Um Defeito de Cor
Capítulo nove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Foi um pássaro muito parecido com o que apareceu para a Agontimé antes de ela cruzar o mar, ou com as iydmis, e só hoje atino com isso, que acompanhou a partida do Sunset, fazendo com que eu tivesse ainda mais certeza de que deveria ir, mesmo sem saber direito o motivo. Eu estava embarcando com uma carga de fumo, charutos e cachaça comprada com quase todo o dinheiro que me restava, pois sabia que teriam uma boa saída em África, sempre muito procurados e vendidos com bom lucro.
Era com esse lucro que eu pretendia viver por algum tempo, até arrumar o que fazer, ou até mesmo comprar uma passagem de volta para o Brasil. Além da carga,
poucas outras coisas me acompanhavam, um baú com roupas e os tesouros que também carrego agora para te mostrar: um dos bastonetes usados no controle de pagamentos na confraria da Esmeralda, o tabuleiro onde vendia cookies, presente do Francisco e do Raimundo, a Oxum dada pela Agontimé, o livro de sermões do padre Vieira, lembrança do Fatumbi, a Bíblia comprada em São Sebastião, a toalha bordada que ganhei na Roça da sinhá Romana e o lenço encarnado do Piripiri.
E me acompanhava também uma imensa vontade de ter uma Passarola e seguir pelos céus, porque ainda me lembrava daquela viagem, mesmo que em sentido contrário, e do quanto ela tinha me custado.
Capítulo nove
Mesmo o leito seco de um rio ainda guarda o seu nome.
Provérbio africano
A bordo
A viagem durou vinte e seis dias. Saí de São Salvador a vinte e sete de outubro de um mil oitocentos e quarenta e sete e desembarquei em Uidá a vinte e dois de novembro, no mesmo local de onde tinha partido trinta anos antes. As situações eram distintas, mas o medo era quase igual, medo do que ia acontecer comigo dali em diante. É claro que os motivos também eram diferentes, porque naquela volta eu seria a única responsável pelo meu destino, e na partida tudo dependia daqueles que tinham me capturado. Eu não me lembrava muito bem da África que tinha deixado, portanto, não tinha muitas expectativas em relação ao que encontraria. Ou talvez, na época, tenha pensado isso apenas para me conformar, porque não gostei nada do que vi.
Nem eu nem os companheiros de viagem que estavam retornando, como o Acelino e o Fortunato, que se lembravam de um paraíso, imagem bem distante da que tínhamos diante de nós. Os dois, que eram irmãos e tinham por volta de sessenta anos, estavam acompanhados do filho do Fortunato, um crioulo de dezenove anos chamado Vicente. Além dos três homens, tive também a companhia do Juvenal, um igbo de Ibadã, sua mulher, uma crioula chamada Jacinta, e os três filhos, o Tomé, de quatro anos, a Rosinha, de três anos, e a Ifigênia, de sete meses, a quem todos chamavam de Geninha. Além é claro, do John, o pai dos seus irmãos.
Antes de embarcar, ainda em São Salvador, pensei em
desistir, ficar para o casamento da Mariana e me mudar para São Sebastião do Rio de Janeiro com a família da sinhazinha. Mas já era tarde demais. Já tinha me despedido dos amigos, que ficaram em terra porque o capitão inglês não queria saber de possíveis problemas com o governo da Bahia tendo a bordo pessoas sem passaporte, mesmo por pouco tempo, e a minha carga de cachaça, folhas de fumo e charutos da Bahia também já estava no porão do Sunset, comprada com todo o dinheiro que me restava.
Além do mais, algo me fazia acreditar que deveria ir, que seria melhor para mim. No escaler, além dos dois remadores, estávamos eu, o Acelino, o Fortunato e o Vicente, junto com nossos baús. O Vicente, como pude confirmar mais tarde, não estava feliz com aquela viagem, pois tinha nascido na Bahia e era lá que queria ficar. Mas o pai e o tio, africanos, tinham obrigado o moço a viajar com eles, dizendo que em África a vida era muito melhor, que a África era o único lugar onde os pretos podiam ser verdadeiramente livres e felizes. Eles iam dizendo isso no escaler e o moço permanecia de cabeça baixa, contrariado, até que pediram a minha opinião.
Eu disse que não me lembrava direito, que tinha saído muito nova, e interrompemos a conversa para subir ao navio por uma escadinha de corda. Os mastros já estavam todos levantados e um marinheiro quis nos mostrar o alojamento. Pedimos para ficar um pouco mais no convés, olhando as pessoas no cais e a cidade recortada na pouca claridade do sol que se punha às nossas costas. Eram bonitos os fins de tarde na Bahia, principalmente se vistos da ilha, porque a cidade mais parecia um grande lagarto preguiçoso no alto de uma montanha, aproveitando ao máximo o banho do sol que ia se rendendo à noite.
Quando a família do Juvenal subiu a bordo, o navio já
estava pronto para partir, e avisaram que seria melhor guardarmos as nossas coisas. Eu não queria perder muito tempo com isso e desci logo, atrás de um marinheiro que carregava o meu baú. Andamos por corredores e escadas até chegarmos a um cômodo não muito grande, com dezoito camas como se fossem prateleiras pregadas na parede do navio. Como éramos apenas dez pessoas, sobraria lugar» e pudemos escolher o de preferência.
A família do Juvenal ficou de um lado do corredor, enquanto eu e a família do Acelino ficamos do outro.
Eles foram muito gentis e me deixaram ocupar sozinha com a minha bagagem três camas que ficavam sobrepostas, no canto, para que eu tivesse mais privacidade, e se dividiram nas outras seis. Era um bom alojamento, um pouco abafado, mas as camas estavam preparadas com esteiras bem grossas, quase macias, e ainda tinham correntes em que podíamos amarrar nossos pertences, para que não fossem jogados de um lado para outro durante a travessia. Fiquei feliz por aquilo não lembrar em nada o porão ocupado na viagem da África para o Brasil, o que não seria agradável.
Enquanto estávamos nos ajeitando, sentimos que o navio começou a se mover, e logo em seguida três apitos anunciaram que estávamos deixando a cidade. Todos nos benzemos, pedindo proteção e bons ventos, para que chegássemos bem e depressa ao nosso destino, e ainda tivemos tempo de subir ao convés para dar uma última olhada na cidade, que já era apenas uma sombra e parecia dizer que estaria à nossa espera, se quiséssemos voltar. O Vicente prometeu que voltaria, o pai dele sorriu e disse que era para ele guardar comentários iguais àquele, pois assim que chegasse à África não ia mais querer sair de lá.
Eles estavam voltando para Ilorin, onde tinham deixado parentes. Quiseram saber de onde eu era e contei sobre
Savalu, mas que não tinha deixado ninguém por lá e provavelmente ficaria em Uidá, ainda não sabia ao certo.
O Juvenal comentou que desceria em Lagos, que ele chamava de Onin, mas de lá seguiria para Ibadã, de onde tinha saído havia muitos anos.
A caminho
Quando não foi mais possível ver a cidade, descemos do convés e ficamos conversando. Já que passaríamos muito tempo juntos, estávamos curiosos para saber a história de cada um, o que tinha acontecido e por que estava voltando. A maior curiosidade era em relação a mim, que estava viajando sozinha, mas não entrei em detalhes, disse apenas que não tinha mais ninguém por quem ficar, que estava deixando no Brasil um filho morto e outro desaparecido, e voltava para a África porque tinha perdido as esperanças de encontrá-lo. Não me lembro muito bem da história dos três Ferreiras, com quem não convivi além da viagem, mas não tenho como esquecer a história da família do Juvenal, que faço questão de contar, e que ouvi em meio à nossa primeira refeição. As refeições eram servidas lá embaixo mesmo, no porão, geralmente feijão, arroz, farinha, carne-seca e banana, além de água à vontade.
A Jacinta era liberta de pia e, depois da morte da mãe, vivia sozinha em uma loja perto do Pelourinho quando conheceu o Juvenal. Ela era vendedora e ele era aguadeiro na Fonte Nova, gostaram um do outro e o Juvenal conseguiu licença do dono para morarem juntos assim que ela ficou pejada do primeiro filho, o Tomé.
Nesse meio tempo, o dono do Juvenal, que já era viúvo, faleceu e deixou a casa e os escravos para dois filhos que moravam na Europa.
Quando se viram sozinhos três dos nove escravos fugiram, mas o Juvenal queria fazer tudo certo e esperou junto com os outros cinco, para saber qual seria o
destino deles. Achavam que seriam alforriados, ou até ignorados, porque os filhos nunca tinham se importado com o pai, nunca tinham se interessado em saber como ele estava vivendo depois que partiram para o estrangeiro. Antes, tinham vendido os outros bens e deixado apenas a casa onde o pai morava e alguns escravos velhos, sendo que o Juvenal era o mais novo entre eles.
O velho passou por muitas dificuldades, pois mantinha a casa apenas com os jornais de cinco escravos colocados a ganho. Como os outros quatro estavam velhos e doentes, não rendiam quase nada com a esmola que tiravam nas ruas, e o Juvenal praticamente sustentava todos eles, principalmente depois da fuga dos três escravos saudáveis. Ele disse que só por isso não tinha ido embora, por saber que eles não teriam para onde ir e nem do que viver.
Certo dia, apareceu um advogado e disse que tinha ordens para se desfazer de tudo, ou seja, vender a casa e dar liberdade aos escravos que já não valiam mais nada.
Mas não ao Juvenal, que ainda era jovem, forte e sadio, e seria vendido para cobrir os honorários. Três dos velhos alforriados, em agradecimento, mais a Jacinta e o Juvenal, trabalharam durante quase três anos para conseguirem comprar a carta dele. O novo dono era um fiscal da Alfândega e tinha colocado o Juvenal para trabalhar lá, como carregador ao ganho, e foi onde ele ouviu falar que na região de Ibadã estavam distribuindo terras para os brasileiros que quisessem voltar.
Ele pensava em ter sua própria fazenda e ganhar dinheiro para viver bem com a família e mandar para a Bahia, pois sabia que seus amigos estariam por lá passando necessidade. A Jacinta não abria a boca e não saía de perto das crianças, principalmente da mais nova, a Geninha, que não parava de chorar. Eu estava ansiosa demais para conseguir dormir ouvindo o choro daquela
criança, e passei no convés boa parte daquela primeira noite de retorno, olhando o céu e pensando. A um canto do navio, alguns marinheiros bebiam e jogavam cartas sobre um barril, iluminados por dois lampiões.
Tinha só um risquinho de lua no céu, ao lado de muitas estrelas, e fora as vozes dos marinheiros, conversando em inglês, o único barulho que se ouvia era o do vento bufando nas velas. Uma noite bonita para se começar uma viagem, melhor ainda se eu estivesse acompanhada de você ou do Piripiri, por exemplo. Eu pensava em como seria recebida em África, se a Titilayo ainda estava viva e se a Aina e o Akin se lembrariam de mim. Fui dormir quando o dia já estava quase claro, o que foi uma boa idéia, pois fiquei sozinha no cômodo silencioso depois que todos subiram para o desjejum.
O preço da viagem incluía três refeições diárias, a mesma servida para a tripulação, e para nossa sorte, o cozinheiro era bom. A única coisa que faltava era leite para a Geninha, e talvez por isso ela chorava tanto, pois não se deixava enganar pela mistura de água, farinha e açúcar, já que o peito da mãe tinha secado.
John
No segundo dia a bordo, assim que foi servida a última refeição, subi ao convés para ver o pôr-do-sol e fui abordada por um mulato escuro, que já tinha perguntado aos meus companheiros se a mercadoria embarcada como carga era deles. Como todos haviam dito que não, restava somente eu, porque ele também já tinha procurado saber dos outros passageiros que viajavam separados de nós. Foi assim que fiquei sabendo que havia mais oito passageiros a bordo, em alojamentos duplos ou triplos, bem melhores que o nosso, coletivo.
Tinham embarcado em Freetown, e eram ingleses ou trabalhavam para os ingleses, como era o caso do
mulato, o John, que estava curioso para saber de quem era a carga, porque parecia grande demais para quem não era comerciante estabelecido, e disse que provavelmente eu teria dificuldade em vendê-la, caso não conhecesse as pessoas certas. Não me importei muito com isso, mesmo porque achei o homem bastante arrogante e interessado em um assunto que não lhe dizia respeito.
Perguntei o que estava indo fazer em África e ele não entrou em detalhes, disse apenas que tinha partido de Freetown, Serra Leoa, havia mais de cinco meses, naquele mesmo navio, e que ainda passaria por Uidá e Lagos antes de retornar. Fiquei sabendo que Freetown era uma colônia britânica onde os escravos já tinham sido libertados, e vários estavam voltando para a África, principalmente para Lagos, onde havia muitos ingleses.
No dia seguinte, nas primeiras horas da manhã, fomos abordados por um navio da Royal Navy, mas liberados quando
confirmaram
que
a
bandeira
inglesa
correspondia à nacionalidade da embarcação. Eu tinha acordado com um apito e logo percebi que não era o do nosso navio, que começou a reduzir a velocidade. O
outro navio já estava bem próximo, quase paralelo, quando subi ao convés com medo que houvesse algum problema e que nos obrigassem a voltar, ou nos jogassem ao mar, como eu tinha ficado sabendo que acontecia com muitos pretos.
Quando um tumbeiro era perseguido por um navio inglês e percebia que não conseguiria fugir, jogava todos os pretos ao mar para não ser pego em flagrante. Mas correu tudo bem, depois que dois oficiais subiram a bordo, examinaram os papéis mostrados pelo capitão e nos liberaram com um pedido de desculpas. Vi o John conversando com eles de um modo bastante amigável, e até se apertaram as mãos na despedida. À noite, ele foi conversar comigo no mesmo local de antes, como se
tivéssemos marcado encontro. Eu estava com o Acelino, falando sobre as nossas expectativas em relação à África, e o John apareceu com uma garrafa de vinho e nos ofereceu um copo, que o Acelino recusou dizendo que nunca tinha posto bebida na boca e que já estava na hora de dormir, nos deixando a sós. Achei bom, porque senão teria que ficar traduzindo a fala de um para o outro, que falavam só o inglês ou só o português.
O John disse que o acontecimento da manhã tinha sido uma vistoria de rotina, pois muitos navios saídos da Bahia estavam usando bandeiras de outros países para irem apanhar escravos na África, o que desorientava os cruzadores britânicos, que já tinham muito trabalho vistoriando
navios
com
bandeira
brasileira
ou
portuguesa. Mas de vez em quando a Royal Navy dava uma incerta em portadores de bandeira espanhola, francesa e até mesmo inglesa, e já tinham apanhado alguns falsários.
Perguntei ao John quem era o Mister Macaulay, de quem eu tinha ouvido ele falar com os oficiais, e ele contou que era o homem para quem trabalhava. Um inglês estabelecido em Capetown que ganhava muito dinheiro com o comércio e que havia pouco mais de dez anos acumulava um cargo importante em Freetown, como membro da Comissão Mista que tratava dos casos de navios apreendidos fazendo tráfico ilegal. O Mister Macaulay tinha morado alguns meses em Serra Leoa e voltou para Capetown assim que conseguiu pessoas de confiança para representá-lo, e uma dessas pessoas era o John. O pai do John foi um escravo que, depois de liberto, conseguiu fazer dinheiro com comércio, e o Mister Macaulay tinha empregado o John exatamente por isso, porque ele já trabalhava com o pai e conhecia muitos comerciantes e fornecedores locais.
Além de ser nascido em Freetown, o que facilitava o contato com os da terra. Outra pessoa que trabalhava
com o John era um inglês a quem o Mister Macaulay tinha passado procuração para representá-lo nos tribunais e, atuando juntos, os dois empregados faziam excelentes negócios, sendo muito bem remunerados. O
John disse que a remuneração era importante, pois muitas pessoas já tinham tentado tirá-los do Mister Macaulay. Na verdade, aos olhos dos outros, o John não tinha nenhuma ligação com o tribunal, sendo apenas um comerciante estabelecido em Freetown e com sorte e tempo para conseguir comprar mercadorias boas e baratas em leilões públicos. Para isso contribuía o outro empregado, fazendo tudo parecer uma operação sem favorecimentos. É claro que ele não me contou tudo isso naquela noite, pois ainda não confiava em mim, mas ao longo da viagem, conforme fomos nos conhecendo melhor.
Ingleses e tráfico
Acho que já te falei das Comissões Mistas, e agora quero falar como elas realmente funcionavam, e sobre alguns outros acordos assinados entre o Brasil e a Inglaterra.
Havia duas maneiras de um navio ir a julgamento, e de uma delas não havia como escapar, que era ser pego em flagrante com escravos a bordo. A outra ainda podia ser contestada, e era quando o navio estava vazio ou mesmo carregado com mercadorias, mas com tudo preparado para receber escravos, com espaço, água e comida em quantidades muito maiores que as necessárias para a tripulação.
Acusado de tráfico irregular, o navio era levado a julgamento em um dos tribunais da Comissão, e um dos principais era em Serra Leoa. Se o navio fosse inocentado, o dono recebia indenização do governo do país dos captores; acho, não me lembro bem. Se fosse condenado, a mercadoria era apreendida, os escravos eram emancipados e, na maioria das vezes, mandados como trabalhadores livres para Demerara, Trinidad ou
qualquer uma das Antilhas britânicas, pois eram confiados à nação a que pertencia o navio captor, geralmente britânico. Depois de quatorze anos de trabalho nas plantações, pelo qual recebiam, eles podiam voltar para suas terras com todas as despesas pagas, se quisessem. No caso da Inglaterra, cada trabalhador era mandado para as colônias com duas mudas de roupa, um boné, um cobertor, uma colher de madeira e provisões para alimentá-lo durante um mês, ou até que fosse recrutado por algum fazendeiro.
Eles davam preferência ao envio da mesma quantidade de homens e mulheres com menos de trinta anos, pois sabiam que, ao formar famílias, os africanos se tornavam mais dóceis e se adaptavam de modo mais fácil e mais rápido à nova terra, talvez até querendo ficar depois do tempo estabelecido. O John não soube dizer o que era feito das pessoas que não preenchiam esses requisitos, mas pensava que voltavam aos poucos para a África, se e quando houvesse espaço em navios que iam até lá com outra finalidade. Resolvido o problema com os pretos a bordo, entrava em ação o comissário avaliador, que estabelecia um valor mínimo para a carga e o casco do navio apreendido, vendidos em leilão. Do valor apurado, depois de pagas as porcentagens do comissário avaliador e do leiloeiro e outras despesas comprovadas, o lucro era dividido entre o governo representado pela bandeira do navio capturado, o governo representado pela bandeira do navio que tinha feito a captura e o seu capitão.
Essa seria uma boa solução se funcionasse de acordo com as leis, mas as Comissões Mistas só tiveram sucesso porque eram um meio seguro para algumas pessoas ganharem muito dinheiro, até mais do que ganhariam com o tráfico, por exemplo. Havia diversos arranjos, como os que faziam o patrão do John e outros ingleses, inclusive gente com título de nobreza e cargos importantes no reino. O comissário avaliador podia fixar
o preço que bem entendesse nos navios e nas cargas, sem que fosse questionado. Por causa disso, muitos navios eram vendidos por um valor que cobria apenas as comissões do avaliador e do leiloeiro, o que significava menos de dez por cento do valor real.
Leilões podiam ser marcados e não divulgados, contando apenas com a presença de pessoas que pagavam para que as datas fossem mantidas em segredo e compravam os bens pelos preços mínimos estabelecidos, que podiam ser bem mínimos mesmo. De posse de um navio que valia, por exemplo, quarenta mil libras, mas comprado por vinte shillings (Vinte shillings = 1 libra. Por volta de 1847, uma libra valia aproximadamente 10.000 réis) o que não cobria os custos do leilão, o novo proprietário poderia fazer dele o que bem quisesse. Inclusive desmontar e vender como madeira, pois ainda assim teria lucro. Por pagar salário a um dos comissários avaliadores
de
Freetown
por
intermédio
do
representante, o Mister Macaulay conseguia estar à frente dos leilões pelos quais se interessava, adquirindo as mercadorias, que passava para o John, para que ele revendesse aos comerciantes da cidade e da região, sendo comissionado.
Se o arranjo fosse descoberto, somente a muito custo chegariam ao Mister Macaulay, depois de passarem por todas as suas ligações. E enquanto o John cuidava das mercadorias, havia outras pessoas cuidando dos navios, que ofereciam várias possibilidades de negociação. Eles podiam ser vendidos por um preço muito compensador à marinha inglesa, que, em troca, fingia que não havia nada de irregular nas Comissões. Ou então para os captores ingleses, para servirem de navios auxiliares na caça aos tumbeiros.
Quanto maior o número de navios trabalhando sob as bênçãos de Sua Majestade, maiores as chances de sucesso, e alguns comandantes captores tinham
verdadeiras frotas, maiores que as frotas oficiais de alguns países. Além disso, cruzando os mares de um lado para outro, tais navios também podiam ser usados no transporte de mercadorias que, contrariando os aparentemente nobres propósitos ingleses, podiam até mesmo incluir escravos. Como os captores eram quase todos ingleses que já se conheciam e tinham um código de reconhecimento, dificilmente eram pegos fazendo algo errado. Caso os navios não fossem vendidos para o governo ou os captores, ainda podiam voltar para seus antigos donos, às escondidas, é claro, e isso não era raro de acontecer.
O John já tinha visto casos de um tumbeiro ser apreendido, vendido em leilão para um inglês, e meses depois ser recapturado em posse de seu dono anterior, geralmente um comerciante baiano ou português. Ele inclusive sabia de um mesmo navio que tinha sido capturado, julgado, condenado e vendido cinco vezes, sempre para o mesmo comerciante e sem que ele tivesse ao menos o trabalho de rebatizá-lo, até que a Comissão resolveu destruí-lo antes que fosse feita uma investigação.
O John também disse que não tinha visto, mas já tinha ouvido falar de alguns lugares que eram verdadeiros mercados no meio do mar, negociando escravos, mercadorias e até mesmo embarcações aprisionadas. Os comerciantes ficavam ancorados por lá, às vezes em grupos de três ou quatro, por questões de segurança, e recebiam visitas de possíveis compradores. Ou seja, o tráfico era muito lucrativo para todos, assim como o seu combate, e por isso o John achava que a escravidão no Brasil não teria fim tão cedo.
Comércios
Será que te aborreço com essas histórias todas?
Desculpe uma velha que quase não tem mais com quem
conversar, que quase já não tem mais tempo na vida, a não ser o que ficou para trás. É por isso que falo tanto, e é por isso também que vou me adiantar um pouco e contar logo sobre os dias finais dessa viagem. Eu e o John estávamos nos deitando desde um pouco antes da metade do caminho, por volta do décimo dia.
Conversávamos bastante, e fiquei sabendo que ele estava um pouco cansado daquela vida, que não lhe dava tempo ou chance de constituir família. Antes de embarcar, eu ainda pensava bastante no Piripiri e nunca teria imaginado que pudesse encontrar alguém tão cedo, e nem mesmo em África, onde ainda não sabia se queria ficar. Mas as longas conversas com o John me fizeram mudar de idéia em relação a ele, de quem eu não tinha gostado no início. Como ele, eu também tinha vontade de me estabelecer, de ter uma família toda junta, como tinha acontecido durante tão pouco tempo na minha vida. Estávamos os dois sozinhos, solidões que pareciam ainda maiores no meio do mar, cercadas por nada além de água e céu, o que nos dava vontade de cuidar um do outro. Tanto que ele se ofereceu para cuidar da venda das minhas mercadorias, o que achei ótimo. O único problema era que ele não faria isso em Uidá, onde eu ia descer, mas sim em Freetown, para onde não me deixou ir junto quando pedi. No início, desconfiei que poderia ser algum tipo de golpe, mas as explicações dele me convenceram e depois foram confirmadas pelo capitão do navio, a quem ele me apresentou.
Mesmo faltando quase tudo, em África as regras de comércio eram diferentes das do Brasil, onde qualquer um podia vender o que quisesse. Antes de se estabelecer, o comerciante tinha que estar sob a proteção do rei ou de alguém influente. Não digo as vendas feitas nas feiras, de pouco vulto, mas as que podiam interferir no comércio local, nos preços e nos acordos firmados entre comerciantes estrangeiros e locais. Eu levava quase três contos em produtos comprados na Bahia, uma quantia considerável que
poderia fazer com que alguém se sentisse prejudicado.
Isso se eu conseguisse vender, porque, sem conhecer as pessoas certas e fazer acordos com elas, poderia ser roubada e até mesmo deportada como escrava novamente. O John disse que primeiro eu precisava arrumar um protetor, para depois importar mercadorias.
Argumentei que muitas pessoas partiam do Brasil levando produtos, com certeza sem tomar providências, mas o John disse que provavelmente levavam poucas coisas, que eram vendidas nas feiras locais, aos poucos, pelo próprio retornado. Isso não chamava a atenção nem prejudicava ninguém importante, mas não seria o meu caso, com muitas pipas de cachaça, caixas de charutos e fardos de folha de fumo, que não seriam desembarcados antes de passarem por algum controle. Nessa conversa, percebi que eu tinha mais um problema, que era onde guardar tudo aquilo, sendo que nem mesmo tinha onde ficar. Por isso achei que seria uma boa solução deixar a carga seguir com o John para Freetown e ficar esperando a volta dele dentro de três ou quatro meses, com o dinheiro da venda.
Eu e o John passávamos algumas tardes e princípios de noite na cabine dele, na cama, enquanto seu companheiro de viagem estava jogando baralho com os outros homens. À noite, quando o homem voltava, ficávamos conversando no convés e depois íamos cada um para seu cômodo. Percebi que meus companheiros me olhavam um pouco de viés, mas não fiz caso, porque não devia satisfações a ninguém. A Geninha, a filha mais nova do Juvenal e da Jacinta, estava cada dia pior, pois se negava a comer e tinha começado a vomitar e a evacuar muito, ficando tão fraca que nem conseguia mais chorar.
Os pais dela voltaram às boas comigo quando consegui com o capitão que um boticário a bordo desse uma olhada na menina, receitando uma infusão que fez efeito em poucas horas. O capitão, Mister Hamilton, já tinha
morado em São Sebastião do Rio de Janeiro durante três anos, adorava a cidade, e quando eu disse que tinha passado alguns anos lá pouco tempo antes, quis saber das novidades. As vezes ele se juntava a mim e ao John nas noites no convés, quando tomávamos vinho e conversávamos. Eu estava começando a gostar daquela viagem, e seria capaz de viajar anos e anos se fosse sempre daquele jeito. Tudo deu muito certo, pegamos alguns dias com vento fraco, mas que nunca parou de ventar, e nenhuma tempestade, o que o capitão disse ser muito raro. Ninguém tinha ficado gravemente doente e nenhum morto a bordo, além de não termos sentido nem o cheiro de piratas.
O Mister Hamilton disse que para comerciar em África eu deveria procurar o Chachá de Souza. Mais do que amigo do rei e poderoso vice-rei de Uidá, ele também era o comerciante mais rico da região. Todos que queriam se estabelecer como comerciantes no Daomé precisavam cair nas graças dele, que também era o Cabeceira, isto é, o chefe dos brancos, o grande chefe que tinha direito ao uso de pára-sol, de corais, de tamboretes, de guarda armada e de tambores, o que ganhou terras e o monopólio do comércio de escravos da região.
Havia opiniões diferentes sobre o Chachá, ora apontando-o como um homem bom e ora como homem mau, e fiquei com muita vontade de saber mais coisas sobre ele. O capitão também disse que Lagos era uma boa cidade para nós, os retornados, que os libertos de Freetown estavam preferindo ir para lá, principalmente os que eram da região dos iorubás. Muitos brasileiros também, e moravam em uma freguesia só deles. Eu disse que qualquer hora iria até lá, conhecer, mas naquele momento preferia ficar em Uidá mesmo, onde já conhecia algumas pessoas...
Uidá
Mesmo não tendo grandes expectativas, fiquei decepcionada com a primeira impressão que tive de Uidá. Se pudesse, teria prolongado aquela viagem tão boa, mas o John disse que o mar não era lugar para mulheres e que estaria de volta antes que eu sentisse saudades. Enquanto isso, eu deveria procurar os amigos e tentar me estabelecer, se possível sob as graças do Chachá. Quando o capitão anunciou que já estávamos a menos de um dia de viagem e logo começaríamos a avistar terra, não compartilhei da euforia de todos, passageiros e tripulantes. Principalmente porque também comecei a ficar com medo do que tinha combinado com o John; afinal de contas, eu o conhecia havia menos de um mês e ele podia vender as mercadorias e desaparecer.
Acho que ele desconfiou dos meus pensamentos quando me viu tão séria, e pediu que anotasse a sua morada e a do seu patrão, caso precisasse entrar em contato. Mas eu não tinha como me certificar se eram verdadeiras e não me restou outra alternativa a não ser confiar, pois fiquei com vergonha ou com medo de voltar atrás, por estarmos envolvidos em um tipo de relação que não era apenas comercial. Eu tinha muito medo de perder tudo, e teria ainda mais se soubesse que não desembarcava sozinha, que não estaria somente por minha conta.
Estava ansiosa para rever os amigos, principalmente o Akin e a Aina, e por um momento aqueles dias de infância voltaram todos à minha memória. Eu era capaz de descrever cada rua por onde tínhamos andado e muitas pessoas com as quais tínhamos conversado, e isso fez com que eu me sentisse um pouco melhor, sabendo que não estava em uma terra tão estranha assim. Quando nos aproximamos do cais, despedi-me do Acelino, do Fortunato e do Vicente, que seguiriam para Lagos, e nos desejamos boa sorte.
O Juvenal e a família tinham resolvido descer em Uidá,
talvez com medo de que a menina voltasse a passar mal.
Enquanto colocavam nossos pertences no escaler, fui me despedir do John, não querendo pensar muito na nossa combinação, pedindo aos voduns, santos e orixás que me protegessem e que o guiassem, para que o trato fosse cumprido. Ou, caso não fosse, que eu tivesse forças para me recuperar da traição e juntar todo aquele dinheiro novamente. Expliquei mais ou menos para ele onde ficava a casa da Titilayo, torcendo para que ainda tivesse alguém por lá.
Quando desembarcamos, não havia muitas pessoas no atracadouro, mas logo foram chegando uma após outra, querendo saber de onde vinha e para onde ia o navio.
Tivemos uma boa recepção, e logo percebi que muitos dos que estavam na praia falavam português, pois eles nos cercaram fazendo perguntas, querendo saber de quem éramos parentes, se éramos de Uidá mesmo, como estava a Bahia, se tínhamos alguma carta para entregar.
Eu estava um pouco zonza e só conseguia sorrir, respondendo a uma ou outra pergunta, mas sem me concentrar direito nas respostas.
Tudo que eu queria era ir logo para a casa da Titilayo, e tive que ser bastante enérgica com dois homens que foram se apossando do meu baú, a mando de uma mulher que também tinha morado na Bahia e queria que eu fosse para a casa dela. Para o Juvenal e a Jacinta aquele interesse foi ótimo, pois eles ainda não tinham onde ficar, e tiveram até que apartar a discussão de dois homens que brigavam para hospedá-los, prometendo que ficariam alguns dias na casa de cada um. Quando consegui convencer a mulher de que já tinha para onde ir, ela me pareceu bastante contrariada, mas ofereceu seus dois filhos para carregarem meu baú, pois assim ficaria sabendo onde eu estava.
Ela se chamava Conceição e queria conversar sobre a Bahia, mas era constantemente interrompida pelo grupo
que se formou atrás de nós, umas vinte pessoas, sendo que outras tantas tinham seguido atrás do Juvenal. Eu disse que estava muito cansada, e de fato me sentia indisposta e sem forças nas pernas, e prometi me encontrar com todos no dia seguinte, na praça do mercado. Ralhando com eles, a mulher conseguiu dispersá-los, sendo minha guardiã até a casa da Titilayo.
Com aquela confusão toda, eu não tinha conseguido prestar atenção às coisas, e por sorte a rua nem tinha mudado tanto e, pelo menos do lado de fora, nem a casa de cômodos onde eu tinha morado por tão pouco tempo, e nem a casa da Titilayo.
Velhos amigos
A Conceição já se sentia minha dona, e foi ela quem bateu palmas quando paramos em frente à casa. Quem abriu a porta foi uma senhora que não podia ser a Titilayo, e fiquei muda por um tempo, com os olhos dela passando por mim, pela minha acompanhante e seus filhos, e pelo baú, enquanto eu me decidia em que língua falar. Até que a Conceição percebeu o embaraço e me perguntou em português qual era o nome da mulher por quem eu procurava. Depois, virou-se para a senhora e disse em iorubá que eu estava chegando do Brasil e procurava pela Titilayo, de quem era amiga. C
onsegui entender o que ela falou e entendi também a resposta, que foi sobre a morte da Titilayo havia quase quinze anos. Só depois que ela respondeu foi que reconheci os traços da Nourbesse, a mulher do Ayodele, filho da Titilayo. Fiquei aliviada pelo fato de a casa ainda pertencer a algum deles, o que pareceu decepcionar a Conceição, que ainda tinha esperança de me dar pouso.
Perguntei à Nourbesse se ainda se lembrava de mim, a Kehinde, que tinha morado na casa dela com a avó e uma irmã.
Quando me reconheceu, ela deu um grito para dentro da casa, chamando pela Hanna, a filha, e me abraçou, pedindo aos dois rapazes que entrassem com o baú.
Assim que abracei a Hanna, a Nourbesse pediu que eu a seguisse até o quarto, pois queria me mostrar algo. Era um quadro, que ela tirou de um baú e me entregou depois de limpar com as mãos um pouco da grossa camada de pó que embaçava o desenho. Ainda estava sujo e um pouco desbotado, mas reconheci um coração e a frase Ekun Dayo, "torna duelo em alegria", o quadro que estava pendurado na casa de cômodos onde eu tinha morado com a Taiwo e a minha avó. A emoção de rever aquilo, mais o cansaço, fez com que eu perdesse as pernas e caísse desmaiada.
Quando acordei, não sei quanto tempo mais tarde, estava deitada sobre uma esteira estendida no chão e coberta apenas com um pano bem fino, sem roupa alguma. Estava tudo escuro e imaginei ser de noite, principalmente quando ouvi o ressonar de alguém a poucos metros de mim. Demorei para me lembrar onde estava, e mais ainda para me lembrar do que tinha acontecido. Chorei um pouco, tentando não fazer barulho e não pensar no que podia dar errado, mas apenas na bela recepção que tive.
Em África, eu estava muito mais perto da minha mãe e do Kokumo, que tinham ficado enterrados lá, e da minha avó e da Taiwo, que nem tinham chegado ao Brasil. Acho que esse pensamento me tranqüilizou, porque logo dormi novamente, acordando com o dia claro. Então me levantei, coloquei o vestido que estava sobre o baú e saí do cômodo para dar uma olhada na casa, que continuava quase a mesma coisa, as mesmas divisões e acho que até alguns móveis eram os mesmos.
Quando saí para o quintal avistei a Hanna, que tinha ao seu lado uma mocinha muito bonita. Era estranho ver mulheres com o peito de fora, e senti um pouco de
vergonha por estar olhando para elas, que também olhavam para mim quase com o mesmo espanto. Com certeza já tinham visto muitas mulheres usando vestidos como o meu, como os que se usava no Brasil, mas não na casa delas. A Hanna se aproximou e nos apresentou, dizendo que aquela era sua filha, que ela não tinha se casado, mas ficou pejada de um mercador que passara por Uidá.
A menina se chamava Zari e, encabulada, não respondeu a nenhuma das minhas perguntas antes de sair correndo para a rua, não se importando com a mãe que a chamava de volta. A Hanna disse que a Nourbesse tinha ido para o mercado, onde tomava conta da barraca que tinha sido da Titilayo, e eu quis saber de todos os outros. Ela então me ofereceu um prato de mingau e nos sentamos à sombra de uma árvore.
O Ayodele, depois de mais de trinta anos, continuava trabalhando nas fazendas de algodão fora da cidade, e estaria em casa dentro de alguns dias. A Nilaja, a filha mais velha da Titilayo, tinha morrido de tristeza logo depois da morte da mãe, que morreu de velhice, e do filho Akin, afogado. A Aina tinha se casado, mas já estava viúva e morava em uma tribo a cinco horas de viagem, junto com dois filhos solteiros e duas filhas casadas. A Meni tinha se casado com o Obioma, de quem era noiva quando eu parti, e morava em Cotonu junto com a sogra, uma filha solteira e outra casada. A Sanja e a Anele se casaram com dois irmãos, tinham três filhos cada uma e moravam em Porto Novo.
Era muita gente para eu me lembrar, mas fiquei muito triste com a morte do Akin, porque muitas vezes, durante todo aquele tempo, pensei nas coisas que queria contar para ele caso voltássemos a nos encontrar. E
ainda mais por ele ter morrido afogado, justo ele, que tanto gostava do mar. Fiquei triste também pela Titilayo, mas já esperava não mais encontrá-la viva por causa da
idade. A Hanna disse que não se lembrava de mim, pois era muito pequena quando parti, mas eu me lembrava dela amarrada às costas da Aina, sua tia, ou da mãe, brincando no mar. Estávamos falando disso quando a Nourbesse chegou, dizendo que estava muito feliz por me ver ali, que não imaginava que eu pudesse voltar, embora a Titilayo tivesse certeza disso.
Tanta certeza que não deixou que jogassem fora nada do que era nosso, nem depois de tantos anos sem notícia.
Percebi que ela devia estar muito curiosa para saber o que tinha acontecido, por onde eu tinha andado, e logo vi que não era apenas ela, pois um grupo de pessoas estava se juntando em frente à casa, comentando a meu respeito. A Nourbesse disse que queriam falar comigo, saber como estava a Bahia, mas eu ainda não estava preparada para aquela conversa, não estava com vontade de ser interrogada por toda aquela gente. Sabia que não falar com eles podia ser muito ruim para mim, pois poderiam me ver com antipatia, mas eu realmente não estava em condições.
A Nourbesse e a Hanna pareciam orgulhosas por eu estar na casa delas, e isso fazia com que eu me sentisse um pouco melhor, mais querida. Mas ainda não tinha me recuperado da viagem, das preocupações, e expliquei tudo isso com muito jeito, dizendo que ia me deitar um pouco e que mais tarde conversaríamos, prometendo contar toda a minha vida, desde que tinha deixado a África. De fato eu estava indisposta, mas pelo menos me consolava o fato de saber que, contando para elas, não seria necessário repetir a história para outras pessoas, pois a Nourbesse trataria de espalhá-la por todo o mercado. Como já tinha feito ao anunciar a chegada de uma das ibêjis que tinha desaparecido com a irmã e a avó havia mais de trinta anos, e que estava retornando da Bahia, talvez para ficar.
Presentes
Tive uma bela surpresa quando acordei, o que até fez com que me sentisse um pouco culpada. A casa da Nourbesse estava cheia de presentes para mim, levados por pessoas que eu não conhecia e com as quais tinha me negado a conversar. As três mulheres da casa estavam no quintal, sinal de que ninguém tinha ido para o mercado naquele dia, provavelmente esperando pelas minhas narrativas. Assim que me viram, correram ao meu encontro e tentaram me contar de quem era cada um dos presentes, mas não consegui gravar o nome de quase ninguém. Foi o jeito de aquele povo dizer que eu era bem-vinda, e foi bom saber disso. Depois a Nourbesse me levou até o fundo do quintal, onde tinham construído um pequeno cômodo para guardar provisões e coisas que não usavam constantemente. Entre os guardados também estavam alguns objetos e móveis que tínhamos deixado na casa de cômodos antes da ida para o Brasil. Eu me emocionei muito ao ver a mesa, as cadeiras, as esteiras, os tapetes, a Nana e o Xangô da minha avó, ainda embrulhados no pano que ela usava para montar o altar.
O pano já estava todo puído e manchado, mas era o mesmo, algo em que a minha avó tinha tocado. Durante todos aqueles anos, eu me lamentava por não ter nenhuma lembrança dela, nem mesmo o runjebe eu tinha me lembrado de pegar quando ela morreu. A Nourbesse também se emocionou, por causa da minha reação e porque tudo aquilo lembrava a sogra dela, a Titilayo, que, apesar de ter tido uma vida longa e feliz, digna de uma bela serenata, era sempre lembrada com saudade.
Quando ela era viva, ia com a Aina e o Akin acompanhar o desembarque dos navios que chegavam do Brasil, na esperança de nos ver retornando. Muito tempo depois do nosso sumiço, o Ayodele conseguiu convencê-la de que tínhamos sido capturadas, mas ela continuou nos esperando. A Nourbesse disse que, assim que
desaparecemos, a sogra ficou irreconhecível por um bom tempo, sem aquela alegria que era toda dela e que estava até em seu nome, e sempre falava muito de nós três.
Um dos seus últimos pedidos antes de morrer foi para que continuassem tomando conta do que nos pertencia.
Eu quis tocar cada um dos objetos, como se eles pudessem fazer voltar o tempo. Aproveitei a emoção para contar quase tudo o que você já sabe até agora, com menos detalhes, é claro.
No dia seguinte, não tive como evitar a visita da Conceição, que apareceu com um corte de pano para me presentear. Repeti parte da história para ela, que tinha voltado da Bahia não fazia nem quatro anos e me fez perguntas sobre muitas pessoas, para ver se eu conhecia. A única pessoa que nos ligava era a Esmeralda, e mesmo assim a Conceição só tinha ouvido falar dela, da confraria da qual era presidente.
Mas foi bom conversar com elas, principalmente porque me contaram muitas coisas sobre Uidá, que estava bem diferente da cidade que eu tinha deixado. Havia muitos brasileiros espalhados pela cidade, mas a maioria se concentrava em um único bairro, que estava ficando cada vez mais parecido com São Salvador. Elas queriam me levar até lá, pois não ficava muito longe, mas preferi deixar para outro dia. Eu queria ir, principalmente porque poderia encontrar algum velho conhecido, mas continuava não passando bem. A Nourbesse preparou um chá e disse que era para eu beber e me deitar, porque provavelmente ainda estava cansada da viagem, sem contar a emoção.
Elas esvaziaram um dos quartos só para mim, do que gostei muito, mas não queria incomodar tanto e pensava em sair no dia seguinte, em companhia da Zira, para procurar uma casa só minha. Mas aconteceu que
amanheci pior, com uma fraqueza e uma dor nas pernas que continuaram aumentando com o passar dos dias, além de quase nada parar no estômago. Achei que estava estranhando a comida, que eu fazia grande esforço para comer com as mãos, pois não havia talheres, mas não era isso, porque um dia a Conceição apareceu com um pedaço de carne-seca preparada à moda da Bahia e eu também não consegui segurar.
Muitas mulheres também apareceram para uma visita, e teriam sido muitas outras se a Hanna e a Nourbesse não as pusessem da porta para fora, porque eu precisava de sossego. Recebi somente a nora da Conceição, a Amina, que foi avisar que havia uma casa vaga perto da dela, que eu fiquei de ver assim que conseguisse me levantar, e uma velha rezadeira conhecida da Titilayo, que foi oferecer seus serviços assim que soube que eu estava doente. A mulher, chamada Iyã Kumani, nem precisou chegar perto de mim para dizer o que eu tinha, que foi ouvido pelas minhas três amigas primeiro com grande espanto e depois com muita alegria.
Ibêjis e temores
Confesso que já tinha pensado sobre estar pejada, mas depois achei que fosse apenas indisposição, porque não tinha passado mal das vezes anteriores e porque já me achava muito velha. As regras estavam um pouco atrasadas, o que também poderia ser por causa da fraqueza, o atraso não confirmava nada, mas a íyá Kumani afirmou com tanta certeza que não pude duvidar. Não sei dizer como me senti, principalmente quando a rezadeira disse que eu era abençoada, pois seriam ibêjis.
Eu queria apenas ter ficado alegre, muito alegre, mas de imediato muitas preocupações apareceram para roubar esse meu direito. A lyd Kumani disse que a fraqueza passaria dentro de poucos dias, ainda mais com as ervas que ela ia me dar. Mas não era isso o que me incomodava, e sim a desconfiança cada vez maior de que o John não ia voltar, e eu tinha entregado todo o meu dinheiro a ele, restando apenas algum que daria para viver por quatro ou cinco meses. Sozinha eu podia fazer qualquer tipo de trabalho, mesmo nos campos, se precisasse.
Mas, pejada, não teria a menor chance, ainda mais porque tinha que repousar o máximo possível e até mesmo evitar sair da esteira nos três primeiros meses.
Depois disso, e até os ibêjis nascerem, nada de muito esforço. Se o John não voltasse, eu não poderia nem pensar em alugar uma casa, como estava pensando. Ter ibêjis era mesmo uma bênção, mas naqueles dias pensei muitas vezes em recusar, tomando beberagem. Era um pensamento recorrente, embora eu não soubesse se o poria em prática sozinha, sem a Esméria. Seria mais fácil não ter aquelas crianças e recomeçar a vida sozinha, mas hoje agradeço por não ter tomado nenhuma decisão da qual muito me arrependeria.
Uma das coisas que mais me ajudaram a decidir foi o seu sumiço, foi eu estar sozinha depois de já ter dado vida a dois filhos, foi medo de morrer sozinha, sem ter quem olhasse por mim ou fizesse uma serenata bonita na minha partida. Eu já não era tão nova, tinha trinta e sete anos, e talvez não surgisse outra oportunidade. Mas fiquei muito preocupada durante todo o período e, para dizer a verdade, nos momentos de maior desesperança, brava pela minha falta de coragem, por não ter acabado com aquilo logo no início.
Ninguém precisava saber, pois achar as ervas certas em África era ainda mais fácil do que na Bahia. Percebendo a minha preocupação, a Nourbesse disse que eu podia ficar morando com eles, que seria um grande prazer e até uma bênção ter ibêjis na casa novamente, do mesmo jeito que a sogra dela tinha falado em relação a mim e à Taiwo. O oferecimento era sincero, mas eu não gostava nem um pouco da idéia, queria ter a minha casa e as minhas coisas. E ainda havia o Ayodele, que estava para voltar do interior naqueles dias, e eu não sabia como ele reagiria.
Eu precisava ter confiança, mas estava muito arrependida de várias coisas. De ter saído da Bahia, de não ter voltado para São Sebastião, de ter me deitado com o John sem tomar erva alguma e, principalmente, de ter confiado nele. Levando as mercadorias comigo para Uidá, elas até poderiam ter sido tomadas, mas pelo menos eu não me sentiria tão burra por ter sido enganada. Quanto mais pensava, mais clara parecia a minha irresponsabilidade por ter entregado tudo a um homem que mal conhecia, tudo o que tinha restado de uma vida de muito trabalho. Comecei a me sentir ainda pior em relação a isso quando o Ayodele voltou e disse que conhecia alguns comerciantes que poderiam me ajudar. Com vergonha, não contei a ninguém o que tinha acontecido, e inventei uma história sobre algumas mercadorias que seriam mandadas da Bahia e perguntei ao Ayodele o que deveria fazer para vendê-las. Ele disse que muitos brasileiros estavam enriquecendo com produtos da Bahia, que eram vendidos principalmente para os próprios brasileiros, os que tinham mais recursos para comprar. Depois percebi que não era somente porque os retornados tinham mais dinheiro; o que eles tinham mesmo era saudade, e as coisas da Bahia faziam com que recordassem o tempo vivido lá.