Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 5 de 12 · parte 1/4

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Um Defeito de Cor

Capítulo três

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O sinhô não disse nada e saiu da mesa na direção do quarto. O Sebastião contou que ela então sorriu e chamou a Antônia, para que ela trocasse o prato do marido e pegasse outra vasilha de geléia, pois aquela estava estragada. E rápido, antes que o apetite fosse perdido. No prato do sinhô estava um dos olhos da Verenciana, e o outro, ainda mergulhado no pote de geléia, voltou para a cozinha. Ninguém comentou nada sobre o assunto, e naquela mesma noite o sinhô José Carlos voltou a dormir no quarto do casal, sendo que os dois pareceram mais felizes do que nunca na manhã seguinte.

Capítulo três

Aquele que tenta sacudir o tronco de uma árvore sacode somente a si mesmo.

Provérbio africano

A senzala grande

Talvez, se eu tivesse ficado trabalhando apenas na casa-grande e morando na senzala pequena, não teria sabido realmente nada sobre a escravidão e a minha vida não teria tomado o rumo que tomou. Mesmo para uma criança de dez anos, ou, talvez, principalmente para uma criança de dez anos, era enorme a diferença entre os dois mundos, como se um não soubesse da existência do outro. Um outro mundo dentro do mesmo, sendo que o de fora, a senzala grande, era muito mais feio e mais real que o de dentro, a senzala pequena.

Depois de ser expulsa pela sinhá Ana Felipa, fiquei um bom tempo escondida no mato, com raiva das coisas que aconteciam sem que tivéssemos culpa, pois eu achava que toda a minha vida tinha sido assim até então. O Tico e o Hilário contaram para onde eu tinha ido e a Esméria foi atrás de mim, dizendo que era melhor eu ir para a senzala grande antes que a sinhá pusesse o Eufrásio no meu encalço, como preta fujona.

Ela me levou até a porta do enorme barracão, pois àquela hora os pretos ainda não tinham voltado do trabalho, e me deu um pedaço de pão que, sem fome, guardei para mais tarde. Eu estava com medo, pois até então só tinha ouvido histórias terríveis sobre os selvagens da senzala grande, contadas pela sinhá ou pela sinhazinha. Só mais tarde percebi que nada poderia deixar alguém mais selvagem do que a travessia da Á

África para o Brasil, e eu também já tinha sido uma selvagem, só que não estava sozinha, pois tinha a Taiwo, a minha avó, a Tanisha, a Jamila e a Aja, só para falar das pessoas que me eram mais queridas. Senti muita falta delas e de todos que não cheguei a conhecer melhor, porque eram cúmplices. mesmo assim, sabendo parte da minha história que eles também tinham vivido Talvez a parte mais importante, porque mudava todo o resto de uma vida.

Mas na senzala grande eu também já conhecia o Afrânio, comprado no mesmo dia que eu e a Maria das Graças, o Valério Moçambique, a Rosa Mina, o Pai Osório, a mãe da Verenciana e talvez a própria, pois não sabia o que tinha sido feito dela depois que a levaram da senzala pequena. Pensei que, para a Verenciana, o mundo todo tinha realmente desaparecido, e não apenas por uns instantes, como quando eu fechava os olhos ao cruzar com os guerreiros na estrada de Savalu para Uidá. Ela nunca poderia ver o filho, como quis a sinhá.

A senzala grande não ficava muito longe da senzala pequena, e não sei por que eu nunca tinha me interessado em ir até lá. Do lado de fora, as paredes eram pintadas com cal branca e do lado de dentro ficavam nuas nos tijolos irregulares de barro, armados entre estacas de madeira.

Eram mais altas que na senzala pequena e também não chegavam até o teto de palha, deixando um vão por onde entravam o ar fresco e a claridade do dia. Faziam fundo para diversos quartos, ou baias, demarcados por divisórias também de barro, um pouco mais baixas que as paredes externas e pouca coisa mais altas que as portas de madeira que davam acesso a elas. Do alto da construção, bem no meio do vão central, pendia uma lamparina, e abaixo ficavam duas fileiras de tijolos enegrecidos, uma de frente para a outra e encimadas por uma grade de ferro, servindo de fogão.

Quando começou a escurecer, quem primeiro apareceu foi o Eufrásio, que me viu lá dentro da senzala e não falou nada. Ele se sentou sobre um caixote logo na entrada e acendeu um cigarro de palha, esperando pela chegada dos escravos, que foram anunciados por uma cantoria que, para meu espanto, era em português. Eu imaginava que longe dos senhores pudéssemos falar em iorubá ou em outra língua de África, mas me lembrei do que a Esméria tinha dito sobre o Eufrásio e seus homens.

Alguns moleques entraram primeiro, correndo, e quando deram comigo agachada junto à porta de uma das baias, pararam, ficaram olhando por algum tempo e saíram rápido do jeito como tinham entrado. Logo apareceram duas meninas que nem chegaram a entrar, olharam da porta. Eles pareciam ter mais ou menos a minha idade, apenas mais magros e estavam cobertos de fuligem, o que dava para perceber mesmo sobre a pele preta, porque era um preto diferente, sem brilho, que também sujava as roupas que estavam usando. Ficaram todos do lado de fora da senzala, deitados ou agachados, em grupos que quase não se falavam.

Pareciam cansados até para tomar a água servida por duas mulheres que equilibravam tinas sobre a cabeça e iam abastecendo uma caneca passada de mão em mão, a mesma para todos os escravos. Mais tarde, quando já pareciam ter descansado um pouco e se davam às conversas, uma outra cantoria anunciou a chegada dos que trabalhavam na roça ou no engenho, e eu não pensava que pudessem ser tantos.

Depois que todos tomaram água, descansaram e conversaram um pouco, o Eufrásio mandou que entrassem e avisou que a sinhá não queria saber de cantoria naquela noite. Não ouvíamos nada da senzala pequena, e imagino que muito menos da casa-grande, que era ainda mais afastada. Talvez porque a casa-

grande e a senzala pequena estivessem localizadas em uma parte mais baixa do terreno e a senzala grande, logo depois de uma elevação, que impedia que os sons fossem levados pelo vento. Vento que também soprava na direção contrária, do mar para o interior da ilha.

Eu não sabia o que fazer ou onde ficar, enquanto, no escuro, todos entravam para as diversas baias, onde cada um já tinha o seu lugar. O Eufrásio pôs um pouco de óleo no lampião e eu pude enxergar a Rosa Mina. Fui até ela e perguntei se podia me indicar um lugar para dormir. Não sei se me reconheceu de imediato, mas disse que eu podia ficar na pequena baia onde, além dela, dormiam mais quatro mulheres, a Ignácia, a Felicidade, a Liberata e a Policarpa. A porta foi trancada assim que entramos, e a Rosa Mina indicou o canto onde ficava a esteira dela, dizendo que ia dividi-la comigo, e depois pediríamos a um dos moleques para buscar a minha. Eu disse que também precisava dos meus Ibêjis e do Xangô, que tinham ficado no esconderijo, mas ela comentou que não era para eu me preocupar, porque pelo menos de Xangô estávamos servidas, e saudou a Ignácia e a Liberata com um kaô, pois as duas nagôs eram filhas dele. Ouvimos batidas na porta principal e depois alguém gritando para que parássemos de falar, que não queria saber de nenhuma conversa naquela noite. No meio de tanta gente o silêncio era maior ainda, e o cheiro de sujeira, de suor, de gordura e de fumaça, tudo misturado, também era mais forte.

O cheiro doce e enjoativo, que às vezes sentíamos da senzala pequena e mesmo da casa nos dias em que o vento virava, era quase insuportável. Cheiro que não parecia ser do ar, mas sim estar grudado nos corpos dos pretos. Aos poucos, os sons e as vozes foram voltando e eu pude reconhecer, além do português, algumas línguas de África, e percebi que não havia ninguém ali dentro para nos vigiar. Mas era possível ouvir vozes e risos do lado de fora, o que significava que os homens do

Eufrásio estavam por perto, como ficavam a noite toda, para evitar que alguém fugisse.

Depois que os olhos se acostumaram, mesmo na escuridão percebi sombras por cima das paredes divisórias das baias e me assustei quando um vulto surgiu de repente, equilibrando-se por cima da nossa. A Ignácia comentou que eram os homens que iam se juntar às suas amásias, já que homens e mulheres dormiam em baias separadas. Disse que algumas famílias ficavam juntas, mas só depois que houvesse casamento, porque o sinhô não permitia que vivessem em pecado, embora fosse raro aparecer um padre para realizar as cerimônias.

As últimas tinham acontecido havia mais de cinco anos e alguns dos casais tinham sido desfeitos e outros tinham se formado, e havia até filhos das uniões clandestinas que já estavam na lida junto com os pais. Logo em seguida comecei a ouvir gemidos abafados, suspiros e risos, o que também fazia aumentar um pouco o tom das conversas antes sussurradas, menos para encobrir os amantes e mais para evitar o silêncio constrangido dos que estavam sozinhos.

Nenhuma das minhas companheiras de baia recebeu visita, e a cada momento uma delas tentava puxar uma conversa qualquer, sem continuidade. Eu me interessei quando ouvi a Liberata falar o nome da sinhá Ana Felipa, mas logo em seguida ela se calou, ao perceber que eu tinha me mexido na esteira. Ela era a mãe da Verenciana, e fiquei feliz quando a Rosa Mina disse que podia continuar, pois eu era de confiança, que não estava ali para espiar ninguém. Então a Liberata comentou que não costumava confiar muito em cria de casa-grande porque, muitas vezes, para voltar para lá, no bem-bom, prestava serviço de informação, mas se a Rosa Mina garantia, ela continuaria. Eu nada disse, e deu para perceber que falavam sobre umas ervas que a Liberata tinha feito chegar até a Antônia, na casa-grande, que seriam colocadas na comida e fariam o ventre da sinhá secar de vez, não deixando brotar nem suspeita de nova criança.

A Rosa Mina perguntou pela Verenciana e a Liberata respondeu que a filha tinha ido embora com a Nega Florinda, e que ia ficar na casa dela até a criança nascer, para depois decidirem o duplo destino. Contou que o sinhô José Carlos tinha mandado recado pelo Eufrásio dizendo que ia dar a alforria para ela e a criança, que estava só esperando para saber se nasceria menino ou menina, por causa do nome a constar na carta.

A Liberata estava com medo de que a teimosia da Verenciana pusesse tudo a perder, pois ela não queria colocar no filho, ou filha, o apelido do sinhô, como era de uso. Não queria saber de nada que lembrasse a sinhá, que também usava o mesmo apelido, e ia inventar um outro qualquer, já que seria livre. Sem que a sinhá soubesse, o sinhô José Carlos estava cuidando muito bem da Verenciana, enviando mantimentos por um de seus homens e até pagando para a Nega Florinda cuidar dela, que não prestava para fazer quase nada sozinha sem enxergar. Mudando de assunto, a Policarpa comentou que dois homens tramavam fuga para dali a alguns dias, de trato com os pretos da fazenda vizinha que estavam construindo um barco às escondidas, no mato. Naquela primeira noite, a única voz que não ouvi foi da Felicidade, que parecia ter a minha idade e de quem também não vi o rosto direito, pois dormia no canto oposto ao meu. Eu queria ter continuado ouvindo a conversa, mas as vozes começaram a rarear, os casais pararam com os suspiros e os gemidos e já era possível ouvir alguns roncos. Então, o cansaço daquele dia também me venceu.

O trabalho

Na minha primeira manhã na senzala grande, antes de o sol nascer, o Eufrásio e seus homens já estavam berrando que éramos um bando de preguiçosos.

Algumas pretas tinham se levantado primeiro e a comida já estava servida no descampado logo à saída, e não passava de um mingau ralo de farinha e água, onde boiavam alguns pedaços de toucinho. Eu me lembrei da comida da casa-grande, da qual sentiria falta, mas não fiquei triste por estar ali, sentindo-me até mais à vontade.

O Eufrásio gritou o meu nome de branca, Luísa, e fui até perto dele, que me informou que, por ordem da sinhá, eu trabalharia na fundição, junto com o terceiro grupo de pretos que se preparava para sair. Engolindo o mingau junto com os gritos para que se apressassem, os primeiros a formar fila e a puxar o canto foram os da plantação de cana e do engenho, onde trabalhavam todas as minhas companheiras de baia. Os que iam para a pesca da baleia seguiram junto com três empregados, tomando o caminho do atracadouro, o mesmo que percorreríamos logo em seguida.

Era um caminho irregular, pelo meio da mata, e um homem armado ia à nossa frente, um atrás e mais dois de cada lado, embora eu não soubesse dizer que tipo de perigo um grupo como o nosso podia representar.

Éramos quatro homens, três mulheres e oito crianças, incluindo as que ficaram me observando na noite anterior. Mesmo no escuro da madrugada, pude perceber que uma delas tinha o braço direito e metade do tronco com a pele toda repuxada, como se tivesse sofrido uma terrível queimadura, sendo que em algumas partes, principalmente no braço, a pele parecia estar esticada quase sobre o osso, sem nenhuma carne por baixo. Outra menina tinha a mão enfaixada com um pedaço de pano sujo de sangue e de fuligem.

A fundição ficava em uma clareira a poucos metros da

praia, onde foi possível ver os pescadores se preparando antes de saírem para o mar em cinco chalupas. Por não haver ainda luz suficiente, não consegui saber quantos homens iam em cada uma delas, mas vários vultos se mexiam para içar as velas e fazer os cascos deslizarem sobre as águas. Eu já tinha visto baleias ao longe, da praia em frente à casa-grande, e era bonita a dança que elas faziam no mar, ora dando saltos para fora da água, ora mergulhando para aparecerem mais à frente, abanando o rabo, esguichando água numa chuva ao contrário.

Devia ser ainda mais bonito ver uma baleia de perto, e senti vontade de partir com aqueles homens corajosos, dispostos a enfrentar um animal muito maior que seus barcos. O grito do mestre baleeiro, ordenando seus homens, provocou a revoada de um bando de pássaros que estavam pousados em três carcaças de baleia abandonadas na praia, soltando um cheirume que ficava cada vez mais forte, à medida que nos aproximávamos do nosso barracão de trabalho.

A fundição funcionava em um espaço aberto, somente uma armação para o mesmo tipo de cobertura de palha das senzalas, mas enegrecida pela fuligem. Bem no meio do teto havia um buraco por onde saía uma enorme chaminé, que tinha na parte de baixo vários canos que se espalhavam por todo o espaço, terminando sobre tonéis colocados em cima de fornos que eram chamados de caldeiras. Quinze caldeiras. Logo além delas ficava um imenso balcão onde havia uma baleia, metade inteira e metade descarnada, só o esqueleto. O dia começava a clarear e os homens foram apanhar lenha e colocar embaixo das caldeiras, acendendo o fogo da fundição.

Atrás do balcão havia quatro grandes tachos e alguns moquéns (Moquém: grelha de madeira ou de ferro montada sobre fogo, onde se coloca carne ou peixe para secar), e as mulheres se dirigiram para lá, também

acendendo o fogo debaixo deles. Um dos empregados chamou a minha atenção dizendo que eu não estava ali para vigiar, que tratasse de tomar o meu posto. Quando respondi que não sabia o que tinha que fazer, ele me deu uma bofetada para eu aprender a não ser tão insolente, pois ali não se admitiam pretinhas atrevidas. Fui para perto das outras crianças e imitei o que elas estavam fazendo, com vontade de chorar, mas me segurando para não dar a ele esse prazer.

Primeiro, tínhamos que ir até o balcão onde estava a baleia e separar os pedaços de carne dos pedaços de gordura, formando dois montes. Quem fazia o serviço de cortar a baleia eram os homens, com enormes facões, e por isso o excesso de segurança no caminho. As carnes ficavam com as mulheres, para partir em pedaços e cozinhar ou moquear. O que sobrava depois disso, a gordura, era o que nós, crianças, tínhamos que pegar e colocar dentro das caldeiras, onde era derretida até virar óleo de baleia. Entendi o porquê das queimaduras, pois nunca dava para prever para que lado a gordura ia espirrar quando jogada na caldeira, que já continha óleo derretido, fervendo.

E também porque as vasilhas eram altas e as crianças mais baixas tinham que se equilibrar na ponta dos pés para conseguirem fazer o serviço, correndo o risco de se apoiar na caldeira, ela virar e o óleo fervente escorrer, levando junto a pele, a carne e até os ossos. A temperatura no baleeiro era muito quente, mesmo sendo um espaço aberto, e a chaminé também não conseguia puxar toda a fumaça, que ardia nos olhos e nos fazia tossir quase sem parar. Uma das meninas disse que mais dia, menos dia eu me acostumaria, e rezei para que isso acontecesse logo.

No meio da manhã podíamos parar um pouco o serviço para comer ali mesmo, em cuités (Cuités: uma árvore também chamada de cuieira, ou a cuia que se faz com o

fruto dela), uma porção de farinha de mandioca, toucinho, feijão e banana. No meio da tarde serviam a janta, que geralmente era carne moqueada de baleia, farinha e feijão, e às vezes um gole de garapa ou de cachaça. Esses eram os únicos períodos de descanso nas quase dezesseis horas que passávamos longe da senzala grande. No fim desse primeiro dia, eu já estava com a farda branca, a que eu usava na casa-grande, toda suja e engordurada, e teriam que me arrumar uma igual à que as outras mulheres usavam, mais feias, embora mais resistentes e que sujavam menos.

No primeiro dia eu não me queimei, mas isto aconteceu algumas vezes mais tarde, criando bolhas pelos braços e no rosto, mas nada grave. Talvez porque naquele anoitecer, quando voltamos para a senzala, alguém tinha dado um jeito de colocar na minha baia a esteira, o Xangô e os Ibêjis, e eu implorei muito a Xangô, o deus do fogo e dos trovões, para que me livrasse de tudo o que queima. Ele deve ter me valido. Na noite seguinte também estavam na baia os livros e os cadernos que o Fatumbi tinha me dado e que eu escondi debaixo da esteira, mas sem enterrar, para que não se sujassem.

Alguns dias depois, quando eu estava chegando da fundição, a Esméria apareceu para me ver e dar um longo abraço com os olhos cheios de lágrimas, e comentou que eu estava emagrecendo. Desde então, era comum encontrar me esperando na baia alguns pães, bolo, ou mesmo leite, que a Esméria sabia ser do meu gosto, e que eu sempre dividia com as minhas companheiras. Foi assim que ganhei a confiança e a consideração da Felicidade, que tinha treze anos e era nascida na fazenda mesmo, não sabia quem era seu pai e sua mãe tinha morrido quando ela estava com sete anos, a mesma idade com que perdi a minha.

Desde então a Rosa Mina cuidava dela na qualidade de tia, pois era irmã de santo da sua falecida mãe. A Felicidade disse que todos respeitavam muito isso, a

irmandade nos santos, já que, por vários motivos, os parentes de verdade quase nunca conseguiam ficar juntos. Ou por alguns terem ficado em África, ou por terem sido comprados separados quando chegaram ao Brasil, ou por terem sido revendidos para outros donos ou deixados em herança para pessoas diferentes. A Felicidade entendia tais parentescos, mas não os achava justos, pois no caso dela só a faziam sofrer, por estar apaixonada por um irmão em Oxóssi. Ele também estava apaixonado por ela, e os dois sempre davam um jeito de se encontrar às escondidas, visto que a tia, a Rosa Mina, não aceitava o namoro. Quando a Felicidade comentou com ela, as duas foram até o Pai Osório e pediram que ele visse no jogo do Ifá (Ifá ou Fá: oráculo, senhor do destino).

O babalaô disse que eles até poderiam ser muito felizes, mas que não seriam, e que, além disso, eram filhos do mesmo santo e deviam respeitar a tradição. De início, a Felicidade aceitou, mas não o Belchior, que continuou insistindo para namorarem escondido, até que ela não conseguiu mais resistir. Contou ainda que tramavam fuga juntos, e ela achava que por ele, pelo amor dele, teria coragem.

Breves alegrias

A Felicidade e o Belchior namoravam aos domingos e nos dias de guarda, quando os escravos da senzala grande tinham folga, mas estava ficando cada vez mais difícil arrumar desculpas para que a tia não desconfiasse. Às vezes até achavam que a Rosa Mina sabia de tudo e fingia não saber, desde que continuasse sendo apenas um namoro, porque casar de verdade não seria consentido mesmo, e sem esse consentimento a Felicidade também não queria.

Quero dizer, até queria, mas não podia, em consideração. Combinamos que em qualquer domingo

sairíamos juntas, quando então ela teria o pretexto de me levar para conhecer as redondezas e poderíamos passar o dia inteiro fora. Fiquei curiosa para saber a qual orixá pertencia a minha orí (Orí: cabeça), e a Felicidade disse que ia pedir à tia que falasse com o Pai Osório, para ele perguntar ao Ifá. Nem foi preciso, pois quando conversamos com a Rosa Mina, fiquei sabendo que tinha uma Oxum muito visível e poderosa na cabeça, a quem deveria honrar, agradecer e pedir proteção.

Podíamos até pedir ao Pai Osório um jogo de confirmação, mas ela nunca se enganava, e não seria comigo que se enganaria pela primeira vez, já que estava tão evidente. Perguntei como sabia e ela respondeu que, antes de tudo, sentia, pois, como filha de Oxum, eu me portava de uma determinada maneira que dava para reconhecer, mesmo convivendo comigo havia tão pouco tempo.

Por sugestão da Rosa Mina, fui conversar com a Policarpa, que era uma Ijexá, nascida na região de Ijexá, cidade próxima a um rio chamado Oxum, a morada da minha orixá. A Policarpa me contou muitas histórias sobre Oxum, Oxum Docô, cultuada em sua terra e que é amiga da Iyàmí-Ajé, a "minha Mãe Feiticeira" e senhora dos pássaros, sobre quem eu já tinha ouvido a minha avó falar. A Policarpa disse que quando os orixás chegaram à terra, eles se reuniam para resolver todos os problemas, mas nunca convidavam as mulheres para as assembléias. Oxum se aborreceu quando ficou sabendo disso e começou a tramar vingança contra os homens.

Como ela é o orixá da fertilidade e da prosperidade, fez com que todas as mulheres ficassem estéreis e todos os projetos dos homens dessem errado.

Quando perceberam o que estava acontecendo, eles se desesperaram e foram consultar Olodumaré, que logo perguntou se Oxum estava sendo convidada para as assembléias. Eles responderam que não, e então Olodumaré disse que, enquanto ela não freqüentasse as

reuniões, as coisas continuariam dando errado.

Convidada, Oxum só aceitou depois de muito insistirem.

Implorarem talvez seja a palavra certa, e então todas as mulheres voltaram a ser fecundas e todos os planos frutificaram. É por isso que Oxum é muito importante, porque ela, rainha das águas doces, fertiliza a terra e o ventre das mulheres, fazendo com que brotem todas as riquezas.

Conforme o combinado, em um domingo a Felicidade disse à Rosa Mina que ia me levar para conhecer a praia de Amoreiras, e saímos logo cedo. Só nós duas, e nos encontramos com o Belchior a certa distância da fazenda. Eu já tinha prestado atenção nele, de longe, enquanto descansávamos depois de voltar do trabalho. O

Belchior era um nagô alto, de pele muito preta e dentes muito brancos, como eram os meus, herdados da minha mãe. Ele tinha levado uma garrafa de cachaça que ele e a Felicidade beberam como se fosse água. Eu tomei apenas um pouco, pois não gostava muito do efeito, que não me deixava pensar direito e dava sono, além de mal-estar.

Andamos pelo meio da mata, por lugares onde eu nunca tinha ido e que achei muito bonitos, cheios de pássaros, de flores, de borboletas, de alguns macacos e outros bichos. O Belchior e a Felicidade iam na frente, abraçados ou de mãos dadas, e dava para perceber que realmente se gostavam, sendo uma pena que não pudessem ficar juntos. Quando chegamos a um riacho, encontramos por lá pelo menos umas dez pessoas, rapazes e moças de uma fazenda vizinha que já eram conhecidos do Belchior e nos receberam muito bem.

Eles tinham liamba (Liamba: também chamada de fumo de Angola, maconha), e me ofereceram. Eu já tinha sentido o cheiro na senzala e percebido que as pessoas ficavam muito felizes depois de fumar, e foi essa a sensação que tive, de alegria.

Primeiro achei que não tinha acontecido nada, mas logo comecei a sentir uma moleza pelo corpo, os movimentos ficando cada vez mais preguiçosos, assim como também tive a impressão de que a água do riacho corria mais devagar. Senti uma grande vontade de estar feliz, de sorrir por qualquer coisa, pois todas as coisas eram engraçadas e as pessoas faziam momices. Resolvemos pular na água, menos Um casal que se deitava perto de nós, sem se importar com quem estivesse olhando e achando a cena a coisa mais engraçada do mundo.

Tive uma crise de riso quando tirei a roupa e percebi que os meus peitos estavam começando a crescer, embora eu ainda não tivesse pêlos na racha, como a Felicidade já tinha. Eu Eu era a única naquela malta que ainda não tinha corpo de mulher, e por causa disso todos começaram a rir de mim, que, com vergonha, entrei logo no rio. Eu nadava e pensava em Oxum, minha mãe e rainha das águas doces, e agradeci a ela por ter ficado tão feliz apenas fumando liamba.

Feliz como havia muito tempo eu não ficava, desde os tempos de Savalu. Embora em Uidá, na casa da Titilayo, eu também tivesse ficado, mas um pouco menos, porque sentia vergonha diante da tristeza da minha avó. Quando aquela alegria toda começou a passar e ficamos com fome, saímos pela mata à procura de frutas e encontramos alguns pés de banana e de coco, que não foram suficientes para todos. Eu, a Felicidade e o Belchior resolvemos voltar para a fazenda e ver se tinha sobrado alguma coisa do jantar, mesmo porque não faltava muito tempo para escurecer e seria perigoso andarmos pelos matos no meio da escuridão, por causa dos bichos e de alguns espíritos do mal. Nós duas fomos na frente, para que a Rosa Mina não desconfiasse de que estávamos com o Belchior. Quando chegamos, a Rosa Mina estava nos esperando para comer um pedaço de carne-seca com farinha que tinha guardado, e eu e a Felicidade tivemos novo acesso de riso ao nos

lembrarmos dos acontecimentos do dia.

Ela perguntou onde tínhamos conseguido liamba e a Felicidade mentiu, dizendo ter sido presente de um preto com quem cruzamos na praia. A Liberata, que estava por perto, comentou que tinha ido visitar a filha, a Verenciana, e que a Nega Florinda tinha perguntado por mim e mandado recado, avisando que qualquer domingo me buscaria, pois queria muito que eu a acompanhasse até um lugar na capital. Fiquei curiosa, mas a Liberata não soube dizer que lugar era aquele, a Nega não tinha falado, e mostrou, toda faceira, um vidro de água de cheiro presente do sinhô José Carlos.

A Verenciana tinha gostado, o vidro dela já ia pelo meio, mas a Nega Florinda não queria saber daqueles luxos e deu o vidro inteirinho para a Liberata. O cheiro era muito bom, o mesmo da Ana Felipa. A Liberata também tinha ganhado algumas velas, artigos de luxo, que passaram a ser comuns na casa da Nega Florinda desde que a Verenciana tinha se mudado para lá, pois o sinhô José Carlos não deixava faltar nada, mesmo não tendo coragem de ir visitá-la.

A conversa e principalmente o cheiro da sinhá fizeram com que eu me lembrasse de muitas coisas vividas na casa-grande. Não havia passado muito tempo desde a minha saída de lá e, apesar de todo o trabalho na fundição e de a comida ser pouca e ruim, eu não sentia saudades, estava mais feliz na senzala grande. Sentia falta da Antônia e principalmente da Esméria, mas elas davam um jeito de ir me ver, assim como o Tico e o Hilário, que estavam sempre andando de um lado para o outro e nos encontrávamos várias vezes. O Sebastião eu nunca mais tinha visto, e nem os outros pretos da casa.

Em alguns dias também sentia falta da sinhazinha Maria Clara, ou talvez fosse inveja, pois ela continuava estudando na capital e nunca mais tinha aparecido na

ilha. Quando eu pensava nos estudos, pegava os cadernos que o Fatumbi tinha me dado e ficava recordando, pois já tinha decorado quase tudo que estava escrito neles. Perguntei à Liberata se ela conhecia o Fatumbi e ela disse que sim, que primeiro ele tinha vivido por um tempo na fazenda antes de ser mandado para a capital, e tinha alguns parentes entre os pretos da senzala. Se não fossem parentes, eram conhecidos de África, não se sabia ao certo porque eles não falavam nada sobre suas vidas.

Eram dois pretos que tinham cargos no engenho e não conversavam com quase ninguém, ficavam sempre juntos, só os dois, nunca participavam dos assuntos de orixás e nem das festas que aconteciam às escondidas no terreiro. Sempre que tinham que dar ordens a qualquer uma das mulheres, pediam a um homem para falar por eles, mesmo estando lado a lado com elas. A Liberata disse também que nos últimos tempos eles estavam mais estranhos ainda, e às vezes chamavam um ou outro homem de lado e falavam sobre as coisas que estavam acontecendo na capital, que os pretos de São Salvador estavam lutando para libertar todos os outros pretos, que era uma grande mentira dos brancos dizerem que nós éramos inferiores, pois todos eram iguais perante o único Deus, Alá.

A Liberata sabia disso tudo porque eles tinham conversado com o homem com quem ela estava se deitando, mas não achava certo eles fazerem isso porque nunca seria assim; por mais que quiséssemos, nunca seria, e era melhor nos conformarmos com a vida do jeito que estava. Mesmo porque, segundo ela, o nosso dono nem era tão mau assim. Sabia-se de muitos bem piores, e na fazenda pelo menos tínhamos comida e onde dormir, sendo que muitos que chegavam de África nem isso tinham por lá. Eu não concordava com ela, não achava que devíamos nos conformar, mas também sabia que não havia muita coisa a fazer.

Aquele domingo tinha sido um dia bom mas cansativo, e por isso fomos para a baia antes mesmo que o Eufrásio desse a ordem. Aos domingos ele sempre aparecia mais tarde, porque também ia aproveitar o dia, beber e se deitar com algumas pretas que não tinham raiva do trabalho dele e estavam interessadas nos regalos que ele sempre dava a elas. A Liberata disse que ele já estava perdoado por tudo que tinha acontecido à Verenciana, mas não era verdade, pois ela sempre dava um jeito de tocar no assunto, principalmente perto do dia do nascimento da criança.

Quando fomos nos deitar, perguntei às minhas companheiras se queriam que eu lesse um pouco, já que tínhamos velas, e elas disseram que sim. Eu já estava conseguindo ler muitas páginas do livro do Fatumbi, embora não entendesse as palavras mais complicadas.

Gostava de ler para elas porque sempre alguém comentava a leitura, e naquele dia foi a vez da Rosa Mina. Foi ela quem conseguiu entender as palavras do padre Antônio Vieira, dizendo que ele estava mesmo certo, que na vida nós devíamos ser como o sal. A carne que comíamos não era salgada? O sal era para ela não estragar, e nós também precisamos ser assim, fazer a nossa parte para conservar as coisas boas, tanto para nós quanto para as pessoas que vivem ao nosso redor.

Fiquei com vontade de perguntar se os amigos do Fatumbi conheciam as palavras do padre Antônio Vieira, se era disso que eles falavam quando diziam que tínhamos que nos unir e lutar pelo nosso direito de sermos iguais aos brancos. Mas o resto da semana foi bastante tumultuado e acabei me esquecendo.

Vinganças

Na segunda-feira o Afrânio se matou. Era aquele pescador que tinha sido comprado junto comigo e com a Maria das Graças. Às vezes nos víamos na fundição,

quando ele voltava da pesca, mas não sei se sabia quem eu era. É bem possível que não, pois eu tinha crescido e mudado bastante desde a chegada à fazenda, e continuava mudando. A Esméria até brincou que ia tentar me ver mais amiúde, com medo de não me reconhecer mais, a mim e à sinhazinha Maria Clara, que devia estar mais mudada ainda.

Eu tinha curiosidade de saber se tinham contado a ela que eu não estava mais na casa-grande, achando que ela poderia tentar me defender, mas depois pensei que não.

Que importância isso teria para ela? Nenhuma, mesmo tendo dito que eu era uma amiga, acima de tudo uma amiga, fazendo com que eu me sentisse a amiga mais feliz do mundo naquele dia. Uma satisfação vinda do nada e boba, apenas por conseguir a aprovação de uma branca, mas que foi muito importante para mim Mesmo não sendo amiga do Afrânio, pois nem mesmo cheguei a conversar com ele, senti bastante a sua morte.

Ele se matou no mar, com o facão que levava para limpar os peixes antes da salga, os que nós todos comíamos às sextas-feiras e às vezes aos sábados também. Ele pegou o facão e, antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa, foi sangue espirrando para um lado e a cabeça dele caindo para o outro. Mestre Anselmo, o mestre do barco em que ele estava, achou que era melhor deixarem o corpo por lá mesmo, já que ele era pescador, homem do mar. E assim fizeram; em uma cerimônia simples, o corpo do Afrânio virou comida para peixe. Isto custou ao mestre Anselmo um mês sem folga aos domingos e cem chibatadas. Deveriam ser mais de cem, mas acharam que ele ficaria sem trabalhar caso se machucasse muito, e os domingos sem folga eram mais apropriados ao castigo apenas dele, e não do sinhô José Carlos. Foi a primeira vez que vi alguém ir para o tronco, e aquilo aumentou ainda mais a minha vontade de conversar com os muçurumins, aqueles que não achavam justa a vida que estávamos levando.

O mestre Anselmo apanhou porque o sinhô José Carlos não acreditou nele, não acreditou que o Afrânio tivesse se matado. Achou que o mestre estava acobertando algum acidente no mar ou uma briga entre os homens pelos quais era responsável, ou mesmo uma fuga, já que não havia corpo para provar o relato.

Depois da tragédia com a Verenciana, o Eufrásio tinha passado alguns dias quieto, pensativo, tratando todos nós muito melhor, às vezes até com a gentileza de fazer pedidos em vez de dar ordens. Mas depois voltou a ser o de antes e até piorou, sentindo verdadeiro prazer com a realização de todos os caprichos maldosos do sinhô José Carlos e da sinhá Ana Felipa, ou dos próprios, e continuou arrumando pretas para se deitarem com o nosso dono. Achei que elas tinham aprendido a lição, mas estava enganada, pois ficaram sabendo o que o sinhô fazia pela Verenciana e, mesmo cega, acharam que a vida da outra era melhor que a nossa vida na fazenda.

Diziam que algumas delas se ancoravam em ervas para ficarem pejadas, como se isso fosse garantia de boa vida.

como se não vissem muitos filhos do sinhô ou do pai dele crescendo lá, tratados como pretinhos comuns.

O Eufrásio fez questão de que o castigo do mestre Anselmo fosse no fim do dia, com todo mundo reunido, para servir de lição. O sinhô José Carlos também apareceu e a sinhá Ana Felipa ficou olhando de longe. O

capataz mandou que um dos homens prendesse as duas mãos do mestre nas argolas que pendiam ao lado do tronco e tirasse as calças dele. Perguntou se o sinhô queria começar e, com a resposta negativa, não teve pena, agiu como se estivesse descontando, no chicote de três pontas e nas costas, na bunda e nas pernas do mestre, toda a raiva que existia no mundo.

Quando contou a décima chibatada, talvez com medo de o mestre não agüentar as outras quarenta do dia, pois o castigo seria cumprido em duas levas, o sinhô mandou

que o Eufrásio passasse o chicote para um dos seus homens. Percebeu a fúria da surra e teve medo de perder o castigado, homem trabalhador e experiente, que nunca tinha causado problema. O sangue já escorria em filetes que iam das costas até os pés, correndo muito mais rápido que os riozinhos do Kokumo e da minha mãe. Sem se importar com o que aconteceria a seguir, o sinhô pegou o caminho de casa, dizendo que era para irmos imediatamente para a senzala e que aquilo servisse de exemplo para quem ousasse tomar uma decisão sem consultar, para quem achasse que tinha cabeça com serventia para outras coisas além de carregar peso e piolho.

O mestre Anselmo entrou na senzala quando estávamos nos acomodando nas baias, revoltados e envergonhados com a humilhação do velho. Ele não se queixou de dor, mas de ter apanhado sem merecimento, pois era homem correto, e em toda uma vida de serviço para o pai do sinhô José Carlos e depois para o sinhozinho, nunca tinha dado motivo para ir ao tronco. A Rosa Mina fez um preparado de ervas usando algumas que sempre tinha escondidas debaixo da esteira e passou sobre os cortes, depois de lavá-los com água salobra mesmo, na falta de água doce dentro da senzala.

Enquanto lavava o machucado, perguntou se estava doendo e o mestre respondeu que sim, mas que agüentava, que estava acostumado com o mar e que o sal ajudava a consertar a carne. Então, me lembrei do livro com o sermão do padre para os peixes, em que ele dizia que os homens eram o sal da terra, o sal da vida, aquele que a Rosa Mina tinha explicado tão bem. Senti vontade de ler para o mestre Anselmo, mas achei melhor não arriscar, pois alguém podia me ver lendo e tomar os meus livros, únicas coisas que eu tinha de realmente minhas.

Os dias seguintes foram tensos, com o Eufrásio

distribuindo pontapés, safanões e chicotadas sem motivo, por qualquer dá cá aquela palha, até que um dos pretos o enfrentou, dizendo que era homem honrado e trabalhador que não aceitava ser tratado daquele jeito.

O Eufrásio disse que não ia dar as chibatadas que ele merecia porque depois, em razão de uns cortes de nada, a carne ruim dos pretos costumava desandar, causando prejuízo ao sinhô. Mas para que ninguém pensasse que ele não sabia domar bichos, o homem ia para o tronco, três dias e três noites sem comer e sem beber água.

Disse ainda que se fosse só por conta dele, se não tivesse que saber a opinião do sinhô José Carlos também mandava cortar a língua, que é o que se faz com quem não sabe ficar calado.

O Eufrásio sempre dizia que não adiantava jogar feitiço nele que não pegava, pois não acreditava em praga de preto. Mas naquela mesma noite, sentado na porta da cozinha da casa-grande, ele estava comendo um pedaço de carne e engasgou.

A Esméria correu para chamar o sinhô José Carlos, que por sorte estava em casa, para se certificar de que a morte do capataz não tinha sido à traição, pelo menos não aparentemente, mas ele não teve o que fazer. O

Eufrásio roxeou, perdeu os sentidos e morreu antes que houvesse tempo de rezar uma Ave-Maria em socorro, se houvesse alguém disposto a fazer isso, é claro. Levaram o corpo dele para a vila e o resto da noite foi de festa na senzala grande, mesmo sob os olhares dos empregados, que também estavam estranhando o jeito como o Eufrásio vinha tratando todo mundo. Demorou para que um novo capataz fosse mandado da capital, mas, mesmo assim, mesmo sem alguém para impor a ordem, foi um tempo de muito trabalho e de muita paz.

São Salvador

Dois ou três domingos depois da morte do Eufrásio, mal

tinha amanhecido quando a Nega Florinda apareceu. Eu estava me preparando para sair com a Felicidade quando ela me chamou de lado e disse que iríamos até São Salvador, pois precisava me levar para conhecer uma pessoa. Deu notícias à Liberata sobre a Verenciana, que já estava para dar à luz, entregou um pacote que a moça tinha mandado e disse que precisávamos nos apressar, senão perderíamos o dia.

Saímos andando pela praia, na direção oposta à do baleeiro, e depois de uns quinze minutos no andar rápido e de passos pequenos da Nega Florinda, avistamos um barco, onde umas vinte pessoas esperavam por nós assim que embarcamos, oito homens, quatro de cada lado, começaram a remar, sendo que um deles, o da frente à direita, puxava uns versos que os outros repetiam. A música improvisada ditava o ritmo forte dos remos, todos cortando a água do mar ao mesmo tempo, fazendo com que o barco deixasse para trás um risco prateado que em seguida se apagava.

Estávamos nos afastando rapidamente da Praia e logo os coqueiros já se escondiam atrás de um polegar colocado na frente do rosto, entre os dois olhos.

Comecei a prestar atenção às pessoas que estavam no barco e vi que todas demonstravam um grande respeito pela Nega Florinda. Depois de fazerem uma saudação, quiseram saber mais sobre a mulher que estávamos indo visitar. Foi então que eu soube que estávamos indo à capital para visitar uma mulher, como também eram mulheres quase todas as pessoas dentro do barco, menos os oito remadores. Com exceção de uma, que parecia ter mais ou menos vinte anos e levava uma criança amarrada às costas, como em África, todas as mulheres já eram bem velhas. Não tão velhas quanto a Nega Florinda, que, aliás, não falou muita coisa. Ela disse que era melhor esperarmos, avisando também que não sabia se os homens poderiam participar; isto se veria quando chegássemos à cidade.

Para sempre ficou gravada na minha memória a São Salvador daquele dia. Anos depois, em África, a tantos quilômetros e a tanto tempo de distância, era naquelas impressões e sensações que eu pensava ao me lembrar da Bahia ou mesmo do Brasil. Lembro-me ainda hoje dos nomes das praças e das ruas que percorri por anos e anos, e por onde muitas vezes refiz o caminho daquele dia, tentando vê-lo com meus olhos de menina, sem nunca mais conseguir. Quando o barco contornou o Forte de São Marcelo, o sol ainda estava baixo por trás das colinas que sustentavam a cidade, o que fazia com que ela ficasse emoldurada por uma luz mágica que mais parecia um véu, embaçando os olhos da gente e tornando as cores mais delicadas.

Algumas construções, as mais altas, com três, quatro ou até mais andares, e muitos templos e palacetes, pareciam flutuar de encontro ao teto do céu. A encosta era formada por partes de rocha preta, terra vermelha e vegetação, sendo que algumas árvores tinham crescido quase deitadas, como se tivessem sido atiradas, como setas, a partir do mar. Ao desembarcarmos, fizemos um caminho que eu já conhecia, do ancoradouro até a rua principal da cidade baixa, mas que naquele dia parecia diferente por estar quase vazio. Havia pouca gente nas ruas, como se a cidade ainda estivesse se espreguiçando antes de acordar direito.

Eram apenas duas as mulheres que vendiam comida, com suas roupas bonitas e seus tabuleiros, e até mesmo o Arsenal, onde mais tarde vi que a construção de barcos e mais barcos quase não era interrompida, naquela manhã estaria deserto se não fossem três pretos conversando, sentados sobre pilhas altas de madeira.

Apenas uma ou outra casa já tinha as portas e janelas abertas para becos tão estreitos que davam a impressão de que podíamos interromper a passagem por eles apenas abrindo os braços.

Nem mesmo a fedentina causada pelos dejetos jogados na rua estava tão forte como da primeira vez, talvez porque o sol ainda não a tivesse acordado também. Na rua principal, um pouco mais larga e bastante tortuosa, olhando de longe às vezes eu tinha a impressão de que algumas casas estavam construídas exatamente no meio do caminho, barrando a passagem. Mas, ao chegarmos perto, a rua quebrava em outra direção, contornando as construções e seguindo adiante, para a frente e para cima. Alguém do grupo comentou que aquela rua principal acompanhava a praia de um canto a outro da cidade, ora mais, ora menos habitada, com mais casas de moradia ou mais casas de comércio e depósitos de pretos.

Poucas construções tinham só um andar; a maioria era de casas engaioladas umas sobre as outras, com varandas sob janelas laterais que quase se encontravam no ar, ligando uma casa a outra, de tão próximas. Tais varandas também avançavam na frente das casas, nos andares superiores, debruçando-se umas sobre as outras e todas juntas sobre a rua, de um lado e do outro, tornando o caminho escuro e sufocante nos pontos mais estreitos. Havia ruelas que saíam dos dois lados da rua principal, curtas, porque, se de um lado algumas casas já quase se jogavam sobre o mar, do outro, em certos trechos, estavam apoiadas no barranco, mesmo com risco de a qualquer momento serem esmagadas pela queda das construções que se equilibravam na parte de cima, na cidade alta.

Os nomes dos lugares eu vim a saber depois, mas naquele dia caminhamos até uma construção onde funcionava um hospício, onde dobramos, bem na quina com a Ladeira da Preguiça, que subia, íngreme, até metade da montanha. Quando a vi, fiquei surpresa com a disposição da Nega Florinda e das outras senhoras do grupo. Calados para poupar o fôlego, inclinávamos o corpo para a frente e caminhávamos, seguindo as

construções e os muros da torta Rua Direita da Preguiça, pegando uma outra ladeira, que ia dar no Largo das Portas de São Bento. De lá, sempre a medo de escorregar, tomamos outra via que nos levou à parte mais alta da cidade, ao lado do Palácio do Governo, onde enfim paramos para descansar e aproveitar a vista.

Dava para ver a Baía de Todos os Santos quase inteira, com suas pequenas ilhas e a Ilha de Itaparica como um imenso jardim plantado no meio das águas. No Palácio, construção de dois andares que ficava em um dos cantos da praça que levava o seu nome, a Praça do Palácio, contei onze janelas e uma porta muito alta que se abriam para uma varanda que o abraçava por todos os lados. Bem no canto da Praça do Palácio, que tinha a forma de um quadrado, ficava a Cadeia Pública, um prédio tão bonito que, se não fosse pelas grades, poderia ser confundido com uma casa, bem como as construções que ocupavam os outros dois cantos, a Casa da Moeda e a Câmara Municipal.

Descansados da subida, seguimos caminhando em direção ao Terreiro de Jesus, passando por lindos sobrados, que tanto eram comércio como casas de moradia, e principalmente por belas igrejas, como a Catedral da Sé. De um dos lados do Paço da Catedral ficava um templo que tinha sido dos jesuítas e que mais tarde foi ocupado por um colégio e depois por um hospital, para então ceder lugar à Faculdade de Medicina, que não sei se ainda está lá nos dias de hoje.

Quando vi tal prédio daquela vez, nunca poderia imaginar os dias que passaria escondida lá dentro, anos mais tarde. A praça do Terreiro de Jesus abrigava também o templo da Irmandade dos Clérigos de São Pedro e muitas casas mais simples, e dava saída para ruas que partiam em direção a todas as outras freguesias da cidade. Um pouco mais adiante, perto do Convento e da Igreja da Ordem Terceira de São

Francisco, dava para se ter uma visão melhor do que era a cidade de São Salvador. Para todos os lados que se olhava, menos o do mar, a cidade era uma sucessão de vales cobertos por verde abundante e de montanhas cortadas por ruas de terra ou de pedra, quase sempre desertas. De longe em longe, principalmente nas partes mais altas, surgiam algumas construções que, sendo pequenas, estavam quase sempre grudadas umas nas outras, e sendo grandes, estavam separadas por imensos jardins.

Continuar: parte 2 de 4