Um Defeito de Cor
Capítulo quatro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Fiquei com vontade de saber se o Lourenço ainda estava na senzala grande, mas não tive coragem de perguntar.
Os dias seguintes foram de muito trabalho, empacotando tudo o que era da sinhá, as roupas, os enxovais e os bens valiosos ou de estimação dos quais ela não queria se desfazer. Ela tinha passado quase uma semana na capital, colocando tudo no lugar e comprando alguns móveis e utensílios de que precisaria, e depois voltou para nos buscar. Disse que partiríamos na manhã do segundo dia seguinte, dia em que amanheci estranha, com uma grande fraqueza nas pernas e muitas dores nas costas. Dia em que, no meio da travessia juntei as águas das minhas entranhas às águas de Iemanjá.
Capítulo quatro
Só quando uma árvore cai alcançamos todos os seus galhos.
Provérbio africano
Banjokô
"Sente-se e fique comigo", ou Banjokô, o meu filho, era um abiku omi, como fiquei sabendo alguns meses depois, um abiku da água, dos que quase sempre nascem antes da hora. Foi o que ele fez, rompendo a bolsa quase um mês antes da data para a qual a Esméria disse que eu poderia esperá-lo. Quase nasceu no mar, e talvez só por teimosia minha tenha esperado chegar a São Salvador, pois eu quis tê-lo em terra firme, imaginando que isso poderia salvá-lo de algo terrível.
Antes de ele nascer, cheguei a pensar que teria gostado se fosse um abiku do fogo, do tipo que mata a mãe quando vem ao mundo, mas quando o senti fazendo força para sair de dentro de mim no meio daquela travessia, pedi a todos os orixás que não deixassem Orumilá ouvir aquele meu pensamento. O que seria do meu filho se eu morresse e ele ficasse sozinho no mundo? Ou, pior ainda, o que seria de mim se sobrevivesse à morte dele? Eu não tinha a confirmação de que ele era mesmo um abiku, mas sabia. E sabia também que teria que descobrir o trato feito antes de deixar o Orum. Só assim, descobrindo o trato e evitando a situação na qual ele se cumpriria, eu teria como manter meu filho por mais tempo junto de mim. Ele poderia ter combinado qualquer coisa. Como morrer ao olhar o meu rosto pela primeira vez ou quando um navio apitasse enquanto estivesse no peito, aproveitando para se engasgar com o susto. Ou ainda quando uma visita batesse à porta e eu fosse abri-la, deixando-o brincar
com algum pano que pudesse sufocá-lo.
Depois que o Banjokô nasceu e o peguei nos braços, a única coisa que e queria era encontrar o mais depressa possível alguém que conhecesse os segredo do Ifá e pudesse perguntar sobre o trato do meu filho, para que ele fosse evitado a todo custo. A minha avó tinha contado que o trato dela, descoberto pela mãe era cair do pano em que era amarrada às costas no momento em que as duas estivessem atravessando uma ponte estreita sobre algum rio.
Desde que ficara sabendo disto, a mãe nunca mais a levou amarrada às costas, preferindo sempre tê-la apertada nos braços, pois não sabia o momento em que precisariam atravessar um rio. A minha avó também tinha descoberto o trato feito pela minha mãe, que era voltar para a companhia de seus amigos abikus no momento em que visse correr o sangue de algum animal oferecido em sacrifício. Até aquele dia em Savalu, minha avó tinha conseguido mantê-la longe dos sacrifícios de carneiros que fazia para Xangô, mas o homem também é um animal e, de alguma forma, o Kokumo se ofereceu em sacrifício ao tentar nos defender.
A Esméria disse que, mesmo a bolsa tendo se rompido durante a travessia, o trabalho de parto ainda poderia demorar tempo suficiente para ser realizado no solar da sinhá. Mas o Banjokô tinha pressa, e quando saímos do barco, senti que não conseguiria me afastar do ancoradouro, nem mesmo carregada. Não me lembro da dor, mas do medo, e aquela foi a única vez em que alguém, no caso a Antônia, teve que gritar comigo para que eu me controlasse e parasse de chorar. Eu sentia medo de morrer, ou de o meu filho nascer morto, ou então de ele não ser perfeito.
Tudo dependia mais da sorte que de qualquer outra coisa. E era nas mãos da sorte que eu estava, e do
merecimento em relação ao destino, pois se nem o sinhô José Carlos, rico do jeito que era, assistido por médicos e boticários, se nem mesmo ele tinha conseguido se curar de uma picada de cobra, não seríamos eu e meu filho, escravos, que poderíamos ficar dependendo da ciência ou da bondade dos brancos. Pedi à Esméria que procurasse as estátuas dos meus orixás dentro da trouxa e colocasse todos eles ao meu redor, e ainda roguei a ajuda da minha avó, da minha mãe e da Taiwo, para que estivessem comigo naquele momento. O Banjokô veio ao mundo sobre um pano-da-costa estendido no chão, ao lado de um tabuleiro onde uma preta vendia bolinho doce, ajudado pela Esméria e pela Antônia, enquanto eu fazia força e tentava dizer orikis nos quais pedia a Nana, a mãe de tudo que existe, que me desse um filho sem defeito e com saúde, que fosse inteligente e nascesse com a estrela do bom destino, que ela o tomasse em seus braços e o guiasse em segurança para fora de mim, e que depois continuasse ao lado dele, não permitindo que fosse encontrado pelos espíritos dos outros abikus.
Assim que desembarcamos, o Sebastião correu para informar a sinhá Ana Filipa do que estava acontecendo.
Ele já conhecia o caminho, pois tinha ido com ela quando o solar estava sendo mobiliado. Naquele dia, ela tinha chegado a ilha um pouco antes de nós em um barco menor e mais confortável, levando apenas os objetos pessoais e em companhia do Cipriano e de dois empregados. Eles não iam mais trabalhar para ela, que, na cidade e com poucos escravos, não precisaria mais dos serviços de um capataz, mas foram ajudar na mudança. Quando o Sebastião voltou, a sinhá tinha autorizado que ele contratasse carregadores para o restante da mudança e uma cadeirinha para mim e meu filho. Não sei quanto tempo durou o parto, mas acho que foi rápido, e antes do que eu esperava já tinha o Banjokô deitado sobre a minha barriga, de olhos muito abertos, como quem vê o mundo e toma um grande susto. Ouvi a Antônia comentar com a Esméria que não era bom para
uma criança nascer de olhos abertos, mas não me importei, pois o principal era ele ter nascido perfeito e com saúde. Eu tinha medo de que, assim como o último filho da sinhá que tinha nascido antes do tempo, ele também nascesse sem pele, sem olhos ou sem orelhas.
Mas o Banjokô era perfeito e tinha um choro forte, que atraiu a atenção de várias pessoas que estavam no atracadouro naquele momento. Uma preta que cuidava de um tabuleiro de acará deu a ele um colar de contas azuis que tinha acabado de benzer na água do mar, dizendo que Ogum devia estar feliz por ter ganhado mais um filho. Contentes também estavam a minha mãe, a minha avó, a Taiwo e o Kokumo, que eu não conseguia ver, mas sentia que estavam comigo. Pedi que eles também olhassem pelo meu filho e que a minha avó o apresentasse aos voduns.
Não me senti à vontade sendo transportada na cadeirinha, mas também não estava disposta a ir caminhando até o solar, que ficava na parte alta da cidade. Aquela era diferente da cadeirinha que o sinhô José Carlos tinha na ilha, Aquela era aPenas montada sobre duas hastes de madeira. A minha tinha uma armação sustentando uma grossa cobertura de veludo que, além de evitar que me vissem, também impedia que eu visse a rua, a não ser prendendo as cortinas laterais.
Mas isso não era importante, pois a única visão que me interessava era do rosto do meu filho. Dizem que todas as mães são generosas, mas o Banjokô era a criança mais linda que eu já tinha visto. Não era grande nem forte, muito pelo contrário, mas acho que a sua fragilidade, cabendo inteiro no espaço que ia da palma da minha mão à dobra do cotovelo, fazia dele uma criança ainda mais especial. A cabeça, pelada, era um pouco maior do que pedia o corpo mas o rosto era muito expressivo, sobretudo os olhos. De dentro das cortinas fechadas da cadeirinha de arruar, eu não podia vê-los
direito.
A penumbra que fazia com que ele conseguisse manter os olhos abertos, era a mesma que os escondia de mim.
Mas no ancoradouro eu tinha percebido que não se pareciam com os meus, pois eram de um cinza-azulado que me lembrava os olhos da sinhazinha, ou do pai dela.
Quando pensava no sinhô José Carlos, eu não conseguia imaginar que ele era o pai do meu filho, mas sim meu dono e pai da sinhazinha, e que também teria sido o dono do meu filho, se não tivesse morrido. Nos três primeiros dias eu não consegui amamentar o Banjokô, pois meu peito estava seco, e tive medo que ele se apegasse demais à mãe-de-leite que a sinhá arrumou, a Joana, escrava de uma vizinha.
Ela era uma preta gorda e de cara lisa e risonha, a pele sempre brilhando, o cabelo esticado para cima e preso com uma tira de pano bem no alto da cabeça, parecido com um pompom, como os que a sinhá usava para empoar o rosto. A Joana tinha dado à luz havia mais de três anos e o filho tinha morrido com dias de vida, mas o leite dela nunca chegou a secar, pois estava sempre dando o peito. Ela quase não pôde ficar com o Banjokô, porque na época já amamentava três crianças, filhos de sinhás, mas a um pedido da sinhá Ana Felipa à sinhá dela, e com a promessa de que nenhuma das mães brancas ficaria sabendo que ela estava amamentando um preto, o acordo foi feito, não sei se envolvendo algum dinheiro.
À noite, sozinha com o meu filho, a Esméria me orientava a colocá-lo no peito, mesmo que não saísse nada. E foi assim que fiz, sendo que certo dia o leite brotou. Ainda me lembro daquele momento mágico, pois nada no mundo se compara a dar algo de nós para um filho. A Joana continuou dando o peito para ele por mais algum tempo, porque a sinhá tinha medo que meu leite fosse ralo e fraco. Ela realmente gostava do menino,
que, para falar a verdade, poderia muito bem passar por filho dela, filho de branco. Se não fosse pelos olhos claros e pela cor da pele e os traços delicados, os lábios pequenos, o nariz bem-feito. Para continuar assim, a sinhá disse que eu sempre deveria me lembrar de Deus, apertar com meus dedos como se estivesse moldando o nariz dele, apertando as laterais desde a base até as narinas, para não deixar que se esparramasse. Em muitas coisas ele me fazia lembrar a sinhazinha, como ela mesma disse quando apareceu para visitar a sinhá e se assustou ao me ver com um filho no colo. Acho que a sinhazinha já desconfiava, mas me fez contar quem era o pai. Ela não comentou nada e nem começou a agir de modo diferente comigo, o que me deixou mais tranqüila, embora não tirasse a estranheza de eu ser a mãe de um irmão dela.
Não tinha esperança de que ela o tratasse como a um irmão, mas tinha medo de que não entendesse o acontecido e achasse que eu era mais uma das pretas que dormiam com o dono em busca de regalias.
Eu me sentia muito bem, mas já que a sinhá não se importava e a Esméria dizia que não estava precisando de ajuda, durante quase uma semana mal saí do local destinado aos pretos, o porão do solar. Era frio, úmido e escuro, e eu sentia um pouco de medo de que aquilo fizesse mal ao Banjokô.
Por isso, vivia com ele grudado em mim, abraçado junto ao corpo e coberto com a manta que a sinhá tinha me dado antes de sairmos da ilha. Ele também ganhou algumas camisolas, sobras dos enxovais feitos quando ela se descobria pejada. Ela nunca desceu ao porão para vê-lo, mas certa vez pediu à Antônia que o buscasse, e os dois ficaram quase três horas trancados no quarto, enquanto eu morria de medo de que ela fizesse algum mal ao menino. Quando voltei a ajudar a Esméria, a sinhá às vezes chegava na porta da cozinha com a desculpa de perguntar alguma coisa ou dar uma ordem, e ficava longos minutos olhando para o Banjokô deitado sobre uma esteira de palha trançada pelo Sebastião.
Depois, com a justificativa de que ele poderia atrapalhar nosso serviço, começou a pedir à Antônia que o levasse para o quarto dela, onde fechava a porta e dizia que precisava descansar, que não queria ser incomodada.
Esquecendo-se disso, a Antônia uma vez entrou no quarto e a viu sentada na poltrona com ele no colo. A "
poltrona ficava de costas para a porta, mas ela teve quase certeza de que a Sinhá estava tentando dar o peito a ele, que resmungava baixinho e se calava quando ela começava a cantar. A sinhá não chegou a vê-la; a Antônia saiu em silêncio, do jeito que tinha entrado, espantada com a cena. Quando estava trancada no quarto com o Banjokô, a sinhá gostava de colocá-lo em uma cesta e passear pelo quintal ou pelo jardim, dizendo que ele precisava tomar um pouco de sol, que aquela brancura toda na verdade era palidez, sinal de doença, para a qual o sol era um santo remédio.
O solar
O solar era menor que a casa da fazenda, mas muito mais bonito, e logo a sinhá parecia ter vivido sempre nele, tão bem se acostumou à vida na cidade à condição de viúva. Tirou o luto fechado antes do que seria recomendável, embora por um tempo ainda voltasse a vesti-lo quando recebia visitas.
Ela gostava de ter companhia e o solar até mesmo estava decorado em função disso, de receber bem, talvez para recuperar o tempo em que ficou isolada na fazenda, sem ter com quem valesse a pena conversar. Ficava em uma rua estreita e tranqüila chamada Corredor da Vitória, com árvores tão frondosas de ambos os lados que chegavam a trançar os galhos sobre as cabeças dos passantes. O Corredor era morada de grandes mansões, de gente que ganhava muito dinheiro com casas de comércio ou indo e voltando de África, trocando pretos por produtos da Bahia. No Corredor da Vitória também moravam muitos estrangeiros, e somente o solar da sinhá, que tinha sido comprado de uma família inglesa, e mais dois ou três não eram ocupados por eles.
Sobre um imenso portão de ferro trabalhado, na entrada do solar, havia uma tabuleta em que estava escrito "Red Blossom Hill House", e era como se fosse um quadro, com a moldura também de ferro, pintado de dourado. O
solar ficava do lado esquerdo de quem ia da freguesia da Sé para a freguesia da Graça, onde estavam os mais simples da rua. Do lado direito, com enormes jardins na frente e nas laterais, havia verdadeiros palacetes que davam fundos para uma das paisagens mais bonitas da baía, sem nada que impedisse a visão, pois estavam localizados no alto de uma escarpa que despencava rumo ao mar.
Do nosso lado não havia mar, mas nos fundos da casa, para além de uma cerca de limoeiros, estendia-se um imenso vale atapetado de verde e salpicado com as flores vermelhas flamboyants. Havia um flamboyant no nosso jardim também, do lado esquerdo de quem entrava pelo portão e seguia por uma alameda de pedras até a varanda da frente. O jardim era lindo, cheio de várias espécies de plantas que davam flores, das quais eu guardei o nome de poucas, mas nunca me esqueci do cheiro das angélicas e dos jasmins, principalmente à noite.
O Sebastião disse que alguns móveis já estavam na casa quando a sinhá a comprou, deixados pelos antigos proprietários, que tinham voltado para a terra deles.
Eram muitos os estrangeiros que estavam deixando a cidade depois que o Brasil e a Bahia tinham conseguido a independência, principalmente os Portugueses. Muitas vezes passavam grupos de homens pela rua, na maioria rapazes, dando vivas ao país livre e insultando os portugueses, sendo que a casa de um deles que ainda resistia no final da nossa rua, era constantemente apedrejada. Logo que nos mudamos, o padre Notório apareceu para uma visita e o ouvi comentando que a sinhá tinha feito uma excelente compra, aproveitando que os estrangeiros estavam se desfazendo de suas casas por um preço menor do que realmente valiam.
Eles passearam por toda a propriedade, encantados com a variedade de flores e aves, e depois ela mostrou todos os cômodos da casa, que eram um deslumbramento.
O lado de fora do solar era todo pintado de amarelo claro, os dois andares, sendo que no andar de cima se destacavam as janelas e as portas dos quatro quartos, que se abriam para sacadas pequenas, mas vistosas.
Essas janelas e portas eram na verdade uma mesma coisa, com quatro folhas. Se apenas as duas folhas de cima estavam abertas, eram janelas, mas se fossem abertas também as duas de baixo, viravam portas.
As folhas eram de madeira escura, não muito grossas, recortadas por pequenos vidros quadrados e coloridos e rodeadas por uma moldura de alvenaria em relevo pintada de cinza, que terminava no alto com um pequeno frontão. Para cada uma delas, uma pequena sacada, exceto a do quarto da sinhá, que era grande o bastante para caberem uma mesinha redonda e duas cadeiras. As sacadas eram protegidas por grades de ferro forjado enfeitadas com chumbo maciço, com pinhas de metal marcando cada um dos cantos.
O telhado também chamava a atenção, de quatro águas, fazendo uma curva para cima, como os telhados chineses que eu já tinha visto em gravuras, e enfeitado com pombos de pedra nos cantos e no topo. A parte de baixo da casa era um pouco menor que a de cima, o que fazia com que ficasse toda avarandada. O canto direito da varanda da frente, protegido por uma cerca de lágrimas-de-cristo enrascada em uma delicada treliça de madeira, era um dos lugares preferidos da sinhá; havia ali uma mesa com pés de ferro trabalhado e tampo de vidro redondo, três cadeiras também de ferro, mas com assentos e encostos estofados, e outra mesinha onde ficava sempre uma botija com água fresca ou uma jarra com refresco de frutas, além de bolachinhas. Era ali que ela recebia visitas durante o dia, ou então ficava horas lendo ou bordando, quase Sempre em companhia do Banjokô, aporta da entrada principal era imensa, com o batente largo em madeira pura e as folhas enfeitadas com almofadas em relevo, de onde pendiam gonzos de argolas de bronze. Ao passar por ela, entrávamos em um pequeno vestíbulo onde havia um console com espelho e lugar para pendurar chapéus, guarda-chuvas, luvas e casacos, além de um tapete vermelho, e, pendurada do teto uma lanterna que era acesa todas as noites.
Desse espaço, passávamos para a sala de visitas, grande e com o teto muito alto, todo ornado com figuras em relevo no gesso pintado de branco. Do teto pendia um enorme candelabro com um sistema de cordas que fazia com que ele pudesse ser abaixado até o alcance das mãos para ser aceso, e depois içado novamente, pendendo lá do alto com dez tochas iluminadas. Ao redor das tochas havia minúsculas gotas de vidro, que projetavam ainda mais luz nas paredes da sala. O
assoalho, assim como na casa da fazenda, era de pranchas largas de duas qualidades de madeira, uma clara e outra escura, sempre mantido muito bem encerado e lustrado debaixo dos vários tapetes que a sinhá fazia questão de dizer que tinham sido feitos no Oriente.
Alguns daqueles tapetes mostravam paisagens, outros apenas formas e desenhos sem significado algum, mas quase sempre altos e muito macios, bonitos de ver e gostosos de tocar. Muitos eram os navios que iam da China para a Bahia levando tecidos, quadros e louças,
que também estavam espalhados pelo solar. A sinhá tinha lindos aparelhos de chá e de jantar, e também vasos e enfeites chineses de porcelana decorada de azul, amarelo, vermelho e dourado.
Em uma das paredes da sala, no meio dos quadros e espelhos de moldura dourada ou de madeira escura, estava pintada uma falsa janela com a figura de uma mulher. Via-se apenas a cabeça, os ombros, parte dos braços e das mãos dela, segurando um livro como se estivesse lendo sentada na varanda.
As vezes eu ficava um longo tempo olhando para ela, tentando imaginar quem seria, se a antiga dona da casa ou uma desconhecida, ou até mesmo uma mulher que existia apenas na cabeça do pintor. Não se viam as feições, apenas o contorno do nariz, do queixo e da boca, e os cabelos pretos, presos em um coque frouxo no alto da cabeça e caindo em caracóis sobre parte do rosto.
Não sei por que, mas eu a imaginava uma mulher muito feliz, ou alguém que estava gostando muito de ler, e por isso nem se mexia.
A sinhá e o padre Notório comentaram quase a mesma coisa quando passaram diante da falsa janela, emoldurada por uma cortina de tecido amarelo enfeitado com galões. Naquela sala havia ainda o piano, o oratório com um presépio completo e sempre armado e os santos e as santas de devoção da sinhá, dois sofás e um canapé, e, à direita e à esquerda duas fileiras de cadeiras, sendo que o meio, sem tapetes, era reservado às demais cadeiras, colocadas em dias de festa. Entre os sofás, um se destacava, não só por ser dos mais bonitos, mas também por causa da descrição feita pela sinhá, que me impressionou, a ponto de eu jurar que ainda teria um igual àquele, só para poder dizer que tinha um sofá acolchoado em damasco carmesim e estruturado em jacarandá incrustado de marfim. Ao lado dele, uma escada larga e curva de mármore levava ao andar de
cima.
Passando direto pela escada, entrávamos na sala de jantar, onde havia um lustre bastante parecido com o da sala de visitas e gravuras e espelhos se alterando pelas paredes, quase cobertas pelos vários aparadores, onde estavam expostas as finas louças da China e os copos de cristal, também do estrangeiro, para as mais diversas bebidas.
Algumas destas bebidas ficavam sobre um outro móvel, em bonitas garrafas de vidro colorido com tampas douradas. Havia também uma comprida mesa de madeira com doze cadeiras acolchoadas e de encosto alto, e uma arca imensa onde a sinhá guardava a prataria, as toalhas e os guardanapos de linho da Bretanha. Um enorme tapete com desenhos de pássaros ficava embaixo da mesa, como também havia pássaros, mas de verdade, em uma enorme gaiola de madeira trabalhada que pendia do teto bem em frente à janela que dava para o jardim lateral. Havia ali uma grande variedade de pássaros, como canários, patativas, viúvas e sabiás, e era difícil saber qual deles cantava melhor ou tinha a plumagem mais bonita. Ao lado desta gaiola havia uma outra, menor em tamanho mas não em beleza, onde ficava o pássaro que fazia a Esméria chorar de saudade, um lindo papagaio de África, todo cinza e com algumas penas de um vermelho muito vivo na cauda, e que falava sem parar.
A sinhá não gostava, mas o Tico e o Hilário logo descobriram que ele aprendia depressa e começaram a ensinar-lhe palavras em iorubá, que era a língua de que ele mais gostava. A princípio ela não entendia e dizia que, como crianças que estão aprendendo a falar, o papagaio soltava sons sem significado algum. Até que um dia viu a Esméria respondendo a um cumprimento e disse que, se ele não desaprendesse logo aqueles grunhidos, ia mandar costurar o bico do pobre coitado.
Ele também conversava muito em inglês, aprendido com os antigos donos, que o tinham recebido de um mercador português, negociante em Lagos. Nessa sala havia ainda uma porta que dava para um cômodo utilizado como biblioteca e escritório, outra porta para uma sala de necessidades para as visitas, e outra que levava às dependências dos fundos, para a cozinha e despensa.
Voltando à sala de visitas e subindo a escada, havia uma sala íntima enfeitada com alguns vasos de flores de seda da China e mobiliada com um sofá, uma mesinha baixa, duas cadeiras e alguns tapetes. Seguindo para a direita, havia um comprido corredor que levava a três quartos de cada lado e que no início, não foram mobiliados, apenas guardavam caixas e mais caixas de coisas que a sinhá ainda não sabia onde colocar. Um deles depois foi decorado para quando a sinhazinha Maria Clara saísse do colégio, mas ela nunca chegou a ocupá-lo, dois foram destinados às possíveis visitas e um outro acabou ficando para o Banjokô. A ala à esquerda era ocupada pelas dependências da sinhá, o quarto, a camarinha e a sala de banho.
O quarto, por mais móveis que fossem colocados nele, continuava espaçoso, e abrigava um enorme toucador com todos os produtos de se embelezar e as colônias em vidros de tamanhos, cores e formatos diferentes. A um canto ficava uma cômoda de gavetas, com as roupas que ela usava para dormir ou ficar no quarto, mais as peças íntimas. Em outro canto havia um sofá e uma confortável poltrona estofada de tecido galonado. Foi nesta poltrona que a Antônia a viu dando o peito para o Banjokô.
O mesmo tecido de que eram feitas as cortinas da janela era usado no baldaquino da cama, que ela fazia questão de estar sempre coberta com lençóis de linho da Bretanha ou de seda das índias. Do quarto passava-se para um largo corredor que ela usava como trocador,
com um espelho que ia do chão ao teto, e roupas, sapatos, chapéus e outros acessórios pendurados ou dobrados sobre prateleiras, de um lado e do outro.
Atravessando o trocador, chegava-se à camarinha, com um móvel onde havia sempre uma bacia com água para lavar o rosto e o colo, e uma cadeira especial, furada no meio do assento, por baixo da qual ficava um bonito urinol de louça cor-de-rosa com enfeites em ouro de verdade. Havia ainda uma banheira de louça branca, onde ela se banhava até duas ou três vezes ao dia, se estivesse fazendo muito calor.
A sinhá tinha orgulho da nova casa e ficou muito feliz quando, depois de mostrá-la ao padre Notório, ele fez elogios entusiasmados enquanto os dois tomavam um refresco de pitanga na varanda da frente. A Antônia tinha levado o refresco e voltou contando que eles estavam falando sobre o Banjokô. Mais que depressa procurei um lugar de onde pudesse ouvi-los sem ser vista, e entendi que a sinhá estava combinando com o padre o batizado do meu filho. Eu já teria dado um jeito de batizá-lo antes, na nossa tradição africana, se tivesse parentes homens.
A Esméria confirmou uma história que eu achava que tinha ouvido antes de partir de Uidá, na casa dA Titillayo, dizendo que se os meninos não fossem batizados em sete dias depois de nascidos e as meninas em nove, eles não sobreviveriam aos pais, no caso dos meninos, e às mães, no caso das meninas. Como o pai do Banjokô já estava morto antes mesmo de ele nascer, fiquei tranqüila à espera de uma oportunidade. Mas depois do comentário da sinhá Ana Felipa, pedi ajuda à Esméria para que déssemos um jeito de realizar a cerimônia do nome antes de o menino ser batizado na igreja dos brancos.
Ela disse que conversaria com os outros para ver se alguém tinha uma solução, pois precisávamos encontrar
um babalaô na cidade e dar um jeito de ir até ele, sem que a sinhá desconfiasse.
A visita
No solar, inicialmente éramos dez, muita gente para pouco trabalho: eu, a Esméria, a Antônia, a Maria das Graças, a Firmina, a Josefa, a Rita, o Tico, o Hilário e o Sebastião, sendo que cada um continuou com o mesmo trabalho que fazia na ilha. Até mesmo o Tico e o Hilário, que não tinham função definida e continuaram não tendo, e com maior liberdade ainda, pois logo começaram a sumir pela cidade e só aparecer depois de dois ou três dias, sujos, famintos e cheios de novidades.
O Sebastião também saía bastante a serviço da sinhá, pois era ele quem fazia a maior parte das compras.
Eram muitas as coisas que passaram a ser compradas, como frutas, verduras e carne, porque não tinha mais como plantar ou criar em terreno bem menor. E também porque na cidade não se usava isso, a variedade e a facilidade para encontrar tudo de que se precisava eram bem maiores. Muitos vendedores iam bater ao portão do solar, oferecendo desde móveis até comida pronta, a maioria doces. Eu gostava de ver as doceiras, pretas bonitas e bem-vestidas, usando toda sorte de enfeites ou jóias de verdade, como as chamativas pulseiras de ouro cheias de penduricalhos.
Logo nós também ganhamos fardas novas, mais de acordo com as que os escravos usavam na cidade, e eu adorava ficar me admirando no espelho. Meu corpo voltou rapidamente ao normal, a Esméria até chegou a comentar que, exceto pelos peitos grandes e cheios de leite, eu nem parecia ter dado a luz havia tão pouco tempo, sendo que me caíram muito bem a bata branca com babado de renda e a saia rodada que ia até os tornozelos.
Eu me acostumei bem depressa à vida na cidade, embora às vezes sentisSe saudade de algumas pessoas que tinham ficado na fazenda, como as companheiras de baia e, é claro, o Lourenço. Mas eram tantas as novidades, principalmente as contadas pelo Tico e pelo Hilário, que logo esqueci o passado. E havia também o Banjokô, que crescia calmo e feliz, engordando muito e enchendo de alegria os meus momentos de folga, cada vez maiores. Eu gostava muito de estar com ele, de ter o meu dedo apertado pela mãozinha dele e de vê-lo sorrindo cada vez com mais consciência do que o fazia sorrir. Podia ser um toque meu ou um bicho que passava pelo quintal e, principalmente, a música. A sinhá logo percebeu o interesse dele e tocava piano todos os dias depois da sesta.
Era o que ela estava fazendo, enquanto eu e a Maria das Graças enrolávamos biscoitos na cozinha para o lanche da tarde, quando o Tico e o Hilário entraram eufóricos cozinha adentro. Contaram que estavam andando pelo largo do Terreiro de Jesus e viram a Nega Florinda. Eles tinham parado para conversar com ela e, naquele momento, ela estava esperando do lado de fora da casa, enquanto eles tentavam colocá-la para dentro sem ser vista pela sinhá. Eles tinham dito que ela podia entrar, que a sinhá provavelmente a receberia para contar um alô, mas ela disse que não, que desde que a sinhá tinha arrancado os olhos da Verenciana, não queria vê-la nunca mais. Mas queria nos ver, e por isso esperava um sinal para entrar.
Somente a sinhá e o Sebastião tinham a chave do portão da frente, que o Tico e o Hilário pulavam sem nenhum problema, mas que a Nega Florinda não conseguiria pular. O Sebastião tinha saído para contratar um aguadeiro na Fonte Nova, que não ficava muito longe, além do dique avistado no vale que se abria no fundo do quintal. A sinhá já tinha experimentado águas de muitas das fontes da cidade, as públicas e as particulares, mas
não tinha gostado de nenhuma, dizendo que isso a cidade tinha de ruim, que as águas não eram puras e frescas como as da ilha.
Quando o Sebastião voltou, acompanhado de um aguadeiro que levava uma amostra para a sinhá experimentar, a Nega Florinda entrou junto com ele, mesmo com o perigo de ser vista. Mas também havia perigo em ficar do lado de fora, parada, correndo o risco de ser denunciada por alguém. Ou então de ser presa, se algum soldado passasse e pedisse a licença para estar nas ruas. Ela não tinha mais a carta de alforria, nem mesmo se lembrava se algum dia chegara a tê-la.
Como todos na ilha a conheciam e a sabiam forra, isso não tinha importância. O que não acontecia na cidade, onde qualquer branco, a qualquer hora, podia solicitar que um preto mostrasse a carta ou a licença do dono para andar pelas ruas, na qual deveria estar escrito o motivo da saída e o tempo que o preto ou a preta tinham para cumpri-lo. Quando ia à cidade, a Nega Florinda evitava os dias de semana e dava preferência aos domingos, dia de guarda, quando os pretos tinham mais liberdade e os brancos quase não saíam de suas casas, exceto para as missas das horas da manhã. Mas estávamos na tarde de um dia de semana, e achei que alguma coisa muito importante tinha feito com que ela se arriscasse indo até a capital.
Assim que ela apareceu na porta da cozinha, a Esméria mandou que os meninos a levassem para o porão, onde poderia ficar para dormir. Eu, principalmente, estava ansiosa para que a sinhá nos liberasse logo e pudéssemos ir conversar com a Nega Florinda, pedir que dissesse alôs e contasse as novidades sobre a Agontimé e os escravos que tinham permanecido na fazenda. Também queria que ela conhecesse o meu filho, e assim que tive uma oportunidade, eu o peguei do cesto aos pés da sinhá, dizendo que precisava dar o peito.
O Banjokô acordou assim que sentiu o ar frio e úmido do porão, um espaço bastante amplo que se estendia por baixo de quase toda a casa. O solar tinha sido construído em um terreno com desnível, e o porão tinha a altura de pouco mais de dez polegadas na parte dos fundos, que correspondia à frente da casa, até quase setenta polegadas na parte da frente, onde entrávamos por uma portinhola de madeira. A temperatura lá dentro ia do insuportavelmente quente nas noites de muito calor, quando tínhamos que molhar o chão de terra para conseguirmos dormir, até o muito frio, quando chovia ou ventava. As paredes estavam cobertas de mofo e quase não havia claridade, nem a do luar, problema que resolvemos depois que o Sebastião conseguiu pegar um lampião que a sinhá ia jogar fora, e a Antônia roubava um pouco de azeite de baleia todos os dias, Para mantê-lo aceso até que o sono aparecesse.
De fato, a Nega Florinda estava em São Salvador porque tinha recebido um recado da Agontimé para ir se encontrar com ela em São Luís do Maranhão, e tentava conseguir dinheiro para a viagem por mar ou alguém que a levasse de graça, pois não tinha mais idade para ir a pé. Ela disse que naquela tarde mesmo já tinha conseguido boa parte do que precisava com alguns irmãos da terra, da África.
Eu me lembrei das moedas que tinha ganhado da Antônia, as do funeral do sinhô José Carlos, e também entreguei a ela, que ficou muito emocionada. Acalentou meu filho nos braços e cantou para ele, dizendo que tudo o que pedia era que ele tivesse um grande futuro e, sobretudo que fosse livre a tempo de fazer a vida. Contei sobre o jeito como a Sinhá o tratava, cheia de cuidados e às vezes como se fosse um filho, e ela disse que assim era bom, que o menino poderia tirar muito proveito desse amor, e que deveria sacrificar os meus direitos de mãe para que isso acontecesse. Na verdade, eu sentia um pouco de ciúme quando via os dois juntos, ele mais
parecido com ela do que comigo.
A Nega Florinda tinha chegado na cidade logo de manhã, acompanhada da Liberata e da Verenciana com o filho, que foram com um conhecido para um quilombo chamado Urubu, afastado da cidade. Não podiam mais ficar na ilha, com o risco de serem capturados pelo novo dono da fazenda, pois o sinhô José Carlos tinha morrido antes de entregar as cartas de alforria prometidas.
Muitas pessoas sabiam disso e era perigoso que permanecessem por lá sem que, em algum momento, alguém denunciasse, por inveja ou vingança, ou mesmo para conquistar a confiança do novo sinhô que, de acordo com a Nega Florinda, era ainda pior que o falecido.
Ela tinha aparecido na fazenda uma única vez e foi escorraçada pelos novos capatazes, que nem mesmo respeitaram a sua idade, correndo com ela às chibatadas. Para provar, ainda tinha os vergões nas costas. Era por isso que ela não tinha notícias dos outros, apenas daqueles três que tinham conseguido fugir, o Aprígio, o Manoel Tupi e o João Angola. Soube que conseguiram escapar da ilha e que pelo menos um deles, ela não sabia qual, tinha ido para o Urubu, que estava se formando com muitos pretos fujões e valentes, intimidando tanto os soldados que eles nem se atreviam a passar por perto.
Por isso tinha surgido a idéia de levar a família da Liberata para lá. Perguntei onde ficava tal quilombo e ela não soube responder, pois talvez o caminho só fosse informado aos que estavam de fato indo morar lá, que isso tinham que ser indicados por alguém que já estava no quilombo. Ela disse apenas que era governado por uma mulher, de quem também não sabia o nome.
Quando os outros se recolheram ao porão, menos o Sebastião, que dormia na cozinha, a Nega Florinda disse
um alô da fada da cabeça pelada, dedicando ao Banjokô, que àquela altura já estava dormindo. Foi então que me lembrei de perguntar se ela conhecia algum babalaô que pudesse fazer a cerimônia do nome, pois eu queria que ela se realizasse antes que ele fosse apresentado aos santos da sinhá.
Ela disse que conhecia alguns e que no dia seguinte ia providenciar para que um deles entrasse em contato comigo. Foi embora ainda antes do dia clarear totalmente, e na mesma tarde o Sebastião avisou que tinha uma vendedora de quitutes querendo falar comigo no portão, e que era para ir logo e despachá-la antes que a sinhá acordasse da sesta. O nome da mulher era Aréola e tinha sido mandada por um amigo da Nega Florinda, um chamado Babalaô Gumfiditimi.
Ela levou um mapa traçado em um pedaço de papel, o mesmo usado para enrolar os acarás que vendia, e disse que ele estaria me esperando no domingo seguinte em um sítio localizado na freguesia do Rio Vermelho, e era bem possível que a Nega Florinda ainda estivesse por lá.
Perguntei o que eu deveria levar e ela respondeu que nada, que apenas deveria estar lá com meu filho.
Quando já estava indo embora, depois de fazer uma saudação a Oxum, meu orixá, ela voltou para dizer o lugar onde trabalhava, para o caso de eu precisar falar com ela. Tinha um ponto de tabuleiro quase em frente à Santa Casa da Misericórdia, e que se eu achasse que não conseguiria ir ter com o babalaô no domingo ou se tivesse qualquer outro problema, deveria mandar avisá-la.
A saída
Depois que a Adeola foi embora, fiquei pensando em como faria para sair do solar, ainda mais levando o Banjokô. Aos domingos a sinhá recebia visitas para o almoço, o padre Notório e mais alguns convidados, mas
antes disso sempre dava um jeito de ficar um pouco com o menino. Mostrei o mapa para o Tico e o Hilário e eles disseram que sabiam mais ou menos onde ficava, a umas duas horas ou mais de caminhada, e que poderiam me levar, mas teríamos que sair de manhã bem cedo.
Resolvi arriscar e disse à Esméria que quando a sinhá Perguntasse por nós, ela deveria responder que o Banjokô estava com um pouco de febre ou algo assim, e que eu estava com ele no porão, onde ela nunca tinha posto os olhos. Saímos junto com o sol, na esperança de voltar antes de os convidados irem embora, sendo que ninguém mais nos acompanhou para que a Sinhá não desconfiasse de nada ao sentir falta de mais gente. Mas antes de sairmos, todos deram presentes ao Banjokô, algum dinheiro, frutas, panos.
O que puderam dar. Caminhamos bastante, e o sol já estava quente quando pegamos alguns atalhos que os meninos demonstraram conhecer muito bem, em meio a vales de mata quase fechada e picadas desertas. Eles disseram que era mais seguro e, de fato, não cruzamos com ninguém pelo caminho, a não ser quando já estávamos bem perto da pequena aldeia do Rio Vermelho, onde a maioria das pessoas trabalhava na pesca e habitava casas muito simples, bem diferentes dos solares e mansões do Corredor da Vitória.
Seguindo o mapa da Adeola, foi fácil encontrar o sítio onde morava o Babalaô Gumfiditimi, “Ogum está comigo
", em um terreno grande ocupado por sete casinhas e um salão que ele usava para atender às pessoas, ao lado do qual ficava uma cobertura de palha onde, naquele dia, várias mulheres e crianças estavam sentadas no chão, sobre esteiras, ao redor de um fogareiro em que faziam comida. Exceto pela parte de dentro do salão, todo o chão era de terra, ocupado por vários canteiros de verduras e de ervas de banho e proteção, como arruda, vence-demanda, abre-caminho, espada-de-são-
jorge, vence-tudo e outras que eu não soube identificar.
Um cercado de madeira prendia alguns porcos e muitas galinhas passeavam pelo quintal, e havia também um bode amarrado ao tronco de um iroco, provavelmente esperando para ser sacrificado. Assim que chegamos, a Nega Florinda foi nos receber e me apresentou ao Babalaô Gumfiditimi, que estava dentro de uma das casas, onde morava sua segunda esposa, Monifa, "eu tenho sorte", e onde também estava de visita a primeira esposa, Fayola, "a sorte caminha com honra", que nos convidou a visitar a casa dela, para beber alua. Percebi que em cada casa morava uma esposa, sete no total, como era bastante comum em África para quem tinha condições de sustentá-las, e que todas as crianças e os jovens que estavam no terreiro eram filhos e filhas do babalaô, pelo menos uns quarenta.
Eu nunca tinha assistido a uma cerimônia de nome e estava curiosa para saber como era. Falei que infelizmente tínhamos pressa de voltar para casa, por termos saído escondidos, e o Babalaô Gumfiditimi então foi se preparar, sugerindo que a Fayola nos levasse à casa dela para o tal refresco, o que foi bom, pois estávamos morrendo de calor. Além de o sol estar forte, tínhamos caminhado depressa, e eu ainda carregando o Banjokô amarrado junto a mim, no peito, com medo de que ele tivesse repetido o trato da minha avó. Ele tinha dormido quase o tempo todo e não reclamou de nada, mas estava com a camisola ensopada de suor, assim como a minha bata. Aproveitei também para dar o peito e trocar a camisola por outra oferecida pela esposa mais jovem do Babalaô Gumfiditimi, uma que tinha sido usada na cerimônia do seu filho ainda de colo.
A cerimônia
O salão parecia maior visto pelo lado de dentro, com o chão de tijolo e as paredes pintadas de azul-claro, onde
estavam pendurados quadros com imagens dos orixás junto com outras pinturas, como a do machado de Xangô e dos instrumentos de caça de Ogum, de quem Ogumfiditimi era filho. Havia também pequenos oratórios com esculturas de orixás em madeira tingida para representar as cores deles.
A cor principal de Xangô é o vermelho, de Ogum é o azul, de Oxóssi é o verde e de Oxum é o dourado, cada um tem a sua. Do teto pendiam enfeites de papéis coloridos recortados em formato de bandeiras ou tiras finas e compridas, que dançavam ao menor toque de vento. Era um ambiente alegre e tranqüilo, onde me senti bem, iluminado por quatro lampiões, um em cada canto, e uma lamparina sobre a mesa. Encostados em duas paredes, uma de frente para a outra, compridos bancos de madeira, um para homens e outro para mulheres. Havia ainda uma pequena mesa ao fundo, onde o Babalaô Gumfiditimi jogava o Ifá, que estava coberta com um pano branco que deixava apenas perceber as formas dos objetos de adivinhação embaixo dele. Mas, naquele dia, as atenções estavam voltadas para a mesa central, em volta da qual seria realizada a cerimônia.
O Babalaô Gumfiditimi estava todo vestido de branco, o que fazia um contraste ainda maior com os vários colares pendurados em seu pescoço, feitos de contas coloridas, búzios e sementes. Tinha também um bonito turbante branco amarrado na cabeça, do mesmo modo que o Ifasen, "o Ifá faz milagres", que ele me apresentou como o filho que estava sendo preparado para herdar os segredos do jogo de adivinhação, mas que naquela cerimônia seria o ewi (Ewi: recita ou canta versos feitos para ocasiões especiais).
O Ifasen tinha aprendido com o avô, um grande ewi em África e mesmo no Brasil, que a Nega Florinda afirmou ter sido o mais solicitado para recitar nas cerimônias de
nome, casamento, funeral e em homenagens a pessoas ou famílias. Mas para ser ewi, primeiro é preciso ter o dom, além de saber combinar as palavras Com os sentimentos, como quando se faz um oriki, mas também é preciso conhecer muito bem todas as palavras e os provérbios, e saber em que ocasiões devem ser usados, falando ou cantando. O Banjokô tinha acordado e prestava a atenção em tudo, enquanto eu refletia se estava mesmo fazendo a coisa certa, se ele teria uma cerimônia como aquela se a minha avó estivesse viva.
Mas, no caso, era aquela ou nenhuma, e de certa forma eu já estava bastante familiarizada com a religião dos orixás, além de querer dar ao meu filho mais alguns laços de parentesco, pois éramos os únicos no mundo ligados pelo sangue. Entre os iorubás, uma cerimônia de nome também significa que a criança está sendo apresentada aos orixás e aos amigos, que, a partir de então, formam uma grande família.
Além da Nega Florinda, do babalaô, do Ifasen, da Monifa e da Fayola, do Tico e do Hilário, ainda estavam presentes mais duas das esposas e três das filhas do Babalaô Ggumfiditimi. Tirando o Tico e o Hilário, todos deram presentes ao Banjokô, roupa ou dinheiro, deixados em uma cesta logo à entrada do salão. Quem deveria conduzir a cerimônia era a pessoa mais velha da família, que no caso era eu mesma, mas o Babalaô Ggumfiditimi começou perguntando se eu daria a ele tal honra.
Mais do que depressa respondi que sim, passando o Banjokô para os braços dele, mesmo porque eu não saberia o que fazer. Em África, os mais velhos são muito respeitados e tidos como as pessoas que melhor se dão com os mais novos, porque eles já estão se preparando para voltar ao Orum, lugar de onde as crianças tinham acabado de chegar. Dando início à ikomojade, a cerimônia de apresentação, o Babalaô Gumfiditimi
primeiro se benzeu rezando em voz baixa, enquanto erguia o Banjokô em direção ao céu para depois segurá-lo sobre o braço esquerdo.
O Babalaô Gumfiditimi pediu a compreensão dos orixás e dos ancestrais por estarmos realizando a cerimônia depois de passados mais de nove dias do nascimento, e só mais tarde, em outra cerimônia, foi que entendi o que aconteceu logo em seguida. O Banjokô sorria e continuou sorrindo quando deveria ter chorado ao se molhar com as gotas de água que o Babalaô Gumfiditimi jogou para o alto, sobre os dois. Ele devia ter chorado, pois o choro seria uma indicação de que tinha vindo para ficar.
De acordo com um ditado iorubá, somente as coisas vivas podem produzir barulho, "e o fazem à sua maneira". Todos ficaram quietos e em silêncio por um longo tempo, talvez esperando que ele chorasse, a maioria de cabeça baixa, até que o Babalaô Gumfiditimi continuou com o ritual, sussurrando no ouvido do meu filho o seu primeiro nome, que é um nome que ele poderia ter trazido do Orum, neste caso chamado nome amutorunwa, ou então ser dado de acordo com as condições em que tinha nascido, chamado de nome abiso, como era o caso do Banjokô.