Um Quarto com Vista
Capítulo 9
Lucy como obra de arte
Poucos dias após o noivado ter sido anunciado a senhora Honeychurch obrigou Lucy e seu Preterido a irem a uma pequena recepção ao ar livre na vizinhança, pois naturalmente queria mostrar que a filha se casaria com um homem apresentável.
Cecil era mais do que apresentável; inspirava distinção, e era muito agradável ver sua figura esbelta acertar o passo com o de Lucy, e observar como seu rosto comprido e claro reagia quando Lucy falava com ele. As pessoas congratulavam a senhora Honeychurch, o que, em minha opinião, é uma gafe social, mas a satisfazia, e ela apresentava Cecil de modo um tanto indiscriminado a umas senhoras corpulentas da aristocracia rural.
Durante o chá, uma infelicidade ocorreu: uma xícara de café caiu sobre o vestido de seda estampada de Lucy e, embora a moça fingisse indiferença, sua mãe não só não fingiu nada do tipo, como a arrastou para dentro, para que sua vestimenta pudesse receber os cuidados de uma criada bondosa. Elas ausentaram-se por algum tempo e Cecil ficou sozinho com as damas. Quando as duas voltaram, ele já não se mostrava tão simpático quanto antes.
“Você vai muito a esse tipo de evento?”, ele perguntou quando voltavam para casa.
“Ah, de vez em quando”, respondeu Lucy, que de certo modo se divertira.
“Trata-se de uma sociedade rural típica?”
“Suponho que sim. Mamãe, o que acha?”
“Uma sociedade e tanto”, disse a senhora Honeychurch, que procurava lembrar-se do caimento de um dos vestidos.
Vendo que ela estava com o pensamento em outro lugar, Cecil inclinou-se na direção de Lucy e declarou:
“Para mim, pareceu perfeitamente consternador, desastroso, insólito.”
“Sinto muito que tenhamos deixado-o a sós com elas.”
“Não foi isso, mas as congratulações. É tão repulsivo o noivado ser visto como uma propriedade pública... uma espécie de lixeira aonde todos os circunstantes podem atirar seu sentimento vulgar. Todas aquelas velhas e seus sorrisinhos fátuos!”
“Não podemos fugir disso, suponho. Nem prestarão atenção em nós da próxima vez.”
“Mas meu ponto é que a atitude como um todo é equivocada. Um compromisso matrimonial (termo pavoroso, para começo de conversa) é um assunto particular, e deveria ser tratado conforme.”
Entretanto, as velhotas com seus sorrisinhos afetados, por mais que estivessem erradas da perspectiva individual, racialmente estavam corretas. O espírito das gerações sorrira através delas, rejubilando-se com o noivado de Cecil e Lucy, porque este lhes prometia a continuidade da vida sobre a terra. Para Cecil e para Lucy, a promessa era outra — era de amor pessoal. Daí, a zanga de Cecil e a crença de Lucy de que a irritação do noivo era justa.
“Que cansativo!”, exclamou ela. “Não poderia ter escapulido, para jogar uma partida de tênis?”
“Não jogo tênis... Pelo menos, não em público. A vizinhança ficou alijada da idéia romântica de um noivo atlético. Sou muito mais afeito ao Inglese Italianato.”
“Inglese Italianato?”
“È un diavolo incarnato! Não conhece o provérbio?”
Ela não conhecia. Nem lhe pareceu aplicável a um jovem que passara um inverno tranqüilo em Roma com a mãe. Mas Cecil, desde o anúncio do noivado, começara a afetar uma malícia cosmopolita, que estava a léguas de dominar.
“Bem”, disse ele, “não posso fazer nada se elas não me aprovam. Há certas barreiras irremovíveis entre mim e elas, que preciso aceitar.”
“Creio que todos nós temos nossas limitações”, disse a prudente Lucy.
“Às vezes, porém, elas nos são impostas”, retrucou Cecil, que viu, pela observação da noiva, que ela não entendeu muito bem seu ponto de vista.
“Como?”
“Faz diferença, não faz, se nós nos cercamos, ou se nos cercam as barreiras impostas pelos outros.”
Ela refletiu um momento, e concordou que fazia sim uma diferença.
“Diferença?”, gritou a senhora Honeychurch, subitamente alerta. “Não vejo nenhuma diferença. Cercas são cercas, especialmente quando se encontram no mesmo lugar.”
“Estávamos falando dos motivos”, observou Cecil, a quem a interrupção agastou.
“Meu caro Cecil, olhe aqui”, ela separou os joelhos e encarapitou a carteira de cartões de visitas sobre o colo. “Esta sou eu. Aqui está Windy Corner. O restante dos padrões ornamentais são as outras pessoas. Independentemente dos motivos, as cercas ficam aqui.”
“Não estávamos falando de cercas reais”, disse Lucy, gargalhando.
“Ah, entendo, querida... Poesia.”
Ela recostou-se placidamente. Cecil se perguntou por que Lucy teria achado graça.
“Vou lhe dizer quem não tem nenhuma ‘cerca’, como está chamando”, Lucy acrescentou: “o senhor Beebe”.
“Um pároco sem cercas significa um pároco desprotegido.”[13]
Lucy não acompanhava bem o que as pessoas diziam, mas detectava rapidamente o que queriam dizer. O epigrama de Cecil passou-lhe despercebido, mas apreendeu o sentimento que o promovera.
“Não gosta do senhor Beebe?”, indagou pensativa.
“Nunca disse isso!”, o jovem protestou. “Considero-o muito acima da média. Apenas neguei que...”, e retomou o assunto das cercas, de modo brilhante.
“Agora um clérigo que detesto”, ela afirmou, querendo solidarizar-se com ele, “um clérigo cheio de cercas, e das mais terríveis, é o senhor Eager, um capelão inglês que conheci em Florença. Ele é realmente insincero, não apenas nos modos, que são infelizes.
É esnobe, muito cheio de si e também diz as coisas mais cruéis.”
“Que espécie de coisas?”
“Havia um senhor na pensão Bertolini a quem acusou de ter assassinado a mulher.”
“Talvez o tivesse.”
“Claro que não.”
“Por que ‘não’?”
“Ele era um velhinho tão bondoso, com toda a certeza.”
Cecil riu de sua irreflexão feminina.
“Bem, tentei averiguar. O senhor Eager nunca esclareceu o assunto. Preferiu mantê-lo em termos vagos... Disse que o velho tinha ‘praticamente’ assassinado a mulher... Tinha-a matado aos olhos de Deus.”
“Psiu, querida!”, disse a senhora Honeychurch, distraída.
“Mas não é intolerável que uma pessoa a quem dizem que devemos imitar saia por aí espalhando calúnias? Foi principalmente por causa dele, acredito, que aquele senhor foi apartado do grupo. Diziam que ele era vulgar, mas certamente não era.”
“Pobre senhor! Qual era o nome dele?”
“Harris”, disse Lucy, prontamente.
“Esperemos que, para a senhora Harris, não tenha havido uma pessoa assim”, observou a mãe.
Cecil fez um aceno sensato com a cabeça.
“O senhor Eager não é um pároco erudito?”, perguntou.
“Não sei. Eu o odeio. Ouvi-o dar uma explicação sobre Giotto. Eu o odeio. Nada pode ocultar uma natureza ruim. Eu o odeio!”
“Meu Deus do céu, minha criança!”, exclamou a senhora Honeychurch. “Irá romper meus tímpanos. O que há no caso para gritar tanto? Proíbo que você e Cecil odeiem qualquer outro membro do clero.”
Ele sorriu. Havia de fato algo um tanto incongruente no desabafo moral de Lucy acerca do senhor Eager. Era como se pudéssemos ver Leonardo no teto da capela Sistina. Cecil queria sugerir que não era ali que residia a vocação dela; que o poder e encanto de uma mulher estavam no mistério, não na arenga vigorosa. Mas a arenga era porventura um sinal de vitalidade: torva a bela criatura, mas demonstra que ela está viva. Após um momento, ele contemplou seu rosto ruborizado e os gestos estorvados com alguma aprovação. Desagradava-lhe reprimir as fontes da juventude.
A natureza — o mais simples dos tópicos, ele pensou — estava em torno deles. Louvou os pinheiros, os fundos lagos de samambaias, as folhas carmim que pontilhavam os arbustos, a beleza serviçal da auto-estrada com seus postos de pedágio. O mundo exterior não lhe era muito familiar e, de vez em quando, equivocava-se diante de uma questão factual. A boca da senhora Honeychurch contorceu-se quando ele mencionou o verdor perene dos lariços.
“Considero-me um homem afortunado”, ele concluiu. “Quando estou em Londres, sinto que nunca poderei viver longe dali. Quando estou no interior, sinto o mesmo em relação ao interior. Afinal, realmente creio que os pássaros, as árvores e o céu são as coisas mais maravilhosas da vida, e que as pessoas que vivem no meio deles deveriam ser as melhores de todas. É verdade que, em nove entre dez casos, elas não se dão conta de nada. Tanto o cavalheiro rural quanto o trabalhador rural são, cada um a seu modo, os sujeitos mais deprimentes. Contudo, têm um vínculo tácito com as operações da natureza, o qual é negado a nós, da cidade. Concorda comigo, senhora Honeychurch?”
A senhora Honeychurch sobressaltou-se e sorriu. Não estava prestando atenção. Cecil, que estava um tanto apertado no assento da frente da vitória, irritou-se e ficou decidido a não dizer mais nada de interessante.
Lucy também não prestara atenção. Seu sobrolho estava franzido e ela ainda parecia terrivelmente zangada — resultado, ele concluiu, de um excesso de ginástica mental. Era triste vê-la assim tão cega às belezas do bosque augusto.
“‘Desça, ó donzela, das alturas montesinas’”, ele declamou, e tocou-lhe de leve o joelho com o seu.
Ela tornou a corar e perguntou: “Que alturas?”.
“‘Desça, ó donzela, das alturas montesinas:/ Que deleite habita a altura (o
pastor cantou),/ Na altura e no esplendor que encantam as colinas?’.[14] Vamos seguir o conselho da senhora Honeychurch e parar de odiar os clérigos. Onde estamos?”
“Na rua Summer, é claro”, disse Lucy, e levantou-se.
O bosque se abrira para dar espaço a uma encosta nua e triangular. Belas casas de campo se alinhavam dos dois lados e, no alto à frente, havia uma nova igreja de pedra, sofisticadamente simples, com uma torre de seixos. A residência do senhor Beebe ficava perto do templo. Nos arredores havia algumas mansões grandiosas, mas estavam ocultas pelas árvores. A cena sugeria mais um alpe suíço do que um templo e centro de um mundo ocioso, e só estragavam-lhe duas pequenas e feias villas — as villas que rivalizaram com o noivado de Cecil, pois sua compra fora contraída por sir Harry Otway na mesma tarde em que ele contraiu o noivado de Lucy.
“Cissie” era o nome de uma das villas; “Albert”, a da outra. Os títulos não se expunham em gótico sombreado nos portões dos jardins, mas acompanhavam a curvatura do arco semicircular em maiúsculas quadradas. Albert estava habitada. O jardim tortuoso resplendia de gerânios, lobélias e lajotas polidas. As janelinhas vinham envoltas em casta renda de Nottingham. Cissie estava para alugar. Três placas pertencentes a imobiliárias de Dorking pendiam de sua cerca, anunciando o fato não surpreendente. Ervas daninhas já tomavam conta da entrada; o minúsculo jardim amarelara com os dentes-de-leão.
“O local está arruinado!”, disseram mecanicamente as duas mulheres. “A rua Summer nunca mais será a mesma.”
A carruagem passou, a porta de Cissie se abriu, e um cavalheiro ganhou a rua.
“Pare!”, gritou a senhora Honeychurch, tocando o cocheiro com a sombrinha. “Lá está sir Harry. Agora saberemos. Sir Harry, derrube essas coisas de uma vez.”
Sir Harry Otway — que dispensa descrições — aproximou-se da carruagem e declarou:
“Senhora Honeychurch, foi o que quis fazer. Mas não posso, simplesmente não posso expulsar a senhorita Flack.”
“Não estou sempre certa? Ela deveria ter ido antes de o contrato ser assinado. Ainda vive sem pagar aluguel, como na época do sobrinho?”
“Mas que posso fazer?”, ele abaixou a voz. “Uma velha senhora, tão vulgar e quase inválida.”
“Expulse-a”, disse Cecil, com entusiasmo.
Sir Harry suspirou e lançou um olhar triste para as villas. Ele fora advertido das intenções do senhor Flack e poderia ter comprado o terreno antes de a construção ter começado; mas agiu com desinteresse e morosidade. Havia tantos anos que conhecia a rua Summer que não lhe passou pela cabeça que poderia ser descaracterizada. Foi apenas quando a senhora Flack assentou a pedra fundamental e os tijolos vermelhos e cor de creme começaram a surgir que ele ficou alarmado. Chamou o senhor Flack, o empreiteiro local — um homem muito prudente e respeitável —, que concordou que telhas de cerâmica tornam o telhado muito mais artístico, mas observou que a ardósia era mais barata. Ele aventurou-se a discordar, porém, acerca das colunas coríntias que ficariam grudadas feito sanguessugas às molduras das janelas salientes, dizendo que, de sua parte, gostava de atenuar a fachada com um pouquinho de ornamentação. Sir Harry sugeriu que uma coluna, se possível, deveria servir tanto ao propósito estrutural quanto ornamental. O senhor Flack alegou que as colunas já tinham sido encomendadas, acrescentando que “todos os capitéis eram diferentes — um com dragões na folhagem, um com inspiração jônica e outro exibindo as iniciais da senhora Flack —, todos diferentes”. Pois o senhor Flack havia estudado o seu Ruskin. Construía suas villas de acordo com o seu desejo; e só foi quando inseriu uma tia imóvel numa delas que sir Harry as comprou.
Essa transação fútil e sem lucro enchia o nobre cavaleiro de tristeza, dizia ele, debruçado sobre a carruagem da senhora Honeychurch. Ele falhara em seus deveres com o condado e o condado agora ria dele. Embora tivesse gasto dinheiro, a rua Summer estaria para sempre arruinada. Tudo o que podia fazer agora era encontrar um locatário adequado para Cissie — alguém verdadeiramente adequado.
“O aluguel está absurdamente baixo”, ele revelou, “e talvez eu seja um senhorio de trato fácil. Mas é de um tamanho tão infeliz! É grande demais para a classe campesina e pequena demais para qualquer pessoa minimamente parecida conosco.”
Cecil estivera hesitando entre desprezar as villas ou desprezar sir Harry por desprezá-las. O último impulso lhe pareceu mais profícuo.
“O senhor vai encontrar um locatário logo, logo”, ele disse, malicioso. “A casa representa o paraíso perfeito para um funcionário de banco.”
“Exatamente!”, exclamou sir Harry, excitado. “É exatamente isso o que temo, senhor Vyse. Ela atrairá o tipo errado de pessoa. O serviço ferroviário progrediu, um progresso fatal, a meu ver. E que são os sete quilômetros até a estação nesta era da bicicleta?”
“Precisará ser um funcionário bastante esforçado”, ponderou Lucy.
Cecil, que recebera o quinhão completo de maledicência medieval, respondeu que o físico das classes médias inferiores vinha evoluindo numa velocidade apavorante. Vendo que o noivo estava zombando de seu vizinho inofensivo, ela esforçou-se para cortá-lo.
“Sir Harry!”, bradou. “Tenho uma idéia. Que o senhor acha de solteironas?”
“Minha querida Lucy, seria esplêndido. Conhece alguma?”
“Sim, conheci duas, no exterior.”
“São damas respeitadas?”
“Sim, com certeza e, no momento, sem teto. Tive notícias delas na semana passada. Senhorita Teresa e senhorita Catharine Alan. Não estou brincando. São o tipo certo de pessoa. O senhor Beebe também as conhece. Posso pedir que lhe escrevam?”
“Sem dúvida que sim!”, ele gritou. “Cá estamos nós com a dificuldade já resolvida. Que maravilhoso! Facilidades adicionais, por favor diga a elas que terão facilidades adicionais, pois não lhes cobrarei a taxa da imobiliária. Ah, os agentes imobiliários! O tipo pavoroso de gente que nos mandam! Uma mulher, quando lhe escrevi (uma missiva muito diplomática, como sabe) pedindo-lhe que me explicasse sua posição social, respondeu que pagaria o aluguel adiantado. Como se alguém ligasse para isso! E várias das referências que levantei eram totalmente insatisfatórias... de trapaceiros ou de gente não respeitável. E, ah, a impostura! Vi um bocado do lado menos atraente da sociedade na semana passada. A impostura forjada pelas pessoas mais promissoras. Minha cara Lucy, a impostura!”
Ela fez que sim
“Meu conselho”, interveio a senhora Honeychurch, “é que fique o mais longe possível de Lucy e de suas damas decadentes. Conheço o tipo. Poupe-me de pessoas que já viram dias melhores. Elas trazem consigo bens de herança que fazem a casa cheirar a bolor. É triste, mas é melhor alugar a alguém que está subindo na vida do que a alguém que está indo ladeira abaixo.”
“Acho que a compreendo”, disse sir Harry; “mas é uma situação, como a senhora disse, muito triste.”
“As senhoritas Alans não são assim!”, protestou Lucy.
“São sim!”, retorquiu Cecil. “Não as conheço, mas devo dizer que são um acréscimo bastante inadequado à vizinhança.”
“Não dê ouvidos a ele, sir Harry... Ele é um chato.”
“Sou eu quem sou chato”, ele retrucou. “Não deveria importunar os jovens com meus problemas. Mas estou de fato tão preocupado, e lady Otway só dirá que não consigo ser suficientemente zeloso, o que é verdade, mas de nada ajuda.”
“Então posso escrever para as senhoritas Alans?”
“Por favor!”, ele exclamou.
Mas seus olhos oscilaram quando a senhora Honeychurch advertiu:
“Cuidado! Elas decerto têm canários. Sir Harry, cuidado com os canários: eles espalham as sementes pelas barras das gaiolas, atraindo os camundongos. Cuidado com as mulheres, de modo geral. Só alugue a casa para homens.”
“Ora, ora...”, ele murmurou, gentil, conquanto percebesse a sabedoria do comentário.
“Os homens não fofocam durante o chá. Se ficam bêbados, está acabado... Apenas se deitam e dormem até o dia seguinte. Se são vulgares, de algum modo sabem guardar segredos. Não os espalham. Sou muito mais um homem... Claro, desde que seja uma pessoa higiênica.”
O senhor Harry ficou ruborizado. Nem ele nem Cecil gostaram desses elogios rasgados ao seu sexo. Mesmo a exclusão da sujeira não lhes deixou em situação muito favorável. Ele sugeriu que a senhora Honeychurch, se tivesse tempo, quem sabe não gostaria de descer da carruagem e inspecionar Cissie com os próprios olhos. Ela ficou deleitada. A natureza lhe talhara para ser pobre e para viver numa casa como aquela. Arranjos domésticos sempre a atraíram, em especial quando eram de uma escala reduzida.
Cecil puxou Lucy de volta, quando ela estava pronta para seguir a mãe.
“Senhora Honeychurch”, ele disse, “e se nós dois fôssemos caminhando para casa e a deixássemos sozinha?”
“Decerto que sim!”, foi sua resposta cordial.
Sir Harry também pareceu igualmente satisfeito até demais por se livrar deles. Escancarou um sorriso de compreensão para o casal dizendo “Aha! Os jovens, os jovens, os jovens!”, e apressou-se para abrir a casa.
“Um grosseirão rematado!”, exclamou Cecil, quase antes de estarem fora do alcance do ouvido.
“Oh, Cecil.”
“Não posso fazer nada. Seria errado não abominar um homem como aquele.”
“Ele não é inteligente; mas é boa pessoa.”
“Não, Lucy; ele representa tudo o que há de ruim na vida campestre. Em Londres, teria ficado no seu lugar. Faria parte de um clube estúpido e sua mulher promoveria jantares estúpidos. Mas, aqui, ele se porta como o pequeno deus com sua fidalguia, seu eleitorado e sua estética falsificada, e todos, incluindo sua mãe, são ludibriados por ele.”
“Tudo o que disse é bem verdade”, afirmou Lucy, embora se sentisse um pouco desalentada. “Mas pergunto-me se... se isso importa tanto assim.”
“Importa muito. Sir Harry é a essência daquela recepção ao ar livre. Ah, Deus, como me sinto irado! Como gostaria que a villa fosse ocupada por um locatário bastante vulgar... Uma mulher tão vulgar que até ele notaria. A nobreza rural! Ugh! Com aquela careca e queixo micrógnato. Mas não vamos mais falar dele.”
Quanto a isso, Lucy concordou de imediato. Se sir Harry Otway e o senhor Beebe não lhe agradavam, que garantia havia de que as pessoas que realmente importavam para ela escapariam do julgamento do noivo? Freddy, por exemplo. Freddy nem era inteligente, nem cultivado nem bonito, e o que impedia Cecil de dizer, a qualquer minuto: “Seria errado não abominar Freedy?”. E o que ela responderia? Lucy não investigou mais do que Freddy, mas aquilo já lhe bastava para deixá-la ansiosa. Ela só podia ter certeza de que Cecil conhecia Freddy havia bastante tempo, e que eles se davam bem, exceto, talvez, nos últimos dias, o que talvez fosse um acidente.
“Que caminho devemos seguir?”, ela indagou.
A natureza — o mais simples dos tópicos, ela pensou — cercava-os. A rua Summer já fora obscurecida pelo bosque, e ela estancara onde uma trilha bifurcava da estrada principal.
“Há dois caminhos?”
“Talvez ir pela estrada seja mais sensato, pois estamos vestidos de modo tão elegante.”
“Prefiro ir pelo bosque”, asseverou Cecil, com um leve tom de irritação que ela detectara nele durante toda a tarde. “Por que, Lucy, você sempre escolhe a estrada? Sabe que nunca esteve comigo no campo ou no bosque desde que ficamos noivos?”
“Não estive? Ao bosque, então”, anunciou Lucy, surpresa com o estranho comportamento do noivo, mas ainda certa de que ele explicaria tudo depois; Cecil não tinha por hábito deixá-la em dúvida sobre o que queria dizer.
Ela o conduziu pelos pinheiros sussurrantes e, bem a propósito, ele de fato explicou-se antes que andassem doze metros.
“Tenho a impressão, devo dizer errada, que você se sente mais à vontade comigo num aposento.”
“Num aposento?”, ela repetiu, terrivelmente aturdida.
“Sim. Ou, no máximo, num jardim, ou estrada. Nunca no verdadeiro campo, como agora.”
“Ah, Cecil, que é que está dizendo? Nunca senti nada assim. Você fala como se eu fosse uma espécie de poetisa.”
“Não sei se não é. Associo-a a uma vista... Certo tipo de vista. Por que não deveria associar-me a um aposento?”
Ela refletiu um momento, e então disse, rindo:
“Sabe que está certo? Eu o associo. Devo ser uma poeta, afinal. Quando penso em você é sempre num aposento. Que engraçado!”
Para seu espanto, ele pareceu zangado.
“Uma sala de estar, talvez? Sem nenhuma vista?”
“Sim, sem nenhuma vista, é o que imagino. Por que não?”
“Eu preferiria”, ele disse, com ar de reprovação, “que me ligasse ao ar livre.”
Ela tornou a perguntar: “Ah, Cecil, que é que está dizendo?”.
Como não recebeu nenhuma outra explicação além da oferecida, ela abandonou o assunto como se este fosse muito complexo para uma moça, e conduziu-o para dentro do bosque, parando de vez em vez diante de algum belo ou familiar conjunto de árvores. Conhecia o bosque entre a rua Summer e Windy Corner desde quando aprendeu a andar sozinha; ela havia brincado de perder Freddy por ali, quando o irmão era um bebê de rosto rosado; e, embora tivesse viajado para a Itália, o local não perdera nem um pouco de seu encanto.
Logo chegaram a uma pequena clareira entre os pinheiros — outro pequenino alpe verdejante, solitário desta feita, exibindo um laguinho raso em seu regaço.
Ela exclamou: “O Lago Sagrado!”.
“Por que o chama desse jeito?”
“Não consigo atinar a razão. Suponho que seja por causa de um livro. É apenas um tanque agora, mas pode ver o regato que o atravessa? Bem, muita água chega com as chuvas torrenciais e, como não pode seguir adiante, toda de uma vez, o açude cresce e torna-se belo. Freddy costumava nadar aqui. Ele gosta muito do local.”
“E você?”
Ele quis dizer, “Também gosta daqui?”. Mas ela respondeu, sonhadoramente: “Também nadei no lago, até que me descobriram. Daí houve uma briga”.
Noutro momento, o moço teria se chocado, pois havia abismos de pudicícia dentro dele. Mas agora, naquele culto momentâneo ao ar fresco, encantou-se com sua admirável simplicidade. Contemplou-a parada à beira do lago. Ela se vestira com elegância, conforme dissera, e lembrou-lhe de alguma flor brilhante que, sem folhas próprias, brota abruptamente de um mundo verdejante.
“Quem a descobriu?”
“Charlotte”, ela murmurou. “Ela estava visitando-nos. Charlotte...
Charlotte...”
“Pobrezinha!”
Ela esboçou um sorriso sombrio. Uma espécie de plano, do qual ele
até então se esquivara, agora lhe parecia propício.
“Lucy!”
“Sim, suponho que devemos continuar.”
“Lucy, quero lhe perguntar uma coisa que nunca perguntei antes.” Diante da nota séria que havia em sua voz, ela aproximou-se franca e
candidamente do noivo.
“O quê, Cecil?”
“Até hoje nunca, nem naquele dia no gramado, quando concordou
em casar-se comigo...”
De súbito constrangido, ele ficou olhando ao redor para ver se
estavam sendo observados. A coragem havia desaparecido.
“Sim?”
“Até agora nunca a beijei.”
Ela ficou toda rubra, como se ele tivesse abordado o assunto do
modo mais indelicado.
“Não... nunca”, ela gaguejou.
“Então eu lhe pergunto... Posso agora?”
“Claro que pode, Cecil. Poderia ter me beijado antes. Não posso
tomar a iniciativa, como sabe.”
Naquele momento supremo nada mais lhe acudiu a não ser
disparates. A resposta dela fora inadequada. Ela levantara o véu de modo
tão protocolar. Ao aproximar-se dela, encontrou tempo para desejar que
pudesse voltar atrás. Ao tocá-la, seu pincenê de ouro deslocou-se e se
alojou entre eles.
Assim foi o enlace. Ele considerou-o, com razão, um desastre. A
paixão deve julgar a si mesma como algo irresistível. Deve esquecer a
civilidade, a consideração e todos os outros cursos de natureza refinada.
Acima de tudo, nunca deve pedir permissão pelo que é seu, de direito.
Por que ele não podia fazer como qualquer trabalhador ou marinheiro —
não, como qualquer homem atrás do balcão teria feito? Refez a cena.
Lucy estava de pé, como uma flor, à beira da água; ele correu e tomou-a
nos braços; ela o afastou, permitiu depois e adorou-o para todo o sempre
por causa de sua hombridade. Pois ele acreditava que as mulheres
veneravam os homens pelo caráter varonil.
Eles saíram do lago em silêncio, após esse único gesto. Ele esperou
que a moça fizesse algum comentário que lhe revelasse seus pensamentos
mais íntimos. Por fim ela falou, com gravidade apropriada.
“Emerson era o nome, não Harris.”
“Que nome?”
“O nome do velho.”
“Que velho?”
“O velho de quem falei. Aquele contra quem o senhor Eager
mostrou-se tão cruel.”
Ele não podia saber que aquela era a conversa mais íntima que eles
jamais tiveram.