Um Defeito de Cor
Capítulo sete
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Saí de lá bastante triste, mas com uma sensação de alívio muito grande, pois estava conseguindo cumprir o trato que tinha feito comigo mesma, de sair da vida do Alberto antes que ele se casasse. Era uma questão de honra, pois me daria a sensação de não estar sendo propriamente abandonada, mas de estar deixando a vida dele por meus próprios meios. No sítio, chamei todos e expliquei mais ou menos o que estava acontecendo, pedindo que me ajudassem a aprontar a mudança o mais depressa possível.
Capítulo sete
A espada não poupa o próprio ferreiro.
Provérbio africano
A casa
A nova casa tinha apenas cinco cômodos, e foi difícil nos acostumarmos com a falta de privacidade. O maior deles, que antes era ocupado pelo Jongo e o Adriano, ficou para mim, para você e para o Banjokô. A Esméria e a Malena ocuparam um outro, pegado ao nosso, e o Sebastião, o João Badu e o Fatumbi dividiram um terceiro. Os outros dois cômodos eram a sala e a cozinha, e o Jongo e o Adriano se mudaram para o lugar que antes servia de escritório para o Fatumbi. Eu não quis que eles fossem embora, apesar de não terem mais o emprego. Éramos muitos para pouco dinheiro, mas achei que se ficássemos juntos seria mais fácil um ajudar o outro em caso de necessidade. Sei que foi [ quase uma extravagância, levando-se em conta que eu não tinha mais nenhuma fonte de renda e que o dinheiro poderia ser usado para nos mantermos durante um certo tempo, mas eu quis reformar a casa e transformá-la em um sobrado.
Estava acostumada a ter um quarto onde pudesse ficar sozinha, e achei que não poderia abrir mão disso e que, mais tarde, a própria vida trataria de prover o sustento.
Mas só fiz a reforma porque o Fatumbi foi firme na recusa em receber a parte a que teria direito na sociedade pela padaria, dizendo que já estava tudo acertado entre nós, que eu não lhe devia nada e que inclusive já tinha dado muito mais do que ele tinha feito por merecer durante todo o tempo em que o negócio funcionou.
Você já estava com dois anos e o Banjokô com oito, o que fazia dele quase um homenzinho, reclamando por não ter mais o próprio quarto, como estava acostumado desde pequeno, e também da falta que sentia do Tiago e do Mateus, que estavam no orfanato da Adeola, além de não ter mais todo o espaço do sítio à disposição, e da simplicidade da casa. Enfim, eram muitas as reclamações, mas eu não o culpava, porque fazia parte da educação que tinha recebido.
O quintal não era dos menores, mas não havia comparação, e era nele que vocês se divertiam com a tartaruga dada pelo Babalaô Gumfiditimi no dia do seu batizado, com algumas galinhas levadas do sítio e um cavalo que o Alberto tinha dado para o Banjokô.
Algumas coisas eram ruins, mas acho que foi com o convívio dentro de espaços menores que começou a nascer a amizade de vocês. Não exatamente do jeito que ele gostaria, porque você ainda era muito pequeno, mas era um substituto para o Tiago e o Mateus. Ele começou a te ensinar o que sabia sobre bichos e plantas, e também a corrigir suas primeiras palavras, para que você aprendesse do modo certo.
Era por isso que, mesmo criança, você falava melhor que muitos adultos, e demonstrou grande interesse quando comecei a dar aulas para o seu irmão. Já estava mais do que na hora de ele aprender a ler e a escrever, coisas pelas quais não se interessara enquanto morávamos no sítio, e que eu fui adiando, tendo como desculpa o trabalho na padaria. Eu e o Fatumbi nos revezávamos nas aulas diárias, dadas ao ar livre, ao lado do poço que ficava entre os fundos da padaria e a nossa casa. Eu estava preocupada com o rumo que a vida poderia tomar, mas aquelas horas junto com vocês dois eram sagradas, as mais importantes e felizes do dia, e espero que ainda hoje você se recorde delas.
Foi também quando começamos a reforma da casa,
construindo um primeiro andar com três cômodos, três quartos, um para o Banjokô, outro para mim e outro para você e a Esméria. Você gostava mais de dormir com ela do que comigo, e às vezes, quando estava no meu quarto, se levantava no meio da noite, sozinho e em silêncio, para ir se ajeitar em um canto da esteira dela. A Esméria e o Sebastião fizeram questão de contribuir para as obras, pois eu pretendia usar apenas metade do dinheiro que tinha aplicado na associação. Compramos o material e todos trabalharam muito para erguer as paredes e cobrir, até mesmo o Rafiki e o Felipe, que nada cobraram.
Fizemos uma festa no dia da inauguração da obra, quando também nos despedimos do padre Heinz, que partiria naquela semana, sem data para retornar. Cada convidado levou algo de comer ou de beber e nos divertimos muito, e o mestre Agostino fez questão de oferecer a banda para tocar até tarde da noite. A família do alufá Ali não compareceu porque a Euá e a Mariahmo tinham acabado de dar à luz, e nem a sinhazinha, porque estava pejada novamente, com menos de três meses, e evitando sair de casa. Mas lá estavam o Tico, o Hilário, o Aprígio, o Belchior, a Claudina, a Adeola, o padre Heinz, o bilal Sali, o Ajahi, a Esmeralda e as antigas funcionárias da padaria, a Lourdes, a Clarice, a Maria José e a Maria Cássia. Fiquei contente ao saber que as quatro já estavam trabalhando.
Tinham colocado tabuleiros em uma quitanda perto da Praça do Palácio, com excelente movimento. O padre Heinz benzeu a casa toda e novamente a imagem da Nossa Senhora que a sinhazinha tinha dado no dia da inauguração da padaria e que você sempre chamava de
"a mãe do menino", por estar com o filho nos braços.
Coloquei-a no quarto que tinha sido da Esméria e da Malena, onde também montei altares para os Ibêjis, Xangô, Oxum e Nana.
Eu tinha pensado em chamar também a família do Júlio para a inauguração, mas depois desisti, pois não queria muito contato com seu pai, pelo menos não naquele momento. Mas, dois ou três dias depois, o Júlio apareceu dizendo que ele tinha mandado perguntar como estávamos e se poderia nos visitar. Eu preferia ter dito que não, pois gostaria que ele nos visse em melhores condições do que as que tínhamos quando nos deixou, mas não pude impedi-lo, principalmente por sua causa.
Não foi um encontro fácil, pois não sabíamos o que nos dizer, como nos cumprimentar, e eu também não tinha nem um sofá para recebê-lo na sala, como visita. O
Sebastião estava começando a fabricar os móveis e preferimos mobiliar primeiro os quartos e a cozinha. Eu tinha levado algumas coisas do sítio, as compradas com o meu dinheiro; portanto, tínhamos onde comer, beber, as roupas de cama, de servir à mesa e alguns enfeites.
Aos poucos a casa começaria a tomar ares de lar novamente, com tudo muito simples, porque eu não queria gastar com o que realmente não fosse necessário.
Naquele dia, seu pai pegou você e o Banjokô e os levou para um passeio, e já me conhecendo o bastante para saber que eu não aceitaria se tivesse sido consultada antes, comprou alguns móveis, que mandou entregar dias depois. Eu queria devolver, mas a Esméria não deixou, achando que, se ele tinha condições, o meu orgulho não deveria prejudicar o conforto dos meus filhos.
A loja
Em certos dias eu ficava completamente desanimada, e só me apetecia estar com você e com o Banjokô, o que muito agradeci quando aquela tragédia toda aconteceu.
Não sei do que você se lembra, mas nas poucas vezes que tocou no assunto, foi sempre para falar de algum momento feliz, talvez até porque notasse o quanto ainda
me perturbava.
Mas não posso negar que tivemos uma despedida feliz, que aqueles dias nunca teriam sido possíveis se não tivéssemos saído do sítio, se eu não tivesse tido tempo de ensinar as primeiras letras para o Banjokô, se nós três não tivéssemos dado tantas risadas juntos pelos motivos mais simples. Eu estava adiando as providências para começar a ganhar a vida novamente e me distraía com vocês, desde o nascer do sol até a hora em que vocês iam exaustos para a cama. Sempre inventávamos o que fazer, um passeio até o centro da cidade, brincadeira de chuva com a água do poço, idas até a praia ou visitas à Adeola e à sinhazinha.
Foi em uma das visitas que o doutor José Manoel comentou que ia sugerir ao Alberto alugar o prédio da padaria em vez de tentar vendê-lo, porque quase ninguém tinha dinheiro para grandes investimentos e, se tinha, investia em coisas mais rentáveis, como escravos, por exemplo. Tive a idéia de alugar eu mesma o prédio todo e sublocá-lo. Podia não ganhar muito, mas já era algum dinheiro, pois eu não gostava da idéia de voltar a vender pelas ruas, serviço que estava sendo feito por um número cada vez maior de pessoas que não encontravam outra ocupação.
Quando o Sebastião foi até o sobrado dizer ao Alberto que eu queria falar com ele, reparou na nova mulher e me contou que ela era feia, velha e muito magra. A Esméria estava por perto e ouviu o relato, dando a ela a alcunha
pela
qual
passaríamos
a
chamá-la,
"Ressequida", sendo que nunca tive interesse em guardar seu verdadeiro nome. O que eu queria saber era como estava o Alberto, mas não tinha coragem de perguntar, embora não fosse difícil ver pelo rosto dele que não estava feliz. Foi no dia em que tratamos do aluguel que ele te deu o cachorrinho, Xangolo, com uma fita azul amarrada no pescoço.
Quem deu o nome foi o Banjokô, que eu nunca imaginei que soubesse que você é filho de Xangô, ou talvez não soubesse e apenas tivesse ouvido falar no nome, entendendo errado. Mas você gostou, como gostava de tudo que ele fazia, pois tinha uma enorme admiração pelo irmão mais velho. O Alberto não pôs empecilhos quanto à transação sobre o aluguel, e como não sabíamos um valor a fixar, ele falou que o que eu conseguisse estava bom, que desse valor eu pagaria a metade para ele e a outra metade ficaria comigo.
Para variar, eu não queria que fosse assim, mas ele disse que eu faria um grande favor, já que também gostaria de contribuir para a sua criação e eu não aceitava nenhum dinheiro que viesse dele. Isso era verdade, ele já tinha tocado no assunto e eu não quis nem conversar, alegando que, se realmente precisasse de alguma coisa para você, eu mandaria pedir. A metade do aluguel também seria como uma comissão para eu cuidar do imóvel, para dar conta de que nada fosse quebrado ou roubado, como acontecia em muitos imóveis alugados para pessoas descuidadas. Como eu já não tinha mais muito dinheiro, aceitei, antes que tivesse que fazer algum trabalho de que não gostava.
Acasos
Pensei em pôr anúncio no jornal, mas o mestre Agostino disse que não era uma boa idéia, que eu não sabia que tipo de gente poderia aparecer, e o melhor seria por meio de indicações dos amigos. Nem precisei me esforçar, pois o Fatumbi pediu alguns dias para falar com uns conhecidos, mas provavelmente já tinha as pessoas certas para ocupar o prédio da padaria. Durante os dias de espera, eu, o Sebastião e o João Badu limpamos e fizemos algumas modificações, levantando divisórias de madeira e cobrindo alguns fornos, de modo que o cômodo ganhou seis bons quartos e uma cozinha.
O tempo pedido pelo Fatumbi foi o necessário para que terminasse uma nova rebelião dos federalistas e seus amigos pudessem chegar a São Salvador. Os rebelados tinham tomado o Forte do Mar e atacado de lá, a tiros de canhão, boa parte dos edifícios oficiais da cidade baixa.
O ataque não durou muito tempo, pelo fim da munição ou porque os canhões dos rebeldes foram atingidos no contra-ataque, não me lembro, mas logo o pior já tinha passado. Os líderes dos rebeldes eram presos políticos das rebeliões federalistas anteriores, inclusive o Cipriano Barata, que tinha recebido condenação na corte e estava cumprindo pena no forte.
O Fatumbi disse que os federalistas contavam com a adesão dos oficiais em terra, mas não sabiam que os rebeldes que poderiam apoiá-los já tinham quase todos sido substituídos, o que indicava um fim bastante próximo para a rebelião. E, com o fim, os ancoradouros passariam a ser menos vigiados e os amigos dele finalmente poderiam desembarcar. Perguntei quem eram e ele disse que preferia esperar para ver se tudo ia mesmo dar certo e então contaria, mas que eu podia ficar tranqüila, pois eram pessoas da sua inteira confiança.
Eu tinha pedido ao Tico e ao Hilário que, quando fossem a Cachoeira, procurassem a morada do homem que tinha comprado os utensílios da padaria. Não tinha esperanças de encontrá-lo, apenas a curiosidade de saber o que funcionava lá, e os meninos me disseram que era a casa de um padre que nunca tinha ouvido falar no tal sujeito. Mas, na mesma rua, encontraram um armazém que vendia folhas de fumo, o que fez com que tivessem a idéia do negócio que me propuseram, a fabricação de charutos. Eram famosos o fumo e os charutos do Recôncavo, que os fazendeiros e fabricantes vendiam até para a Europa.
Somente as melhores folhas de fumo ou os charutos
feitos com elas eram mandados para a Europa, as outras folhas ficavam para uso no Brasil ou seguiam direto para a África, onde eram trocadas por escravos. Para a África, as folhas eram mandadas de modo diferente para disfarçar a baixa qualidade, mas foram tão bem aceitas que mais tarde os ingleses e franceses tentaram imitar o método baiano, mas sem sucesso. Os fazendeiros baianos pegavam as folhas partidas ou amassadas e faziam um grande rolo, que era então embebido em melaço e enrolado em couro, para que conservassem pelo menos um pouco do aroma e não ressecassem, inventando uma nova qualidade de fumo, adocicado e forte, o mais apreciado em toda a África.
Os meninos viram as folhas que o comerciante vendia e disseram que era de média qualidade e que, se bem trabalhadas, poderiam passar por boas, e era exatamente o que queriam fazer. Eles comprariam as folhas de fumo em Cachoeira, e em São Salvador enrolaríamos os charutos que seriam vendidos na região de São Jorge dos Ilhéus, que estava ficando rica por causa das muitas fazendas de cacau que estavam surgindo por lá, montadas por estrangeiros. Eu não tinha a mínima idéia de como se produzia charuto, mas lembrei de ter ouvido a Claudina falar de um ex-namorado que já tinha sido mestre charuteiro, e fui conversar com ela.
Na loja do alufá Ali, conheci as duas crianças recém-nascidas, e quem estava pejada daquela vez era a Khadija. Fui cedo para ter certeza de encontrar a Claudina antes que ela saísse para o canto, porque realmente tinha gostado da idéia dos meninos e queria pô-la em prática o mais depressa possível. A Claudina também achou uma boa idéia e ficou de me procurar assim que conseguisse encontrar o ex-namorado, que tinha trabalhado durante vários anos em uma fábrica em São Félix. Ela também disse que sentia muito a minha falta, principalmente depois de terem arrumado uma nova hóspede, uma fulana aguadeira que, segundo ela, sempre mexia nas suas coisas.
O alufá Ali já tinha conversado com a moça, que, além de negar tudo, ameaçou ir à polícia se alguém mais na casa a chamasse de ladra. Não adiantou explicar que ninguém estava falando em roubo, que de fato não era, mas de mexer nas coisas alheias. Mas o alufá ficou amedrontado com a simples menção de chamar a polícia, temendo uma perseguição se os cultos muçurumins fossem denunciados, e ficou o dito pelo não dito. Tive vontade de convidar a Claudina para morar conosco, mas o jeito festeiro dela não era do gosto da Esméria, e achei que não seria uma boa idéia resolver um problema criando outro. E pior, um problema entre duas pessoas de quem eu tanto gostava.
Os muçurumins
Fiquei muito ansiosa enquanto a Claudina tentava encontrar o ex-namorado, e foi bom que, para me distrair, dois ou três dias depois de eu ter ido falar com ela, o Fatumbi disse que estava tudo certo em relação aos amigos dele, que chegariam a qualquer momento, o que aconteceu naquela mesma noite. Tive que me levantar para abrir a porta da padaria e vi que eram pelo menos quinze pessoas, ficando bem assustada por não ter imaginado tantos. Depois que eles entraram, o Fatumbi me pediu que voltasse para casa e esperasse que no dia seguinte algum deles fosse me procurar, para tratarmos do valor do aluguel. Voltei para a cama e não consegui dormir, o que não aconteceu com eles, que deviam estar muito cansados.
Somente perto da hora do almoço foi que percebi movimento na padaria, quando eu estava com você e o Banjokô perto do poço, em meio a uma aula. Um homem saiu pela porta dos fundos e caminhou na nossa direção, e quando eu me levantei para cumprimentá-lo, ele se
dirigiu ao Banjokô pronunciando várias vezes o nome do Fatumbi. Eu disse que era a pessoa responsável pelo aluguel, mas ele nem olhou para mim, e continuou falando com seu irmão em uma língua que percebi ser o hauçá. Assim como os outros que eu tinha visto na noite anterior, ele estava vestido à moda dos muçurumins, de abadá e barrete na cabeça, e também usava o anel de prata que os identificava.
Ele não se importou com a minha presença e continuou falando com seu irmão, mas os dois não se entendiam.
Resolvi interferir falando em iorubá, avisando o homem que o Fatumbi não estava, e então, ainda sem olhar para mim, ele fez um movimento com a cabeça na direção do seu irmão e voltou para a padaria. Quando o Fatumbi chegou, dizendo que tinha ido até a casa do Diogo e do James avisar da chegada dos amigos, contei o que tinha acontecido e ele disse que provavelmente eu tinha falado com o Suleimane, um hauçá recém-chegado da África.
Minha alegria e minha curiosidade aumentaram quando o Fatumbi comentou que muitos dos que estavam na padaria tinham acabado de chegar da África e teriam um papel muito importante nos planos dos muçurumins da Bahia. Contei que o homem não tinha falado comigo, e ele disse que seria assim até que algum homem responsável por mim desse a permissão, e que no meu caso poderia ser o Banjokô, que já era um rapazinho. O
Fatumbi então entrou na padaria e voltou com o Suleimane, pedindo que o Banjokô repetisse tudo o que ele falasse, mesmo sem entender.
Acho que seu irmão sentiu que aquele era um dos acontecimentos mais importantes da vida dele, ao qual se referia sempre que tinha oportunidade, o primeiro em que foi tratado como um verdadeiro rapazinho, responsável pela mãe. Somente depois de cumprimentar você e o Banjokô foi que o Suleimane se dirigiu a mim,
dizendo salamaleco. Depois disso eu já não entendi muita coisa porque não sabia muitas palavras em hauçá, e foi preciso que o Fatumbi servisse de intermediário entre nós dois. Será que você se lembra do que fez enquanto estávamos conversando? Foi para casa e voltou com um pano enrolado no alto da cabeça, uma imitação do barrete do muçurumim, e parou do nosso lado, sério, como se a qualquer momento fosse participar da conversa.
Eu não sabia onde me esconder de vergonha, mas logo o Fatumbi começou a sorrir e o Suleimane sorriu também, o que foi suficiente para que você voltasse para casa e fosse chorar nos braços de avó da Esméria. Tinha ficado com vergonha ou bravo, não sei, por eles não te terem levado a sério.
Durante os primeiros dias, foi grande o movimento de gente entrando e saindo da loja, e o Fatumbi disse que queriam ver e ouvir o mala (Mala: provavelmente corruptela de malam, do árabe muallim: clérigo, instrutor), Abubakar, um grande chefe muçurumim a quem todos deviam respeito e obediência.
Eu queria saber mais coisas, mas o Fatumbi disse que não podia revelar, e que só estava me contando sobre ele para que eu entendesse a grande movimentação que poderia haver por lá, e também porque confiava em que eu manteria segredo. Nem todos os muçurumins de São Salvador ficariam sabendo da presença do mala Abubakar, somente os mais graduados e os de inteira confiança, nunca os recém-convertidos, porque ainda não se sabia das suas reais intenções. Junto com o mala estavam duas das suas mulheres, as mais novas e sem filhos, de nome Fátima e Binta, que eu já tinha visto pegando água no poço, mas com quem não tive coragem de conversar, também por não saber que língua falavam.
Depois o Fatumbi disse que elas e o mala Abubakar
eram africanos mas falavam português, pois já tinham morado alguns anos em São Sebastião do Rio de Janeiro, e
que
naquele
momento
estavam
na
Bahia
acompanhados de muçurumins que também já tinham morado na corte e de outros que tinham acabado de chegar de Sokotô ou de Katsena, em África. Havia dois deles, inclusive, que já tinham morado na Bahia e foram deportados depois da rebelião de um mil oitocentos e treze, de nomes Bacar e Buraima. Estes eram os nomes que eles adotavam no momento para não serem presos, pois estavam proibidos de entrar no Brasil. O Fatumbi disse que seria bom eu me aproximar das mulheres, porque assim ganharia mais facilmente a confiança deles. Além das esposas do mala Abubakar havia uma criada, a Safyia.
Todos nós da casa tínhamos grande curiosidade em relação a eles, mas ficávamos de longe para não deixá-los constrangidos, observando quando saíam para o quintal. Eles evitavam andar ao sereno antes da primeira oração do dia, por causa dos gênios maus, e, no início, quase ninguém saía da loja, nem para comer ou fazer compras, e fiquei curiosa para saber se cozinhavam lá dentro, usando os fornos. O Fatumbi confirmou que algumas coisas sim, mas que também ganhavam muitos presentes, principalmente comida, que nós não víamos porque eram deixados na porta da frente da padaria, e estávamos nos fundos. Certa noite, eu me levantei antes das quatro da manhã e vi que era verdade, que havia muitas comidas do lado de fora, algumas prontas para consumir e outras ainda por fazer, e muitos pães e frutas. Todos eram muito simpáticos, e depois que se apresentavam ao Banjokô e recebiam dele a
permissão
para
falar
comigo,
sempre
me
cumprimentavam.
Eu não sabia por que, mas havia um deles de quem não gostava, e imaginava que era por causa do jeito bastante assustador, um homem enorme de altura e de corpo,
com os dentes limados para parecerem presas e uma feia cicatriz na mão direita. Nada nele era agradável, exceto o nome, que eu gostava de pronunciar: Mussé. As mulheres eram falantes, principalmente a Safyia, que logo se apegou a você por causa da atenção com que você ouvia as histórias que ela gostava de contar.
Eu e a Esméria logo percebemos que a Fátima e a Binta não viviam em harmonia como acontecia com a Khadija e a Mariahmo, as mulheres do alufá Ali. Cada uma delas jogava na outra a culpa por ainda não terem dado um filho ao mala Abubakar, achavam que era feitiço, e embora nunca brigassem diretamente, era só estarem separadas para que uma criticasse a que estava ausente.
Por causa dessas intrigas, eu não gostava muito de conversar com elas em separado, e também porque achei que me olhavam com inveja por eu já ter dois filhos e elas não terem nenhum, apesar de sermos quase da mesma idade.
Adiamentos
Assustei-me no dia em que o Alberto apareceu sem avisar. De tão entretida com a chegada dos muçurumins, eu tinha me esquecido de mandar dizer que a padaria já estava alugada. Por sorte, estavam todos dentro da loja, e eu disse apenas que eram amigos do Fatumbi, gente de confiança. Achei que ele fosse se importar se soubesse que eram muçurumins, e dos mais importantes, que estavam em São Salvador para ajudar a preparar uma rebelião. Quando eu pensava em rebelião e no Alberto, que era uma pessoa branca e boa, mesmo com os defeitos todos, tentava imaginar quantos outros brancos também seriam punidos injustamente, como era o caso da sinhazinha, do doutor José Manoel e do padre Heinz.
Quantos brancos já não tinham perdido seus negócios e a vida de pessoas queridas, mesmo sendo contra a
escravidão? Eu não tinha coragem de falar sobre isso com ninguém, e muito menos sobre culpar as rebeliões pelo fim da minha união com o Alberto, porque foi só para ficar mais tranqüilo que ele tinha se casado com uma brasileira. Isso tudo eu pensava quando via vocês dois brincando, sentados sobre a esteira aberta no quintal, um de frente para o outro como se fossem duas crianças. Eu tinha vontade de cuidar das duas, e por mais que tentasse odiar seu pai pelo que ele tinha feito, por mais que tentasse culpá-lo pela vida que estávamos levando fora do sítio, na verdade tudo o que queria era esquecer as mágoas e voltar a tê-lo por perto.
Ele parecia me olhar com o mesmo desejo, mas, por medo de ser rejeitado, nenhum dos dois tinha coragem de tomar a iniciativa de dizer que, apesar de tudo, ainda havia o querer bem. Ele gostou bastante quando contei sobre o negócio dos charutos, dizendo que era um produto que sempre venderia bem, principalmente se fosse de boa qualidade e pudesse ser oferecido aos mais ricos, que não deixavam de fumar um bom charuto mesmo se tivessem que economizar outras coisas.
A Claudina encontrou o mestre charuteiro e ele aceitou nos dar algumas aulas, ficando também responsável por avaliar a produção durante algum tempo, pelo que cobrou muito bem cobrado. O Tico e o Hilário disseram que não haveria problemas, que os negócios deles estavam indo bem e pagariam por tudo.
Quando voltaram de Cachoeira com um carregamento inicial de folhas de tabaco, avisamos o amigo da Claudina, um crioulo chamado Nego Ginga, que apareceu vestindo calça, paletó, botinas e chapéu. Ele fazia bem o tipo do qual ela gostava, solerte, com jeito de quem se achava o melhor em tudo que fazia.
Primeiro, achamos que ele estava querendo nos enganar ao dizer que a fabricação de charutos não era nada do que estávamos pensando, que não ia sair mais do que
um cigarro dos mais vagabundos se não tivéssemos os instrumentos e os produtos certos, além de conhecermos bem as técnicas. Mas depois, à medida que explicava cada processo, percebemos que entendia mesmo e que o nosso sonho de ficarmos ricos depressa teria que ser adiado.
O Nego Ginga se ofereceu para ir com o Tico e o Hilário até o Recôncavo, apresentá-los a alguns fornecedores e até arrumar para que os dois passassem alguns dias em uma fábrica, vendo como tudo funcionava. Ficamos frustrados, mas, com certeza, aquela seria a melhor maneira de começar, aprendendo a fazer direito, e a viagem ficou marcada para dentro de duas semanas. Foi bom que acontecesse assim, que eu não tivesse mais nada para fazer a não ser esperar e, portanto, tivesse tempo para amenizar toda a dor quando seu irmão nos deixou.
Mais um abiku
Os muçurumins tinham chegado havia menos de um mês, e foi o Mussé quem entrou em casa com o Banjokô nos braços. Ele não teve culpa alguma, mas acho que o instinto materno já tinha me avisado que seria portador de más notícias, por causa da antipatia inicial. Eu estava na cozinha ajudando a Malena e ouvi vozes de crianças cantando e festejando, e na hora soube que era para o seu irmão, principalmente quando reconheci a voz do Kokumo. Depois de tanto tempo, era uma voz da qual eu nem sabia ser capaz de lembrar, mas a reconheci como se tivesse ouvido o Kokumo conversar comigo ainda naquele dia. Parei o que estava fazendo; a Malena perguntou o que tinha acontecido e acho que repeti duas ou três vezes as palavras "meu filho".
Ela achou que eu falava de você e disse que tinha subido para o quarto com a Esméria, pois sempre dormiam um pouco depois do almoço. Eu disse que não estava falando
de você, mas do Banjokô, que tinha voltado para o Orum.
Fui em direção à porta e primeiro vi o Mussé virá-lo de barriga para cima e depois pegá-lo no colo, na mesma posição que eu tinha visto uma Nossa Senhora carregando o filho dela, pintada na parede de uma das padarias que visitei antes de abrir a Saudades de Lisboa.
E era apenas nisso que eu pensava, tentando me lembrar onde ficava tal padaria, enquanto o Mussé me perguntava o que fazer com o menino. A Malena foi chamar o João Badu, que estava no terreno vizinho cuidando da horta, e depois subiu para chamar a Esméria e para ficar com você no quarto.
Só quando consegui me lembrar que a pintura ficava em uma padaria grande que havia no Beco do Mocambinho foi que me vi parada sozinha do lado de fora da porta, com os muçurumins agachados à minha direita, fazendo aquelas orações em que todos falavam ao mesmo tempo.
Tive vontade de gritar para que parassem, porque já estava ouvindo vozes demais, atordoada com a festa dos abikus, e apenas disse que já sabia quando a Esméria me avisou que o Banjokô estava morto, que não havia mais nada a fazer. Ela estava quase desmaiando e precisou ser socorrida pela Fátima e pela Binta, que a levaram para um dos quartos, enquanto a Safyia me alisava o rosto e dizia que eu precisava ser forte.
Eu tinha breves instantes de lucidez, quando entendia o que ela estava falando, para logo em seguida sentir a cabeça rodar acompanhando a malta de crianças que corriam ao redor da sala onde estava o corpo do seu irmão, estendido sobre a mesa. Os gritos das crianças se uniam à reza dos muçurumins e tudo ficava muito confuso. Minha maior vontade era expulsar as crianças da sala, pois elas pareciam zombar de mim, dizendo que eram vencedoras, que não tinha dado certo nada do que eu tinha feito para manter seu irmão preso ao ayê, à terra. Para espanto de todos, foi exatamente o que fiz,
pegando uma vassoura e usando-a como arma, varrendo furiosamente cada canto da sala.
Aos poucos, voltei a perceber as pessoas ao meu redor, a Safyia, o mestre Agostino, o Adriano, o Jongo, o Fatumbi e o João Badu, como se eu precisasse primeiro sentir a tristeza delas para depois poder suportar a minha; e só então olhei para o Banjokô. Na mesa já havia uma enorme poça de sangue, e o corpo me pareceu tão gelado quanto a lâmina da faca que estava ao lado dele, a mesma que minutos antes estivera enterrada em seu peito. As pessoas se perguntavam o que tinha acontecido, e eu ouvi quando, depois de interrogar o Mussé, o Fatumbi começou a explicar.
Mas eu pegava apenas pequenos pedaços da história, sem conseguir entendê-la por inteiro. Pensava apenas que seu irmão estava morto e eu era culpada pela morte dele, por não ter feito todas as cerimônias para afastar os abikus, por achar que depois dos sete anos ele não corria mais perigo, por não estar junto dele para protegê-lo daquela faca. Eu me sentia tão culpada que não conseguia chorar, por medo de que estivesse chorando por mim e não por ele, e então percebi que as pessoas me olhavam esperando alguma reação. O que fiz foi quase sem pensar, indo até o poço e dizendo que tínhamos que lavar o corpo e providenciar o enterro. O
Fatumbi foi atrás e perguntou se eu estava bem, ao que respondi que sim, que só queria providenciar para que meu filho fizesse uma boa viagem até o Orum, e entreguei o balde nas mãos dele, para que fosse pegando água para mim.
Chegando perto do Banjokô, pedi que o João Badu largasse o corpo, ao qual se abraçava, e me ajudasse a tirar a roupa dele, e depois que o Adriano ou o Jongo arrumassem sabão e bucha. O mestre Agostino tinha lágrimas nos olhos quando pedi que buscasse a flauta e tocasse para o meu filho, que gostava tanto de música.
Quando não havia clientes na barbearia, o mestre Agostino começava a tocar, e o que quer que o Banjokô estivesse fazendo, ele largava e ia se sentar ao lado do velho, para depois tentar imitar os sons com a própria flauta.
O mestre Agostino primeiro começou a tocar como quem se desculpava, mas pedi que acompanhasse o meu ritmo enquanto esfregava o corpo do Banjokô, e logo todos ouviam em silêncio uma melodia vigorosa, do jeito que seu irmão gostava. O Jongo foi o primeiro a se oferecer para ajudar, pegou um pedaço de pano e esfregou com força as partes que o Fatumbi ia molhando, enquanto eu avisava que não era para deixar um pedacinho sequer de pele sem estar muito bem lavado. Depois que terminamos, eu estava cansada demais para sentir tristeza. O mestre Agostino parou de tocar e as rezas dos muçurumins novamente entraram pela sala, e então percebi que não sabia mais o que fazer.
Na viagem para o Brasil, tinha ouvido a minha avó dizer que não tinha dado um enterro decente ao Kokumo e à minha mãe, mas não contou como deveria ter sido. Pedi ao Fatumbi que tentasse encontrar o sítio do Babalaô Gumfiditimi, explicando mais ou menos onde ficava, e contasse o que tinha acontecido, para ver se ele poderia ir à nossa casa. Assim que o Fatumbi saiu, peguei uma cadeira e coloquei ao lado da mesa, onde alguém tinha deixado uma vela queimando, e pedi que repetissem a história do acontecido.
Quem se aproximou foi a Fátima, que narrou o que tinha ouvido do Mussé. O Banjokô e dois amigos estavam brincando na rua quando foram até a porta da padaria e começaram a mexer nos presentes que os muçurumins sempre deixavam para o mala Abubakar, entre os quais havia uma faca. O Banjokô estava com ela na mão quando ouviram barulho dentro da loja e saíram correndo, com medo de serem repreendidos, e alguns passos adiante meu filho tropeçou e caiu sobre a faca, que o atingiu bem no coração.
Era uma faca de sacrificar carneiros, com a lâmina afiada e pontuda, mortal quando encontra o caminho certo. O Mussé estava do lado de dentro da loja, perto da porta, quando ouviu os gritos e saiu para ver o que estava acontecendo. Encontrou os dois meninos debruçados sobre o Banjokô, chamando por ele, e quando percebeu que pretendiam sair correndo, segurou um deles pelo braço até que conseguisse entender o que tinha se passado antes que a porta fosse aberta. O
restante eu mesma tinha visto.
Enquanto a Fátima contava essa história, eu a via acontecendo na minha frente, real, e tentava conter um filete de sangue que ainda escorria do buraco deixado pela faca, evitando que se formasse um riozinho sobre a mesa. Consolava-me saber que naquele momento o Banjokô estava voltando para junto da minha mãe e da minha avó, que cuidariam muito bem dele, que ainda poderia brincar com o Kokumo e a Taiwo. Mas também sentia um grande medo de que a sinhá ficasse sabendo do acontecido e me cobrasse pelo descaso com que tinha cuidado do meu filho, permitindo que morresse de maneira tão boba, justo ele, a quem ela pretendia dar um futuro.
Era das muitas cenas dele com ela que eu me lembrava enquanto a noite ia chegando e as pessoas começaram a me deixar sozinha na sala, aparecendo de vez em quando para saber se eu precisava de alguma coisa. Os muçurumins me deram comida que eles mesmos tinham preparado, e o mestre Agostino colocou uma flauta entre as mãos do Banjokô e quis saber se eu gostaria que tocasse mais algumas músicas. Fiquei aliviada quando vi o Babalaô Gumfiditimi descer de uma cadeirinha junto com o Fatumbi, porque não conseguia mais suportar os olhares que perguntavam se eu não ia fazer mais nada.
Pedi a todos que nos deixassem sozinhos, e o Babalaô Gumfiditimi cantou um ponto para meu filho, ou melhor, para Oxóssi, e depois rezou alguns orikis.
Disse que a morte não era motivo para tristeza, mas isso era difícil de evitar quando o morto era muito jovem.
Quando as pessoas morrem velhas e, principalmente, se deixam filhos, a viagem para o Orum é motivo de festa.
Mas quando morrem jovens todos se entristecem, porque fica a sensação de que não tiveram tempo de cumprir a missão recebida. Mas o Babalaô Gumfiditimi me tranqüilizou, dizendo que seu irmão era uma pessoa especial, um abiku, que, por não saber o mal que aquelas idas e vindas tão rápidas causavam a ele e às pessoas que gostavam dele, que por não saber disso, àquela hora devia estar muito feliz.
O Baba também disse para eu não me sentir culpada, pois às vezes o trato se cumpre de qualquer maneira, mesmo que tudo tenha sido feito para segurar o abiku no ayê. Os abikus têm uma mãe no Orum, a lyâjansá, e às vezes a ligação dela com um dos filhos é tão forte que nada pode ser feito para detê-la, e ela acaba conseguindo atraí-lo de volta. Perguntei ao Babalaô Gumfiditimi se poderíamos fazer alguma coisa para que a alma do Banjokô deixasse de ser tão errante, já que isso o prejudicava, e ele respondeu que sim, que uma precaução deve ser tomada na hora da morte, mas que nem sempre a família da terra permitia. Geralmente, os abikus que retornam ao Orum mesmo tendo fortes ligações no ayê são os preferidos de lyájansá, e o que se deve fazer é deixá-los menos atraentes aos olhos dela e dos outros companheiros, mutilando seus corpos.
Mutilados, eles causam medo nos outros abikus, que não querem mais brincar com eles. Sentindo-se sozinhos e rejeitados, eles se desligam dos companheiros e retornam ao Orum como um espírito normal. Estava em minhas mãos dar essa oportunidade ao Banjokô, mas teria que ser em segredo. Eu nunca tinha contado isso para ninguém, nem mesmo para a Esméria, mas acho que agora você já pode saber, tantos anos depois.
Eu e o Babalaô Gumfiditimi saímos de madrugada para o sítio dele, e não permiti que ninguém nos acompanhasse, dizendo que faríamos apenas uma cerimônia para encomendar o espírito, e o Banjokô seria enterrado por lá mesmo. Eles quiseram protestar, mas fui firme, alegando que precisava daqueles momentos a sós com meu filho, mas eu também não tive coragem de acompanhar toda a cerimônia. Assisti apenas à metade, que foi muito bonita, e saí do salão antes que começassem a preparar o corpo para ser mutilado. Por mais que eu soubesse que o Banjokô nada sofreria, que estávamos fazendo o melhor para ele, era algo que eu não conseguiria suportar.
Fiquei na casa da Monifa até tudo terminar, quando também não quis acompanhá-los até o rio, onde fariam um despacho. Agradeci ao Babalaô Gumfiditimi, que não quis cobrar nada, e voltei para casa com a sensação de ter deixado uma parte muito importante de mim em algum lugar de onde eu nunca mais conseguiria recuperá-la.
Agarrar a vida
Não sei o que te disseram, mas quando voltei para casa você pulou nos meus braços e disse que me amava muito. Eu te abracei forte e não me lembro se consegui dizer como aquelas palavras tinham sido importantes, as únicas que ouvi antes de te colocar nos braços da Malena e subir para o quarto, onde um cansaço que parecia estar acumulado durante anos me deixou de cama por dias seguidos. Depois a Esméria contou que levavam comida, água e vasilhas para as minhas necessidades e perguntavam se eu queria alguma coisa, mas era como se eu não ouvisse. Nem me lembro em
que pensava, se é que pensava em alguma coisa ou apenas obedecia às ordens que me davam para fazer isso ou aquilo. O que me fez reagir foi novamente o som da sua voz, uma gargalhada que entrou pela janela enquanto você brincava com seu pai bem embaixo dela.
Eu me lembro que fui ver o que estava acontecendo e você olhou para cima e me viu, pedindo que eu fosse até o quintal ver o presente que tinha acabado de ganhar.
Não sei se fui porque quis ou se apenas te obedeci, mas já era alguma coisa, uma reação. O presente era um cavalinho de madeira que andava sobre rodas, quase igual ao que eu tinha dado ao Banjokô quando você nasceu, que fiquei olhando você puxar pelo quintal até me sentir embalada naquele trote, com vontade de fugir para algum lugar bem distante. Fechei os olhos mas não consegui enxergar tal lugar, e só fui acordar na cama, com seu pai ao meu lado e a Esméria segurando um pano sobre meu nariz, e dele saía um cheiro tão forte que quase me fez engasgar.
Ela então enxugou algumas lágrimas com o dorso da mão e saiu do quarto, deixando o Alberto. Ele não sabia o que dizer e substituiu as palavras por um abraço, e foi o que bastou para que eu começasse a chorar pedindo que voltasse, que não nos deixasse tão sozinhos, que eu e você precisávamos muito dele. O Alberto não respondeu, apenas me abraçou com mais força e deixou que eu chorasse tudo o que não tinha chorado naqueles dias, até dormir novamente e acordar sozinha, com os olhos tão inchados que nem conseguia abri-los. Se eu tivesse forças, teria buscado você para dormir comigo, para ter certeza de estar por perto caso alguma coisa ruim fosse te acontecer, porque você também era um abiku. O Babalaô Gumfiditimi tinha assegurado que você não era como o Banjokô, que os seus laços com o Orum não eram tão fortes quanto os dele, mas diante de uma perda tão grande e repentina, era fácil pensar que o destino poderia mudar o curso.
Quando o dia estava para amanhecer, eu me levantei e decidi que tinha que continuar, que nem nojo colocaria, porque, por mais que nos doesse a falta, seu irmão estava onde queria estar, no Orum, com os amigos. Em três semanas, a vinte e um de junho, você faria três anos, e resolvi antecipar seu ritual, aproveitando para pedir ao Babalaô Gumfiditimi que reforçasse sua ligação com o nosso mundo. Foi difícil voltar àquele sítio depois de tão pouco tempo, e tive que fazer muito esforço para não ficar imaginando o corpo do seu irmão sendo mutilado sobre a mesma mesa onde estavam colocadas as ervas para o seu banho.
Antes do ritual, o Babalaô Gumfiditimi te deu um banho de esfregação com bejerekum, uma erva que ajuda a afastar os abikus, e da qual peguei uma muda para fazer a mesma coisa em casa sempre que achasse necessário.
Depois, deu início ao ritual que ainda se prolongaria por quatorze dias, chamado de Itefá, que te ajudaria a desenvolver a personalidade. Ele nos deu vários objetos e inscrições sagradas que eu deveria deixar espalhados pela casa para que você tomasse a iniciativa de saber o que significavam e tentasse tirar delas o que tinham de melhor. Eu não podia interferir, apenas observar e depois relatar seu comportamento a ele. Lembro-me de que, na época, escrevi tudo para não esquecer, pois não estava em condições de confiar na memória ou no senso de observação. E ainda hoje de nada me recordo, o que deve ser uma vingança da memória por eu não ter deixado que ela fizesse o trabalho sozinha.
Daqueles dias posteriores à morte do Banjokô, lembro-me apenas de fatos, não de detalhes, o que me faz, por exemplo, recordar que seu pai voltou no dia seguinte à nossa visita ao Babalaô Gumfiditimi. Eu tentava fazer com que a vida continuasse em um ritmo normal, e quando ele chegou, eu e você estávamos sentados ao lado do poço, eu te contando uma história qualquer para desviar sua atenção da pergunta que tinha acabado de
fazer. Queria saber do seu irmão, e eu disse que ele tinha feito uma viagem muito longa e que provavelmente você só o encontraria de novo quando resolvesse fazer essa viagem também, mas que ainda ia demorar muito tempo.
Fiquei com medo de que você me perguntasse quando e para onde seria essa sua viagem, mas seu pai chamou a nossa atenção, chegando com os braços cheios de presentes. Atrás dele estava um mulato carregador que equilibrava uma enorme mala sobre a cabeça. Seu pai sorriu para mim e mandou que o mulato deixasse a mala dentro de casa. Depois, ficou ajoelhado no chão e abriu os braços para que você corresse até ele, avisando que ficaria conosco por duas ou três semanas.
Mais tarde, quando estávamos sozinhos, perguntei o que tinha dito à Ressequida e ele respondeu que mentira para ela, inventando uma caçada. Acho que ele leu meus pensamentos, pois antes que eu perguntasse se costumava fazer a mesma coisa comigo, inventar desculpas para estar longe, ele comentou que era a primeira vez que fazia aquilo, e por um bom motivo. Eu não acreditei, mas também não estava com vontade de discutir, porque parte de mim estava muito feliz por ele estar ali, transmitindo força e segurança, principalmente em relação a você, garantindo que nada de ruim te aconteceria.
Na primeira noite, o Alberto dormiu na esteira ao lado da minha cama, e conversamos muito. Falei muitas coisas sobre o Banjokô, sobre as falhas que eu tinha cometido, sobre a minha dúvida, se não teria sido melhor, ou pelo menos mais seguro para ele, ter se mudado para a corte com a sinhá. Eu pensava naquilo a todo instante, se o Banjokô não tinha morrido por causa do meu orgulho de mantê-lo junto a mim, e não conseguia perceber que o destino o teria perseguido onde quer que estivesse. O Alberto também estava
triste, mas disse que não era nada, que em outro dia conversaríamos sobre ele, pois naquele momento a prioridade era o que eu estava sentindo.
Na noite seguinte ele se deitou comigo na cama de solteiro, o que nos fez dormir abraçados e foi bastante providencial, porque nenhum de nós queria dar o primeiro passo para reatar o relacionamento. E só na terceira noite voltamos a ser homem e mulher um para o outro, quando ele me contou que, daquele jeito, o casamento dele tinha se confirmado apenas uma vez, na noite de núpcias. Confessou que pensava em mim quando fez amor com ela, e que nunca, com mulher alguma, tinha sentido o que sentia comigo. Embora eu não tivesse muito como comparar, disse que também sentia o mesmo, e decidimos que ficaríamos juntos, da maneira que fosse possível.
Você se lembra de como ele nos fez esquecer um pouco a saudade que sentíamos do Banjokô? A primeira coisa foi contratar várias pessoas para que virassem a frente da nossa casa. Antes, entrávamos em casa pelo mesmo lado em que ficava a padaria, mas ele não gostava daquilo e mandou abrir uma porta do outro lado da sala, para que tivéssemos uma entrada e uma saída só para nós, com direito a varanda e a uma bonita vista do vale que começava do outro lado da rua.
Eu já tinha pensado em fazer aquilo mas não quis gastar mais dinheiro, e foi um belo presente. Ganhamos também cadeiras e redes para que pudéssemos nos sentar na varanda e ficar conversando, olhando o vale.
Na maioria das vezes só ele falava, contando histórias de Portugal e da corte, que eu nunca me cansava de ouvir.
Quase sempre as histórias se repetiam, mas ele se lembrava de um detalhe diferente, de alguma coisa que as tornava quase novas, e depois daqueles dias, vinte e dois dias, você nunca mais dormiu sem que eu ou a Esméria te contássemos histórias. Aqueles dias também
serviram para que ele perdesse a reserva em relação aos muçurumins, duvidando do que falavam sobre eles, sobre o perigo que representavam. Mas os muçurumins estranharam, mais por mim do que pelo Alberto, porque não entendiam como uma preta podia viver bem com um branco. Isso eu percebi nos olhares que lançavam quando nos encontravam no quintal, mas nem me importava, e eles nunca comentaram nada diretamente.