Um Quarto com Vista

E. M. Forster · Capítulo 4 de 24

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Um Quarto com Vista

Prefácio

 

Os ares de Florença

 

A literatura inglesa possui uma característica que certamente a diferencia das demais: a necessidade de estabelecer contatos diretos com o estrangeiro como forma de refletir sobre a própria condição. Pode-se alegar, para compreender essa marca, algumas explicações, todas possivelmente válidas e talvez complementares. Pincelo quatro: a história, a geografia, a cosmovisão, a política.

A história da conturbada formação das Ilhas Britânicas é a relação das levas de conquistadores — romanos, anglos, saxões, vikings, normandos —, cada um contribuindo com seu cadinho para a concretização de um modo de ser específico. Sua insularidade, protetora ao mesmo tempo que segregadora, provocou uma visão de mundo particular, calcada na experiência mais que na elucubração — ou, de outra maneira, na associação mais que na imaginação,

conforme palavras de um de seus maiores escritores, Laurence Sterne.[1] O Império Britânico, aquele onde o sol nunca se punha, empurrou seus cidadãos para os quatro cantos do mundo, influenciando e sendo influenciado pela cultura dos países que colonizava. Esse interesse por alheias paisagens — raramente encontrado em outros povos —, com todos os problemas que implica, perpassa as letras inglesas desde os primórdios.

Assim, podemos listar, apenas para efeito de curiosidade, alguns desses ficcionistas, tomados ao acaso: Daniel Defoe (1660-1731) com Robinson Crusoe,

e seu contemporâneo Jonathan Swift (1667-1745) com Viagens de Gulliver,[2] o citado Sterne (1713-1768) com Uma viagem sentimental através da França e da Itália; o grande aventureiro e exímio tradutor Richard Burton (1821-1890) e seu sucessor, T. E. Lawrence (1888-1935) de Os sete pilares da sabedoria; Somerset Maugham (1874-1965) e suas histórias sobre os mares do Sul; o problemático Rudyard Kipling (1865-1936) e sua visão colonialista da Índia; o militante Graham Greene (1904-1991) e os magníficos adotados Joseph Conrad (1857-1924) e V. S. Naipaul (1932). E, certamente, o grande E.(dward) M.(organ) Forster (1879-1970).

Forster escreveu quatro de seus seis romances[3] antes da Primeira Guerra Mundial (a exceção fica por conta de Uma passagem para a Índia, de 1924). O resto de sua vida dedicaria a escrever contos e ensaios, sendo o maior deles Aspectos do romance, de 1927, texto basilar para a teoria literária. Um quarto

com vista, escrito em 1903, publicado em 1908 [4] e transformado em filme em

1985,[5] caminha pela seara exposta anteriormente: a vida inglesa carrega algo de incompletude e será, neste caso, a Itália, mítica e real, o contraponto desse romance de final feliz.

O livro, dividido em duas partes, é uma narrativa tradicional, que nos remete aos melhores autores do século xix. Portanto, a força de Forster o leitor deve buscar não na técnica novelística mas no radicalismo de suas posições políticas, fruto talvez de sua identificação com o grupo de

Bloomsbury, do qual fazia parte.[6] Filho da classe média alta inglesa, estudou em Cambridge, morou vários anos na Itália, Grécia, Alemanha e Índia, aprofundando sua visão de mundo humanista liberal contrária à moral vitoriana da sociedade britânica — conservadora, tradicionalista, preconceituosa.

Um quarto com vista é a reconstrução do ano em que a ingênua e bem-comportada Lucy Honeychurch, uma garota filha de uma “inautêntica”

aristocracia rural[7] destinada a um casamento de interesse com Cecil Vyse, arrogante representante da aristocracia urbana londrina, toma consciência de si e se apropria do mundo que a cerca. Afirma o onisciente narrador que “algumas sonatas de Beethoven são escritas de modo trágico, ninguém pode negar; contudo, podem triunfar ou lançar ao desespero segundo a decisão do músico” — palavras que, em última instância, poderiam definir o próprio relato. Aqui, encontra-se em andamento o “choque entre culturas” — o refinamento pedante dos londrinos e a “falta de polimento” dos suburbanos; a ociosidade dos aristocratas e a classe média trabalhadora (representada por George Emerson, funcionário no escritório da Administração Geral de uma grande companhia ferroviária); o cinzento da vida inglesa e a luminosidade da Itália.

Toda a primeira parte (além do último capítulo da segunda parte) desenvolve-se em Florença. A pensão Bertolini, cuja dona, para agradar a seus hóspedes, nela reproduz um pedaço da Inglaterra — na parede “retratos da falecida rainha e do poeta laureado; o aviso da Igreja Anglicana” —, congrega alguns ingleses em férias, que mais tarde se reunirão nos arredores de

Tunbridge Wells,[8] onde decorre a maior parte da história. Na pensão, além de Lucy, tomamos contato com sua prima pobre e neurótica Charlotte Bartlett, que se investe do papel de “mártir prematuramente envelhecida”; o simpático

reverendo Arthur Beebe; os socialistas Emersons[9] (o pai, jornalista aposentado, e o filho George); as irmãs solteironas Alan; a escritora de livros água-com-açúcar Eleanor Lavish.

A senhorita Lavish encontra-se na Itália em busca de inspiração para o novo romance, cuja trama teria “amor, assassinato, rapto, vingança”: “Haverá uma grande dose de cor local, descrições de Florença e das cercanias, e também incluirei uns personagens engraçados. E deixe-me adverti-las: serei implacável com o turista britânico” — para quem a “estreiteza de espírito e a superficialidade” representam “uma ameaça”. A escritora, como que antecipando uma advertência a Lucy, explica que “não se vem para a Itália para coisas agradáveis; vem-se para a vida”.

E Lucy, que ainda reproduz preconceitos e estreitezas de sua classe social,

como desprezo pelo sotaque cockney[10] da dona da pensão, será arrastada para a vida... O acaso, que suscita uma acalorada discussão no capítulo doze, atuará sobre ela insuflando-lhe “novos pontos de vista”. Uma tarde, após comprar algumas gravuras na região da Piazza Signoria, presencia uma briga entre dois italianos, que culmina com um assassinato — por causa de “cinque lire”. Assustada, desmaia e é amparada por George Emerson, por quem nutre profundo temor — principalmente por não possuírem o mesmo status social e por causa dos arroubos socialistas do pai. George resgata as gravuras — que, por estarem manchadas de sangue, descarta nas águas do Arno — e mantém uma animada conversação, os cotovelos apoiados no parapeito do rio.

Mais tarde, numa desastrada excursão pelos arredores de Florença, organizada por um inglês residente na cidade, o reverendo Cuthbert Eager, George aproveita uma oportunidade e beija-a, sendo interrompido bruscamente por Charlotte. Constrangidas, Lucy e a prima combinam não contar o caso a ninguém — Lucy para não ter o nome maculado, Charlotte para não perder a confiança da senhora Honeychurch, que financia suas viagens — e se dirigem imediatamente para Roma.

A segunda parte transcorre em Windy Corner, a casa dos Honeychurches na rua Summer, nos arredores de Tunbridge Wells. Lucy aceita o pedido de casamento de Cecil, a quem conhecera em Roma, e iniciam-se os rituais preparatórios de visitas recíprocas de reconhecimento — e surgem as marcantes diferenças de ponto de vista. A sra. Honeychurch, sobre os Vyse: “[A senhora Vyse] é a favor de palestras e do desenvolvimento da mente; enquanto isso, uma grossa camada de pó se acumula sob as camas e podemos ver marcas de sujeira dos dedos das criadas quando acendemos a luz elétrica”. Cecil — para quem “tanto o cavalheiro rural quanto o trabalhador rural são, cada um a seu modo, os sujeitos mais deprimentes” — não esconde sua ojeriza pelo “hábito dos Honeychurches de ficarem sentados no escuro para não estragar a mobília”, encontrando eco na mãe, senhora Vyse: “[Lucy] está se livrando da mácula dos Honeychurches. Não está sempre citando os empregados ou pedindo aos outros a receita do pudim”.

Cecil, que “obtinha um prazer malicioso em frustrar as pessoas”, interfere, por pura provocação, num acerto entre Lucy e as irmãs Alan, para alugar uma villa vizinha da Windy Corner, intercedendo em favor dos Emersons, que conhecera, por acaso, numa galeria de arte em Londres, sem saber dos antecedentes que os ligavam à futura mulher. Assim, reacende a paixão de George por Lucy, que passa a confrontar o comportamento do futuro marido com a vida que deseja para si.

George passa a freqüentar a Windy Corner, amigo que se torna do irmão de Lucy, Freddy, e, aproveitando outra oportunidade, beija-a novamente, levando-a ao desespero. Lucy, que “até então havia aceitado seus ideais sem questioná-los — sua riqueza benigna, sua religião sem arroubos” e para quem “a vida, quando se dava ao trabalho de concebê-la, não passava de um círculo de pessoas ricas e agradáveis, com interesses idênticos e inimigos idênticos” —, vê-se atarantada, sozinha e traída por todos. Traída pelo egoísmo e pelo convencionalismo de Cecil, pelo oportunismo de George, pela prima Charlotte que, descobre, havia contado o incidente ocorrido nas cercanias de Florença para a senhorita Lavish, que o transpôs para o romance, publicado com o título “Sob a Loggia” e pseudônimo de Joseph Emery Prank.

Lucy resolve então tomar atitudes. Ao cobrar de George aquilo que considera oportunismo, ouve um discurso. Ele não só se recusa a se desculpar, como condena seu casamento com Cecil, um “tipo que não causa dano quando se atém às coisas, aos livros, aos quadros, mas destrói quando se aproxima das pessoas. É do tipo que atrasou um milênio o destino da Europa”. Os olhos abertos, ela rompe com Cecil, usando praticamente o mesmo argumento de George: “Você despreza minha mãe porque ela é convencional e preocupa-se com a sobremesa, mas, ah, céus, é você quem é convencional, pois pode entender as coisas belas, mas não sabe como usá-las; e esconde-se atrás da arte, dos livros e da música, onde tentará me ocultar também”.

No final, o leitor, novamente deslocado para Florença, percebe como Lucy está mudada, “mérito da Itália”, e se vê seduzido pela maneira como ela se colocou contra as conveniências de sua classe social, lançando-se à vida, longe do convencionalismo inglês, da rígida hierarquia da sociedade britânica e próxima da sua libertação, como mulher e como cidadã de um mundo em transformação.

Nesse Um quarto com vista, o próprio título uma metáfora da possibilidade de ver além, Forster coloca em movimento personagens que representam, à perfeição, as diversas camadas da sociedade inglesa. Corajoso, expõe com agudeza seus pontos de vista de humanista liberal, que, como afirma Otto Maria Carpeaux, “aprova e apóia as reformas sociais, mas não é capaz de se apaixonar pela luta de classes, porque a liga mais que a qualquer outra coisa às

relações pessoais entre os homens”.[11] Lucy representa a luta da mulher contra a sujeição social, o convencionalismo e a mentalidade retrógrada. E, se demonstra, como romancista, um perfeito equilíbrio na caracterização dos personagens — mesmo a Cecil dedica alguma compreensão —, é porque sabe que “a vida é fácil de narrar, mas espantosa de se praticar”. Talvez porque, ao contrário de Cecil, Forster, assim como o narrador, não despreze o método dos Honeychurches, que, “no último minuto, quando a máquina social estava perdidamente emperrada, um dos membros da família azeitava-a com uma gota de óleo”.

 

Luiz Ruffato