A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 5 de 9 · parte 3/5

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A arte da política: a história que vivi

Nessas ocasiões o governo m ede suas…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Tive que seguir viagem para a Espanha. Levei na com itiva m inhas netas m ais velhas, as gém eas Joana e Helena, na época adolescentes. Visitas de Estado são revestidas de pom pa, m esm o que o obj etivo estej a m ais no estreitam ento de relações entre países do que na solução de problem as específicos, norm alm ente discutidos em visitas oficiais - e realizei várias à Espanha durante m eu governo. Desem barcam os em Madri e nos conduziram ao Palácio de El Pardo, destinado aos hóspedes oficiais. Ali apresentei m inhas netinhas ao Rei Juan Carlos, com quem sem pre m antive excelentes relações, houve um a pequena cerim ônia e revista a um a guarda de honra. A solenidade principal seria no dia seguinte: um banquete de honra no Palácio Real, no centro de Madri, presidido pelo Rei e pela Rainha Sofia.

À noite, j antam os com a com itiva na em baixada do Brasil. Durante o j antar telefonam do Brasil. Ana Tavares atende e m e inform a que Luís Eduardo tivera um enfarte. Ligo im ediatam ente para António Carlos em Brasília. ACM parecia relativam ente calm o e controlado, Luís Eduardo, disse, passa bem e se recupera. Mesm o assim , não pude deixar de preocupar-m e. Estava am argurado pela m orte de Sérgio e, agora, surgia um problem a sério com o m eu outro operador político por quem nutria um sentim ento de irm ão m ais velho. O j antar se encerrou e voltam os a El Pardo, De m adrugada, o aj udante-de-ordens m e despertou com a notícia terrível: Luís Eduardo tinha m orrido.

Fiquei atónito, principalm ente porque ACM m e tranqüilizara sobre o estado do filho. Não bastasse a pancada afetiva e política que isso representava, tínham os pela frente um em baraço diplom ático: era evidente que eu precisava voltar ao Brasil e abortar a visita de Estado, conform e m e lem brava com insistência, entre outros, Ana Tavares, Com seu agudo espírito j ornalístico, m e alertava para a hecatom be que representaria aparecerem sim ultaneam ente, na m ídia, o noticiário sobre a m orte de Luís Eduardo, no Brasil, e fotos de eu brindando com o Rei, em Madri, O chanceler Luiz Felipe Lam preia, que integrava a com itiva, assum iu a frente das tratativas com a diplom acia espanhola. Naturalm ente um a situação dessas é delicada, porque em lugar nenhum do m undo pareceria natural a necessidade de um Presidente voltar abruptam ente a seu país devido à m orte de um deputado. Com o pode 317

riam saber a profundidade de m inhas relações com Luís Eduardo e sua im portância para o governo? Os espanhóis, contudo, revelaram -se com preensivos, e interrom peu-se a visita.

Rum am os diretam ente para Salvador, onde o corpo de Luís Eduardo estava sendo velado e seria sepultado. A com oção na capital da Bahia era tal que m e lem brou outra tragédia, a m orte de Tancredo. Um a m ultidão colossal acom panhou o corpo ao cem itério. O senador ACM, fora de si diante da m orte do filho dileto e herdeiro político, parecia ter perdido a alm a: a exuberância física se fora, envelhecera anos em um dia, chorava sem parar. Um a tristeza enorm e m e invadiu. Vieram -m e à lem brança, em flashes, sucessivas im agens do político sim pático, elegante e bem apessoado de quem m e tornei am igo durante a Constituinte, apesar de eu ser 24 anos m ais velho e estarm os, na ocasião, em cam pos políticos opostos. Integrante do Centrão, Luís Eduardo um dia m e brindou com um cum prim ento:

- Ah, senador, se tivéssem os alguém com o o senhor do nosso lado... Eu lam entava a perda do am igo e tam bém do político j ovem m as j á m uito hábil, que sem pre preferia o entendim ento ao confronto e que tanto aj udara na aprovação de reform as im portantes para o país. Com sua partida, dois dias depois de perderm os Sérgio, sentia-m e desalentado e só. Quando ACM regressou a Brasília, ainda arrasado, Marco Maciel e eu fom os estar com ele na casa oficial do presidente do Senado, no Lago Sul, onde se reunira toda a fam ília, inclusive a m ãe de Luís Eduardo, dona Aríete, a viúva, Michelle, e os três filhos. Num a pequena sala, reservada, sentam o-nos os três. Marco e eu procurávam os, de algum a form a, confortá-lo. O senador, m ostrando grande com oção, bateu a m ão em m inha perna e disse:

- O Luís m orreu, agora é o senhor... Seu gesto de voltar da viagem m e deixou extrem am ente com ovido. Serei perm anentem ente grato. Sua atitude m e tocou. Não soube interpretar exatam ente o que ACM quis dizer com "agora é o senhor". Mas senti profunda sinceridade no senador. Isso não evitou que, m ais tarde, tivéssem os sérios desentendim entos. O vazio im enso representado pela ausência de Sérgio e Luís Eduardo não tardaria a se refletir na ação do governo. Não podendo m ais contar 318

com eles no prosseguim ento das reform as e nas negociações da pauta legislativa, logo em m aio, perdem os por apenas um voto um aspecto crucial da reform a da Previdência, a definição de idade m ínim a para a aposentadoria. Para um a agenda legislativa tão im portante quanto difícil, que abrangia a reform a da Previdência e várias outras em discussão, e com um a oposição tão anacrônica e irada, tanto as alianças partidárias com o as ações de líderes verdadeiros eram im prescindíveis. Na leva de alterações no governo a que m e referi anteriorm ente, eu substituíra Eduardo Jorge por Eduardo Graeff na Secretaria-Geral da Presidência porque o prim eiro, cansado de tantas pressões e do bom bardeio até de fogo am igo, fazia tem po queria se afastar do governo. Ele exercia um a função, reconheço, ingrata e desgastante, principalm ente por se constituir em um a barreira sólida, com o de fato era, a um aluvião de interesses fisiológicos, de dentro e de fora da m áquina pública - por nom eações, por ação j unto a fundos de pensão, por negócios de todo tipo com o governo. Isso lhe custou aborrecim entos sem conta, inclusive gravações clandestinas de telefonem as seus. Servidor de carreira há m uitos anos, chegou a m e confessar estar com "horror" da vida pública. Um dia, desabafou, referindo-se à resistência a pressões que opunha no dia-a-dia:

- O senhor não im agina o que é isso aí, Presidente. É tentativa de assalto para todo lado.

Não se interessou por um posto que insisti para que aceitasse: um a vice-presidência do BID, em Washington, para a qual era plenam ente qualificado. Acabou pedindo para sair do governo, e saiu. Logo após a m orte de Sérgio e de Luís Eduardo, porém , procurou-m e:

- O senhor vai m esm o ser candidato? Respondi:- Que alternativa eu tenho a essa altura?

Eu j á estava convencido, então, de que o segundo m andato seria fundam ental para consolidar conquistas alcançadas a duras penas no prim eiro - um período em que tentaríam os aprovar m udanças im portantes com o a LRF e am pliar e fortalecer a rede de proteção social, para ficar em apenas dois exem plos. Eduardo Jorge, diante de m inha disposição de candidatar-m e novam ente, prontificou-se a colaborar com igo. A m im vinha a calhar, face à necessidade de ter alguém de confiança para coor

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denar operacionalm ente a cam panha eleitoral. A coordenação política coube a Euclides Scalco. Eduardo Jorge, ao contrário das insinuações m alévolas freqüentes, nunca desem penhou funções de "tesoureiro" da cam panha, m as sim de controllery ou sej a, a pessoa encarregada de supervisionar o fluxo de despesas, verificar se é com patível com a receita obtida e autorizar gastos. A com issão encarregada de coletar recursos para a vitoriosa cam panha da reeleição foi presidida novam ente por Luiz Carlos Bresser-Pereira. O segundo m andato e a gangorra PMDB-PFL Descrevo no Capítulo 5 - "Pedras no cam inho: as incertezas da econom ia”- as condições econôm icas adversas nas quais ganhei as eleições de 1998 e, m ontei, em j aneiro de 1999, o novo governo. Quando eleitores e opinião pública em geral esperavam um Ministério "de grandes nom es” (diga-se de passagem , nem sem pre os m ais eficazes para m over a m áquina adm inistrativa), eu m e preocupava em ter um a equipe com apoio político e capacidade de influenciar o Congresso a aprovar as m edidas de aj uste fiscal. É preciso adm itir que o Congresso, com exceção da decisão tom ada em dezem bro de 1998 contrária à contribuição dos inativos para a Previdência, que tanto nos custou em term os de repercussão internacional, m ostrou-se célere e deu ao governo os instrum entos necessários para ultrapassar as dificuldades financeiras. E tam bém é de j ustiça reconhecer que as presidências da Câm ara e do Senado, da m esm a form a com o os líderes parlam entares, se desdobraram para fazer face ao desafio, que era de grandes proporções. As dificuldades financeiras e, em seguida, as políticas tornaram 1999 o ano de m aior instabilidade m inisterial em m eu governo. Não sendo um ano eleitoral, era de esperar que depois de definido o Ministério houvesse calm a para adm inistrar. Mas não. No princípio, pelas razões j á indicadas, reforcei os laços com o PPB, indicando Francisco Dornelles para o Ministério do Trabalho, pasta m ais política, e reequilibrei as relações com o PFL, algo esgarçadas desde o últim o arranj o que fortalecera o PMDB. Troquei o m inistro de Minas e Energia porque, a despeito de estar satisfeito com o trabalho do titular, Raim undo Brito, as forças m aj oritárias do

PFL baiano desej avam ver nom eado Rodolpho Tourinho, ex-secretário de Finanças, com prestígio nas áreas técnicas do governo federal. Isso resolvido, para atender ao regionalism o e às correntes internas do partido havia que designar alguém do Sul para o tim e. A indicação do PFL recaiu no ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca, para a ex-pasta de Esporte, reconfigurada com o Ministério do Esporte e Turism o. Apesar de m inhas ponderações quanto à pouca experiência nacional de um deputado recém -eleito com o ele, Jorge Bornhausen, Marco Maciel e ACM insistiram .

Faltava com pensar o Nordeste pefelista. Escolhi o deputado José Sarney Filho (PFL-MA) para m inistro do Meio Am biente (depois de cogitar a nom eação do com positor e cantor Gilberto Gil), não só pelas conexões políticas óbvias com o porque tinha o apoio de grupos am bientalistas (de fato, desem penharia suas funções a contento). Nom eei ainda, para a Caixa Econôm ica, Em ílio Carazzai, ligado a Marco Maciel e hom em de vasta experiência na adm inistração federal -ocupara postos de responsabilidade nos Ministérios da Fazenda e da Agricultura -, para dar um sinal de que prestigiava m eu Vice, com panheiro im pecável. Com petente, Carazzai não era filiado a partidos. Não obstante, no início houve resistências nas áreas técnicas do governo, ante m inha diretriz de não subm eter às inj unções partidárias nom eações nos órgãos financeiros. Quando perceberam a qualidade do indicado, o sentim ento m udou com pletam ente. Resolvi tam bém que a Pim enta da Veiga caberia o com ando do Ministério das Com unicações. Eu havia cogitado de Pim enta para a coordenação política do governo, m as apareceram restrições do PMDB. Tal com o no prim eiro m andato, queria ter nas Com unicações alguém percebido com o de m inha confiança pessoal e im aginei que Pim enta pudesse seguir a linha de Sérgio Morta, que se fortaleceu politicam ente sem com prom eter as decisões técnicas do órgão. Os dem ais m inistérios tam bém foram preenchidos por critérios pessoais: o da Com unicação Social atribuí a Andréa Matarazzo, que, além da vivência com o em presário, ocupara posições na adm inistração paulista e sem pre colaborou com o governo. Para o Desenvolvim ento, Indústria e Com ércio designei Celso Lafer, que vinha exercendo as funções de em baixador j unto à OMC, e para o Ministério de Ciência e Tecnologia desloquei Luiz Carlos Bresser-Pereira. Transform am os o antigo Ministério da Adm inistração e Reform a do Estado com an

dado por Bresser em Secretaria de Adm inistração e Patrim ónio, subordinada ao Ministério do Planej am ento, e dela se ocupou Cláudia Costin, doutora em Políticas Públicas pela FGV e funcionária de carreira da área da Fazenda. Para a Secretaria de Assistência Social no Ministério da Previdência nom eei Wanda Engel, geógrafa e especialista em educação e na área de com bate à pobreza, ex-secretária da área social do prefeito César Maia (PFL) no Rio de Janeiro, que teve papel im portante na redefinição dos program as sociais, com o j á antes sua antecessora, deputada Lúcia Vânia (PSDB-GO). Ainda criei um a Secretaria de Desenvolvim ento Urbano para a qual transferi Sérgio Cutolo, que deixava a Caixa Económ ica, onde realizou esplêndido trabalho de m odernização e m oralização antes da gestão de Carazzai. Cabe registro à parte sobre o Ministério da Defesa. Depois de longas tratativas afinal, o tem a por décadas esteve em aberto na vida institucional brasileira -, finalm ente, criam os o Ministério, há m uito devido. Não o fizem os por m odism o e m enos ainda por pressão norte- am ericana, com o chegaram a insinuar certos críticos. Sim plesm ente não tinha m ais sentido, dado o avanço institucional do Brasil e a necessidade de racionalização e entrosam ento entre as Forças Arm adas, m antê-las sob a égide de m inistérios distintos e m esm o distanciados. Não houve qualquer resistência m ilitar à idéia de que o m inistro fosse civil. Talvez preferissem pessoa de prestígio, m as não ligada a outras corporações do Estado. Por isso, em bora tivesse cogitado de convidar o em baixador Ronaldo Sardenberg, destacado quadro do Itam araty, desisti da idéia. É provável que os m ilitares ficassem agradados com a designação do Vice-Presidente Marco Maciel para exercer a função, m as m e pareceu desarrazoado, em tese, nom ear alguém que em caso de substituição poderia causar um a dificuldade institucional. O nom e de Élcio Álvares, líder do governo no Senado, m e foi lem brado pelo m inistro da Marinha, alm irante Mauro César, com bons argum entos: tinha prestígio e condições de lutar por m elhores verbas orçam entárias para as Forças Arm adas. Infelizm ente Élcio não pôde perm anecer m uito tem po, sobretudo devido ao desgaste político provocado por um a assessora de alto escalão que criou arestas com chefes m ilitares e no Congresso e além disso viu-se acusada de envolvim ento com irregularidades no Espírito Santo, seu estado de origem . Resolvi substituir

Élcio pelo advogado-geral da União, Geraldo Quintão, que lá ficou até o fim do governo desenvolvendo bom trabalho e sendo obj eto de respeito dos com andos das Forças Arm adas.

Precisei rever um a vez m ais a com posição do Ministério entre abril e setem bro de 1999. Após a crise financeira do início de 1999, as crises políticas se sucederam . Um a coisa é certa no Brasil: o m ercado e o Congresso não se afinam pelo m esm o diapasão. Em abril j á era claro para o m ercado e para as finanças internacionais que o governo e a sociedade haviam Não haveria inflação significativa e das exportações. Mais tarde, as m etas infiacionárias para regular a política m onetária, som adas ao aj uste fiscal que com eçaria a ser efetivo em outubro de 1998, dariam condições de estabilidade à econom ia. Desde m eados de m arço, quando Pedro Malan e o novo presidente do BC, Arm ínio Fraga, fizeram um périplo por bancos europeus, as linhas de crédito para as exportações com eçaram a ser reabertas.

Os políticos, contudo, não enxergavam o cenário dessa m aneira. Muitos im aginaram que o governo perderia o controle do processo adm inistrativo e legislativo. Um dos líderes da oposição, Tarso Genro, ex-prefeito petista de Porto Alegre, chegou a publicar um artigo pedindo a interrupção de m eu m andato,25 coisa que em outras épocas se cham aria de golpe, principalm ente porque se tratava de governo recém eleito, e com vitória no prim eiro turno, e transcorrido m enos de um m ês de um m andato de quatro anos! Enquanto as oposições se desm andavam em ataques, os "aliados" tam pouco se aquietaram . Data desta época o início da briga aberta entre os senadores António Carlos Magalhães e Jader Barbalho, cada qual incentivando um a CPI diferente no ganho a batalha da desvalorização do real.

o câm bio flutuante perm itiria o aum ento Senado, um a do Judiciário, outro, a do Sistem a Financeiro. Os tem as eram atraentes para a opinião pública e em am biente de CPI sem pre sobra para o governo, tenha ou não responsabilidade nos fatos investigados. A CPI do Judiciário deparou-se com o escândalo do TRT de São Paulo, em que a oposição tentou sem êxito envolver o governo nos desm andos de que era acusado o j uiz Nicolau dos Santos Neto e que resultaram em sua condenação.

25 "Por novas eleições presidenciais" Folha de S. Paulo, 25/1/1999.

A CPI do Sistem a Financeiro tam bém produziu resultados negativos ao governo. Ao longo de seus trabalhos, desencadeou-$e verdadeira fúria contra dirigentes do BC, com exageros e inj ustiças. Freqüentem ente a oposição tenta transform ar políticas com as quais não concorda em atos crim inosos. As suspeitas, m esm o que não com provadas, perm anecem no ar e enfraquecem o governo, dificultam a agenda legislativa e criam oportunidades para os partidos aliados, quando não o do próprio Presidente, para pressioná-lo. Nesse contexto, as críticas se generalizaram na sociedade. De em presários, clam ando por m enores taxas de j uros, e de com entaristas da m ídia, não se apercebendo da m udança radical na política económ ica, que perm itiu que o PIB voltasse a crescer à taxa de 4,4% j á em 2000. Muitos acreditavam im inente um desastre político. Essa leitura da conj untura resultava em m ais pressão para trocas no Ministério, o PFL querendo afastar o PMDB e este, de sua parte, queixoso do adversário. Não faltou m esm o quem no PSDB concordasse com essa tese, m as resisti: o equilíbrio político do governo e o êxito nas votações congressuais dependiam da gangorra entre esses dois partidos, dando m argem a que o PSDB e o governo arbitrassem as disputas. Diante de tanto despautério e da pressão de Itam ar Franco, a essa altura governador recém - em possado de Minas, para que seus colegas de partido e de oposição se j untassem no não- pagam ento das dívidas dos estados para com a União e na recusa em aprovar a CPMF, Lula teve um a conversa telefónica com igo bem m ais aberta e responsável, evitando arrem essar lenha à fogueira. E a Câm ara, a 18 de m arço, a despeito de tudo, aprovou a CPMF por 357 votos, contra 125 do PT e aliados e 2 abstenções. Os núm eros m ostravam com quantas cartas o governo podia j ogar.

Rearticulando batalhões para a guerra política

As pressões, entretanto não baixaram . O acúm ulo de "escândalos" em m aior ou m enor grau fabricados, som ado a um a oposição crescentem ente decidida m enos a discutir o interesse nacional e m ais a desgastar o governo a qualquer preço, produzia efeitos. As brigas freqüentes entre PFL e PMDB tornavam árdua a operação político-adm inistrativa do governo. Houve um a sucessão de episódios negativos: em fevereiro, o caso Marka

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FonteCindam ; em abril, o caso Cacciola26 e, logo em seguida, o escândalo do j uiz Nicolau, tudo isso saindo das duas CPIs em que se defrontavam caciques do PMDB e do PFL m as das quais quem tirava proveito político eram as oposições. No final, de palpável quase nada. Nesse ínterim ressurgiu com força a tam bém equívoca polarização na m ídia, alim entada por descontentes do governo, entre m onetaristas que controlariam a equipe económ ica, Pedro Malan à frente, e desenvolvim entistas, supostam ente inspirados por Luiz Carlos Mendonça de Barros e cuj o ponto de referência seria o m inistro da Saúde (e econom ista) José Serra. Tais rum ores, naturalm ente, provocavam apreensões nos m ercados financeiros. Além do m ais, fisgou-se artificialm ente o nom e de Eduardo 26 Foram dois episódios diferentes, em bora coincidentes no tem po e assem elhados em sua natureza. Um diz respeito ao Banco Marka, controlado por Salvatore Cacciola, outro ao Banco FonteCindam , que tinha entre seus sócios dois exdiretores do BC (António Carlos Lem gruber e Luiz António Gonçalves). Am bos os casos ocorreram no espaço de dois dias entre o anúncio da nova banda de câm bio, em 13 de j aneiro de 1999, e seu colapso, dois dias depois. (Tratarei dessa questão com detalhes no Capítulo 5 deste livro.) Nesse intervalo o BC vendeu dólares às duas instituições em valor inferior ao da cotação que o câm bio havia atingido (1,32 real por dólar, o teto da banda natim orta). O BC j ustificou a operação com o argum ento de que am bas as instituições tinham volum es expressivos de contratos de câm bio vendidos a 1,20 dólar por real - a cotação anterior à m udança da banda , e que, sem auxílio da autoridade m onetária, eles não teriam capital para honrar esses contratos. Em conseqüência, provocariam um a quebradeira em cascata na Bolsa Mercantil & de Futuros. O argum ento do BC baseava-se na tese do "risco sistêm ico”

(a diretora de fiscalização, Tereza Grossí, solicitara à BM& F um a carta form al confirm ando a existência de risco sistém ico se aqueles bancos não honrassem os seus contratos).

A oposição procurou im putar crise de responsabilidade a Malan, alegando que ele sabia da operação e a havia autorizado. A respeito, faço duas observações im portantes. A prim eira é que Malan não sabia de nada e isso ficou claro no curso da CPI do Sistem a Financeiro, a tal ponto que a Om budsm an da Folha de S. Paulo, à época da conclusão dos trabalhos da com issão, reconheceu o m odo im próprio pelo qual o j ornal tratara o caso. A segunda observação é que o BC tom ou a decisão de vender dólares m ais baratos sob circunstâncias dram áticas, em m eio a enorm es incertezas e riscos. Pode ter sido errada, o que é fútil j ulgar fora do contexto em que ocorreu, m as não surgiram evidências de que tenham tido o obj etivo de favorecer A ou B (se o Marka dispunha de inform ação privilegiada, então com o é que estava na cham ada "ponta" errada do m ercado no dia 13 de j aneiro, ou sej a, apostando na m anutenção da política cam bial de Gustavo Franco, e não em sua m udança?).

Jorge no escândalo do j uiz Nicolau para um a vez m ais dar a im pressão de que se estava em um m ar de lam a, tem a que voltaria com força em 2001. Em bora sabedor da inverdade de todas a acusações, não podia deixar de m e recordar que Getúlio se suicidou quando não teve m ais força para controlar a política, em bora j am ais qualquer das inúm eras denúncias contra ele tivesse fundam ento no aspecto m oral. Eu precisava, pois, rearticular os batalhões para a guerra política. Foi o que fiz.

Modifiquei de novo o Ministério, conferindo-lhe um caráter m ais técnico. Paulo Paiva havia se deslocado para a vice-presidência do BID em Washington e em m arço Pedro Parente passou a com andar o Planej am ento. Esse arranj o, entretanto, durou pouco. Logo em j ulho cham ei Parente para a chefia da Casa Civil por haver optado por Clóvis Carvalho para o Ministério do Desenvolvim ento. Clóvis tinha ligações com setores da área económ ica percebidos com o "desenvolvim entistas". Além disso, os em presários queriam m ais ação no Ministério e, sendo inj ustos com o então titular, Celso Lafer, acreditavam que alguém considerado "duro”

no trato com a Fazenda e conhecedor da Casa, com o Clóvis, teria m aior aceitação e poderia conseguir m aior êxito nas negociações com sua burocracia. Daí por diante Pedro Parente, exem plo de servidor público, constituiu-se, com o Clóvis, em "paupara-toda-obra". Seu desem penho, para citar um caso, na crise energética de 2001 que abordarei no Capítulo 9 - m ostra a qualidade técnica de alguns dos nossos m elhores funcionários. Outro m odelo de dedicação ao serviço público, o econom ista Martus Tavares, profundo conhecedor da área económ ica, em que ocupara várias funções, assum iu o Planej am ento. Substituí o m inistro Bresser pelo em baixador Sardenberg na Ciência e Tecnologia. Para a Agricultura onde revolucionaria a área e seria paladino e precursor da virada exportadora -, nom eei Marcus Vinícius Pratini de Morais, do PPB gaúcho, que som ava à condição de líder em presarial a de bom conhecedor da vida pública. Finalm ente, coloquei Aloy sio Nunes Ferreira na coordenação política, entregando-a, portanto, ao PSDB. No final de abril de 1999 nom eei o econom ista Henri-Philippe Reichstul, m eu am igo de m uito tem po, para substituir Joel Rennó na Petrobras. Econom ista com petente, Reichstul estivera com igo no Cebrap e, com m inha intercessão, tinha obtido um a bolsa de estudos na London School of Econom ics. Sua experiência na adm inistração pública incluía ter

trabalhado com João Say ad no Ministério do Planej am ento do governo Sarney. Rennó conheci j á presidente da Petrobras, desde quando, com o m inistro das Relações Exteriores, convenci-o a iniciar a substituição da im portação de petróleo do Oriente Médio pelo oriundo de Argentina e Venezuela, o que deu base à expansão de nossas trocas com erciais com os países da Am érica do Sul e dim inuiu nossa dependência de um a região do m undo com alto potencial de instabilidade. Mais ainda, foi Rennó quem obteve a aquiescência da direção da Petrobras para a política de flexibilização do m onopólio. Quando nom eei Reichstul, m odificam os tam bém os critérios de direção da com panhia. Ela se tornou m enos suj eita a influências partidárias e passou a ser controlada por um Conselho de Adm inistração técnico, com presença m ais forte de acionistas m inoritários e de representantes do governo e de com panhias privadas. Pusem os fim , com essa m edida, à esdrúxula situação anterior na qual os diretores eram sim ultaneam ente m em bros do Conselho que deveria fiscalizá-los. No últim o ano de governo, Reichstul foi substituído por Francisco Gros, a quem conheci quando, presidente do BC no governo Collor, lhe Presidente Itam ar, que perm anecesse no cargo adm inistrativa. Gros conservou a orientação de Reichstul na estatal. Sob a direção de am bos, a Petrobras se firm ou com o a m ais im portante m ultinacional brasileira, m anteve seu nível técnico de excelência e se dinam izou financeira e com ercialm ente, deixando o país pronto para alcançar a auto-suficiência na produção de petróleo.

Em outra área do governo, o m inistro da Justiça, Renan Calheiros, entrou em divergência com a Casa Militar da Presidência sobre a política de com bate às drogas, bem com o com o governador Mário Covas. Teve que deixar o governo e para seu lugar veio José Carlos Dias, j urista de valor, defensor dos direitos hum anos e ex-integrante do governo Montoro em São Paulo. Para com pensar a dim inuição da participação do PMDB do Senado no governo com a saída de Renan, designei para o recém -criado Ministério da Integração Nacional o senador Fernando Bezerra, que pertencia a grupo distinto no partido e era m ais próxim o a m im , além pedi, cum prindo m issão do em nom e da continuidade de ser presidente da CNI. Indiquei ainda Andréa Calabi para o BNDES, reforçando as ligações com os setores industriais paulistas. Entretanto, o que de m ais insólito ocorreu foi a substituição, em setem bro, de Clóvis Carvalho por Alcides Tápias, executivo dinâm ico, ex

vice-presidente do Bradesco, ex-presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e, naquele m om ento, presidente do grupo Cam argo Corrêa (construção civil e outras atividades). Insólito porque tive que tom ar um a das decisões m ais difíceis de m eu governo: exonerar um m inistro leal e com petente em razão de um a infelicidade vocabular em discurso que pronunciou em sem inário organizado pelo PSDB precisam ente para m ostrar a unidade do partido e do governo. Clóvis usou palavras fortes referindo-se à condução da política económ ica, que foram repetidas ad nauseam pela m ídia. Ora, no m eio de toda a borrasca eu sem pre m antivera posição pública de defesa inabalável da política económ ica. Em m om ento no qual ela se achava sob m ira, não poderia deixar no ar a interpretação, inevitável dada a proxim idade que tinha com o m inistro, de que estava m udando de posição. Os setores produtivos saudaram efusivam ente a nom eação de Tápias, especialm ente porque ele vinha de posturas m uito críticas quanto à m orosidade da reform a tributária e proferiu enfática declaração no discurso de posse dizendo que seria um "guerrilheiro" em sua defesa. O ano de 2000 transcorreu m uito m ais calm am ente. A econom ia crescendo, as crises políticas, forj adas ou advindas de choques efetivos de opinião ou de interesses, am ainadas. Enfim , depois de tantos trancos económ icos e políticos, voltava-se a discutir o principal: com o m elhorar o desem penho da m áquina pública, com o m elhorar as condições sociais e com o acelerar o crescim ento da econom ia em um m undo globalizado. Nada disso, é claro, im pedia a continuidade da política partidária e de percalços com o os choques entre Jader Barbalho e António Carlos Magalhães. ACM, que desde a CPI do Judiciário assum ira as vestes de Catão, insistia na política de "dossiês", em geral recosidos de notícias publicadas em j ornais e revistas ou m esm o de processos que corriam dentro do governo, e portanto públicos. Com a aj uda de Ciro Gom es, que se tornara um adversário tenaz, procurava fixar a im agem de que o governo (ou o Presidente) "não rouba, m as deixa roubar", quer dizer, deixava que o PMDB participasse do governo. Além desse m ote, o senador baiano, hábil interessam à m ídia e sabendo fazê-lo nas m anchetes dos j ornais, quando não com o o anticorrupção e pessoa, com o o paladino dos pobres. Propôs um Fundo de Com bate & Pobreza que term inaria sendo útil porque, com com o ninguém para levantar tem a8 que

com agilidade e estardalhaço? viveu

aj uda do relator da m atéria, senador Lúcio Alcântara (PSDB-CE), o governo usou a deixa para absorver as verbas nos program as sociais que j á existiam e subtraiu da proposta o caráter dem agógico. As m udanças m inisteriais foram pequenas. Logo no início do ano tive de dem itir o com andante da Aeronáutica, brigadeiro Walter Brauer, que j á vinha insatisfeito com as pressões exercidas pelo governo para am pliar o controle civil em órgãos que, sem razão, estavam subordinados à Aeronáutica, com o o Departam ento de Aviação Civil (DAC) e a Em presa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero). Infeliz em declarações à Mandei exonerá-lo, com ando o brigadeiro Carlos de Alm eida Baptista e nada de m ais sério ocorreu. Em im prensa, deixou o m inistro da Defesa em posição incóm oda.

teve a solidariedade de m ilitares da reserva, assum iu o abril seria a vez de o novo m inistro da Justiça, que se chocara com o diretor da Secretaria de Com bate às Drogas, dirigida pelo j uiz aposentado e especialista em crim e organizado Walter Fanganiello Maierovitch, e preferiu se afastar. Passou a gerir o Ministério o j urista Miguel Reale Júnior, que tam bém pediu dem issão logo depois -explicarei as razões m ais adiante - e foi por seu turno substituído por José Gregori.

Gregori vinha colaborando com o governo desde o início, prim eiro com o chefe de gabinete do m inistro Jobim e depois na função inovadora de titular da Secretaria de Direitos Hum anos, vinculada ao Ministério da Justiça. Esta área foi fundam ental no desenho do Brasil dem ocrático e seu titular conseguiu êxito, cham ando a atenção do país para a dim ensão essencial à dem ocracia da luta contra todos os tipos de discrim inação e sobretudo contra a violência. Quando Gregori passou para o Ministério da Justiça, Sabóia, exem baixador terreno por ter representado o Brasil j unto à Com issão de Direitos Hum anos da ONU, em Genebra. Seria sucedido por outro paladino, Paulo Sérgio Pinheiro, professor de Ciência Política e diretor do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Todos eles foram dedicados e efetivos na difícil tarefa de am pliar os direitos da cidadania. Em m aio Esporte e Turism o, com provadas posteriorm ente, de que o ex-prefeito de Curitiba receberia propinas para autorizar o funcionam ento de casas de bingo. E houve outras duas alterações em áreas im portantes: da Secretaria encarregou-se o

na Suécia e tam bém experiente e diplom ata Gilberto respeitado nesse o deputado Carlos Melles (PFL-MG) assum iu o Ministério do substituindo o m inistro Greca, depois de acusações, não

o procurador da República Gilm ar Mendes substituiu Geraldo Quintão com o advogado- geral da União e, no BNDES, Francisco Gros assum iu no lugar de Calabi, que se chocara com o m inistro Tápias. As m odificações acim a são, por assim dizer, de rotina, e não fruto de entrechoques políticos m aiores, m ostrando, um a vez m ais, que com a econom ia em ascensão é m uito m ais fácil governar. Não que faltem problem as: o ano de 2000 foi de m uita pressão do MST e agravam ento da crim inalidade e da sensação de insegurança nos cidadãos. Matéria dificílim a de equacionar, até porque a ação do governo federal é lim itada por dispositivos constitucionais e porque não se conseguiu, baldados os esforços, unificar os com andos das polícias estaduais, civil e m ilitar, nem atribuir ao poder central m aior controle ou pelo m enos influência sobre a área. E m esm o que assim não fosse, o governo não dispõe de condições organizacionais para enfrentar a questão que talvez sej a o m aior desafio para o país no com eço do século XXI. Estrépitos: os casos Jader, ACM e Roseana No início de 2001, a despeito das boas perspectivas da econom ia, havia nuvens cinzentas no horizonte da política. A tensão entre PMDB e PFL, que vinha se arrastando desde 1999, ora tom ava o aspecto de um a disputa entre o presidente do Senado, António Carlos Magalhães, do PFL, e o da Câm ara, Michel Tem er, do PMDB, ora surgia com estrépito com o um choque direto entre o líder do PMDB no Senado, Jader Barbalho, e o presidente da Casa. Lançou-se m ão sem reservas das arm as habituais da política de caciques. Brandiram -se "dossiês" antigos para desm oralizar o líder peem edebista que se candidatara a substituir o presidente do Senado, pois em fevereiro haveria renovação das Mesas, sem possibilidade de reeleição dos ocupantes. A presidência, pela tradição, caberia à m aior bancada, que era a do PMDB e que cerrara fileiras em torno de Jader. Enquanto isso, na Câm ara, o PMDB, sobretudo pela ação de Geddel Vieira Lim a, oferecia apoio à candidatura de Aécio Neves, cuj o partido, o PSDB, constituíra um bloco parlam entar com o PTB e se tornara am plam ente m aj oritário. O PSDB sentiase "prim o pobre" da aliança governista. Em bora sendo o partido do próprio Presidente da República e controlasse m uitos m inistérios, o critério de seleção e o m odo de atuação dos

m inistros m antinham de clientelism os partidários. A bancada queixava-se de um a sensação de "falta de espaço", com pensada, é verdade, por "m uito carinho” presidencial, m as com poucas nom eações. Estava presente, além disso, a insatisfação dos parlam entares pela pressão contínua do governo em favor de m edidas im populares, com o as reform as, e as rédeas curtas nos aum entos de vencim entos do funcionalism o.

Tudo isso era fácil de ser explorado com o tem a; o governo é im perial e o Presidente governa com MPs, esquecido o fato de que elas poderiam ser recusadas de plano se funcionassem a contento as com issões do Congresso encarregadas de dar o parecer sobre sua adm issibilidade - ou sej a, se elas cum priam os pré-requisitos constitucionais, sobretudo os de urgência e relevância. António Carlos destacou-se com o o paladino da luta "pela dignidade" do Congresso, isto é, pela lim itação do uso das MPs. Aécio Neves logo encam pou a tese e, naturalm ente, as oposições tam bém . Em conseqüência, depois de eleito Aécio presidente da Câm ara e de negociações com igo, se chegou a um a fórm ula nova. O m ecanism o adotado lim itou a apenas um a vez o poder presidencial de reeditar as MPs, restringiu consideravelm ente a gam a de assuntos passíveis de serem tratados por MPs e propiciou o bloqueio da ação legislativa: não subm etendo as MPs a voto depois de esgotado seu prazo de validade constitucional, a Câm ara passou a não poder m ais deliberar sobre qualquer outra m atéria. Apesar de m inhas advertências sobre os inconvenientes institucionais da solução - principalm ente a possibilidade de freqüente paralisia dos trabalhos legislativos -, cedi, pois estava no final do governo e não queria lançarm e a um cabo-de-guerra com o Congresso, em especial estando a Câm ara sob direção do PSDB.

Essa foi tam bém a razão pela qual m e tinha com prom etido com Aécio Neves a não vetar sua candidatura. Explicitei ao deputado e ao senador Teotônio Vilela Filho, presidente do PSDB, os inconvenientes da ruptura do equilíbrio de forças no Congresso, cuj a m anutenção vinha sendo m inha política desde o início do governo. O PFL, inconform ado, lançou a candidatura de Inocêncio Oliveira na Câm ara e queria m inha interferência direta contra a candidatura Jader no Senado pelo PMDB. Com eçaram as m anobras de bastidores. Enquanto Inocêncio, na busca de votos, se aproxim ou do PT e deu declarações desassisadas sobre o governo, os adconsonância com os propósitos do governo e não

versários de Jader, m esm o no PSDB, em bora não pudessem "abrir o j ogo” para não prej udicar a eleição de Aécio (que dependia grandem ente do PMDB), torciam por sua derrota. Nenhum , entretanto, se dispondo a pôr as m angas de fora, tem erosos dos efeitos de um a retaliação do PMDB na Câm ara, que cortaria as chances de Aécio. Qualifiquei a situação com o um a arm adilha. Aécio elegeu-se folgadam ente para o posto am bicionado, enquanto fracassaram no Senado as tentativas do PFL de convencer algum peem edebista ou o PSDB a lançar candidatura avulsa contra a m aj oritária do PMDB. O PFL não ousara lançar nom e próprio porque dim inuiria as chances de Inocêncio na Câm ara. Para abater a candidatura Jader, tentaram em vão Pedro Sim on e José Fogaça, logo dois senadores do PMDB do Rio Grande do Sul, estado em que a fidelidade partidária tem m ais sentido do que em qualquer outro - e que, portanto, teriam que votar no correligionário Jader. Os pefelistas então se voltaram para o senador Sarney, que reiterou a m im que não seria candidato, em bora não chegasse a descartar inteiram ente a possibilidade diante de seus pares, Finalm ente acordaram em lançar o senador do PTB Arlindo Porto para com petir com Jader. Verifiquei com antecipação, por interm édio do líder do governo, José Roberto Arruda (PSDB-DF), que os pefelistas equivocavam -se redondam ente quanto às chances de êxito do candidato.

Ainda assim m e surpreendeu o núm ero de votos alcançados por Jader, 41, ou sej a, m aioria absoluta, que excedeu as expectativas. O PFL ficou com a im pressão de que eu, no fundo, queria Jader, porque não fui enfático no apoio a um a candidatura Sarney nem pedi votos para Arlindo Porto. Eu estava, entretanto, diante de outro dilem a: com o m anter a governabilidade em condições políticas cada vez m ais precárias. Não queria m e expor interferindo além do razoável nas decisões dos parlam entares. Mesm o a ala do PFL que não agia sob a influência de António Carlos, m ais ligada ao presidente Jorge Bornhausen, andava estom agada com igo, o que m e preocupou. Por interm édio tanto de Tasso Jereissati com o de Pim enta da Veiga, que eram próxim os a Bornhausen, inteirei-m e de rum ores quanto à disposição do PFL de m anter o apoio ao governo som ente se eu denutisse os m inistros Padilha e Dornelles, que estiveram ativos nas articulações em favor de Aécio, com o se os m inistros pefelistas não tivessem procedido de form a sem elhante para beneficiar seus com panhei

ros. Antes da votação sobre as Mesas m andei publicar um a nota que redigi de próprio punho, dizendo que contava com o apoio dos partidos para continuar as reform as, inclusive a do sistem a político. Eu tinha o propósito de, depois do Carnaval daquele 2001, apresentar o program a de governo para os dois anos finais de m andato e só então escolher novos m inistros, por critérios que eu definiria, sem ter no entanto o obj etivo de com pensar os perdedores da disputa na Câm ara e no Senado.

Era perceptível a fratura na base de sustentação do governo. Eu recebia tam bém sinais inquietantes de desavenças internas no PSDB. O m inistro Paulo Renato m e procurou para expor tem ores sobre o encam inham ento das candidaturas presidenciais:

- O Serra está atropelando todo m undo. Acho que ainda não é hora para candidaturas.

Em seguida, no entanto, expressava suas próprias pretensões a respeito. O governador Tasso Jereissati via em cada m ovida no Congresso - por exem plo, a eleição do novo líder do PSDB na Câm ara, deputado Jutahy Magalhães (BA) - o dedo de José Serra, talvez com m inha cum plicidade... Os ingredientes para um a crise estavam dados. Eles vinham de longe, m as se precipitaram com a questão da eleição das Mesas e com os estilhaços das CPIs do Judiciário e do Sistem a Financeiro, que ricocheteavam ora nuns, ora noutros, tendo no horizonte a sucessão presidencial em 2002. Vitorioso Jader, as escaram uças se transform aram em guerra. "Delenda Jader", m as na verdade, "Delenda FHC". Por um desses paradoxos com uns na política brasileira, em bora com m otivações diversas, esquerda e direita convergiram , se é que ao frenesi pela obtenção de poder por qualquer m eio se pode cham ar de esquerda e ao caciquism o atrasado de direita.

Ao m oralism o de m om ento de ACM, que renovou denúncias não só contra Jader m as tam bém contra os m inistros peem edebistas, além de lançar achincalhes a m im , som ou-se o udenism o - j á sem m acacão - do PT. Propalava-se, novam ente, a suposição de que existia um "m ar de lam a". Eduardo Jorge novam ente entrou na berlinda em função de insinuações não assum idas de ACM a certos procuradores da República m uito bem relacionados com a m ídia e com a oposição. A conversa, gravada, veio a público. A certa altura, o senador recom endava aos procuradores que quebrassem o sigilo telefónico de Eduardo Jorge, pois assim nos "pega

riam ", a ele e a m im . Pela reprodução dessa sugestão m e convenci de que António Carlos efetivam ente fizera as insinuações. Meses antes, ele havia sugerido que Eduardo Jorge abrisse para o Senado os sigilos bancário, fiscal e telefónico. Eduardo Jorge seguiu a sugestão, exceto pelo sigilo telefónico. Ponderou a m im o provável incóm odo para terceiras pessoas de se revelarem os telefonem as feitos por ele durante a cam panha eleitoral de 1998. Eu, ingenuam ente, transm iti essa preocupação a António Carlos. Assistiu-se a um corre-corre no PFL para disfarçar o episódio patético de se ver um ex- presidente do Senado, à socapa, fazendo alegações levianas. Jader voltou a ser atacado com base em antigas acusações, do tem po em que governava o Pará na década de 1980, sobre desvio de recursos públicos. O senador acabaria renunciando à presidência do Senado e, depois, ao m andato, com o form a de evitar a cassação por seus colegas e a conseqüente suspensão dos direitos políticos. (Sucedeu-o o senador Ram ez Tebet, do PMDB de Mato Grosso do Sul, que conduziu o Senado com equilíbrio até o final de m eu governo.) Nessas ocasiões a racionalidade na política baixa m uito. Costum o dizer que em política a lucidez só aum enta o sofrim ento. Sabe-se o que vai ocorrer (ou se pensa saber) e nada de efetivo se pode fazer para m udar o curso das coisas. A sorte estava lançada desde quando se rom peu o equilíbrio entre as forças de sustentação do governo. Jader passou a atacar não som ente António Carlos com o o BC, que teria vazado relatórios. Nesses m om entos, quando o escândalo e a infâm ia substituem as propostas e a ação negociadora para alcançá-las, sobra para todo m undo e é difícil deslindar os novelos que enroscam os personagens envolvidos. Para cúm ulo, pouco depois, António Carlos é atingido por denúncias de ter violado o sigilo do painel de votações do Senado durante a decisão sobre a cassação de um senador do PMDB, Luís Estêvão (DF). As oposições, nesse quadro, nadavam de braçada, alim entando denúncias daqui e dali, sem se im portar com a seriedade delas e m uito m enos com as instituições. Mas não foi assim tam bém quando a União Dem ocrática Nacional (UDN) liquidou Getúlio, ou quando Juscelino era bom bardeado de acusações pela construção de Brasília? E não foi Jânio Quadros quem , m al tendo recebido o governo das m ãos de Juscelino, passou-lhe a conta de outra "herança m aldita"? Em vez de m e lam uriar, preparei-m e para reagir à m inha m aneira. António Carlos, antes de passar pelo pelourinho da Com issão de Ética do

Senado sobre a violação de sigilo, que o levou à renúncia para escapar da cassação

- caso que term inaria atingindo o líder Arruda, que igualm ente renunciou -, se vangloriava de que dizia o que bem entendia e eu não teria coragem para reagir. Confundia responsabilidade e cálculo com subj etivism o m oral, ter ou não ter "coragem ". A m ídia dava curso, com gosto, às bravatas. Não faltava quem achasse que eu era lento nas decisões, não gostava de dem itir ninguém , hesitava... Gostar de dem itir é perversidade a ser evitada. Deixar de fazê-lo quando necessário é erro de alto custo. Hesitar pode ser um a tentativa de escolher o m elhor m om ento para a decisão. Talvez eu m e excedesse em cautelas, m as creio ser equivocada a percepção de que não fui capaz de atuar nos m om entos necessários, ainda que correndo riscos. Foi o que fiz com António Carlos.

O que estava em j ogo era a sustentação política do governo, que poderia ficar seriam ente abalada se eu errasse o golpe. Por outro lado, por m ais tolerante e paciente que eu fosse, há lim ites a partir dos quais a falta de resposta às ousadias deixa de ser j ogo de prudência para se transform ar em pusilanim idade. Era o caso diante das atitudes estrepitosas e das declarações de António Carlos depois da derrota de seu candidato na eleição da Mesa do Senado. Concedeu entrevistas, pronunciou discursos, insinuou corrupção e assim por diante. Isso quando, ao m esm o tem po, o governo abrigava dois m inistros baianos ligados politicam ente a ele. Eu, com o se diz na gíria, dispus-m e a ir engolindo sapos porque tinha um a obsessão: queria apresentar o plano de governo depois do Carnaval, no dia 5 de m arço de 2001, e, para dar m ais com postura às ações, m udar o Ministério som ente depois de os partidos declararem form alm ente sua aprovação ao plano. Desse m odo, ao escolher novos m inistros partidários, teria razões para além do j ogo de poder.

António Carlos, indagado pelo líder Arruda se era certo que levara as denúncias aos procuradores, antes de serem públicas, negou. Meus assessores políticos e pessoais sabiam que a situação dos m inistros baianos era insustentável. António Carlos iria para Miam i durante o Carnaval. Eu disse aos assessores: ele vai tranqüilo porque acredita que não vou dem itir ninguém ... Até que, nas vésperas do Carnaval, vi na TV Globo o senador, j á em Miam i, dando pelo telefone um a entrevista bastante ousada. Os dois m inistros ligados a ele, Waldeck Orneias e Rodolpho Tourinho, não tiveram a gentileza de sequer m e telefonar durante o curso de todos os episó

Continuar: parte 4 de 5