A Batalha de Moscou
Sabotadores, malabaristas e espiões
Durante o verão de 2005, no meio do boom de construções em Moscou, os habitantes da cidade descobriram uma lembrança do legado da Batalha ocorrida na capital 64 anos antes. Quando os operários começaram a demolir o Moskva Hotel, o marco da era Stalin, próximo à Praça Vermelha, descobriram mais de uma tonelada de explosivos nas fundações do edifício. Felizmente, o TNT tinha deteriorado ao longo do tempo e não havia detonadores – sugerindo que ou o hotel teria servido como depósito de explosivos, ou as autoridades não tinham completado os preparativos para explodir o edifício. Mas, independentemente do que tenha acontecido, não há dúvida de que o hotel figurou no plano da liderança soviética para uma Moscou ocupada pelos alemães. A ideia era receber os alemães com tantas explosões de edifícios e instalações importantes quantas fosse possível.
A Batalha de Moscou foi cheia de planos secretos e atividades conspiratórias – a maioria organizada pela NKVD, a organização que sempre operava nas sombras. No início de outubro, os chefes da NKVD trabalhavam com a premissa de que os alemães logo ocupariam Moscou, e a única resistência que sobraria seriam as células subterrâneas que conseguissem organizar. Em uma das três gráficas ocultas que pretendiam manter em operação sob os narizes dos novos senhores da capital, estavam guardadas provas tipográficas, as primeiras do que prometia ser uma série de panfletos.
Companheiros! Deixamos Moscou devido aos ataques contínuos dos alemães. Mas agora não é a hora de chorar. Sabemos que os russos tiveram às vezes de deixar Moscou e depois libertá-la do inimigo. Morte aos invasores alemães! (Comitê Subterrâneo do Partido)
E os chefes da NKVD trabalharam freneticamente para fazer a morte acontecer na Moscou ocupada pelos alemães. Além de plantarem explosivos em toda a cidade, eles treinaram agentes que ficariam para trás, atuando em uma rede de comunicações clandestinas instalada em estações de rádio e locais de troca de informações. O objetivo era claro: matar nazistas importantes em todas as oportunidades, privá-los de estruturas vitais e sabotar seus esforços para manter o controle dos territórios conquistados.
Como se poderia esperar, a parte dos assassinatos foi a que mais atraiu os homens encarregados na Lubyanka, o quartel-general dos que conduziam uma guerra sistemática de terror contra seu próprio povo em nome de Stalin. A perspectiva de alvejar os amigos de Hitler era bastante para bombear adrenalina no seu sistema e fazê-los pensar, como diríamos hoje, fora de esquadro. De repente, estavam livres para imaginar os planos de assassinatos que não foram necessários quando perseguiam “inimigos” internos que não tinham chance de revidar. Aqueles esquemas exigiam uma combinação sem precedentes de criatividade e coragem, pois os planejadores sabiam que seus opositores estrangeiros eram tão desumanos quanto eles próprios.
Mikhail Maklyarsky, um dos oficiais mais antigos da NKVD encarregados dos preparativos, propôs o esquema mais audacioso. Recrutou quatro artistas que planejariam o espetáculo das suas vidas numa Moscou ocupada. Entre eles havia Nikolai Khokhlov, de 19 anos, que sabia como entreter multidões assoviando músicas. “A situação não parece boa, Nikolai”, Maklyarsky disse ao adolescente. “Aparentemente vamos ter de entregar a cidade. Por um período curto, é claro. Mas, de qualquer forma, se os alemães entrarem em Moscou, eles terão de se sentir como se tivessem acabado de entrar num ninho de vespas.”
As vespas, nesse caso, deviam ser Khokhlov e os outros membros do grupo teatral: Sergei Panilov, um experimentado escritor de esquetes; Tasya Ignatova, cantora; e uma jovem a quem todos se referiam simplesmente como Nina, a malabarista.
A atribuição do grupo era cair nas boas graças dos invasores alemães oferecendo-se para entretê-los. “Os alemães gostam de arte, especialmente se não for muito séria”, Maklyarsky explicou a Khokhlov. O grupo iria tentar arrancar um convite para se apresentar diante do alto-comando alemão quando estivessem comemorando a vitória, possivelmente na Casa das Colunas, perto do Kremlin.
Talvez até Hitler honrasse o espetáculo com sua presença. Imagine um grande espetáculo de palco para o comando nazista! Generais alemães. Funcionários de estado, todo tipo de ministro […] e, então, de repente, uma explosão […] uma, duas granadas.
Não importa quem morresse naquelas explosões, a mensagem de que os russos continuariam a resistir, apesar da perda da sua capital, seria sonora e clara.
Os quatro artistas foram submetidos a treinamento num apartamento de Moscou, onde Khokhlov lembra ter tido “o primeiro grande amor” de sua vida com Ignatova, a cantora. Seus contatos da NKVD entregavam grandes estoques de armas, explosivos, dinheiro, cartões de racionamento e comida. Eles também recebiam aulas de como usar o novo arsenal, que incluía barras amarelas que pareciam sabão, mas eram na verdade TNT e uma variedade de estopins, detonadores, bombas e armadilhas. Apesar de terem de esperar instruções dos seus superiores que logo abandonariam Moscou, todos sabiam que sua tarefa principal era dar o centro do palco para Nina, a malabarista, na grande comemoração da vitória alemã. Durante o espetáculo, ela deveria observar os vips alemães. Então, no clímax do espetáculo, ela lançaria os pinos, carregados de granadas e outros explosivos nos seus alvos, matando tantos quanto possível.
Quando o governo se preparava para abandonar Moscou, no dia 15 de outubro, Maklyarsky convocou os dois homens do grupo, Khokhlov e Panilov. Percorreram um corredor de Lubyanka cheio de funcionários freneticamente destruindo documentos. Quando chegaram à sala de Maklyarsky, ele estava ao telefone dando uma ordem: “está bem. Agora ouça. Prenda-a imediatamente e execute-a ao amanhecer”. Voltou-se para os dois jovens, oferecendo uma explicação brusca de que os alemães tinham atraído uma agente da NKVD que tinha sido enviada numa missão. Ele, então, combinou a ameaça implícita com uma mensagem mais suave.
O que posso dizer a vocês, rapazes? Nada de bom. Estamos saindo de Moscou, os tanques alemães já estão nos
arredores da cidade. Aguentem firme – e lembrem-se do que vocês estão defendendo. Não fiquem excitados. Esperem as comunicações e instruções.
Já velho, Pavel Sudoplatov, o superior imediato de Maklyarsky, ainda gostava de se lembrar da estrela do espetáculo “elegantemente girando os pinos e então atirando-os nos alemães”. Boris Maklyarsky, filho do inventor do esquema, relembra que, depois que os alemães foram forçados a recuar dos arredores de Moscou, Sudoplatov foi ao apartamento onde o quarteto ensaiava para lhes dizer que o espetáculo estava cancelado. Sem a plateia alemã, o espetáculo já não tinha mais sentido, e os artistas foram informados que estavam liberados. Para sua surpresa, o grupo ficou visivelmente desapontado, embora Khokhlov dissesse mais tarde que eles também ficaram aliviados, pois a pressão fora afastada. Ainda assim, eles esperavam ansiosos o espetáculo mais desafiador – e perigoso – de suas vidas.
Esse quase fracasso por pouco não pôs fim na carreira de riscos de Khokhlov. De acordo com Boris Maklyarsky, Khokhlov, “apesar de sua aparência pouco atraente, se provaria muito corajoso e dotado de sangue frio”. Aprendeu a falar fluentemente o alemão e foi lançado atrás das linhas inimigas, passando por oficial alemão para organizar o assassinato de Wilhelm Kube, o comissário geral de Hitler para a Bielo-Rússia, também conhecido como o “carniceiro” da província. Depois da guerra, Khokhlov tentou repetidamente se livrar do serviço secreto, mas seus patrões se recusavam a liberá-lo. Pelo contrário, eles o treinaram para trabalhos no exterior que incluíam sabotagem e “a liquidação física de nossos inimigos”. Como explicava, ele recebeu ordens “para se tornar um assassino – um assassino a serviço do Estado Soviético”.
Mas Khokhlov foi ficando cada vez mais desiludido com o sistema soviético. Ainda durante a guerra, ele soube a verdadeira história do seu pai, que ele não havia conhecido muito bem, porque tinha se divorciado quando ele ainda era muito pequeno. Seu pai servia como comissário num batalhão do exército durante a Batalha de Moscou, e ele cometeu o erro de confidenciar a um dos seus soldados que Stalin era culpado pela desordem e pelo colapso da frente quando os alemães atacaram. Acrescentou que era difícil saber qual seria o mal menor, se Hitler ou Stalin. Convencido de que estava sendo testado, o soldado imediatamente delatou as observações. O resultado foi a transferência do pai de Khokhlov para um batalhão penal, o tipo de unidade que era enviada primeiro para a batalha com a expectativa de que quase todos pereceriam. E foi o que aconteceu rapidamente com o pai de Khokhlov.
O padrasto de Khokhlov – “um excelente advogado que provavelmente não sabia nem como segurar um fuzil”, como dizia Khokhlov – apresentou-se como voluntário para defender Moscou e também morreu em ação quase imediatamente. “O exército precisava de carne de canhão”, observou amargamente Khokhlov. “Zhukov conquistou todas as suas vitórias dizimando milhões. A matança não teve precedentes.”
Em 1954, quando a Guerra Fria já corria a pleno vapor, os superiores de Khokhlov em Lubyanka despacharam-no numa missão para organizar o assassinato de um proeminente emigrado russo em Berlim Ocidental. Mas ele preferiu avisar ao alvo designado, cooperou com agentes da inteligência americana na interceptação de outros membros da sua equipe, e desertou para o ocidente. Mais tarde ele escreveu suas memórias, In the Name of Conscience: The Testament of a Soviet Secret Agent , e deu aulas de psicologia na Universidade do Estado da Califórnia, em San Bernardino, até se aposentar em 1992. Também nesse ano, o presidente Boris Yeltsin anistiou-o, e ele pôde voltar para Moscou pela primeira vez, quando então chegou a fazer uma visita a Lubyanka, o famoso quartel-general de seus antigos patrões.
Enquanto este livro estava sendo escrito, Khokhlov ainda desfrutava a vida tranquila de um professor emérito na ensolarada Califórnia. Analisando em retrospecto o esquema inventado por Maklyarsky para o seu grupo de artistas, ele não hesita em responder se eles poderiam ou não ter sucesso caso os alemães tivessem ocupado Moscou. “Não, nunca. Os alemães nos teriam localizado e seríamos enforcados.” Observou que, como membros da comunidade artística, trocava-se boatos e logo todos saberiam o que todo mundo estava fazendo, e isso significava que os informantes logo saberiam tudo que precisassem saber. O fato de estarem gastando os recursos alocados a eles também os teria tornado facilmente identificáveis. “Na verdade, era uma charada que nunca teria funcionado.”
Mas, na época, ele e os outros acreditavam que poderiam ter sucesso. “O traço mais importante do cidadão soviético é a ingenuidade. Vivíamos na névoa criada não somente pelo clima, mas pela propaganda soviética. Naquela época as pessoas não falavam de perigo.”
Além do grupo muito especial de Khokhlov, a NKVD distribuiu vários agentes para serem deixados em Moscou para trabalhos clandestinos na cidade. Um memorando altamente secreto para Beria, encaminhado por Naum Eitingon – um dos mais altos oficiais da NKVD encarregados daquelas atividades – datado de 14 de outubro, relacionava uma lista parcial ao lado da missão de cada um. O primeiro, “grupo diversionista terrorista”, identificado pelas iniciais “z.r.”, era composto por três subgrupos, cada um com dois lutadores e um especialista em munições. “Há depósitos secretos com explosivos e armas”, relatou o memorando.
Além desses, há explosivos fora de Moscou, no local de testes do Comissariado Nacional de Agricultura. O comandante do grupo tem dois rádios – um deles em reserva para o caso de o primeiro apresentar defeito. Operadores de rádio para os dois aparelhos foram selecionados e treinados. Todos os membros do grupo têm histórias de vida e apartamentos secretos. Os membros do grupo se ligam com os comandantes de grupo por meio de agentes especiais.
Eram esses os grupos que deveriam executar a diretiva de Stalin emitida um dia depois, em 15 de outubro, com a ordem de explodir fábricas e outras instalações que não pudessem ser evacuadas. Outros grupos de agentes mencionados no memorando de Eitingon tinham nomes como Pescadores, Os Velhos, Os Fiéis, Os Selvagens e A Pequena Família.
O relatório também incluía descrições breves de alguns agentes, identificados por seus nomes em código, e suas missões mais especializadas. O agente Markov, comandante de Os Selvagens, por exemplo, era um ex-ladrão. A missão do grupo era “atos de terror contra oficiais do exército alemão”. O agente Grip Vice, membro da Pequena Família, é descrito como “um engenheiro, esportista, de origem nobre”. O relatório informava que sua mãe havia sido condenada a oito anos no Gulag por ter tido relações com funcionários da embaixada alemã em Moscou, mas Grip Vice “é um agente fiel”. Sua missão: “juntar-se a organizações fascistas de esportes e juventude para chegar a alguma posição administrativa e executar algum grande ato de terror”. O agente Poet, comandante de antigos oficiais do Exército Vermelho com experiência de combate, “deverá executar diversões no sistema de transporte ferroviário”.
Além dos explosivos, os grupos tinham vários instrumentos à sua disposição. Uma componente de Os Velhos de nome Gerasimova “tem a missão de publicar folhetos antifascistas e para isso ela recebeu uma máquina de escrever”. O agente Minério de Ferro, engenheiro e antigo oficial no exército czarista, também deveria publicar folhetos e “conduzir operações de inteligência”. “Recebeu uma máquina de escrever e uma câmera”, explicou o relatório. O agente Kako, proprietário de restaurante, devia “conduzir operações de inteligência e terror” usando seu restaurante “para reuniões secretas e como depósito de armas”. Para tornar mais fácil o seu trabalho, acrescentou o relatório, “Kako recebeu uma quota de álcool”. Entre outros locais usados como cobertura para os agentes havia o ateliê de um escultor, o escritório de um notário, uma clínica médica e um teatro.
Como sempre, a NKVD se interessava particularmente por identificar cidadãos soviéticos que não eram leais à causa. O agente Construtor, descrito como engenheiro ferroviário e homem de negócios muito bem-sucedido de origem nobre, “tem muitas ligações entre os brancos emigrados, ex-generais do exército czarista e muitos duques”. Sua atribuição era reunir membros da inteligência “que não acreditam que vamos vencer a guerra” e prepará-los “para receber os alemães”. Ele devia então fundar uma construtora e circular entre os altos círculos sociais sob o regime de ocupação. “Deverá se responsabilizar por tarefas de inteligência e outras mais ativas”, mencionou sucintamente o relatório, sem especificar se as “tarefas mais ativas” incluíam o assassinato de colaboradores ou se isso seria deixado a cargo de outros agentes.
Outro relatório discutia como os agentes deviam ser alertados para evacuar os escritórios da NKVD e incendiar os edifícios no momento em que os alemães estivessem a ponto de tomar a cidade. Uma opção, explicava o documento, era manter dez corneteiros que soariam um sinal. Mas o relatório acrescentava que algumas pessoas talvez não entendessem o que significava o sinal, e que havia o risco de agentes alemães descobrirem o plano. A outra opção, que era claramente a preferida, era equipar com rádios os edifícios visados, para ter certeza de que o sinal seria recebido e de que todos soubessem que era chegado o momento dos ataques incendiários e da rápida evacuação dos prédios.
À medida que a ofensiva alemã se aproximava, a NKVD se preocupava cada vez mais em plantar explosivos e minas necessárias para atingir o objetivo. Nas suas memórias datadas de 4 de abril de 1994, Sergei Fedoseyev, chefe da seção de contrainteligência da região Moscou da NKVD, explicou que fábricas que ainda poderiam ser usadas para produzir armamentos eram alvos prioritários. Apesar do enorme esforço para transferir indústrias chave para leste, esse serviço estava longe de ser completado. Fedoseyev também mencionou a necessidade de 20 toneladas de explosivos para demolir as 12 pontes da cidade.
Numa reunião de instruções, Fedoseyev e outros oficiais da NKVD ouviram que Otto Skorzeny, o oficial da SS que já conquistara uma reputação de implacável eficiência, e que mais tarde iria arrancar Benito Mussolini da prisão, estava encarregado de uma “seção técnica” das forças alemãs que se aproximavam. Sua missão: tomar e defender os edifícios do Partido Comunista na cidade, a Lubyanka da NKVD, o telégrafo central e outras instalações de alta prioridade antes que alguma coisa acontecesse a eles. Com isso em mente, a NKVD despachou especialistas para verificar se tudo estava pronto para frustrar esses planos.
Igor e Natalya Shchors estão entre os últimos membros sobreviventes das equipes da NKVD que se prepararam para o trabalho subterrâneo numa Moscou ocupada. São também um casal verdadeiro: começaram como estranhos em suas missões em 1941, mas instruídos para desempenharem o papel de marido e mulher, pouco a pouco o teatro se tornou realidade. Em 1944, eles se casaram e um ano depois começaram a família. Depois de todo esse tempo, eles ainda sentem certo desconforto ao discutir como de uma missão da NKVD floresceu um verdadeiro amor. “No início foi difícil”, lembrou Natalya, sentada no pequeno apartamento na Estrada do Anel do Jardim, no centro de Moscou. Seus olhos azuis brilharam quando olhou Igor, sentado rigidamente na poltrona ao lado da janela. “Mas desde aquela época estamos juntos”
Numa família com seis filhos, Igor nasceu em 1913 e cresceu na Ucrânia, onde Stalin lançou sua campanha de terror da coletivização forçada, resultando numa fome artificialmente induzida que causou milhões de mortes. Igor se lembra bem. Apesar de sua família receber cartões de racionamento para pão, as lojas geralmente não tinham pão durante vários dias em seguida. “As pessoas invadiam as lojas para conseguir pão, e nós o comíamos imediatamente para que ninguém o tomasse de nós. Houve até casos de canibalismo.”
Ainda assim, ele conseguiu ser o melhor aluno na escola, particularmente em matemática, e foi escolhido para estudar no Instituto de Engenharia de Montanha, em Leningrado, onde, se lembra bem, “eu comia mais pão”. Como engenheiro de montanha, aprendeu tudo sobre explosivos e completou um curso de artilharia de dois anos que lhe permitiu formar-se como oficial. Em março de 1940, foi convocado para servir na NKVD e recebeu instruções para se apresentar em Lubyanka, em Moscou. De lá, ele foi designado para uma escola especial da agência numa área de floresta nos arredores da cidade. A casa de madeira onde estava instalada a escola era cercada de arame farpado, e os alunos não tinham permissão para sair do local sem informar aos superiores exatamente onde estavam e quem visitariam.
A escola se destinava de início a ensinar línguas estrangeiras, mas também estava preparada para familiarizá-los com os costumes e comportamento dos países aonde eles poderiam ser enviados, para se misturarem à população da melhor forma possível. E, é claro, aprendiam espionagem básica. No final do curso, deveriam estar prontos para operar como agentes ilegais num país estrangeiro.
Igor chegou lá no fim de agosto de 1940, e se lembra dos primeiros exercícios de vigilância externa, arrombamento de cofres e de habilidades necessárias para evitar a captura. (Para o exame final, tinham de enganar o instrutor que os seguia.) Os estudantes usavam sobrenomes falsos e não tinham permissão para perguntar sobre a história dos colegas. Igor recebeu o sobrenome Schlegov, mas pôde continuar usando o seu próprio nome.
Foi indicado para um grupo de 12 estudantes de francês, mas havia outros grupos que estudavam inglês, alemão e italiano – 48 estudantes ao todo, homens e mulheres. Lembra-se de um dos seus instrutores, “um criminoso talentoso que foi libertado e transformado em instrutor”. Numa época em que era comum o racionamento de alimentos, Igor aprendeu a comer ostras e foie gras. “Devíamos saber comer aquelas comidas para o caso de comparecermos a um evento elegante na França”, disse ele. Foram orientados também a degustar vinho e outras bebidas que exigem uma abordagem diferente do vira-vira de vodca na Rússia. A fim de estar preparado para a outra ponta do espectro social, um dos instrutores se especializou no ensino aos alunos do rude francês coloquial. Os alunos foram informados de que, uma vez chegados à França, deviam abrir um salão de beleza, um bar ou um hotel que seria usado como cobertura para suas operações de espionagem.
Igor completou formalmente o curso em 20 de junho de 1941, graduando-se como tenente da NKVD. No dia seguinte, ele e um colega graduado foram ao mercado comprar comida e vinho para uma pequena comemoração, mas um dos atendentes correu a lhes dizer do anúncio de Molotov do início da guerra. Ao voltarem à escola, eles receberam instruções para esperarem novas ordens. Uma semana depois, Igor foi designado para OMSBON, as forças especiais da NKVD.
Como membro daquela unidade, ele se submeteu a mais treinamento militar, mas estava impaciente para entrar em ação e implorou uma nova designação. Depois do discurso de Stalin no dia 3 de julho, convocando o povo a se juntar à resistência, Igor mandou um telegrama diretamente a Pavel Sudoplatov, o chefe da NKVD encarregado das “tarefas especiais”, que respondeu com um convite para ele ir a Lubyanka. Aconselhou ao jovem tenente, ansioso e recém-formado, que mantivesse a calma, assegurando a Igor que logo ele descobriria um meio de usá-lo. “A guerra vai durar muito tempo”, acrescentou Sudoplatov.
Igor se viu, então, participando de um pequeno grupo de homens com instruções para se preparar para viagens que poderiam levá-los diretamente para a luta. Dois dos homens foram enviados a Smolensk, mas um deles pisou numa mina e morreu imediatamente, enquanto o outro perdeu uma perna. Igor também devia ir para oeste, mas o rápido avanço das forças alemãs levou seus chefes a mudar suas ordens. Ele foi trazido de volta a Moscou, onde seu caminho se cruzaria com o de Natalya.
Nascida em 1919 numa aldeia de Pavelkovo, a cerca de 250 km ao sul de Moscou, Natalya também conhecia bem a privação. Era a 12ª criança da sua família e, quando tinha apenas 2 anos, sua mãe morreu. Criada pela irmã mais velha, ela adorava esportes e, entre 1937 e 1941, estudou no Instituto Joseph Stalin de Cultura Física, em Moscou. Praticou todos os esportes, desde a ginástica até hóquei no gelo, e fez cursos de medicina esportiva, fisiologia, anatomia, massagens, além de matemática e física. Em 1940, participou da parada de esportes na Praça Vermelha. Lembra-se com saudade de se equilibrar sobre uma motocicleta e carregar flores quando o seu grupo desfilava diante de Stalin e dos outros líderes soviéticos. Estava nervosa? “Nunca tive medo de nada”, afirma ela. Mais tarde, quando os alemães começaram a lançar pequenas bombas incendiárias sobre a cidade, Natalya estava entre os jovens que vigiavam os tetos e, para evitar o incêndio dos edifícios, jogavam longe as bombas que não tinham explodido.
Quando completou seus estudos no verão de 1941, Natalya estava ansiosa para entrar para o exército, mas o diretor do seu instituto lhe disse que ela tinha sido chamada ao edifício do Komsomol, no centro da cidade. Lá, ela e quatro outras moças se viram numa reunião com um oficial da NKVD, que lhes perguntou: “vocês não têm medo de ir para a guerra”? Todas, inclusive uma adolescente que logo se tornaria lendária, de nome Zoya Kosmodemyanskaya, responderam que era exatamente o que queriam. Ali mesmo elas preencheram o formulário de inscrição na NKVD.
Um dia depois, Maklyarsky, o mesmo assistente de Sudoplatov que tinha trabalhado com os artistas no plano de assassinatos, designou Natalya para uma unidade OMSBON, atuando como enfermeira em Stroitel, uma cidade na região de Moscou. Ela tinha aprendido primeiros socorros quando trabalhava em tempo parcial num instituto de medicina (“eu não tinha medo de sangue”, diz ela). Parte do seu treinamento OMSBON foi aprender a atirar e a fazer explosivos.
No início de outubro, um supervisor do hospital disse às enfermeiras que um oficial da NKVD estava chegando para conduzir entrevistas com elas. Era Maklyarsky, que as saudou com um sorriso e chamou-a de Natalie, em vez de Natalya, que era a forma mais comum do seu nome. “Natalie, gostaríamos que você executasse uma ordem especial de Stalin”, disse ele, e acrescentou que ela devia ir para Moscou.
No dia seguinte, Natalya e duas outras mulheres se viram no quarto 1212 do famoso Hotel Moskva, o mesmo edifício pesado e sombrio ao lado do Kremlin, onde foram descobertos explosivos em 2005. Receberam novos uniformes, mas as botas de Natalya eram quatro números acima do dela. Caminhando com dificuldade, ela foi escoltada até Lubyanka por Maklyarsky, à sala de Bogdan Kobulov, braço direito de Beria. Kobulov estava sentado a uma mesa enorme, com vários oficiais em torno.
“O que você sabe fazer? Sabe dirigir?”, quis saber Kobulov.
Natalya respondeu que sabia, mas só tinha carteira de motociclista. “Também jogo hóquei e pratico esportes”, acrescentou.
A mente de Kobulov estava longe. “E se você fosse uma esposa fictícia?”, perguntou. Na preparação de alguma missão secreta, a NKVD às vezes colocava homem e mulher em casamentos falsos, o que lhes permitia trabalhar juntos sem levantar suspeitas. O comando presumia que um jovem casal “casado” atrairia menos atenção do que um homem ou mulher solteiros.
Ainda hoje Natalya sorri ao se lembrar. “Senti o coração palpitar por um momento e fiquei vermelha. Mas disse: ‘se tiver de fazer isso pelo meu país, eu faço’.” A falta de entusiasmo era compreensível, pois ela tinha um namorado chamado Dmitry, que já havia lhe pedido em casamento. Desde a convocação dele, em 1939, os dois ainda trocavam cartas. Mas ela sentiu que não tinha escolha e concordou em fingir ser a esposa de um homem que ainda não conhecia.
Natalya voltou ao quarto 1212 do Hotel Moskva, onde a NKVD lhe fornecia “lindos vestidos, sapatos e roupa de cama”. Então, o telefone tocou e ela recebeu instruções para se apresentar no quarto 525. Lá foi apresentada a Igor e informada de que um motorista os levaria ao apartamento designado para o casal em Rublevo, nos arredores de Moscou. Não era um começo romântico de vida a dois. Como nem o motorista da NKVD devia saber que eles não eram casados de verdade, no carro Igor passou o braço em torno de Natalya, mas ela se enrijeceu, para não deixar dúvida de que não estava à vontade.
O desconforto não diminuiu quando chegaram ao apartamento. O emprego oficial de Igor era trabalhar na estação ferroviária local, e também na brigada de resgate encarregada de apagar incêndios na área. As casas de madeira pegavam fogo facilmente com os ataques aéreos ou, se os alemães se aproximassem bastante, pela artilharia. E havia as tarefas de preparação das atividades de sabotagem. Tudo isso significava que Igor raramente estava no apartamento, pois em geral dormia no trabalho, onde quer que fosse. Depois de levar Natalya para a nova residência, ele deixou-a sozinha. O desconforto da situação dos dois talvez o tivesse incentivado a agir assim.
Depois que ele saiu, Natalya examinou o pequeno apartamento de um quarto: tinha uma cama, uma mesa e uma cadeira – e, ela se lembra, pontas de cigarro por todo o chão. Varreu o chão, fez a cama e, quando a noite caiu, tentou dormir. Mas estava nervosa demais para se acalmar, e às 5h da manhã ela saiu para passear no bosque próximo para clarear a cabeça. Naquele momento, Igor voltou e entrou em pânico ao não vê-la. Imediatamente, ele contatou Maklyarsky e Sudoplatov, que a repreenderam por não ter informado Igor de onde estava.
A tarefa oficial de Natalya era monitorar o conteúdo químico da água fornecida à região. Mas a tarefa mais importante era ajudar Igor nos preparativos para a resistência depois que os alemães tomassem a cidade. Ele deveria continuar trabalhando na estação ferroviária de Rublevo, usando o trabalho como disfarce para atuar como ligação entre os diversos grupos de resistência e manter o governo, provavelmente já evacuado para Kuibyshev, informado sobre o que estava acontecendo na capital ocupada.
As autoridades soviéticas já tinham colocado explosivos ou minas nos principais edifícios, como o Teatro Bolshoi, onde os alemães mais importantes poderiam comparecer, e nas estradas e em outras instalações públicas. Igor sabia tudo sobre aquelas minas, pois estavam embaladas em caixas especiais antimagnéticas desenvolvidas no Instituto de Engenharia de Montanha de Leningrado, onde ele tinha estudado; assim, era praticamente impossível detectar a presença delas. Mas, no que se refere à estação de Rublevo, onde ele trabalhava, Igor tinha um documento especial de Molotov, o braço direito de Stalin, proibindo às tropas soviéticas em retirada de incendiar ou explodir a estação. A ideia era mantê-la funcionando como um centro de resistência.
Outro privilégio especial de Igor: numa época em que quase todos os carros eram requisitados para a frente de batalha, ele recebeu um M-1 para suas rondas e para lhe permitir enviar mensagens de rádio de diferentes locais. Era um veículo de prestígio, geralmente usado por altos funcionários do governo. A almofada do assento da frente era uma criação tipo James Bond: por fora parecia perfeitamente normal, mas era preenchida com uma bateria de 5 kW que alimentava o rádio.
A NKVD deu a Igor e Natalya documentos falsos e um novo sobrenome: Shevchenko. Às vezes, Igor saía só; outras, Natalya se juntava a ele e o ajudava na sua miríade de tarefas. Como bom aluno de matemática, Igor se lembra de que enterrou 4.400 litros de combustível, em 110 latões de leite, que ele depois desenterraria e usaria para fazer explosivos. Ele também enterrou sacos de dinamite, armas e granadas para uso da resistência. Quando o acompanhava, Natalya ajudava a camuflar os esconderijos, cobrindo-os com folhas e capim. Como engenheiro, ele também monitorava os sistemas de água e esgoto, marcando os locais por onde poderia fazer entrar os lutadores da resistência.
A última responsabilidade levou-o a uma convocação à dacha de Stalin. Devido a uma bomba alemã perdida, o fornecimento de água à casa começou a vazar. O comandante da guarda pessoal do ditador ordenou: “você tem de consertar o vazamento imediatamente!” Igor manteve a calma e ordenou aos outros guarda-costas que começassem a cavar para descobrir onde estava o vazamento. Depois de três horas, ele completou o conserto e foi condecorado com a Ordem da Estrela Vermelha. Foi um dos poucos cujo encontro com o tirano terminou bem.
Dmitry, o namorado de Natalya no exército, continuou a escrever diariamente. E Natalya ainda estava tão incomodada pelo casamento fictício que foi a Maklyarsky e pediu para ser transferida para uma unidade partisan. O chefe da NKVD nem quis saber.
Durante esse tempo, para manter a simulação do casamento, Igor pediu a ela para tratá-lo por seu primeiro nome, em vez do mais formal Igor Aleksandrovich. Agia como um marido amoroso e tentou fazê-la relaxar. Como contou, trabalhar na clandestinidade significava representar seus papéis com convicção, pois disso dependia a vida dos dois. Com o passar do tempo, ambos se acostumaram com a representação e deixaram de vê-los como papéis de atuação. Em 1943, quando Moscou já não estava ameaçada, Natalya foi enviada a uma escola de comunicação por rádio durante quatro meses. Como os estudantes não tinham autorização para sair do local, Igor visitava-a todas as noites. Casaram-se – de verdade – em 1944. Quando o velho amigo Dmitry voltou da guerra em 1945, ela e Igor já tinham um filho de cinco meses.
Quando visitei o casal em maio de 2004, Natalya – baixinha, curvada, mas ainda ativa – contou o resto da história da família: quatro filhos, um deles morto, três netos e três bisnetos. O casal idoso vive com uma filha, genro e neto no apartamento de dois quartos num edifício da época de Stalin, com teto alto, fúnebres janelas duplas que deixam passar bem pouca luz, e a surrada mobília soviética. As estantes guardam lembranças da guerra, especialmente de agentes da NKVD, e os brinquedos do neto – carrinhos, jogos do Star Wars e o último livro de Harry Potter numa linda edição russa. Encaminharam petições a todos os responsáveis pedindo um apartamento separado para a família da filha. Doente e cansado, Igor não parece particularmente interessado em continuar lutando por essa causa. Mas sempre pronta a entrar em ação, Natalya ainda tinha um fio de esperança. “Escrevemos para Putin.” Ainda estava esperando uma resposta.
Para cada história com um final feliz, em que os protagonistas sobreviveram, existem incontáveis outras com finais trágicos durante a Batalha de Moscou. Mas os líderes soviéticos cuidaram para que casos especialmente selecionados fossem bem usados, transformando as vítimas em figuras míticas cuja coragem inspirava os outros a seguir o seu exemplo, não importando o preço. Zoya Kosmodemyanskaya, a moça de 18 anos que se apresentou como voluntária para o trabalho subterrâneo junto com Natalya Shchors, estava no alto dessa lista.
Na lembrança de Natalya daquele único encontro com Zoya, ela era uma adolescente “alta, bonita, com cabelos cortados curtos como um menino”. O que mais você poderia dizer dela? “Dava para ver que era uma boa moça!”
Era também corajosa, e pagou o preço mais alto por sua coragem. Despachada no fim de novembro de 1941 numa missão incendiária na aldeia de Petrischevo, ocupada pelos alemães, a 90 km de Moscou, ela foi capturada, torturada e executada. Essa parte da sua história está clara, mas existem relatos diferentes do resto dela, e uma omissão importante em todas as versões oficiais posteriores.
Apesar de todos os riscos de confiar nos registros de interrogatórios da NKVD, que eram em geral produto de métodos tão brutais como os da Gestapo, o relatório oficial do interrogatório de Vasily Klubkov, um dos dois soldados do Exército Vermelho enviados com Zoya na mesma missão, parece ser preciso nas principais linhas da história da jovem. Datado de 11-12 de março de 1942, o documento “altamente secreto” oferece uma transcrição do interrogatório de Klubkov que começou às 10h da noite e continuou até às 5h da manhã. Klubkov foi capturado pelos alemães, e a NKVD preparou a transcrição como evidência de que ele foi um dos que traíram Zoya e passaram a trabalhar para os alemães. De acordo com boatos, alguns aldeões poderiam ter traído Zoya, mas nenhuma menção a essa possibilidade aparece no relatório, nem em qualquer outra versão oficial dos acontecimentos.
Tal como Zoya, Klubkov tinha 18 anos, trabalhava no correio, tinha sete anos de escolaridade e entrou para o exército apenas um mês antes dessa primeira missão desastrosa. Um grupo de três pessoas, formado por Zoya, Klubkov e um soldado chamado Boris Krainov, recebeu armas, alimentos e garrafas cheias de combustível – mais conhecidas como coquetéis molotov – antes de ser enviado para a missão. O trio caminhou quatro dias até chegar à vila, tendo atravessado a floresta no meio da noite. Depois de atingirem seu destino, decidiram se separar para incendiar edifícios em diferentes partes da aldeia.
Klubkov disse aos interrogadores da NKVD que, ao se aproximar da casa que deveria incendiar, ele viu que Zoya e Boris já tinham iniciado o fogo nos edifícios a eles designados. Disse que atirou o seu coquetel molotov, mas que, “por qualquer razão, ele não queimou”. Naquele momento, ele viu guardas alemães e correu para a floresta a cerca de 300 metros. “Quando cheguei à floresta, dois soldados alemães saltaram sobre mim e tomaram a minha arma, duas sacolas com cinco garrafas de explosivos e uma sacola de comida.” Observou que a sacola de comida tinha também um litro de vodca.
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Por ordens de Hitler, os alemães desencadearam um reino de terror
por toda parte onde chegavam. Com isso, mesmo aqueles que inicialmente saudavam os invasores como libertadores logo se voltaram contra eles. As atrocidades, como o enforcamento de
supostos partisans soviéticos, só contribuíram para a convocação
do povo por Stalin.
Os alemães trouxeram o prisioneiro para o quartel-general da aldeia, onde um oficial se encarregou dele. Esse homem imediatamente apontou uma arma a Klubkov e exigiu que ele dissesse quem mais o tinha acompanhado na sua missão. De acordo com a transcrição, Klubkov confessou imediatamente. “Fui covarde. Estava com medo de ser fuzilado.”
O oficial deu uma ordem aos soldados alemães, que logo saíram da casa. Nesse ponto, Klubkov também disse ao oficial que fazia parte de uma unidade de reconhecimento de 400 homens baseada em Kuntsevo, uma aldeia nos arredores a sudoeste de Moscou, e que essa unidade estava enviando pequenas equipes “diversionistas”, em geral composta de cinco a dez pessoas, atrás das linhas inimigas.
Alguns minutos depois os soldados trouxeram Zoya. Klubkov disse que não sabia se eles também tinham capturado Boris. Sob o olhar de Klubkov, os alemães começaram a interrogar a nova prisioneira. Quando lhe perguntaram como executou o ataque, Zoya negou que tivesse ateado fogo a coisa alguma. “O oficial começou a bater em Zoya e exigiu que ela respondesse às perguntas”, relatou Klubkov. “Mas ela se recusou a dizer qualquer coisa.”
Quando os alemães perguntaram se aquela era realmente Zoya e o que ele sabia dela, Klubkov confirmou sua identidade e o fato de ela ter começado incêndios na parte sul da aldeia. Zoya se manteve em silêncio obstinado e, cada vez mais frustrados, vários outros oficiais a desnudaram e bateram nela com cacetes de borracha por duas ou três horas, tentando forçá-la a romper o silêncio. “Matem-me, mas eu não direi nada”, teria declarado Zoya. Klubkov acrescentou: “depois, eles a tiraram da sala e eu nunca mais a vi”.
Os detalhes do que aconteceu em seguida a Zoya são incertos, pois sua história foi depois retratada numa peça e filme, e pintada em propaganda, que não se qualificam como fontes históricas incontestáveis. De acordo com alguns relatos, os alemães arrastaram-na pela aldeia com um cartaz em torno do pescoço, antes de torturá-la mais, cortar seu seio esquerdo e depois enforcá-la. Quando as tropas soviéticas finalmente chegaram à aldeia, encontraram seu corpo congelado e mutilado ainda pendurado na forca.
Na versão em filme, a história de Zoya assume um significado mais simbólico. O filme afirma que ela nasceu em 21 de janeiro de 1924, o dia da morte de Lenin. Um trecho mostra Lenin sendo velado, sobrepondo essa imagem com a do bebê Zoya, que manterá vivo o espírito dele. Ela cresce num lar amoroso, seus pais lhe ensinam as virtudes comunistas. Quando irrompe a guerra, ela imediatamente se apresenta como voluntária para perigosas missões de partisans. O filme mostra sua captura e tortura, e como ela é levada à forca caminhando descalça na neve. Na cena da execução, os aldeões estão muito aterrorizados ao ver uma linda moça enfrentar corajosamente a morte, gritando no último instante: “Stalin está chegando!”. Não há nada sutil na mensagem: Stalin será o salvador.
Mas os autores do filme não hesitaram em alterar os fatos quando parecia necessário para os seus fins, a começar do nascimento de Zoya. O registro público é claro: Zoya nasceu em 13 de setembro de 1923, alguns meses antes da data mostrada no filme, e certamente não no mesmo dia em que Lenin morreu. Nina Tumarkin, cujo livro The Living and the Dead: The Rise and Fall of the Cult of World War II in Russia examina o processo de criação de mitos em ação na União Soviética, descobriu que a situação familiar de Zoya também estava longe da que foi mostrada no filme.
Zoya, escreve Tumarkin, “teve uma vida familiar trágica que a impeliu ao suicídio”. Seu pai, que é retratado no filme saindo para o front no começo do filme, já estava morto naquela época – fuzilado, ao lado do avô de Zoya, durante a campanha de terror de Stalin na década de 1930. Influenciada por um tio que era um comunista dedicado e pelo desejo da sua mãe de limpar o nome da família, ela se ofereceu como voluntária para o grupo partisan local do Komsomol, apesar de naquela época este ser o caminho para a morte quase certa, ainda mais naquela região. “A floresta era esparsa e o terreno plano”, diz Tumarkin. “Não havia cobertura para os partisans, nem oportunidade para eles realizarem nada a não ser tornarem-se exemplos de heroísmo ao se deixarem matar.”
Depois da morte de Zoya, sua mãe trabalhou intensamente para fazer dela uma heroína nacional. “Ela me disse: ‘vou morrer como heroína ou voltar como heroína’”, declarou a mãe. Em 1944, ela também insistiu com o irmão mais novo de Zoya, na época ainda menor de idade, para se apresentar como voluntário. Ele também foi morto – mais uma vítima do zelo da sua mãe.
Quanto a Vasily Klubkov, o companheiro adolescente capturado pelos alemães, a transcrição do seu interrogatório na NKVD vários meses mais tarde conta o resto da história. Depois que levaram Zoya embora, o oficial alemão lhe disse: “agora você vai trabalhar para a inteligência alemã. De qualquer forma, você já traiu sua pátria. Vamos treinar você um pouco e mandar para a frente soviética”.
“Aceitei a oferta do oficial para trabalhar para a inteligência alemã”, disse ele aos seus interrogadores da NKVD. Passou então a descrever outros prisioneiros de guerra soviéticos que conheceu quando foi enviado para treinamento especial em Krasny Bor, uma cidade perto de Smolensk. Lá oficiais alemães explicaram como ele e outros deveriam voltar para as unidades do Exército Vermelho, alegando que tinham fugido da prisão. A missão específica de Klubkov era voltar à sua antiga unidade, onde poderia descobrir quais grupos estavam para ser despachados para trás das linhas alemãs, transmitindo essa informação aos chefes inimigos.
Quando “escapou”, ele conseguiu voltar à sua unidade, mas logo foi preso e começaram os interrogatórios. Da transcrição do seu interrogatório durante a noite entre 11 e 12 de março, fica claro que ele já estava quebrado, queria confessar tudo que seus interrogadores pediam. As premissas de Stalin eram que qualquer soldado soviético que se deixasse capturar era por definição um traidor, e que qualquer um que conseguisse fugir de uma prisão alemã era duplamente suspeito. Seus interrogadores certamente sabiam que deviam compartilhar o mesmo conjunto de princípios. O que implicava tirar de Klubkov o tipo de confissão que apenas bastasse para comprovar a certeza.
Klubkov talvez estivesse dizendo a verdade, pois é fácil imaginar um adolescente aterrorizado em sua primeira missão concordar com as exigências dos seus captores alemães. Mas não há meio de saber com certeza como ele realmente se comportou, pois ele sem dúvida estava também aterrorizado quando foi interrogado pela NKVD. Ou saber quanto do que ele disse sobre Zoya era verdade, pois a NKVD talvez já estivesse preparando a transcrição com a ideia de elevá-la a um estado mítico. Só o destino de Klubkov era certo. Nos arquivos centrais do atual serviço secreto russo, hoje conhecido como FSB, o relatório “secreto” do seu julgamento posterior em 3 de abril de 1942 acompanha a transcrição do interrogatório de Klubkov. É um documento muito curto, que contém a confirmação de que ele traiu Zoya e sua pátria “devido à minha própria covardia”.
O veredito do tribunal: “execução por fuzilamento, sem confisco de propriedade devido à sua inexistência”.
Enquanto os alemães se aproximavam cada vez mais de Moscou, Stalin valeu-se de outro tipo de agente para uma missão secreta, um que trabalhava secretamente em Tóquio para a GRU, o braço da inteligência militar do Exército Vermelho. Seu nome era Richard Sorge, o mesmo espião que enfureceu o líder soviético antes de 22 de junho de 1941, ao bombardear Moscou com avisos de que Hitler estava pronto para atacar. No final do verão e início do outono de 1941, o Kremlin precisava desesperadamente saber se as forças japonesas se preparavam para atacar do leste a enfraquecida União Soviética, pois seu aliado alemão insistia que o fizesse. Se isso parecesse provável, ou mesmo possível, Stalin teria de manter um grande contingente de suas tropas preso na Sibéria, em vez de deslocá-las para ajudar na defesa de Moscou. Tudo isso significava que nada poderia ser mais valioso que informações precisas de Tóquio – e ninguém ali tinha um histórico melhor que o de Sorge, por mais que Stalin o desprezasse.
Nascido de mãe russa e pai alemão, Sorge não se limitava a flertar com o perigo – ele o cortejava. Trabalhando oficialmente como correspondente do Frankfurter Zeitung em Tóquio, ele colhia informações da embaixada alemã e de altos oficiais japoneses que passava de imediato para Moscou. Habilidosamente, ele controlava sua identidade dupla, mesmo quando bebia muito. Tinha relações com uma ampla variedade de mulheres japonesas e estrangeiras, inclusive a esposa do embaixador alemão, Eugen Ott. Suas façanhas fascinaram até mesmo os ocupantes do Japão no pós-guerra, que ele não viveu para ver. De acordo com um relatório da inteligência militar dos Estados Unidos, ele era “íntimo de 30 mulheres em Tóquio durante os anos de serviço, inclusive a esposa do seu bom amigo, o embaixador alemão, a esposa do assistente externo do embaixador e a amante desse mesmo assistente”.
Mas os maiores riscos ele assumia ao discordar abertamente das previsões alemãs de que tão logo tomariam Moscou e venceriam a guerra. Com efeito, ele se apresentava como um alemão patriota suficientemente confiante para expressar suas dúvidas. “Essa guerra é criminosa! Não temos chance de vencer!” disse ao embaixador Ott, pouco depois da invasão alemã. “Os japoneses riem quando dizemos que estaremos em Moscou no fim de agosto!” Nos seus contatos com funcionários japoneses, ele também argumentava que os cálculos alemães estavam extravagantemente errados, fazendo o possível para solapar os esforços de Ott e de outros alemães para convencer os japoneses que deviam se juntar ao seu país para esmagar a União Soviética. Por certo havia método na aparente loucura de Sorge: Ott, por exemplo, estava convencido de que as manifestações de Sorge provavam que ele não escondia nada. Ademais, o embaixador alemão gostava realmente de Sorge e, mais oportunista que nazista dedicado, ele não se propunha a relatar aquelas visões heréticas.
Além do seu papel como agente soviético, Sorge também ocultava o fato de estar muito mais preocupado do que deixava transparecer com a possibilidade de um ataque japonês contra a União Soviética. Como Ott sempre confiava nele, o espião sabia que o embaixador alemão tentava entender os sinais confusos que recebia dos seus anfitriões: às vezes eles sugeriam que o Japão iria agir como bom aliado dos alemães e se lançar no conflito com a União Soviética, e em outros momentos eles pareciam extremamente hesitantes. Os japoneses se lembravam de como o general Zhukov os tinha derrotado em 1939, razão por que pelo menos alguns deles eram céticos com relação às afirmações dos alemães de que conquistariam uma vitória fácil contra o mesmo comandante. Mas essas lembranças preocupavam mais os políticos que os líderes militares, preparados para a ação. “Agora é chegada a oportunidade de destruir a URSS”, proclamou o general Sadao Araki.
Em julho, os japoneses deram início a uma nova mobilização, enviando mais tropas para a Manchúria. Ott queria acreditar que o significado disso é que Tóquio se preparava para atacar a Rússia. Quanto a Sorge, mais tarde admitiu que para ele isso foi “causa de ansiedade”. Mas os japoneses se concentravam nas suas ambições imperiais no sul, enviando mais tropas para expandir a sua Esfera de Coprosperidade da Ásia Oriental Ampliada – apesar das tensões crescentes com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Em 28 de julho, suas forças tomaram as bases francesas na Indochina. A questão era se Tóquio estava pronta para se mover nas duas direções.
Pressionado por seus superiores em Moscou, Sorge ainda não podia oferecer uma resposta clara. Em 30 de julho, relatou: “o Japão terá condições de entrar na guerra a partir da segunda metade de agosto, mas só o fará caso o Exército Vermelho seja realmente derrotado pelos alemães, resultando em capacidade mais fraca de defesa no Extremo Oriente”. Acrescentou que um importante informante japonês “está convencido de que se o Exército Vermelho contiver os alemães diante de Moscou, o Japão não fará nenhum movimento”. Em outras palavras, a Batalha de Moscou seria o fator único e mais crucial da decisão do Japão.
Isso deixou o Kremlin numa situação típica do Ardil-22. Tirar um número significativo de soldados do Extremo Oriente para enviá-los para Moscou seria um reforço desesperadamente necessário, que poderia determinar o resultado daquela batalha. Ao mesmo tempo, isso provaria ser um grave erro de cálculo se fosse visto como um convite ao ataque japonês do leste, possivelmente dando o golpe de misericórdia no regime soviético sitiado. Mas essa charada desapareceria se Sorge pudesse oferecer as garantias de que os japoneses não iam atacar, as quais o Kremlin necessitava desesperadamente.
Sorge não tinha dúvidas quanto à importância da sua missão, e acionou seus colaboradores e fontes inocentes para recolher toda inteligência que pudessem. Discutiu os sinais conflitantes com Hotsumi Ozaki, um jornalista japonês de esquerda que se tornou seu amigo e cúmplice de espionagem. No início de agosto, Ozaki tinha recolhido relatos de que os japoneses atacariam a União Soviética em 15 de agosto. Sorge lhe disse que Ott tinha ouvido os mesmos relatos e acreditava neles. Mas Ozaki observou que os japoneses tinham plena consciência do fato de que em alguns locais a ofensiva alemã estava encontrando resistência mais dura do que esperava, o que sugeria cautela. E se os japoneses decidissem atacar, sabiam que tinham de fazê-lo logo ou se arriscariam a uma guerra no inverno da Sibéria.
No dia 11 de agosto, Sorge escreveu outra nota ambivalente para Moscou, refletindo essas considerações. Observou que os japoneses acompanhavam atentamente a luta germano-soviética e as perdas alemãs à medida que continuavam seu avanço. Ele observou também as tensões crescentes com os Estados Unidos, que aumentavam as pressões por uma decisão em relação a quais deveriam ser as prioridades japonesas. Com a aproximação do inverno, acrescentou ele, “nas próximas duas ou três semanas, a decisão do Japão será tomada”. Mas se o tom do relatório sugeria que o Japão provavelmente não atacaria, ele protegia suas apostas de uma forma que não poderia ser considerada tranquilizadora. “É possível que o alto-comando tome a decisão de intervir sem prévia consulta”, escreveu.
Algumas semanas depois, Sorge e Ozaki recolhiam sinais bem mais encorajadores. O adido naval alemão Paul Wenneker disse a Sorge que a marinha japonesa queria avançar para o sul e descartava um ataque à União Soviética, pelo menos naquele ano. E enquanto relatava a força militar japonesa na Manchúria, Sorge acrescentou orgulhosamente algumas informações vitais a que tivera acesso. “Muitos soldados receberam bermudas […] e disso se pode entender que muitos deles serão enviados para o sul.” Especificamente, ele mencionou que os japoneses discutiam planos de ocupação de Tailândia e Bornéu. Em outra mensagem, ele transmitiu notícias que Ozaki tinha recolhido de altos funcionários do governo sobre sua atitude com relação a um ataque contra a União Soviética. “Decidiram não lançar a guerra este ano, repito, não lançar a guerra este ano.” Era uma linha que transmitia triunfo e alívio.
Stalin acreditaria nele? Como sempre, o ditador soviético suspeitava de um espião que se dava tão bem com a comunidade alemã em Tóquio, e era conhecido por seu estilo livre de vida. Desde que tinha irritado Stalin com seus relatórios precisos prevendo o ataque alemão, seus próprios chefes na inteligência militar tinham especulado que ele talvez fosse um agente do outro lado. Durante os expurgos, alguns oficiais condenados por acusações forjadas de espionar para a Alemanha ou o Japão tinham mencionado Sorge – o que foi suficiente para estabelecer a culpa por associação.
Mas dessa vez Sorge informava algo que o Kremlin esperava fosse verdadeiro. E em meados de setembro, Ott e outros diplomatas alemães admitiam que não havia chance de os japoneses responderem positivamente aos seus pedidos de intervenção. Pelo contrário, Tóquio estava determinada a expandir o alcance da sua atividade no sudeste da Ásia, e via os Estados Unidos como o principal obstáculo às suas ambições. Em Moscou, o general Alexei Panfilov, comandante de tanques que servia como chefe temporário da inteligência militar, ofereceu um raro apoio a Sorge. “Considerando suas grandes possibilidades como fonte e a confiabilidade de uma quantidade significativa de relatórios anteriores, este relatório inspira confiança.”
Como Sorge viria a admitir mais tarde, somente em setembro o Kremlin começou a ter “completa confiança nos meus relatórios” de que a invasão não iria acontecer. Por isso, Stalin finalmente se sentiu à vontade para tomar a decisão de enviar uma grande parte das forças no Extremo Oriente da União Soviética para defender Moscou. No começo de outubro, os “siberianos”, como eram chamados, foram transportados para o coração da União Soviética. Um total de cerca de 400 mil soldados foram relocados nesse período do final de 1941 e início de 1942, fazendo a viagem que durava entre uma e duas semanas em trens especiais apressadamente organizados. Cerca de 250 mil foram despachados para defender Moscou, e os outros para Leningrado e outras regiões de luta. A chegada dessas novas tropas, a maioria equipada com roupas adequadas para o inverno, alteraria dramaticamente a situação dos defensores de Moscou – e chocaria os alemães que tinham chegado lutando até muito perto da cidade.
Em meados de outubro, Sorge escreveu o que seria o seu último despacho para Moscou. Mais uma vez, ele demonstrou a confiabilidade das suas fontes japonesas ao prever que “a guerra com os Estados Unidos deverá começar em futuro muito próximo”. Mas o relatório nunca foi enviado. Os japoneses finalmente descobriram a sua espionagem e o prenderam, junto com Ozaki e outros membros do seu grupo de espiões, no dia 18 de outubro. Durante incansáveis sessões de interrogatório, ele admitiu a sua atividade e foi condenado à morte. Mas seus capturadores não tiveram pressa de executá-lo. Na verdade, eles o mantiveram na prisão até o final de 1944.
A guerra então ia mal para o Japão, que tinha pouco interesse em antagonizar a União Soviética, que poderia se juntar à guerra no Pacífico. Oficiais japoneses tinham sugerido várias vezes que gostariam de trocar Sorge por um prisioneiro japonês mantido pelos soviéticos. A cada tentativa encontraram uma recusa. A resposta padrão, num caso relatado como tendo vindo diretamente de Stalin, foi: “Richard Sorge? Não conheço pessoa com esse nome”.
O líder soviético não iria salvar alguém que sabia tanto sobre os avisos que ele tinha recebido – e ignorado – quando Hitler se preparava para invadir o seu país. E não se comoveu pelo fato de a última informação de Sorge confirmando que os japoneses não iam atacar a União Soviética em 1941, tivesse sido um fator crucial para a Batalha de Moscou. No dia 7 de novembro de 1944, o 27º aniversário da Revolução Bolchevique, Sorge foi enforcado.