Um Quarto com Vista

E. M. Forster · Capítulo 12 de 24

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Um Quarto com Vista

Parte 2

8

 

Medieval

 

As cortinas da sala de estar, em Windy Corner, estavam cerradas, pois o tapete era novo e merecia proteção contra o sol de agosto. Tratava-se de cortinas pesadas, que quase atingiam o chão, e a luz que filtravam era tênue e variegada. Um poeta — nenhum estava presente — poderia ter citado “A vida como uma cúpula de cristal multicolor”, ou ter comparado as cortinas a comportas de um dique, fechadas contra as intoleráveis marés celestes. Fora, rutilava um mar fulgurante; dentro, a glória, conquanto visível, vinha temperada para satisfazer as capacidades do homem.

Duas pessoas cordatas sentavam-se ali. Uma — um rapaz de dezenove anos — estudava um pequeno manual de anatomia, de quando em vez relanceando um olhar para um osso que se achava sobre o piano. Ocasionalmente, pulava na cadeira, resfolegava e gemia, pois o dia estava quente, as letras eram miúdas e o desenho do corpo humano era terrivelmente malfeito; sua mãe, que compunha uma carta, não cessava de ler para ele o que havia escrito. Também não parava de levantar-se, de entreabrir as cortinas, fazendo cair no tapete uma nesga de luz, e de repetir que eles ainda se encontravam ali.

“Onde não estariam?”, perguntou o rapaz, que era o Freddy, o irmão de Lucy. “Devo dizer que isso está me enjoando.”

“Pelo amor de Deus, saia de minha sala de estar, então!”, gritou a senhora Honeychurch, que esperava curar os jargões dos jovens tomando-os ao pé da letra.

Freddy não se moveu nem respondeu.

“Acho que está chegando ao fim”, ela observou, na esperança de ouvir a opinião do filho acerca da situação, sem ser obrigada a obtê-la através de súplicas exageradas.

“Já não era sem tempo.”

“Alegro-me que Cecil esteja fazendo o pedido mais uma vez.”

“É a terceira tentativa, não é?”

“Freddy, considero a maneira como você se exprime muito pouco gentil.”

“Não quis ser grosseiro.” Então, acrescentou: “Mas, no meu entender, Lucy deveria ter se livrado disso na Itália. Não sei como as garotas fazem essas coisas, mas não deve ter dito ‘não’ de modo adequado antes, ou não teria de repeti-lo agora. Tudo isso (não sei explicar) me deixa bastante incomodado.”

“Deixa mesmo, querido? Que interessante!”

“Sinto-me... Não importa.”

Ele voltou-se ao trabalho.

“Escute aqui o que escrevi à senhora Vyse. Eu disse: ‘Querida senhora Vyse...’.”

“Sim, mãe, a senhora me contou. Uma carta supimpa.”

“Eu disse: ‘Querida senhora Vyse, Cecil acaba de pedir minha permissão e ficarei encantada, se Lucy também aprová-lo. Mas...’”, ela parou de ler. “Achei um tanto divertido que Cecil tivesse me pedido permissão. Ele sempre foi contra as convenções, contra a intermediação dos pais e assim por diante. Mas, quando se trata do que interessa, ele não segue em frente sem mim.”

“Sem mim também.”

“Você?”

Freddy fez que sim.

“Que quer dizer?”

“Ele também pediu minha permissão.”

Ela exclamou: “Que estranho da parte dele!”.

“Por quê?”, indagou o filho e herdeiro. “Por que minha permissão não deveria ter sido solicitada?”

“O que você entende de Lucy ou de garotas ou de qualquer coisa? Que foi que respondeu?”

“Eu disse para Cecil: ‘Leve-a com você ou deixe-a aqui. Não é da minha conta!’.”

“Que resposta útil!”, mas a resposta dela, embora elaborada num linguajar mais habitual, surtiu o mesmo efeito.

“A complicação é a seguinte”, encetou Freddy.

Então ele retornou à leitura, encabulado demais para explicar qual era a complicação. A senhora Honeychurch voltou para a janela.

“Freddy, você precisa vir aqui. Eles ainda estão lá!”

“Não acho que a senhora deveria ficar bisbilhotando assim.”

“Bisbilhotando assim? Não posso olhar por minha própria janela?”

Mas ela tornou à escrivaninha, observando, ao passar pelo filho: “Ainda na página 322?”. Freddy bufou e virou duas páginas. Por um breve momento, ficaram em silêncio. Perto dali, do outro lado das cortinas, o murmúrio gentil de uma longa conversação mantinha-se ininterrupto.

“A complicação é a seguinte: dei uma grande mancada com Cecil”, ele engoliu nervosamente em seco. “Não contente com a ‘permissão’ que eu lhe dei... ou seja, eu disse ‘não é da minha conta’... Bem, não contente com isso, ele quis saber se eu não estava enlouquecido de alegria. Ele praticamente expôs o assunto da seguinte maneira: não seria esplêndido, não só para Lucy, mas para Windy Corner em geral, se ele se casasse com ela? E exigiu uma resposta. Disse que reforçaria o seu pedido.”

“Espero que tenha dado uma resposta cuidadosa, querido.”

“Eu disse ‘Não’”, revelou o rapaz, cerrando os dentes. “Aí está! O que estragou tudo. Não pude evitar... Tive de dizer o que disse. Tive de dizer não. Ele nunca deveria ter me perguntado.”

“Garoto infeliz!”, gritou a mãe. “Acha que é tão consagrado e franco, mas no fundo é apenas um abominável convencido. Acha mesmo que um homem como Cecil daria a menor importância ao que quer que seja que você tenha dito? Espero que ele tenha lhe aplicado um tabefe no ouvido. Como ousou dizer não?”

“Ah, por favor, fique quieta, mãe! Tive de dizer não, pois não podia dizer sim. Tentei rir daquilo como se não quisesse ter dito o que disse e, como Cecil também riu, e se afastou, poder ter dado tudo certo. Mas sinto que foi uma mancada. Ah, por favor, fique quieta, e deixe um homem seguir com seu trabalho.”

“Não”, volveu a senhora Honeychurch, com um ar de quem ponderou o assunto, “não vou me calar. Você sabe tudo o que se passou com eles em Roma; sabe por que ele está aqui; mesmo assim, deliberadamente o insultou, e tentou expulsá-lo de minha casa.”

“Não é nada disso!”, ele jurou. “Só deixei escapar que não gosto dele. Não o detesto, mas não gosto dele. O que me incomoda é que ele vai contar a Lucy.”

Ele relanceou as cortinas com ar soturno.

“Bem, eu gosto dele”, afirmou a senhora Honeychurch. “Conheço a mãe dele; é um bom rapaz, inteligente, rico e bem relacionado... Ah! Você não precisa chutar o piano! Ele é bem relacionado... Posso repeti-lo se quiser: ele é bem relacionado”, ela interrompeu-se, como se estivesse ensaiando sua elegia, mas o semblante permaneceu insatisfeito. Acrescentou: “E tem belos modos”.

“Eu gostava dele até agora pouco. Suponho que seja o fato de ter vindo aqui, estragando a primeira semana da volta de Lucy; e também é algo que o senhor Beebe disse, sem saber.”

“O senhor Beebe?”, indagou a mãe, tentando ocultar o interesse. “Não entendo como o senhor Beebe entra na história.”

“Sabe como o senhor Beebe é engraçado; nunca sabemos bem o que ele quer dizer. Ele disse: ‘O senhor Vyse é um perfeito solteirão’. Fui bastante astuto. Perguntei-lhe o que queria dizer. Ele disse: ‘Ah, ele é como eu... melhor como celibatário’. Não pude fazê-lo explicar-se melhor, mas fiquei cismado. Desde que veio atrás de Lucy, Cecil deixou de ser amável, no mínimo... Não consigo explicar.”

“Você nunca consegue, querido. Mas eu sim. Está com ciúmes de Cecil, pois ele vai fazer com que Lucy pare de cerzir suas gravatas de seda.”

A explicação pareceu plausível e Freddy procurou aceitá-la. Mas, bem no fundo, ainda se escondia uma ligeira desconfiança. Cecil elogiava demais as pessoas atléticas. Seria isso? Cecil fazia com que o interlocutor conversasse do jeito dele, em vez de deixá-lo falar como quisesse, o que era cansativo. Seria isso? E Cecil era o tipo de sujeito que nunca usaria o boné de outro camarada. Alheio à própria profundidade, Freddy refreou-se. Devia sentir ciúmes, ou não desgostaria de alguém por causa de razões tão tolas.

“Será que está bom?”, indagou a mãe. “‘Querida senhora Vyse, Cecil acaba de pedir minha permissão e ficarei encantada se Lucy também aprová-lo’. Então acrescentei lá em cima: ‘Conforme fiz saber à minha filha’. Terei de reescrever a carta... ‘Conforme fiz saber à minha filha. Mas Lucy parece um pouco hesitante e, nos dias atuais, os jovens precisam tomar sua própria decisão.’ Menciono isso porque não quero que a senhora Vyse pense que sou antiquada. Ela é a favor de palestras e do desenvolvimento da mente; enquanto isso, uma grossa camada de pó se amontoa sob as camas e podemos ver marcas de sujeira dos dedos das criadas quando acendemos a luz elétrica. A manutenção daquele apartamento é abominável...”

“Na hipótese de Lucy casar-se com Cecil, ela vai morar num apartamento ou no campo?”

“Não me interrompa com perguntas bobas. Onde eu estava? Ah, sim... ‘Os jovens precisam tomar sua própria decisão. Sei que Lucy gosta de seu filho, pois minha filha me conta tudo, e ela me escreveu de Roma quando ele fez o primeiro pedido.’ Não, vou tirar esta última frase: soa condescendente. Vou parar em ‘pois minha filha me conta tudo’. Ou devo omitir isso também?”

“Omita isso também”, sugeriu Freddy.

A senhora Honeychurch deixou como estava.

“Então a carta toda segue assim: ‘Querida senhora Vyse, Cecil acaba de pedir minha permissão e ficarei encantada se Lucy também aprová-lo, conforme fiz saber à minha filha. Mas Lucy parece um pouco indecisa e, nos dias de hoje, os jovens precisam tomar sua própria decisão. Sei que Lucy gosta de seu filho, pois minha filha me conta tudo. Mas não sei...’.”

“Cuidado!”, exclamou Freddy.

As cortinas se abriram.

O primeiro gesto de Cecil foi de irritação. Não suportava o hábito dos Honeychurches de ficarem sentados no escuro para não estragar a mobília. Deu um repelão nas cortinas, fazendo com que corressem pelo travessão. A luz entrou. Revelou-se um terraço, do tipo que abundam em propriedades rurais, com árvores de ambos os lados e, sobre ele, um pequeno banco rústico e dois canteiros de flores. Mas o terraço era transfigurado pela vista ao longe, pois Windy Corner fora construída num planalto com uma vista panorâmica, em Sussex. Lucy, que estava no banco, parecia assentada na beira de um tapete mágico verdejante que pairava no ar, acima do mundo tremulento.

Cecil entrou.

Aparecendo tão tardiamente na história, Cecil deve ser de pronto apresentado. Ele era medieval. Como uma estátua gótica. Alto e refinado, com ombros solidamente dispostos como que por um esforço da vontade e uma cabeça que se elevava à linha habitual de visão, lembrava um daqueles santos fastidiosos que guardam os portais de uma catedral francesa. Bem-educado, bem suprido e fisicamente não deficiente, mantinha-se tomado por uma certa aflição que o mundo moderno conhece como acanhamento e que os medievos, com uma visão menos clara, cultuavam como sendo ascetismo. Uma estátua gótica implica celibato, assim como uma grega indica fruição, e talvez fosse isso o que o senhor Beebe tenha querido dizer. E Freddy, que ignorava história e arte, talvez sugerisse o mesmo quando não conseguiu imaginar Cecil usando o boné de um companheiro.

A senhora Honeychurch largou a carta na escrivaninha e se aproximou de seu jovem conhecido.

“Oh, Cecil!”, exclamou. “Oh, Cecil, conte-me!”

“I promessi sposi”, declarou ele.

Eles o fixaram ansiosos.

“Fui aceito”, disse, e o som daquilo em inglês o fez corar e sorrir com deleite, aparentando maior humanidade.

“Fico muito feliz”, declarou a senhora Honeychurch, enquanto Freddy ofereceu uma mão que estava amarelada por causa dos produtos químicos. Bem que gostariam de saber italiano também, pois nossas expressões de aprovação e de alegria são de tal modo conectadas a ocasiões comezinhas que tememos utilizá-las nos grandes eventos. Somos obrigados a nos tornarmos vagamente poéticos ou a procurar esteio na herança bíblica.

“Bem-vindo à família!”, disse a senhora Honeychurch, acenando para a mobília. “Este é realmente um dia jubiloso! Tenho certeza de que poderá fazer Lucy feliz.”

“Espero que sim”, respondeu o rapaz, desviando os olhos para o teto.

“Nós, mães...”, começou a senhora Honeychurch com um sorriso tímido, mas então percebeu que demonstrava afetação, sentimentalismo e exagero: as três coisas que mais detestava. Por que não podia ser como Freddy, rígido no meio do aposento, com semblante cerrado e quase belo?

“Ora, Lucy!”, chamou Cecil, pois a conversa pareceu esmorecer.

Lucy levantou-se do banco. Ela atravessou o jardim e sorriu para eles, como se lhes fosse pedir para jogar tênis. Então viu o rosto do irmão. Entreabriu os lábios e tomou-o nos braços. Ele disse: “Vá com calma!”.

“Nenhum beijo para mim?”, perguntou a mãe.

Lucy também a beijou.

“Por que não os leva ao jardim e conta tudo à senhora Honeychurch?”, Cecil sugeriu. “E eu fico aqui para contar à minha mãe?”

“Devemos ir com Lucy?”, perguntou Freddy, como se estivesse recebendo ordens.

“Sim, acompanhe-a.”

Eles saíram para o sol. Cecil observou-os atravessar o terraço e descer os degraus, sumindo de vista. Eles seguiriam — o rapaz os conhecia bem — pela sebe, pela quadra de tênis e pelo canteiro de dálias, até chegarem à horta, onde, diante das batatas e das ervilhas, o grande evento seria discutido.

Sorrindo indulgentemente, acendeu um cigarro e relembrou os eventos que levaram a uma conclusão tão venturosa.

Ele conhecia Lucy fazia vários anos, mas apenas como uma moça comum que tinha inclinação musical. Ainda se recordava da depressão que o acometera quando ela e a terrível prima de chofre desabaram sobre ele numa tarde em Roma, e exigiram ser conduzidas à basílica de São Pedro. Naquele dia ela lhe pareceu uma turista típica — estridente, bárbara e exaurida da viagem. Mas a Itália surtiu nela um efeito maravilhoso. Deu-lhe luz e — o que lhe pareceu ainda mais precioso — deu-lhe sombras. Logo o rapaz detectou em Lucy uma magnífica reserva. Era como uma mulher tirada a Leonardo da Vinci, mulher a quem tanto amamos não por ela mesma, mas principalmente pelas coisas que ela não nos conta. Decerto são coisas que não pertencem a esta vida; nenhuma mulher de Leonardo teria algo tão vulgar a oferecer quanto uma “história”. E ela tornava-se dia a dia mais encantadora.

De vez que, de uma polidez condescendente, ele lentamente passara, se não a uma paixão, no mínimo a um profundo desconforto. Já em Roma ele lhe sugerira que seriam perfeitos um para o outro. Cecil ficara bastante tocado pelo fato de ela não ter se espantado com a sugestão. Sua recusa fora clara e gentil; após o quê — conforme segue a expressão medonha — ela continuara tratando-o exatamente como dantes. Três meses depois, na fronteira com a Itália, em meio aos Alpes floridos, ele se declarara outra vez, numa linguagem mais ousada e tradicional. Mais do que nunca ela o fez lembrar de Leonardo; rochas fantásticas obscureciam seu semblante bronzeado; ao ouvir suas palavras, ela se virara e ficara entre ele e a luz, diante dos planaltos incomensuráveis. Ele a levara para casa sem um pingo de vergonha; não se sentia de jeito nenhum como um pretendente rejeitado. O que realmente importava permanecera imperturbado.

Ele agora lhe pedira a mão mais uma vez e, tão clara e gentilmente quanto antes, ela o aceitara, sem dar-lhe nenhuma razão esquiva para a demora, mas apenas dizendo que o amava e que faria o possível para fazê-lo feliz. A mãe de Cecil também ficaria satisfeita. Fora ela quem o aconselhara a dar o passo; ele deveria escrever-lhe copiosamente.

Lançando um olhar para a mão, para o caso de algum dos produtos químicos de Freddy ter ficado nela, ele moveu-se para a escrivaninha. Ali ele viu o “Querida senhora Vyse”, seguido por inúmeras rasuras. Afastou-se sem ler nenhuma outra linha sequer e, após alguma hesitação, sentou-se em outro local e rascunhou uma carta no joelho.

Acendeu outro cigarro, que não lhe pareceu tão divino quanto o primeiro, e considerou o que precisava ser feito para tornar a sala de estar de Windy Corner mais distinta. Com o panorama que se avistava dali, poderia ser um aposento bem-sucedido, não fossem os laivos de Tottenham Court Road; podia quase visualizar o caminhão dos senhores Shoolbred e dos senhores Maple chegando à porta e depositando esta cadeira, aquelas estantes envernizadas, aquela escrivaninha. A escrivaninha lembrou-lhe a carta da senhora Honeychurch. Ele não queria ler a carta — suas tentações nunca se inclinavam para essa direção; mas a missiva o preocupava, mesmo assim. Cecil era responsável por ela estar discutindo a situação com sua mãe; foi ele quem pediu seu apoio em sua terceira tentativa de conquistar Lucy; quis sentir que outros, independentemente de quem fossem, concordavam com ele, e assim requisitou-lhe a permissão. A senhora Honeychurch fora cordata, mas obtusa nos fundamentos, ao passo que Freddy...

“É apenas um garoto”, refletiu. “Eu represento tudo o que ele despreza. Por que ele deveria me querer como cunhado?”

Os Honeychurches eram uma família digna, mas ele começava a desconfiar que Lucy era feita de outro barro; e talvez — não elaborou o pensamento de forma tão definitiva — devesse apresentá-la a círculos mais compatíveis tão logo fosse possível.

“Senhor Beebe!”, disse a criada, e o novo pároco da rua Summer foi convidado a entrar; ele de imediato conquistara a amizade da família, graças aos encômios que Lucy deitou em suas cartas de Florença.

Cecil o saudou de modo um tanto ríspido.

“Vim para o chá, senhor Vyse. Acha que serei bem-sucedido em meu intento?”

“Creio que sim. Comida é o que não falta aqui... Não sente nessa cadeira; o jovem Honeychurch deixou um osso nela.”

“Puf!”

“Eu sei”, disse Cecil, “eu sei. Não sei como a senhora Honeychurch permite.”

Pois Cecil considerava o osso e a mobília de Maple em termos separados; não percebia que, tomados em conjunto, forneciam ao aposento a vida que ele tanto desejava.

“Vim para o chá e para as fofocas. Já sei da última.”

“Última? Não o entendo”, disse Cecil. “Última?”

O senhor Beebe, para quem a última era de natureza bem diferente, seguiu tagarelando:

“Topei com sir Harry Otway ao vir para cá; tenho razões para acreditar que sou o primeiro a saber. Ele comprou Cissie e Albert do senhor Flack!”

“De fato?”, disse Cecil, recobrando-se do susto. Em que equívoco grotesco ele fora cair! Seria provável que um clérigo e um cavalheiro se refeririam a seu noivado de modo tão leviano? Mas a rigidez permaneceu e, embora indagasse quem poderiam ser Cissie e Albert, ainda considerava o senhor Beebe um tanto vulgar.

“Pergunta imperdoável! Ter ficado uma semana em Windy Corner e não conhecer Cissie e Albert, as villas geminadas que se localizam em frente à igreja! Vou pôr a senhora Honeychurch na sua cola.”

“Sou terrivelmente estúpido em relação aos assuntos locais”, afirmou o jovem languidamente. “Não consigo nem lembrar a diferença entre um Conselho Paroquial e uma Junta de Governo Local. Talvez nem haja diferença ou talvez estes não sejam os nomes corretos. Só vou ao interior para ver os amigos e desfrutar da paisagem. Sou irresponsável. A Itália e Londres são os únicos locais onde não sinto que sou apenas tolerado.”

O senhor Beebe, incomodado com a recepção difícil enfrentada por Cissie e Albert, resolveu mudar de assunto.

“Deixe-me ver, senhor Vyse, pois me esqueci, qual é sua profissão?”

“Não tenho profissão”, respondeu Cecil. “Este é outro exemplo de minha decadência. Minha atitude, nada defensável, é que, desde que não incomode ninguém, tenho direito de fazer o que me aprouver. Sei que deveria estar tirando o dinheiro dos outros ou devotando-me a coisas pelas quais não dou importância, mas, de algum modo, não fui capaz de começar.”

“O senhor é bastante afortunado”, declarou o senhor Beebe. “É uma oportunidade extraordinária, ter domínio sobre o ócio.”

O tom saiu um tanto provinciano, pois não sabia bem como responder de maneira natural. Ele sentia, como todos os que dispõem de uma ocupação regular sentem, que os outros também deveriam dispor de uma.

“Fico feliz que aprove. Não ousaria encarar um camarada saudável... digamos, como Freddy Honeychurch.”

“Ah, Freddy é um bom rapaz, não é?”

“Admirável. Do tipo que faz da Inglaterra o que ela é.”

Cecil estava intrigado. Por que, justamente naquele dia, agia de modo tão desesperadamente negativo? Tentou emendar-se inquirindo com alarde acerca da mãe do senhor Beebe, uma velha senhora por quem não tinha nenhum interesse particular. Então adulou o clérigo, elogiou seu espírito liberal, sua posição esclarecida com respeito à filosofia e à ciência.

“Onde estão os outros?”, indagou o senhor Beebe, por fim. “Insisto em obter o chá antes da missa vespertina.”

“Suponho que Anne não lhes tenha informado que o senhor chegou. Nesta casa nos instruem sobre os criados assim que chegamos. A falha de Anne é que ela finge que não o escuta quando pode ouvir perfeitamente, e também chuta as pernas das cadeiras. A falha de Mary, oh, não me recordo das falhas de Mary, mas são muito graves. Vamos dar uma olhada no jardim?”

“Eu sei qual é a falha de Mary. Ela larga as pás de lixo na escada.”

“A falha de Euphemia é que ela não pica, simplesmente não pica, o sebo em pedaços suficientemente pequenos.”

Ambos riram, e as coisas começaram a melhorar.

“As falhas de Freddy...”, Cecil continuou.

“Ah, ele as tem em demasia. Apenas a mãe dele consegue enumerar as falhas de Freddy. Tente as falhas da senhorita Honeychurch; elas não são incontáveis.”

“Ela não tem nenhuma”, disse o jovem, com seriedade sincera.

“Concordo plenamente. No momento, não tem nenhuma.”

“No momento?”

“Não sou cínico. Apenas me refiro à minha teoria predileta acerca da senhorita Honeychurch. Parece-lhe razoável que ela seja uma intérprete tão admirável, mas tenha uma vida tão serena? Suspeito que um dia será admirável nos dois aspectos. Os compartimentos inequívocos se romperão e a música e a vida se combinarão. Daí disporemos dela heroicamente boa e heroicamente má... heróica demais, talvez, para ser boa ou má.”

Cecil começou a interessar-se por seu interlocutor.

“E, no momento, o senhor acha que ela não é admirável, no que tange à vida?”

“Bem, devo dizer que só a vi em Tunbridge Wells, onde ela não foi admirável, e em Florença. Não tive oportunidade de encontrá-la desde que cheguei à rua Summer. O senhor a viu, não viu, em Roma e nos Alpes? Ah, esqueci-me; é claro, o senhor a conhecia. Não, ela não foi admirável em Florença também, mas acreditei que poderia ter sido.

“De que maneira?”

A conversa tornou-se agradável, e agora os dois andavam pelo terraço.

“Eu poderia com a mesma facilidade dizer-lhe que música ela tocaria em seguida. Havia simplesmente a sensação de que ela havia encontrado asas, e de que fazia questão de usá-las. Posso lhe mostrar um belo desenho em meu diário de Florença: a senhorita Honeychurch como uma pipa e a senhorita Bartlett segurando-lhe a linha. Desenho número dois: a linha se rompe.”

O esboço estava em seu diário, mas fora traçado depois, quando ele viu a situação em termos artísticos. Em Florença, ele mesmo dera seus puxões sub-reptícios à linha.

“Mas a linha nunca se rompeu.”

“Não. Eu não teria visto a senhorita Honeychurch ascender, mas decerto teria ouvido a queda da senhorita Bartlett.”

“Ela se rompeu agora”, disse o jovem em tons profundos e vibrantes.

Ele de imediato percebeu que, de todos os meios presunçosos, ridículos e desprezíveis de anunciar um noivado, aquele era o pior. Amaldiçoou sua predileção por metáforas; estaria sugerindo que ele era um astro e que Lucy teria ascendido aos céus para alcançá-lo?

“Rompeu-se? Que quer dizer?”

“Quis dizer”, afirmou Cecil, rigidamente, “que ela vai se casar comigo.”

O clérigo percebeu o amargo desapontamento que não conseguiu afastar da voz.

“Sinto muito; preciso desculpar-me. Não tinha idéia de que eram íntimos, ou nunca teria falado desse modo tão leviano e superficial. Senhor Vyse, o senhor deveria ter me interrompido”, e, no fundo do jardim, ele viu a própria Lucy; sim, estava desapontado.

Cecil, que naturalmente preferia cumprimentos a pedidos de desculpas, fez cara de amuado. Era essa a recepção com que o mundo receberia sua atitude? Sim, ele desprezava o mundo em geral; todo homem refletido deveria fazê-lo; tratava-se quase de um teste de refinamento. Mas era sensível às sucessivas partículas desse mundo, as quais ia encontrando pelo caminho.

De quando em vez podia tornar-se bastante cruel.

“Sinto muito ter lhe dado tamanho choque”, elaborou, seco. “Receio que não aprove a escolha de Lucy.”

“Não é isso. Mas o senhor deveria ter me interrompido. Conheço a senhorita Honeychurch há muito pouco tempo. Talvez não devesse tê-la discutido com tanta liberalidade com ninguém; certamente não com o senhor.”

“O senhor teme ter dito algo indiscreto?”

O senhor Beebe recompôs-se. De fato, o senhor Vyse tinha talento para colocar as pessoas nas posições mais cansativas. Foi obrigado a fazer uso das prerrogativas de sua profissão.

“Não, não disse nada de indiscreto. Previ em Florença que a infância tranqüila e monótona estava para terminar, e de fato terminou. De modo um tanto vago percebi que ela tomaria um passo momentoso. Ela tomou. Lucy aprendeu (permita-me falar livremente, já que comecei nesse tom) o que é amar: a maior lição, segundo atestam algumas pessoas, que nossa vida terrena pode fornecer”, era hora de ele acenar o chapéu para o trio que se aproximava. E não deixou de fazê-lo. “Ela aprendeu por seu intermédio”, e se a voz do pároco ainda soava clerical, agora também se fazia sincera; “é preciso que o senhor cuide para que esse conhecimento traga vantagens para ela.”

“Grazie tante!”, agradeceu Cecil, que não gostava de párocos.

“Já ouviu?”, gritou a senhora Honeychurch ao subir pelo jardim íngreme. “Oh, senhor Beebe, já ouviu a notícia?”

Freddy, agora todo afável, assobiou a marcha nupcial. A juventude raramente critica o fato consumado.

“Se não ouvi!”, ele exclamou. Observou Lucy. Em sua presença, não podia mais bancar o pároco; de todo modo, não sem um preâmbulo. “Senhora Honeychurch, vou fazer o que sempre teria de fazer, se a timidez não me impedisse. Quero invocar todo tipo de bênçãos sobre eles, sérias e alegres, grandes e pequenas. Quero que a vida de ambos seja soberbamente boa e soberbamente feliz como marido e mulher, como pai e mãe. E, agora, exijo meu chá.”

“O senhor fez o pedido na hora certa”, a dama retorquiu. “Como ousa bancar o sério em Windy Corner?”

Ele seguiu o tom da dona da casa. Acabou-se a benevolência vetusta, findaram as tentativas de dignificar a situação com poesia ou com as Escrituras. Nenhum deles ousou ou foi capaz de continuar sério.

Um noivado é algo tão poderoso que cedo ou tarde reduz todos os que sobre ele discorrem a tal estado de respeito jubiloso. Longe dele, na solidão de seus aposentos, o senhor Beebe, e mesmo Freddy, poderiam mais uma vez ser cínicos. Mas, diante do fato e na presença um do outro, agiam com sincera hilaridade. Os esponsais têm um estranho poder, pois impulsionam não apenas os lábios, mas o próprio coração. O maior paralelo — para comparar uma coisa grandiosa com outra — é o domínio que exerce sobre nós um templo de um credo estrangeiro. Do lado de fora, podemos escarnecer dele, opormo-nos a ele, ou, no máximo, sentirmo-nos sentimentais. Dentro, conquanto os santos e deuses não sejam os nossos, convertemo-nos em verdadeiros devotos, no caso de algum verdadeiro devoto estar presente.

Assim foi que, após as atrapalhações e equívocos daquela tarde, eles recobraram a compostura e se acomodaram para um chá bastante agradável. Se eram hipócritas, desconheciam esse fato, e sua hipocrisia tinha toda probabilidade de consolidar-se e de tornar-se sincera. Anne, botando na mesa cada prato como se fosse uma oferenda matrimonial, estimulou-os imensamente. Não podiam ficar para trás, diante do sorriso que ela lhes concedera antes de chutar a porta da sala de estar. O senhor Beebe estalou a língua. Freddy exibia seu comportamento mais galhofeiro, referindo-se a Cecil como “preterido” — honrado trocadilho da família para “prometido”. A senhora Honeychurch, hilária e corpulenta, dava sinais de que seria uma excelente sogra. Quanto a Lucy e Cecil, para quem o templo fora erigido, também se juntaram ao alegre ritual, mas esperavam, como devem os devotos prudentes, pela revelação de um santuário mais puro do júbilo.