Visões da Morte

Gary Braver · Capítulo 2 de 10 · parte 2/3

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Visões da Morte

Maggie olhou para as im agens estupefata.…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

em aram aico.

A única coisa que poderia fazer sentido era a possibilidade de que, em

algum m om ento durante seus estudos, ele tivesse lido ou escutado um a

fita e isso houvesse se fixado em sua m em ória, consciente ou

inconscientem ente. Mas isso suscitava ainda m ais perguntas: onde poderia

ter encontrado um a gravação assim ? E, m esm o se ele tivesse encontrado,

por que Zack, que se orgulhava de ser um hum anista secular, ficaria

interessado nela? Ou guardaria de cor o pai-nosso no original? Isso sem

questionar o fato de ele ter m urm urado as passagens durante o com a.

Outra possibilidade era Nick. Durante o seu declínio, havia se tornado

um fanático religioso, talvez a ponto de ler a Bíblia em aram aico. Era

possível que, sem que ela soubesse, ele houvesse ensinado a Zack quando

esse ainda era criança.

Fosse qual fosse a explicação, Zack estava agora em um quarto

reservado, com um a equipe sigilosa e segurança perm anente – um arranj o

feito pelo hospital, que tem ia que Maggie processasse a instituição por violação do direito do filho à privacidade. Stephanie, a auxiliar de

enferm agem , havia sido dem itida por postar o vídeo.

Em bora a grande m ídia j á tivesse deixado a história de lado, na

Internet, grupos religiosos reclam avam pelo fato de estarem barrando as

pessoas no hospital, privando-as da cura divina. Fotografias de Zack ainda

circulavam , assim com o o vídeo. Havia tam bém um a foto de um a

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

indistinta m ancha de infiltração na parede acim a de seu leito, que diziam

ser o rosto de Jesus.

Para Maggie, parecia um a m ancha de infiltração. Um a insípida

m ancha de infiltração.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

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O anúncio da morte de Thomas Pomeroy estava nas páginas do obituáriona

form a de um longo artigo sobre o hom em e sua vida. E Rom an o leu com

interesse.

Pom eroy havia sido encontrado m orto em seu sofá da sala por um a

em pregada dom éstica. O relatório da autópsia afirm ou que ele m orrera de

‚parada cardíaca' – palavras que encheram Rom an de orgulho.

De acordo com o j ornal, Pom eroy destacara-se por seu papel no

desenvolvim ento ‚de im agens de ressonância m agnética (IRM) de alta

resolução. Em bora equipam entos de ressonância m agnética estivessem

disponíveis desde o com eço da década de 1980, a contribuição do doutor

Pom eroy aprim orou grandem ente os recursos de im agem para visualizar

os clusters individuais de células cerebrais, o que facilita o

acom panham ento do progresso dos tum ores cerebrais...'

Em seguida, os com entários de colegas e fam iliares sobre sua

inestim ável contribuição para a física m édica e a prática de diagnósticos

radiológicos. Todos os seus cursos em instituições renom adas e prêm ios

foram listados entre as suas realizações, e a m atéria inform ava tam bém

que o físico deixava um a filha e três netos em Phoenix, blá... blá... blá...

Rom an tom ou um gole de Red Bull, pensando em com o ele era bom

em seu ram o e com o não havia perdido o j eito após todos aqueles anos.

Ainda era capaz de despachar um suj eito sem escrúpulos nem piedade;

agora, então, tornara-se ainda m ais resoluto, j á que estava trabalhando para

um a causa m aior. Na verdade, a m aior. Com o o próprio São Miguel.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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No passado, Rom an m antinha o respeito profissional pela privacidade

do cliente. Ele raram ente sabia com quem estava negociando. Da m esm a

form a, nunca perguntava sobre a vida daqueles que liquidava. Não era

apenas desinteressado, m as tam bém achava que não era um a boa ideia

conhecer seus alvos. A curiosidade poderia enfraquecer sua determ inação

de m eter um a bala na cabeça de um cara que fosse treinador da Liga

Infantil e tivesse um a penca de filhos. Por outro lado, indagar sobre os

m otivos que levaram determ inado indivíduo a se tornar um alvo colocava

em perigo sua própria vida. Então, lidava com seu negócio na base do

anonim ato total.

Mas o serviço de Pom eroy com eçou a corroê-lo. Por que alguém iria

querer assassinar um fam oso físico m édico?

E por que alguém a serviço de Deus?

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Emma Roderick não conhecia Stephanie G lass pessoalmente, a auxiliar de

enferm agem que ela havia substituído, m as tinha ouvido falar sobre a

dem issão. Até outro dia, Em m a trabalhava em um a enferm aria de

gerontologia, onde a m aioria de seus pacientes sofria de dem ência e um rol

de doenças físicas associadas à idade avançada. Os pacientes da ala onde

trabalhava agora tinham m enos de 50 anos e estavam em vários estágios de

reabilitação de um a infinidade de problem as neurológicos – derram es,

aneurism as, ferim entos na cabeça, overdoses.

O que ela sabia era que, por ordem da adm inistração do hospital, Zack

Kashian havia sido transferido para lá a fim de que pudessem escondê-lo

da im prensa e do público, porque fanáticos religiosos haviam invadido seu

quarto na sem ana anterior, afirm ando que Deus estava falando por

interm édio dele e realizando m ilagres. Ela havia visto o vídeo do telefone

celular e não acreditava em nada daquilo que estavam dizendo sobre Zack. Assim com o seus pacientes com dem ência, o pobre rapaz balbuciara

sílabas sem sentido e as pessoas exageraram , afirm ando que aquilo era

obra de Deus; e a m esm a coisa podia ser dita em relação ao rosto de Jesus

na parede e a um a im agem da Virgem Maria vertendo lágrim as de sangue,

e ao ar denso com o perfum e de rosas.

Infelizm ente, as pessoas acreditam no que querem acreditar, Em m a

disse a si m esm a. Mas a dura realidade era que Zachary Kashian estava no

nível dois na Escala de Com a de Glasgow[5], ou sej a, ele provavelm ente perm aneceria em um sono profundo por um longo tem po, talvez até a

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a

m orte. Os assistentes sociais j á estavam conversando com sua fam ília

sobre a possibilidade de transferi-lo para um a clínica particular de

reabilitação.

[5]. A classificação pela Escala de Com a de Glasgow obedece a três critérios: resposta de abertura ocular, fala e capacidade m otora. (N. da T.)

Com o Em m a era novata, trabalhava norm alm ente no sacrificante

turno da noite, das 23 horas às 7 horas, e em feriados com o aquele, um

dom ingo de Páscoa, durante o dia.

Era m eio da tarde, e ela iria celebrar o feriado, naquele ano, à noite.

Seus pais foram m uito com preensivos, especialm ente sua m ãe, que

apreciou não precisar se levantar ao rom per da aurora para preparar a refeição – a tradicional perna de cordeiro e geleia de m enta caseira. Sua

irm ã e a cunhada levariam feij ão, batata gratinada, aspargos e cenouras,

além de um a torta com recheio de m orango e ruibarbo, a preferida de seu

pai.

– Pai.

Por um m om ento, Em m a pensou que ela havia pronunciado a sílaba

em voz alta sem se dar conta.

Virou a cabeça para a cam a, e um raio de eletricidade atravessou seu

peito. Os olhos de Zack Kashian estavam abertos e fitavam -na.

– Pai – ele sussurrou.

– Oh, m eu Deus! – ela engasgou, com o se o cara houvesse ressurgido

dos m ortos. – Espere. Espere... – disse ela, e saiu correndo do quarto para

cham ar Heather, a enferm eira de plantão, e Seth Andrew, o m édico

residente.

Quando retornaram , Zack ainda estava olhando para a frente.

Com o Heather havia estado naquela enferm aria por m uitos anos e j á

tinha visto outros pacientes acordarem do com a, ela im ediatam ente

assum iu o com ando.

– Oi, Zack. Meu nom e é Heather e sou a sua enferm eira. Este é Seth,

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a

o seu m édico, e esta é Em m a. Você pode m e ouvir?

Zack olhou para ela, m as não respondeu.

– Zack, quero que você m e escute, ok? – Ela se m ovim entava de um

lado para o outro para determ inar se ele a estava acom panhando. Ele

estava. – Bom , Zack. Sei que é confuso para você, m as quero que m e diga

o seu nom e.

Por incrível que pareça, Zack olhou diretam ente para Heather e disse

em um a voz áspera pelo desuso:

– Zack.

– Isso é ótim o. Agora m e diga seu nom e com pleto, o sobrenom e

tam bém .

– Zachary Kashian. – Então, ele revirou os olhos para Em m a. – Onde

está o m eu pai?

Em m a tentou controlar a trem edeira.

– Seu pai? – perguntou com um a vozinha esganiçada.

– Ele estava aqui.

– Não havia m ais ninguém aqui – disse Heather.

– Eu acho que você estava sonhando – disse o doutor Andrew.

– Não. Ele estava aqui. – Zack fechou os olhos novam ente e virou a

cabeça.

– Zack! – Heather gritou. – Abra os olhos. Por favor, abra os olhos de

novo.

Zack não respondeu.

– Zack – disse o doutor Andrew –, não se assuste, m as você está em um hospital. Você sofreu um acidente que o deixou inconsciente por um

tem po. Mas você está m uito m elhor, e a grande notícia é que você

acordou.

Zack entreabriu os olhos novam ente. E o doutor Andrew foi rápido em

capturar seu olhar.

– Zack, olhe para m im , ok? Mova os pés.

Os seus pés, ainda com os tênis novos, apontavam para o alto no final

da cam a. Zack m ovim entou-os de um lado para o outro, batendo-os.

– Bom trabalho. Isso é fantástico. Agora, eu quero que você m e diga

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a

onde você m ora.

– Magog Woods.

– Onde?

Em m a sabia, pelo prontuário, que ele vivia em Boston, perto

do cam pus da Northeastern University .

– Magog Woods.

– Onde fica isso? – Heather perguntou.

Zack fechou os olhos novam ente.

Com um a voz enérgica, Heather disse:

– Zack, abra os olhos. Vam os lá, m antenha-os abertos e fale com igo.

Diga-m e onde você frequenta seu curso.

Nenhum a resposta.

– Zack – o m édico disse –, você sofreu um acidente de bicicleta e foi

trazido para o hospital. Você se lem bra disso?

– Areia.

– Areia? O que tem a areia? Você derrapou na areia? Fale-m e a

respeito disso. Zack, por favor, abra os olhos. Você não pode voltar a

dorm ir novam ente. Por favor. Você está indo m uito bem .

– Bati a cabeça. – Ele abriu os olhos.

– Você bateu a cabeça? Diga-m e do que você se lem bra, Zack. Diga-

m e com o você bateu a cabeça.

Fechou os olhos de novo e rolou a cabeça para o lado.

– Vam os, Zack, abra os olhos. Você não pode adorm ecer novam ente.

Diga-m e com o você bateu a cabeça. Será que caiu da sua bicicleta?

Mas Zack m antinha os olhos fechados, e Heather e o m édico

continuavam tentando convencê-lo a abri-los outra vez, tem endo que ele

m ergulhasse no com a novam ente.

Mas, depois de alguns segundos, seus olhos se abriram de novo. Ele

olhou para os braços com o soro e a m edicação, os m onitores ligados ao

seu peito, os tubos ao longo de seu corpo correndo para bolsas e os

cateteres de alim entação, e então disse:

– Há quanto tem po estou assim ?

– Bem , algum as sem anas.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

Zack olhou para Heather sem expressão, m as sua m ente avaliava o

que a enferm eira acabara de lhe dizer. Estrem eceu e fechou os olhos

novam ente.

Ela se aproxim ou.

– Zack, m antenha os olhos abertos.

– Ele está aqui – Zack sussurrou.

– O que foi? Quem está aqui?

Mas Zack voltou a dorm ir.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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Às oito horas da manhã seguinte, a enfermeira Heather entrou no quarto de

Zack.

– Oi, Zack, com o você está?

– Ok.

– Pronto para receber visitas? – Heather estava radiante. – Sua m ãe

está aqui para vê-lo.

Várias horas se passaram desde que Zack despertara. Sentia-se m ais

concentrado e m enos cansado. Mantinham -no acordado bom bardeando-o

com perguntas para avaliar suas funções cognitivas. Dem orou um pouco

para ele se conform ar com o fato de que estivera em com a por doze

sem anas, que havia perdido as férias de prim avera e o Cam peonato de

Basquete Universitário, para não m encionar os quase três m eses de

trabalho perdidos em sua dissertação, cuj o prazo final era 1o de abril (teria

de pleitear um a extensão). O que o surpreendeu foi com o perdera quase

vinte quilos em tão pouco tem po. Ainda m ais surpreendente era o seu grau

de fraqueza. Levantar os braços era um esforço. Mas as enferm eiras

disseram que isso era natural, e com o ele era j ovem , estaria de volta ao

norm al após um as poucas sem anas de fisioterapia.

A enferm eira Heather ergueu um pouco a cabeceira do leito e deu-lhe

alguns goles de suco de laranj a. Em um dia ou dois, rem overiam o tubo de

alim entação para que ele pudesse com er norm alm ente, com eçando com

purês e m ilkshakes.

– Não vam os exagerar na duração das visitas para não cansá-lo dem ais.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

Está pronto?

Ele balançou a cabeça concordando.

– Mande-a entrar – disse ele, um pouco receoso em ver sua m ãe, pois

ela era um a m ulher em otiva.

Heather saiu e, m om entos depois, retornou com a m ãe dele. Quando

a viu entrar, a prim eira coisa que Zack percebeu foi que ela havia perdido

peso. Vestia calça verde-clara, um suéter branco e o colar que ele lhe dera

no últim o Natal. Raram ente se pintava, m as, naquele dia, havia se

m aquiado.

– Oi – disse ele, num a voz rascante.

Por um m om ento, ela ficou parada na porta congelada. Em bora sua

m ãe provavelm ente houvesse m antido constante vigília à sua cabeceira,

Zack fazia ideia de com o ela o estava vendo naquele m om ento:

esquelético, com a cabeça toscam ente raspada, m acilento, com escaras e

cicatrizes, braços finos com o vassouras. Sorriu o m elhor que pôde e

estendeu-lhe a m ão. Ela com eçou a chorar e foi até o filho, tom ando-lhe a

m ão. Ele estava fraco, m as esforçou-se para apertar-lhe os dedos.

Soluçando e tentando sorrir, ela disse:

– Graças a Deus. Eu am o você – ela sussurrou.

– Tam bém am o você – sua voz estava rouca.

A enferm eira aj udou-a a se acom odar em um a cadeira ao seu lado. Ela

apertou a m ão dele enquanto tentava se recom por, enxugando o rosto com

lenços de papel.

Zack sabia que a m ãe sentia certo grau de culpa – não apenas a

incutida por sua form ação católica rom ana, m as algo que ela carregava

com o um a febre baixa. Ou um sentim ento m aterno por não protegê-lo m elhor. Era m ais profundo. Por algum a inefável razão, ela acreditava que

Zack a culpava por Nick tê-lo abandonado. Isso era totalm ente irracional.

A m orte de Jake causara isso, não Maggie.

Ela tom ou a m ão de Zack, agora chorando de alegria.

– Foi vingança do Menino.

– O quê?

– O prefeito. Eles m e disseram que bati num buraco.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

Quando ela recuperou o controle, disse:

– Você não deveria ter ido andar de bicicleta tão tarde. E sem

capacete.

– Mãe, eu estava a poucos quarteirões de distância de onde m oro. Eu

só não vi o buraco.

Ela beij ou-lhe a testa.

– Graças a Deus você está bem .

– Mas eu dorm i um bocado.

– Sim , por 86 dias.

– Mas quem estava contando? – Ela se inclinou e beij ou-o na

bochecha e na testa. E ele podia sentir as lágrim as pressionando os seus

próprios olhos.

Quando ela se instalou na cadeira novam ente, disse:

– Boas notícias. O seu orientador de dissertação deu-lhe um a

prorrogação de seis m eses. Portanto, acabou-se a pressão. Não é ótim o?

– Isso significa que irei m e form ar em j aneiro. Não em j unho.

– Podem os viver com isso. – Ela sorriu e beij ou-o novam ente.

– Acho que ouvi você falando com igo enquanto estava dorm indo.

– Foi?

– Você sem pre m e dizia para abrir os olhos. Mas, cada vez que eu

tentava, entrava areia neles. Acho que você tam bém m e pediu para lim par

m eu quarto e colocar o lixo para fora.

Ela riu e apertou a m ão dele.

Zack podia sentir o carinho naquele contato. Era bom . Foi um alívio

vê-la rir de novo. Com o devia ter se consum ido de m edo e tristeza nos

últim os três m eses... Por isso, ele resolveu naquele m om ento que, quando

estivesse fora do hospital, passaria m ais tem po com ela, iria aproxim ar-se,

esforçar-se para tornar sua vida m elhor. Ela tinha sofrido m uito nos

últim os dez anos.

– Eu tam bém tinha sonhos com o papai. – Com o ele tem ia, a m era

m enção do pai fez com que ela fechasse o sorriso.

– Sonhos? Que tipo de sonhos?

– Principalm ente sobre Sagam ore Beach, acho.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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Maggie assentiu com a cabeça, tentando parecer inte- ressada.

– Era tão real... até a neblina pesada. Estou surpreso que a cam a não

estej a toda m olhada.

Ela não disse coisa algum a, apenas ficou olhando para a agulha do

soro nas costas da m ão dele.

– Acho que m eu pai estava lá, m as eu não podia vê-lo, apenas sentia

que ele estava lá. Foi estranho.

– Bem , você estava em com a.

Ela não disse m ais nada e desviou o olhar, provavelm ente pensando

em com o aquilo era a cara de Nick: estar m ais ou m enos em um lugar. Ela

nunca o perdoou por deixá-los e depois m orrer, e agora Zack estava

sonhando com ele. E ele sabia que a m ãe se ressentia disso. Tê-la

abandonado quando ela estava tão m al. Tê-la abandonado quando ela m ais

precisava. Entretanto, Zack se lem brava do pai com o um hom em tranquilo

e reservado, que tam bém era terno e am oroso. Ele j am ais perdera um a

única partida de futebol de Zack ou os j ogos da Liga Infantil de Jake. E ele

aplaudia com grande entusiasm o e orgulho de seus garotos.

Mas a m orte de Jake m udou-o profundam ente, sugando a vitalidade

de sua alm a, deixando-o um a casca de seu antigo eu, que m al conseguia se

com unicar. Na época em que ele e Maggie se divorciaram , sua depressão o

deixara irreal. Ele havia se m udado para um apartam ento em Waltham

para ficar m ais perto da em presa de engenharia em que trabalhava. Foi quando Zack ainda estava no colégio, m as se esforçando para entrar na

faculdade, com um a carga de estudos preparatórios m uito pesada. Depois

disso, Nick anunciou que tinha deixado o trabalho para se tornar um

m onge leigo nas m ontanhas Berkshire, tornando seu retiro perm anente. E,

para todos os efeitos práticos, o pai de Zack estava m orto.

Na essência, Zack ainda o am ava – ou am ava algum a versão anterior

dele. Mas ele m al se lem brava de sua aparência. Nunca dissera à sua m ãe,

m as, durante seus anos de escola, Zack inventava histórias sobre ele –

coisas legais com o ele viaj ar por todo o m undo com o fotógrafo profissional,

ou praticar m ergulho na Austrália e na Papua-Nova Guiné. Chegou a

afirm ar, certa vez, que seu pai havia desaparecido durante um a

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

tem pestade, tentando pousar em Tonga. Isso só term inou quando Zack

entrou na faculdade. Nessa época, seu pai j á havia m orrido de verdade. E

os únicos indícios de que ele algum dia fizera parte de sua vida eram

algum as fotos e a urna sobre a lareira.

– Eles provavelm ente irão lhe contar m elhor, m as, quando você

acordou, cham ou por ele.

– Cham ei? – Zack ficou surpreso, m as podia ver que a m ãe ficara

m agoada com isso.

– Você tam bém andou recitando algum a coisa, outro dia, enquanto

estava em com a.

– Recitei algum a coisa?

– Um a oração em aram aico.

– Aram aico? Você deve estar brincando.

– Você conhece um pouco de aram aico?

– Não, e com o poderia? Isso não é um a língua m orta?

Ela tirou o celular da bolsa, pressionou algum as teclas e depois virou o

visor em sua direção. Lá estava ele deitado na cam a, com os olhos

fechados, m as m ovendo-se sob as pálpebras. Seus lábios brilhavam com

um bálsam o hidratante, e com um a voz estranha e gutural ele m urm urava

algo totalm ente ininteligível, m as que soava com o ritm o e o padrão de

um a língua real. A gravação durou cerca de um m inuto; então, ele parou

de m urm urar e retornou ao estado com atoso, com o se nada tivesse

acontecido.

– Eu não sei o que é. Essa nem m esm o é a m inha voz.

– Eu sei. O que torna a coisa ainda m ais estranha. Mas um

especialista em línguas confirm ou que você estava falando em aram aico.

Na verdade, o pai-nosso. Talvez você o tenha m em orizado para um a prova

ou algo assim ?

– Eu m e lem braria disso. E que tipo de curso seria esse? – De

repente, ele sentiu um cansaço esm agador.

– Talvez o seu pai tenha ensinado a oração para você quando criança.

– Talvez.

Ela fez um gesto de pouco caso com a m ão.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

– Tanto faz. A enferm eira quer que você descanse um pouco. – Ela o

beij ou na testa. – Am o você.

– Am o você, tam bém . – Ele a observou sair da sala, vencido pela

fadiga. A últim a coisa que queria era m ergulhar novam ente no sono e nos

sonhos.

Mas, felizm ente, ele caiu em um profundo vazio pelas seis horas

seguintes.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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18

Matar em nome de Deus tirava toda a pressão. Nada de problemas de

consciência ou m oralidade. Nada de se preocupar com um a vida após a

m orte ruim . Além disso, era um a form a de lucrar praticando o bem ,

j ustam ente com o o Padre X havia dito.

Um a sem ana depois de despachar Thom as Pom eroy , Rom an Pace

recebeu outra cham ada no celular seguro. Com a m esm a voz suave, o Padre X disse que tinha outro serviço. Outro servo de Satanás. Será que

ele aceitaria a m issão? Sim . Pela m esm a quantia? Sim .

A vida era boa.

Rom an foi instruído a dirigir até o estacionam ento do Shopping

Burlington, às 8h15 da m anhã, onde, na base de um determ inado poste de

luz, ele iria encontrar um pequeno saco contendo outro pagam ento e outro

telefone celular, que ele teria de atender quando tocasse, às 8h20. Com o o

outro aparelho, aquele tam bém era seguro. Mesm o assim , era preciso

rem over a bateria e descartá-la separadam ente do telefone para evitar

rastream ento.

Precisam ente às 8h15, Rom an dirigiu-se para o estacionam ento, que

era am plo e encontrava-se vazio àquela hora. Avistou um carro da

segurança deslocando-se na direção oposta, o que significava, portanto,

que quem o havia contratado sabia que ele não seria notado ao estacionar

perto do poste para apanhar o saco de papel pardo.

Nele havia dinheiro, três m aços separados de notas de cem , e outro

celular. Minutos depois, o telefone tocou: era o Padre X querendo a

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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confirm ação de que Rom an fizera a coleta. Rom an então partiu,

corroendo-se de curiosidade para saber qual era o m otivo de um hom em do clero ter lhe adiantado m ais 15 m il para liquidar outro cientista.

Dessa vez, seria a doutora LeAnn Cola, do Departam ento de

Neurologia do Dartm outh-Hitchcock Medical Center, em Lebanon, New

Ham pshire. Sua m orte deveria parecer acidental e sem sem elhanças com a

de Pom eroy . De acordo com sua biografia, Cola era divorciada e vivia com

sua filha de 15 anos. Não possuíam anim ais de estim ação porque a filha

era asm ática.

Antes de voltar para casa, Rom an violou o protocolo e ligou de volta.

– Nunca fiz o serviço em m ulheres antes, por isso, só estou querendo

saber sobre ela.

– Não posso entrar em detalhes, m as basta dizer que, aos olhos do

Senhor, ela com eteu atos de abom inação contra o próprio céu.

– Pode m e dar um a pista do que foi?

– Não, sinto m uito. Mas tenha certeza de que você agradará a Deus

com esse serviço.

O núm ero 147 da Forest Street, em Cobbsville, New Ham pshire, era

um a fortaleza de tij olos aninhada entre arbustos em um a rua tranquila, de

gram ados viçosos. As luzes da casa vizinha estavam todas apagadas. A casa

do outro lado estava escondida pela vegetação. Em frente a elas só havia

um parque natural. Quase perfeito.

Rom an estacionou na rua e esperou duas horas até as luzes da casa se

apagarem , e m ais outra hora para ter certeza de que m ãe e filha estavam

dorm indo. Era um a noite de prim avera excepcionalm ente quente, o que

fazia com que desej asse ligar o ar-condicionado, m as isso poderia cham ar a atenção. Por isso, ficou ali esperando no interior quente do veículo,

lem brando-se de que, alguns m eses atrás, fora salvo da m orte para

executar aquela m issão. Não havia sido m era sorte: Deus o am ava tanto

que interveio, dando a Rom an outra chance. Foi com o se Deus estivesse

dizendo ‚Você pode se redim ir fazendo algo para m im '. E aquilo era esse

algo. E até m esm o um a m ulher poderia ser um a abom inação contra Deus.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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Rom an saiu do carro silenciosam ente e foi para os fundos da casa.

Havia quatro quartos no segundo andar; dois deles tinham aparelhos de ar-

condicionado que estavam liga- dos. Perfeito.

Mas não havia ar-condicionado na sala de estar no térreo, onde um a

j anela telada estava aberta apenas alguns centím etros. Ele enfiou a lâm ina

de seu canivete em baixo da m oldura, sol- tou-a e levantou a j anela.

Nenhum alarm e na j anela e nenhum sensor de m ovim ento na sala.

Sem pre o surpreendera com o a m aioria das pessoas m antinha-se tão

vulnerável. Um a neurologista m orando sozinha com a filha. Seria de se

im aginar que ela instalaria um sistem a de alarm e ou pelo m enos teria

trancas nas j anelas.

Saltou dentro da saleta íntim a, onde estofados m odulares encaravam

um a TV de tela plana. Tudo estava quieto. Ele passou por um corredor que dava na cozinha. Não havia sensores de m ovim ento em lugar algum ou

um painel de alarm e. Mas ele notou um reluzente fogão a gás de seis

bocas. Dirigiu-se para a frente da casa e para a escada que levava ao

segundo andar.

No topo, havia um a porta com um a placa: ‚Quarto de Victoria'. A

filha. Em frente, o quarto principal. Ele abriu um a frestinha na porta do

quarto da filha. À luz alaranj ada de um a lâm pada de lava distinguiu a

silhueta da garota adorm ecida de costas. De um a j anela à esquerda, o ar-

condicionado resfriava o am biente. O que era bom , porque a garota dorm ia

debaixo de vários cobertores, e o aparelho abafaria os sons.

Mas prim eiro a m ãe.

Ele fechou a porta e cam inhou para o quarto principal. O único ruído

vindo de lá de dentro era de outro aparelho de ar-condicionado. Abriu a

porta. A m ulher estava dorm indo em um a cam a king-size, à direita. O ar-

condicionado soltava seu sopro gelado de um a j anela à esquerda. Fechou a

porta e, à luz am biente, deslocou-se até a lateral da cam a da m ulher. Ela

roncava ligeiram ente.

Tapou-lhe a boca com a m ão enluvada e colocou a arm a em sua

cabeça.

– Acorde.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

Continuar: parte 3 de 3