Um Defeito de Cor
Capítulo um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Mas eram carneiros que já tinham nascido assim, como eu mesma tinha visto, e não gente que virava carneiro. O
Akin disse que algumas pessoas não viravam, tanto que ele conhecia quem já tinha ido até o estrangeiro e voltado, contando como era longe. Perguntei se havia guerreiros no estrangeiro e ele respondeu que não, nem imagino o porquê, mas me recordo que na hora pensei como teria sido melhor para a minha mãe e para o Kokumo terem vivido no estrangeiro, longe dos guerreiros do Adandozan e onde talvez nem fossem abikus.
O Akin perguntou se eu e a Taiwo queríamos ser esposas dele e nós dissemos que sim, e como a Taiwo tinha nascido primeiro, ela seria a primeira esposa. Eu, que queria um marido só para mim, não me importei de ser a segunda esposa, desde que fosse por ela, talvez por causa daquilo que já falei, de pensar em nós duas como se fôssemos uma só. A Aina disse que se o Kokumo não tivesse morrido, ela ia querer ser esposa dele, e então poderíamos morar todos juntos, na mesma casa. Tenho boas recordações daquele tempo, quando tudo era novo, todos os momentos eram felizes e eu nem sequer imaginava o que ainda estava para acontecer.
A morada
Já tinham se passado muitos dias desde a nossa chegada, e como estávamos gostando bastante, a minha avó resolveu procurar um lugar para morarmos. Ficamos felizes quando soubemos da vaga em uma casa de cômodos na rua em que A Titilayo morava, um pouco mais perto do mercado. Era uma construção comprida, na verdade duas construções, uma de frente para a outra e separadas por um quintal, que servia de cozinha para as mulheres e onde as crianças brincavam e os homens se perdiam em conversas sob a sombra de alguma árvore. De cada lado do quintal havia cinco cômodos, e ficamos com um cômodo do meio, muito maior do que o corredor em que morávamos na casa da Titilayo. Tinha espaço para as três esteiras, mais o altar de Xangô, da Nana e dos Ibêjis, e ainda uma mesa e duas cadeiras que o Ayodele conseguiu com um amigo que sabia fabricá-las como as do estrangeiro e que nos custaram quatro colares de cauris, dos médios. Ainda me lembro do valor porque foi uma grande extravagância, mas uma pequena alegria que a minha avó resolveu se dar.
Ela tinha medo de que o dinheiro não desse para pagar o aluguel, mas a Titilayo disse para ter fé porque, além de vender fumo, obi e acará no mercado, ela também poderia dançar, exercendo um direito que tinha sido da minha mãe, e passado para ela quando se tornou responsável por nós. Ela concordou, achando que não ia
ganhar muito dinheiro porque já estava velha e feia, mas, precisando, seria de grande ajuda. E se mesmo assim não desse, em último caso eu e a Taiwo ainda poderíamos pedir prendas em nome dos Ibêjis. Por medo, respeito ou agrado, os comerciantes sempre haveriam de dar, mas este último caso nunca chegou a acontecer.
No dia em que nos mudamos para o cômodo, a Titilayo organizou uma grande festa, com tambor e gente para cantar, com acará, obi, alua, vinho de palma, mandioca e peixe seco assado com farinha, além de muitos doces. Só da casa da Titilayo foram dez pessoas, porque a Meni estava noiva de um igbo (Igbo: nome de uma tribo e seu povo, da atual Nigéria) que, como o nome dizia e a Titilayo confirmou, era "bom de coração", o übioma. Ele dançava engraçado, dava piruetas no ar e fazia todo mundo rir, e mais ainda quando o Ayodele tentava imitá-lo e caía no chão. Todos os que moravam nos outros cômodos também compareceram e levaram mais comida e mais bebida, e, atraídas pelo barulho da festa, muitas pessoas ficaram olhando da rua, aproveitando a música para fazer um baile em frente à casa de cômodos.
Alguns nos deram presentes, que entregaram para a minha avó desejando boa sorte. Um homem alto e vestido com roupa de branco, que morava no cômodo à direita do nosso, segurou as mãos da minha avó e disse algo como "ó mãe abençoada que vem do norte como a lufada do vento que traz a fartura, que sejas duas vezes abençoada, mãe de mãe de ibêjis, que o fogo de Xangô queime as impurezas dos seus caminhos e que nunca lhe falte na mesa o óleo de palma e o sal, que dão tempero à vida, nem a doçura do mel e nem a pureza da água, nem a ti e nem aos seus", e muitas outras coisas bonitas que depois a Titilayo disse se chamarem orikis (Orikis: verso ou orações que saudavam pessoas, feitos, animais e as divindades). Foi naquele dia que eu e a Taiwo ganhamos presentes das filhas da Titilayo, duas fitas para cabelo e
dois panos que pareciam vestidos, tudo azul, da cor do véu de Iemanjá, que usamos na manhã seguinte para passear pelo mercado.
A chegada O mercado estava quase vazio, porque as pessoas tinham ido para perto do forte português depois de ouvirem que um navio acabara de chegar do estrangeiro. Eu e a Taiwo também fomos até lá, mas ela queria voltar para casa, com medo de que nos perdêssemos ou fôssemos capturadas, pois havia muita gente ao nosso redor, inclusive alguns brancos. Mas eu quis ficar, e então ela disse que nunca me deixaria sozinha. Na verdade, o que eu queria era que as pessoas vissem as nossas roupas novas; se voltássemos para casa, a minha avó nos faria tirá-las, temendo que estragassem. Todos que gostavam de ibêjis olhavam e sorriam para nós, e pensar que o Kokumo e a minha mãe também sorririam se estivessem conosco me fazia muito feliz. E mais feliz ainda porque Uidá era uma cidade bonita e as pessoas eram boas, como a Titilayo e a família dela, que nos receberam como amigos de longa data. E também havia a casa nova, com três esteiras novas, mesa, cadeiras e até um quadro na parede, com o desenho de um coração onde estava escrito Ekun Dayo (Ekun Dayo: "Transforma duelo em alegria"), presente do Ayo dele.
Primeiro aportaram duas canoas cheias de caixas e baús muito grandes e bonitos, e logo em seguida mais duas, carregando baús menores e um branco cada uma. Eram figuras interessantes, com roupas que não deixavam ver parte alguma do corpo e usando chapéus que envolviam toda a cabeça e se arredondavam para todos os lados, enfeitados com enormes penas coloridas. Quando as canoas deles se aproximaram, pretos que estavam em terra entraram na água levando duas cadeiras que pareciam o trono do rei que eu tinha visto em um
desenho, em Savalu.
Certa vez passou por lá um andarilho que fazia desenhos das pessoas, deixando todos espantados com a semelhança, a pessoa e o desenho tão parecidos como se fossem ibêjis, como se fossem eu e a Taiwo. Entre os desenhos havia o de uma cadeira que o andarilho disse ser de um rei, mas que não era colorida como aquelas, embora eu tivesse achado que deveria ser. O desenho era apenas preto, feito com carvão, mas imaginei as cores, e elas eram parecidas com as cores das cadeiras nas quais os brancos se sentaram e foram erguidos acima das cabeças dos pretos, acima das águas.
Quando os brancos chegaram em terra, as pessoas que estavam por perto se ajoelharam e começaram a bater com a testa no chão, dando a entender que eles eram muito importantes. Alguns homens saíram correndo e gritando de dentro do forte, pretos que usavam roupas simples de brancos, e formaram duas fileiras, uma de frente para a outra, desde a porta do forte até o lugar onde as cadeiras foram colocadas. Os dois brancos só se levantaram quando um homem surgiu para recebê-los, saindo do forte anunciado por uma banda de tambores e clarinetas e saudado com loas.
Tocavam uma música que eu me lembro de ter achado quase tão bonita quanto o mar, que tinha a cor mais bonita que o pano de Iemanjá. Sei que é difícil comparar sons e cores, mas, aos meus olhos e ouvidos, eram apenas duas belezas, só isso, uma quase tão bonita quanto a outra. Aquela foi a primeira vez que vi o Chachá, o comandante do forte que tanto me impressionou, quase branco de tão majestoso, seguido por muitos escravos, músicos, cantores, bufões e uma guarda formada por mulheres. Ao som da música que ficava cada vez mais alta e bonita, ele caminhou pela praia sob um pára-sol erguido por dois pretos. Eu sabia o que significava um pára-sol, a minha avó já tinha
caminhado sob um deles com a rainha Agontimé, em Abomé, e só os grandes chefes ou soberanos podiam usá-los, assim como alguns tipos de bengala.
Depois que se cumprimentaram, protegidos pela sombra do pára-sol, o Chachá e os brancos caminhavam para o forte quando eu disse à Taiwo que queria chegar mais perto para vê-los melhor. Eu deveria ter ouvido a Taiwo, que não queria ir, mas peguei a mão dela e fui puxando, abrindo caminho por entre as pernas dos que estavam de pé e por cima dos ombros dos que estavam ajoelhados, até chegarmos bem perto do cortejo. Foi então que um dos brancos parou de caminhar e olhou para nós, e logo todos ao redor fizeram o mesmo. Ele apontou para nós e falou qualquer coisa ao ouvido do Chachá, e imediatamente um dos seus pretos já estava nos segurando pelos braços, antes mesmo de pensarmos em sair correndo.
Eu e a Taiwo gritamos e tentamos fugir, mas ele era muito mais forte do que qualquer tentativa, e ninguém nos defendeu. Fomos então levadas para o forte e colocadas dentro de um barracão muito grande, onde já havia várias pessoas sentadas ou deitadas pelo chão.
Quando entramos, quase ninguém olhou para nós, demonstrando pouco interesse pelo que estava acontecendo, como se aquela situação fosse normal. O
guarda nos empurrou para dentro e ficou parado na porta com a lança em posição que poderia ser tanto de ataque como de defesa, e apontou um canto onde estavam as mulheres. Antes de sair, disse a elas para cuidarem muito bem de nós duas porque éramos ibêjis, para presente.
A captura
Em uma mistura de iorubá e achanti, uma das mulheres perguntou se estávamos sozinhas, eu respondi que sim, e que morávamos em Uidá mesmo. Ela então quis saber
se tínhamos família e eu contei sobre a minha avó.
Quando soube que éramos apenas nós três, ela disse que era melhor assim, pois deixaríamos uma só pessoa chorando por nós, confirmando que seríamos mandadas para o estrangeiro, que muitos deles já estavam ali havia vários dias, como ela, esperando para embarcar.
Todos os dias chegava mais gente capturada em muitos lugares da África, falando línguas diferentes e dando várias versões sobre o nosso destino. Perguntei onde ficava o estrangeiro e ela não sabia, mas outra mulher que estava por perto disse que era em Meca. Ela e alguns outros que nos mostrou, dizendo serem muçurumins, estavam todos indo para Meca, e deveríamos nos alegrar por Meca ser uma terra sagrada e feliz, para onde todos tinham que ir pelo menos uma vez na vida, cumprindo as obrigações com Alá. Como eu não sabia quem era Alá, ela disse que é o todo-poderoso, o que tudo vê, o que tudo pode, o que tudo sabe, o que nunca se engana.
A muçurumim se chamava Aja e estava acompanhada da irmã, Jamila, e do Issa, marido das duas, que estava no meio dos homens. Eles pareciam felizes e tinham chegado ao forte no dia anterior. A Tanisha, a mulher com quem eu tinha conversado primeiro, disse que não, que havia um grande engano, que tinha sido aprisionada junto com o marido e o filho, e estávamos todos sendo levados para o estrangeiro, que até poderia ser Meca, pois não sabia onde ficava, mas era para virarmos carneiros dos brancos, pois eles gostavam da nossa carne e iam nos sacrificar.
As duas mulheres iniciaram uma discussão e logo todas as outras já estavam falando ao mesmo tempo. Não éramos muitas, um pouco mais que os meus dedos e os da Taiwo, que era como eu sabia contar na época. A grande maioria era de homens, quase todos jovens. A Tanisha explicou que os lançados (Lançados: ou Á
tangomaus: homens que se embrenhavam África adentro para capturar ou enganar os futuros escravos, a maioria era de estrangeiros, mas também havia africanos entre eles, muitos dos quais eram ex-escravos), tinham matado todos os velhos e as crianças, alguns pelo caminho e outros logo ao chegarem ao barracão, e que a Aja ainda não tinha visto nada disso por ter chegado havia pouco tempo.
Disse também que, às vezes, alguns guardas batiam muito em todos, talvez para amaciar a carne. Os brancos não gostavam de carne de crianças e de velhos, e nós, eu e a Taiwo, só tínhamos sido escolhidas porque éramos ibêjis e dávamos sorte. Eu e a Taiwo estávamos bastante assustadas, e ela começou a chorar e a dizer que queria a nossa avó, mas a Tanisha não se importou e continuou falando coisas horríveis, parando apenas quando os muçurumins se levantaram, viraram todos na mesma direção e começaram a rezar, segurando um colar de contas.
Depois de correrem os dedos por um certo número de contas, eles se ajoelharam e inclinaram o corpo para a frente, encostando a testa no chão, para depois se levantarem e repetirem tudo muitas vezes. Só depois que eles terminaram foi que a Aja e a Jamila começaram a fazer a mesma coisa, e então reparei nos panos com que cobriam a cabeça e nos vestidos que iam até os pés.
Eram bonitos, e elas me disseram depois que era um traje de festa e de grandes ocasiões, como visitar a terra sagrada.
Eu queria que o Kokumo e a minha mãe estivessem por perto, porque talvez eles soubessem o que fazer, ou pelo menos em quem acreditar, já que eu não sabia.
Tanto a Tanisha quanto a Aja pareciam ter muita certeza do que diziam, mas, em qualquer das hipóteses, eu estava muito preocupada com a minha avó, que não
sabia onde estávamos. Se soubesse, ela poderia falar com o Ayodele, que conhecia muitos estrangeiros e talvez até conhecesse o Chachá, que a Tanisha disse ter o poder de mandar prender e mandar soltar quem bem entendesse. Não perguntei como ela sabia de tudo aquilo, mas desconfio que tivesse ouvido nas conversas dos lançados, pois disse também que o Chachá nos trocava por armas, fumo, pólvora e bebidas, e que eu e a Taiwo, se não fôssemos ibêjis e para presente, não seríamos trocadas porque éramos pequenas e valíamos pouco. Por isso eles tinham deixado os outros filhos dela em Oyó, os três menores, e pegado apenas o marido, Amari, e o filho mais velho, que se chamava Daren porque tinha nascido à noite.
Somente quando entraram alguns guardas, distribuindo feijão, farinha, inhame e tinas de água que passavam de mão em mão, foi que percebi como estava com fome.
Nem todos ganharam, como alguns homens que estavam amarrados a um canto, de castigo por terem brigado.
Primeiro, brigaram entre si, e a Tanisha não soube dizer o motivo porque eles falavam uma língua que ela não conhecia, e quando os guardas tentaram separar a briga, avançaram em cima deles.
Mesmo quem antes estava quieto entrou na briga, e só não participaram os muito cansados por terem chegado havia pouco tempo, às vezes caminhando desde muito longe, e os que ainda não tinham sido desamarrados. E
nem as mulheres. Mas logo apareceram mais guardas, que conseguiram controlar a briga e levar seus companheiros para fora, alguns bem machucados, outros provavelmente mortos. Entre os pretos havia mortos com certeza, pois lutaram com homens armados e deixaram no armazém o cheiro que reconheci, cheiro de sangue, o mesmo do riozinho do Kokumo e da minha mãe.
O vestido novo da Taiwo estava sujo de terra e, quando
perguntei, ela disse que o meu também estava. Mesmo assim, continuávamos as mais limpas entre todos os prisioneiros, muito mais ainda do que os que estavam de castigo. Alguns deles estavam amarrados por uma só corda que prendia os pulsos aos tornozelos, o que fazia com que mantivessem as pernas dobradas e as cabeças enfiadas entre os joelhos.
A Tanisha disse que, desde a briga, três deles haviam morrido e ainda não tinham sido retirados, estavam em um canto, cobertos com uma antiga vela de navio, e que logo o cheiro começaria a incomodar ainda mais. Como se já não incomodasse, como se fosse possível respirar bem naquele ambiente onde, sabe-se lá há quanto tempo, acumulavam-se os cheiros de urina e de merda, que venciam facilmente a terra jogada por cima do buraco cavado no chão quando precisávamos fazer as necessidades.
Era noite, dava para perceber a falta de claridade por entre a palha do teto, quando a porta se abriu e entraram mais capturados, todos homens. Aquela altura eu já achava que a Tanisha estava certa, que éramos mesmo prisioneiros e que seríamos trocados por mercadorias do estrangeiro. Mercadorias vendidas nos mercados de Uidá e, quem sabe, até no de Savalu, e que provavelmente nós mesmos já tínhamos comprado quando outras pessoas foram trocadas.
Os novos prisioneiros chegaram amarrados uns aos outros pelos pés e pelo pescoço, vigiados por guardas que carregavam lanças em uma das mãos e tochas acesas na outra. O lugar já estava bastante cheio e quase não havia espaço para eles, mesmo porque muitos estavam deitados, dormindo. Para que se sentassem e dessem lugar para mais pessoas, foram cutucados com lança e com fogo, e quando parecia que iam reagir por causa do susto, foram contidos a pontapés e com ameaças de queimadura de verdade. A lança, a Tanisha
disse que só usariam em último caso, para se defenderem, porque poderia matar e o Chachá não gostava de perder mercadoria, o que significava perder dinheiro.
Alguns guardas tinham um pano amarrado por cima do nariz e gritaram que éramos uns porcos, que merecíamos o destino que nos seria dado pelos dois brancos que entraram logo em seguida, os mesmos que eu tinha visto na praia. Eles mandaram que os guardas fossem na frente, iluminando com as tochas, e seguiram passando os olhos sobre nossas cabeças, como se estivessem contando. O que nos tinha escolhido não nos reconheceu, e fiquei com medo de que não nos quisesse mais para presente, que tivesse mudado de idéia e nós também virássemos carneiros. Eu sentia muita vontade de chorar, mas não queria amedrontar ou entristecer a Taiwo ainda mais.
Quando os homens saíram, a Tanisha nos abraçou e disse que logo partiríamos. Os muçurumins se alegraram e viraram todos na mesma direção, repetindo juntos e inúmeras vezes uma única palavra, que não consegui entender. A Tanisha chorava e, encostada no peito dela, que era magro igual ao da minha avó, eu pensei em Xangô, em Nana, em Iemanjá e nos Ibêjis, pedindo que estivessem sempre conosco, e mesmo quando fôssemos embora dali, que fossem junto.
Acho que foi a primeira vez que os senti. Abracei a Taiwo e coloquei a cabeça dela sobre os peitos de Nana, e fiquei com os de Iemanjá. Xangô sentou-se ao nosso lado e passou a mão sobre nós, abençoando, e os Ibêjis cantaram até que conseguíssemos dormir. Foi como cachaça, não como felicidade, mas sentimos uma quentura por dentro do corpo abrandando a tristeza.
Era o que dava para sentir, porque, mesmo se tivéssemos ayo (Ayo: alegria, em iorubá), em nossos
nomes, como a Titilayo e o Ayodele, não ficaríamos felizes pensando que nunca mais veríamos a nossa avó, nem a esteira nova, nem a casa nova, nem a estátua dos Ibêjis, da qual não era bom que eu e a Taiwo nos afastássemos, pois eles nos protegiam.
O reencontro
No início do terceiro dia, um pouco antes do horário em que distribuíam um mingau ralo de farinha e água, a porta foi aberta e vimos que do lado de fora havia muito mais guardas que de costume. Os muçurumins começaram a rezar, a Tanisha voltou a chorar, eu e a Taiwo nos demos as mãos como se, de novo, nunca tivéssemos sido duas dividindo a mesma alma. Disseram que o tumbeiro já estava preparado e que embarcaríamos naquele momento, as mulheres primeiro.
Nenhuma palavra sobre as crianças, o que me preocupou mais ainda, pois decerto tinham se esquecido de nós, as ibêjis para presente. Deram as ordens em várias línguas para que todos pudessem entender, e também na língua que eu já tinha percebido ser a que eles mais gostavam, a das lanças e dos chicotes cantando na pele dos que se demoravam deitados ou sentados, ou porque ainda tinham sono, ou estavam doentes, ou se sentiam cansados e fracos.
Uma mulher ao nosso lado, que vomitava sem parar havia quase dois dias, foi deixada para trás depois que tentaram fazê-la se levantar, pois disseram que não compensava levar para morrer na viagem quem podia morrer lá mesmo. A Aja e a Jamila tentaram ajudá-la e também apanharam. Quando passamos pela porta, os guardas enfiaram pelas nossas cabeças laços já prontos em cordas compridas que prendiam pelo menos quinze pessoas em um mesmo grupo. A Taiwo disse que tinha fome, eu também, e quando a Tanisha perguntou a um dos guardas se não comeríamos nada antes de embarcar,
ele disse que a regalia tinha acabado, que daquele momento em diante não éramos mais problema dele, e nos empurrou para que a fila andasse depressa, pois o navio precisava partir antes de o sol nascer.
O tempo estava fresco e ainda havia algumas estrelas no céu, como as do de Savalu. Havia uma que brilhava mais que todas as outras e era de uma cor diferente, amarelada, e quando pensei em mostrá-la à Taiwo, lembrei que não deveria apontar para estrelas, porque nasceriam verrugas na ponta do meu dedo. Bassey, um velho que vendia água em Savalu, tinha muitas verrugas, e era essa a história que ele contava, que quando apontávamos para uma estrela, em um ponto qualquer do céu outra estrela morria.
Então, de vingança, ela vinha nascer de novo, como uma verruga no dedo do assassino. Naquele momento, surgiram na minha memória muitas lembranças de Savalu, porque nada daquilo estaria acontecendo se não tivéssemos saído de lá, e foi por isso que, em um primeiro instante, achei que a voz dela não passava de uma recordação também. Mas enquanto caminhávamos em direção ao lugar de embarque, a voz foi ficando mais nítida, até que finalmente pude vê-la, a minha avó.
Eu e a Taiwo tentamos correr ao encontro dela, mas a corda no pescoço nos puxou de volta. Ela então se jogou na frente de um branco que estava vigiando o embarque, e que não era nenhum dos dois que tinham chegado junto com o navio, e implorou que ele nos deixasse ir embora com ela. O branco afastou a minha avó com o pé e logo outros homens a agarraram, enquanto ela gritava, pedindo que a deixassem ir junto, já que nós não podíamos ficar.
Não havia quase ninguém por perto àquela hora, mas fiquei procurando o Ayodele, pois ele poderia tentar falar com o branco. Mas a minha avó estava sozinha, ela
e os Ibêjis abraçados junto ao corpo, falando sem parar e sem que o branco entendesse. Foi então que ele chamou um dos guardas para traduzir o que a minha avó dizia, mas pareceu não acreditar, pois ficou olhando para ela e balançando a cabeça, para depois rir muito, chamando um outro branco para conversar.
A minha avó foi então chamada para perto deles e começou a falar e a gesticular, apontando para os Ibêjis e para mim e a Taiwo, depois mostrou a planta dos pés, abriu os dedos, levantou os braços, pulou, abriu a boca e mostrou os dentes. De onde estávamos não dava para ouvi-los, mas tudo aquilo era o que um dos guardas pedia para ela fazer, a mando do branco, ele deve ter gostado, pois assentiu com a cabeça e a minha avó correu na nossa direção. Na hora nem pensamos direito, pois estávamos felizes demais em vê-la, mas depois temi pelo seu destino.
Ela, sem nenhuma braveza, disse que iria conosco aonde quer que fôssemos, e contamos que íamos todos virar carneiros no estrangeiro. Ela disse que, se fosse assim, também viraria, porque a única coisa que nos restava sobre esta terra estava reunida ali, e éramos nós três e os Ibêjis. Ela quis protestar quando um dos guardas tomou a estátua dos Ibêjis das mãos dela, mas a Tanisha avisou que não adiantava, enquanto já nos faziam entrar na água.
A partida A água estava fria, mas se tentássemos reclamar ou mesmo voltar, os guardas nos ameaçavam com as lanças ou as tochas. Havia várias canoas esperando por nós, já que somente elas conseguiam atravessar os alagados até o mar aberto, e eu, a Taiwo, a minha avó e a Tanisha conseguimos ser embarcadas juntas. Foi bom porque uma encorajava a outra quando a canoa parecia que ia virar, atingida por ondas enormes, pois aquele trecho da
costa, depois das lagunas, não é protegido por nenhuma baía, como em São Salvador ou São Sebastião do Rio de Janeiro. Eu tinha medo pela minha avó, pois ela não era ibêji e provavelmente o branco não ia querê-la para presente, ficando para carneiro, como todos os outros.
E já gostava da Tanisha também, e pensava em como seria bom se os brancos nos aceitassem todas como presente, e também à Aja e à Jamila, quando descobrissem que não estávamos indo visitar Alá, como tinham falado para elas. Subimos no navio por uma escada de corda, e lá em cima pude perceber como era realmente grande. A Taiwo comentou que dava para carregar muitas canoas iguais à que pegamos no caminho de Savalu para Uidá, e perguntou à minha avó se podíamos ficar ali, olhando o mar, olhando Uidá, que era muito diferente vista de longe. Nem sei se dava mesmo para ver a cidade, não me lembro, mas eu tinha a impressão de que às vezes as águas do mar eram varridas pelo farol do forte, como se ele nos acenasse em despedida.
A minha avó não respondeu à pergunta da Taiwo, talvez porque,
como
eu,
tinha
medo
de
que
nos
transformassem em carneiros ali mesmo, antes da viagem. Talvez já nos matassem e pendurassem de cabeça para baixo, como ela fazia quando matava uma caça e pendurava no tronco de alguma árvore, aparando o sangue em uma vasilha antes que ele se transformasse em riozinhos. Acredito que todas sentíamos o mesmo medo, e percebi certa preocupação no comentário da Aja, dizendo que só podia comer a carne de carneiro que o marido matava. Comentei que elas eram iguais ao Xangô da minha avó, que só comia carneiros, e a Jamila disse que não, que Xangô só comia carneiro porque só davam a ele carne de carneiro, mas mesmo se dessem a elas carne de porco, não poderiam comer, pois Alá assim tinha ordenado.
Foi com elas que comecei a aprender que um deus pode ser chamado por vários nomes. Para elas era Alá, mas para outros era Olorum, mas também poderia ser Deus ou Zambi, por exemplo. Todos eles tinham criado o mar, as estrelas, o fogo, as pessoas e até mesmo o estrangeiro, que era para onde a Aja e a Jamila pensavam estar indo se encontrar com Ele. Mesmo estando erradas, elas não sabiam o quanto estavam certas. Ou talvez soubessem, porque enquanto todos se preocupavam, elas estavam ou fingiam estar felizes, dizendo que ia ser uma viagem longa e sofrida, mas que assim se oferecia um sacrifício maior a Alá. A minha avó estava triste, ainda mais triste do que no dia em que desaprendeu a sorrir.
Nós, as mulheres, gostaríamos de ter esperado pelos homens no convés, e tentamos protestar quando nos mandaram andar em direção ao meio do navio, onde havia uma escada que fomos obrigadas a descer. Logo nos fizeram entender que qualquer protesto seria recebido com violência. Descemos dois lances de uma escada estreita e escura, iluminada apenas pela tocha de um guarda que ia à frente, mostrando o caminho.
O navio tinha dois porões, e o de baixo, onde fomos colocadas, era um pouco menor que o de cima, pelo qual passamos sem parar. Também não tinha qualquer entrada de luz ou de ar, a não ser a portinhola por onde descemos e que foi fechada logo em seguida à ordem para que escolhêssemos um canto e ficássemos todas juntas, pois logo trariam os outros. Apesar dos breves instantes de claridade que tivemos, pude perceber que o local era pequeno para todos os que estavam no barracão, em terra. Mesmo com a escuridão parecendo aumentar o tamanho do porão, mesmo contando com a parte de cima, ainda assim não chegava nem à metade do espaço que ocupávamos até então. A minha avó estava agarrada à minha mão e à da Taiwo, e mesmo tendo companhia, parecia que estávamos sozinhas,
porque ao redor de cada uma de nós era só silêncio.
Silêncio que mais parecia um pano escuro, grosso e sujo, que tomava todos os espaços e prendia debaixo dele o ar úmido e malcheiroso, sabendo a mar e a excrementos, a suor e a comida podre, a bicho morto. Carneiros, talvez.
Era como se todos esses cheiros virassem gente e ocupassem espaço, fazendo o lugar parecer ainda mais sufocante. Segurando a mão da minha avó, eu só pedia que o estrangeiro fosse perto. Mas, apesar de tudo, estávamos quietas, resignadas, como se realmente não houvesse mais nada a fazer.
Quando entraram os primeiros homens, a tranqüilidade foi quebrada pelas vozes das mulheres que queriam saber se os seus parentes ou conhecidos estavam entre eles. Chamavam os nomes e ficavam à espera de uma voz responder que sim ou de o silêncio responder que não. A Tanisha chamou pelo Daren, mas quem respondeu foi o marido, Amari, dizendo que o filho ainda não tinha embarcado.
Os tocheiros iluminavam rapidamente o caminho e os rostos dos que chegavam, acompanhados da ordem de nos deitarmos um ao lado do outro, com as cabeças apoiadas na parede do navio, até que déssemos uma volta completa. E depois mais uma volta no interior, e mais uma terceira, sendo que muitos ainda sobraram de pé e foram empurrados por cima dos que já estavam deitados. Quando alguém disse que já não cabia mais ninguém, recebeu a resposta de que o balanço do navio faria caber. Fiquei entre a Tanisha e a minha avó, e depois da minha avó vinham a Taiwo, a Aja e a Jamila.
Deitada no escuro, olhando o céu sem estrelas do teto do porão, se não fosse o cheiro que fazia o ar entrar difícil no peito, eu teria gostado de ser embalada pelo mar. Ele fez com que eu me lembrasse de quando a minha mãe nos embalava, a mim e à Taiwo de uma só vez, indo e voltando no ritmo de uma música que ela inventava na
hora. A minha mãe tinha voz bonita, que foi embora navegando no riozinho de sangue que se juntou ao riozinho do Kokumo. Esse foi o cheiro que, apesar de disperso no meio dos outros, me acompanhou durante toda a viagem desde o armazém: o cheiro de sangue.
A viagem
O tumbeiro apitou e partiu pouco tempo depois que paramos de ouvir barulhos na parte de cima, quando acabaram de acomodar todos os homens. Ouvimos um só apito, tão baixo que parecia surgido ao longe, como se não estivesse anunciando a nossa partida, mas que me fez lembrar o canto do pássaro sobre o iroco, naquele fim de tarde em Savalu.
A minha avó também deve ter se lembrado, pois durante o apito e por muito tempo depois, enquanto ele continuava ecoando, segurou firme a minha mão, e devia estar fazendo o mesmo com a mão da Taiwo, que, naquele momento, disse estar com vontade de fazer xixi.
A minha avó disse para ela esperar. Eu sabia que era medo, pois eu e a Taiwo sempre sentíamos vontade de fazer xixi quando ficávamos com medo, e não sei por que não sentimos naquele dia com os guerreiros do rei Adandozan.
Vistos do alto, devíamos estar parecendo um imenso tapete, deitados no chão sem que houvesse espaço entre um corpo e outro, um imenso tapete preto de pele de carneiro. Um dos muçurumins, que parecia ser o chefe de todos eles, andava no barracão com um tapete de pele de carneiro sobre os ombros.
Acho que não o deixaram embarcar com ele, como também não tinham deixado a minha avó continuar com os Ibêjis. Mas eu o imaginei tirando o tapete dos ombros e abrindo as suas muitas dobras mágicas, até que ficasse tão grande que cobrisse todos nós. A sensação de calor e
sufoco seria a mesma.
Eu tentava imaginar outras coisas para esquecer a vontade de fazer xixi, até que a Taiwo reclamou novamente e a Tanisha disse à minha avó que ela teria que fazer ali mesmo, deitada, como provavelmente todos faríamos quando desse vontade, sem que houvesse terra para jogar por cima. A minha avó então rasgou um pedaço da roupa e o deu à Taiwo, para que se enxugasse depois, tomando cuidado para o xixi não escorrer e molhar a cabeça do homem que estava deitado aos seus pés.
O homem não reclamou e nem se mexeu, então eu disse que queria fazer também. Estava acostumada a fazer xixi em qualquer lugar, até mesmo no meio da rua, mas fechada naquele porão era muito difícil. Principalmente por saber que, ao ouvir o barulho ou sentir o cheiro, alguém mais poderia ficar com vontade e fazer também, aumentando o ranço daquele lugar. Tive nojo quando peguei o pano já molhado com o xixi da Taiwo e quis desistir, mas não consegui segurar. Senti o xixi escorrendo por entre as pernas e apertei o máximo que pude uma contra a outra, para que não escorresse muito longe e não molhasse mais o meu vestido, que ainda estava úmido da água do mar. O tumbeiro apitou mais uma vez e pareceu ganhar velocidade, e eu só pensava na hora em que nos deixariam sair dali para tomar a fresca.
Um dos muçurumins gritou algo e os outros repetiram, saudando Alá. A minha avó saudou primeiro a minha mãe e o Kokumo, depois os Ibêjis e Nana, e então pegou a minha mão e a da Taiwo e as levou ao unjebe (Unjebe: colar de contas dos iniciados no culto dos voduns), pendurado no pescoço, pedindo a proteção e a ajuda de Ayzan, Sogbô, Aguê e Loko (Ayzan, Sogbô, Aguê e Loko: respectivamente, voduns da nata da terra, do trovão, da folhagem e do tempo), e por último deu um kaô kabiecile
oba Sango (AK akabiecile oba Sango: uma saudação especial a Xangô), ao que eu e a Taiwo respondemos
"kaô".
Muitas pessoas também responderam, e outras saudações e pedidos de proteção foram ouvidos em várias línguas. Depois que todos acabaram, o silêncio foi ainda maior, com a presença de Iemanjá, Oxum, Exu, Odum, Ogum, Xangô e muitos eguns (Eguns: antepassados mortos, comuns ou particulares de cada família ou cada nação). A minha avó comentou que, pelas saudações, ali deviam estar jejes, fons, hauçás, igbos, fulanis, mais, popos, tapas, achantis e egbás (Jejes, fons, hauçás, igbos, fulanis, mais, popos, tapas, achantis e egbás: povos africanos da região do antigo Daomé- Benim), além de outros povos que não conhecia.
A Aja disse que era uma hauçá convertida e seu marido era um alufá (Alufá: como os muçulmanos chamavam seus sacerdotes, palavra derivada de Al-fahim ou Khalifa), e nos saudou à maneira dos muçurumins, com um salamaleco (Salamaleco: corruptela do árabe Salam Alayk, "a paz esteja contigo"). A minha avó não respondeu, pois parecia não gostar muito da Aja e da Jamila, antipatia retribuída pelas duas, que só conversavam comigo e com a Taiwo, e poucas vezes com a Tanisha.
Durante dois ou três dias, não dava para saber ao certo, a portinhola no teto não foi aberta, ninguém desceu ao porão e estava quase impossível respirar. Algumas pessoas se queixavam de falta de ar e do calor, mas o que realmente incomodava era o cheiro de urina e de fezes. A Tanisha descobriu que se nos deitássemos de bruços e empurrássemos o corpo um pouco para a frente, poderíamos respirar o cheiro da madeira do casco do tumbeiro. Era um cheiro de madeira velha impregnada de muitos outros cheiros, mas, mesmo
assim, muito melhor, talvez porque do lado de fora ela estava em contato com o mar. Quando não conseguíamos mais ficar naquela posição, porque dava dor no pescoço, a minha avó dizia para nos concentrarmos na lembrança do cheiro, como se, mesmo de longe e fraco, ele fosse o único cheiro a entrar pelo nariz, principalmente quando o navio começou a jogar de um lado para outro. As pessoas enjoaram, inclusive nós, que vomitamos o que não tínhamos no estômago, pois não comíamos desde o dia da partida, colocando boca afora apenas o cheiro azedo que foi tomando conta de tudo. O corpo também doía, jogado contra o chão duro, molhado e frio, pois não tínhamos espaço para uma posição confortável.
Quando uma pessoa queria se mexer, as que estavam ao lado dela também tinham que se mexer, o que sempre era motivo de protestos. Tudo o que queríamos saber era se ainda estávamos longe do estrangeiro, e alguns diziam que já tinham ouvido falar que a viagem poderia durar meses, o que provocou grande desespero.
Os muçurumins eram os que mais reclamavam, nem tanto pelas condições em que viajávamos, pois, segundo a Aja, qualquer sacrifício valia a pena se fosse por Alá, mas porque não estavam conseguindo cumprir as obrigações da religião. Cinco vezes por dia eles tinham que se virar na direção de Meca e dizer algumas orações, durante as quais precisavam se levantar e abaixar várias vezes, como eu tinha visto no barracão do forte, em Uidá.
Fechados dentro do porão do tumbeiro, sem nenhuma referência da direção que estávamos seguindo, não tinham como saber para que lado ficava Meca. E
também por estarem amarrados uns aos outros, inclusive a quem não era muçurumim, não podiam se movimentar, por falta de espaço e porque nem todos queriam acompanhá-los. Nós, as mulheres, não estávamos mais amarradas, mas a Aja e a Jamila
também não fizeram as orações, não sei se por terem que esperar pelos homens ou se tinham vergonha, pois elas quase não conversavam quando algum homem estava por perto, nem mesmo o marido delas. Mas ao fim de três dias, nem os muçurumins reclamavam mais, e até a altura das vozes que diziam as rezas foi diminuindo, pois estávamos muito cansados.
Pela viagem, pelos enjôos, pela dificuldade de dormir, pela falta de comida, pelo ar que descia apodrecendo a garganta, pela sede. Alguns adoeceram e tiveram febre, mas o que dava mais aflição eram os gemidos de um fulani que tinha sido empurrado da escada e quebrara a perna, o osso chegando a furar a pele. Uma mulher disse que ia rezar o machucado e perguntou o nome dele, mas ninguém sabia e ele já não conseguia mais falar, apenas delirava.
Foi então que ficamos sabendo o motivo da demora no embarque dos homens, pois os brancos tinham batizado todos eles com nomes que chamavam de nomes cristãos, nomes de brancos, e àquele homem da perna Machucada, de acordo com um outro que estava logo atrás dele na fila, tinham dado o nome de João.
Soubemos que o padre que fez os batizados tinha chegado atrasado, depois do embarque das mulheres. Os guardas colocaram os homens em fila e, um por um, tiveram que dizer o nome africano, o que podia ser revelado, é claro, e o lugar onde tinham nascido, que eram
anotados
em
um
livro
onde
também
acrescentavam um nome de branco.