Um Quarto com Vista

E. M. Forster · Capítulo 19 de 24

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Um Quarto com Vista

Capítulo 15

 

O desastre interno

 

O domingo após a chegada da senhorita Bartlett foi um dia glorioso, como a maioria dos dias daquele ano. No Weald, o outono aproximava-se, interrompendo a verde monotonia do verão, deitando nos parques toques cinzentos de bruma; nas faias, sinais vermelho-avermelhados e nos carvalhos, traços de ouro. Das alturas, batalhões de pinheiros negros espreitavam a mudança, eles próprios imutáveis. Um céu sem nuvens abarcava as duas regiões e, em ambas, ressoou um repicar de sinos de igreja.

O jardim de Windy Corner estava deserto, salvo por um livro vermelho, que tostava ao sol na trilha de pedregulhos. Da casa vinham sons incoerentes, de mulheres preparando-se para o culto. “Os rapazes disseram que não vão”... “Bom, não posso culpá-los”... “Minnie perguntou se precisa ir”... “Diga para ela parar com bobagens”... “Anne! Mary! Abotoem o meu vestido atrás!”... “Querida Lucy, posso abusar de você pedindo-lhe um alfinete?” Pois a senhorita Bartlett havia anunciado que ela, aconteça o que acontecer, iria à igreja.

O sol prosseguiu em sua trajetória celeste, guiado, não por Faetonte, mas por Apolo, competente, constante, divino. Seus raios atingiam as damas sempre que elas se aproximavam da janela dos quartos; o senhor Beebe na rua Summer, enquanto ele sorria diante de uma carta da senhorita Catharine Alan; George Emerson limpando as botas de seu pai; e, por fim, para completar o catálogo de coisas memoráveis, o livro vermelho mencionado acima. As mulheres movem-se, o senhor Beebe move-se, George move-se, e o movimento pode criar sombras. Mas aquele livro jazia imóvel, pronto para ser acariciado a manhã inteira pelo sol e para elevar ligeiramente suas capas, como que agradecendo a carícia.

Agora Lucy sai pela porta envidraçada da sala de estar. Seu novo vestido cor de cereja é um desastre, fazendo-a parecer pálida e espalhafatosa. No colo ela porta um broche de granada, no dedo, um anel cravejado de rubis — um anel de noivado. Seus olhos inclinam-se na direção do Weald. Ela franze um pouco a testa — não de raiva, mas como uma criança corajosa enruga o cenho quando procura não chorar. Em toda aquela imensidão, nenhum olho humano a está observando, de modo que ela pode fechar a cara sem que a censurem e medir os espaços que ainda sobrevivem entre Apolo e as colinas ocidentais.

“Lucy! Lucy! Que livro é aquele? Quem pegou um da estante e deixou lá fora, para estragar?”

“É apenas o livro da biblioteca que Cecil está lendo.”

“Mas tire-o dali, não o deixe ao léu como um flamingo.”

Lucy apanhou o livro e olhou o título com indiferença: Sob uma Loggia. Ela mesma já não lia mais romances, dedicando todo o seu tempo livre à literatura sólida, na esperança de acompanhar Cecil. Era horrível quão pouco ela conhecia e, mesmo quando acreditava dominar um tópico, como a pintura italiana, descobria que o havia esquecido. Naquela mesma manhã confundira Francesco Francia com Piero della Francesca, e Cecil lhe dissera: “O quê? Já está esquecendo sua Itália?”. E isso emprestara uma ansiedade a seus olhos quando ela saudou a vista adorada e o jardim adorado ao fundo, e acima deles, mal concebível em outro lugar, o adorado sol.

“Lucy... tem seis pence para Minnie e um xelim para mim?”

Ela voltou-se apressada para sua mãe, que rapidamente se deixava tomar pelo alvoroço dominical.

“É uma coleta especial... esqueci para o quê. Eu lhe peço, por favor, nada do vulgar tilintar do meio penny no prato; faça com que Minnie tenha uma bela moeda lustrosa de seis pence. Onde está aquela criança? Minnie! O livro está todo retorcido. (Deus, você está tão desenxabida!) Ponha-o sobre o atlas para comprimi-lo. Minnie!”

“Ah, senhora Honeychurch...”, veio das regiões superiores.

“Minnie, não se atrase. Aí vem o cavalo”, era sempre o cavalo, nunca a carruagem. “Onde está Charlotte? Dê um pulo lá em cima e apresse-a. Por que está demorando tanto? Ela não tinha nada para fazer. Nunca traz nada que não sejam blusas. Pobre Charlotte... Como eu detesto blusas! Minnie!”

O paganismo é infeccioso — mais infeccioso do que a difteria ou a piedade — e a sobrinha do pároco foi arrastada à igreja sob protestos. Como de hábito, não entendia o porquê. Por que não poderia sentar-se ao sol com os rapazes? Os rapazes, que agora apareceram, zombaram dela com palavras mesquinhas. A senhora Honeychurch defendeu a ortodoxia e, no meio da confusão, a senhorita Bartlett, vestida na última moda, veio flanando pelas escadas.

“Querida Marian, sinto muitíssimo, mas não tenho nenhum trocado... nada exceto soberanos e meias coroas. Alguém poderia dar-me...”

“Sim, sem dúvida. Pule para cá. Meu Deus, como você está elegante. E que vestido adorável! Vai nos envergonhar a todas.”

“Se eu não pusesse meus melhores trapinhos agora, quando os poria?”, desculpou-se a senhorita Bartlett. Ela entrou na vitória e acomodou-se com as costas para o cavalo. A comoção necessária sucedeu e elas, então, partiram.

“Adeus! Comportem-se!”, gritou Cecil.

Lucy mordeu os lábios, pois o tom foi de escárnio. No tema das “igrejas e assemelhados”, eles tiveram uma confabulação um tanto insatisfatória. Ele dissera que as pessoas deveriam examinar-se a si próprias e ela não queria auto-avaliar-se; nem sabia como isso era feito. Cecil respeitava a ortodoxia honesta, mas sempre presumia que a honestidade resulta de uma crise espiritual; não concebia imaginá-la como um direito natural, capaz de medrar na direção dos céus, como as flores. Tudo o que dizia sobre o assunto a torturava, embora ele exsudasse tolerância por todos os poros; de algum modo os Emersons eram diferentes.

Lucy se encontrou com os Emersons depois da missa. Havia uma fila de carruagens na rua, e ocorreu que o veículo dos Honeychurches ficou estacionado em frente da villa Cissie. Para poupar tempo, elas passaram pelo gramado até o carro e toparam com pai e filho fumando no jardim.

“Apresente-me”, disse a mãe. “A não ser que o jovem considere que já me conhece.”

Ele provavelmente considerava; mas Lucy ignorou o Lago Sagrado e os apresentou em termos formais. O velho senhor Emerson a saudou com bastante efusão e disse que estava muito feliz com o casamento. A moça disse sim, ela estava feliz também; e, então, como a senhorita Bartlett e Minnie estavam paradas atrás com o senhor Beebe, ela desviou a conversa para um assunto menos perturbador, e perguntou-lhe o que estava achando da nova casa.

“É ótima”, ele respondeu, mas com uma nota de melindre na voz; ela nunca o viu ofendido antes. Ele acrescentou: “Descobrimos, porém, que eram as senhoritas Alans quem deviam ter vindo para cá, e nós as desalojamos. As mulheres se importam com isso. Eu fiquei muito aborrecido quando soube”.

“Deve haver algum mal-entendido”, sugeriu a senhora Honeychurch, sem jeito.

“Disseram a nosso senhorio que seríamos um tipo muito diferente de pessoa”, disse George, que parecia disposto a levar o assunto adiante. “Ele imaginou que tínhamos uma disposição artística. E ficou desapontado.”

“Eu me pergunto se não devemos escrever para as senhoritas Alans e nos oferecermos para desistir da casa. Que acha?”, ele dirigiu-se a Lucy.

“Ah, parem com isso agora que estão aqui”, respondeu a moça, com ligeireza. Ela precisava evitar censurar Cecil. Pois foi para ele que o pequeno episódio se virou, conquanto seu nome nunca fosse mencionado.

“É o que George diz. Diz que as senhoritas Alans devem aceitar a derrota. Mas parece-me tão indelicado.”

“Há apenas uma determinada quantidade de delicadeza no mundo”, ponderou George, observando os clarões de sol nos painéis das carruagens que passavam.

“Sim!”, exclamou a senhora Honeychurch. “É exatamente o que eu digo. Por que todo esse blablablá acerca dessas duas senhoritas Alans?”

“Há certa quantidade de delicadeza como há certa quantidade de luz”, ele prosseguiu num tom ponderado. “Nós lançamos uma sombra sobre algo independentemente de onde estivermos, e de nada adianta movermo-nos de um lugar a outro para poupar as coisas; porque a sombra sempre nos persegue. Escolha um lugar onde não causará dano... Sim, escolha um lugar onde não causará muito dano, e fique ali com toda a alma, encarando o sol.”

“Ah, senhor Emerson, vejo que é sagaz!”

“Hein?”

“Vejo que será sagaz. Espero que não tenha se comportado assim com o pobre Freddy.”

George riu com os olhos, e Lucy suspeitou que ele e sua mãe se dariam muito bem.

“Não”, ele disse. “Foi ele quem se comportou assim comigo. É a sua filosofia. Exceto que ele começou a vida assim; e eu tentei a Nota da Dúvida primeiro.”

“Que quer dizer? Não, não importa. Não explique. Ele está ansioso para vê-lo esta tarde. O senhor joga tênis? Importa-se de jogar tênis num domingo...?”

“Se George se importa em jogar tênis num domingo? George, depois da educação que teve, não faz distinção entre...”

“Muito bem, George não se importa em jogar tênis no domingo. Nem eu. Está combinado. Senhor Emerson, se o senhor puder vir com seu filho nos daria um imenso prazer.”

Ele agradeceu, mas a caminhada lhe pareceu extensa: não podia exceder-se nos dias atuais.

Ela virou-se para George: “E então ele quer ceder a casa às senhoritas Alans”.

“Eu sei”, disse George, e passou o braço ao redor do pescoço do pai. A gentileza que o senhor Beebe e Lucy sempre souberam existir nele surgiu repentinamente, como a luz solar tocando uma vasta paisagem — um toque do sol matutino? Ela recordou que, mesmo com todos seus comentários perversos, ele nunca foi contra o afeto.

A senhorita Bartlett aproximou-se.

“O senhor conhece nossa prima, a senhorita Bartlett”, disse a senhora Honeychurch amistosamente. “O senhor conheceu-a com minha filha, em Florença.”

“Sim, de fato!”, disse o velho, e fez como que fosse sair do jardim para cumprimentar a dama. A senhorita Bartlett logo se pôs na vitória. Assim entrincheirada, ela concedeu uma mesura formal. Era a pensão Bertolini mais uma vez, com a mesa de jantar com recipientes para decantação de água e vinho. Era a antiga, antiqüíssima, batalha pelo quarto com vista.

George não respondeu à mesura. Como qualquer rapaz, corou e sentiu-se envergonhado; sabia que a acompanhante se lembrava. Ele disse:

“Eu... eu vou jogar tênis, se for possível”, e entrou na casa. Talvez qualquer coisa que ele tivesse feito teria apetecido a Lucy, mas sua falta de jeito atingiu diretamente o coração da moça: os homens não são deuses afinal, mas tão humanos e tão desajeitados quanto as garotas; mesmo os homens podem padecer de desejos inexplicados, e precisam de ajuda. Para alguém de criação semelhante à dela, e com a sua destinação, a fraqueza dos homens era uma verdade desconhecida, mas ela adivinhou-a em Florença, quando George lançou suas gravuras ao rio Arno.

“George, não vá”, gritou o pai, que achava que as pessoas se deleitavam imensamente com a conversa do filho. “George acordou tão animado hoje, estou certo de que acabará aparecendo esta tarde.”

Lucy olhou nos olhos da prima. Algo em seu apelo mudo a botou impaciente.

“Sim”, ela disse, alteando a voz, “eu de fato espero que ele apareça”, em seguida, entrou na carruagem e murmurou: “O velho não está ciente do assunto; eu sabia que tudo estava bem”, a senhora Honeychurch acompanhou-a; partiram.

Era bom o senhor Emerson não ter sido informado da escapada florentina; porém, os ânimos de Lucy não teriam se inflamado tanto assim diante dos baluartes celestiais. Era bom; mas decerto ela acolhera a notícia com alegria desproporcional. Durante todo o trajeto para casa, os cascos dos cavalos entoaram uma melodia para a moça: “Ele não contou, ele não contou”. Seu cérebro expandiu a canção: “Ele não contou ao pai... a quem conta tudo. Não foi uma conquista. Ele não riu de mim quando parti”. Ela ergueu a mão à face. “Ele não me ama. Não. Que terrível seria se me amasse! Mas não contou. Não contará.”

Lucy ansiava por gritar as palavras: “Está tudo bem. É um segredo entre nós dois para sempre. Cecil nunca saberá”. Ela até mesmo ficou satisfeita pelo fato de a senhorita Bartlett tê-la feito prometer não contar, naquela última noite escura em Florença, quando se ajoelharam na arrumação das malas. O segredo, grande ou pequeno, estava guardado. No mundo inteiro, apenas três ingleses o conheciam.

Foi assim que ela interpretou seu júbilo. Saudou Cecil com vivacidade incomum, porque se sentia muito segura. Declarou, enquanto ele a ajudava a apear da carruagem:

“Os Emersons foram tão amáveis. George Emerson progrediu imensamente.”

“Ah, como estão meus protégés?”, indagou Cecil, a quem eles não despertavam o mínimo interesse; havia tempos esquecera sua resolução de trazê-los para Windy Corner com finalidade educacional.

“Protégés!”, ela exclamou, com certo calor.

Pois a única relação que Cecil concebia era do tipo feudal: a que havia entre o protetor e o protegido. Não tinha nenhuma idéia do sentimento de camaradagem pela qual a alma da moça anelava.

“Você mesmo verá como estão seus protégés. George Emerson virá esta tarde. Ele é um homem interessante de se conversar. Apenas não...”. Ela quase disse... “não o proteja”. Mas o sino para o almoço estava tocando e, como geralmente ocorria, Cecil não prestava muita atenção em seus comentários. O charme, não o raciocínio, devia ser o forte da futura esposa.

O almoço era uma refeição alegre. Em geral, Lucy sentia-se deprimida às refeições. Alguém sempre tinha de ser apaziguado — Cecil ou a senhorita Bartlett ou um Ser não visível aos olhos mortais, um Ser que sussurrava para sua alma: “Esse júbilo não durará. Em janeiro deve ir a Londres para entreter os netos de homens célebres”. Mas, naquele dia, sentiu como se tivesse recebido uma garantia. Sua mãe sempre estaria sentada ali, seu irmão acolá. O sol, embora houvesse se deslocado um pouco desde a manhã, sempre se ocultaria atrás das colinas ocidentais. Após o almoço, convidaram-na para tocar. Lucy assistira a Armide, de Gluck, naquele ano, e tocou de memória a música do jardim encantado — a música em meio a qual Renaud se aproxima, abaixo da luz da eterna aurora, a música que nunca ganha ímpeto, nunca se enfraquece, mas ondula por toda a eternidade como os mares serenos dos contos de fada. Tal música não é para o piano e o público começou a ficar inquieto. Cecil, compartilhando o descontentamento, gritou:

“Agora toque para nós o outro jardim... o que há em Parsifal.”

Ela fechou o piano.

“Não muito obediente”, suspirou a mãe.

Temendo ter ofendido Cecil, ela virou-se de chofre. Lá estava George. Ele havia se esgueirado sem interrompê-la.

“Oh, eu não sabia!”, ela exclamou, ficando muito vermelha; e então, sem uma palavra de cumprimento, reabriu o piano. Cecil teria o seu Parsifal, e tudo mais que quisesse.

“Nossa intérprete mudou de idéia”, disse a senhorita Bartlett, talvez sugerindo: “Ela tocará a música para o senhor Emerson”. Lucy não sabia o que fazer, nem mesmo o que queria fazer. Tocou muito mal alguns acordes da canção das “Donzelas das Flores” e então parou.

“Voto pelo tênis”, disse Freddy, enjoado daquela pífia diversão.

“Sim, eu também.” Mais uma vez ela fechou o malfadado instrumento. “Voto para que vocês joguem em duplas masculinas.”

“Tudo bem.”

“Não para mim, obrigado”, disse Cecil. “Não quero estragar o jogo.” Ele nunca entendeu que pode ser um ato de bondade um mau jogador ajudar a formar o grupo de quatro.

“Ah, vamos, Cecil. Eu sou ruim, Floyd é péssimo, e, quem sabe, Emerson também?”

George o corrigiu: “Não jogo mal”.

Todos olharam para baixo.

“Então certamente não jogarei”, concluiu Cecil, enquanto a senhorita Bartlett, achando que estava esnobando George, acrescentou: “Concordo, senhor Vyse. É muito melhor que não jogue. Muito melhor”.

Minnie, apressando-se para tomar o lugar que Cecil temia ocupar, anunciou que seria o quarto jogador.

“Eu vou deixar passar todas as bolas de qualquer modo, então qual é o problema?” Mas o domingo interveio, e rechaçou com ímpeto a amável sugestão.

“Então terá de ser Lucy”, protestou a senhora Honeychurch; “vocês precisarão de Lucy. Não há outro jeito. Lucy, vá trocar-se.”

O descanso dominical de Lucy em geral tinha essa natureza ambivalente. Ela levava-o sem hipocrisia pela manhã e rompia-o sem relutância à tarde. Ao trocar o vestido, perguntou-se se Cecil estaria escarnecendo dela; de fato, precisava fazer uma auto-avaliação antes de se casar com ele.

O senhor Floyd era seu parceiro. Ela gostava de música, mas como o tênis lhe parecia tão mais prazenteiro! Como era melhor correr para cima e para baixo em roupas confortáveis do que se sentar ao piano sentindo a manga prender-se ao braço. Mais uma vez a música lhe pareceu uma tarefa infantil. George deu o saque e surpreendeu-a com sua ansiedade por ganhar. Ela lembrou-se de como ele suspirou entre as tumbas em Santa Croce porque as coisas não se encaixavam; como, após a morte do obscuro italiano, debruçara-se sobre o parapeito do Arno e dissera: “Vou desejar viver, eu lhe digo”. Ele queria viver agora, ganhar a partida, defender seu lugar ao sol com toda a alma — o Sol que agora começava a declinar e que lhe ofuscava a vista; e ele de fato venceu.

E, como o Weald lhe pareceu belo! As colinas despontavam em seu resplendor, como o Fiesole se ergue sobre o planalto da Toscana, e as South Downs, digamos, assemelhavam-se às montanhas de Carrara. Ela podia estar esquecendo sua Itália, mas começava a perceber mais coisas na sua Inglaterra. Podia inventar um novo jogo com aquela paisagem, tentando encontrar em suas inúmeras dobras alguma cidade ou vilarejo que lembrasse Florença. Ah, como o Weald lhe parecia belo!

Mas agora Cecil reclamava sua companhia. Calhou de ele estar num humor lucidamente crítico, não afeito à exaltação. O noivo constituíra um estorvo durante quase todo o jogo, pois o romance que estava lendo era tão ruim que fez o favor de declamá-lo para os outros. Ele zanzava pela área das quadras e gritava: “Ei, escute isso, Lucy. Três infinitivos quebrados”. “Horrível!”, respondia Lucy, e perdia o lance. Quando terminaram a partida, ele ainda continuou lendo; havia uma cena de assassinato, e, com efeito, todos deviam ouvir. Freddy e Floyd tiveram de procurar uma bola perdida nos loureiros, mas os outros dois aquiesceram.

“A cena se passa em Florença.”

“Que divertido, Cecil! Leia-a. Venha, senhor Emerson, sente-se aqui, depois de toda a energia que gastou.” Ela havia “perdoado” Cecil, conforme elaborara para si, e fazia questão de ser amável com ele.

Ele saltou sobre a rede e sentou-se a seus pés, perguntando:

“E a senhorita... está cansada?” 

“Claro que não!”

“Importa-se de ser derrotada?”

Ela ia responder que não, quando lhe ocorreu que se importava, de modo que respondeu que sim. E acresceu alegremente: “Mas não acho que o senhor seja um jogador tão esplêndido. A luz estava nas suas costas e refletia em meus olhos.”

“Eu nunca disse que era esplêndido.”

“Ora, disse sim!”

“A senhorita não ouviu bem.”

“O senhor disse... Ah, não alegue exatidão nesta casa. Todos nós exageramos, e ficamos muito zangados com pessoas que não o fazem.”

“A cena se passa em Florença”, repetiu Cecil, alteando a voz.

Lucy recompôs-se.

“‘Entardecer. Leonora estava correndo...’”

Lucy interrompeu-o: “Leonora? Leonora é a heroína? Quem é o autor desse livro?”.

“Joseph Emery Prank. ‘Crepúsculo. Leonora vinha correndo pela praça. Que os santos impeçam que ela chegue tarde demais. Crepúsculo — o crepúsculo da Itália. Sob a loggia de Orcagna, a loggia de Lanzi, como às vezes a chamamos hoje...’”

Lucy rompeu em risadas.

“‘Joseph Emery Prank’, de fato! Ora, é a senhorita Lavish! É o romance da senhorita Lavish, e ela o publicou com o nome de outra pessoa.”

“E quem seria essa senhorita Lavish?”

“Ah, uma pessoa horrível... Senhor Emerson, lembra-se da senhorita Lavish?” Excitada pela tarde agradável, ela bateu as mãos.

George ergueu os olhos.

“Claro que sim. Dei com ela no dia em que chegamos à rua Summer. Foi ela quem me contou que a senhorita morava aqui.”

“Não ficou contente?” Ela queria dizer “de ver a senhorita Lavish”, mas, quando o observou curvar-se sobre a grama sem responder, acudiu-lhe que a pergunta podia ter outro significado. Contemplou a cabeça, quase encostada em seu joelho, e achou que as orelhas tinham ficado vermelhas. “Não espanta que o romance seja ruim”, acrescentou. “Nunca gostei da senhorita Lavish. Mas suponho que devamos lê-lo já que a conhecemos.”

“Todos os livros modernos são ruins”, vergastou Cecil, irritado com a falta de atenção da moça, e dirigindo seu mau humor contra a literatura. “Todos escrevem por dinheiro hoje em dia.”

“Ah, Cecil...”

“É verdade. Não vou mais aborrecê-los com Joseph Emery Prank.”

Cecil, naquela tarde, portava-se como um pardal alvoroçado. Os altos e baixos em sua voz eram perceptíveis, mas não a afetaram. Apenas a música e o movimento lhe importavam e seus nervos recusavam-se a reagir diante do estridular dos dele. Deixando-o amargar a própria irritação, ela fitou a cabeça negra mais uma vez. Não queria acariciá-la, mas podia ver-se querendo acariciá-la; a sensação foi curiosa.

“O que acha desta nossa vista, senhor Emerson?”

“Não vejo muita diferença nas vistas.”

“Que quer dizer?”

“Porque todas são iguais. Porque tudo o que importa nelas é a distância e o ar.”

“Hum!”, disse Cecil, incerto se o comentário era acertado ou não.

“Meu pai”, ele ergueu os olhos para ela (estava um pouco corado), “diz que há apenas uma vista perfeita: a vista do céu bem acima de nossa cabeça, e todas as outras paisagens sobre a terra não passam de cópias malfeitas desta.”

“Creio que seu pai está lendo Dante”, ponderou Cecil, dedilhando o romance, que, por si só, permitia-lhe conduzir a conversação.

“Ele nos disse outro dia que as vistas são realmente multidões... multidões de árvores, casas e colinas... e acabam parecendo-se umas com as outras, como as multidões humanas; e que a atração que exercem sobre nós é um tanto sobrenatural, pela mesma razão.”

Lucy entreabriu os lábios.

“Pois uma multidão é mais do que as pessoas que a perfazem. Algo é acrescentado ali (não se sabe como) do mesmo modo como algo se acrescenta àquelas colinas.”

Ele apontou com a raquete na direção das South Downs.

“Que idéia esplêndida!”, ela murmurou. “Gostaria de ouvir seu pai falar de novo. Ele não está muito bem de saúde, não é?”

“Não, não está.”

“Há um relato absurdo de uma vista neste livro”, comentou Cecil.

“Também que os homens se enquadram em duas classes: os que esquecem as vistas e os que se lembram delas, mesmo quando estão em pequenos quartos.”

“Senhor Emerson, tem outros irmãos?”

“Não. Por quê?”

“O senhor falou nos disse.”

“Quis dizer minha mãe.”

Cecil fechou o livro com estrépito.

“Oh, Cecil, você me assustou!”

“Não vou mais aborrecê-los com Joseph Emery Prank.”

“Ainda recordo de nós três, indo passar o dia no campo, onde se podia estender a vista até o vilarejo de Hindhead. É a primeira coisa de que me lembro.”

Cecil levantou-se: o homem era mal-educado; não pusera seu casaco após a partida — ele não servia. Teria afastado-se se Lucy não o tivesse impedido.

“Cecil, por favor, leia aquela passagem sobre a vista.”

“Não enquanto o senhor Emerson está aqui para nos divertir.”

“Não... Leia agora. Acho que não há nada mais engraçado do que ouvir coisas tolas lidas em voz alta. Se o senhor Emerson achá-las frívolas, poderá retirar-se.”

Aquilo pareceu sutil a Cecil, e lhe agradou. Reduzira o convidado à condição de petulante. Um pouco mais calmo, sentou-se de novo.

“Senhor Emerson, vá procurar as bolas de tênis”, ela abriu o livro. Cecil devia ter sua leitura e tudo o mais que desejasse. Mas a atenção dela vagava para a mãe de George, que — de acordo com o senhor Eager — fora assassinada sob os olhos de Deus e — de acordo com o filho dela — avistara até o Hindhead.

“Devo realmente ir?”, perguntou George.

“Não, claro que não realmente”, ela respondeu.

“Capítulo dois”, disse Cecil, bocejando. “Encontre-me o capítulo dois, se não for muito trabalho.”

O capítulo dois foi encontrado e Lucy passou os olhos pelas frases iniciais.

Imaginou que tivesse enlouquecido.

“Vamos... Dê-me o livro.”

Ela ouviu a própria voz dizendo: “Não vale a pena ler... É bobo demais para ser lido... Nunca vi tanto lixo... Não deviam deixar imprimir isso”.

Ele tomou-lhe o volume.

“‘Leonora’”, ele leu, “‘estava sentada pensativa e só. Diante dela estendia-se o rico prado da Toscana, pontilhado de muitas vilas sorridentes. Era primavera.’”

De algum modo Lavish sabia e imprimira o passado em prosa arrastada, para Cecil ler e para George ouvir.

“‘Uma bruma dourada’”, ele leu, “‘... muito distante das torres de Florença, enquanto o aclive onde ela se sentara se recobria de violetas. Sem ser observado, Antonio aproximou-se por trás...’”

Com receio de que Cecil visse seu rosto, ela virou-se para George, e viu o rosto dele.

Ele leu: “‘Não adveio dos lábios de Antonio nenhuma asseveração prolixa das que costumam empregar os amantes formais. Ele não tinha o dom da eloqüência, mas esta não lhe fazia falta. Simplesmente enlaçou-a com seus braços varonis’”.

Fez-se um silêncio.

“Não é esta a passagem que eu queria”, ele informou. “Há uma bem mais engraçada, depois.” Virou as páginas.

“Não devemos entrar para o chá?”, perguntou Lucy, cuja voz não se alterou.

Ela conduziu-os pelo jardim, Cecil atrás dela, George por último. Pensou ter sido capaz de evitar o desastre. Mas, quando passaram pelas moitas, ele adveio. O livro, como se não tivesse causado mal o bastante, fora esquecido, e Cecil teve de voltar para pegá-lo; e George, que amava apaixonadamente, teve de prender-se a ela na trilha estreita.

“Não...”, ela arquejou, e, pela segunda vez, foi beijada por ele.

Como nada mais era possível, ele afastou-se; Cecil uniu-se a ela; o casal chegou sozinho ao gramado superior.