Um Quarto com Vista

E. M. Forster · Capítulo 9 de 24

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Um Quarto com Vista

Capítulo 5

 

Possibilidades de um passeio agradável

 

Era comum dizer em família que “é impossível prever a reação de Charlotte Bartlett”. Ela mostrou-se perfeitamente razoável em relação à aventura de Lucy, achou bastante adequada a versão resumida e rendeu justa homenagem à cortesia do senhor George Emerson. Charlotte e a senhorita Lavish também empreenderam sua aventura. Fizeram uma pausa no dàzio, no caminho de volta, e os jovens oficiais de lá, que lhes pareceram impudentes e désouvré, tentaram vasculhar suas bolsas em busca de provisões. Teria sido muito desagradável. Felizmente, a senhorita Lavish era páreo para qualquer um.

Para o bem ou para o mal, coube a Lucy enfrentar sozinha seu próprio dilema. Nenhum de seus amigos a tinha visto, quer fosse na piazza, quer fosse, mais tarde, na amurada. O senhor Beebe na realidade, percebendo seu olhar assustadiço ao jantar, repetiu para si mesmo o comentário de que fora “Beethoven em demasia”. Mas ele apenas supusera que Lucy estava predisposta a uma aventura, não que ela a havia encontrado. Aquela solidão a afligia; estava acostumada a que os outros lhe confirmassem os pensamentos ou, pelo menos, a que os contradissessem; era apavorante não saber se estava pensando corretamente ou não.

Ao café-da-manhã, no dia seguinte, tomou uma atitude decisiva. Havia dois planos de ação a escolher. O senhor Beebe planejara ir à torre Del Gallo com os Emersons e umas senhoras americanas. Será que a senhorita Bartlett e a senhorita Honeychurch não gostariam de acompanhá-los? Charlotte declinara o convite, ela estivera lá durante a chuva da tarde anterior. Mas achou que seria uma idéia admirável para Lucy, que detestava fazer compras, trocar dinheiro, pegar a correspondência — entre outras tarefas irritantes que a senhorita Bartlett precisava executar naquela manhã e que podiam ser executadas sem o préstimo de ninguém.

“Não, Charlotte!”, protestou a moça, num ímpeto sincero. “É muita gentileza do senhor Beebe, mas sem dúvida que irei com você. Eu prefiro.”

“Está certo, querida”, respondeu a senhorita Bartlett, com um leve rubor de prazer, que ocasionou uma profunda vermelhidão envergonhada nas faces de Lucy. Como fora abominável sua atitude para com Charlotte, agora e sempre! Mas estava determinada a mudar isso. Durante toda a manhã, procurou ser realmente amável com a prima.

Enlaçou-a pelo braço e, juntas, caminharam ao longo do Lungarno. O rio estava um leão aquela manhã, pela força, pela voz e pela cor. A senhorita Bartlett insistiu para que quedassem à amurada, para contemplá-lo. Ela então fez seu comentário habitual, que era:

“Como queria que Freddy e sua mãe também estivessem aqui”.

Lucy ficou irrequieta; era enervante que Charlotte tivesse parado exatamente no mesmo lugar que ela.

“Olhe, Lucia! Ah, você está à procura do grupo que se dirigiu para a torre del Gallo. Temia que fosse arrepender-se de sua decisão.”

Por mais terrível que tivesse sido a decisão, Lucy não se arrependera. No dia anterior estivera confusa — era uma situação estranha e estrambótica, o tipo de coisa que não se pode deitar facilmente no papel —, mas tinha a sensação de que Charlotte e as compras eram preferíveis a George Emerson e à subida à torre del Gallo. Como era incapaz de desfazer a embrulhada, devia cuidar para não retornar a ela. Podia rebater com franqueza as insinuações da senhorita Bartlett.

Ocorre que, embora tivesse evitado o ator principal, o cenário infelizmente persistia. Charlotte, com a fatuidade do destino, levou-a do rio à Piazza Signoria. Lucy não podia acreditar que as pedras, a loggia, a fonte, a torre do palácio tivessem tanta importância. Por um momento compreendeu a natureza dos fantasmas.

O local exato do homicídio estava ocupado, não por um fantasma, mas pela senhorita Lavish, que empunhava o jornal matutino. Ela acenou bruscamente para as duas. A medonha catástrofe do dia anterior lhe dera uma idéia que, segundo imaginava, podia resultar num livro.

“Ah, deixe-me congratulá-la!”, exclamou a senhorita Bartlett. “Depois do desespero de ontem! Que coisa maravilhosa!”

“Aha! Senhorita Honeychurch, venha aqui! Estou com sorte. Agora, precisa me contar absolutamente tudo o que viu, desde o início.”

Lucy espetou o chão com sua sombrinha.

“Mas talvez prefira não falar sobre o assunto.”

“Desculpe-me... Se puder dar um jeito sem mim, acho que prefiro abster-me.”

As duas mulheres mais velhas trocaram olhares, mas não de desaprovação; não havia nenhum mal que uma garota ficasse compungida.

“Sou eu quem lhe pede perdão”, explicou a senhorita Lavish. “Nós, rematadas mercenárias, somos criaturas desavergonhadas. Creio que não há segredo na alma humana que não procuramos bisbilhotar.”

Ela caminhou alegremente até a fonte e voltou, fazendo alguns cálculos para efeito do realismo. Então, confessou que se encontrava ali desde as oito horas da manhã, coligindo elementos. Boa parte não constituía material adequado, mas decerto sempre era preciso adaptar. Os dois homens brigaram por causa de uma nota de cinco liras. No lugar da cédula, poria uma jovem dama, que elevaria o tom da tragédia e, ao mesmo tempo, forneceria uma excelente trama.

“Qual é o nome da heroína?”, indagou a senhorita Bartlett.

“Leonora”, respondeu a senhorita Lavish; o nome dela era Eleanor.

“Espero que seja boa.”

Aquele desiderato não seria omitido.

“E qual é o enredo?”

Amor, assassinato, rapto, vingança: essa era a trama. Tudo foi explanado enquanto a fonte chapinhava os sátiros sob a luz da manhã.

“Espero que me perdoem por entediá-las assim”, a senhorita Lavish concluiu. “É tão tentador falar a pessoas realmente compreensivas. Claro que é apenas um esboço cru. Haverá uma grande dose de cor local, descrições de Florença e das cercanias, e também incluirei uns personagens engraçados. E deixe-me adverti-las: pretendo ser implacável com o turista britânico.”

“Ah, que mulher terrível!”, exclamou a senhorita Bartlett. “Tenho certeza de que se refere aos Emersons.”

A senhorita Lavish abriu um sorriso maquiavélico.

“Confesso que, na Itália, minhas simpatias não estão com meus conterrâneos. São os negligenciados italianos que me atraem, são suas vidas que quero pintar o máximo que puder. Pois repito e insisto, e sempre defendi com veemência, uma tragédia como a de ontem não é menos trágica por ter ocorrido com os mais humildes.”

Fez-se um silêncio apropriado assim que a senhorita Lavish rematou o pensamento. Então, as primas desejaram êxito a suas pesquisas e cruzaram lentamente a praça.

“Ela é meu modelo de mulher realmente inteligente”, afirmou a senhorita Bartlett. “A última observação me pareceu particularmente verdadeira. Tenho certeza de que será um romance com grande páthos.”

Lucy assentiu. Naquele momento, seu maior objetivo era não ser transportada para dentro dele. Suas percepções estavam bastante aguçadas aquela manhã, e acreditava que a senhorita Lavish a tinha na reputação de uma ingénue.

“Ela é emancipada, mas apenas no melhor sentido da palavra”, continuou a senhorita Lavish, devagar. “Apenas as pessoas mais superficiais ficariam chocadas com ela. Tivemos uma longa conversa ontem. Ela acredita na justiça, na verdade e no interesse humano. Também me disse que tem em alta conta o destino da mulher... Ah, senhor Eager! Ora, que ótimo! Que surpresa agradável!”

“Ah, não para mim”, disse o capelão, com suavidade, “pois estive a mirá-la e à senhorita Honeychurch por algum tempo.”

“Estávamos tagarelando com a senhorita Lavish.”

Ele contraiu as sobrancelhas.

“Foi o que eu vi. Estavam mesmo? Andate via! Sono occupato!” O último reparo foi feito a um vendedor de fotografias panorâmicas que se aproximava com um sorriso. “Estou a pique de fazer-lhes uma sugestão. Será que não gostariam de unir-se a mim num passeio em algum dia desta semana... um passeio de carruagem às colinas? É possível irmos por Fiesole e voltarmos por Settignano. Há um ponto na estrada onde podemos descer e passar uma hora ao léu, nas montanhas. A vista que o local oferece de Florença é magnífica... muito melhor do que ponto de observação de Fiesole. É a perspectiva que Alessio Baldovinetti gosta de introduzir em suas pinturas. Aquele homem decididamente tem um pendor para a paisagem. Decididamente. Mas quem se interessa por isso hoje em dia? Ah, o mundo em que vivemos!”

A senhorita Bartlett nunca ouvira falar de Alessio Baldovinetti, mas sabia que o senhor Eager não era um capelão comum. Era um membro da colônia residente que elegera Florença como lar. Conhecia as pessoas que nunca andavam com o Baedeker em punho, que aprenderam a tirar a siesta após o almoço, que faziam passeios em lugares proibidos a turistas de pensão e, por meio de influência pessoal, conseguiam visitar galerias vedadas aos demais. Vivendo em delicada reclusão, uns em apartamentos decorados, outros em villas renascentistas ao pé do Fiesole, essas pessoas liam, escreviam, estudavam e trocavam idéias, assim atingindo aquele conhecimento, ou melhor, aquela percepção íntima de Florença, negada a todos que andam com os bolsos cheios de cupons da agência Cook.

Portanto, um convite do capelão era algo de que se podia orgulhar. Entre as duas partes de seu rebanho, ele em geral funcionava como único elo, e era seu famoso costume selecionar, dentre os cordeiros migratórios, aqueles que lhe parecessem mais promissores, com o fito de conceder-lhes algumas horas nas pastagens dos permanentes. Chá numa villa renascentista? Nada ainda fora mencionado a esse respeito. Mas se chegasse a tanto... Como Lucy não gostaria disso!

Uns dias atrás Lucy teria sentido o mesmo. Mas as alegrias da vida estavam se realinhando. Um passeio às montanhas com o senhor Eager e a senhorita Bartlett — mesmo culminando com um chá numa residência local — já não era um dos júbilos mais arrebatadores. Ela correspondeu um tanto timidamente ao enlevo de Charlotte. Apenas se soubesse que o senhor Beebe iria também é que seu agradecimento se tornaria mais sincero.

“Assim seremos uma partie carrée”, explicou o capelão. “Nestes dias de trabalho e de tumulto, temos uma grande necessidade do campo e de sua mensagem de pureza. Andate via! Andate presto, presto! Ah, a cidade! Por bela que seja, é a cidade...”

Elas concordaram.

“Esta praça mesmo, assim me disseram, foi testemunha ontem de uma das tragédias mais sórdidas. Para quem ama a Florença de Dante e de Savonarola, há algo de portentoso em tal profanação... portentoso e humilhante.”

“De fato humilhante”, aquiesceu a senhorita Bartlett. “A senhorita Honeychurch por acaso passava por aqui quando tudo aconteceu. Ela mal consegue falar do assunto.” Charlotte lançou um olhar de orgulho para a prima.

“E como foi que a senhorita veio parar aqui?”, indagou o capelão, paternalista.

O recente liberalismo da senhorita Bartlett esvaiu-se com a pergunta.

“Não a culpe, por favor, senhor Eager. A responsabilidade é minha. Fui eu quem a deixou desacompanhada.”

“Então estava aqui sozinha, senhorita Honeychurch?” Sua voz sugeria uma repreensão amistosa, mas ao mesmo tempo indicava que uns poucos detalhes desgostosos não seriam inescusáveis. Seu semblante escuro e belo abaixou-se lamentosamente na direção da moça, para ouvir-lhe a resposta.

“Quase.”

“Ah, uma pessoa gentil, lá da pensão, trouxe-a para casa”, disse a senhorita Bartlett, astutamente ocultando o sexo do guardião.

“Para ela também deve ter sido uma experiência terrível. Creio que não estavam perto... que a tragédia não tenha ocorrido próximo de você.”

Das muitas coisas que Lucy estava notando naquele dia, uma das não menos notáveis era esta: o modo mórbido com que pessoas respeitáveis querem sentir seu gostinho de sangue. George Emerson mantivera o assunto estranhamente puro.

“Ele morreu próximo da fonte, eu creio”, foi sua resposta.

“Enquanto a senhorita e a pessoa...”

“Estávamos perto da loggia.”

“A distância deve tê-la poupado do pior. A senhorita, é claro, não deve ter visto a descrição horrorosa que a imprensa marrom... Este homem é uma amolação pública; sabe muito bem que sou morador da cidade, contudo continua apoquentando-me para que compre uma de suas fotografias vulgares.”

Decerto o vendedor de gravuras pertencia à mesma liga de Lucy — a liga eterna da Itália com a mocidade. Ele havia repentinamente estendido o livro diante da senhorita Bartlett e do senhor Eager, unindo-lhes as mãos por meio de uma longa e brilhante fita de igrejas, fotografias e vistas.

“Isto é demais!”, bradou o capelão, batendo de forma petulante num dos anjos de Fra Angélico. A página rasgou. O vendedor emitiu um grito agudo. A obra, conforme parecia, era mais valiosa do que se poderia supor.

“Eu estaria disposta a comprar...”, encetou a senhorita Bartlett.

“Ignore-o”, interrompeu o senhor Eager bruscamente, e os três saíram rapidamente da praça.

Mas um italiano nunca pode ser esquecido, sobretudo quando tem um motivo de queixa. Sua perseguição misteriosa do senhor Eager tornou-se incansável; o ar vibrava com suas ameaças e lamúrias. O vendedor apelava a Lucy; ela não poderia interceder? Era pobre — arrimo de família — o imposto sobre o pão. Ele aguardava, algaraviava, adulava, estava descontente, não saiu do lado deles até ter limpado suas mentes de todo pensamento, quer fossem agradáveis, quer fossem desagradáveis.

As compras constituíram o tópico subseqüente. Sob a orientação do senhor Eager, elas selecionaram muitos presentes e lembranças de péssimo gosto — pequenas molduras floridas que pareciam modeladas em glacê dourado; outras moldurinhas, mais sisudas, que encimavam pequenos cavaletes, e eram talhadas em carvalho; um bloco de mata-borrão feito de papel velino; uma gravura de Dante confeccionada com o mesmo material; módicos broches variegados que as criadas, no próximo Natal, não saberão diferenciar dos objetos verdadeiros; grampos de cabelo, potes, pires heráldicos, fotografias artísticas em sépia; Eros e Psiquê em alabastro; um São Pedro para combinar — itens que teriam custado muito menos em Londres.

Para Lucy, a manhã bem-sucedida não trouxe impressões deleitosas. Tanto a senhorita Lavish quanto o capelão a deixaram um pouco assustada, e não sabia por quê. E, à medida que a amedrontavam, ela havia, por estranho que pudesse parecer, cessado de respeitá-los. Duvidava agora que a senhorita Lavish fosse uma grande artista. Duvidava que o senhor Eager estivesse tão imbuído de espiritualidade e cultura como fora levada a acreditar. Ambos eram submetidos a um novo teste, para o qual não estavam à altura. Quanto a Charlotte — quanto a Charlotte, ela continuava exatamente a mesma. Podia-se ser amável com ela; era impossível amá-la.

“É filho de um trabalhador; ocorre que soube disso. Ele próprio mecânico de algum tipo quando era jovem; então começou a escrever para a imprensa socialista. Cruzei com ele em Brixton.”

Estavam falando dos Emersons.

“Que incrível é a forma como as pessoas surgem hoje em dia!”, suspirou a senhorita Bartlett, dedilhando uma maquete da torre de Pisa.

“Em geral”, respondeu o senhor Eager, “é preciso ver com simpatia o êxito de tal gente. O desejo por educação e por progresso social... Nessas coisas há algo que não é totalmente vil. Há alguns trabalhadores que receberíamos com prazer aqui em Florença, por pouco que eles possam colher os frutos desse privilégio.”

“Ele é jornalista agora?”, indagou a senhorita Bartlett.

“Não; ele fez um bom casamento.”

Ele fez o comentário com uma voz carregada de implicações, culminando-o com um suspiro.

“Ah, então tem uma esposa.”

“Falecida, senhorita Bartlett, falecida. Pergunto-me, sim, eu me pergunto como ele teve a desfaçatez de me olhar na cara, de ousar dizer que me conhece. Ele fez parte de minha paróquia em Londres, muito tempo atrás. No outro dia, em Santa Croce, quando ele estava com a senhorita Honeychurch, eu o repudiei. Deixe-o descobrir que tudo o que vai obter é o repúdio.”

“O quê?”, exclamou Lucy, corando.

“Um escândalo!”, sibilou o senhor Eager.

Ele tentou mudar o assunto; mas, ao frisar um ponto dramático, angariou, por parte de sua audiência, um interesse maior do que pretendia obter. A senhorita Bartlett transpirava curiosidade natural. Lucy, conquanto não quisesse ver os Emersons nunca mais, não estava disposta a condená-los com tamanha facilidade.

“Se quer dizer”, ela observou, “que ele é um homem não religioso, já sabemos disso.”

“Lucy querida...”, disse a senhorita Bartlett, reprovando gentilmente a agudeza da prima.

“Eu ficaria surpreso se a senhorita soubesse de tudo. O rapaz, uma criança inocente na época, deve ficar fora disso. Só Deus sabe o que a educação que teve, somada às qualidades hereditárias, pode ter feito com ele.”

“Talvez”, sugeriu a senhorita Bartlett, “seja algo que é melhor não ouvirmos.”

“Para falar claramente”, disse o senhor Eager, “é isso sim. Nada mais direi.”

Pela primeira vez os pensamentos rebeldes de Lucy expandiram-se em palavras — pela primeira vez em sua vida.

“O senhor disse muito pouco.”

“Era minha intenção dizer pouco”, foi sua gélida resposta.

Ele pousou o olhar indignado sobre a moça, que o encarou com idêntica indignação. Ela virou-se do balcão para ele, o peito arfando com rapidez. Ele observou-lhe a testa franzida e a súbita força em seus lábios. Era intolerável que não cresse nele.

“Assassinato, se quer mesmo saber”, ele gritou, zangado. “Aquele homem matou a esposa!”

“Como?”, ela retorquiu.

“Para todos os efeitos, ele a matou. Aquele dia em Santa Croce disseram alguma coisa contra mim?”

“Nem uma palavra, senhor Eager... Nem uma palavra.”

“Oh, pensei que tivessem me difamado. Mas suponho que seja apenas o encanto pessoal daqueles dois que a faça defendê-los.”

“Não os estou defendendo”, assegurou Lucy, perdendo a coragem e recaindo em seus antigos métodos caóticos. “Não são nada para mim.”

“Como pode supor que ela os esteja defendendo?”, perguntou a senhorita Bartlett, bastante insatisfeita com a cena desagradável. O balconista provavelmente estava escutando.

“A tarefa não lhe seria fácil. Pois aquele homem matou a mulher aos olhos de Deus.”

O acréscimo de Deus foi extraordinário. Mas o capelão estava realmente tentando impor um comentário forte. Seguiu-se um silêncio, que poderia ser de espanto, mas era meramente embaraçoso. Então a senhorita Bartlett comprou apressadamente a Torre Inclinada, e saiu para a rua.

“Eu preciso ir embora”, afirmou ele, fechando os olhos e extraindo o relógio.

A senhorita Bartlett agradeceu-lhe pela cortesia e falou com entusiasmo sobre o passeio vindouro.

“Passeio? Ah, ainda faremos o passeio?”

Houve uma alusão ao comportamento de Lucy e, após certo esforço, a boa vontade do senhor Eager foi restaurada.

“Que maçada esse passeio!”, exclamou a jovem assim que ele partiu. “É o mesmo passeio que combinamos fazer com o senhor Beebe sem que se fizesse nenhum alarde. Por que ele veio nos convidar desse modo absurdo? Nós também poderíamos tê-lo convidado. Cada uma de nós está pagando sua parte.”

A observação suscitou na senhorita Bartlett, que antes só pretendia lamentar os Emersons, pensamentos inesperados.

“Se isso é verdade, querida... Se o passeio que nós e o senhor Beebe vamos fazer com o senhor Eager é o mesmo que nós íamos fazer com o senhor Beebe, então prevejo uma terrível embrulhada.”

“Por quê?”

“Porque o senhor Beebe também convidou Eleanor Lavish.”

“Quer dizer que precisamos de outro carro?”

“Muito pior. O senhor Eager não gosta de Eleanor. Ela mesma o sabe. A verdade deve ser dita: ela é excêntrica demais para ele.”

Estavam agora no salão dos jornais, do banco inglês. Lucy se aboletara diante da mesa central. Não reparava nem no Punch nem no Graphic, pois procurava responder, ou melhor, formular, as perguntas que disparavam em seu cérebro. O mundo estabelecido havia se quebrado, e lá emergia Florença, uma cidade mágica onde as pessoas pensavam e faziam as coisas mais extraordinárias. Assassinato, acusações de homicídio, uma senhora unindo-se a um homem e sendo grosseira com outro — eram esses os incidentes diários de suas ruas? Havia mais em sua beleza cândida do que o olho era capaz de ver — o poder, talvez, de evocar paixões, tanto boas quanto más, e de levá-las rapidamente à sua satisfação?

Feliz de Charlotte que, embora imensamente atormentada por coisas que não tinham importância, parecia desatenta às coisas que eram importantes; que podia conjeturar, com admirável delicadeza, “para onde as coisas podiam levar”, mas aparentemente perdia o foco no objetivo ao aproximar-se delas! Agora ela estava agachada num canto procurando extrair uma cédula circular de uma espécie de embornal de linho que pendia em casta ocultação em torno de seu pescoço. Informaram-lhe que aquele era o único meio seguro de transportar dinheiro na Itália; o saco só podia ser aberto no interior de um banco inglês. Enquanto vasculhava o esconderijo, ela resmungava:

“Se foi o senhor Beebe quem esqueceu de contar ao senhor Eager, se foi o senhor Eager quem esqueceu quando nos contou, se ambos decidiram dispensar Eleanor (o que seria quase impossível), de qualquer modo, precisamos estar preparadas. É você a pessoa que eles realmente querem; só me convidam para salvar as aparências. Você irá com os dois cavalheiros e eu e Eleanor seguiremos atrás. Uma carruagem puxada por um só cavalo serve. Contudo, como a situação é dificultosa!”

“Pois é mesmo”, respondeu a moça, com uma gravidade que soou solidária.

“Que acha de tudo isso?”, indagou a senhorita Bartlett, corada por causa da manobra, abotoando o vestido.

“Não sei o que acho nem o que quero.”

“Ah, querida Lucy, espero que Florença não a esteja aborrecendo. Basta dizer uma palavra e, como sabe, eu a levarei ao fim do mundo amanhã.”

“Obrigada, Charlotte”, disse Lucy, e ponderou a proposta.

Havia cartas para ela na agência — uma de seu irmão, cheia de menções aos esportes e à biologia; uma de sua mãe, encantadora como apenas as cartas maternas podem ser. Por esta última soube do açafrão, que foi comprado por causa da cor amarela e estava dando um tom marrom-arroxeado; da nova copeira, que aguara as samambaias com essência de limonada; dos sobrados geminados que arruinavam a rua Summer e partiam o coração de sir Harry Otway. A missiva lembrou a vida livre e agradável de sua casa, onde podia fazer tudo o que quisesse e onde nada lhe acontecia. A alameda de pinheiros, a sala de estar limpa, a vista do Weald — tudo se descortinava diante dela de modo luminoso e distinto, mas também patético, como as pinturas numa galeria às quais, depois de muitas experiências, um viajante retorna.

“E as notícias?”, indagou a senhorita Bartlett.

“A senhora Vyse e o filho foram para Roma”, disse Lucy, dando primeiro a notícia que menos lhe interessava. “Conhece os Vyses?”

“Oh, não muito. Parece que nunca nos cansamos da ditosa Piazza Signoria.”

“São boa gente, os Vyses. Tão inteligentes... Meu ideal do que é realmente inteligente. Não gostaria de ir a Roma?”

“Adoraria!”

A Piazza Signoria era pétrea demais para ser brilhante. Não tinha gramado, flores ou afrescos; não havia paredes cintilantes de mármore ou porções reconfortantes de tijolos avermelhados. Por estranho acaso — a não ser que acreditemos em gênios tutelares —, as estátuas que lhe atenuam a severidade sugerem não a inocência da infância nem o glorioso deslumbramento da juventude mas os feitos conscientes da maturidade. Perseu e Judite, Hércules e Tusnelda, eles fizeram e sofreram algo, e, conquanto fossem imortais, a imortalidade lhes foi concedida com a experiência, não antes. Ali, e não apenas na solidão da Natureza, podia um herói encontrar uma deusa, ou uma heroína seu deus.

“Charlotte!”, exclamou a moça, de chofre. “Tive uma idéia. E se partíssemos para Roma amanhã mesmo, diretamente para o hotel dos Vyses? Pois sei agora o que quero. Estou cansada de Florença. Vamos, você disse que iria até o fim do mundo. Vamos! Vamos!”

A senhorita Bartlett, com idêntica vivacidade, retrucou:

“Ah, sua brincalhona! Diga-me, que seria de seu passeio nas montanhas?”

Juntas, elas chegaram à beleza desolada da praça, rindo da sugestão impraticável.