Um Quarto com Vista

E. M. Forster · Capítulo 24 de 24

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Um Quarto com Vista

Capítulo 20

 

O fim da Idade Média

 

As senhoritas Alans foram mesmo para a Grécia, mas foram sozinhas. Somente elas, do pequeno grupo, dobrarão o cabo Malea e singrarão as águas do golfo de Saros. Somente elas visitarão Atenas e Delfos, e os dois templos da canção intelectual — o que se encontra sobre a Acrópole, cercado pelo mar azul; e o que há sob o Parnaso, onde as águias construíram e o brônzeo auriga dirige impávido na direção do infinito. Trêmulas, ansiosas, sobrecarregadas de pão digestivo, elas de fato continuaram até Constantinopla, realmente deram a volta ao mundo. O resto de nós temos de nos contentar com um destino justo, mas bem menos árduo. Italiam petimus: voltamos à pensão Bertolini. 

George disse que era seu antigo quarto.

“Não, não era”, retrucou Lucy; “porque é o quarto que me coube, e eu fiquei com o quarto do seu pai. Não me lembro por quê; foi Charlotte que me obrigou, por alguma razão.

Ele ajoelhou-se no chão de lajota, e deitou o rosto em seu colo.

“George, está agindo como uma criança. Levante-se.”

“Por que não deveria ser criança?”, murmurou ele.

Incapaz de fornecer resposta a essa pergunta, ela abaixou a meia dele, que estava cerzindo, e fixou o olhar pela janela. Era tarde e, de novo, primavera.

“Ah, esqueçamos Charlotte”, ela propôs, pensativa. “De que são feitas as pessoas como ela?”

“Do mesmo material que se fazem os párocos.”

“Bobagem!”

“Está certo. É bobagem.”

“Agora se levante do chão gelado, ou logo vai começar com ataques de reumatismo, e pare de rir e de bancar o bobo.”

“Por que não deveria rir?”, ele perguntou, prendendo-a com os cotovelos e aproximando o rosto do dela. “Para que haveria de chorar? Beije-me aqui.” Indicou o local onde o beijo seria bem-vindo.

Ele era um menino, afinal. Quando chegava a hora, era ela quem se lembrava do passado, ela em cuja alma o ferro havia penetrado, ela quem recordava de quem fora aquele quarto no ano anterior. Ele a enternecia de modo estranho quando, às vezes, se enganava.

“Alguma carta?”, ele indagou.

“Apenas uma pequena, de Freddy.”

“Agora me beije aqui; depois aqui.”

Então, ameaçado novamente com o reumatismo, ele andou até a janela, abriu-a (como qualquer inglês) e debruçou-se para fora. Lá estava o parapeito, lá o rio; lá, à esquerda, o sopé do morro. O cocheiro de praça, que de imediato o saudou com o sibilo de uma serpente, talvez fosse o mesmo Faetonte que pôs sua felicidade em movimento, doze meses atrás. Uma gratidão intensa — todos os sentimentos se tornam intensos no sul — tomou conta do marido, e ele louvou as pessoas e as coisas que se empenharam tanto por um jovem tolo. Ele havia dado uma ajuda, é verdade, mas com que falta de jeito! Toda a luta que importava havia sido empreendida por outros — pela Itália, por seu pai, por sua mulher.

“Lucy, venha aqui olhar os ciprestes; e a igreja, qualquer que seja o nome, também pode ser avistada.”

“San Miniato. Só vou acabar com a meia.”

“Signorino, domani faremo un giro”, gritou o cocheiro, com uma certeza aliciante.

George disse que ele estava equivocado; não tinham dinheiro para jogar fora com passeios de carruagem.

E a gente que não teve a intenção de ajudar — as senhoritas Lavishes, os Cecils, as senhoritas Bartletts! Sempre pronto a encarecer em demasia o destino, George avaliou as forças que o empurraram à atual felicidade.

“Algo de bom na carta de Freddy?”

“Ainda não.”

O contentamento dele era absoluto, mas o dela continha amargura: os Honeychurches ainda não a haviam perdoado; ficaram desgostosos com sua última hipocrisia; ela havia se desentendido com Windy Corner, talvez para sempre.

“O que ele conta?”

“Garoto tolo! Acha que está sendo digno. Sabia que viajaríamos na primavera (faz seis meses que ele sabe), que, se mamãe não nos desse seu consentimento, nós mesmos haveríamos de cuidar de tudo. Tiveram um prazo justo, e agora ele diz que fugimos. Garoto ridículo...”

“Signorino, domani faremo un giro...”

“Mas tudo dará certo no fim. Ele tem de nos conceber desde o início de novo. Queria, porém, que Cecil não tivesse se tornado tão cínico com relação às mulheres. Pela segunda vez, ele sofreu uma alteração e tanto. Por que os homens têm teorias sobre as mulheres? Eu não as possuo, sobre nenhum homem. Queria, também, que o senhor Beebe...”

“É bom que queira isso.”

“Ele nunca nos perdoará... Quer dizer, nunca mais se interessará por nós. Gostaria que ele não tivesse tanta influência em Windy Corner. Gostaria que não tivesse... Mas, se formos sinceros, as pessoas que realmente nos querem bem com certeza nos acolherão, no longo prazo.”

“Pode ser.” Então, ele disse com maior entusiasmo: “Bem, nós fomos sinceros; foi a única coisa que fiz, e você voltou para mim. Então, talvez, você saiba”, ele virou-se para o quarto, “largue essa meia.” Conduziu-a à janela, de modo que ela, também, admirasse

a vista. Eles caíram de joelhos, invisíveis para a rua, esperavam, e começaram a sussurrar o nome um do outro. Ah! Valia a pena; era a grande alegria que esperavam, e infinitas pequenas alegrias com as quais nunca sonharam. Ficaram em silêncio.

“Signorino, domani faremo...”

“Ah, para o inferno com esse homem!”

Mas Lucy lembrou-se do vendedor de gravuras e disse: “Não seja rude com ele”. Então, respirando fundo, murmurou: “O senhor Eager e Charlotte, tão empedernida, tão terrível! Como ela sabia ser cruel com um homem!”.

“Olhe para as luzes atravessando a ponte.”

“Mas este quarto me faz recordar de Charlotte. Como é horrível envelhecer como ela! De pensar naquela noite, na casa paroquial, em que ela não poderia saber que seu pai estava na casa. Pois teria me impedido de entrar, e ele era a única pessoa no mundo que podia me fazer recobrar o juízo. Você não teria conseguido. Quando estou muito feliz”, ela o beijou, “lembro-me de como tudo esteve a ponto de perder-se. Se Charlotte tivesse sido informada, ela teria me impedido de entrar, e eu teria ido para a estúpida Grécia e me tornado diferente para sempre.”

“Mas ela soube”, replicou George, “ela viu meu pai, com certeza. Ele me disse.”

“Ah, não, ela não viu. Estava no andar de cima com a velha senhora Beebe, não se lembra, e depois foi direto para a igreja. Foi o que ela me contou.”

George mais uma vez teimou: “Meu pai a viu, e eu prefiro acreditar nele. Ele estava adormecido junto à lareira do escritório, e abriu os olhos, e lá estava a senhorita Bartlett. Poucos minutos antes de você entrar. Estava se preparando para ir embora, quando ele acordou. Ele não falou com ela”.

Então, conversaram sobre outras coisas — a conversa desconexa daqueles que estiveram lutando para alcançar o outro e cuja recompensa é descansar serenamente em seus braços. Demorou para que retomassem o assunto da senhorita Bartlett, mas, quando voltaram, o comportamento dela lhes pareceu mais peculiar. George, que não gostava de nenhuma incerteza, ponderou:

“É claro que ela sabia. Então, por que não se importou com o risco de vocês se encontrarem? Ela sabia que ele estava lá; mesmo assim, foi à igreja”.

Eles procuraram encaixar as peças.

Enquanto conversavam, uma solução inacreditável surgiu na mente de Lucy. Ela a rejeitou e disse:

“É tão típico de Charlotte desfazer a própria operação por causa de um ligeiro transtorno no último instante.” Mas algo na tarde agonizante, no bramido do rio, no próprio enlace mútuo, advertiu-a de que suas palavras não correspondiam à verdade, e George sussurrou:

“Ou ela quis que fosse assim?”

“Assim como?”

“Signorino, domani faremo um giro...”

Lucy dobrou-se para a frente e disse, gentilmente:

“Lascia prego, lascia. Siamo sposati.”

“Scusi tanto, signora”, ele respondeu, em tom igualmente gentil, e fustigou o cavalo.

“Buena sera... E grazie.”

“Niente.”

O cocheiro partiu, cantarolando.

“Assim como, George?”

Ele sussurrou: “É isso? Seria possível? Vou lhe dizer algo extraordinário. Que sua prima sempre teve esperança. Que, desde o primeiro momento que nos encontramos, ela teve esperança, bem no fundo, que seria desse jeito... claro, que bem lá no fundo. Que ela nos combateu na superfície, mas sempre manteve a esperança acesa. Não consigo explicá-lo de nenhum outro modo. Você consegue? Veja como ela me manteve vivo em você durante todo o verão; como ela nunca lhe deu paz; como, mês a mês, foi se tornando mais excêntrica e não confiável. Nossa visão a assombrava; ou ela não nos teria retratado como fez para a amiga. Há detalhes... uma imensidão de detalhes. Eu li o livro depois. Ela não está petrificada, Lucy, não secou por completo. Ela conseguiu nos separar duas vezes, mas, na paróquia, foi-lhe dada mais uma chance de nos fazer feliz. Nunca seremos amigos ou poderemos agradecer-lhe. Mas acredito mesmo que, bem no fundo de seu coração, bem abaixo da fala e do comportamento, ela está satisfeita.”

“É impossível”, murmurou Lucy, e então, lembrando-se das experiências do próprio coração, disse: “Não... pode ser possível”.

A juventude os envolveu; a canção de Faetonte anunciou a paixão recompensada, o amor obtido. Mas eles estavam conscientes de um amor mais misterioso do que aquele. A canção sumiu aos poucos e eles ouviram o rio, carregando a neve do inverno ao Mediterrâneo.

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