de conta que eu não estava ali, a sinhazinha ficou trocando as roupas e penteando os cabelos das bonecas. Mas eu até gostei que ela me ignorasse, porque assim pude continuar maravilhada, sem tirar os olhos dela e, principalmente, das bonecas. Muito de vez em quando ela me olhava com o canto do olho, para logo depois se esquecer de mim novamente, em um alheamento que me fazia compará-la ainda mais às bonecas.

Quando o sinhô apareceu na varanda e se sentou ao lado da sinhá por alguns instantes, os dois também permanecendo em silêncio, e o Sebastião chamou para o almoço, eu fiquei lá, como a Esméria tinha dito, como brinquedo obediente, parada, morrendo de vontade de ver de perto as bonecas da sinhazinha. Foi difícil me conter, mas fiquei com medo de que tivessem colocado alguém para me vigiar, até que a Esméria me chamou

para comer também. Com os pratos nas mãos, nos sentamos à porta da cozinha, onde ela me mostrava alguns objetos, dizia os nomes deles em português e pedia que eu repetisse.

Entre outras coisas, naquele dia aprendi que existem talheres, e que eu deveria usá-los para comer, que não podia mais comer com as mãos, o que era proibido pela sinhá aos escravos que trabalhavam na casa-grande.

Depois do almoço, os senhores foram se deitar um pouco e eu fui para o lugar onde estivera durante a manhã, como se não tivesse saído de lá. A sinhá e a sinhazinha voltaram para a varanda com a fresca da tarde e, de novo, agiram como se eu não existisse. A sinhá entretida com um livro e a sinhazinha, com as bonecas. E foi assim durante quatro ou cinco dias, enquanto à noite, e até que fosse necessário, as pretas da casa me ensinavam português, como também o Tico e o Hilário, com quem eu brincava de vez em quando. Eu já entendia quase tudo o que falavam e não foi muito difícil começar a falar também. Não tive a menor dificuldade em me comunicar com a sinhazinha quando ela finalmente conversou comigo, mostrando uma boneca e dois vestidos, um amarelo e outro branco, e perguntando qual deles eu preferia.

Eu apontei o amarelo, mas foi o branco que ela colocou.

Na mesma tarde, ela estava sentada no degrau mais baixo da escada que levava da varanda ao jardim, com a Antônia no degrau de cima, às suas costas, penteando os cabelos cor de milho. Eu apenas olhava quando ela me chamou, tirou o pente das mãos da Antônia e colocou nas minhas, pedindo que eu continuasse o trabalho da outra. Primeiro, tive medo de tocar os cabelos dela, de machucá-la com o pente, mas logo gostei da suavidade que tinha entre as mãos. Primeiro passei os dedos, sentindo os fios deslizarem entre eles como as franjas de um lenço que a Sanja, a filha da Titilayo, tinha ganhado

de um marinheiro com quem se deitara.

Acho que ficamos ali durante horas, eu mexendo no cabelo dela e nós duas olhando o mar do jardim, além da areia branca. A partir daquele dia, só eu escovava os cabelos da sinhazinha, sempre inventando um jeito diferente de prendê-los, com fitas, grampos ou em tranças, que ela tentava repetir nas bonecas. Foi por isso que tive permissão para pegar nelas, porque a sinhazinha Maria Clara não conseguiu copiar um penteado com tranças e pediu que eu o fizesse.

Os cabelos das bonecas eram quase tão macios quanto os dela, e ficávamos o dia inteiro naquilo, fazendo penteados e trocando as roupas para combinar, a sinhazinha sempre pedindo a minha opinião. Opinião que ela não aceitava, logo percebi, e passei a dizer o contrário do que realmente achava para que, ao me contrariar, ela fizesse o meu verdadeiro gosto.

A sinhá parou de aparecer na varanda e a Esméria disse que ela estava pejada, de resguardo. Contou que ela já tinha ficado assim várias vezes, mas nunca segurava criança. Quase todas morreram antes mesmo de se notar a barriga, mas duas chegaram a nascer antes do tempo e morreram logo em seguida. Em uma dessas vezes a sinhá quase morreu também, sendo salva por milagre.

Foi um rebuliço na fazenda toda, com o sinhô descontando em maldade nos pretos o medo que ele tinha de perder a segunda mulher, como tinha acontecido com a primeira.

Comentei que deviam dizer a ela que essas crianças podiam ser abikus, mas fui repreendida pela Esméria e avisada de que nunca deveria tocar nesse assunto. Ela disse também que, mesmo não sendo de verdade, todos nós tínhamos que adotar a religião e as crenças dos brancos, e que era falha dela ainda não ter me ensinado a rezar. Naquele dia mesmo, fez com que eu repetisse

Continuar: parte 2 de 3