A Batalha de Moscou

Andrew Nagorski · Capítulo 8 de 17

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A Batalha de Moscou

“Moscou está em perigo”

 

Era o fim de agosto de 2005, 64 anos depois daqueles primeiros meses da invasão alemã à União Soviética, quando eu acompanhei um trio de pesquisadores numa viagem às densas florestas perto de Vyazma, 200 km a oeste de Moscou. Até hoje, russos de todas as posições sociais se reúnem em pequenos grupos para viagens de pesquisa aos locais das batalhas da Segunda Guerra Mundial, revirando áreas em busca dos restos mortais de soldados, seus equipamentos, armas e todas as raras evidências que possam encontrar para resgatar do anonimato os vencidos. Enquanto os alemães geralmente enterravam seus mortos, o Exército Vermelho – especialmente nos primeiros meses da guerra – sofreu baixas tão pesadas e cedeu tanto território que deixava a maioria dos seus mortos onde tivessem caído. No pós-guerra, Stalin e outros líderes soviéticos se desinteressaram pelos restos mortais, como também não se interessaram pelo nível catastrófico das baixas que produziram. Com um senso de missão que chega quase ao místico, os pesquisadores reúnem o que conseguem e providenciam para que os restos tenham no mínimo um enterro próximo ao adequado, com honras militares, quando possível.

Nos arredores de Vyazma, o primeiro alvo da Operação Tufão quando Hitler finalmente decidiu tomar Moscou, paramos no que parecia ser um pequeno cemitério ao lado da estrada. Havia algumas fileiras de túmulos simples, baixos e retangulares, cada um tendo em cima um capacete militar – em muitos casos com vários buracos de bala. Em modestos monumentos de pedra diante dos túmulos, alguns nomes estavam relacionados. Andrei Palatov, meu guia e líder do grupo Zvezda – estrela – composto por 10 pesquisadores, explicou que grupos como aquele tinham fundado o cemitério em 1990. Ao longo dos 15 anos desde então, seu grupo tinha trazido os restos de cerca de mil soldados para serem enterrados ali, e só contavam os restos que estavam mais ou menos completos. Ao todo, 30 mil restos mortais tinham sido enterrados no pequeno cemitério desde 1990, e eles continuavam a reenterrar mais soldados sem interrupção. Cada túmulo representava o último repouso de centenas – às vezes milhares – de caídos.

Em muitos casos é impossível descobrir os nomes dos soldados e oficiais cujos restos são encontrados. Apesar de toda a atenção dada aos militares, a União Soviética não tinha desenvolvido as medalhas simples mas confiáveis que os alemães e outros exércitos tinham, permitindo identificação fácil dos mortos. Os russos faziam para os soldados cápsulas de madeira ou plástico, com tampa rosqueada. A informação de identificação do soldado era escrita num pedaço de papel, enrolado e inserido na cápsula. Mas tudo acabou dando errado. As cápsulas de madeira se deterioravam com o tempo, e o escrito no papel, independentemente do recipiente, tendia a se apagar. Mas, o mais importante, o nome popular da cápsula era smertny medalyon – medalhão da morte – e os soldados geralmente a jogavam fora, com medo de que trouxessem azar no campo de batalha. Por isso, poucos nomes estavam relacionados num cemitério que era o repouso final de 30 mil soldados.

Um túmulo separado, adornado com flores frescas, relacionava mais nomes que o normal: continha os corpos de crianças da área que tinham morrido depois da guerra, em geral quando tropeçaram em armas ou munições que explodiram. Apesar de nenhum dos dois lados ter tido tempo de colocar minas, havia muitas granadas, balas de canhão e outros objetos perigosos, que ocasionalmente ainda tiravam vidas dos que se aventuravam na floresta.

Por mais difícil que fosse imaginar que aquele pequeno cemitério ao lado da estrada continha os restos de tantos soldados, era ainda mais difícil compreender a escala da luta nas vizinhanças de Vyazma. Durante menos de duas semanas no início de outubro de 1941, unidades inteiras do Exército Vermelho foram cercadas e dizimadas pelos alemães. Palatov citou alegações alemãs de que teriam matado 400 mil e capturado mais 600 mil – uma contagem assustadora de um milhão. Os alemães, é provável, inflaram seus números, mas não exponencialmente: não há dúvidas de que as perdas soviéticas totalizaram centenas de milhares na Batalha de Vyazma.

Até aquele momento, apenas a batalha pela tomada de Kiev, às vésperas da Operação Tufão, tinha sido mais mortal. Naquele caso, a recusa de Stalin em permitir aos seus generais entregar a capital ucraniana condenada possibilitou aos alemães cercar as tropas soviéticas e infligir enormes baixas. O general Zhukov e outros comandantes argumentaram que uma retirada evitaria um massacre, permitiria o reagrupamento de forças e a luta em futuras batalhas. Mas Stalin nem quis ouvir e berrou com Zhukov: “como vocês podem pensar em entregar Kiev para o inimigo?” Tal como Hitler, Stalin não hesitava em ignorar o conselho dos seus generais, rejeitando-os com frequência.

Se o cerco do Exército Vermelho em Kiev foi o resultado evidente da recusa de Stalin de permitir o recuo dos seus exércitos, a tragédia seguinte perto de Vyazma foi produto de uma quebra completa de comunicações e comando. No início da Operação Tufão, os governantes soviéticos não perceberam que as forças alemãs se moviam com rapidez para cercar e prender um contingente tão grande quanto possível do Exército Vermelho perto de Vyazma, transformando o lugar no próximo “caldeirão”, um inferno de morte e destruição. A missão alemã era simples: cercar e destruir as tropas soviéticas, bloqueando todos os meios de fuga. Quando o comando soviético percebeu o que estava acontecendo ordenou aos seus homens escapar por todos os meios possíveis – e dessa vez Stalin não fez objeção. Mas então já era tarde demais para quase todos. Apenas um número mínimo se salvou.

Boris Oreshkin foi um dos afortunados. “Na nossa literatura quase não se encontra informação sobre essa batalha”, notou ele. “É normal: quem gosta de falar das derrotas?” Operando um posto de observação no alto de uma colina com três outros soldados, Oreshkin se sentia na calmaria do centro da tempestade, observando a passagem de uma onda depois da outra de aviões alemães nos dias 2, 3 e 4, e nenhum avião soviético decolar para combatê-los. Via a fumaça e as explosões no horizonte, indicando a direção do ataque alemão, que mirava diretamente Vyazma. Mas quando ele e seus companheiros tentaram informar o que viam, só conseguiram fazê-lo a um soldado de sentinela numa base aérea próxima, que não teve nenhum interesse nos seus avisos. “Acho que nós, quatro soldados comuns, fomos as únicas pessoas que viram com clareza o que se passava”, disse ele, sem ironia.

Pouco depois, os alemães começaram a atacar perto deles, e seus aviões jogaram bombas sobre a base aérea e em tudo que conseguiam ver. Em 9 de outubro, Oreshkin era mais um no mar de soldados desesperados que buscavam uma saída do cerco alemão, sob as bombas que caíam do ar, e batidos pela artilharia e fogo de metralhadoras do chão. Os soldados soviéticos receberam ordens de fugir daquele caldeirão, mas o resultado foi o caos. Quando ouviram boatos de que alguns soldados tinham conseguido romper as linhas alemãs, relatou Oreshkin, “as pessoas se livravam das máscaras contra gases, capacetes e mochilas. Todos tinham um único pensamento: ter tempo suficiente para fugir do cerco”. Ele mesmo chegou a se livrar da sua sacola de comida, geralmente a última coisa abandonada por um soldado em pânico, por pensar que poderia estar em segurança se conseguisse percorrer uma pequena distância até o outro lado das linhas alemãs.

A viagem foi pura tortura. Oreshkin e os outros passaram a noite correndo cegamente de um lado para o outro na floresta, tentando evitar a metralha e o fogo de artilharia dos alemães. Tanques alemães atiravam a queima-roupa nos soldados soviéticos que tentavam fugir. Em certo ponto, Oreshkin ouviu um som “como se alguém tomasse uma folha de aço e começasse a sacudi-la”, e deparou-se com uma luz cegante e o calor forte de uma chama bem na sua frente. A explosão jogou-o ao chão. Quando abriu os olhos, viu que um dos amigos tinha caído ao seu lado com uma enorme ferida aberta entre as omoplatas. Era como se uma estaca gigantesca o tivesse atravessado. “Faça um curativo”, o soldado implorou. Oreshkin tentou ajudá-lo, mas não era mais possível, e outra rodada de artilharia jogou-o novamente ao chão.

Na manhã seguinte, quando chegou a uma lagoa onde pôde saciar a sede, Oreshkin se sentiu perdido. “Nunca na minha vida me senti tão exausto quanto naquele dia. Até a morte parecia uma bênção.” Então ele viu um jovem tenente rasgar os documentos e jogar sua arma na lagoa. Viu também uma fileira de soldados alemães que se aproximava e soldados soviéticos se levantando quase sem forças para erguer as mãos em rendição. Ele seguiu o exemplo do tenente e também jogou os documentos e sua arma na lagoa.

Quando se juntou ao grupo de 20 soldados presos, Oreshkin ficou chocado pela confiança desdenhosa dos seus captores.

Fomos levados a uma aldeia por um único soldado. Ele seguia à nossa frente e nem pensou ser necessário ter uma arma na mão. Tinha certeza de que não faríamos nada com ele, e isso finalmente me abateu, me humilhou e me mostrou a completa desesperança da nossa situação.

Oreshkin sobreviveria milagrosamente não apenas para lutar de novo, mas também para capturar tropas alemãs em 1944, que se sentiriam tão humilhadas e derrotadas como ele. Mas a esmagadora maioria dos que foram presos no cerco em Vyazma não tiveram nenhuma chance de escapar.

Hoje, 64 anos depois, os pesquisadores e eu entramos na floresta a pouco mais de 15 km ao sul da cidade de Vyazma, o centro do caldeirão onde pereceram tantos. Tínhamos caminhado uma pequena distância quando Palatov, que liderava a nossa expedição, parou e desceu numa vala onde seu grupo tinha deixado a sua descoberta mais importante da expedição anterior. Cuidadosamente, ele levantou um saco plástico e tirou um crânio intacto, explicando que o levariam para o pequeno cemitério para ser enterrado ao lado de outros restos humanos que encontrariam nas expedições seguintes. O único crânio que encontramos além daquele foi o de um cavalo – os dois exércitos usavam muitos cavalos – mas a evidência da ferocidade da luta era vista por toda parte. Tal como explicou Yegor Chegrinets, parceiro frequente de Palatov nessas expedições: “aqui não se pode fugir da guerra. Ela cresce do chão”.

Logo vi o que ele queria dizer. Depois de montarmos nossas tendas, entramos mais fundo na floresta, interrompida vez por outra por campos abandonados que antes pertenciam às aldeias. Vadeamos pela grama alta, pisando com cuidado para não torcermos o tornozelo em alguma depressão oculta. Durante a luta, as aldeias também foram obliteradas, e em muitos casos nunca foram reconstruídas. Embora estivéssemos a pouco mais de 15 km da cidade, parecia que estávamos num universo diferente, numa floresta com vegetação rasteira densa que cobria até o que antes foram estradas vicinais. Palatov me avisou para não me desgarrar: no ano anterior um par de andarilhos se perdeu na floresta e partiu na direção errada, resultando numa caminhada de quatro dias antes de voltarem à civilização.

Palatov, Chegrinets e Maxim Suslov, o terceiro membro do grupo, ligaram seus detectores de metais e logo o silêncio da floresta foi quebrado pelos bipes constantes quando se aproximavam de alguma coisa com metal abaixo da superfície. Enquanto me avisavam para não tocar nada, começaram a encontrar cartuchos de balas, fragmentos de projéteis e de bombas, granadas, capacetes, baionetas, kits de refeições e peças de pistolas. A frente de um jipe perfurado de balas estava oculta entre algumas árvores, junto com outros veículos, máscaras contra gases e uma bota soviética. Palatov pegou a bolsa padrão de comida de um soldado, o tipo que Oreshkin tinha jogado fora desesperado. Havia muito mais do que eles poderiam carregar, e os pesquisadores deixaram grande parte do que encontraram na floresta. Só levaram objetos para exposição no pequeno museu que tinham criado para esse fim em Moscou.

Em certo momento, notei espantado que faltava alguma coisa nessa floresta agora enganosamente bela e selvagem: toda forma de vida silvestre, inclusive pássaros. Os pesquisadores explicaram que, apesar de ainda haver veados e javalis na floresta e alguns animais menores, nós provavelmente não veríamos nenhum. Os habitantes locais tinham recolhido muitas armas no campo de batalha depois da guerra e atiravam em qualquer coisa que se movesse. Os animais se mantinham longe das pessoas que se aventuravam na floresta e – acrescentaram os meus guias – seria mais inteligente nós fazermos o mesmo, caso notássemos qualquer sinal da presença na área de alguém que não fosse parte do nosso grupo. Isso era particularmente verdadeiro à noite, quando bebidas e tiros andavam de mãos dadas. Não encontramos nenhum estranho durante a nossa excursão, nem animais durante toda a viagem.

À medida que nos aproximávamos de uma grande ravina, Palatov me contou a história de um dos poucos oficiais soviéticos que teve a experiência e a calma necessárias para estender uma arapuca para os alemães, no coração da batalha. Muitos oficiais, como os soldados, entraram em pânico, mas esse oficial em particular tinha calculado que os alemães se esconderiam na ravina durante a noite, antes de iniciarem o ataque. Por isso, ele ordenou aos seus homens que se camuflassem em posições em torno da ravina e, quando os alemães desceram, como ele tinha antecipado, eles abriram fogo. Foi uma das poucas vezes durante a Batalha de Vyazma em que os russos estiveram em vantagem e conseguiram infligir pesadas baixas aos alemães. Segui Palatov na ravina, e seu detector de metais começou imediatamente a dar sinais. Ele cavou e logo abaixo da superfície encontrou pedaços de um cinturão alemão, cartuchos vazios e até um pfenig (moeda local). Era como se o chão falasse para confirmar a história.

Naquela noite, Palatov encontrou na área ao lado do nosso acampamento três granadas que não explodiram. Apesar de o TNT ter se deteriorado ao longo de 64 anos, e não ser particularmente perigoso, a granada ainda tinha o detonador intacto. Ele as mostrou e anunciou: “são polonesas”.

Atônito, perguntei como era possível. Palatov explicou que não era incomum encontrar munição polonesa e outros armamentos; o problema era ser impossível saber de que exército eles tinham vindo. Depois que a União Soviética e a Alemanha ocuparam a Polônia em 1939, os dois invasores tomaram todos os suprimentos poloneses em que puderam pôr as mãos e incluíram nos seus arsenais. Era perfeitamente lógico, mas a descoberta me pegou completamente de surpresa. Numa dessas bizarras ironias da história, soldados alemães e soviéticos se mataram com balas e granadas polonesas quando lutaram em Vyazma. E não só em Vyazma. Um relato de A. L. Ugrymov, o chefe do departamento político do distrito de Frunzensky, em Moscou, sobre o desempenho das unidades recém-formadas da “guarda nacional” compostas de moscovitas mobilizadas para defender a capital, informou que muitos soldados inexperientes marcharam para a batalha equipados apenas com “fuzis poloneses tomados como troféus”.

Poucas pessoas na região ainda se lembram de alguma coisa daquele período. Mas em 1996, Palatov gravou uma entrevista com Maria Denisova, uma mulher que já morreu. Tinha 15 anos na época da Batalha de Vyazma, e viveu numa das aldeias destruídas, precisamente na área por onde tínhamos acabado de passar. Ela se lembrava de se esconder aterrorizada no porão da sua casa com sua mãe e um soldado russo ferido. Um alemão descobriu a entrada e atirou uma granada que matou o soldado e feriu gravemente a sua mãe. Quando Denisova e sua mãe saíram, todas as casas da aldeia estavam sendo incendiadas. As duas se esconderam numa trincheira abandonada pelos soldados soviéticos em fuga, e sua mãe morreu lá, poucos dias depois, em virtude dos ferimentos não tratados. O pai de Denisova tinha-se escondido em outra trincheira com outros quatro homens, mas os alemães os encontraram e os obrigaram a sair. A camisa de um dos homens estava encharcada de sangue, pois ele tinha acabado de matar uma ovelha. Para os alemães aquilo era uma prova de que eles eram partisans e fuzilaram todos.

Depois que a luta terminou, Denisova testemunhou uma cena de puro horror.

Havia um número enorme de cadáveres por toda parte. Caminhávamos sobre eles como se o chão estivesse atapetado de corpos. Estavam uns ao lado dos outros, e uns sobre os outros. Alguns não tinham pernas, cabeças ou outras partes. Tínhamos de andar sobre eles porque não havia um trecho livre onde pisar. Tudo estava coberto com eles: toda a aldeia e a margem do rio. É horrível lembrar! O rio estava vermelho de sangue, como se só sangue corresse nele.

Ela e outros sobreviventes não tiveram escolha, pegaram cantis espalhados por ali e beberam da água sangrenta do rio, pois a aldeia não tinha cisterna. Também comeram a carne decomposta de cavalos mortos que enchiam a área.

No fim, os habitantes enterraram alguns dos mortos, mas preferiam evitar a floresta onde a parte mais sangrenta da luta tinha ocorrido. Só na primavera seguinte, um ou outro soldado sobrevivente do Exército Vermelho aparecia entre as árvores. “Eram muito feios com as longas barbas que chegavam quase à cintura.” “Tínhamos medo deles.” Mas eles nunca feriam os habitantes sobreviventes da aldeia. “Não sei como sobreviveram nem o que comiam”, acrescentou ela, observando que suas roupas estavam tão rasgadas que era impossível saber se eram soldados ou oficiais. Como a área em torno de Vyazma continuou em mãos alemãs durante os dois anos seguintes, é difícil imaginar quantos sobreviveram para ver o final daquela ocupação.

A única sepultura individual que vi estava perto da última aldeia antes da floresta. Era de um general russo que se escondeu entre os aldeões quando os alemães completavam o extermínio das forças soviéticas cercadas. Era um túmulo simples com uma cruz metálica, sem nome, pois ninguém sabia quem era ele. De acordo com os moradores, ele ajudou a salvar algumas crianças locais ensinando-lhes onde se esconder durante a luta. Trocou a farda por roupas civis, mas os alemães souberam que ele ainda estava na aldeia e exigiram que ele fosse entregue. Colocaram todos os habitantes em linha e anunciaram que iam começar a matar cada décima pessoa até ele ser entregue. Nesse ponto o general deu um passo à frente e foi prontamente executado.

Num lugar onde centenas de milhares pereceram sem deixar rastros, como se nunca tivessem existido, o general sem nome se destaca como um dos poucos de quem alguém ainda se lembra. Dos outros caídos, só a terra se lembra e conta sua história para quem quiser ouvir.

 

Estrangeiros há muito se deixaram confundir pela forma como os russos exibiram uma resistência aparentemente ilimitada diante do sofrimento e do despotismo. No seu relato clássico da viagem à Rússia em 1839, o francês Marquês de Custine descreveu o país como “um governo absoluto e uma nação de escravos”. Na Rússia, acrescentou, “o medo substitui, ou melhor, paralisa o pensamento”. Force os russos a explicar sua história e seu comportamento ao lidar com a longa lista de tragédias que compõem a sua história e, mais cedo ou mais tarde, eles começam a falar de sudba – o destino. Afinal, mostram os russos, grande parte da vida não é acidental. Como não é acidente o título do romance épico de Vasily Grossman, sobre como os russos suportaram o terror de Hitler e Stalin durante a Segunda Guerra Mundial, ser Vida e destino.

Mas o destino pode trazer bênçãos, não só maldições. E Ella Zhukova está firmemente convicta de que a decisão de Stalin de confiar a defesa de Moscou ao pai dela, o marechal Georgy Zhukov, foi uma dessas ocasiões. “Não sou uma pessoa religiosa, mas acredito que ele recebeu um dom do alto”, disse ela, falando do fato de seu pai ter recebido “tamanha responsabilidade” pela capital soviética no momento em que parecia impossível parar os alemães. Talvez o destino também estivesse operando quando elevou a essa posição um homem nascido em 1896 numa aldeia chamada Strelkovka. O nome vem da palavra streltsi, ou arqueiros, porque foi um dos lugares onde os arqueiros de Ivan, o Terrível, acamparam para defender Moscou dos invasores tártaros.

Em todo caso, o homem encarregado de salvar Moscou, e que chegaria a líder militar supremo do seu país durante o resto da guerra, não era alguém de quem fosse fácil gostar. Era famoso por suas tiradas raivosas, entremeadas de obscenidades (“você não é um general, é um saco de merda!”, costumava dizer aos subordinados), e não hesitava quando era necessário sacrificar seus homens no campo de batalha. “Se chegarmos a um campo minado, nossa infantaria atacará exatamente como se ele não estivesse lá”, disse ao general Eisenhower depois da guerra.

As perdas que sofremos por minas pessoais, nós as consideramos iguais às que sofreríamos pelas metralhadoras e artilharia se os alemães tivessem preferido defender a área com corpos fortes de tropas em vez de campos minados.

Nisso, e na punição sem hesitação de qualquer um que desobedecesse às suas ordens, ele foi o general perfeito para um líder como Stalin. Como o ditador, ele era rápido ao ameaçar com a execução. Sua mensagem para os comandantes no campo era brutalmente simples: executem a ordem, não importa que seja suicida, ou será fuzilado por traição. Em setembro de 1941, quando estava em Leningrado, já sob sítio, ele decretou que qualquer soldado que abandonasse o posto sem permissão escrita teria o mesmo destino.

Depois da guerra, o marechal Konstantin Rokossovsky, outro importante comandante durante a guerra que trabalhou próximo a Zhukov, ofereceu uma descrição diplomática, mas reveladora dele.

Zhukov foi sempre um homem de vontade forte e decisão, brilhante e talentoso, exigente, firme e resoluto. Todas essas qualidades são incontestavelmente necessárias para um grande líder militar e eram inerentes em Zhukov. É verdade que em certas ocasiões a sua dureza excedia o permissível. Por exemplo, no calor da luta nos arredores de Moscou, Zhukov às vezes exibia uma rispidez injustificada.

Diferentemente da maioria dos outros oficiais, Zhukov não fumava e não bebia muito, especialmente se comparado aos padrões russos. Dava valor à boa aparência e não se acanhava de insistir em ser retratado da forma que queria. Em 1940, ele chamou o editor de Krasnaya Zvezda, o jornal militar, para se queixar de que ele ia publicar uma foto sua que, estava convencido, não lhe fazia justiça. “Parece que eu sou careca. Você tem muitos artistas, não tem? Não podem consertar isso?” É claro que podiam – e consertaram.

ITAR-TASS Photo Agency

 

Quando parecia que as defesas de Moscou não se aguentariam,

Stalin convocou o general Georgy Zhukov, de Leningrado, e o

encarregou de salvar a capital. Tal como seu chefe, Zhukov estava disposto a fazer qualquer coisa para garantir a obediência às suas ordens, inclusive a execução de qualquer um que tentasse recuar. Ele também não hesitava em sacrificar seus homens no campo de

batalha, o que provocou um número assustador de baixas.

 

Filho de um sapateiro, Zhukov começou como aprendiz de peleteiro em Moscou, com a idade de 11 anos, e rapidamente aprendeu algumas lições duras. “Sorria e aguente firme quando apanhar”, um dos colegas de trabalho lhe ensinou. “Um homem que apanha vale dois que não apanham.” Recrutado para o exército czarista em 1915, ele muitas vezes entrava em conflito com os oficiais que o consideravam insolente e impenitente depois das infrações de que era acusado. Mas outros reconheciam o talento e audácia do recruta, e logo ele provou sua coragem em batalha. Em 1919, no Exército Vermelho em luta com os Brancos, ele foi ferido por uma granada. Hospitalizado com vários fragmentos no lado esquerdo e na coxa, ele contraiu tifo.

Mas logo voltou à farda e, como militar profissional, ele se viu frequentemente em viagem, o que não prenunciava relações românticas estáveis. Casou-se com Alexandra Zuikova em 1922, uma união que oficialmente durou mais de 40 anos e resultou no nascimento de duas filhas: Era, em 1928, e Ella, em 1937. Mas em 1929, ele teve uma terceira filha, Margarita, com outra mulher. (Todas as três filhas ainda vivem em Moscou, mas as duas primeiras só souberam da existência de Margarita na década de 1950 e não há amizade entre elas.) Zhukov se envolvia frequentemente com outras mulheres. De acordo com o seu motorista, Aleksandr Buchin, ele manteve um longo caso durante a guerra com uma enfermeira “jovem e bonita” de nome Lidia Zakharova. Em 1957, Zhukov teve uma quarta filha, Maria, com Galina Semyonova, oficial do serviço médico do exército, 30 anos mais moça que ele. Em 1965, aos 69 anos, ele se divorciou de Alexandra para se casar com Galina.

Ainda assim, sua filha Ella, que admite tranquilamente que seu pai tenha tido “algumas amantes”, retrata-o como “sempre gentil, atencioso e amoroso para sua família”. Ele escrevia cartas curtas para casa que indicam que ele pensava nas filhas. Numa das cartas, escrita em setembro de 1941 para Era e Ella, ele perguntava pela saúde das duas e prometia: “acho que tão logo eu termine com os alemães, vou até vocês ou vocês virão até mim. Por favor, escrevam com mais frequência. Não tenho tempo porque temos batalhas o tempo todo”. E mesmo nessa carta para as duas filhas moças, enquanto tentava conter os alemães em Leningrado, ele prometia uma vitória. “Estou planejando não só defender a cidade, mas também persegui-los até Berlim.” Numa época em que a situação por toda parte parecia desesperada, foi um grande salto de fé.

Zhukov sabia que tivera sorte por ter sobrevivido aos expurgos que varreram tantos oficiais em 1937. De acordo com sua filha Ella, ele sempre tinha à mão uma pequena mala marrom com duas mudas de roupa e um kit de toalete para o caso de a próxima batida na porta ser para ele. Lembra-se de que ela estava sempre ao lado da cama e que de tempos em tempos sua mãe colocava roupas limpas. Apesar de até uma criança perceber a atmosfera de medo, acrescentou, “nós nunca falamos abertamente disso em casa”.

Zhukov só deixou o hábito de manter a mala pronta em 1957, quando Kruschev, que nunca confiou em Zhukov, demitiu-o do seu posto de ministro da defesa e de todos os seus deveres oficiais. Ele tinha ajudado o novo líder soviético a prender Beria e a manobrar para superar os rivais políticos, mas Khruschev temia que Zhukov tivesse ambições políticas próprias. Como o arquiteto militar incontestável da vitória sobre a Alemanha, Zhukov tinha alto prestígio e popularidade.

A desconfiança de Kruschev vinha desde a sua relação com Stalin. Apesar de também ter servido lealmente ao tirano desacreditado, Zhukov tinha trabalhado muito próximo a ele. Ao mesmo tempo ele, mais do que qualquer outro, tendia a falar francamente na presença de Stalin. Assim, Zhukov ficou marcado como alguém que não se deixou intimidar pelo poder, nem mesmo o poder absoluto. O marechal Timoshenko diria mais tarde que Zhukov era “a única pessoa que não temia ninguém. Não tinha medo de Stalin”. Talvez fosse verdade, mas a mala pronta indicava uma consciência aguda das consequências, se caísse em desgraça.

E, o que não chega a ser surpreendente, eram claros os limites do que Zhukov podia fazer, particularmente no período dos expurgos, quando ainda não tinha chegado às alturas que atingiria depois. Zhukov escreveria mais tarde, num trecho das suas memórias que foram censuradas até a década de 1990, que os expurgos constituíram “uma enorme epidemia de calúnias” em que “geralmente se caluniavam pessoas honestas e até mesmo amigos íntimos”. Ele também afirmou nas suas memórias que tentou proteger os oficiais que tinha condições de ajudar – ou pelo menos não prejudicá-los, enquanto os interrogadores conduziam a sua caça às bruxas.

Quando serviu no Distrito Militar da Bielo-Rússia, ele foi interrogado em Minsk por F. I. Golikov, membro do conselho militar. Perguntado sobre Rokossovsky e outros oficiais que tinham sido presos, Zhukov os defendeu como “verdadeiros patriotas”. Quando teve outra chance de responder à mesma pergunta, ele respondeu: “sim, ainda hoje eu os considero verdadeiros patriotas e comunistas dedicados”.

De acordo com o relato de Zhukov, Golikov ficou visivelmente irritado com a resposta. Seu rosto ficou vermelho e ele perguntou se não achava perigoso “elogiar inimigos do povo.” Mas Zhukov manteve-se firme e disse que não sabia por que aqueles oficiais tinham sido presos.

Golikov, então, mudou de atitude e apresentou relatórios de que Zhukov era rude com os subordinados e oficiais políticos. Zhukov reconheceu que às vezes tinha a língua ferina, mas afirmou que agia assim somente com quem não tinha bom desempenho. Finalmente, o interrogador lhe perguntou sobre boatos de que Ella, sua filha mais nova, era batizada – o que, se verdadeiro, poderia tê-lo condenado no ato. Ele negou e Ella está convencida até hoje de que não há razão para acreditar que o boato fosse outra coisa que não mais uma parte da campanha generalizada de mentiras.

Zhukov afirmou mais tarde que considerava os expurgos um período de loucura que custou as vidas de muitos bons oficiais. Andrei Gromyko, o veterano ministro de relações exteriores, relatou tê-lo ouvido dizer: “É claro, eu os considero vítimas inocentes”. E, referindo-se à vítima mais proeminente, o aristocrático comandante que transformou o Exército Vermelho numa força moderna de luta, ele acrescentou: “Tukhachevsky foi uma perda especialmente danosa para o exército e o estado”. Ella Zhukova também relata que ele condenou os expurgos – mas, é claro, essas condenações vieram depois da morte de Stalin. Apesar de ter-se queixado nas suas memórias de que os oficiais expurgados teriam sido substituídos por “pessoas novas que não tinham tanta experiência”, ele fez parte de uma nova geração de líderes militares cujas carreiras foram aceleradas para preencher aquela lacuna. Na verdade, ele admite que teve a sorte de não ter sido promovido mais rapidamente, pois nesse caso ele se tornaria um alvo mais visível, e teria sido mais difícil evitar ser expurgado. Em outra ocasião, quando lhe disseram que talvez houvesse novas acusações contra ele, admitiu: “na verdade, eu estava nervoso, porque naquela época era muito fácil ser rotulado como ‘inimigo do povo’”.

No verão de 1939, Zhukov enfrentou o primeiro teste das suas habilidades de liderança militar. Forças japonesas tinham atacado tropas soviéticas na Mongólia, uma ação que Zhukov mais tarde caracterizaria como uma tentativa de Tóquio de expandir seu império e avaliar a capacidade de luta do vizinho soviético. Quando assumiu o comando do Primeiro Grupo de Exércitos Soviéticos, Zhukov demonstrou sua disposição de ordenar aos seus soldados enfrentar as situações mais perigosas, com plena consciência de que eles teriam de pagar um alto preço. Num exemplo, os japoneses atacaram com uma grande força numa área onde Zhukov não tinha acesso a reservas de infantaria. Ele, então, mandou seus tanques para a batalha sem o apoio da infantaria, sabendo que isso iria resultar em pesadas baixas – que foi exatamente o que aconteceu. A brigada soviética perdeu cerca da metade dos seus tanques e homens, mas os japoneses também sofreram pesadas perdas e seu ataque fracassou. Como explicou Zhukov, isso justificou plenamente o sacrifício dos seus homens.

Mas Zhukov também aumentou pacientemente suas forças para garantir que elas teriam uma sólida vantagem em homens e poder de fogo, quando lançou o seu grande ataque no que ficou conhecido como a Batalha de Khalkin Gol no dia 20 de agosto. Apesar da feroz resistência dos japoneses, as forças de Zhukov conquistaram uma vitória decisiva no final do mês, e duas semanas depois o Japão assinou um acordo com a União Soviética e a Mongólia terminando formalmente as hostilidades. Os dois lados sofreram pesadas perdas, mas o Exército Vermelho surgiu como o vencedor incontestável. Os japoneses agora sabiam que a União Soviética era um adversário que não poderiam se dar o luxo de subestimar – fato que mais tarde determinaria o seu modo de pensar, quando a aliança com a Alemanha levantou a questão de eles apoiarem Hitler atacando do leste.

Por seu papel na orquestração dessa vitória, Zhukov recebeu o título de Herói da União Soviética e, mais importante, atraiu a atenção de Stalin. No mês de maio seguinte, ele foi nomeado comandante da região militar de Kiev. Durante as primeiras conversas cara a cara com Stalin, o ditador soviético quis discutir a bem-sucedida campanha contra os japoneses e, tirando baforadas do seu cachimbo, interrogou-o sobre o desempenho dos soldados e dos oficiais. Stalin ouviu atentamente e insistiu com ele para aplicar as lições que tinha aprendido no seu novo posto no distrito de Kiev, incluindo-as nos seus cursos de treinamento. Quando voltou para o seu quarto no Hotel Moskva naquela noite, Zhukov teve dificuldade para dormir. Estava impressionado pela seriedade de Stalin e atenção ao detalhe, e pela postura calma. “Se ele é sempre assim, não entendo a razão de tantos boatos de que ele é um monstro”, refletiu, indicando uma atitude mental muito diferente da que viria atribuir a si próprio mais tarde. “Naquela época, eu não era capaz de acreditar nas coisas más.”

Mesmo na versão completa das suas memórias, que foi publicada na década de 1990, Zhukov escreveu defensivamente sobre a incapacidade de Stalin de preparar a União Soviética para o ataque alemão, e os primeiros sucessos do inimigo. Stalin tentava evitar por todos os meios possíveis uma guerra com a Alemanha, explicou.

O líder soviético não era covarde, mas ele compreendeu claramente que já era muito tarde para os importantes preparativos para uma guerra tão grande contra um inimigo tão forte. Ele compreendeu que estávamos atrasados […] com o rearmamento das nossas tropas com novas armas e a reorganização das forças armadas.

Zhukov preferiu evitar questionar o motivo daqueles preparativos não terem ocorrido antes – e, é claro, a responsabilidade direta de Stalin por essas falhas. Mas não foi tão reticente quando mostrou que Stalin tinha mantido para si a maioria dos relatórios de inteligência mais importantes sobre as intenções da Alemanha, evitando que Zhukov e outros líderes militares tomassem conhecimento deles. “Não recebi de Stalin as informações que estavam nos relatórios que ele recebia pessoalmente”, disse Zhukov. Embora esses relatórios tivessem sido mostrados a outros membros do Politburo, “foram ocultos dos comandantes militares do país”. Quando tentou descobrir a razão dessa omissão, foi informado que eram ordens de Stalin. Em outra ocasião, no início de 1941, Zhukov e o marechal Timoshenko perguntaram diretamente ao líder soviético. “Vocês serão informados somente sobre as coisas que precisam saber”, respondeu secamente Stalin.

No dia 11 de setembro, quando parecia que os alemães estavam quase tendo sucesso no avanço sobre Leningrado, o líder soviético despachou Zhukov para substituir o marechal Voroshilov, que claramente não estava à altura da tarefa de defender a cidade. “A situação lá é quase desesperadora”, um Stalin abatido disse a Zhukov. O recém-chegado logo começou a dar ordens, afastando e alterando as atribuições daqueles que não cumpriam bem as suas missões, insistindo que os soldados parassem de recuar e lançassem novos ataques, quaisquer que fossem as chances, ou enfrentariam o pelotão de fuzilamento se desobedecessem. No final do mês, o avanço alemão tinha sido contido, e se fixou no que se tornaria o bloqueio de 900 dias da cidade para fazer os seus habitantes sucumbir à fome.

A provação deles seria horrenda: com a queda rápida das provisões de alimentos, 632.253 civis morreriam durante o cerco, de acordo com números soviéticos oficiais. Mas as ações de Zhukov – e um pouco de sorte – evitaram que os alemães chegassem à vitória. O que Stalin e seus generais não perceberam de início é que na segunda metade de setembro, Hitler já estava redistribuindo muitas das suas tropas, preparando-se para a Operação Tufão, o ataque a Moscou, o que aliviou a pressão sobre Leningrado.

Nos primeiros dias de outubro, quando os alemães cercaram as unidades do Exército Vermelho no caldeirão de Vyazma, outros soldados naquela área tentavam desesperadamente fugir para não serem presos em cercos semelhantes. Vasily Grossman, escritor e correspondente d o Krasnaya Zvezda, testemunhou esses acontecimentos e registrou no seu caderno as impressões que não seriam publicadas no seu jornal. “Eu pensava já ter visto retiradas, mas nunca tinha visto nada como o que estou vendo, e nunca poderia imaginar coisa igual”, escreveu.

Êxodo! O Êxodo Bíblico! Os veículos se movem em oito filas, ouvimos o rugido de dezenas de caminhões tentando ao mesmo tempo arrancar as rodas da lama. […] Vimos também multidões de pedestres com mochilas, pacotes, malas. […] Há momentos em que sinto vivamente como se tivéssemos sido transportados no tempo para a era das catástrofes bíblicas.

Os líderes soviéticos continuaram a receber más notícias. Um piloto soviético relatou que uma coluna de tanques alemães estava a pouco mais de 150 km a sudoeste do Kremlin, movendo-se continuamente ao longo da estrada – e não parecia haver defesas soviéticas capazes de contê-las antes que chegassem a Moscou. Alarmado, o comando soviético enviou um segundo avião que confirmou a observação. O chefe da polícia secreta ficou furioso e despachou um dos seus subordinados para avisar ao comandante da força aérea em Moscou, Nikolai Sbytov, que ele e seus pilotos poderiam enfrentar prisão por “covardia e disseminação de pânico”. Mas um terceiro avião confirmou as más novas, e Stalin percebeu o quanto a situação era desesperadora para a capital soviética. Como observou Zhukov, “pairava sobre Moscou a grave possibilidade de ruptura das linhas”.

Na noite do dia 6 de outubro, Stalin convocou Zhukov em Leningrado, ordenando-lhe que voltasse imediatamente a Moscou. No dia seguinte, o líder soviético, que sofria um acesso grave de gripe, recebeu-o no seu apartamento no Kremlin. “Ouça, estamos enfrentando problemas graves na frente ocidental, e ainda assim não consigo receber nenhum relatório detalhado sobre o que está acontecendo”, queixou-se Stalin. A missão de Zhukov: dirigir-se imediatamente ao quartel-general da frente ocidental em rápida desintegração e informar-se sobre o que estava se passando. Na verdade, a sua missão era nada menos que evitar que os alemães marchassem sobre Moscou e declarassem a vitória.

Física e emocionalmente exausto, Zhukov embarcou num carro e partiu de imediato para o quartel-general, uma viagem difícil que durou até tarde da noite. Durante a viagem, em pelo menos duas ocasiões ele pediu ao motorista para parar e desceu para uma corrida de algumas centenas de metros para se manter alerta. Não precisava que lhe dissessem que o seu destino – e o destino do país – dependia da sua capacidade de se manter alerta e imaginar o que poderia ser feito para evitar o desastre em formação.

 

O outro lado da moeda do pessimismo de Stalin que se aprofundava era a disposição eufórica de Hitler com relação à Operação Tufão. Em setembro, o oficial da SS, Otto Günsche, que mais tarde de tornaria o assistente pessoal do líder alemão, visitou o quartel-general de Hitler na Toca do Lobo. Quando perguntou a alguns dos oficiais ali postados se era ali que o Führer planejava passar o inverno, eles riram como se a ideia fosse absurda. “Passar o inverno? O que você está pensando?”, respondeu um deles. “Estamos lutando uma Blitzkrieg [guerra-relâmpago] contra a Rússia.”. Em seguida, referindo-se ao retiro favorito de Hitler nos Alpes Austríacos, acrescentaram: “o Natal nós vamos comemorar em Obersalzberg, como sempre”.

Hitler chamou Günsche à sua sala de conferências para ouvir suas impressões da frente oriental. A julgar pela saudação alegre de Hitler – estava assoviando baixinho para si mesmo –, ele esperava boas notícias. Apesar de admitir que os russos estavam lutando duro, Günsche não o desapontou: disse que o moral entre os SS estava alto e eles estavam felizes por estar lutando.

Hitler ofereceu uma previsão: “vamos quebrá-los logo, é só uma questão de tempo”. Então, descrevendo como suas Divisões Panzer, com mais de 200 mil tanques, estavam se preparando para o assalto, acrescentou: “Moscou vai ser atacada e vai cair, então teremos ganhado a guerra”. Uma vez derrotadas as forças soviéticas e as tropas alemãs chegando aos Urais, parariam lá e a Luftwaffe ficaria encarregada de bombardear quaisquer tropas que tentassem se reagrupar mais a leste. Quanto aos russos, nas áreas não ocupadas, eles poderiam morrer de fome. Quando se despedia de Günsche com a saudação nazista, ele prometeu: “como reformador da Europa, vou garantir que uma nova ordem seja imposta naquela terra de acordo com as minhas leis!”.

Mesmo quando o tempo começou a mudar no início de outubro, trazendo as primeiras neves e chuva que logo cumpririam o papel de atrasar o avanço alemão, Hitler continuou suas ruminações sobre o que reservava à Rússia quando estivesse firmemente sob o domínio alemão. Ao jantar, no dia 17 de outubro, ele falou de enormes projetos de construção e da necessidade de lançar estradas por toda parte. De acordo com um dos presentes, que anotou os pontos altos da conversa, Hitler expôs suas visões do futuro:

nos pontos de cruzamento dos grandes rios, vão surgir cidades alemãs como centros da Wehrmacht, polícia, administração e autoridades do Partido. Ao longo das estradas serão instaladas grandes fazendas, e logo a estepe monótona, com sua aparência asiática, vai ficar muito diferente. Dentro de 10 anos, quatro milhões de alemães estarão instalados aqui, e dentro de vinte anos, pelo menos 10 milhões.

Os colonos viriam de lugares tão distantes como a América, continuou, não só da Alemanha. A premissa implícita: haveria um mundo controlado pela Alemanha quando a União Soviética fosse derrotada. Quanto aos ucranianos, russos e outros povos daquela terra derrotada, “a população nativa não receberá educação nem assistência”. Em outras palavras, o destino deles seria a escravização total, e a produção do seu país só beneficiaria os conquistadores.

Os comandantes de Hitler estavam mais preocupados com o objetivo imediato: garantir que suas tropas continuassem o avanço, enquanto se preparavam para atacar Moscou pelo sul, pelo oeste e pelo norte. Um dia depois de os tanques de Guderian terem entrado em Orel sem oposição, em 3 de outubro, o Chefe do Estado-Maior do Exército, Halder escreveu no seu diário que tudo seguia de acordo com os planos. “Guderian chegou a Orel e agora avança pelo espaço vazio. [general] Hoepner rompeu as posições inimigas e chegou a Mozhaisk” – uma cidade a cerca de 100 km a oeste de Moscou, que era o centro da principal linha de defesa soviética. A noroeste de Moscou, as tropas avançavam na direção de Rzhev, uma cidade que era vista como um ponto importante de concentração para as unidades que deveriam executar a porção norte do movimento em pinça para Moscou.

Mas Guderian não estava convencido de que tinha “o espaço completamente aberto” para o norte de Orel na direção de Moscou. Além da descoberta de que os tanques soviéticos T-34 mostravam ser mais bem projetados para combate que os seus Panzers, Guderian estava perturbado pelos sinais de que os defensores soviéticos, em relação ao início das operações, estavam fazendo um trabalho melhor de organização dos contra-ataques, mesmo quando estavam inferiorizados em armamentos. Enquanto a infantaria do Exército Vermelho atacava de frente, seus tanques atacavam os flancos dos tanques alemães. “Estavam aprendendo”, admitiu Guderian. E ele preocupava-se com o impacto sobre o moral dos seus soldados. “A dureza da luta estava gradualmente deixando suas marcas nos nossos oficiais e soldados. […] Era assustador observar como nossos melhores oficiais foram afetados pelas batalhas mais recentes.”

Ainda mais alarmante era que os primeiros dias de outubro trouxeram os indícios de mudança do clima. A primeira neve caiu durante a noite de 6 para 7 de outubro e, apesar de ter sido apenas uma prévia do inverno russo que se aproximava, os oficiais de Guderian pediram botas, camisas e meias quentes – e tudo aquilo estava racionado. Apesar dos avisos que irritava o alto-comando com aquelas requisições repetidas, Guderian continuou requisitando – sem chegar a lugar algum.

As primeiras neves não prejudicaram, mas, com as chuvas que se seguiram, ajudaram a transformar as estradas russas em “horríveis pântanos de lama”, como as descreveu Guderian. No dia 12 de outubro, ele se queixou, “nossas tropas estavam presas na lama, imobilizadas”. Ainda conseguiram ajudar a fechar o cerco de outro caldeirão, dessa vez em Bryansk, ao sul da ação maior em Vyazma. Mas no momento em que o comando alemão emitiu a ordem de cercar Moscou, as tropas de Guderian – que deviam se ocupar da parte sul da missão – viram-se cada vez mais atoladas na resistência contínua e pelo clima. De fato, aquela ordem de cercar Moscou nem chegou a elas.

Embora muitos generais no campo ainda estivessem convencidos de que seriam capazes de dar a vitória que Hitler exigia, não estavam nem de longe tão otimistas quanto o Führer com relação à inevitabilidade dela – e certamente não tão certos quanto ao preço que seus homens teriam de pagar por ela. Já tinham sentido o gosto da resistência soviética e do clima russo, e reconheciam que teriam de enfrentar uma luta de verdade.

 

Pelo que Zhukov sabia, os alemães tinham razão ao acreditar que estavam em vantagem e que poderiam chegar a Moscou. “O inimigo pensou que as forças soviéticas estavam enfraquecidas, desmoralizadas e incapazes de defender sua capital”, escreveu mais tarde. Em 6 de outubro, a noite em que viajou para o quartel-general da frente ocidental em seguida ao encontro com Stalin, Zhukov conferenciou com seus generais e percebeu que a situação era realmente horrível. Os comandantes tinham perdido contato com os exércitos cercados, próximo a Viazma e, como expressou Zhukov, “não havia mais uma frente contínua no oeste, e as lacunas não podiam mais ser fechadas porque o comando não tinha mais reservas”. Com o benefício da visão em retrospectiva, ele afirmou que sabia que com bom planejamento e liderança, as forças soviéticas ainda poderiam conter os alemães – mas sua descrição da situação real sugere que ele não tinha certeza.

Zhukov telefonou a Stalin às 2h30 da madrugada do quartel-general da frente ocidental para lhe dar o relatório prometido. Como sempre, o líder soviético estava acordado àquela hora tardia. “O principal perigo agora é que a estrada para Moscou está quase completamente desprotegida”, explicou o comandante exausto. “As fortificações ao longo da linha Mozhaisk são muito fracas para evitar o rompimento pelos blindados alemães. Temos de concentrar forças na linha de defesa de Mozhaisk com a máxima rapidez, de onde for possível.” A linha a que Zhukov se referia corria do norte para o sul por cerca de 220 km, a uma distância de cerca de 100 km da capital, e deveria ser defendida a todo custo por suas tropas.

A fim de ganhar tempo necessário para montar aquelas defesas, cerca de 4 mil cadetes de duas academias militares Podolsk – uma de infantaria, outra de artilharia – receberam ordens de preencher uma das maiores lacunas na linha por onde as tropas alemãs avançavam perto de Maloyaroslavets. De acordo com as lembranças do pós-guerra soviético, os esforços heroicos de início espantaram os alemães e atrasaram o seu avanço por vários dias cruciais. Um sobrevivente, o cadete S. Leonov, teria dito que exultou com os primeiros sucessos. “Vemos os alemães. Eles estão fugindo. Não acreditamos nos nossos olhos. Mas não é um sonho: os inimigos estão fugindo de nós – cadetes.”

Mesmo que fosse verdade, teria sido apenas um episódio passageiro. Boris Vidensky, o sobrevivente que depois se tornou historiador militar, relembrou o terror imediato dos bombardeios alemães que mataram muitos dos cadetes seus companheiros, e os folhetos descendo como folhas secas dos aviões com o convite: “jovens vermelhos, rendam-se a nós!” Apesar de os cadetes já estarem usando roupas quentes, sobretudos e chapéus que os alemães não tinham, estavam absolutamente inferiorizados em armas. Vidensky explicou que, como cadete de artilharia, especializado em canhões, no início ele nem sabia como atirar com uma metralhadora. E embora os alemães representassem a ameaça de morte à sua frente, havia outra ameaça vindo na direção oposta. Vidensky se referia às tropas mandadas para atirar em qualquer soldado que tentasses recuar. “Era a primeira vez que eu via as unidades de bloqueio da NKVD. Estavam atrás de nós.” Mas não importa quais fossem os seus pensamentos na época, relembrando mais de 60 anos depois, ele expressou aprovação daquela tática de terror. “A ideia era resistir aos alemães a qualquer preço. Aquela insensibilidade nos deu a vitória.”

Os relatos oficiais indicam que cerca de 80% dos cadetes pereceram naqueles poucos dias de luta. Unidades espalhadas por outros locais, inclusive outros grupos de cadetes, também participaram da defesa improvisada de uma linha cheia de buracos. Como no caso das centenas de milhares de soldados que morreram ou foram feitos prisioneiros no caldeirão de Vyazma, Zhukov afirmaria que esses sacrifícios não foram “em vão”, pois ganharam tempo para aqueles que desesperadamente montavam defesas em torno de Moscou, cavando trincheiras e construindo casamatas e barreiras antitanque, e se preparando para o pior. Também ganharam tempo para os generais reorganizarem suas unidades, montar linhas de defesa e convocar todos os soldados ainda disponíveis.

Mas o primeiro instinto de Stalin, como sempre, foi punir os que ele considerava culpados por não terem contido o avanço alemão e por permitirem que tantos soldados fossem cercados em Vyazma. Depois de ouvir os relatórios iniciais de Zhukov, ele deu-lhe o comando de todas as forças que defendiam Moscou e demitiu vários altos oficiais responsáveis. Apesar de ter pouca simpatia por outros oficiais demitidos, Zhukov defendeu o general Ivan Konev, argumentando que necessitava dele como seu segundo em comando. O líder soviético concordou com relutância, mas certificou-se de que a nova equipe sabia onde estava pisando. “Se Moscou cair, as duas cabeças vão rolar”, disse. Como sempre, não havia possibilidade de atribuir culpa a Stalin, não importa o que acontecesse.

Zhukov calculou que tinha somente 90 mil homens para evitar que os alemães que se aproximavam tomassem a capital. “Eram forças longe de adequadas para operar uma linha contínua de defesa.” Por isso, as tropas foram enviadas para defender as principais cidades e posições. Os oficiais, de Zhukov para baixo, sabiam que tinham de fazer o possível para distribuí-las efetivamente, tentando adivinhar onde os alemães atacariam em seguida. “Todos trabalhavam dia e noite”, Zhukov escreveu mais tarde. “As pessoas literalmente desabavam de cansaço e falta de sono. Mas todos fizeram o possível no seu posto – às vezes até o impossível.” A principal motivação, concluiu, era “um sentimento de responsabilidade pessoal pelo destino de Moscou”. Mas os alemães continuaram a abrir buracos nas linhas de defesa, e Zhukov percebeu que o máximo que poderia esperar era atrasar o avanço alemão tempo suficiente para poder fortalecer os defensores mais próximos da cidade.

Enquanto se erguiam apressadamente barreiras antitanque nas estradas para a capital, e os ataques aéreos alemães obrigavam os moscovitas a correr em busca de proteção nas estações do metrô da cidade, até os pronunciamentos oficiais soviéticos – que sempre tentavam evitar as más notícias – soavam cada vez mais pessimistas. A mídia soviética não noticiou o discurso de Hitler no dia 2 de outubro anunciando que o avanço “final” sobre Moscou tinha começado, mas o vice-ministro de Relações Exteriores, Solomon Lozovsky, admitiu indiretamente que isso podia ser verdade quando disse aos jornalistas estrangeiros que a captura de qualquer cidade não iria alterar o resultado final da guerra. “Se os alemães desejam ver algumas centenas de milhares de seus homens mortos, vão ser bem-sucedidos – pelo menos nisso”, disse ele no dia 7 de outubro. Naquela mesma noite, um relatório sobre as notícias mencionava pela primeira vez “luta violenta na direção de Viazma”.

No dia seguinte, o diário do exército Krasnaya Zvezda declarou que “a própria existência do estado soviético está em perigo”, e exigiu de todos os soldados que “aguentem firme e lutem até a última gota de sangue”. Era parte de um processo que Zhukov chamaria de explicação “da gravidade da situação, o caráter imediato da ameaça a Moscou, ao povo soviético”. Novas instruções convocavam todos os moscovitas a ajudar a construir uma linha de defesa fora da cidade, nos limites da cidade, e linhas de defesa ao longo dos bulevares internos e externos já dentro da cidade, preparando assim para a possível luta de rua. No dia 13 de outubro, o chefe do partido em Moscou, Aleksandr Shcherbakov, disse numa reunião de ativistas: “não podemos fechar os olhos. Moscou está em perigo”.

E ainda assim, os alemães continuavam a se aproximar. No dia 14 de outubro capturaram Rzhev. Apesar de ficar a 200 km a noroeste de Moscou, era o portão de entrada para as tropas alemãs que avançavam do norte, e sua queda significava que eles agora pareciam bem posicionados para tanto. Rzhev logo se tornaria a cena de uma matança em massa numa escala comparável à de Viazma, outro caldeirão infernal que iria consumir um número enorme de soldados. Mas naquele momento, as derrotas gêmeas em Vyazma e Rzhev assinalavam que o fim do jogo por Moscou já tinha começado, e muitos moscovitas passavam a aceitar que ele não duraria muito nem terminaria bem.

Os cidadãos soviéticos comuns só tinham de ler ou ouvir os anúncios oficiais para chegar a essa conclusão. Já não tinham de ler nas entrelinhas, como faziam normalmente, para entender o que estava acontecendo. Um comunicado oficial na manhã do dia 16 declarou: “durante a noite de 14 para 15 de outubro, a posição na frente ocidental piorou. As tropas fascistas alemãs lançaram contra nossas tropas enormes quantidades de tanques e infantaria motorizada e romperam as nossas defesas em um setor”.

Os alemães fechavam o cerco, as pinças estendidas e, como admitia o próprio governo soviético, estavam rompendo as defesas. A organização do Partido Comunista de Moscou pedia “uma disciplina de ferro, uma luta sem piedade contra até as menores manifestações de pânico, contra os covardes, desertores e disseminadores de boatos”. Mas isso não impediu que se espalhassem boatos de que as tropas alemãs já estavam nos arredores da capital, ou se deixasse vazar que o governo e as embaixadas estrangeiras já evacuavam o principal quadro de pessoal. No dia 13 de outubro, Stalin publicou ordens de evacuação dos mais importantes funcionários do partido, governo e militares para Kuibyshev, a cidade no rio Volga que havia sido escolhida para servir como a capital temporária se Moscou caísse.

Não impediu também o sentimento crescente de alarme entre os moscovitas comuns, que contemplavam nervosos a possibilidade de serem abandonados para enfrentar sozinhos os conquistadores e os invasores alemães. De repente, muitos deles agarraram seus pertences e também decidiram fugir, mas tinham de descobrir por si mesmos a saída da cidade em perigo.

Moscou estava à beira do pânico – não num sentido metafórico, mas no sentido literal da expressão.