Um Defeito de Cor
Capítulo seis
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Eu nem pensei no Francisco quando nos deitamos, uma única vez, mas que durou várias horas, até quando lembrei que a Esméria poderia estar preocupada com a minha demora. O Alberto queria ficar até o sol nascer como da outra vez, mas eu não podia. Também tinha muitas coisas para contar a ele, mas resolvi deixar para um próximo encontro, com mais calma. Quando voltei e abri a porta do quarto, a Esméria parecia estar
dormindo, mas ergueu a cabeça e disse uma única frase, que foi “Você está pejada".
Capítulo seis
A sola do pé conhece toda a sujeira da estrada.
Provérbio africano
A mudança
O Alberto não tinha ido nos buscar, mas foi fácil fazer a mudança das poucas coisas que possuíamos. Quando chegamos à roça, ele estava um tanto atrapalhado, sem saber direito o que fazer ou o que dizer ao casal de pretos que nos esperava. Com certeza eles não estavam entendendo quem éramos e o que fazíamos ali, uma velha senhora e uma moça com um menino, muito diferentes da imagem que poderiam ter feito da nova sinhá, como o Alberto tinha dito a eles. Ficaram parados, um de cada lado da porta, sem saber se nos ajudavam com a bagagem que os carregadores tinham abandonado no portão ou se esperavam a chegada de mais alguém que correspondesse às expectativas. Até que o Alberto tomou a iniciativa e nos apresentou como dona Kehinde, Banjokô e dona Esméria, ao que eles responderam com um aceno de cabeça, surpresos e embaraçados, dizendo em seguida os próprios nomes, João Badu e Zolá. Formavam um simpático casal e eram de fato marido e mulher, os únicos a cuidar da imensa propriedade.
Era um sítio no distante burgo da Barra, e por isso o Alberto alugava o cômodo no Campo Grande, próximo à casa de ferragens. Apesar de malcuidado, o lugar era maravilhoso. A casa principal ficava no alto de um morro e tinha vista para o mar de dentro, a Baía de Todos os Santos, e para o mar de fora, que também banha a costa da África. A área era demarcada com cerca de arame, nada de muros e nenhuma outra propriedade por perto,
apenas a mata natural e imensas mangueiras por toda a parte alta do terreno. Eu estava empolgada, imaginando o que poderia ser feito para que o lugar se tornasse realmente encantador. O Alberto tinha comprado a área sem conhecer, quando ainda estava em São Sebastião do Rio de Janeiro esperando um navio para a Bahia.
Em uma festa, conheceu um senhor que falou maravilhas do lugar, do qual dizia estar se desfazendo por motivos de necessidade e por um valor que não pagava nem o terreno. De fato tinha sido muito barato, cinco contos de réis, o valor de um sobrado de tamanho médio na cidade, ou de dez bons escravos. A casa já tinha passado por algumas reformas para torná-la habitável e, aos poucos, o Alberto queria arrumar todo o resto, que em tempos remotos devia ter sido um sítio muito aprazível.
Para mim, que já estava acostumada ao pouco espaço na loja, aquele lugar pareceu o próprio paraíso, pensamento compartilhado pela Esméria. Quanto ao Banjokô, ele estava simplesmente maravilhado com os bichos que andavam soltos pelo terreno. O Alberto não demonstrava a mesma euforia que nós, e tive medo de que ele estivesse se arrependido do convite, feito e aceito por impulso.
Tínhamos nos encontrado novamente na noite posterior ao acontecimento no solar, quando contei quase tudo a ele, que ficou me olhando com um jeito de quem parecia não estar acreditando naquela história, como eu também não acreditaria se não a tivesse vivido. No final, ele apenas me abraçou! disse que gostava de mim.
Perguntei se aquele gostar suportaria outra surpresa e e ele respondeu que talvez sim, mas que teria que saber primeiro do que se tratava. Então eu disse que também gostava dele e que estava pejada. Somente depois de ter falado e visto a expressão dele mudar de espanto para felicidade, foi que pensei que o filho também poderia ser do Francisco.
Eu não sentia nada, as regras ainda não tinham atrasado, mas depois do comentário da Esméria tive certeza de que estava mesmo pejada, só não sabia desde quando. Poderia muito bem ser de quase três semanas, quando tínhamos nos deitado pela primeira vez, como poderia ser do dia anterior, quando, além dele,eu também tinha me deitado com o Francisco. Mas o Alberto não questionou nada, nem o tempo nem a possibilidade de não ser o pai do meu filho, por isso que percebi o quanto poderia vir a gostar daquele homem.
Tínhamos nos encontrado no Terreiro de Jesus e contei tudo assim que chegamos ao Campo Grande. Depois de saber sobre a criança e de beijar muito a minha barriga e se exaltar na comemoração, com o risco de chamar a atenção da senhora Isaura, foi que "fizemos amor", como ele gostava de dizer. Estávamos descansando um nos braços do outro, e, como quem pensa em voz alta, ele perguntou se eu gostaria de morar com ele. Também respondi sem ponderar muito, dizendo que sim. Não que estivéssemos tratando o assunto com desimportância, mas sim com a mesma naturalidade com que ficávamos juntos.
Gostei mais ainda quando ele disse que estaria me esperando já no dia seguinte, com todas as minhas coisas. Ao voltar para casa, mal consegui dormir, e quando percebi que a Esméria e o Banjokô começaram a se mexer ao meu lado, disse a eles que nos mudaríamos para uma nova casa naquele exato momento. Pegamos as nossas coisas, nos despedimos de todos que estavam na loja e recomendamos lembranças aos que não estavam. Forneci ao alufá Ali a nova morada e chamamos dois carregadores e duas cadeirinhas.
O sítio
A casa principal era bastante simples, mas assoalhada e quase toda forrada, pintada de nova em azul. Parecia um
grande caixote, dividido por dentro em duas salas, quatro quartos, despensa e cozinha com um enorme fogão, onde eu poderia tranqüilamente continuar fazendo os cookies. Era avarandada na parte da frente e nos fundos, com vista para o mar. O chão das varandas era ladrilhado e as paredes eram cobertas de azulejos, o que fazia com que estivessem sempre frescas.
Além das mangueiras, na frente da casa ainda havia um pequeno jardim, e, nos fundos, alguns canteiros de hortaliças sem os cuidados necessários. Uma das laterais dava para um imenso arvoredo com mais de cinqüenta coqueiros e muitas outras mangueiras, uma fonte de água boa para beber [uma casa de banhos com bica natural. O outro lado era ocupado por vasto terreno e pela casa onde moravam o João Badu e a Zolá, de três quartos, sendo que dois não estavam ocupados. Atrás dessa casa ficavam uma cocheira e uma estrebaria com três cavalos, além de um cercado com alguns porcos, e mais uma vaca e muitas galinhas andando à solta. Essas galinhas, para gozo do Banjokô, nos cercavam com grande estardalhaço e curiosidade.
Por dentro, a casa era de um despojamento ainda maior, nada pendurado nas paredes e nada cobrindo o chão, e espaços imensos preenchidos apenas com cadeiras e canapés, sendo que em uma das salas ainda havia uma mesa quadrada, pequena, para, no máximo, quatro pessoas. A cozinha era equipada com o básico, alguns copos e canecas, poucos talheres, uma vasilha de esquentar água e nenhuma panela. Quando estava em casa, o Alberto recebia as refeições prontas, que a Zolá preparava na casa dela. Apenas um dos quartos tinha uma cama com dossel, das grandes, uma cômoda, um baú e um armário que ocupava uma das paredes de fora a fora. O mesmo tipo de armário eu vi repetido nos outros três quartos, que não tinham mais nada além disso. Acho que o Alberto não tinha pensado direito no que implicava levar três pessoas para dentro de casa, e
não estava preparado para nos receber.
Na primeira noite, eu, a Esméria e o Banjokô dormimos na cama dele, que teve que se contentar com o canapé da sala. No dia seguinte, bem cedo, mesmo temendo encontrar a sinhá pelas ruas, fui às compras sozinha, antes de o Alberto dizer que, por causa de compromissos na loja de ferragens, não poderia me acompanhar. Ele me ofereceu algum dinheiro que, a princípio, não quis aceitar, dizendo que não precisava e que eu tinha o meu, mas depois acabei cedendo. Como ele mesmo tinha dito, seria um enorme favor que faria ao mobiliar e equipar a casa, coisas que ele sentia necessidade de fazer, mas nunca tinha criado coragem por morar sozinho.
Para dizer a verdade, também gostei, porque achava necessário ter algum dinheiro guardado, principalmente porque a responsabilidade pela criação do Banjokô estava toda em minhas mãos, como também a da criança que estava esperando. Sabia que se houvesse qualquer desentendimento com o Alberto, dificilmente poderia continuar contando com ele. Comprei o necessário para a casa funcionar, mas não encontrei móveis de que gostasse. Ou eram elegantes demais, o que não combinava com a casa, ou simples demais, e não me contentavam. Já que eu vou montar uma casa onde seria a sinhá, como o Alberto tinha dito, queria fazer do meu jeito.
Procurei o Sebastião na loja para onde tinha ido com os meninos, dei a nossa morada e pedi que me indicasse um carpinteiro da loja mantida pela confraria dele. Para minha surpresa e alegria, ele mesmo aceitou o trabalho, e se fez ajudar por dois colegas. Três dias depois eles apareceram para conhecer o local, ver o que era necessário fazer, tirar as medidas e pegar um adiantamento para a compra do material. Pena que o Alberto não estivesse em casa, pois eu estava ansiosa para apresentá-lo ao Sebastião, que não cabia em si de
tanta alegria por todos nós e nossas novas vidas.
O Banjokô andava atrás do João Badu como se não houvesse pessoa mais importante e mais sábia no mundo. Os dois tinham um grande amor pelos bichos, e o menino não se cansava de fazer perguntas, que o preto respondia comprazer. A maior paixão do meu filho eram cavalos, nos quais ele montava e era puxado pelo João Badu por todos os cantos do sítio. Isso nos deixava, as mulheres, livres para uma boa limpeza na casa e nos arredores, de onde arrancamos todo o mato e preparamos a terra para receber um belo jardim e canteiros de hortaliças e legumes. Frutas já tínhamos mais do que o suficiente, em um farto pomar que ficava além da estrebaria, onde o terreno começava a descer na direção do mar, sem, contudo, alcançá-lo, terminando em um despenhadeiro bastante íngreme. Quando vi aquilo, fiquei com o coração apertado de apreensão pelo Banjokô, que, curioso como era, bem poderia cair dali ao admirar o mar de que tanto gostava. Foi por onde pedi que o Sebastião começasse a trabalhar, fazendo um cercado que não atrapalhasse a vista e impedisse o Banjokô de se aproximar do perigo.
O João Badu e a Zolá, que a princípio ficaram reservados em relação à nossa presença, ao fim de três ou quatro dias pareciam crianças, de tão felizes com aquela movimentação. Eles gostavam muito da propriedade e tinham trabalhado para o antigo dono, que sempre demonstrou grande descaso pelo lugar, e por isso sempre tinham vivido isolados, cuidando da casa, tendo que fazer para o próprio sustento. Quando perceberam que tudo ia mudar, que pretendíamos morar lá e cuidar muito bem do sítio, rejuvenesceram todos os anos perdidos no abandono. O Alberto ia para a cidade a cavalo e voltava para casa todas as noites, dizendo que não estava mais arrependido de ter posto dinheiro naquele fim de mundo, que, afinal, tomava jeito de lar.
Ele se preocupava apenas com a minha saúde, dizendo para eu não trabalhar muito, por causa da criança que estava esperando. Eu, que durante o dia nem tinha tempo de me lembrar do meu estado, ficava mortificada de preocupação quando ele falava no filho. E se fosse do Francisco? Havia uma grande possibilidade de ser do Alberto, mas eu não queria nem imaginar a reação dele se nascesse uma criança tão preta quanto eu ou o Francisco, sendo que o Banjokô, um filho de branco, poderia ser usado para comparação. Desde a mudança para a loja, e principalmente com os problemas dos últimos dias, eu tinha sido negligente em tomar a beberagem da Esméria, mesmo porque mal via o Francisco e não me deitava com nenhum outro homem.
Tinha vontade de falar sobre isso com a Esméria, mas não tinha coragem, pois não queria preocupá-la quando ela finalmente parecia ter encontrado alguma felicidade na vida.
Por causa disso, eu também estava evitando conversar com ela sobre os acontecimentos que resultaram na minha liberdade e na do Banjokô. A Esméria gostava do Alberto e tinha voltado a falar da estrela que sempre me acompanhava, sem ter idéia da dúvida que me aterrorizava. Ela sabia da alegria do Alberto com aquela criança que estava se formando, e com certeza ia me negar o chá que poderia causar a perda. Era o que eu pensava, pois ainda não conseguia imaginar o tamanho do amor que aquela mulher sentia por mim.
Tirei um dia para ir à cidade comprar os ingredientes e os utensílios de que precisava para fazer os cookies, e mais um dia para prepará-los, ajudada pela Esméria e pela Zolá. Para que eu não fizesse esforço, o Alberto se encarregou de entregá-los na loja do Sebastião, para que o Tico ou o Hilário levassem para o senhor Rui Pereira.
Mesmo sendo vizinho do mercado, o Alberto disse que não entregaria pessoalmente para que minha farsa de ter uma sinhá não fosse descoberta. Fingi acreditar, mas sabia que, no fundo, ele tinha vergonha de assumir que estávamos morando juntos. Afinal de contas, as pretas serviam para que os brancos satisfizessem os desejos carnais, como a Claudina e a Adeola tinham dito, e raramente eram boas o bastante para chegarem a esposas.
Podia até ser que ele não pensasse assim, mas estava claro que não queria enfrentar quem pensava, e para isso foi providencial morar naquele sítio afastado, sem vizinhos especulando a nossa vida ou fazendo comentários maldosos. Quando entendi isso fiquei com muita raiva dele, mas depois percebi que eu também tinha uma atitude parecida, não querendo contar à Claudina que estava morando de portas adentro com um branco. Ela só conseguia ver os brancos como diversão e gostava muito de se deitar com eles, deixar que eles ficassem com vontade de se encontrar com ela mais vezes e se negar a isso por pura diversão. Dizia que era uma verdadeira satisfação ver a cara de espanto que eles faziam ao serem recusados por uma preta. Eu ficava imaginando se a Claudina pensaria que era fraqueza ou traição da minha parte estar envolvida com Alberto.
Moradas
O Sebastião e seus ajudantes, o nagô Felipe e o crioulo Rafiki, os dois libertos, apareceram carregados de material e de ferramentas de trabalho. Além de saber o ofício de marceneiro, o Rafiki também era pedreiro, e eles ficaram contentes ao ver que teriam muito mais trabalho do que imaginavam. Como seria bastante cansativo voltar para suas moradas todos os dias, eles se alojaram na casa da Zolá e do João Badu, acertando comigo um pagamento semanal para fazerem todo o serviço de que o sítio precisava. Conversei com o Alberto sobre o que eu pretendia, pois, afinal de contas, a casa e o dinheiro eram dele, já que eu tinha decidido não usar meu dinheiro em nada que não pudesse carregar dali se
algum dia tivesse que ir embora, e ele aprovou todas as minhas idéias.
Aproveitando um dia em que tive que ir à cidade, entreguei dois contos nas mãos da Esmeralda, na confraria, dizendo que era um empréstimo a dividendos apurados no fim de um ano. Eu seguia um conselho do Fatumbi, a quem consultei sobre o que fazer com o que tinha sobrado da venda do ouro e das pedras preciosas encontrados na Oxum. Aliás, meu compromisso com a Oxum, este sim pago com meu dinheiro, foi o segundo trabalho encomendado ao Sebastião. Quando estava desesperada por ajuda, tinha prometido um quarto de orações só para ela, que mandei construir em tijolo e telha na parte baixa do terreno, perto do mar.
Um lugar pequeno, bonito e cheio de luxos para satisfazer a vaidade de Oxum, onde montei um altar para a imagem, que o Sebastião conseguiu colar e deixar como nova. Consultei o Babalaô Gumfiditimi para saber o que mais deveria fazer para agradecer a ela, e ele disse que a casa de orações tinha que ser pintada de amarelo-ouro, pelo menos por dentro, e que seria melhor se tivesse sido construída ao lado de um rio ou de uma cachoeira, lugares regidos por Oxum. Mas eu poderia compensar isso mantendo sempre uma tina com água doce e fresca e alguns presentes de que ela gostava, como buquês, búzios, espelhos, pentes de casco de tartaruga e conchas de rio e de mar.
Se possível, alguma jóia também. Oxum é vaidosa, deusa da prosperidade e da riqueza, e o Babalaô Gumfiditimi também me aconselhou a plantar dentro da casa um pé de fortuna e outro de dinheirinho-em-penca, e sempre manter uma vasilha com folhas de laranjeira e de manjericão. E flores, muitas flores amarelas. Eu também deveria usar no pescoço um colar de contas de vidro amarelas e, nos braços, jóias de ouro e de bronze. Ele ficou encarregado de fazer um ebó e oferecer a ela em
uma praia de rio, com muita canjica, farinha de milho, mel, azeite doce, frutas, pudins, um prato com peixe, e um pombo branco e um casal de marrecos.
Esta oferenda, com possíveis pequenas mudanças e a depender do caso, eu deveria repetir sempre que quisesse agradecer alguma coisa, pedir ajuda para prosperidade dos negócios e no dia dedicado a ela, oito de dezembro. A saudação a Oxum é Oré Yeyéo, "cha a benevolência da mãe", que eu deveria repetir sempre que quisesse ou sentisse a presença dela. E antes que eu perguntasse, o Baba Ogumfiditimi disse para não me preocupar com o filho que estava esperando, que o destino já tinha se encarregado de ajeitar as coisas. Para completar, também batizei de Águas de Oxum a fonte de água que tínhamos no terreno, embora este fosse um segredo meu e da Esméria, pois não sabia como o Alberto reagiria a tais crenças. Por sugestão do Alberto, o sítio também foi batizado e ganhou uma placa de madeira logo na entrada, Sítio do Bem Viver. O nome era bastante apropriado; afinal, vivíamos cada vez melhor e comemorávamos cada novidade e cada móvel feito com muito capricho pelo Sebastião, o Felipe e o Rafiki.Cada vez que eu ia à cidade, comprava pratos, copos, panelas, talheres e enfeites que espalhava pela casa com verdadeiro prazer. Até mesmo o Alberto já estava acostumado às constantes novidades, e sempre chegava do trabalho percebendo algo que não estava lá quando tinha saído de casa.
Comprei
também
fazendas
e
aviamentos
e
confeccionamos almofadas, forros, cortinas, lençóis, para alegria da Esméria, que adorava aquele tipo de trabalho. O Tico e o Hilário foram pegar as encomendas e levaram brinquedos e roupas para o Banjokô, que a sinhá tinha mandado o Raimundo deixar com eles. Contaram que o Raimundo tinha feito muitas perguntas, mas eles disseram que não sabiam o meu paradeiro, que precisavam perguntar ao Sebastião e, se eu permitisse,
diriam.
O Raimundo comentou que já estavam de partida, que dentro de poucos dias tomariam o navio para a corte, e que a sinhá tinha mandado entregar todas aquelas coisas porque não queria se desfazer delas e sabia que o Banjokô estaria sentindo falta. De fato, ele fez a maior festa e perguntou pela yd mie de quem só tinha falado nos três ou quatro dias depois da mudança. Quando viu os brinquedos, saiu da casa chamando por ela e ficou decepcionado quando não viu a liteira parada na porta.
Fiquei pensando se não seria bom levá-lo para se despedir dela, mas a Esméria achou melhor não, pois as crianças esquecem depressa e o Banjokô estava se comportando muito bem.
Segredos
Aproveitei a conversa sobre a sinhá e contei tudo à Esméria, desde a primeira visita ao Babalaô Gumfiditimi, quando ele tinha mandado me chamar, até a ida para a loja com o Banjokô. Ela comentou que já desconfiava de muitas coisas, pois naqueles dias eu andava pensativa e irritada, cheia de segredos, como se a qualquer momento pudesse ser contrariada em algo muito importante. Mas o que eu não imaginava que ela fosse entender, mesmo porque não entrei em detalhes, foi até onde tinha ido a despedida do Francisco. No dia seguinte, ela disse que queria ir até a cidade se despedir da Antônia e da Maria das Graças.
Então, pedi que o Sebastião fosse junto, pois ela não conhecia o caminho. Eles voltaram para o sítio cheios de mais presentes, para mim e para o Banjokô, e disseram que as duas estavam muito animadas com a viagem.
Principalmente a Antônia, diante da oportunidade de reencontrar a filha, que tinha se mudado para a corte logo após a Independência. A Antônia tinha andado no rastro da moça quando da viagem com a sinhá, mas não
teve tempo para conseguir informações precisas, e estava um pouco magoada com o desaparecimento dela, que, quando foi libertada, ainda na fazenda jurou que ganharia dinheiro e voltaria para comprar a mãe. Eu me lembro da cena, da felicidade da Antônia em proporcionar a liberdade à filha e do abraço que presenciei na despedida das duas, no quintal. Logo depois disso, e durante algum tempo, a filha ainda mandou notícias quando estava em São Salvador, mas depois da mudança, nunca mais, e a Antônia estava decidida a descobrir o motivo.
A Esméria disse que a sinhá não falou com ela, apesar de ter ficado na sala o tempo todo que durou a conversa na cozinha, provavelmente para tentar ouvir alguma notícia do meu paradeiro com o Banjokô. Quando foi levá-la ao portão, a Antônia estava curiosa para saber o que tinha acontecido, pois, ao voltar da rua naquele dia, ela e a Maria das Graças encontraram a sinhá e o padre Notório trancados no quarto, e o Raimundo sozinho no quintal, sabendo ainda menos do que elas, pois tinha saído antes. Quando o padre foi embora, a sinhá desceu e disse que estava indisposta para jantar e ia se recolher, não dando mais nenhuma explicação. A única informação chegada até elas foi por intermédio do Raimundo, que, a mando da sinhá, andou vários dias à procura do Tico e do Hilário, que foram encontrados no cais, em um dia de embarque para o Recôncavo. Foi quando os meninos receberam os pacotes enviados pela sinhá e só disseram ao Raimundo que eles, eu, o Banjokô e o Francisco tínhamos conseguido as nossas cartas, sem maiores explicações. A Esméria também não contou muita coisa, alegando que ainda não tinha tido tempo de conversar comigo direito, mas que estávamos morando juntas.
A Antônia comentou que a sinhá andava muito triste, sentindo falta do menino, que entrava no quarto dele e ficava lá durante várias horas, tendo no colo um
cavalinho de madeira de que ele tanto gostava, e só se animou com a proximidade da mudança, pois pelo menos, tinha menos tempo para se entregar às tristezas, pois eram muitas as providências a tomar. Alguns móveis seriam embarcados para a corte, e ela não venderia o solar, pois não sabia se iria querer morar para sempre e São Sebastião.
A Esméria estava me contando tudo isso no dia seguinte à visita, enquanto bordávamos uns panos de almofadas, e foi quando comecei a passar mal. Ela disse que devia ser cansaço e me mandou para a cama, e mais tarde me levou um chá. A última coisa de que me lembro foi de pedir que fosse atrás do Banjokô, que estava andando pelo sítio com o João Badu. Não sei quanto tempo depois acordei, com ela e o Alberto sentados ao lado da cama, querendo saber como eu estava me sentindo. Uma dor muito forte me fez dobrar o corpo a meio e levar a mão à barriga, sentindo depois uma umidade entre as pernas.
O Alberto me olhava desolado, segurando um pano úmido na minha testa, dizendo que o pior já tinha passado. Primeiro, não entendi o que ele quis dizer com pior, mas depois percebi que, se já não tinha perdido meu filho, estava em vias de perder. Perguntei o que estava acontecendo e a Esméria confirmou que a criança não quis se criar, mas haveria outras, e que eu não tinha tido culpa de nada, que o Alberto sabia disso e entendia a fatalidade. Ela falou olhando para ele, como se estivesse esperando uma confirmação, o que ele não falou. Disse apenas que depois conversaríamos e que o importante no momento era eu descansar, pois a febre já estava cedendo. O Alberto saiu do quarto visivelmente contrariado, e quando falei que queria me levantar para conversar com ele, a Esméria disse que ela mesma cuidaria disso, que eu deveria tomar mais um pouco de chá e dormir de novo, para não sentir as dores.
Foram dores parecidas com as que senti quando tive o Banjokô, logo que o trabalho de parto começou. Queria conversar com a Esméria sobre o que tinha acontecido, porque desconfiei que ela sabia muito mais do que tinha dito na presença do Alberto, mas estava confusa, os pensamentos embaralhando como se eu tivesse bebido muita cachaça. Sentia o estômago embrulhando, e foi com alívio que percebi que o chá estava fazendo efeito e eu não conseguia mais manter os olhos abertos.
Amanheci melhor, mas a Esméria não me deixou levantar. Fiquei de pé apenas o tempo suficiente para ela trocar a roupa de cama e me dar um banho de bacia, no quarto mesmo.
Depois, levou para mim uma canja de galinha, que tomei com o Banjokô sentado ao meu lado, na cama, e disse que eu precisava dormir mais um pouco, e que, para ajudar, tinha posto um pouco de remédio no meu prato.
Foi então que, antes de cair novamente no sono, entendi o que ela tinha feito, pois na ida à cidade ela teve acesso a algumas ervas que a Antônia conhecia muito bem e sabia onde encontrar. A Esméria tinha feito a escolha por mim, e sabia que, ao contar que tinha me dado ervas para dormir, eu saberia de todo o resto, sem que precisássemos comentar. Só não sabia o que sentir em relação àquilo, e foi bom ser mantida com sono pelos dias que se seguiram, principalmente porque percebi que o Alberto não estava voltando para dormir em casa.
Quando perguntei, a Esméria disse que ele tinha avisado sobre muito trabalho na cidade, com a chegada de novas mercadorias. Para me despreocupar, ela também tinha feito os cookies da encomenda do senhor Rui Pereira, que o Tico e o Hilário entregaram.
Quando o Alberto voltou a dormir em casa, parei de sentir tanto sono. Conversamos um pouco sobre o acontecido, mas ele disse que estava tudo bem, que tinha ficado triste e até mesmo bravo comigo, achando que eu não tinha me cuidado direito, mas já tinha passado. Eu e a Esméria só tocamos no assunto muitos anos depois, quando eu estava de viagem para o Maranhão e ela disse que o filho era mesmo do Francisco. Não pensei muito sobre isso na época, pois era comum que as crianças morressem no ventre da mãe e mesmo logo ao nascer, e a que eu estava esperando foi apenas mais uma. Seria diferente se eu a tivesse sentido, como no caso do Banjokô, mas eu nem sequer tinha barriga, o que tornou as coisas muito mais fáceis.
E ainda havia a dúvida sobre quem era o pai, e não sei o que o Alberto teria feito se o menino fosse mesmo do Francisco, como a Esméria garantiu. Seria ruim para mim também, não vou mentir, porque estava tentando me acertar com o Alberto, o que não teria sido possível com o nascimento do filho de outro homem. Quando penso no fim que teve essa criança, é sem culpas ou arrependimentos, uma ponte entre os acontecimentos que vieram antes e depois.
Negócios
Eram muitas as novidades no sítio no dia em que finalmente pude sair da cama para ficar à frente de tudo.
A maioria dos móveis já estava pronta e a Esméria apareceu com uma grande surpresa. Quando estava arrumando o próprio quarto, pela primeira vez na vida um espaço só dela, encontrou algo guardado havia muitos anos, o vestido presenteado pela sinhazinha, que ela escondeu quando fui mandada para a senzala grande. Estava amarelado e comido por traças em alguns pontos, mas ainda dava para ver os bordados com as minúsculas borboletas, as várias camadas de saias e muitas outras lembranças.
É interessante como algumas coisas aparecem na vida da gente na hora em que mais precisamos, e aquele vestido me remeteu à promessa que eu tinha feito quando o vi, de um dia ainda ter muito dinheiro para andar vestida como as sinhás. Eu já tinha bastante, mas não o suficiente para gastar com roupas luxuosas e coisas assim, e preferia guardar para garantir o futuro do Banjokô, mas achei que precisava dar um jeito de ganhar muito mais. Pensei bastante por alguns dias antes de conversar com o Alberto, e ele aprovou a minha idéia de montar uma padaria, o que facilitaria a fabricação dos cookies e abriria a possibilidade de ganhar dinheiro com outros produtos. A capital era mal servida, e uma das coisas de que as sinhás reclamavam era da qualidade do pão e das quitandas que compravam, feitos com farinha pesada e suja, e não coma farinha do reino, que deixava os quitutes mais leves e saborosos. Havia também muitas reclamações em relação ao fermento, de gosto forte, que estragava o sabor dos outros ingredientes.
Havia alguns estabelecimentos na cidade, que percorri adquirindo amostras e prestando atenção para ver quais produtos tinham mais saída. Ofereciam de tudo, pães, doces, biscoitos, bolos e, em alguns casos, refeições prontas, que faziam muito sucesso entre os inúmeros homens sozinhos que viviam na cidade, particularmente um caldo de pata de carneiro ou de boi chamado mocotó. As padarias pertenciam quase todas a portugueses que, inclusive, vendiam pão de trigo importado do reino, que chegava a São Salvador bastante velho e duro. Assim como as lojas de importados do tipo da loja do senhor Rui Pereira, as padarias mais bem localizadas também tinham em suas prateleiras mercadorias do reino que os patrícios não dispensavam, como azeite, vinho, vinagre, azeitona, queijo, bacalhau salgado e conservas, e estavam quase todas concentradas na mesma região, nos arredores da Rua de Baixo e do Beco do Mocambinho, e atraíram a instalação de pastelarias, restaurantes, hospedarias, albergues e cafés, o que facilitava a vida dos viajantes.
De manhã serviam o desjejum sortido. Durante o resto do dia e à noite, diversos petiscos para consumo no local ou para viagem, como fiambres, caldos, rosbifes,
pastelões e massas.
Além das padarias, visitei os conventos onde se fabricavam doces com fama até no estrangeiro. A Esméria e o Banjokô se fartaram com as delícias que eu levava para casa, compradas sempre a mando da sinhá inventada, para que as freiras caprichassem na escolha dos mais gostosos e enfeitados. Os doces tinham nomes engraçados, como cônega, bernardina, toucinho do céu, papo-de-anjo, barriga de abadessa e suspiro de monja.
Esses eram os doces secos, mas também havia os de calda, feitos com frutas da terra, como araçá, laranja, caju, jenipapo, limão, cidra, banana, abacaxi, manga, mangaba e muitas outras. Tenho saudade dessas frutas, e até tentei plantar diversas mudas enviadas por amigos, mas algumas simplesmente não vingavam em África.
As guloseimas vendidas nos conventos eram mais caras que os cookies, mas valiam a pena e, além de qualquer outra coisa, eu estava me divertindo com as andanças.
Conheci o convento onde a sinhazinha tinha estudado e onde as freiras se vestiam de maneira nada modesta, ostentando jóias muito ricas, colares, crucifixos e anéis feitos de ouro e ornados com pedras das mais preciosas.
A vestimenta delas deixava à mostra parte do peito e das costas, e na cabeça usavam uma espécie de carapuça preta ou branca, que diferenciava professas e noviças. O
que mais me encantou no Desterro não foram os doces, muito aquém dos oferecidos no Convento da Soledade, mas os delicados enfeites de papel picado, que não ficavam nada a dever ao que representavam. As Clarissas
do
Desterro
recortavam,
dobravam,
amassavam e colavam pedaços de papéis coloridos, dando vida a pombas, taças, porta-licores, frutas, bichos e até mesmo construções conhecidas da cidade, como o chafariz da Piedade e o Farol do Forte da Barra.
No Soledade, tive que esperar muito tempo até que atendessem numerosos grupos de estrangeiros que
tentavam se fazer entender por meio de mímicas, já que não falavam português. Atrevi-me a ajudar, traduzindo para as freiras as solicitações de uma senhora inglesa muito fina, que saiu de lá carregada dos doces mais variados e dos famosos enfeites com penas. As freiras tinham um criadouro com guarás, garças, tucanos, araras, periquitos, colibris e muitos outros pássaros dos trópicos, desplumados de tempos em tempos, quando então eram vestidos com peças de tecido até que a plumagem crescesse novamente. A princípio, as penas eram usadas nas flores que enfeitavam os altares da igreja, mas os enfeites começaram a fazer tanto sucesso que as freiras transformaram aquilo em um negócio bastante lucrativo.
Elas ficavam atrás de uma enorme janela gradeada e apresentavam um desfile de pretas e pardas carregando flores avulsas ou buquês, guirlandas, grinaldas para as cabeças e ornamentos para vestidos. Comprei uma flor de romã para a Esméria, mas antes fiquei em dúvida entre o lírio d'água, o cravo e mesmo as rosas de todas as cores, imitações mais que perfeitas. Percebi que cada convento tinha a sua especialidade depois de visitar também o Convento das Mercês, com muitos doces e confeitos arrumados como se fossem ramos de flores, e o Convento da Lapa, famoso pelo doce de banana e pelos queimados de água-de-flor, e onde as freiras também vendiam xaropes de angico e de babosa para quem tinha problemas de pulmão, além de uma gostosa canjica de milho verde.
Já na primeira visita eu soube que aqueles lugares não serviriam de exemplo para a montagem da minha padaria, mas estava me divertindo. Fiquei quase duas semanas naquilo, indo cada dia a um lugar diferente, conhecendo melhor as pessoas e a cidade. Era também um grande prazer voltar para casa, o que muitas vezes fiz junto com o Alberto, depois de alugarmos cadeirinha dupla perto da loja de ferragens.
Tínhamos muitos planos e estávamos felizes, mas eu percebia que ele ainda me culpava pela perda do filho que nem sabia que não era dele, dizendo que, quando acontecesse novamente, era para eu ter mais cuidado, para repousar mais. Não contei que tinha voltado a tomar a beberagem, e era com contrariedade que ele recebia as notícias dos meus sangues quando eu justificava não poder me deitar com ele. No mais, éramos felizes principalmente o Banjokô, mais livre do que nunca, correndo atrás dos bichos e passando o dia inteiro na sombra do João Badu, sem nunca mais ter falado na sinhá. Eu tinha contratado uma criada para ajudar a Zolá e aliviar a Esméria que, apesar de ter reclamado no início, dizendo que não gostava de passar»
horas à toa, sem serviço, estava apreciando ficar sentada na varanda da casa vendo o mar e costurando.
O Sebastião, o Felipe e o Rafiki continuavam no sítio, arrumando o que não estava funcionando direito e cuidando da manutenção de tudo, e também encarregados de levantar os custos para a construção de um prédio simples para abrigar a padaria, que eu tinha decidido instalar na Graça, uma freguesia nova e de casas muito boas, ainda mal servida pelo comércio.
Festas
Muitas vezes o Alberto nos acompanhava, mas as noites eram particularmente agradáveis ao lado da Esméria e do Sebastião, sentados na varanda tomando a brisa que vinha do mar, olhando o céu e conversando. A Adeola e o padre Heinz apareceram para uma visita e acabaram ficando três dias, pois ele e o Alberto se entenderam muito bem. A escola estava progredindo, principalmente depois que o Fatumbi tinha dado a ele um bom dinheiro que devia ter caído do céu, pois se negou a revelar a fonte, suficiente para comprar todas as coisas de que precisavam e ainda garantir salário para alguns professores contratados.
O Tico e o Hilário, vestindo roupas cada vez mais espalhafatosas, e contando como estavam se dando bem nos negócios, apareciam duas ou três vezes por semana para buscar os cookies e me entregar o dinheiro das vendas. Em uma dessas primeiras visitas comunicaram o casamento da Euá, em recado do Fatumbi, para o qual estávamos todos convidados. Fomos apenas eu, a Esméria [e o Banjokô, em um domingo à tarde, a minha primeira saída a cavalo. Foi bastante desconfortável, porque usamos um só cavalo para os três, com a Esméria sentada de lado, atrás de mim, tendo o Banjokô ao colo. Paramos muitas vezes para descansar e acabamos nos atrasando um pouco para a cerimônia, chamada amure.
A sala estava enfeitada com flores coloridas e todos os muçurumins vestiam branco, o que dava um contraste muito bonito. Quando entramos, o lemane falava aos noivos, a Euá e o Salum, perguntando se a união era de livre vontade dos dois, alertando que deviam pensar muito bem antes de responder, para que não se arrependessem mais tarde.
A Euá estava muito bonita, vestindo uma roupa branca até os pés e com o rosto coberto por um véu de filó. O
Salum estava todo orgulhoso na sua vestimenta de tecido caro e suas bombachas de estilo turco. Dizendo sádaca do alamabi um ao outro, "ofereço-vos em nome de Deus", ele entregou a ela uma corrente que foi retribuída com um anel, objetos de prata que representavam a aliança entre marido e mulher.
Depois se ajoelharam em frente ao lemane, que recitou os deveres que cada um teria na união, mais numerosos para a Euá do que para o Salum. Por fim, os noivos se levantaram e beijaram a mão do sacerdote, dando por encerrada a cerimônia, e seguimos todos para a festa no quintal, menos os noivos, que ainda ficaram conversando em particular com o lemane.
Havia muitas crianças e o Banjokô demorou um pouco para se acostumar com elas, pois vivia no meio de adultos. O quintal estava enfeitado com flores de verdade e de papel, e também havia muito papel picado pelo chão, onde foram estendidos vários tapetes. Sobre cada tapete foi montada uma mesa de madeira de pés muito baixos, em torno das quais os convidados se sentaram. Eram mais de cinqüenta pessoas, todas muito alegres, divididas em grupos de homens e mulheres que não se misturaram em momento algum. Nas rodas dos homens, que conversavam e fumavam narguilé, sempre havia os que se destacavam, pelo respeito com que eram tratados pelos outros.
As mulheres só se aproximavam deles na hora de servir alguma coisa, o que faziam em silêncio, sem tirar os olhos das bandejas. Entre elas, agiam de modo diferente, falavam, cantavam, dançavam, riam alto e se divertiam, e serviram um jantar de bodas muito gostoso, com carneiro preparado à moda deles, galinha, peixe, arroz, verduras e muitas frutas. A Khadija, com a criança pequena amarrada às costas, era uma das mais animadas, e disse que aquela era a penúltima festa antes do Ramadã “mês dos sacrifícios” e por isso todos queriam aproveitar bastante. Ela nos apresentou à Mariahmo, que estava sendo preparada para ser a segunda esposa do alufá Ali e substituí-la nas obrigações durante o tempo em que permanecia impura com as regras, ou pejada, ou dando o peito. O casamento se realizaria logo depois do Ramadã, promovido pelos parentes da noiva, e a Khadija não parecia preocupada.
Muito pelo contrário, ela estava feliz por alguém ajudá-la a cuidar do marido.
Foi difícil convencer o Banjokô a ir embora antes de começar a ficar escuro pois ele estava adorando ter outras crianças para brincar. Fiquei com dó de acabar com a alegria dele, mas a caminhada até o sítio era longa, já que a Esméria se recusou a subir novamente no cavalo. Ela foi puxando as rédeas e eu segurando o Banjokô, que dormiu deitado sobre a sela antes mesmo de chegara ao Terreiro de Jesus. O Tico e o Hilário ficaram na festa, e dias depois disseram que estavam pensando em virar muçurumins.
Antes de deixarmos a casa, fomos cumprimentar os noivos, e a Euá agradeceu muito o enfeite de flores de penas que eu tinha levado para ela, feito pelas freiras do Soledade. Cumprimentei o Ajahi e o bilal Sali de longe, com um aceno de mão, mas pedi ao Salum que dissesse ao Fatumbi que eu o estava esperando do lado de fora da casa para uma conversa rápida. Além de estar com saudades, eu queria pedir que ele desse uma passada pelo sítio para conversarmos sobre negócios.
Quando chegamos ao sítio, fiquei chateada porque o Alberto tinha deixado recado com a Zolá dizendo que tinha ido a São Salvador e voltaria tarde ou só no dia seguinte. Ele tinha se recusado a me acompanhar ao amure, alegando cansaço e, no entanto, não estava cansado demais para se encontrar com os amigos. A Esméria disse que era assim mesmo, que os homens precisavam estar entre homens, e que no meu caso era ainda pior, por eu ser preta e o Alberto ser branco. Por mais que tentássemos fazer a relação parecer normal, não era, e sempre viveríamos em mundos diferentes fora de casa. Achei que ela tinha razão, que não havia mesmo a mínima condição de o Alberto ter nos acompanhado à festa. Provavelmente ele nem teria sido aceito por lá, como eu também não seria bem aceita entre os amigos dele. Acho que meu sentimento não era de ciúme, não pensava que ele poderia estar com outras mulheres, mas queria tê-lo perto de mim, queria exibi-lo às pessoas, desde que fossem brancas. Aos pretos, não sabia se teria coragem.
No dia em que o Fatumbi apareceu, o Tico e o Hilário tinham passado de manhã para apanhar os cookies e
resolveram esperar por ele, pois estavam cheios de perguntas sobre os muçurumins, a festa, os costumes.
Eu queria saber mais sobre o Ramadã, e o Fatumbi começou contando aos meninos o pedido de Nana, que eu já conhecia, e continuou dizendo que o Ramadã dura uma lunação e tem início com uma festa que começa ainda de madrugada, quando eles se levantam para orar e preparar uma refeição de inhame cozido e machucado para comer com efó (Efó: comida feita com folha de taioba ou outras leguminosas, temperada com azeite de dendê), e bola de arroz machucado com leite e mel. Nos outros dias, fazem uma refeição às quatro horas da manhã e outra às oito horas da noite, quando comem inhame com azeite de dendê e sal moído, e arroz com água e açúcar. Quando acaba o Ramadã, fazem outra grande festa, esperada com imensa alegria por terem cumprido o sacrifício e por poderem comerá vontade.
Nesse dia fazem sacrifício de carneiros, que depois são comidos por todos e celebrados com cantos e danças especiais feitas pelas mulheres, que usam em volta do pescoço uma faixa de pano que seguram pelas pontas.
Quando uma mulher termina a apresentação, tira o pano do próprio pescoço e o coloca no de outra, até que todas tenham dançado. As mais importantes do grupo, além do pano no pescoço, usam nas mãos uma cauda de boi guarnecida com um espanejador. Perguntei se para eles o boi era um animal sagrado e o Fatumbi disse que não, só os carneiros, os porcos e os cachorros novos. Porcos eu já sabia, por terem ajudado um grupo de muçurumins a encontrar água no deserto, mas fiquei surpresa quanto aos cachorros. O Fatumbi disse que, quando o cachorro é novo, antes de ter contato com outros animais, a umidade que ele solta pelas narinas é esfregada nas mãos e no rosto dos sacerdotes, fazendo com que tenham mais facilidade nas adivinhações. Depois de velho, já dado ao vício e à procriação, o cachorro é considerado impuro e nem mesmo pode entrar nas casas dos muçurumins. O Tico e o Hilário queriam saber como
se converter, e o Fatumbi explicou muitas coisas sobre os ensinamentos do profeta, sobre Alá e a nova fé que teriam que abraçar, que teriam que fazer muitos sacrifícios e, principalmente, muito estudo do Alcorão.
Acho que quando ele falou em estudo os meninos desistiram, apesar de não terem dito nada.
Sociedades
Depois do almoço, convidei o Fatumbi para ser meu sócio na padaria. Ele adorou a idéia e disse que só precisava de um tempo para se organizar. Oficialmente, a padaria seria apenas do Alberto, o que tornava as coisas mais difíceis, quando fôssemos arrumar os papéis, mas faríamos um contrato que me deixaria como detentora de cinqüenta por cento da sociedade. Era nessa parte, e sem o conhecimento do Alberto, que eu queria a sociedade com o Fatumbi. Não meio a meio, porque ele não entraria com dinheiro algum, mas vinte por cento do que me cabia, em troca dos serviços que ele podia nos prestar. Primeiro ele achou que não seria justo, mas eu disse que a experiência dele com números contava bastante, além da total confiança que eu tinha nele para lidar com o caixa enquanto eu me preocupava com a produção.
O Alberto entraria apenas com metade do dinheiro e com o nome, mesmo porque ele entendia do mercado de ferragens e, mesmo assim, muito pouco, pois já teria ido à falência se não fosse o sócio. Depois que estávamos morando juntos, percebi a falta de jeito e de interesse dele para lidar com negócios, e a negligência com o dinheiro. Mas era boa pessoa, além de bem relacionado, o que ajudava a fazer negócios. Só descobri os outros problemas mais tarde. Ou tarde demais, talvez.
Combinei com o Alberto de fazermos tudo certo, tudo no papel, que assim seria melhor para nós dois. No caso de rompermos a sociedade, cada um saberia melhor dos
seus lucros ou prejuízos. Fomos até o escritório do doutor José Manoel, o marido da sinhazinha, que cuidou de toda a parte legal, e dias depois voltei lá sozinha para tratar do contrato particular e do trato com o Fatumbi.
Inicialmente usamos o dinheiro do Alberto, que fiquei de repor quando houvesse a reunião de apuração de dividendos na confraria, onde meu dinheiro estava guardado e voltaria para mim com prejuízo se fosse tirado antes da hora.
A Esméria achava tudo muito arriscado, mas disse que mais uma vez confiaria em mim, que sempre a surpreendia. Assim que compramos o terreno na Graça, o Sebastião, o Felipe e o Rafiki construíram um casebre e se mudaram para lá, para dar mais agilidade à obra.
Trabalharam sob a supervisão de um engenheiro, indicação do doutor José Manoel, para que não tivéssemos nenhum problema com os fiscais do administrador. O terreno era pequeno mas muito bem localizado, e, tomando toda a frente, que dava para o Largo da Graça e sua igreja, construímos a parte onde os fregueses seriam atendidos, com espaço para mesas e cadeiras, se decidíssemos servir refeições também.
Havia ainda a cozinha muito bem instalada, com dois grandes fornos, pia e bancadas de trabalho em toda a volta, além de armários fechados para guardar os produtos. Do lado de fora, logo à porta da cozinha, foi cavado um poço que, por sorte, deu água a poucos metros de profundidade. Nos fundos do terreno, em construção separada, foi feita uma casa de banho e necessidades, um cômodo para servir de escritório e outro cômodo grande para ser usado pelos funcionários.
O Alberto concordou com a idéia de termos apenas funcionários pagos, e não escravos.
Visitas
Em uma das visitas à obra, passei pelo solar da sinhazinha, e ela estava deitada em um canapé, na sala, tendo ao lado o doutor José Manoel, que lia em voz alta.
Estava novamente pejada e, ao contrário da primeira vez, não se sentia bem. Tinha vomitado muito, nada parava no estômago, e prometi mandar a Esméria vê-la no dia seguinte, pois devia conhecer alguma beberagem para acabar com aquilo. A sinhazinha agradeceu, dizendo que realmente estava precisada e que, se eu quisesse, poderia mandar também o Banjokô. Ele e a Esméria ficariam com ela por um tempo, e o menino ia gostar da companhia da Carolina, que estava se sentindo muito sozinha desde que a mãe deixou de ter ânimo para brincar.
Comentei que por mim estava tudo certo, que falaria com a Esméria e que o Banjokô provavelmente gostaria muito de ter com quem brincar, ele que também não convivia com outras crianças. O doutor José Manoel ficou de mandar uma cadeirinha buscar os dois na tarde do dia seguinte, se não recebesse nenhum comunicado meu dizendo o contrário. Ele estava lendo Camões, um livro que eu disse que também tinha, e que gostava particularmente de uns versos de determinada página, que já não me lembro mais qual era. Ele abriu na página, começou a ler e acompanhei em voz alta até o final,! quando ele fechou o livro e disse que estava admirado, que daquele momento em diante, mesmo uma coisa não tendo nenhuma relação com a outra, passava a acreditar no sucesso do meu negócio e faria tudo para ajudar.
Eu disse que não contava com mais ajuda do que poderiam me dar seus conhecimentos profissionais, e também com a discrição quanto à sociedade com o Fatumbi. Apesar de um pouco alheia à conversa, a sinhazinha quis saber quem era o Alberto, e o marido dela perguntou se eu estava disposta a entretê-la enquanto ia até o escritório, onde tinha coisas a resolver.
Eu me dispus a ficar até o fim da tarde, e ele saiu sem esperar o almoço, avisando que comeria na rua. Só eu
almocei, a sinhazinha nem agüentou ficar na sala comigo, pois olhar para a comida já provocava vontade de vomitar, mesmo com o estômago vazio.
A Carolina estava linda, andando por toda a casa e falando quase tudo, e mesmo mais nova, era muito parecida com a sinhazinha de que eu me lembrava quando cheguei à fazenda. Tinha o mesmo jeito de pegar nas bonecas, de falar e até de ficar parada olhando as coisas como se conversasse com elas. Percebi que a Carolina e o Banjokô iam se dar muito bem, e comentei com a sinhazinha que era muito estranho ver nossos filhos brincando juntos, como as mães já tinham feito.
Ela demorou a responder, mas depois sorriu e disse que era melhor que fosse assim, pois eram tio e sobrinha.
Eu não tinha pensado nisso, tentando esquecer que o sinhô José Carlos era o pai do Banjokô. Para mim,o meu filho não tinha pai ou esse papel era desempenhado pelo homem que estivesse comigo. Tinha sido assim com o Francisco e estava sendo assim com o Alberto, embora ele nem olhasse direito para o menino. Aproveitei para contar a ela tudo sobre o Alberto, desde quando nos conhecemos até como estava sendo a vida no sítio. Ela pareceu recobrar um pouco as forças para prestar atenção à história, dizendo-se espantada e me desejando toda a felicidade do mundo. Não perguntou nada sobre os acontecimentos no solar e eu imaginei que a sinhá nada tinha dito a ela; era provável que sentisse vergonha. Mas perguntou se eu tinha conseguido comprar a minha carta e a do Banjokô, pois o marido tinha comentado sobre uma conversa que tive com ele no escritório, e respondi que sim, que éramos livres.
Conversamos mais um tempo, até que ela foi vencida pelo cansaço e dormiu. Chamei a criada para que jogasse uma manta sobre suas pernas e fui embora.
Assim que soube que a sinhazinha estava precisando de ajuda, a Esméria arrumou uma trouxa para ela e outra para o Banjokô. Partiram na liteira que apareceu para buscá-los na tarde do dia seguinte, mas voltaram dois dias depois porque o Banjokô, que tinha partido todo animado, estava dando muito trabalho preso nas cercanias da casa. Ele já estava acostumado ao terreno grande e à liberdade de andar o dia inteiro com o João Badu atrás dos animais. A Esméria chegou junto com a sinhazinha, que perguntou se poderia passar uma temporada comigo, ela e a Carolina. Foi imensa a alegria que senti em poder recebê-las. A sinhazinha era uma pessoa simples, e apesar de criada no luxo da casa-grande, de ter viajado pela Europa, de nunca ter passado necessidade, chegou elogiando o sítio, dizendo que ficava muito feliz por me ver tão bem instalada. A Esméria já tinha comentado que ela era assim por ter sido criada sem mãe, tendo mais contato com as pretas da casa, as únicas que lhe davam afeto, e que elas foram muito importantes para que a sinhazinha não fizesse diferença entre pretos e brancos, ou entre ricos e pobres.