Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 10 de 12 · parte 1/8

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Um Defeito de Cor

Capítulo oito

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

Sabia-se também que o governo estava treinando uma enorme tropa para ocupar a cidade a partir do Recôncavo, e os rebelados não teriam forças ou munição para combatê-la. Presa duas vezes e sob suspeita das autoridades, quando o poder retornasse ao antigo governo eu provavelmente seria deportada. Perguntei se não achavam que o fato de eu ter sido presa por trair os federalistas seria um bom motivo para me pouparem e eles disseram que não, que não olhariam os motivos, mas pensariam apenas que uma agitadora africana não merecia permanecer em terras brasileiras. Ficou decidido que assim que arrumassem uma maneira de atravessar o cerco feito por mar, dariam um jeito de me levar para a Ilha de Itaparica, onde eu deveria permanecer por uns tempos. A Esméria, a Claudina e o seu pai disseram que eu podia ir tranqüila, pois cuidariam muito bem da casa e de você. Mas até hoje não sei por que aceitei, talvez apenas porque tinha que ser assim, sem maiores explicações. Combinamos também que, tão logo eu conseguisse um lugar para ficar na ilha, daria um jeito de entrar em contato avisando, e uma vez por semana levariam você para me ver.

Hoje, pensando sobre isso, vejo como o motivo foi banal, como qualquer pessoa sensata teria se mudado de São Salvador com toda a família, e não concordado com aquela história absurda de extrema e descabida precaução. É por isso que me culpo tanto, por ter sido tão medrosa e ter aceitado me separar de você, nem sabíamos por quanto tempo. Com uma trouxa de roupa

contendo o essencial, fui me despedir de você, que estava dormindo. Depois, aproveitando a escuridão, segui com o doutor Jorge e um amigo até perto de Água de Meninos, onde tomei um barco com mais quatro pessoas que também estavam sendo tiradas da cidade.

Remando, fizemos quase meia volta na baía, na direção do Bonfim, para chegarmos à Ilha de Itaparica depois de contornar a Ilha dos Frades.

Capítulo oito Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens.

Provérbio africano

Novamente a ilha

Dentro do barco, fugir me pareceu um despropósito, já que não era culpada de nada e nem havia qualquer acusação formal contra mim que pudesse ser provada. E

mais ainda, os federalistas estavam no poder, pessoas amigas dos meus amigos, contra as quais eu nada faria, mesmo se pudesse. Mas o doutor Jorge achava que, infelizmente, os dias de independência da Bahia estavam no fim por vários motivos. Primeiro, porque o cerco à cidade estava funcionando, quase ninguém entrava ou saía e já faltavam comida e outros bens, o que logo deixaria o povo em desespero e contra os causadores da situação, os federalistas.

Segundo, porque aumentavam os rumores de que uma tropa invencível, treinada em Cachoeira, logo tomaria São Salvador de assalto, causando verdadeiro abatimento nas tropas rebeldes, sem armas e enfraquecidas pela péssima alimentação. Eu sabia de tudo isso, que logo a cidade poderia voltar para as mãos dos que desejavam que nós, africanos libertos, estivéssemos o mais longe possível de lá, mas me perguntava o que eu tinha com isso, eu, que só queria ter um trabalho e com ele manter por perto as pessoas de quem mais gostava. É certo que estive envolvida com os muçurumins, mas este era um problema resolvido com a derrocada da revolta.

O que me acompanhava era uma enorme sensação de

derrota e cansaço, pois aquela fuga não era justa, nada era justo, principalmente os brancos irem até a África nos separar de nossas famílias para depois não nos quererem mais, desejando nos ver longe, de volta a um lugar do qual nem nos lembrávamos direito. Livres, nós já não servíamos para mais nada, a não ser, no entender deles, atrapalhar os negócios ou tirar o sustento dos legítimos brasileiros, fossem eles pretos ou brancos, mas quase sempre preguiçosos, que viam o trabalho como digno apenas de escravos.

A ilha me remeteu às recordações mais amargas, ao fantasma do sinhô José Carlos, às lembranças nada agradáveis da sinhá Ana Felipa, à tragédia do Lourenço, à surra no mestre Anselmo, o baleeiro. Foi ruim saber que a fazenda ainda estava lá, ativa, mesmo nas mãos de outro dono. Foi ruim perceber que, mesmo depois de tanto tempo, algumas lembranças ainda estavam vivas em mim, dando chibatadas de dentro para fora.

Desembarquei em Vera Cruz, perto de onde precisava saber se a Assunta ainda vivia, uma preta benzedeira conhecida da Esméria. Tinha recomendações de não tentar me estabelecer sozinha para não chamar atenção, e evitar os pretos que estivessem tramando qualquer rebelião ou fuga, pois em qualquer lugar e a qualquer momento sempre havia alguém pensando em fugir.

Havia um tipo de solidariedade entre os pretos que se conheciam há mais tempo, e se alguém tivesse que ser denunciado ou sacrificado em nome de todos, seria escolhido entre as ligações mais novas, mesmo que inocentes.

Depois de perguntar a um preto que puxava rede na praia, não foi difícil encontrar o casebre da Assunta, bastante conhecida na ilha. Junto a mais seis casebres, todos com paredes de barro e telhado de capim trançado, ficava em uma clareira aberta na mata, cercada por muitas árvores e plantações de milho e mandioca. Fui olhada com receio por algumas crianças

que estavam brincando, e logo uma mulher apareceu para falar comigo. Eu disse que procurava pela Assunta e ela pediu que esperasse, entrando em um casebre de onde saiu pouco tempo depois com outra mulher, que fez sinal para eu me aproximar.

Foi o que fiz, agradecida e talvez com muito mais pressa do que deveria ter demonstrado, pois não agüentava mais ficar parada com a trouxa na cabeça, sendo observada por tantos rostos desconfiados. As crianças não escondiam a curiosidade, mas os adultos se colocavam por trás das árvores e dos casebres, demonstrando que não estavam acostumados com desconhecidos. Ainda bem que eu tinha seguido mais um conselho da Esméria e vestia roupas simples, mas ainda assim melhores que as deles.

A mulher com quem fui conversar era baixa, gorda e se movia com torturante dificuldade, como pude perceber enquanto caminhava atrás dela, cruzando o único cômodo de seu casebre. A lentidão também me deu tempo para olhar tudo com cuidado, e me espantei com o luxo de um altar para Xangô, que se destacava entre móveis velhos e objetos quebrados. O chão era de terra, limpo e bem varrido, sobre o qual havia alguns tapetes de fibra de palma, o mesmo material de algumas esteiras de dormir enroladas a um canto, e um banco de madeira que tomava uma das paredes quase de fora a fora. As paredes de barro estavam adornadas com várias telhas pintadas com paisagens de lugares que me pareceram ser dali mesmo da ilha, e de figuras representando os orixás.

No fundo do cômodo havia uma mesa de madeira bastante gasta e duas cadeiras, e foi lá que nos sentamos, depois de a mulher acender uma lamparina para que pudéssemos nos ver direito. O ambiente era abafado, nenhuma janela, nenhuma outra porta a não ser a de entrada, e logo o ar começou a ficar empestado

pelo cheiro do óleo de baleia queimando e de um charuto barato que ela devia estar fumando quando cheguei, e que tinha ficado ali, queimando sobre a mesa.

Ela devia fazer isso sempre, pois a borda da mesa do lado dela já tinha quase toda virado carvão.

Mãezinha Ela não falava nada, então esperei que acabasse de reavivar o charuto e desse duas ou três baforadas, e perguntei se era a Assunta. A mulher quis saber por que eu a procurava, e então contei que já tinha morado na ilha antes de me mudar para São Salvador, escrava na Fazenda do Amparo. Falei também que precisava ficar algum tempo longe da cidade e que por isso a Esméria tinha me mandado procurar uma mulher chamada Assunta. A preta não teve nenhuma reação ao ouvir o nome da Esméria, e comecei a pensar que tinha ido ao lugar errado. Já estava querendo me levantar e pedir desculpas por ter incomodado quando ela disse ser filha da Assunta. Eu me acomodei novamente e fiquei esperando outras intermináveis baforadas no charuto, quando então ela resolveu falar, dizendo que se lembrava da Esméria. Perguntou por ela e eu disse que estava bem, que morava comigo e era liberta.

Achei que a Assunta não fosse mais viva, porque a mulher que estava sentada à minha frente já não era muito nova, ou talvez a carapinha toda branca enganasse, mas eu daria a ela pelo menos uns setenta anos. Ela então disse que a Mãe Assunta morava na casa ao lado com outra filha e estava muito velha e doente, não falava coisa com coisa e não reconhecia quase ninguém. Mas, em consideração à Esméria, ela mesma daria um jeito de me acomodar, se eu não me importasse com a simplicidade da casa. Eu disse que não me importava, mas fiquei imaginando quantas pessoas mais moravam ali, por causa da quantidade de gente que eu tinha visto no terreiro.

Ela interrompeu meus pensamentos dizendo que se chamava Mãezinha e morava só, dividindo de vez em quando a casa com um companheiro que era escravo de uma fazenda vizinha, onde ela também já tinha servido.

Confesso que fiquei com medo de que ela estivesse lendo meus pensamentos, e já não queria mais ficar lá.

Cuidando

para

não

ofendê-la,

tentei

apagar

pensamentos que me importunavam, sobre a pobreza do lugar. Mas, se os leu, não disse nada, e mandou que eu deixasse a trouxa a um canto e fosse com ela até o quintal, onde tinha alguns afazeres e onde poderíamos conversar com mais calma.

Logo que saímos, duas pretas foram ajudá-la a se locomover e a sentaram no banco feito de um grosso tronco cortado ao meio, e em seguida levaram um tabuleiro cheio de contas, que colocaram sobre um apoio de ripas de madeira. Para mim, buscaram uma esteira, na qual me sentei perto dela, que por uns instantes pareceu rezar, e depois pegou uma linha de pesca e começou a enfiar as contas coloridas, seguindo uma ordem que logo soube ser dos colares de Ogum, alternando azul-escuro e branco. Comentei que tinha dado à luz um filho de Ogum e ela comentou que já sabia, e que também era muito poderosa a Oxum que eu tinha na cabeça.

A Mãezinha percebeu meu espanto e começou a rir, dizendo que eu não precisava ter medo, pois os orixás só contavam o que ela deveria saber e tinham dito que eu era boa pessoa. Caso contrário, nem teria me recebido.

Mesmo assim, só consegui relaxar horas depois, quando serviram o almoço. Algumas pessoas, homens e mulheres, foram se sentar à nossa volta e ela me apresentou como sendo uma amiga que ficaria por algum tempo, e que deveria ser muito bem tratada em consideração a uma velha conhecida da Mãe Assunta.

Quando percebi que as outras pessoas chamavam a mãe dela de mãe também, mesmo os muito novos para serem filhos de uma mulher bastante velha, e imaginei que as duas eram mães-de-santo, o que foi confirmado pelo tipo de saudação que dirigiam à Mãezinha ao se aproximarem ou se afastarem dela, pedindo a bênção.

Quando nos deixaram sozinhas novamente, fiquei sabendo a história do terreiro. Na África, a avó da Mãezinha era muito respeitada nos cultos e tinha ensinado os segredos à filha, a Mãe Assunta, antes de ela ser capturada e levada para o Brasil.

Depois de velha e de receber a liberdade como prêmio, a Mãe Assunta encontrou aquela clareira onde já havia um casebre que funcionava como esconderijo de fuga e resolveu fundar um terreiro. Sozinha, reformou o casebre e começou a receber os pretos para consultas e curas com ervas, e foi assim que conheceu a Esméria.

Logo a ialorixá se tornou bastante famosa, inclusive no Recôncavo, e foi com o dinheiro cobrado de uma sinhá de Candeias, por conta de um ebó, que conseguiu comprar a liberdade da Mãezinha. Mas tinha caído doente e parado de atender havia dez anos, embora ainda mantivesse o título de mãe do terreiro, até morrer.

Na qualidade de mãe-pequena e sucessora, era a Mãezinha quem exercia de fato tal função, de vez em quando ainda ajudada pela Mãe Assunta. A mais velha tinha sonhos que davam soluções para problemas difíceis de serem resolvidos, mas estava se tornando muito alheia ao mundo dos vivos, talvez por estar às portas da morte e se aproximando do Orum e das esferas dos orixás. Não dava consultas e não assumia compromissos porque não podia controlar tais sonhos, mas de vez em quando chamava a Mãezinha e fazia longas palestras, até falar tudo o que precisava e se calar novamente, ninguém sabia até quando. A Mãe Assunta morava no casebre quase em frente ao da Mãezinha, junto com outra filha, que não me lembro se era filha de verdade ou no santo, e recebia visitas de apenas duas ou três pessoas que ela tinha autorizado

antes de se alhear.

Eu estava curiosa por causa do local, das pessoas e das coisas que aprenderia ali, mas com muita vontade de voltar para casa, sentindo muito por estar afastada de você. Precisava arranjar um jeito de ter notícias da capital para saber quando poderia voltar, pois as pessoas daquele terreiro não se interessavam nem pelo que acontecia no resto da ilha, quanto mais fora dela. Nunca me perguntaram por que eu estava lá ou do que fugia, e isso foi bom, pois acho que não saberia responder.

Com o passar dos dias, as pessoas foram me deixando à vontade, e comecei a achar interessante o modo de vida deles, que compartilhavam tudo. Nos sete casebres, ou melhor, nos cinco que restavam ao tirar o da Mãe Assunta e o da Mãezinha, moravam umas trinta pessoas, e não viviam tão isoladas como me fizeram crer. Durante o dia, muita gente andava por lá, principalmente os filhos e as filhas-de-santo da Mãe Assunta, que tinham que cumprir obrigações com o terreiro. Varriam e aguavam o chão de terra, recolhiam folhas caídas, lavavam roupas, cozinhavam e até mesmo limpavam algumas casas, além de ajudarem a Mãezinha no preparo dos ornamentos, dos cultos e das oferendas.

Havia um oitavo casebre, menor que os outros e mais afastado, onde a Mãezinha atendia três ou quatro dias por semana. Era enorme a quantidade de pessoas que chegavam antes mesmo de o sol nascer e só conseguiam ser atendidas no final da tarde.

Como já sabiam disso, levavam comida para passar o dia e o ambiente ficava bastante festivo. Eu mesma vi na fila muitas mulheres brancas, que tentavam disfarçar a presença usando roupas simples e chapéus enfiados até a linha dos olhos, mas pelos modos via-se que eram sinhás, acompanhadas de mucamas. De vez em quando a Mãezinha recebia a visita do Zé Manco, um preto duas ou três vezes mais magro que ela, e que ainda arrastava

uma das pernas, defeito que tinha virado alcunha. Na primeira vez que o vi cumprimentando a Mãezinha de uma maneira carinhosa, fiquei sem jeito por estar hospedada na casa dela, onde dormiam juntos. Mas ela disse para eu não me preocupar, pois os dois já não faziam mais nada. Tinham sido amantes, mas já estavam muito velhos para fazer as coisas e, portanto, só dormiam em esteiras colocadas lado a lado.

Mesmo assim, foram noites constrangedoras que passei acordada, sentindo-me um incômodo dentro do casebre.

Pensava em me levantar e ficar do lado de fora, mas sentia um medo que não me deixava nem sair da esteira, quanto mais do casebre. Então eu orava para a minha avó e para a Taiwo, e esperava com muita ansiedade que o dia viesse e levasse embora aqueles temores. Foi o Zé Manco quem primeiro me falou dos egunguns da ilha, enquanto eu atiçava o fogo para ferver água e fazer um chá. Agachado na minha frente, ele disse que me via acompanhada de várias pessoas desencarnadas, que não eram pessoas ruins, mas que poderiam estar tirando a minha energia. Falei sobre os voduns da minha avó, mas ele disse que não eram voduns, embora não soubesse dizer do que se tratava, e contou que na ilha existiam vários lugares de culto aos egunguns. Fiquei com vontade de saber mais sobre os egunguns, mas achei que ele não estava querendo explicar, mas sim verificar o que eu sabia.

Já havia quase um mês que eu estava lá, sem saber notícias de vocês e sem dar notícias minhas, e quase sem dinheiro. Não que eu precisasse dele, pois não passava necessidade alguma. Havia várias plantações de que todos cuidavam, criavam galinhas e porcos, costuravam as próprias roupas, havia peixe à vontade e todos trabalhavam para que nada faltasse. Dividiam as terras e os bens, e até mesmo faziam juntos as refeições, sendo que a cada dia um grupo de mulheres ficava responsável pelo preparo.

Eu tentava ajudar no que podia, mas me sentia um pouco intrusa, trabalhando menos do que gostaria, pois acabava sendo tratada como visita. Um dia perguntei à Mãezinha se alguém costumava ir até São Salvador e ela disse que era muito raro, mas que podia acontecer. Pedi então que me avisasse quando uma pessoa de confiança estivesse para fazer a viagem, porque eu gostaria de entrar em contato com minha família. Certo dia, já no final de dezembro, ela me avisou que um dos homens pretendia ir até a capital fazer compras para uma festa que estavam preparando, e então pedi para falar com ele.

O Dumé era um homem alto, forte, com os beiços muito maiores que o normal, um dos pescadores que eu já tinha visto algumas vezes por ali. Ele vivia sozinho em um casebre mais no meio da ilha, mas dividia o peixe apanhado como se fosse do terreiro. No dia em que foi ter comigo, não tirou os olhos do chão e não abriu a boca, apenas balançava a cabeça em sinal de sim ou de não a qualquer coisa que eu dissesse, mesmo quando não era uma pergunta. Fiquei com medo que ele não conseguisse dar recado algum à Esméria ou a quem quer que encontrasse na nossa casa e resolvi escrever um bilhete, dando graças por ter me lembrado de colocar papel, tinta e pena no meio da trouxa.

Quando o Dumé partiu, para passar a noite na capital e voltar no entardecer do dia seguinte, a Mãezinha me tranqüilizou, dizendo que ele só parecia bobo, mas que, na verdade, era bastante esperto, além de muito confiável. E também era um touro de tão forte, porque vi o tamanho do balaio que ele carregava na cabeça quando voltou, cheio de encomendas. Tinha força suficiente para ser dividida entre três homens, pelo menos. Eu estava ansiosa para falar com ele, mas esperei que se refrescasse um pouco antes de me entregar o bilhete de resposta.

Recados

Como eu imaginava, a Esméria já estava aflita por notícias, achando que eu tinha sido presa e mandada para alguma outra província ou mesmo para a África. O

bilhete tinha sido ditado por ela, mas escrito pelo doutor Jorge, de quem eu pensei reconhecer a letra, suspeita que foi confirmada pelos acrescentos que ele escreveu depois do que a Esméria tinha para falar. Soube que você estava bem e perguntava sempre por mim, principalmente na hora de dormir, pois estava acostumado a ouvir minhas histórias. Durante o dia, entretia-se com seu pai, que só arredava o pé de casa depois que você ia para a cama.

A Esméria não disse para que ele saía, mas eu imaginei que fosse para se encontrar com os companheiros de jogo e bebida, embora não soubesse onde ele arranjava dinheiro para manter os vícios. Dentro da carta também tinham mandado um pouco de dinheiro, que eu tinha pedido, pois assim ficava mais tranqüila, e também porque

queria

comprar

alguns

presentes

de

agradecimento para a Mãezinha e outras pessoas, sempre muito generosas comigo. Soube também que o Sebastião tinha machucado a perna, e que por isso estava passando alguns dias na nossa casa, para não ficar sozinho quando o Tico e o Hilário viajavam. Aliás, o Tico tinha viajado para o Recôncavo antes de acontecer o cerco à cidade e não tinha conseguido voltar, o que acabou sendo muito bom. De fora do cerco, ele conseguia fazer com que vocês recebessem comida, dando dinheiro aos guardas que vigiavam a fronteira. O

Hilário tinha ido até São Jorge dos Ilhéus e por lá ficou, aproveitando a companhia da noiva, quando soube que não conseguiria entrar em São Salvador. O Tico conseguia fazer atravessar bastante comida, que era dividida com a sinhazinha, e por isso eu soube que na casa dela estavam todos bem e não tinham conhecimento da minha viagem. A Esméria queria saber notícias da amiga, a Mãe Assunta, sobre quem eu disse ter encontrado, sem comentar os problemas de saúde.

Ela também perguntava se poderia tentar me visitar, e a resposta já era dada pelo doutor Jorge logo abaixo, dizendo que era melhor permanecermos daquele jeito por mais um tempo, que ele avisaria quando a situação estivesse mais calma. Fiquei feliz em ler, antes da assinatura dele, que sentia a minha falta e daria um jeito de ir à ilha. Li aquela carta tantas vezes, tentando amenizar a saudade que sentia de vocês, que poderia jogá-la fora e mesmo assim saber a ordem de todas as palavras, de todas as frases.

Mas, em vez de diminuir, minha tristeza aumentou, porque eu não queria mais ficar longe. Muitas e muitas vezes me peguei pensando se não haveria o perigo de o doutor Jorge estar me afastando de vocês por algum motivo que eu desconhecia, mas não consegui encontrar nenhum. Eu olhava a cidade ao longe, as corvetas de guerra ancoradas na baía, e tinha vontade de voltar nem que fosse a nado, e hoje fico pensando que tudo poderia ter sido muito diferente se a coragem tivesse vencido o medo.

A maioria das coisas que o Dumé tinha comprado era para as festas de fim de ano. Não festas tradicionais como se via na cidade, mas de agradecimento aos orixás.

E não só aos orixás; foi o que percebi quando, a pedido da Mãezinha, tiraram da casa da Mãe Assunta um enorme baú e o levaram até a casa dela, e ao lado do qual passei uma noite inteira de muita curiosidade. Na manhã seguinte, não me afastei da casa, porque sabia que a qualquer hora a Mãezinha mexeria naquilo. Depois do almoço, o baú foi levado para o casebre onde ela fazia os atendimentos e obrigações, como se ele guardasse um segredo que nem todos podiam conhecer.

Fiquei parada à porta, como quem não quer nada, mas

torcendo para não ser mandada embora, e vi quando ela o abriu e foi tirando máscaras e desdobrando roupas coloridas, que passava para duas ajudantes. Elas queriam saber se tudo estava em ordem, se as cores das máscaras tinham que ser avivadas, se as roupas precisavam de reparo. Vendo o meu interesse, e sem que eu perguntasse nada, apesar de já desconfiar que eram roupas de cultos gelédés, a Mãezinha me contou algumas histórias, e só então percebi o poder daquela mulher, a força de suas palavras e de sua fé.

Não tenho idéia do que você sabe sobre os cultos da minha terra, e peço desculpa se nada do que eu contar aqui for do seu interesse. Mas são coisas que eu contaria se estivéssemos juntos, coisas das quais gostei de saber e acho importante que você saiba também. Então, vou falar sobre como muitos africanos, principalmente os iorubás, vêem a morte, do jeito que a Mãezinha me contou naquele dia. O corpo, esse que a gente toca e vê, é chamado de ara, e quando morremos ele volta a se fundir com a natureza.

Mas há também o corpo que não vemos, dividido em quatro partes. A primeira é o emi, o sopro vital que é criado por Oxalá e que depois de abandonar nosso corpo volta para as forças controladas por ele, para depois ser usado em outro corpo. A segunda parte é o orí, a cabeça, onde está nosso destino e que morre junto com o ara, porque cada pessoa tem um destino, ninguém herda o destino do outro. A terceira parte é o orixá, a nossa identidade, que define os nossos defeitos e as nossas origens, qualidades, forças e fraquezas, e que é uma parte muito pequenina do orixá geral, para quem retorna depois da morte do nosso corpo. E por último existe o egum, que é como se fosse a nossa memória de passagem pelo ayê, pela terra, o nosso espírito que volta para o Orum e que depois pode retornar, nascendo geralmente dentro da mesma família, por muitas e muitas gerações. São esses espíritos que, de certa

maneira, podemos comparar ao que a minha avó chamava de vodum, e que, por serem espíritos importantes para uma família ou um povo, devem ser sempre lembrados e cultuados. Eu já sabia um pouco de tudo isso, mas foi bom a Mãezinha explicar desde o início, porque ficou mais fácil entender o que viria em seguida.

Eguns e egunguns

Com palavras muito bem escolhidas e voz tranqüila, a Mãezinha parecia receber inspiração especial ao falar de uma força que nós, mulheres, temos à disposição e devemos aprender a usar. Ela contou que, quando o mundo foi criado, Olodumaré, o Deus Supremo, mandou três divindades à terra: Ogum, o senhor do ferro, Obarixá, o senhor da criação dos homens, e Oduá, a única mulher e a única que não tinha poderes. Por causa disso, Oduá foi se queixar a Olodumaré e recebeu dele o poder do pássaro contido em uma cabaça, o que fez dela uma lyá Won, a nossa mãe suprema, a mãe de todas as coisas e para toda a eternidade, a que dá continuidade a tudo que existe ou venha a existir. Olodumaré disse a Oduá que, a partir de então, o homem nunca mais poderia fazer nada sem a colaboração da mulher.

Com o poder dos pássaros, as mulheres receberam de graça e de nascimento o axé, que é uma energia que os homens têm que cativar. Não me lembro direito da explicação para este poder estar desde sempre com as mulheres, mas acho que está relacionado ao ninho, representado pela cabaça, ou ao ovo, gerado pelo pássaro. Só sei que, por meio dele, as mulheres passaram a ser as que geram, as que fertilizam, as donas da barriga, que é por onde circula toda a energia e a vida do corpo, através do sangue. É por isso que as mulheres têm as regras, porque o grande poder feminino segue o rastro do sangue.

Olodumaré também alertou Oduá que esse era um poder muito grande, maior do que qualquer outro, e que por isso deveria ser usado com cuidado. Mas Oduá abusou, o que fez com que Obarixá fosse se queixar a Olodumaré, preocupado e humilhado com o poder concedido às mulheres. Olodumaré fez o jogo do Ifá para Obarixá e o ensinou a conquistar e vencer Oduá, usando a astúcia e fazendo sacrifícios e oferendas. Ele seguiu os conselhos e conseguiu se casar com Oduá depois de tê-la enganado, fazendo com que comesse uma de suas quizilas (Quizila: Tabu que os orixás têm em relação a certos alimentos). Com o passar do tempo, Obarixá conquistou a confiança de Oduá e descobriu de onde vinha grande parte do seu poder, o culto aos eguns. Ela também mostrou a roupa especial dos eguns e deixou que ele, em segredo, participasse dos cultos.

O que Oduá não sabia era que tudo isso fazia parte dos planos de Obarixá, que aproveitou um dia em que ela saiu de casa para modificar e vestir a roupa de egum, chamado então de egungum, e foi assim vestido para a cidade. Quando viu a roupa de egungum andando e falando, Oduá percebeu que tinha sido enganada e reconheceu que merecia ser castigada pelo descuido.

Ela então prestou homenagem à esperteza de Obarixá e mandou que o pássaro pousasse sobre ele, para que ele tivesse o poder de transformar em realidade tudo o que dissessem as suas palavras.

Depois disso, Oduá nunca mais participou do culto aos egunguns, permitido somente para homens, e ficou com o culto às íydmis. Deu para entender? Os eguns masculinos são os egunguns e os femininos são as lyámis. Os egunguns são cultuados separadamente, e somente pelos homens, como um castigo ao abuso e ao descuido de Oduá. Mas, como uma homenagem às mulheres, os homens vestem roupas de mulher. Toda íydmi, ou íydmi agbd, (ydmi agbd: minha mãe ancestral) é cultuada na pessoa de íydmi òsòròngd, que também é

chamada de iyãnla, (IyãNla: A Grande Mãe), e para isso as mulheres se unem nas sociedades gelédés. A Mãezinha fazia parte de uma delas, ali mesmo na ilha.

íydmi òsòròngd também pode ser chamada de Íyemònjd-Òdud, a dona dos mares, a dona das águas que nutrem e fecundam a terra, o grande útero do mundo. Você sabia que Xangô é também um egungum? Acho que só no Brasil ele é tratado como orixá, mas na verdade é um grande ancestral do povo iorubá, um dos mais importantes reis de que já se ouviu falar em toda a África.

Naquele baú, a Mãezinha guardava também bonitas máscaras feitas de madeira e enfeitadas com entalhes de penas ou penas verdadeiras. Algumas delas tinham só a parte da frente e outras cobriam toda a cabeça, como um saco que se enfiava até o pescoço, e eram bastante pesadas.

Não experimentei, mas dava para perceber que não era nada confortável vestir aquilo. Enquanto me mostrava as máscaras, a Mãezinha contou que as mulheres das sociedades gelédés são chamadas de feiticeiras, por causa das sete lyámis que foram enviadas ao ayê por Olodumaré. Essas iydmis têm a capacidade de se transformar em pássaros, e o som emitido por um desses pássaros é que dá nome à sociedade: òsòrongà. Quando as sete feiticeiras foram mandadas à terra, pousaram sobre seis árvores, sendo que três escolheram árvores do bem e três escolheram árvores do mal. Restou apenas uma, que ficava voando de um lado para o outro, entre o bem e o mal.

Devemos estar sempre de bem com elas, prestando homenagens, para que não nos queiram mal, pois o feitiço das iydmis é extremamente poderoso, ninguém pode com elas. A minha avó conhecia o poder desses pássaros, porque naquela tarde, sob o iroco, ela se referiu às sombras deles, dizendo que eram de mau

agouro. A Mãezinha confirmou que a sombra das lyámis é fatal, e que se uma delas passar sobre a nossa cabeça, pode ser que ainda nos salvemos, e somente a força das mulheres pode amenizar o poder das iydmis, porque somente as mulheres têm o axé natural, que vem do nosso ventre, dos nossos seios e das nossas regras. Mas se por acaso, alguma das iydmis pousar sobre a nossa cabeça, não há salvação, pois nenhum axé é tão poderoso quanto a força delas. Quando se fala no nome delas, quem está de pé tem que fazer uma reverência, e quem não está tem que se levantar imediatamente, para não correr o risco de elas se vingarem pela falta de respeito.

A Mãezinha disse que em São Salvador havia um lugar sagrado para o culto gelédé, e me lembrei de já ter visto algumas pessoas caminharem por lá com as mãos sobre as cabeças, provavelmente com medo das sombras. É

um lugar chamado Dendezeiros do Bonfim, onde provavelmente ainda existe um grande iroco, sob o qual as pessoas evitavam passar durante a noite, principalmente à meia-noite, quando é ainda mais forte o poder das iydmis, assim como ao meio-dia. Quando ela soube que eu era do Daomé, disse que muitas pessoas da minha terra se reuniam em um lugar chamado Bogum, que provavelmente era um jeito de dizer

"vodum".

Eu sabia que ficava na Federação e era freqüentado sobretudo pelos mais velhos como eu, que cultuavam o vodum Zogbo. Senti pena por não ter freqüentado o local, porque quanto mais o tempo passava, mais eu tinha vontade de saber sobre os cultos da minha avó.

Acho que essa vontade já estava me preparando para o chamado, porque eu tinha certeza de que precisava saber de muitas coisas que a minha avó não teve tempo de contar e que eu deveria passar adiante. Não sei para quem, porque já naquela época eu e você éramos os únicos sobreviventes do que já tinha sido uma família,

nos tempos de Savalu.

Não cheguei a participar da grande festa que a Mãezinha estava organizando, mas ela me contou quase tudo que ia acontecer, talvez porque já soubesse que eu não estaria presente. Eu também tinha essa sensação, mas imaginava que teria voltado para casa, e não ido para mais longe. Um dos períodos mais difíceis foi o das festas de Natal e Ano-novo, quando me lembrei com imensa saudade dos bons momentos que tivemos no sítio da Barra, as visitas das pastorinhas, os cânticos, as comidas especiais que a Esméria e o Jongo preparavam.

Na casa da Mãezinha, o Natal era um dia comum e não teve festa, a não ser um culto para Oxum, por ter caído no dia da semana dedicado a ela.

Uma das mulheres me convidou para uma festa em honra de Oxalá, que os pretos rezavam como sendo Jesus Cristo, mas eu não estava com vontade de participar de festa alguma, a menos que fosse na minha casa, com vocês. Depois de oferecer prendas para Oxum, fui para a praia e fiquei olhando a cidade de São Salvador. Imaginava as famílias inteiras vestindo suas melhores roupas e saindo para as missas que eram realizadas em todas as igrejas da cidade, e depois voltando para suas casas enfeitadas com presépios e velas, onde todos ceavam ao redor de mesa farta e cheia de gente.

Ao longe eu ouvia o pipocar de fogos e sinos e tentava imaginar o que vocês estariam fazendo, se você já tinha parado de perguntar por mim, assim como parou de perguntar pelo Banjokô pouco tempo depois da ida dele para o Orum, e como ele também tinha parado de perguntar pela sinhá. As crianças esquecem com facilidade, têm a vida toda para repovoar a memória com lembranças boas, e por isso não têm muita necessidade de lamentar as más recordações.

A festa de passagem de ano foi um pouco menos triste e começou três ou quatro dias antes, com a preparação dos presentes para Iemanjá. Em homenagem a ela, todos estavam vestidos de azul e branco. Senti muita falta dos meus vestidos bonitos, das roupas que sempre me orgulhei de vestir, que eu não tinha levado e nem teria coragem de usar entre os novos amigos. Estava irritada e triste com outras coisas, com o confinamento na ilha, mas escolhi a falta de conforto como causa principal, até porque era mais fácil lidar com ela, pois tinha certeza de que um dia tudo aquilo ia passar.

Eu queria ter a mesma certeza em relação a estar logo com vocês, e embora pensasse nisto todos os dias, rezando para acontecer depressa, algo em que nunca quis acreditar me dizia o contrário. Mas eu encarava isso como um simples temor, um cuidado com o destino, e procurava me distrair com outras coisas quando percebia que os pensamentos começavam a caminhar por lugares aonde eu não queria ir. Encontrei boa distração na festa para Iemanjá, que foi uma celebração muito bonita. Os homens fizeram um barquinho de madeira, que enfeitamos com flores e bandeirolas de papel e de pano, para depois encher com presentes para a vaidosa orixá. Muitos desses presentes fiz questão de comprar com meu dinheiro, quando percebi que eles não tinham muitos recursos.

A Mãezinha disse que a generosidade não era muito comum nos filhos de Oxum contemplados pela riqueza, como era o meu caso, e que por isso tinha gostado de ver em mim um bom coração. Ficamos todos na praia, com os tambores batendo primeiro para Exu, o mensageiro, e depois para Iemanjá, para que ela aceitasse os pedidos e as oferendas que lançávamos ao mar. Dentro do barco ela recebeu perfumes, colares, anéis, espelhos, enfeites para a cabeça, pulseiras, leques,

broches,

comida,

bebida

e

muitos

agradecimentos. Rezamos todos juntos e caminhamos

um pouco pela praia, até o ponto onde a maré devolvia o que o mar rejeitava. Naquele dia não estávamos procurando nada, apenas nos certificando de que Iemanjá tinha aceitado os presentes, levando-os com ela para o meio ou para o fundo do mar. Depois de alguns minutos de expectativa, quando um dos homens, que era pescador e conhecia os caprichos do mar, confirmou que já teria dado tempo de o barquinho voltar, se fosse o caso, começou a festa. Todos estavam alegres e cantavam e dançavam para seus orixás, com os tambores batendo ora para um, ora para outro. A batida mais longa e bonita foi para Xangô, orixá da Mãezinha, que nem parecia ter aquele corpanzil todo quando rodopiava leve e bonita para honrar seu pai.

Fiquei de longe, admirando e sentindo enorme paz, e foi com extrema alegria que entrei na roda quando ouvi o toque para Oxum. No segundo dia de janeiro de um mil oitocentos e trinta e oito, perguntei à Mãezinha se podia pedir que o Dumé fosse até São Salvador. O preto apareceu com muito boa vontade, e mandei um recado para o doutor Jorge, perguntando como estavam as coisas na cidade e querendo saber se ele já tinha alguma previsão sobre o dia da minha volta. No fim da tarde seguinte eu estava ajudando a Mãezinha a preparar o jantar quando o Dumé voltou e disse que o moço tinha preferido dar a resposta pessoalmente e estava me esperando na praia. Nem perguntei em que lugar da praia e saí correndo, para só então pensar que não estava arrumada de acordo para me encontrar com o doutor Jorge. Coisa sem sentido para se pensar em uma hora daquelas, em que eu precisava demais estar perto de pessoas que fossem velhas conhecidas.

Ele também pareceu feliz em me ver e me abraçou forte até que eu tivesse fôlego para conversar. Como não tinha esperado as orientações do Dumé, eu tinha corrido primeiro até o atracadouro, que não estava sendo usado naqueles tempos de confusão em São Salvador. Em

princípio, ninguém poderia sair da cidade, que estava cercada, e aquele atracadouro servia apenas para as embarcações que ligavam a ilha à capital, pois as de outros destinos atracavam em diferentes pontos da ilha.

Dúvidas

Eu tinha muitas perguntas a fazer, principalmente sobre vocês e a minha volta para São Salvador. Às primeiras ele respondeu com detalhes, pois parecia que os laços de amizade com o Alberto tinham se estreitado ainda mais. Quanto à revolução, as notícias não eram nada boas, pois a cidade estava vivendo tempos difíceis e de grande expectativa, com as tropas rebeldes esperando para serem atacadas a qualquer momento pelas tropas oficiais, que recebiam treinamento no Recôncavo. Eu ainda não podia nem pensar em voltar, e fiz um grande esforço para aceitar as explicações que ele me dava, pois eu não era responsável por nada que estava acontecendo.

Ou antes, eu não tinha colaborado em nada, e foi somente por intermédio dele, do doutor Jorge, que tomei conhecimento de tudo antes de ser presa. Quem deveria estar no meu lugar era ele, que conhecia os rebeldes e que com certeza tinha colaborado com eles, e em relação a isso a única justificativa que ele conseguiu me dar foi que era brasileiro, além de mulato claro, que ainda tinha para embranquecê-lo o fato de ser médico.

Ele não disse isso para me humilhar ou diminuir, mas para me fazer entender que, apesar de não ter culpa por ser africana e preta, eu seria constantemente punida por isso, o que em si já era revoltante. Outra notícia levada por ele foi sobre a mudança de vocês. Primeiro, achei que fosse mais uma ardileza do destino, mas depois achei que vocês ficariam mais seguros, pelo menos enquanto eu não estivesse por perto.

A Ressequida tinha conseguido a posse da nossa casa e

da padaria, e como eu já estava esperando por isso, não me espantei tanto. Mas gostaria muito de ter estado com vocês, ou pelo menos de ter me despedido da casa onde tinha vivido muitos momentos difíceis, como a morte do seu irmão, mas também muitos outros de grande alegria.

O doutor Jorge, o Alberto e o mestre Agostino cuidaram de tudo, levando nossas coisas para a casa do Tico e do Hilário. Era um sobrado grande e confortável, e vocês estariam bem instalados lá, mas não era a nossa casa. O

Alberto, a Malena e a Claudina também foram, já que ele se sentia muito humilhado para voltar a viver com a Ressequida e tinha boas relações com os meninos. A Malena não tinha para onde ir, não tinha parentes na cidade e estava muito acostumada a viver conosco, sendo boa companhia, além de cuidar muito bem de você e da Esméria, que estava sendo vencida pela velhice. Fiquei espantada foi por a Claudina ter sido convidada e mais ainda por ela ter aceitado. Comentei isso com o doutor Jorge, e ele disse que ela e o Tico estavam se deitando havia algum tempo.

O doutor Jorge voltaria para a capital ainda naquela noite, em um saveiro que faria a travessia até o Bonfim, aproveitando a escuridão para se esconder das fragatas de guerra ancoradas na baía. No fim da tarde, tendo ainda algumas horas pela frente, nos deitamos em uma clareira que eu conhecia ainda dos passeios com a Felicidade. Mais tarde, enquanto ele dormia e eu olhava estrelas, fiquei com muita raiva de mim, por ter me entregado a um homem que eu achava ser o culpado pelo que estava me acontecendo. Sem ele, eu provavelmente não teria ficado sabendo da Cemiterada, de federalistas, de nada daquilo. Comecei a chorar e senti uma vontade muito grande de me lavar por fora também. Deixei-o dormindo e aproveitei a lua cheia para me mostrar o caminho até uma cachoeira não muito longe de onde estávamos.

Entrei na água e fiquei chorando por horas, não apenas

pelo acontecido naqueles últimos dias, mas durante toda a vida. Não era bem saudade, mas tudo que eu queria era poder voltar no tempo, brigar com o destino ou conseguir enganá-lo, e escolher novos caminhos.

Pensava em todas as pessoas que tinha conhecido na ilha, na fazenda, e tentava imaginar o destino delas, que tipo de vida estariam levando e onde, se melhor ou pior que a minha. Cenas inteiras eram avivadas e eu parecia ouvir novamente o urro do Lourenço sendo currado pelo sinhô José Carlos. Mas não era um urro que vinha dali, daquelas terras, parecia vir pelo mar, direto de África.

Provavelmente me lembrei do Lourenço por causa das tantas vezes que quis me deitar com ele naquela ilha sem que meu desejo tivesse se realizado.

Fiquei na água até quase amanhecer e então voltei para casa, onde entrei com muito cuidado para não acordar a Mãezinha. Mas minutos depois, antes mesmo de o sono me vencer, apesar do cansaço, fomos surpreendidas por alguém que chamava meu nome do lado de fora da cabana. Era o Dumé, que tinha encontrado o doutor Jorge andando pela praia, querendo saber do meu paradeiro. Acho que só mesmo alguém que não está bem para se comover com uma atitude daquelas, vinda de um homem com quem eu tinha decidido nunca mais falar.

Com a mudança de vocês para a casa do Tico e do Hilário, isso seria até mais fácil.

Mas quando fui me encontrar com ele na praia já tinha mudado de opinião, achando que ele não era mais culpado de nada, que realmente se preocupava comigo e queria o meu bem. Ainda mais quando a primeira coisa que fez foi pegar as minhas mãos enrugadas pelo longo tempo dentro da água e perguntar por que eu tinha fugido, se ele tinha feito alguma coisa errada. Nunca imaginei que se importasse, pensei que simplesmente se veria sozinho no meio do mato, se levantaria e tomaria o barco de volta, como estava previsto.

Mas ele disse que ficou desesperado ao acordar e não me ver, que tinha pensado em muitas coisas ruins, que tinha saído gritando meu nome e se preocupado demais por não ter resposta. Eu não quis justificar nada e nem me desculpei, e acredito que isso o deixou magoado, apenas disse que tinha ido tomar um banho de cachoeira e voltado para casa. O Dumé ficou de levá-lo até um lugar de onde também estavam saindo embarcações para a capital, para Itapuã, e nos despedimos com ele dizendo que mandaria notícias e levaria recados meus para você e a Esméria.

Os dias se arrastavam e eu já estava pensando em voltar para a capital mesmo que isso implicasse correr riscos.

Percebendo minha aflição, a Mãezinha me disse para ter calma e esperar, porque não havia nada que eu ou qualquer pessoa pudesse fazer, pois o destino cuidaria de ajeitar tudo da melhor maneira possível.

Conversamos muito e ela conseguiu me deixar mais tranqüila, e também animada com o convite para participar de uma cerimônia egungum dentro de poucos dias.

O convite foi feito perto do Zé Manco, que tinha apresentado a ela o culto no qual ele exercia função importante, no terreiro de um africano chamado Tio Serafim. Aceitei com muita honra, pois sabia que era raro um convite para se conhecer um terreiro egungum, lugar cercado de muitos mistérios, e ainda mais para ver uma cerimônia. Mas quando estávamos preparados para sair, quase desisti, sentindo um medo que não me pareceu normal, e de fato não era.

O Zé Manco tinha ido para a casa da Mãezinha na noite anterior, para nos acompanhar na caminhada assim que amanhecesse. Pelo que falaram, não era muito longe, mas a Mãezinha tinha grande dificuldade para caminhar e precisávamos descansar pelo caminho, uma picada no meio do mato. Até o último momento eu sentia o coração

apertado e as pernas como se estivessem presas ao chão, pesadas demais para se moverem. E até pensei que, vencendo o medo de ir ao culto, eu também conseguiria vencer o de voltar para São Salvador, apesar dos conselhos do doutor Jorge.

Comecei a me preocupar quando já tínhamos caminhado um bom trecho e a Mãezinha perguntou se eu estava me sentindo bem, mesmo com todo o esforço que eu fazia para esconder o mal-estar. Eu disse que estava bem, apenas um pouco nervosa, mas ela comentou que não era só isso, que podia sentir algo diferente. Pediu que parássemos um pouco e se ajoelhou, fechando a mão em torno das contas que carregava no pescoço e cerrando os olhos para se concentrar em rezas ditas para si mesma, em iorubá. Ficou assim por pouco tempo, e quando o Zé Manco a ajudou a se levantar, disse que a Mãe Assunta estava chamando. O Zé Manco fez uma expressão contrariada mas não contestou, e foi com grande alívio que tomei o caminho de volta para o terreiro.

O pertence

A Mãezinha entrou na casa da Mãe Assunta e eu e o Zé Manco ficamos esperando do lado de fora, em silêncio.

Ele enrolava um cigarro e quase podíamos ouvir o som da palha apertando o fumo, apesar dos gritos de algumas crianças que brincavam e da cantoria de duas pretas que varriam o chão de terra com vassouras de folhas secas. Quando o Zé Manco acabou de fumar o cigarro, a Mãezinha apareceu na porta do casebre e perguntou se eu estava tendo sonhos estranhos, dos quais não sabia direito o significado.

Foi ela dizer isso para eu me lembrar de ter acordado algumas noites com a sensação de interromper um sonho importante, e voltar a dormir logo em seguida sem me lembrar de nada. Ela então disse que iam

retornar, mas eu tinha que ficar, pois não podia ir muito longe até descobrir o significado dos tais sonhos, e que ela me ajudaria quando voltasse no dia seguinte. Antes de partir ainda me pediu para tentar lembrar se algum dia já tinha sonhado com algo que parecesse ou que de fato fosse uma premonição, e se nesses sonhos tinha aparecido alguém que eu conhecia, e ficamos de conversar sobre isso no dia seguinte, que aquele assunto era muito importante para ser tratado com pressa.

Depois que os dois partiram, fiquei tentada a entrar no casebre da Mãe Assunta e perguntar o que as duas tinham conversado. Mas resisti e fui procurar o que fazer durante o longo tempo que seria aquela espera.

Peguei tecido e linha para um bordado, fui para a praia e me sentei à sombra de um coqueiro, de onde olhava a cidade e me perguntava o que teria sido a minha vida se eu e a Taiwo não estivéssemos naquela praia de Uidá no dia da chegada do branco que se interessou por nós como presente. As lembranças daquele dia me pareciam muito mais recentes e coloridas que as lembranças dos dias posteriores, passados no armazém, no navio, na Ilha dos Frades, no mercado de São Salvador e até mesmo na Ilha de Itaparica.

Isso me fez perceber que estava me afastando dos meus, da minha mãe, do Kokumo, da minha avó e até da Taiwo, com quem cheguei a dividir a mesma alma. Eu nunca tinha tirado do pescoço o pingente que a representava, mas já não conseguia me lembrar da expressão dos olhos dela me olhando por cima dos ombros da minha mãe. Também havia muito tempo que eu não homenageava os meus mortos, e talvez por isso eles não conseguissem mais chegar até mim, pois tinha quase certeza de que era a minha avó quem estava tentando se comunicar comigo através dos sonhos.

Tentei me lembrar das canções com que ela nos entretinha sob o iroco, enquanto tecia seus tapetes, e

consegui juntar alguns trechos de uma que contava sobre um caçador que era tão corajoso a ponto de ser temido por todos os bichos da selva, e que tinha vivido em Abomé durante o terceiro reinado da dinastia que ainda deixamos por lá, dos descendentes de Dan.

Adormeci na areia e acordei quando já estava escurecendo, tomada pela mesma sensação de esquecimento. Voltei para casa e bebi um chá feito com uma erva que servia para chamar o sono, pois estava muito agoniada para voltar a dormir por minha conta.

Talvez eu tenha exagerado no chá, pois acordei no meio da tarde do dia seguinte, quando a Mãezinha já estava de volta.

Foi melhor assim, pois tive que esperar apenas que ela acabasse de dar algumas instruções às iaôs para que pudéssemos conversar. Contei das minhas memórias e ela disse que me ajudaria a aprisionar o sonho, porque sabia que ele seria muito importante para mim, e para isso já tinha mandado despachar um ebó. Pelo jeito o ebó foi muito bem-feito, pois acordei no meio da noite sem saber direito onde estava, tão nítida era a minha impressão de ter voltado a Savalu. Eu e a minha avó estávamos sentadas na margem do rio, torcendo as roupas que tínhamos acabado de lavar, as duas em silêncio, até que ela apontou o meio do rio, chamando a minha atenção.

De início não vi nada, mas logo em seguida se formou um redemoinho, e do meio dele surgiu um pote de barro que a correnteza foi levando rio abaixo. Não era época de chuva e o rio não estava muito cheio, por isso o pote deslizava devagar. Ficamos olhando por um bom tempo, até ele sair do alcance das vistas, quando a minha avó comentou que a Florinda tinha um pote igual àquele.

Ao acordar, tive a impressão de já ter vivido aquela cena, de que ela tinha mesmo acontecido, mas não podia afirmar com certeza. Parecia muito mais uma

recordação do que um sonho. Fiquei na esteira esperando o dia amanhecer, tentando rever o sonho e imaginar o que ele queria dizer de tão importante, mas não consegui perceber a relação entre o rio, o pote, a minha avó e a Nega Florinda, porque ela só poderia ter falado da Nega Florinda. Pensei que talvez devesse ir até São Salvador fazer uma visita ao Babalaô Gumfiditimi, para ver se ele tinha notícias do Maranhão, se a Nega Florinda ainda estava viva. Não estava menos preocupada do que antes de me recordar do sonho, porque naquele momento ainda não sabia o que fazer com ele. Quando parei de ouvir o ronco da Mãezinha, eu me mexi para avisar que também já estava acordada.

Contei sobre o sonho e sobre o quanto me perturbava não saber o significado dele, mas ela disse que isso não tinha importância, que o importante era eu ter me lembrado. Assim que tomamos o desjejum, ela foi ver a Mãe Assunta e voltou abraçada a alguma coisa enrolada em uma manta, que achei muito parecida com as mantas que a minha avó tecia.

Continuar: parte 2 de 8