Um Quarto com Vista

E. M. Forster · Capítulo 11 de 24

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Um Quarto com Vista

Capítulo 7

 

A volta

 

Uma espécie de jogo complexo fora jogado de alto a baixo nas montanhas, a tarde toda. Do que se tratava e exatamente como os jogadores se dividiram, Lucy demorou para atinar. O senhor Eager recepcionou-os com um olhar interrogativo. Charlotte o havia repelido com sua conversinha fiada. O senhor Emerson, em busca do filho, foi informado do seu paradeiro. O senhor Beebe, que mantinha o semblante acalorado de uma potência neutra, foi encarregado de recolher as facções para a viagem de volta. Havia um sentimento geral de hesitação e espanto. Pã estivera entre eles — não o grande deus Pã, que havia dois mil anos jazia sepultado, mas o pequeno deus Pã, que preside os contratempos sociais e os piqueniques fracassados. O senhor Beebe havia se perdido de todos, e consumira na solidão o conteúdo da cesta de chá que havia trazido como uma surpresa agradável. A senhorita Lavish se perdera da senhorita Bartlett. Lucy se perdera do senhor Eager. O senhor Emerson se perdera de George. A senhorita Bartlett perdera uma toalhinha impermeável. Faetonte havia perdido o jogo.

Este último fato era incontestável. Ele subira na boléia tiritando de frio, o colarinho puxado para o alto, profetizando a rápida aproximação do mau tempo.

“Devemos partir imediatamente”, ele disse. “O signorino pode ir a pé.”

“O caminho todo? Levará horas”, afirmou o senhor Beebe.

“É possível. Eu disse a ele que não era sensato.” Ele não olhava no rosto de ninguém; talvez a derrota lhe fosse particularmente humilhante. Somente ele havia jogado com toda a sua habilidade, usando todo o seu instinto, ao passo que os outros usaram apenas fragmentos de inteligência. Somente ele havia adivinhado o que eram as coisas, e o que desejava que elas fossem. Somente ele havia interpretado a mensagem que Lucy recebera cinco dias atrás, dos lábios de um moribundo. Perséfone, que passa metade da vida no sepulcro — ela também podia interpretá-lo. Mas não aqueles ingleses. O conhecimento sempre lhes chega tarde, e talvez tarde demais.

As reflexões de um boleeiro de carro de aluguel, posto que justas, raramente afetam a vida de seus empregadores. Era o mais capaz dos opositores da senhorita Bartlett, mas, infinitamente, o menos perigoso. Assim que voltassem à cidade, ele e sua antevisão e seu conhecimento deixariam de preocupar as damas inglesas. Claro, era muito desagradável; ela avistara sua cabeça negra nos arbustos; seria capaz de compor uma anedota de taverna com tudo aquilo. Mas, afinal, que nos interessam as tavernas? A ameaça real pertence à sala de estar. Era nas pessoas da sala de estar que a senhorita Bartlett meditava enquanto viajava na direção do sol poente. Lucy sentava-se a seu lado; o senhor Eager, a sua frente, tentando chamar-lhe a atenção; estava vagamente desconfiado. Falavam de Alessio Baldovinetti.

A chuva e a escuridão desabaram ao mesmo tempo. As duas mulheres comprimiram-se debaixo de uma sombrinha inadequada. Deu-se o clarão de um relâmpago, e a senhorita Lavish, que estava nervosa, gritou da diligência adiante. Com o clarão seguinte, Lucy também gritou. O senhor Eager dirigiu-se a ela com profissionalismo.

“Coragem, senhorita Honeychurch, coragem e fé. Se me permite dizer, há algo de quase blasfemo nesse horror aos elementos. Devemos seriamente supor que todas essas nuvens, toda essa imensa exibição elétrica materializaram-se apenas para extinguir a senhorita e a mim?”

“Não... claro...”

“Mesmo do ponto de vista científico, a probabilidade de ser atingido é ínfima. As faquinhas de aço, os únicos objetos que poderiam atrair a corrente, estão na outra carruagem. E, de todo modo, estamos infinitamente mais seguros aqui do que se fôssemos andando. Coragem... coragem e fé.”

Sob a manta, Lucy sentiu o aperto gentil da mão de sua prima. Às vezes nossa necessidade de um gesto compassivo é tamanha que nem nos importamos com o que ele possa significar ou com quanto teremos de pagar por ele depois. A senhorita Bartlett, por causa desse oportuno emprego de seus músculos, ganhou mais do que teria obtido em horas de sermões e interrogatório minucioso.

Ela redobrou o aperto quando os dois carros pararam, a meio caminho de Florença.

“Senhor Eager!”, chamou o senhor Beebe. “Precisamos de sua assistência. Poderia servir-nos de intérprete?”

“George!”, gritou o senhor Emerson. “Pergunte ao cocheiro qual o caminho que George tomou. O rapaz pode ter se perdido. Ele pode ter sido morto.”

“Vá, senhor Eager”, insistiu a senhorita Bartlett. “Não, não pergunte ao nosso cocheiro; nosso cocheiro não serve para nada. Vá e ajude o senhor Beebe; estão deixando-o louco.”

“Ele pode ter sido morto!”, gritava o velho. “Ele pode ter sido morto.”

“Um comportamento típico”, comentou o capelão, ao descer da carruagem. “Na presença da realidade, esse tipo de gente invariavelmente perde o controle.”

“O que ele sabe?”, sussurrou Lucy, assim que ficaram a sós. “Charlotte, quanto o senhor Eager sabe?”

“Nada, querida; ele não sabe de nada. Mas...”, ela apontou para o boleeiro, “... ele sabe de tudo. Querida, será que devemos? Será que eu?”, ela apanhou a bolsa. “É horrível nos misturarmos com pessoas de classe inferior. Ele viu tudo”, batendo nas costas de Faetonte com seu guia, ela disse: “Silenzio!” e ofereceu-lhe um franco.

“Va bene”, ele respondeu, e aceitou a moeda. Tanto lhe importava essa conclusão do dia quanto qualquer outra. Mas Lucy, uma donzela mortal, ficou desapontada com ele.

Houve uma explosão na estrada. A tempestade havia atingido o fio suspenso da linha do bonde, e uma das grandes pilastras caiu. Se não tivessem parado, talvez tivessem se machucado. Preferiram considerar o evento um milagre, e torrentes de amor e sinceridade, capazes de brotar em qualquer momento da vida, precipitaram-se em grande agitação. Eles desceram das carruagens e abraçaram-se. Era tão prazenteiro ser perdoado de desmerecimentos passados quanto perdoá-los. Por um instante, divisaram vastas possibilidades para promover o bem.

Os mais velhos recobraram-se rapidamente. Diante do próprio paroxismo de sua emoção, sabiam que esta não era apropriada a uma dama ou a um cavalheiro. A senhorita Lavish calculou que, mesmo se houvessem continuado, não teriam sido colhidos pelo acidente. O senhor Eager resmungou uma prece moderada. Mas os cocheiros, durante quilômetros de estrada escura e esquálida, entregaram a alma às dríades e aos santos, e Lucy entregou a sua à prima.

“Charlotte, querida Charlotte, beije-me. Beije-me de novo. Só você pode me compreender. Você me avisou para ter cuidado. E eu pensei... pensei que estivesse aprendendo.”

“Não chore, querida. Não se apresse.”

“Agi de modo obstinado e tolo... pior do que imagina... muito pior. Uma vez, no rio... Oh, mas ele não está morto... ele não estaria morto, estaria?”

O pensamento perturbou seu ato de constrição. Na verdade, a tempestade mostrava-se pior na estrada; mas ela estivera perto do perigo, e achava que o perigo havia de rondar a todos.

“Não creio. Sempre devemos rogar para que isso não aconteça.”

“Ele é realmente... Acho que foi pego de surpresa, como eu fui, antes. Mas desta vez não posso ser responsabilizada; quero que acredite nisso. Simplesmente escorreguei naquelas violetas. Não. Quero ser realmente sincera. Tenho uma parcela de culpa. Contemplei pensamentos tolos. O céu, sabe, estava dourado, e o chão todo azul, e, por um momento, ele se me afigurou como uma figura num livro.”

“Num livro?”

“Heróis... deuses... os disparates de colegiais.”

“E então?”

“Mas, Charlotte, você sabe o que aconteceu então.”

A senhorita Bartlett ficou em silêncio. De fato, não havia muito mais a ser contado. Com certa perspicácia, ela afeiçoadamente puxou a prima para si. Durante todo o caminho de volta, o corpo de Lucy foi abalado por suspiros profundos, que não conseguia evitar.

“Quero ser sincera”, ela sussurrou. “É tão difícil ser absolutamente sincera.”

“Não se preocupe, querida. Espere até ficar mais calma. Conversaremos sobre isso antes de dormir, em meu quarto.”

Elas reentraram na cidade com as mãos unidas. A moça chocou-se a ver quanto a emoção havia se esvaziado nos outros. A tempestade amainara, e o senhor Emerson ficou mais tranqüilo com relação ao filho. O senhor Beebe recuperou o bom humor e o senhor Eager já estava afetando arrogância diante da senhorita Lavish. Apenas de Charlotte ela estava certa — Charlotte, cujo exterior ocultava tanto tino e amor.

O deleite da confissão manteve-a quase feliz durante a longa noite. Ela não pensava tanto no que havia ocorrido, mas sim no modo como haveria de descrevê-lo. Todas as suas sensações, espasmos de coragem, os momentos de desarrazoada alegria, seu misterioso descontentamento, haviam de ser zelosamente expostos à prima. E, juntas, em divina confiança, haviam de destrinçar e interpretar tudo aquilo.

“Por fim”, ela refletiu, “hei de compreender a mim mesma. Nunca mais hei de ser perturbada por coisas que surgem do nada e significam sabe-se lá o quê.”

A senhorita Alan convidou-a a tocar. Ela recusou com veemência. A música lhe pareceu uma ocupação de criança. Sentou-se perto da prima, que, com paciência louvável, ouvia uma longa história sobre bagagens perdidas. Quando a narrativa terminou, ela a arrematou com uma anedota pessoal. Lucy ficou um tanto histérica com a postergação. Em vão procurou interromper, ou, no mínimo, acelerar a história. Foi apenas numa hora tardia que a senhorita Bartlett recuperou a bagagem e pôde dizer em seu tom habitual de gentil admoestação:

“Bem, querida, eu, pelo menos, estou pronta para ir para o reino de Morfeu. Venha a meu quarto, e lhe darei uma boa escovada no cabelo.”

Com alguma solenidade a porta foi trancada e uma cadeira de vime posicionada para a moça. Então, a senhorita Bartlett perguntou:

“Então, que deve ser feito?” 

Lucy não estava pronta para a pergunta. Não lhe ocorrera que precisariam fazer alguma coisa. Uma exibição detalhada de seus sentimentos era tudo com que contava.

“Que deve ser feito? Trata-se de um ponto, querida, sobre o qual somente você pode decidir.”

A chuva despencava aos borbotões sobre as janelas negras e o imenso quarto parecia úmido e frio. Uma vela ardia trêmula sobre a cômoda perto da touca da senhorita Bartlett, imprimindo sombras monstruosas e fantásticas na porta trancada. Um bonde rugiu na escuridão e Lucy sentiu-se indizivelmente triste, embora fizesse tempo que os olhos secaram. Ela ergueu-os para o teto, onde os grifos e os fagotes lhe pareceram incolores e vagos, os próprios espectros da alegria.

“Está chovendo há quase quatro horas”, ela observou, por fim.

A senhorita Bartlett ignorou o comentário.

“Como propõe silenciá-lo?”

“O cocheiro?”

“Minha cara menina, não; o senhor George Emerson.”

Lucy começou a andar de um lado para outro do quarto.

“Não entendo”, foi sua resposta.

Ela entendia muito bem, mas não queria mais ser totalmente sincera.

“Como vamos impedi-lo de contar o que aconteceu?”

“Tenho a impressão de que contar é uma coisa que ele jamais fará.”

“Eu também sou tentada a julgá-lo com bonomia. Mas infelizmente encontrei tipos assim antes. Eles raramente mantêm silêncio sobre suas conquistas.”

“Conquistas?”, gritou Lucy, estremecendo diante do horrível plural.

“Minha pobre querida, supõe mesmo que foi a primeira? Venha aqui e me escute. Tiro minhas conclusões a partir de observações que ele próprio fez. Lembra-se daquele dia, durante o almoço, quando disse à senhorita Alan que gostar de uma pessoa é razão a mais para gostar de outra?”

“Sim”, respondeu Lucy, a quem, desta feita, o argumento havia agradado.

“Bom, não sou nenhuma pudica. Não há razão para chamá-lo de jovem perverso, mas obviamente ele é completamente impolido. Vamos atribuir isso aos antecedentes deploráveis do moço e à sua educação, se quisermos. Mas não avançamos nada com a questão. O que propõe fazer?”

Uma idéia disparou pela mente de Lucy, a qual, houvesse a moça pensado nela antes, assimilando-a por completo, teria sido cabal.

“Proponho falar com ele”, ela declarou.

A senhorita Bartlett emitiu um gritinho de genuína comoção.

“Como vê, Charlotte, sua bondade... Eu nunca me esquecerei dela. Mas... como disse... é minha responsabilidade. Minha e dele.”

“Está querendo dizer que irá implorar, irá suplicar-lhe o silêncio?”

“Decerto que não. Não haverá nenhuma dificuldade.” Independentemente do que lhe peçamos, ele sempre responde com sim ou não; então, está acabado. Já tive receios dele. Mas agora não tenho mais.

“Mas nós o receamos por você, querida. Você é tão jovem e inexperiente, viveu entre gente tão boa, que não pode perceber o que são os homens... como eles podem obter um prazer brutal em insultar uma mulher a quem o sexo não protege nem revigora. Esta tarde, por exemplo, se eu não houvesse chegado, o que teria acontecido?”

“Nem sei dizer”, respondeu Lucy, séria.

Algo em sua voz fez com que a senhorita Bartlett repetisse a pergunta, entoando com mais vigor.

“O que teria acontecido se eu não houvesse chegado?”

“Nem sei dizer”, tornou Lucy a dizer.

“Quando ele a insultou, como teria respondido?”

“Não tive tempo de pensar. Você chegou.”

“Sim, mas não pode me dizer agora o que teria feito?”

“Eu teria...” Ela refreou-se, interrompendo a frase. Dirigiu-se para a janela encharcada e forçou a vista na escuridão. Não conseguia pensar no que teria feito.

“Saia de perto da janela, querida”, disse a senhorita Bartlett. “Poderão vê-la da rua.”

Lucy obedeceu. Estava sob o poder da prima. Não conseguia escapar à nota de auto-imolação com que havia começado. Nenhuma das duas se referiu de novo à sua sugestão de que falaria com George para resolver o assunto, seja lá qual este fosse.

O tom da senhorita Bartlett passou à lamúria.

“Ó, se houvesse um homem de verdade! Somos apenas duas mulheres, você e eu. O senhor Beebe é inútil. Há o senhor Eager, mas você não confia nele. Ó, se seu irmão estivesse aqui! Ele é jovem, mas sei que um insulto dirigido contra a irmã despertaria nele o próprio leão. Graças a Deus que o cavalheirismo ainda não está morto. Há ainda alguns homens capazes de reverenciar a mulher.”

Enquanto falava, ia tirando os anéis, que eram vários, e dispunha-os sobre a almofadinha de alfinetes. Então soprou dentro das luvas e declarou:

“Será um esforço pegar o trem da manhã, mas precisamos tentar.”

“Que trem?”

“O trem para Roma”, ela observou criticamente suas luvas. A moça recebeu a notícia com a mesma tranqüilidade com que ela fora transmitida.

“A que horas parte o trem para Roma?”

“Às oito horas.”

“A signora Bertolini ficará aborrecida.”

“Precisamos encarar esse fato”, afirmou a senhorita Bartlett, sem querer confessar que já havia anunciado a partida.

“Ela nos fará pagar a semana inteira.”

“Receio que sim. Contudo, ficaremos muito mais à vontade no hotel dos Vyses. O chá da tarde não é servido gratuitamente ali?”

“Sim, mas pagam a mais pelo vinho.”

Depois dessa observação, ela quedou imóvel e silenciosa. Para seus olhos cansados, Charlotte pulsava e distendia-se como uma figura fantasmagórica de sonho.

Elas começaram a separar as roupas para as malas, pois não havia tempo a perder se quisessem pegar o trem para Roma. Lucy, quando aconselhada, começou a mover-se de um quarto para outro, mais ciente do desconforto de fazer as malas à luz das velas do que de um mal-estar mais sutil. Charlotte, que era prática, mas não hábil, ajoelhou-se ao lado de um baú vazio, em vão empenhando-se para revesti-lo com livros de grossura e tamanho variáveis. Ela deu dois ou três suspiros, pois a posição encurvada machucava-lhe as costas e, a despeito de toda a sua diplomacia, sentia que estava ficando velha. A moça ouviu-a quando entrou no quarto e foi tomada por um dos impulsos emocionais para os quais não sabia atribuir uma causa. Apenas refletiu que a vela iria queimar melhor, a arrumação seguiria com maior facilidade, o mundo seria mais feliz, em suma, se ela desse e recebesse um pouco de amor humano. O impulso estivera ali antes, mas nunca com tamanha força. Ela sentou-se ao lado da prima e tomou-a nos braços.

A senhorita Bartlett correspondeu ao abraço com carinho e calor. Mas não era uma mulher estúpida e sabia muito bem que Lucy não a amava, mas precisava dela para amar. Pois foi em tons sinistros que falou, depois de uma longa pausa:

“Minha querida Lucy, como poderá um dia perdoar-me?”.

Lucy ficou imediatamente em alerta, sabendo por amarga experiência o que significava perdoar a senhorita Bartlett. A emoção esvaiu; ela afrouxou um pouco o enlace e disse:

“Charlotte, querida, que quer dizer? Como se eu tivesse alguma coisa a perdoar!”.

“Você tem um bocado e eu também tenho muito a me perdoar. Sei muito bem como a exaspero em diversas ocasiões.”

“Mas não...”

A senhorita Bartlett assumiu seu papel favorito, o de mártir prematuramente envelhecida.

“Ah, mas é verdade! Sinto que nossa pequena excursão dificilmente foi o sucesso que eu esperava. Deveria ter adivinhado que não poderia ser. Você quer alguém mais jovem, mais forte e mais solidário. Sou aborrecida e antiquada demais — sirvo apenas para fazer e desfazer suas malas.”

“Por favor...”

“Meu único consolo foi que encontrou gente que era mais do seu agrado e muitas vezes foi capaz de me deixar em casa. Eu tinha minhas pobres idéias de como uma dama deveria comportar-se, mas espero não tê-la aborrecido com elas mais do que foi necessário. Você tinha seu próprio domínio em relação a esses quartos, de todo modo.”

“Você não deve dizer essas coisas”, repreendeu Lucy, com brandura.

Ela ainda se prendia à esperança de que ela e Charlotte amavam-se uma à outra, de todo o coração. As duas continuaram a arrumar as malas em silêncio.

“Eu fui um fracasso”, disse a senhorita Bartlett, enquanto forcejava com as faixas do baú de Lucy, em vez de enfaixar sua própria bagagem. “Falhei em fazê-la feliz; falhei na promessa que fiz à sua mãe. Ela foi tão generosa comigo; nunca mais serei capaz de encará-la após este desastre.”

“Mas mamãe a entenderá. Essa questão não é sua culpa, e também não é um desastre.”

“É culpa minha e é um desastre. Ela nunca me perdoará, e com toda a razão. Por exemplo, que direito tenho eu de travar amizade com a senhorita Lavish?”

“Todo o direito.

“Quando estava aqui por sua causa? Se eu a aborreci, também é verdade que a abandonei. Sua mãe verá isso com a mesma clareza que eu, quando você lhe contar.”

Lucy, com um desejo pusilânime de salvar a situação, sugeriu:

“Por que mamãe precisa saber?”.

“Mas você não lhe conta tudo?”

“Suponho que sim, de modo geral.”

“Não ouso quebrar essa confiança. Há algo de sagrado aí. A não ser que sinta que é algo que não pode contar a ela.”

A moça não podia ser degradada a esse ponto.

“Eu naturalmente deveria contar. Mas, para evitar que ela a responsabilize de algum modo, prometo que não o farei. Estou bastante disposta a não contar. Não falarei a ela nem a ninguém.”

A promessa encerrou a longa conversação. A senhorita Bartlett salpicou um beijo vivaz em cada bochecha, desejou-lhe boa-noite e mandou-a para o quarto.

Por um momento o problema original ficou na retaguarda. A atitude de George seria vista como a de um rematado mandrião; talvez fosse esse o juízo que ela acabaria formando, no fim. No momento, nem o inocentava nem o condenava; não fazia julgamentos. Na hora em que estava prestes a julgá-lo, a voz da prima interveio e, desde então, foi a senhorita Bartlett quem dominou; a senhorita Bartlett, cujos suspiros, mesmo agora, podiam ser ouvidos por uma fenda na parede divisória; a senhorita Bartlett que não fora nem flexível nem humilde nem consistente. Ela trabalhara como uma grande artista; durante certo tempo — de fato, durante anos —, parecera-lhe insignificante, mas, ao cabo, fora apresentada à moça o retrato completo de um mundo sem alegria nem amor, no qual os jovens se arrojam à ruína até aprenderem a lição... Um mundo vexado de precauções e barreiras capazes de evitar o perigo, mas que não parecem ocasionar nenhum bem, se pudermos julgar por aqueles que mais as utilizam.

Lucy estava sofrendo da falta mais atroz que esse mundo já descobrira: uma vantagem diplomática fora usurpada à sua sinceridade, a seu anseio por solidariedade e amor. Uma falta desse naipe não se esquece facilmente. Nunca mais ela se exporia sem a devida consideração e precaução contra o vitupério. E tal falta pode interagir na alma de forma desastrosa.

A campainha soou e ela lançou-se às persianas, mas, antes que chegasse a elas, hesitou, virou-se e apagou a vela. Assim foi que, embora visse alguém parado na chuva lá embaixo, ele, apesar de olhar para cima, não podia avistá-la.

Para chegar até seu quarto, ele teria de passar pelo dela. Lucy ainda estava vestida. Ocorreu-lhe que podia esgueirar-se até o corredor e apenas dizer que, antes de ele acordar, já teria partido, encerrando assim o extraordinário relacionamento de ambos.

Se Lucy teria tido coragem de fazê-lo, nunca saberemos, pois, no momento crítico, a porta da senhorita Bartlett abriu-se e a voz da prima disse:

“Gostaria de ter uma palavrinha com o senhor na sala de estar, senhor Emerson, por favor”.

Logo os passos de ambos voltaram a ecoar, e a senhorita Bartlett despediu-se:

“Boa noite, senhor Emerson”.

A respiração profunda e fatigada do moço foi a única resposta; a dama de companhia havia feito o seu trabalho.

Lucy choramingou alto: “Não é verdade. Não pode ser verdade. Não quero cair num atoleiro mental. Quero crescer logo”.

A senhorita Bartlett bateu na parede.

“Vá para a cama agora mesmo, querida. Precisa de todo o descanso que puder obter.”

Pela manhã, elas partiram para Roma.