Um Quarto com Vista
Capítulo 17
Mentindo para Cecil
Ele ficou surpreso . Não tinha nada a dizer. Não estava nem mesmo aborrecido; apenas ficou de pé ali, com um copo de uísque na mão, procurando pensar o que a teria levado a tomar tal decisão.
Ela resolvera contar-lhe pouco antes de irem dormir, a hora em que, de acordo com o hábito burguês, sempre servia as bebidas para os homens. Freddy e o senhor Floyd sem dúvida se recolheriam com seus copos, enquanto Cecil invariavelmente ficava um pouco mais, sorvendo a sua bebida enquanto ela trancava o aparador.
“Perdoe-me por isso”, ela disse; “refleti cuidadosamente sobre tudo. Somos muito diferentes. Devo pedir que me desobrigue do compromisso e procure esquecer que alguma vez houve essa garota tola.”
Era um discurso adequado, mas ela estava mais zangada do que arrependida, o que transparecia em sua voz.
“Diferentes... como... como...”
“Não tive uma boa educação, para começar”, ela continuou, ainda de joelhos defronte ao aparador. “Minha viagem italiana ocorreu tarde demais e já estou esquecendo tudo o que aprendi ali. Nunca serei capaz de conversar com seus amigos ou me portar como sua esposa.”
“Não a entendo. Não está sendo você mesma. Está cansada, Lucy.”
“Cansada?”, ela retorquiu, de súbito inflamada. “É tão típico de você. Sempre pensa que as mulheres não querem dizer o que dizem.”
“Bem, sua voz soou cansada, como se algo a estivesse preocupando.”
“E se estiver? Isso não impede que eu perceba a verdade. Não posso casar-me com você. Um dia ainda irá me agradecer por dizer isso.”
“Você teve aquela dor de cabeça forte ontem... tudo bem”, pois ela havia soltado uma exclamação indignada. “Vejo que é muito mais do que dores de cabeça. Mas me dê um momento”, fechou os olhos. “Deve desculpar-me por dizer coisas estúpidas, mas meu cérebro está aos pedaços. Parte dele ainda se encontra há três minutos, quando estava certo de que você me amava, e a outra parte... é difícil... Receio acabar dizendo a coisa errada.”
Ocorreu-lhe que ele não estava reagindo tão mal, e sua irritação cresceu. Ela mais uma vez ansiava por uma altercação, não por uma conversa. Para precipitar a crise, acusou:
“Há dias em que a gente vê as coisas com clareza, e este é um deles. Há sempre um momento de ruptura, e acontece que é hoje. Se quiser saber, uma coisa muito boba me fez falar com você... Quando se recusou a jogar tênis com Freddy.”
“Mas eu nunca jogo tênis”, protestou Cecil, dolorosamente atônito. “Nunca consegui jogar. Não entendo aonde está querendo chegar.”
“Você joga bem o bastante para ser o quarto jogador. Achei que foi uma atitude abominavelmente egoísta da sua parte.”
“Não, não sei... Bem, esqueça o tênis. Por que não podia... não podia ter me avisado que havia algo errado? Até falou de nosso casamento durante o almoço... Pelo menos, deixou que eu falasse.”
“Sabia que não iria entender”, retrucou Lucy, bastante aborrecida. “Devia saber que haveria explicações horríveis. Claro que não é o tênis... Foi apenas a última gota de tudo que estive sentindo durante semanas. Decerto foi melhor não falar até ter certeza”, ela estendeu-se sobre esse ponto. “Muitas vezes antes me perguntei se servia para ser sua esposa... por exemplo, em Londres; e você, serve para ser meu marido? Não creio. Não gosta de Freddy nem de minha mãe. Sempre houve muitas razões contra nosso enlace, Cecil, mas todos nossos amigos pareciam satisfeitos, e nós estávamos tão ocupados, e não parecia bom tratar disso até... bem, até que tudo chegasse a um termo. Como hoje. Posso ver com clareza. Devia falar. É tudo.”
“Não posso achar que você esteja certa”, disse Cecil, gentilmente. “Não sei por que, mas, embora tudo o que esteja me dizendo pareça verdadeiro, sinto que não está sendo justa comigo. É horrível demais.”
“De que adianta fazer uma cena?”
“De nada. Mas com certeza tenho o direito de ouvir um pouco mais.”
Ele abaixou o copo e abriu a janela. De onde ela estava ajoelhada, chacoalhando as chaves, podia ver uma nesga de escuridão, e, espreitando-a, como se esta pudesse revelar-lhe o “pouco mais”, o rosto comprido e pensativo de Cecil.
“Não abra a janela; e é melhor fechar a cortina também; Freddy ou outra pessoa pode estar do lado de fora.” Ele obedeceu. “Realmente acho que devemos ir para a cama, se não se importa. Eu apenas acabarei dizendo coisas que me deixarão infeliz depois. Como disse, é horrível demais, e de nada adianta falar.”
Mas, para Cecil, agora que estava prestes a perdê-la, ela lhe parecia a cada momento mais desejável. Olhou para ela, em vez de através dela, pela primeira vez desde que ficaram noivos. De uma tela de Leonardo, ela se convertera numa mulher de carne e osso, com mistérios e força próprios, e qualidades que até mesmo eludem a arte. Sua mente recuperou-se do choque e, num rompante de genuína devoção, gritou:
“Mas eu a amo, e realmente achava que me amava também!”
“Eu não o amei”, ela confessou. “Pensei que sim, no começo. Sinto muito ter de recusá-lo esta última vez também.”
Ele começou a andar de um lado para outro do quarto, e ela ficou cada vez mais embaraçada diante de seu comportamento probo. Supusera que ele apenas agiria de maneira mesquinha. Teria sido mais fácil. Por uma ironia cruel, estava evocando tudo o que havia de melhor no comportamento do rapaz.
“É evidente que você não me ama. E ouso dizer que está certa. Mas doeria um pouco menos se soubesse a razão.”
“Porque”, uma frase ocorreu-lhe, e ela a aceitou, “você não é do tipo que se presta a conhecer ninguém na intimidade.”
Um brilho de horror transfigurou-lhe os olhos.
“Não quis dizer exatamente isso. Mas você fez questão de interrogar-me, embora eu lhe implorasse que não, e tive de dizer algo. É isso, mais ou menos. Quando éramos apenas conhecidos, você me deixava ser eu mesma, mas agora está sempre me protegendo”, a voz subiu. “Não permitirei que me protejam. Decidirei por mim mesma o que é elegante e correto. Defender-me é um insulto. Não confia que eu encare a verdade, ou devo apenas recebê-la de segunda mão, através de você? Um lugar para a mulher! Você despreza minha mãe (sei que sim) porque ela é convencional e se preocupa com a sobremesa, mas, ah, céus!”, ela levantou-se. “É você quem é convencional, pois pode entender de coisas belas, mas não sabe como usá-las; e esconde-se atrás da arte, dos livros e da música, onde tentará me ocultar também. Não deixarei que me sufoquem, nem mesmo em nome da música mais gloriosa, pois as pessoas são mais gloriosas, e você mantém-me longe delas. É por isso que estou rompendo o noivado. Não há problema quando você se ocupa das coisas, mas quando se aproxima das pessoas...”, ela interrompeu-se.
Houve uma pausa. Então Cecil declarou, com grande emoção:
“É verdade”.
“Verdade, no geral”, ela corrigiu, tomada por um sentimento de vaga vergonha.
“É verdade, cada palavra. É uma revelação. É... eu.”
“De todo modo, estas são minhas razões para não ser sua esposa.”
Ele repetiu: “O tipo que não se presta a conhecer ninguém na intimidade. É verdade. Fracassei desde o dia em que nos tornamos noivos. Comportei-me como um moleque com Beebe e com seu irmão. Você é ainda maior do que eu imaginava”, ela recuou um passo. “Não a importunarei mais. Você é boa demais para mim. Nunca me esquecerei de sua sagacidade; e, minha querida, só posso culpá-la por isso: podia ter me avisado no início, antes que sentisse que seria incapaz de casar-se comigo, dando assim uma chance para que eu progredisse. Nunca a conheci de fato até esta noite. Apenas a usei como esteio a minhas noções tolas do que uma mulher deve ser. Mas esta noite você é uma pessoa diferente: novos pensamentos... até mesmo uma nova voz...”
“Que quer dizer com nova voz?”, ela indagou, tomada por uma raiva incontrolável.
“Quero dizer que parece haver uma pessoa falando através de você.”
Então Lucy perdeu o equilíbrio. Gritou: “Se acha que estou apaixonada por outra pessoa, está muito enganado”.
“Claro que não penso isso. Você não é desse tipo, Lucy.”
“Ah, sim, você acha. É a velha idéia, a idéia que atrasou o progresso da Europa... Quero dizer, a idéia de que as mulheres estão sempre pensando nos homens. Se uma moça terminar o noivado, todos dizem: ‘Ah, ela tem outra pessoa em mente; ela aguarda a afeição de outro’. É ofensivo, brutal! Como se uma moça não pudesse terminar para ser livre.”
Ele respondeu, reverente: “Eu podia ter dito isso antes. Nunca mais o direi. Você me ensinou a ver melhor”.
Ela começou a corar e fingiu examinar as janelas.
“Claro que não há hipótese de haver ‘outra pessoa’ nisso, nenhuma ‘traição’ nem nenhuma dessa bobagem nauseante. Peço perdão, com toda humildade, se minhas palavras sugeriram isso. Só quis dizer que há uma força em você que me era desconhecida até agora.”
“Tudo bem, Cecil, está certo. Não se desculpe. Foi um erro meu.”
“É uma disputa de ideais, o seu e o meu... Ideais puros e abstratos, e o seu é o mais nobre. Estou atado a noções velhas e perversas, e durante esse tempo todo você foi apenas esplêndida e nova”, a voz falseou. “Na verdade, preciso agradecer-lhe pelo que fez... Por me mostrar quem sou. Solenemente, agradeço-lhe por me mostrar uma mulher de verdade. Aperta minha mão?”
“Claro que sim”, disse Lucy, torcendo a cortina com a outra mão. “Boa noite, Cecil. Adeus. Está tudo bem. Eu sinto por isso. Muito obrigada por sua consideração.”
“Deixe-me acender sua vela, sim?”
Eles dirigiram-se ao saguão.
“Obrigado. Boa noite de novo. Deus a abençoe, Lucy!”
“Até logo, Cecil.”
Ela observou-o correr para cima, enquanto as sombras dos balaústres deslizavam por seu rosto como o bater de asas. No patamar, ele estacou, firme em seu senso de renúncia, e deitou-lhe um olhar de memorável beleza. A despeito de toda a sua cultura, no fundo Cecil era um asceta, e nada em seu amor combinava mais com ele do que a perda do próprio amor.
Ela nunca se casaria. No tumulto de sua alma, isso permaneceu inabalável. Cecil acreditava nela. Havia de se tornar uma daquelas mulheres a quem ela louvara com tanta eloqüência, que se interessavam apenas pela liberdade e não pelos homens; devia esquecer que George a amava, que George estivera pensando através dela e obtivera para ela sua libertação honrosa, que George partira — como era mesmo? — para a escuridão.
Ela apagou a lâmpada.
De nada valia pensar, nem, aliás, sentir. Ela desistiu de tentar entender-se, e aliou-se ao vasto exército dos ignorantes, que não seguiam nem o coração nem o cérebro, que marchavam a seu destino por meio de deixas teatrais. Esses exércitos estão cheios de gente agradável e pia. Mas caíram diante do único inimigo que importa — o inimigo interno. Haviam pecado contra a paixão e a verdade, e inócua será sua luta pela virtude. Com o passar dos anos, estarão condenados. Sua graça e sua piedade mostrarão rachaduras, a eloqüência tornar-se-á cinismo, sua abnegação, hipocrisia; sentirão e produzirão mal-estar aonde quer que forem. Pecaram contra Eros e contra Palas Atena, e não pela intervenção divina, mas pelo curso ordinário da natureza, essas deidades amigas serão vingadas.
Lucy aliou-se a esse exército quando fingiu para George que não o amava e fingiu para Cecil que não amava ninguém. A noite a acolheu, como acolhera a senhorita Bartlett trinta anos antes.