Um Quarto com Vista
Capítulo 18
Mentindo para o senhor Beebe, para a senhora
Honeychurch, para Freddy e os criados
Windy Corner não estava encarapitada no alto de uma colina, mas uns trinta metros para baixo da encosta sul, na nascente de um dos imensos contrafortes que sustentam o morro. Ladeando-a por ambos os flancos há uma ravina rasa, repleta de samambaias e pinheiros, e, abaixo da ravina, à esquerda, despontava a estrada que conduzia ao Weald.
Sempre que cruzava a formação rochosa, vislumbrando essa nobre disposição geográfica, com Windy Corner plantada no meio, o senhor Beebe ria. A situação era tão gloriosa, a casa tão ordinária, para não dizer impertinente. O falecido senhor Honeychurch fizera uma construção em formato de cubo, pois esta lhe fora mais apropriada à burra, e o único acréscimo realizado pela viúva foi uma torrinha no formato de chifre de rinoceronte, onde ela podia acomodar-se nos dias chuvosos e observar as charretes passar de um lado para outro, na estrada. Tão impertinente — e, contudo, a casa “servia”, pois era lar de pessoas que amavam honestamente seus arredores. Algumas casas da vizinhança haviam sido construídas por arquitetos dispendiosos, em outras seus ocupantes empreenderam reformas diligentes; mesmo assim, todas sugeriam o acidental, o temporário; ao passo que Windy Corner parecia tão inevitável quanto uma feiúra perpetrada pela própria natureza. Podia-se rir da casa, mas ela não causava estremecimentos.
Portador de uma pequena fofoca, o senhor Beebe aproximava-se, de bicicleta, numa segunda-feira à tarde. Ele tivera notícias das senhoritas Alans. Como não conseguiram mudar-se para a villa Cissie, aquelas damas admiráveis fizeram outros planos. Iriam para a Grécia, em vez disso.
“Como Florença fez tanto bem à minha pobre irmã”, escreveu a senhorita Catharine, “não vemos por que não deveríamos tentar Atenas neste inverno. Claro que Atenas é uma tirada, e o médico receitou-lhe uma dieta de pão digestivo especial; mas, afinal, podemos levar um estoque conosco, e só se trata de embarcar primeiro num vapor e, em seguida, num trem. Mas há ali uma Igreja Anglicana?” E a carta foi até o ponto de dizer: “Não acho que chegaremos a nos afastar muito de Atenas, mas, se o senhor souber de uma pensão realmente confortável em Constantinopla, ficaríamos muito agradecidas”.
Lucy adoraria a carta, e o sorriso com o qual o senhor Beebe saudou Windy Corner em parte se devia à moça. Ela perceberia a graça que a missiva continha, e também sua beleza, pois havia de captar alguma beleza. Embora não servisse para apreciar pinturas e embora trajasse de modo tão irregular — ah, aquele vestido cor de cereja ontem, à missa! —, devia ver alguma beleza na vida, ou não tocaria piano como tocava. Ele tinha uma teoria de que os músicos são figuras extremamente complexas, que sabem muito menos que os outros artistas o que querem e o que são; de modo que acabam tornando-se um enigma para si próprios e para os amigos, sendo que sua psicologia é um desenvolvimento moderno, ainda não compreendido. Tal teoria, se o pároco soubesse, acabara de ser ilustrada por fatos. Ignorante dos eventos do dia anterior, ele apenas chegava para tomar um chá, para visitar a sobrinha e para ver se a senhorita Honeychurch percebia algo de belo no desejo das duas velhinhas de visitar Atenas.
A carruagem estava estacionada à entrada de Windy Corner e, assim que ele topou com a vista da casa, ela partiu, rodou pela entrada e estacou abruptamente quando deu com a estrada principal. De sorte que devia ser o cavalo da residência, pois sempre esperava que as pessoas fizessem a caminhada morro acima, para não fatigá-lo. A porta abriu diligentemente e dois homens assomaram. O senhor Beebe reconheceu tratar-se de Cecil e de Freddy. Era estranho que os dois andassem juntos; mas o pároco logo viu que havia uma mala do lado das pernas do cocheiro. Cecil, que portava um chapéu coco, devia estar indo embora, enquanto Freddy — de boné — levava-o para a estação. Caminhavam rapidamente, tomando os atalhos, e chegaram ao cimo do morro enquanto a carruagem ainda penava pelas curvas da estrada.
Apertaram a mão do pároco, mas nada disseram.
“Então, vai nos deixar por uns dias, senhor Vyse?”, ele perguntou.
Cecil disse que sim, enquanto Freddy se afastava.
“Vinha mostrar-lhes esta deliciosa carta daquelas amigas da senhorita Honeychurch”, ele citou trechos. “Não é maravilhoso? Não é como numa fantasia romântica? Com certeza irão a Constantinopla. Foram apanhadas numa armadilha infalível. Acabarão dando a volta ao mundo.”
Cecil ouviu tudo com educação e disse que estava certo de que Lucy ficaria encantada e se interessaria pela notícia.
“A fantasia não é caprichosa? Nunca a percebo nos jovens de hoje; não querem saber de nada exceto jogar tênis, e dizem que a fantasia está morta, enquanto as senhoritas Alans lutam com todas as armas do decoro contra a coisa terrível. ‘Uma pensão realmente confortável em Constantinopla!’ Assim elas a denominam em nome da decência, mas, no fundo, querem uma pensão com janelas mágicas que se abram para as escumas de mares perigosos em reinos encantados e esquecidos! Nenhuma vista ordinária há de contentar as senhoritas Alans. Elas querem a pensão de Keats!”
“Sinto muito interrompê-lo, senhor Beebe”, disse Freddy, “mas o senhor teria fósforos?”
“Eu tenho”, ofereceu Cecil, e não escapou ao senhor Beebe que tratou o rapaz com maior candura.
“O senhor não conheceu as senhoritas Alans, conheceu, senhor Vyse?”
“Não.”
“Então não compreende a maravilha dessa viagem à Grécia. Eu mesmo não conheço o país, nem pretendo, e não imagino nenhum dos meus amigos indo para lá. É no todo imenso demais para nosso pequenino quinhão. Não pensa assim? A Itália é o máximo que conseguimos suportar. A Itália é heróica, mas a Grécia é divina, ou diabólica... Não sei qual, mas, em ambos os casos, encontra-se absolutamente fora de nosso foco suburbano. Está bem, Freddy (não estou sendo inteligente, juro que não), emprestei a idéia a outro camarada; e passe-me os fósforos quando tiver terminado — ele acendeu um cigarro e prosseguiu tagarelando com os dois jovens. “Eu dizia, se nossas pobres vidas tacanhas precisam ter um cenário, que este seja o italiano. Em sã consciência, é grande o suficiente. Quero o teto da capela Sistina. Ali se dá o máximo de contraste que eu sou capaz de discernir. Mas não o Partenon e, sob hipótese nenhuma, o friso de Fídias; e aí vem a vitória.”
“O senhor está certíssimo”, anuiu Cecil. “A Grécia não é para o nosso pequeno quinhão”, e subiu. Freddy acompanhou-o, acenando com a cabeça para o clérigo, que, tinha certeza, não poderia estar zombando deles. E, antes de terem rodado doze metros, ele saltou e veio correndo pegar a caixa de fósforos do senhor Vyse, que não havia sido devolvida. E, ao apanhá-la, declarou:
“Que bom que o senhor só falou de livros. Cecil está arrasado. Lucy desistiu de casar-se com ele. Se o senhor falasse dela, como falou dos livros, com certeza ele não agüentaria.”
“Mas quando...”
“Ontem, tarde da noite. Preciso ir.”
“Talvez elas não me queiram lá.”
“Não... Siga em frente. Até logo.”
“Céus!”, exclamou o senhor Beebe para si mesmo, e bateu no selim de sua bicicleta, em aprovação. “Foi a única coisa tola que ela jamais fez. Ah, bons ventos o levem!”, e, após uma pequena elucubração, empreendeu a subida a Windy Corner de coração leve. A casa voltava à sua justa condição... Apartada para sempre do mundo pretensioso de Cecil.
Ele deveria encontrar Minnie no jardim.
Na sala de estar, Lucy dedilhava uma sonata de Mozart. Ele hesitou um pouco, mas seguiu pelo jardim conforme convinha. Lá, deparou-se com lutuosa companhia. Ventava forte, e as rajadas haviam arrancado e quebrado as dálias. A senhora Honeychurch, que parecia zangada, cuidava de amarrá-las, enquanto a senhorita Bartlett, que não se vestira adequadamente para a tarefa, obstruía seu progresso com oferecimentos de auxílio. A uma pequena distância estavam Minnie e a “criança do jardim”, uma minúscula importação, cada qual segurando uma das extremidades de uma longa casca fibrosa de tília.
“Oh, como vai, senhor Beebe? Deus, que bagunça que está tudo aqui! Veja meus crisântemos escarlates, e o vento levantando nossas saias e o chão tão duro que nem um espeque consegue perfurá-lo e a carruagem teve de partir quando eu contara com o auxílio do senhor Powell, que (vamos ser justos) sabe prender as dálias como se deve.”
Era evidente que a senhora Honeychurch estava perturbada.
“Como vai?”, disse a senhorita Bartlett, com um olhar significativo, como se sugerisse haver outras coisas, além das dálias, quebradas pelo vendaval de outono.
“Aqui, Lennie, a tília”, gritou a senhora Honeychurch. A criança, que não sabia o que era uma tília, permaneceu pregada ao chão, tomada pelo terror. Minnie aproximou-se do tio e sussurrou que todos estavam sendo bastante desagradáveis naquele dia, e não era sua culpa se as amarras das dálias se partiam no sentido do comprimento, e não de través.
“Venha dar um passeio comigo”, ele sugeriu. “Você já as aborreceu o máximo que elas conseguem agüentar. Senhora Honeychurch, vim fazer uma visita sem nenhum propósito definido. Eu a levarei para tomar chá na Beehive Tavern, se puder.”
“Ah, precisa ir? Sim, vá... As tesouras, não, Charlotte, obrigada, não vê que minhas mãos já estão ocupadas?... Estou perfeitamente certa de que a dália cor de laranja será arrancada pelo vento antes de eu conseguir chegar até ela.”
O senhor Beebe, que era partidário do alívio das tensões, convidou a senhorita Charlotte para acompanhá-los naquela amena distração.
“Sim, Charlotte, não quero que me... vá sim; não há nada para fazer aqui, quer seja na casa, quer seja fora dela.”
A senhorita Bartlett afirmou que sua obrigação estava junto do canteiro de dálias, mas, após ter exasperado a todos, com exceção de Minnie, com a recusa, ela virou-se e exasperou Minnie, aceitando o convite. Ao caminharem pelo jardim, a dália alaranjada caiu, e a última visão do senhor Beebe foi da criança do jardim segurando-a como um amante, os cabelos negros enterrados numa profusão florida.
“É terrível essa devastação com as flores”, ele observou.
“É sempre terrível quando uma promessa de meses é destruída num instante”, enunciou a senhorita Bartlett.
“Talvez devêssemos pedir à senhorita Honeychurch fazer companhia à mãe. Ou ela viria conosco?”
“Acho melhor deixarmos Lucy sozinha, com seus próprios afazeres.”
“Ficaram zangados com a senhorita Honeychurch porque ela se atrasou para o café-da-manhã”, sussurrou Minnie, “e o senhor Floyd foi embora e o senhor Vyse foi embora, e Freddy não quer jogar comigo. Na verdade, tio Arthur, esta casa não está mesmo o que era ontem.”
“Não seja pedante”, retrucou o tio Arthur. “Vá pôr suas botas.”
Ele entrou na sala, onde Lucy ainda devotava toda a atenção às sonatas de Mozart. Ela parou quando ouviu os passos do sacerdote.
“Como vai? A senhorita Bartlett e Minnie vão comigo tomar chá na Beehive. Não gostaria de acompanhar-nos?”
“Acho que não, obrigada.”
“Não, não achei que iria querer muito.”
Lucy virou-se para o piano e tocou alguns acordes.
“Como essas sonatas são delicadas!”, exclamou o senhor Beebe, embora, do fundo do coração, acreditasse que fossem coisinhas bem fúteis.
Lucy mudou para Schumann.
“Senhorita Honeychurch!”
“Sim.”
“Eu os encontrei na colina. Seu irmão me contou.”
“Ah, ele contou?”, pareceu irritada. O senhor Beebe ficou melindrado, pois achava que ela aprovaria ele ter sido posto ao corrente.
“Não preciso dizer que a notícia não seguirá adiante.”
“Mamãe, Charlotte, Cecil, Freddy, o senhor”, disse Lucy, martelando uma nota para cada pessoa que sabia, e então tocando uma sexta nota.
“Se me permite dizer, fico muito feliz, e estou certo de que fez a coisa certa.”
“Era assim que eu esperava que as outras pessoas pensassem, mas não foi o que ocorreu.”
“Pude ver que a senhorita Bartlett achou insensato.”
“Assim como mamãe. Ela sentiu muito.”
“Que pena”, disse o senhor Beebe, sendo sincero.
A senhora Honeychurch, que detestava todas as mudanças, realmente importou-se, mas não tanto quanto a filha pretendeu, e apenas por um minuto. Tratava-se apenas de um ardil armado por Lucy para justificar a própria melancolia — um ardil do qual ela mesma não estava consciente, pois marchava nos exércitos das trevas.
“Freddy também se ressente.”
“Mesmo assim, Freddy nunca foi muito amigo de Vyse, foi? Presumi que ele desaprovasse o noivado e senti que a aliança iria separá-lo da senhorita.”
“Garotos são tão estranhos.”
Minnie podia ser ouvida, pelo chão, discutindo com a senhorita Bartlett. Chá na Beehive aparentemente envolvia toda uma completa muda de vestuário. O senhor Beebe percebeu que Lucy — muito adequadamente — não queria discutir sua atitude, de modo que, após uma sincera expressão de solidariedade, anunciou:
“Recebi uma absurda carta das senhoritas Alan. Foi isso de fato que me trouxe aqui. Pensei que poderia alegrá-las.”
“Que maravilha!”, disse Lucy, numa voz apagada.
Apenas para ter algo a fazer, ele começou a ler a missiva. Após algumas palavras, os olhos de Lucy tornaram-se alertas e ela logo o interrompeu:
“Vão para o exterior? Quando partem?”
“Na próxima semana, creio.”
“Freddy disse se iria voltar imediatamente para casa?”
“Não, não disse.”
“Pois espero que ele não saia por aí fofocando.”
Então ela queria falar sobre o término do noivado! Sempre cortês, o pároco guardou a carta. Mas a moça de imediato alteou a voz e exclamou:
“Ah, por favor, me conte mais sobre as senhoritas Alans! Que esplêndida decisão a delas de ir ao exterior!”
“Quero que elas comecem de Veneza, e peguem um vapor até a costa da Ilíria.”
Ela riu com entusiasmo.
“Ah, maravilhoso! Gostaria que me levassem com elas.”
“A Itália lhe passou a febre das viagens? Talvez George Emerson esteja certo. Ele diz que a Itália é apenas um eufemismo para o Destino.”
“Ah, a Itália não, Constantinopla. Sempre ansiei por ir a Constantinopla. Lá se está praticamente na Ásia, não é?”
O senhor Beebe ponderou que não era bem assim e que as senhoritas Alans apenas planejavam ir até Atenas: “Incluindo Delfos, talvez, se as estradas forem seguras”, mas isso não abrandou o entusiasmo da moça. Segundo parecia, ela sempre ansiou ainda mais por ir à Grécia. Ele percebeu, surpreso, que Lucy parecia estar sendo sincera.
“Não sabia que a senhorita e as senhoritas Alans continuaram tão amigas, depois do episódio villa Cissie.”
“Ah, isso não é nada; asseguro-lhe que a villa Cissie não é nada para mim; eu daria tudo para acompanhá-las.”
“Sua mãe permitiria uma viagem tão repentina? Não faz nem três meses que a senhorita voltou.”
“Ela precisa permitir!”, gritou Lucy, cada vez mais exaltada. “Eu simplesmente preciso viajar. Preciso”, ela correu os dedos nervosamente pelo cabelo. “Não vê como preciso viajar? Não havia percebido antes... E é claro que faço questão de conhecer Constantinopla.”
“Quer dizer que desde que rompeu o noivado, sente que...”
“Sim, sim. Sabia que iria compreender.”
Mas o senhor Beebe não compreendeu bem. Por que a senhorita Honeychurch não deveria buscar repouso no seio familiar? Cecil havia definitivamente escolhido a saída digna, e não iria aborrecê-la. Então lhe ocorreu que a família da moça em si poderia ser aborrecível. Foi o que sugeriu a Lucy e ela aceitou a sugestão com avidez.
“Sim, é claro; ir a Constantinopla até eles se acostumarem com a idéia e tudo tenha se acalmado.”
“Receio que tenha sido um assunto importuno”, ele propôs, gentilmente.
“Não, de jeito nenhum. Cecil foi muito amável; só que... Preciso lhe contar toda a verdade, já que ouviu parte dela... É o fato de ele ser tão autoritário. Descobri que nunca me deixava fazer nada do que eu gostava de fazer. Teria tentado tornar-me melhor onde não posso melhorar. Cecil não deixa uma mulher tomar suas próprias decisões... Na realidade, ele não tem coragem. Não sei se estou sendo clara! Mas é mais ou menos isso.”
“É o que percebi a partir de minha própria observação do senhor Vyse; é o que percebo de tudo que conheço da senhorita. Eu realmente me solidarizo e concordo do fundo do coração. Concordo tanto que a senhorita deve permitir-me fazer uma pequena crítica: vale a pena sair correndo para a Grécia?”
“Mas eu preciso ir a algum lugar!”, ela bradou. “Estive preocupada a manhã toda e eis que a idéia chega agora, de supetão.” Ela bateu nos joelhos com os punhos e repetiu: “Eu preciso! E o tempo que passarei com mamãe, e todo o dinheiro que ela gastou comigo na primavera passada. Todos vocês me têm em alta conta, alta demais. Queria que não fossem tão gentis”. Nesse ínterim, a senhorita Bartlett entrou, e a agitação dela cresceu. “Preciso partir, para bem longe. Preciso saber o que desejo e para onde quero ir.”
“Vamos embora; chá, chá, chá”, disse o senhor Beebe, e empurrou suas convidadas pela porta da frente. Ele apressou-se tanto que esqueceu o chapéu. Quando retornou, ouviu, para seu alívio e surpresa, o dedilhar de uma sonata de Mozart.
“Ela está tocando de novo”, comentou com a senhorita Bartlett.
“Lucy sempre é capaz de tocar”, foi a resposta ácida.
“Temos de dar graças por ela dispor desse expediente. Lucy está evidentemente muito preocupada, como, com efeito, deveria estar. Já sei de tudo. O casamento estava tão próximo que deve ter sido um tremendo esforço antes de ela ter finalmente decidido falar.”
A senhorita Bartlett emitiu uma espécie de contorção e ele preparou-se para uma contenda. O pároco nunca decifrou a senhorita Bartlett. Como ele dissera para si mesmo em Florença: “Ela ainda podia revelar abismos de estranheza, se não de significado”. Mas a senhorita Bartlett mostrava-se tão pouco simpática que devia ser confiável. Ele presumiu tudo isso e não hesitou discutir Lucy com ela. Minnie, felizmente, estava colhendo samambaias.
Ela inaugurou o debate com:
“É muito melhor deixarmos o assunto de lado”.
“Será?”
“É de suma importância que não haja nenhum mexerico na rua Summer. Seria a morte fofocar sobre a rejeição do senhor Vyse neste exato momento.”
O senhor Beebe ergueu as sobrancelhas. Morte era uma palavra pesada — sem dúvida, pesada demais. Não havia nenhum vestígio de tragédia. Ele disse:
“Claro, a senhorita Honeychurch vai anunciar sua decisão a seu modo, e quando for do seu agrado. Freddy só me contou porque sabia que ela não se importaria”.
“Eu sei”, retrucou educadamente a senhorita Bartlett. “Mesmo assim, Freddy não deveria ter contado, nem mesmo ao senhor. Todo cuidado é pouco.”
“Claro.”
“Devo implorar segredo absoluto. Uma palavra ocasional a um amigo tagarela e...”
“Exatamente”, estava acostumado com aquelas solteironas velhas e excitáveis, e com a importância exagerada que devotavam às palavras. Um pároco vive numa teia de segredos mesquinhos, confissões e advertências, e, quanto mais sensato for, menos lhes concederá importância. Ele mudará de assunto, como fez o senhor Beebe, dizendo alegremente: “Tem ouvido falar do pessoal da pensão Bertolini ultimamente? Creio que mantém contato com a senhorita Lavish. É estranho como nós, daquela pensão, que parecíamos um grupo tão fortuito, tenhamos nos intrometido na vida uns dos outros. Dois, três, quatro, seis... Não, éramos oito; esqueci-me dos Emersons... Mantivemo-nos mais ou menos em contato. Na verdade, precisamos render uma homenagem à signora.”
E, como a senhorita Bartlett não se entusiasmou com a idéia, caminharam pela colina em silêncio, apenas interrompido quando o pároco dizia o nome de alguma samambaia. No alto, pararam. O céu tornara-se ainda borrascoso desde que ele passara por ali, uma hora antes, emprestando à terra uma grandeza trágica, rara em Surrey. Nuvens cinzentas disparavam por emaranhados de branco, que se alongavam, esgarçavam-se e despedaçavam-se lentamente, até que, através das últimas camadas, se entrevia uma nesga do azul evanescente. Findava o verão. O vento zunia, as árvores gemiam; contudo, o ruído parecia insuficiente para aquelas vastas operações celestes. O tempo estava começando a mudar, estava mudando, mudou; e é mais um senso de adequação do que de algo sobrenatural que mune tais crises das salvas das artilharias angelicais. Os olhos do senhor Beebe voltaram-se para Windy Corner, onde Lucy estava sentada, tocando Mozart. Nenhum sorriso brotou em seu rosto e, trocando novamente de assunto, disse:
“Não deve chover, mas logo ficará escuro; por isso, devemos nos apressar. A escuridão da noite passada foi horrível”.
Chegaram a Beehive Tavern às cinco horas. Aquela estalagem amistosa dispunha de uma varanda, onde os jovens e os insensatos tanto apreciavam sentar-se, enquanto os convidados de idade mais avançada buscavam uma saleta agradável e polida, onde podiam tomar chá na mesa com todo conforto. O senhor Beebe percebeu que a senhorita Bartlett ficaria com frio se sentasse fora e que Minnie ficaria chata se sentassem dentro, de modo que propôs uma divisão de forças. Eles passariam a comida para a criança pela janela. Assim, por acaso, ele se viu capaz de continuar discutindo a sorte de Lucy.
“Estive pensando, senhorita Bartlett”, ele disse, “e, a não ser que tenha uma grande objeção, gostaria de retomar nossa conversa.” Ela fez uma mesura. “Não vamos voltar ao passado. Sei pouco e me interesso ainda menos; estou absolutamente seguro de que é o melhor para sua prima. Ela agiu de maneira nobre e correta, e faz parte de sua natureza modesta dizer que a temos num grau elevado demais. Mas o futuro. Seriamente, que acha deste plano de ir à Grécia?”, ele sacou a carta de novo. “Não sei se entreouviu o que conversávamos, mas ela quer juntar-se às senhoritas Alans em sua louca excursão. É tudo... Não sei explicar... Errado.”
A senhorita Bartlett leu a missiva em silêncio, abaixou-a, pareceu hesitar e tornou a lê-la.
“Eu mesmo não vejo razão para isso.”
Para sua surpresa, ela retrucou:
“Nesse ponto não posso concordar com o senhor. Pois aí vislumbro a salvação de Lucy.”
“Mesmo? Agora, por quê?”
“Ela quer sair de Windy Corner.”
“Sei... Mas me parece tão estranho, tão pouco afeito a ela, tão (ia dizer) egoísta.”
“É decerto natural que, após cenas tão dolorosas, ela deseje uma mudança.”
Lá, aparentemente, estava um dos pontos que o intelecto masculino deixa de compreender. O senhor Beebe exclamou:
“É o que ela diz e, como outra dama concorda com ela, devo admitir que estou parcialmente convencido. Talvez ela mereça uma mudança. Não tenho irmãs e... Não entendo dessas coisas. Mas por que precisa ir a um lugar tão longínquo quanto a Grécia?”
“O senhor tem razão de perguntar isso”, respondeu a senhorita Bartlett, que estava evidentemente interessada, e quase deixou de lado seus modos esquivos. “Por que a Grécia? (Que foi, Minnie querida... Geléia?) Por que não Tunbridge Wells? Ah, senhor Beebe! Tive uma conversa longa e insatisfatória com minha querida Lucy esta manhã. Não posso ajudá-la. Não posso revelar nada mais. Talvez já tenha revelado em demasia. Não devo falar, um ponto sobre o qual ela se torna quase desagradável. Não devo falar. Queria que ela passasse seis meses comigo em Tunbridge Wells, mas Lucy recusou.”
O senhor Beebe espetou um miolo de pão com a faca.
“Mas meus sentimentos são de pouca importância. Sei muito bem que dou nos nervos de minha prima. Nossa viagem foi um fracasso. Ela quis partir de Florença e, quando chegamos a Roma, não quis ficar em Roma, e, nesse tempo todo, senti que estava gastando o dinheiro da mãe dela...”
“Mas vamos manter-nos no futuro”, interrompeu o senhor Beebe. “Quero o seu conselho.”
“Muito bem”, disse Charlotte, com uma brusquidão inesperada que, conquanto fosse familiar a Lucy, era novidade para ele. “Quanto a mim, eu a ajudarei a ir para a Grécia. E o senhor?”
O senhor Beebe refletiu.
“É absolutamente necessário”, ela continuou, descendo o véu e sussurrando através dele com ardor, com uma intensidade que o surpreendeu. “Eu sei... Eu sei”, a escuridão se aproximava, e ele sentiu que essa mulher estranha de fato sabia. “Ela não deve permanecer aqui um momento a mais sequer, e devemos manter a boca fechada até ela partir. Acho que os criados não sabem de nada. Depois... Mas já devo ter dito coisas demais. Só que eu e Lucy sozinhas somos inúteis contra a senhora Honeychurch. Se o senhor ajudar, podemos conseguir. Se não...”
“Se não...”
“Se não”, ela repetiu, como se a expressão contivesse uma finalidade.
“Sim, eu a ajudarei”, assentiu o clérigo, travando a mandíbula. “Vamos, temos de voltar agora, e endireitar a coisa toda.”
A senhorita Bartlett rompeu numa efusão de agradecimentos. A placa da
hospedaria — um favo[16] bem delineado, com abelhas — rangeu no vento externo enquanto ela lhe agradecia. O senhor Beebe não compreendia bem a situação; mas, então, não queria compreendê-la, nem saltar para a conclusão de que havia “outro homem”, conclusão que teria atraído uma mente menos refinada. Apenas sentiu que a senhorita Bartlett sabia de uma vaga influência da qual a moça desejava libertar-se, influência que poderia ter revestimento carnal. A própria inexatidão animava-o a um ato de cavaleiro errante. Sua crença no celibato, tão reticente, tão cuidadosamente oculta sob a capa da tolerância e da cultura, agora vinha à superfície e expandia-se como uma flor delicada. “Fazem bem os que se casam, mas fazem melhor os que se abstêm.” Assim seguia a sua crença, e ele nunca ouvia falar da revogação de um noivado sem experimentar um leve sentimento prazeroso. No caso de Lucy, a sensação intensificou-se por causa de sua falta de empatia por Cecil; e ele estava disposto a ir além — a mantê-la afastada do perigo até que pudesse confirmar sua resolução pela virgindade. O sentimento era muito sutil e bem pouco dogmático, e o sacerdote nunca o revelou a nenhum dos outros personagens deste enredo. Contudo, existia, e apenas a ele se podia atribuir sua ação subseqüente, e sua influência na ação dos outros. O trato que selou com a senhorita Bartlett na taberna não era apenas para ajudar Lucy, mas a religião também.
Correram para casa através de um mundo chapiscado de negro e cinza. Conversaram sobre tópicos inócuos: a necessidade dos Emersons de uma governanta; criados; criados italianos; romances sobre a Itália; romances engajados; a literatura podia influenciar a vida? Windy Corner cintilava. No jardim, a senhora Honeychurch, agora auxiliada por Freddy, ainda forcejava pela vida das flores.
“Está escuro demais”, ela disse, desalentada. “É isso que ocorre quando adiamos nossos deveres. Sabíamos que o tempo mudaria logo; e agora Lucy quer ir para a Grécia. Não sei em que mundo vivemos.”
“Senhora Honeychurch”, ele asseverou, “ela precisa ir à Grécia. Vamos para a casa conversar sobre o assunto. A senhora, para começarmos, está chateada por ela ter desmanchado com Vyse?”
“Senhor Beebe, fiquei muito feliz... simplesmente feliz.”
“Eu também”, concordou Freddy.
“Ótimo. Agora venha para casa.”
Confabularam na sala de jantar durante meia hora.
Lucy nunca teria conseguido levar a cabo sozinha o plano de ir a Grécia. Era caro e era dramático — duas das qualidades que sua mãe abominava. Nem mesmo Charlotte teria logrado sucesso. As honras do dia cabiam ao senhor Beebe. Por meio de seu tato e de senso comum, e por causa de sua influência como clérigo — pois um clérigo que não fosse imbecil influenciava sobremaneira a senhora Honeychurch —, ele conseguiu aliciá-la a seus propósitos.
“Não vejo por que a Grécia seja necessária”, ela concluiu; “mas, se estão certos disso, suponho que não haja problema. Deve ser algo que não consigo compreender. Lucy! Vamos contar para ela. Lucy!”
“Ela está tocando piano”, disse o senhor Beebe. Ele abriu a porta, e ouviu a letra da música.
Afasta o olhar do encanto da beleza...
“Não sabia que a senhorita Honeychurch também cantava.”
Não te movas às guerras da realeza;
Não proves o vinho da taça brilhante...
“É uma canção que Cecil lhe deu. Como as moças são estranhas!”[17]
“Que foi?”, exclamou Lucy, parando de chofre.
“Está tudo bem, querida”, respondeu a senhora Honeychurch, com brandura. Ela dirigiu-se para a sala de estar, e o senhor Beebe ouvia-a beijar a filha e dizer: “Sinto ter ficado zangada sobre a Grécia, mas a coisa surgiu no meio das dálias”.
Uma voz um tanto dura soou: “Obrigada, mamãe; isso não tem nenhuma importância”.
“E você também está certa... A Grécia é uma ótima idéia; você pode ir se as senhoritas Alans concordarem.”
“Ah, esplêndido! Ah, obrigada!”
O senhor Beebe juntou-se a elas. Lucy estava sentada ao piano, imóvel, com a mão sobre as teclas. Estava contente, mas ele esperava um contentamento bem maior. A mãe inclinou-se sobre ela. Freddy, para quem ela estivera cantando, acomodou-se no chão com a cabeça apoiada na irmã, e um cachimbo apagado nos lábios. Por estranho que parecesse, o grupo era belo. O senhor Beebe, que apreciava a arte antiga, lembrou-se de um tema favorito, a Santa Conversazione, na qual pessoas que se gostam são retratadas tagarelando juntas sobre assuntos nobres — um tema nem sensual nem sensacional, e, portanto, ignorado pela arte hodierna. Por que Lucy quereria casar-se ou viajar quando tinha tais amigos em casa? A moça continuou:
Não proves o vinho da taça brilhante;
Não fale c’os outros um só instante...
“Aqui está o senhor Beebe.”
“O senhor Beebe sabe como toco mal.”
“É uma bela canção e bastante sábia também”, disse ele. “Continue.”
“Não é muito boa”, ela retrucou, indiferente. “Não me lembra a razão... Harmonia ou algo assim.”
“Suspeito que seja uma acusação sem fundamento. É tão bonita.”
“A melodia até que é boa”, afirmou Freddy, “mas a letra é péssima. Melhor entregar os pontos.”
“Você só diz idiotices!”, protestou a irmã. A Santa Conversazione estava arruinada. Afinal, não havia por que Lucy falar da Grécia ou lhe agradecer por ter convencido a mãe, de modo que ele se despediu.
Freddy acendeu o farol da bicicleta para ele na varanda, e, com seu talento para o uso de expressões, disse:
“Este foi um dia e tanto”.
Detém teu ouvido contra o cantor...
“Espere um momento; ela está terminando.”
Afasta o dedo do ouro abrasador;
Vazios o coração, a mão e o olhar,
Vida serena e tranqüilo finar.
“Adoro um tempo como o de hoje”, disse Freddy.
O senhor Beebe lançou-se a ele.
Dois fatos principais estavam claros. Ela se comportara de modo esplêndido e ele a ajudara. Não esperava assenhorear-se dos detalhes de uma mudança tão grande na vida de uma moça. Se aqui e ali se sentia insatisfeito ou intrigado, tinha de se conformar; ela se decidira pelo melhor.
Vazios o coração, a mão e o olhar...
Talvez a canção apresentasse a “parte melhor” de modo muito forte. Ele em certa medida imaginava que o acompanhamento altissonante — que não lhe passou despercebido no rugir do vendaval — realmente combinava com Freddy, e gentilmente criticou as letras que o adornavam:
Vazios o coração, a mão e o olhar,
Vida serena e tranqüilo finar.
Seja como for. Pela quarta vez Windy Corner quedava em suspensão abaixo dele — agora como um farol nas marés retumbantes das trevas.