A Batalha de Moscou
O preço do terror
Quando a Alemanha invadiu a União Soviética, no dia 22 de junho, Ilya Vinitsky era estudante do Instituto de Aviação de Moscou (IAM) e tinha começado um estágio de verão numa fábrica no Volga. Criado numa família judia em Kiev, ainda na escola secundária ele tinha sido treinado como franco-atirador. Portanto, estava pronto – e ansioso – para se oferecer como voluntário ao serviço militar quando estourou a guerra e foi correndo para Moscou na manhã seguinte. O comitê regional do partido indicou-o para o Primeiro Batalhão Comunista Especial de Moscou, uma unidade de 307 homens composta de outros estudantes do IAM, além de engenheiros mais experientes e contramestres de fábrica, alguns dos quais tiveram experiência de combate na Guerra Civil Espanhola.
Na primeira reunião de instruções do novo batalhão naquela mesma noite, três oficiais do partido vestindo roupas civis chegaram e, depois de dizerem ao instrutor militar para sair do recinto, informaram aos voluntários que uma missão especial lhes era confiada naquele momento. Explicaram que, como muitos soldados soviéticos fugiam dos atacantes alemães, a tarefa deles seria fazê-los parar. Admitiram que na região do Báltico muitos soldados se livravam das suas armas, despiam as fardas e cruzavam nadando um rio para fugir; muitos outros simplesmente esperavam para se render. A missão do novo batalhão, continuaram, era impor novamente a disciplina e dar fim àquele comportamento. “O Comitê Central autoriza vocês a tomar qualquer medida necessária, até mesmo a execução”, declararam.
Já octogenário, ao relembrar aquelas palavras, Vinitsky se viu lutando contra as lágrimas. Poucas lembranças são tão dolorosas para os veteranos da Grande Guerra Patriótica, a designação oficial da Segunda Guerra Mundial na Rússia, como as dos soldados soviéticos matando seus próprios homens. Até hoje, muitos veteranos suprimiram tudo relacionado com essa lembrança em particular – ou pelo menos evitam falar dela. Mas a prática se iniciou bem no início da guerra e se tornou assustadoramente comum. Desde o princípio, Stalin agiu com base na sua convicção profunda, que foi evidente durante toda a duração do seu reinado, de que precisava lutar uma guerra em duas frentes: uma contra o invasor estrangeiro e a outra contra aqueles que ele e seus exércitos de carrascos voluntários chamavam de traidores ou inimigos internos.
O terror do período de paz da década de 1930 transformou-se rapidamente na nova campanha de terror do período de guerra. E a maioria dos que foram à guerra em 1941 reconheceram, ou logo passaram a reconhecer, que não eram apenas os alemães que ameaçavam suas vidas; havia também seus próprios companheiros, oficiais superiores e agentes da NKVD. Nem mesmo o soldado mais leal podia ter certeza de que não cairia em desgraça, às vezes em total ignorância, com algum companheiro do seu lado no campo de batalha ou fora dele.
Como um jovem que havia acabado de vestir a farda, Vinitsky não foi enganado pelas instruções que sua unidade acabara de receber, muito pelo contrário. “Estávamos orgulhosos por termos recebido aquela missão especial”, lembrou. A missão significava também que estavam equipados com fuzis e granadas, ao contrário de muitas outras unidades, que receberam apenas suprimentos mínimos. E, como eram voluntários que não passaram pelo departamento de mobilização, seus documentos eram diferentes dos da maioria dos outros recrutas. Por causa desse descuido, eles puderam guardar seus passaportes internos, o documento de identificação que todos os civis eram obrigados a carregar em todas as ocasiões, em vez de trocá-los por cartões de identificação militares. Essa confusão burocrática pouco depois quase custou a vida de Vinitsky.
Mas primeiro, com a sua unidade, ele teve de ser transportado para o front. Um dos seus instrutores militares lhes tinha informado sobre o solo da Prússia Oriental, explicando por que seria difícil cavar trincheiras, como se fosse possível que eles logo se encontrassem tão longe a oeste depois de empurrar os alemães para o seu próprio território. Pelo contrário, embarcaram num trem para o oeste que só chegou a Velikiye Luki, uma cidade a 450 km de Moscou. “Só até lá. Não havia nenhuma força soviética além dali.”
A cidade e tudo nela foram abandonados pelas tropas soviéticas, embora também não houvesse alemães ali. Os desvios da ferrovia estavam travados. Com a ajuda de um maquinista local, eles conseguiram destravá-los e sair à noite, mas se viram sob ataque dos aviões alemães na manhã seguinte. Vinitsky e alguns companheiros conseguiram descer do trem, mas cerca de 30 foram mortos ou feridos antes de chegarem à proteção de uma floresta próxima. “Pela primeira vez, vi o que significava ‘um pouco de sangue’”, disse ele, referindo-se à manifestação orgulhosa das autoridades soviéticas antes da guerra, de que iam derrotar qualquer inimigo no seu próprio território perdendo apenas “um pouco de sangue” russo. Os mortos e feridos estavam espalhados por toda parte. Um fragmento de bomba havia aberto a cabeça de um dos seus amigos, matando-o instantaneamente, mas seus olhos ainda estavam abertos e pareciam fitar Vinitsky e os outros sobreviventes “como se os censurasse”. Do trem só sobrou uma ruína inútil.
Com ordens de voltar à tarefa principal de encontrar unidades em retirada para forçá-las a voltar à batalha, os sobreviventes se dispersaram na floresta, geralmente aos pares. Vinitsky logo se viu sozinho, pois seu companheiro desapareceu durante a noite. Depois de andar por várias horas, ele encontrou um grupo de 60 ou 70 soldados soviéticos sentados em volta de uma fogueira. Tudo na aparência deles indicava que já tinham desistido da luta. Dois oficiais superiores, que poderiam ser identificados pelas insígnias que tinham arrancado da farda, claramente se preparavam para se render aos alemães. Sentados indiferentes em volta, seus homens estavam prontos para seguir o comando deles. Alguns já tinham queimado seus documentos pessoais.
Enfrentando-os sozinho, Vinitsky perguntou quem era o responsável pela unidade. Ninguém respondeu. “Em forma!”, ele ordenou e os homens obedeceram. Ele lhes disse que tinha completa autorização do comitê central para assumir o comando e que também estava autorizado a fuzilar qualquer covarde. Então, ele os instruiu a segui-lo e, mais uma vez, eles obedeceram. “Estavam felizes por alguém assumir qualquer tipo de responsabilidade”, contou. “Os homens recuperaram a coragem por acreditarem que eu tinha confiança no que fazia.”
Isso não chegava a ser surpreendente, pois muitos dos soldados só conheciam oficiais incompetentes. Vinitsky contou aos dois oficiais o seu plano de conduzir os soldados de volta à sua unidade, para que se recompusessem como unidade de luta. Mas quando examinou com eles um mapa para descobrir a rota a ser tomada, percebeu que aqueles oficiais políticos não sabiam ler mapas. A razão, Vinitsky explicou, era que menos de um ano antes os oficiais superiores daquela unidade tinham sido expurgados e no lugar deles tinham assumido elementos leais que só sabiam os slogans de partido.
Apesar de poder tê-los executado, ele não fuzilou nem os oficiais nem ninguém mais. Reconheceu que ficou tentado, particularmente quando viu que os oficiais tinham destruído suas insígnias. Mas quando fez aqueles homens marcharem até a unidade principal, ouviu que as coisas tinham se passado de outra maneira em outras partes. Alguns dos seus camaradas admitiram tranquilamente ter executado soldados para afirmar sua autoridade. A unidade especial tinha reunido cerca de 1.500 soldados no total, mas Vinitsky não sabia quantos foram mortos no processo.
O batalhão de Vinitsky não hesitou em fazer o que fosse necessário para sobreviver, não importando o preço a ser pago. Tomavam cavalos, grãos, outros alimentos que encontravam nas aldeias que ainda não estavam ocupadas pelos alemães. Vinitsky afirmou que seus homens emitiam recibos por tudo que tomavam, mas os camponeses sabiam que eles não tinham valor. “Vocês estão nos abandonando aos alemães e roubando de nós, malditos ‘defensores’”, gritavam para os soldados.
Em certo ponto, a unidade de Vinitsky descobriu um automóvel alemão e o emboscaram. Dentro havia um general alemão, uma enfermeira russa e um motorista. “Matamos todos. Tivemos de matar também a enfermeira. Não tínhamos meios de tomá-los prisioneiros. Não era prático. Mal conseguíamos encontrar alimentos só para nós.” E acrescentou: “a enfermeira tinha desertado. Você não acredita quantos traidores havia”. Muitos dos homens já tinham testemunhado a destruição executada pelos alemães, às vezes nas suas cidades natais, contra suas famílias e vizinhos. Por isso, concluiu Vinitsky, “estávamos furiosos e éramos impiedosos”.
Ironicamente, os que estavam encarregados de caçar “traidores” e soldados prontos a se render, às vezes também caíam vítimas de outros encarregados da mesma missão, o que também era comum no sistema de Stalin. Os caçadores podiam, e o que acontecia com frequência, de repente se transformar em caça.
Perto do fim do verão, Vinitsky recebeu ordens de voltar para leste até Rzhev, uma cidade violentamente disputada a noroeste de Moscou. Ele devia ajudar a manter os aviões soviéticos baseados na cidade. No caminho, ele ficou com um dia livre enquanto esperava a conexão com um trem numa cidadezinha. “Minhas pernas doíam, eu estava com fome, não tinha dinheiro e não podia comprar comida”, lembrou. Então ele decidiu ir a um lago próximo, tirar as botas e molhar os pés na água, desfrutando a rara paisagem pacífica num dia quente de verão. Vestia farda suja e levava uma metralhadora e binóculos alemães que tinha tomado numa batalha. Mas, o pior é que ele ainda levava seu passaporte interno, que normalmente indicaria que ele não era na verdade um soldado soviético, que devia portar somente cartões ou medalhas de identificação militar. “Eu era um presente para o serviço de contrainteligência”, disse sarcasticamente. “Naquela época, a caçada de espiões corria a pleno vapor.”
De repente, ele ouviu a ordem: “levante-se! Mãos para o alto! Não se mexa!”. Uma patrulha de três homens tinha se aproximado em silêncio, todos com as armas apontadas para Vinitsky. “Documentos!”, exigiram. Quando Vinitsky puxou seu passaporte interno e seu cartão de identidade estudantil, eles o empurraram no chão e amarraram suas mãos nas costas. Apesar de ter um documento designando seu batalhão, eles estavam convencidos de que aquilo era uma falsificação alemã. Estavam convencidos de que tinham prendido um espião alemão.
A patrulha voltou marchando com Vinitsky para o escritório da NKVD na cidade, onde três outros homens começaram a interrogá-lo e logo descartaram sua história, tomando-a como uma fraude evidente. Um dos homens começou a torturá-lo, batendo-lhe no rosto, mas fez uma pausa quando Vinitsky cuspiu alguns dentes da frente. O preso ainda teve a presença de espírito de lançar mais uma defesa, dizendo que era judeu. Seu torturador fê-lo despir-se para provar que era circuncidado. Mas isso só convenceu o trio de que ele era “um espião muito bem camuflado”. A pancadaria continuou até o oficial da NKVD se cansar. Ele, então, propôs matar Vinitsky ali mesmo.
Mas um dos outros homens, o secretário local do partido, tinha continuado a examinar seus documentos e concluiu que não eram forjados. O que só poderia significar que ele era um espião ainda mais importante do que tinham imaginado, e devia ser enviado para a sede local da NKVD na cidade de Kalinin, onde “eles fariam esse palhaço dizer a verdade”. Três homens armados o escoltaram na viagem de trem até Kalinin, e lá ele foi atirado no chão de cimento de uma cela sem janelas da sede da NKVD, com as mãos ainda amarradas e a boca sangrando.
Vinitsky não sabia, mas teve sorte de estar lá. Seu novo interrogador, um jovem agente da NKVD vestindo roupas civis, anotou tudo que ele disse, inclusive a afirmativa que não tinha sido culpa sua ele não ter um cartão de identificação militar. Para surpresa de Vinitsky, o interrogador ouviu suas alegações e chamou o diretor do IAM, que comprovou a veracidade da história de que ele era um estudante que tinha se apresentado como voluntário para o serviço militar. O interrogador fez várias perguntas detalhadas sobre o IAM, onde estava instalado o Instituto de Aviação em Moscou e onde ficavam as salas de aula. Quando Vinitsky respondeu a tudo com precisão, ele ordenou ao guarda que o desamarrasse, permitiu que ele se lavasse e lhe ofereceu chá e pão seco. Vinitsky só conseguiu tomar o chá, já que, em virtude dos espancamentos, ele não conseguia mastigar.
O interrogador libertou Vinitsky, que voltou à manutenção de aviões, mas não em Rzhev. As instalações daquela cidade já tinham sido destruídas na luta. Mais tarde Vinitsky seria informado do destino do restante da sua unidade. Dos 307 homens, 32 sobreviveram. Ele estava entre esses poucos afortunados e, o que não chegou a ser incomum, seus próximos encontros com a morte aconteceram quando ele era prisioneiro no seu próprio lado.
Mesmo antes da invasão alemã, a censura de correspondência privada era rotina na União Soviética, e os censores da NKVD incrementaram o trabalho tão logo a guerra começou. Pesquisavam tudo que parecesse sedicioso, e o castigo vinha rápido. No dia 24 de junho, por exemplo, o relatório interno dos censores citava várias cartas.
Cherviakov, identificado apenas pelo último nome e a descrição de que tinha servido no exército czarista, afirmava que o Kremlin tinha cometido o erro de se aliar à Alemanha, e não à Inglaterra e França, e que o início da guerra já revelava “grande insatisfação no exército”. O relatório dos censores continha na última linha: “Cherviakov foi preso”.
Um “fabricante” alemão étnico chamado Kuhn escreveu: “a União Soviética é totalmente responsável pela guerra”, repetindo a propaganda alemã de que movimentos de tropas soviéticas ao longo da fronteira eram uma provocação. “O poder soviético não é produto da vontade do povo. E agora o povo vai protestar.” Também neste caso a última linha era: “Kuhn foi preso”.
Danilov, um empregado do departamento de estradas do distrito Stalin de Moscou, relatou erroneamente que os exércitos de Hitler já tinham capturado cinco grandes cidades, inclusive Kiev e Odessa. “Afinal, vamos poder respirar livremente. Dentro de três dias, Hitler estará em Moscou e a intelligentsia terá a boa vida.” Não havia nenhuma anotação sobre o destino de Danilov, mas não é difícil imaginar.
Kurbanov, que trabalhava no departamento de construção do Intourist, a agência de viagens do estado, escreveu:
É questionável a capacidade de o poder soviético prevalecer nesta guerra. Em 1919-20 [referência à Guerra Civil], o povo lutou pela liberdade e por seus direitos. Agora não tem ninguém por quem morrer. O poder soviético tornou o povo notavelmente zangado.
Também neste caso não havia observação quanto ao seu destino.
Finalmente, Mauritz, descrito apenas como mais um alemão étnico, previu que os camponeses receberiam bem a eclosão da guerra. “Eles serão libertados dos bolcheviques e das fazendas coletivas que odeiam.” A observação: “Mauritz foi preso”.
Na verdade, muitos ucranianos e outros na periferia ocidental da União Soviética inicialmente saudaram os alemães como libertadores, pois estavam convencidos de que os conquistadores dariam fim ao terror generalizado que experimentavam sob Stalin. A campanha de coletivização forçada da década de 1930, acompanhada da fome em massa, prisões e execuções, resultou em milhões de mortes, e era difícil para os sobreviventes imaginar que os alemães pudessem tratá-los pior. “A população local demonstrou genuína bondade para com os soldados alemães e tinha grandes esperanças na nossa chegada”, escreveu Hans von Herwarth, o diplomata alemão feito guerreiro. “Em todos os lugares em que estivemos fomos saudados com pão e sal, os símbolos eslavos tradicionais de hospitalidade.”
Mas se esse comportamento pode ser desconsiderado por vir de ucranianos, ou de outras nacionalidades cuja lealdade era suspeita, os relatórios dos censores sobre as cartas interceptadas mostravam que os habitantes de Moscou e de outras cidades russas não estavam imunes a tais sentimentos durante os primeiros dias de luta. Apesar de a maioria se juntar à defesa da causa, os céticos e os que esperavam abertamente a derrota do regime comunista não eram apenas produto da imaginação paranoica de Stalin e de suas polícias. Talvez constituíssem uma pequena minoria, mas havia o número suficiente para alimentar ainda mais a paranoia do regime. Eram também bastante para desmentir a propaganda de que o povo soviético estava completamente unido na decisão de derrotar os invasores alemães.
Muito mais grave que os sinais de descontentamento civil, era a situação nos campos de batalha quando os alemães avançaram. Stalin tinha várias razões para suspeitar que muitos dos seus soldados desmoralizados se rendiam depressa demais e que a disciplina estava se desmanchando nas principais unidades em todo o front. “Não foi o ataque alemão que pegou Stalin de surpresa, mas o colapso das nossas tropas”, insistiu Sergo Beria, filho do chefe da NKVD, Lavrenty Beria, no seu relato do período. Apesar de estar enganado na primeira afirmação de que Stalin não foi surpreendido pelo ataque em si, o jovem Beria tinha razão com relação ao choque sentido pelo líder soviético ao perceber que, em muitos casos, seus exércitos estavam se desintegrando em face do assalto alemão.
Diante da avalanche de notícias alarmantes, Stalin reverteu a forma, emitindo uma série de decretos draconianos que teriam papel importante no modo como a Batalha de Moscou seria lutada, e em todas as outras batalhas posteriores. Essencialmente, eles se resumiam a uma sentença de morte não só para aqueles que fugiam ou fraquejavam, mas também para muitos soldados corajosos que lutaram com firmeza.
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Atacados de surpresa e quase sempre sem armas, centenas de
milhares de soldados soviéticos se renderam aos alemães durante os primeiros meses da guerra. Esquerda: os novos prisioneiros de
guerra são levados para campos provisórios. Direita: mulheres
russas choram ao verem seus homens marchando para a prisão. A
maioria desses prisioneiros soviéticos iria perecer rapidamente.
No dia 28 de junho, ele autorizou as primeiras instruções, que definiam sua atitude com relação a todos os soldados soviéticos capturados pelos alemães. Os “traidores que fugiram para o estrangeiro”, como ele os chamava, deveriam ser punidos imediatamente no retorno e, durante esse período, suas famílias também seriam penitenciadas. Um mês depois, ele emitiu a Ordem 227, conhecida como “nenhum passo atrás”. Ela proibia a possibilidade de retirada aos soldados soviéticos e avisava que eles seriam fuzilados caso desobedecessem. A NKVD também recebeu a autoridade de fuzilar qualquer soldado soviético que fugisse da prisão alemã. Ser capturado pelos alemães, os prisioneiros logo aprenderam, representava uma virtual sentença de morte. Um relatório alemão datado de 19 de fevereiro de 1942 indicava que quase 3 milhões dos 4 milhões de prisioneiros soviéticos capturados até aquela data haviam morrido. Apesar de o relatório certamente exagerar o número de prisioneiros soviéticos, a taxa de mortalidade de 75% era, com toda probabilidade, razoavelmente precisa. E a ordem de Stalin significava que a maioria estava condenada, mesmo que conseguisse fugir.
Então, no dia 16 de agosto, Stalin emitiu a sua infame Ordem 270, que detalhava os pontos específicos da sua política:
Ordeno que: 1. qualquer um que remova as insígnias durante a batalha e se renda deva ser tratado com um maldito desertor cuja família deverá ser presa como a família de alguém que quebrou o juramento e traiu a pátria-mãe. Esses desertores deverão ser fuzilados no local. 2. os que forem cercados devem lutar até o último homem e tentar voltar para suas próprias fileiras. Os que preferirem se render deverão ser destruídos por todos os meios disponíveis, e suas famílias deverão ser privadas de todos os subsídios e assistência do estado.
Stalin já tinha demonstrado que levava a sério todas as palavras daquele documento. Um mês antes, Yakov, o filho mais velho do líder, tenente da 14ª Divisão Blindada, se viu cercado por soldados alemães em Vitebsk. “Sou filho de Stalin e não vou permitir que a minha bateria recue”, anunciou, tentando obedecer às instruções do seu pai. Mas ele foi capturado, e então não as seguiu ao pé da letra. Quando os alemães anunciaram a captura desse prisioneiro de alto perfil, Stalin ficou furioso com o filho. “O idiota não foi capaz nem de se suicidar!”
Depois do anúncio da Ordem 270, a NKVD prendeu a mulher de Yakov, Yulia, nora de Stalin, que foi enviada para um campo de prisioneiros por dois anos. Mais tarde, os alemães ofereceram a troca de Yakov pelo famoso marechal de campo Friedrich Paulus, capturado em Stalingrado em janeiro de 1943. O líder soviético recusou e, alguns meses depois, seu filho cumpriu o desejo do seu pai. Preso na Alemanha, Yakov cometeu suicídio jogando-se na cerca do campo.
Nada podia mudar a decisão de Stalin com relação aos que eram capturados. No início da guerra, os alemães sugeriram a criação de um sistema postal para os prisioneiros de guerra dos dois lados. “Não há prisioneiros de guerra russos”, Stalin respondeu. “O soldado russo luta até a morte. Se escolher ser feito prisioneiro, estará automaticamente excluído da comunidade russa. Não estamos interessados num serviço postal apenas para os alemães.”
Essa atitude significou que os prisioneiros soviéticos que conseguiram escapar ou sobreviver até o fim da guerra seriam presos, se tivessem sorte, ou, se não tivessem, seriam imediatamente executados. Nikolai Pisarev, por exemplo, foi ferido e capturado em julho de 1941 no oeste da Ucrânia. Em outubro, ele estava entre os primeiros prisioneiros a serem enviados a Auschwitz, onde os detentos soviéticos receberam ordens de construir a seção Birkenau do campo, que seria o local das câmaras de gás. Quase todos os prisioneiros soviéticos morreram, mas Pisarev conseguiu fugir quando participava de um grupo que trabalhava na estação ferroviária da cidade. Com a ajuda dos poloneses locais, ele enganou seus perseguidores, e sobreviveu à guerra como membro da brigada polonesa de trabalhos forçados. Quando voltou a Moscou, os interrogadores da KGB prenderam-no e o torturaram durante um mês, espancando-o até perder a consciência. Ele sobreviveu também a essa provação e a um período subsequente de exílio interno. Esse foi o destino dos afortunados nesses casos.
À medida que os alemães avançavam para leste no verão de 1941, e Moscou parecia cada vez mais vulnerável, Stalin continuava a exigir mais castigos instantâneos em todos os pontos onde as linhas soviéticas eram rompidas, o que no início era por toda parte. No dia 10 de julho, por exemplo, ele determinou que a Stavka, ou quartel-general, emitisse uma declaração de que estava completamente insatisfeita com o que acontecia na frente noroeste. “Os oficiais que não cumpriram ordens e abandonaram suas posições como traidores, largando sem ordens a linha de defesa, ainda não foram punidos”, a nota se queixava. E ordenava a um promotor e aos oficiais da NKVD “irem imediatamente às unidades da frente de batalha e tratar no local dos traidores e covardes”.
Não havia dúvida quanto ao significado da ordem de “tratar dos traidores”. Em setembro, quando a Batalha de Moscou se aproximava, começaram a aparecer as “unidades de bloqueio”. Eram esquadrões que assumiam posições atrás das tropas soviéticas que iam para a batalha e tinham a missão de ceifar todos os homens que tentassem recuar. Daí as cenas terríveis de soldados soviéticos repelidos pelos alemães e derrubados pelas metralhadoras russas na retaguarda. “O que se pode pensar de um exército em que um soldado tem ordens de atirar no inimigo e outro tem ordens de atirar nos seus compatriotas?”, perguntou depois Sergo Beria, o filho do chefe da polícia secreta de Stalin. “Há algo sujo e pegajoso, como nos livros de Dostoievsky.” Embora as unidades de bloqueio não estivessem tão bem organizadas como nas batalhas posteriores, como a de Stalingrado, suas origens estão na preparação para a Batalha de Moscou.
Sob outros aspectos, o sistema stalinista de punição já estava completamente operacional naquele período. O fuzilamento de desertores tinha se tornado comum – às vezes isso significava o fuzilamento de centenas de soldados numa só unidade. Alguns soldados atiravam na própria mão esquerda, pensando que isso lhes permitiria fugir da luta. O general Konstantin Rokossovsky escreveu mais tarde que tinha encontrado “um grande número de exemplos de covardia, pânico, deserção e automutilação” durante as lutas iniciais.
No início, essa “mão esquerda” aparecia quando [eles] atiravam nas palmas das suas mãos ou decepavam a tiros vários dedos. Depois começaram a aparecer casos de “mão direita”. A automutilação surgia por acordo mútuo: dois soldados atiravam um na mão do outro.
Mas os soldados que recorriam a medidas tão desesperadas estavam assinando sua própria sentença de morte. Unidades da NKVD tinham ordens de executar qualquer suspeito de automutilação. Não acreditavam nem mesmo nos que sofriam esses ferimentos em batalha. Esses também enfrentavam execução imediata.
Quanto a outras formas de “justiça”, elas eram igualmente rápidas e duras. De acordo com um relatório da NKVD, 667.364 soldados que tinham “fugido do front” tinham sido caçados em 10 de outubro de 1941. Desses, 10.201 foram fuzilados, 25.878 mantidos presos, e 632.486 foram incluídos em outras unidades – em muitos casos, batalhões penais enviados em missões suicidas. Durante a guerra, as fileiras dos batalhões penais eram completadas com milhares de prisioneiros do Gulag. Afinal, eles eram considerados candidatos perfeitos para missões como atravessar campos minados à frente das unidades regulares. Ao mesmo tempo, Stalin continuou a fornecer ao Gulag um fluxo contínuo de novos prisioneiros, assegurando, assim, que os enviados para a frente de batalha poderiam ser facilmente substituídos por outros trabalhadores escravos.
Stalin não se contentava em aterrorizar as massas de soldados; ele também queria convencê-los de que seus comandantes, em caso de fracasso, enfrentavam o mesmo perigo que eles. Ademais, ele precisava de pelo menos alguns bodes expiatórios para justificar a sequência embaraçosa das primeiras derrotas. O general Dmitry Pavlov, comandante da frente ocidental cujas forças foram incapazes de parar os invasores alemães que capturaram Minsk e seguiram para leste, foi rapidamente escolhido para essa missão, ao lado dos seus principais assessores. Foram presos e torturados até que “confissões” foram arrancadas deles a poder de pancadas. Seu suposto crime: participação numa “conspiração militar antissoviética”. Ao aprovar suas sentenças de morte, que foram executadas imediatamente, Stalin deu instruções claras aos seus assessores: “não haverá apelação. E depois informe às frentes, para que saibam que os derrotistas serão punidos sem piedade”.
As execuções também incluiriam os oficiais já presos quando a guerra começou. Poucos dias antes da invasão alemã, Pavel Rychagov, um piloto que tinha se destacado durante a Guerra Civil Espanhola e depois tornou-se vice-comandante da Força Aérea Soviética, foi preso com Yakov Smushkevich, outro veterano altamente condecorado no mesmo conflito. No dia 28 de outubro de 1941, quando a luta em volta de Moscou estava num estágio crucial, eles tiveram de enfrentar o pelotão de fuzilamento, juntamente com vários oficiais e a esposa de Rychagov, também piloto consumada da força aérea.
Como escreveu mais tarde Stepan Mikoyan, que serviu como piloto de caça na guerra enquanto seu pai permanecia no círculo íntimo de Stalin:
Corria uma grande guerra, nosso exército sofria enormes baixas e derrotas, e mesmo assim comandantes experimentados, em vez de serem usados para salvar a situação, foram executados apressadamente. […] É doloroso imaginar os sentimentos de pessoas que, numa época de grave perigo para o país, esperavam a morte nas mãos de seus próprios compatriotas.
Ao longo de toda a guerra, cerca de 158 mil soldados soviéticos foram sentenciados à morte. Os tribunais militares alemães, por sua vez, condenaram um total de 22 mil soldados à morte por deserção, não somente na frente oriental, mas onde quer que servissem. Quando se tratou da condenação de soldados e oficiais das suas forças armadas, Stalin superou Hitler facilmente. Mas isso não chega a surpreender. Já bem antes do início da guerra, o líder soviético tinha adquirido grande prática na execução dos seus militares. E esse registro sangrento provou ser um importante fator de contribuição para a incrível falta de preparo das forças armadas soviéticas quando os alemães invadiram o país. Stalin assassinou cedo e muito, e não foram apenas as vítimas diretas que pagaram o preço.
Na década de 1930, quando Stalin ampliou metodicamente o seu reino de terror para eliminar qualquer um que considerasse “inimigo”, ou possível ameaça ao seu governo, ninguém – e nenhuma instituição – estava livre de suspeitas. Um dia, em meados daquela década horripilante, Stalin caminhava pelos corredores do Kremlin com o Almirante Ivan Isakov. Como sempre, oficiais da NKVD mantinham guarda em todas as esquinas. “Você já notou quantos estavam ali?”, o líder soviético perguntou a Isakov. “Toda vez que ando pelos corredores penso: qual deles será? Se for este, vai atirar em mim pelas costas. Mas depois de passar a curva, o próximo vai atirar na minha cara.”
Além dos alvos óbvios do terror, como os camponeses ucranianos e os intelectuais e aristocratas que ainda não tinham sido “convertidos”, Stalin investigava o Partido Comunista, a NKVD e, em 1937 e 1938, as forças armadas. Em cada um desses casos, muitos dos carrascos logo se veriam entre os que seriam executados. A lógica dos expurgos e a sede insaciável de Stalin por mais vítimas significavam que não havia meio de parar ou de tornar mais lento o que passou a ser conhecido como o Grande Terror. No período de 1937-1938, quando os expurgos incluíram os militares, a NKVD prendeu 1,5 milhão de pessoas, das quais somente cerca de 200 mil chegaram a ser libertadas depois. Muitos foram despachados para o Gulag, mas um número ainda maior – provavelmente em torno de 750 mil deles – acabaram simplesmente fuzilados. Os corpos foram jogados nos poços de execução cavados perto de quase todas as cidades por todo o país.
Apesar desses números inacreditáveis, Stalin em geral se envolvia pessoalmente no processo de execução. A NKVD reuniu álbuns com cerca de 44 mil nomes das vítimas potenciais mais proeminentes. “Stalin, um homem ocupado, devia percorrer a lista e assinalar as sentenças recomendadas sempre que encontrasse um nome conhecido e ele tivesse preferência pelo que devia ser feito”, escreve seu biógrafo Robert Service. Stalin também insistia em obter a aprovação dos membros do Politburo, e alguns costumavam acrescentar seus comentários às sentenças de morte com expressão do seu entusiasmo. Molotov, por exemplo, gostava de escrever ao lado de um nome: “deem a esse cão uma morte de cão!”
Quando chegou a vez dos militares, o líder soviético se envolveu em todas as decisões importantes. Ele via os militares como alvo prioritário, pois, se uma revolta fosse concebível, eles teriam de liderá-la. Para alguém que via inimigos potenciais em todos os cantos, Stalin não deixaria passar uma instituição que tinha poder de fogo real e sabia como usá-lo. Ademais, no alto-comando havia muitos oficiais com vulnerabilidades evidentes, entre elas a experiência inicial no exército czarista, ou ligações posteriores com Leon Trotsky, que tinha sido o primeiro Comissário do Povo para Assuntos Militares e havia indicado muitos dos oficiais que agora serviam a Stalin.
Na reunião do Comitê Central do dia 2 de março de 1937, Kliment Voroshilov, o comissário da defesa, tentou de inicio evitar um banho de sangue, explicando que os militares vinham metodicamente expurgando suas fileiras desde que Trotsky tinha sido derrotado na luta de poder e forçado a fugir. “Sem nenhum ruído, livramo-nos de muitos elementos inúteis, inclusive muitos homens de Trotsky e outras escórias suspeitas”, declarou. Acrescentou que aquelas ações levaram ao expurgo de “cerca de 47 mil pessoas”.
Mas havia atividades mais recentes que o líder soviético agora considerava suspeitas. Durante o período de colaboração entre a União Soviética e a Alemanha de Weimar, na década de 1920 e início da de 1930, os chefes militares das duas nações tiveram oportunidade de avaliar-se mutuamente, e examinar a expansão de armamentos de ambos os lados. Pilotos alemães e outros oficiais foram treinados na União Soviética, e oficiais soviéticos foram convidados à Alemanha para observar manobras militares. Isso significou que houve contatos pessoais que, pelo menos em teoria, poderiam ter servido como disfarce para todo tipo de atividade subversiva.
A mente de Stalin trabalhou da mesma forma quando se tratou dos soldados soviéticos, como os pilotos de caça Pavel Rychagov e Yakov Smushkevich, que foram lutar contra as forças de Francisco Franco durante a guerra civil do final da década de 1930 na Espanha. Com Hitler e Mussolini apoiando Franco, esta se tornou uma espécie de guerra por procuração, a primeira confrontação direta das duas ideologias, pois Stalin igualmente engajou-se no apoio ao outro lado. Os veteranos soviéticos do conflito que lutaram ao lado não somente dos republicanos espanhóis, mas também de um exército multinacional de voluntários que responderam à convocação dos partidos de esquerda, foram manchados pela associação com tantos estrangeiros ideologicamente suspeitos.
Tudo isso significou que os interrogadores e torturadores tinham muito material para trabalhar quando chegou a hora de planejar os casos contra os chefes militares, assinalando o início do expurgo generalizado das forças armadas. Reconhecendo que sua garantia inicial de que as forças militares já estavam limpas não teve a capacidade de desacelerar a construção de uma nova onda de terror, Voroshilov mudou abruptamente a sua mensagem. Prometeu ao Comitê Central que desvendaria um plano sinistro que faria “tremer até o mais forte coração de aço”. A tendência era evidente, e pouco tempo depois começaria a sangria.
Em junho, o “plano” foi revelado. O marechal Mikhail Tukhachevsky, o aristocrata feito comandante do Exército Vermelho que era muito admirado no país e no estrangeiro, encabeçou a primeira lista de oito culpados. Na década de 1920, ele tinha presidido a transformação do Exército Vermelho, que ainda era em grande parte um produto da Revolução Bolchevique e da Guerra Civil, numa força armada moderna. Mas ele não escondia as suas opiniões e em diversas ocasiões viu-se em oposição a Stalin. Em 1936, por exemplo, ele previu que a Alemanha talvez atacasse sem aviso e que o resultado seria um conflito longo e custoso. “O que você está tentando fazer? Assustar a autoridade soviética?”, Stalin respondeu com raiva.
Tukhachevsky e os outros altos oficiais do exército foram julgados no dia 11 de junho de 1937. Um nono “conspirador”, Yan Gamarnik, o primeiro vice-comissário para a Defesa, conseguiu suicidar-se antes que a NKVD pudesse prendê-lo. Já naquela época ninguém tinha muitas ilusões com relação aos métodos a serem usados para obter confissões. Quando as declarações de Tukhachevsky foram enviadas a Stalin para serem editadas, as manchas de sangue eram claramente visíveis nos documentos. Outro lendário general soviético, Vasily Blyukher, preso em outubro de 1938, foi torturado com tanta violência por se recusar a confessar, que sua mulher, que também tinha sido presa, lembrou que ele parecia “ter sido atropelado por um tanque”. Seus torturadores continuaram a espancá-lo e o sangue fluía de um dos seus olhos. “Stalin, você está ouvindo como eles estão me torturando?”, gritou ele. Finalmente ele morreu da tortura incansável.
Mas para Tukhachevsky e o primeiro grupo, não se poderia ter nada menos que um julgamento rápido e execuções formais. A acusação era traição. Pouco antes do julgamento de fachada, Stalin declarou: “houve sem dúvida uma conspiração político-militar contra o regime soviético, estimulada e financiada pelos fascistas alemães”. Como prova, ele observou que vários dos acusados tinham estado na Alemanha e conhecido os militares de lá. O líder soviético convenientemente omitiu qualquer menção ao fato de eles terem viajado sob auspícios oficiais, durante o período em que os dois países estavam engajados numa política de cooperação militar. Ele também nunca reconheceu que fora Tukhachevsky quem o avisara do perigo de um ataque alemão. E insistiu: “espiões, espiões!”.
De acordo com vários relatos ocidentais, Stalin talvez não tivesse inventado sozinho as acusações. Os alemães teriam vazado desinformações sobre planos para um golpe militar dos militares soviéticos ao presidente da Tchecoslováquia, Eduard Benes, que as passou ao Kremlin. Não surgiu nenhum documento que confirmasse essa versão dos acontecimentos, razão por que alguns historiadores soviéticos duvidam da sua autenticidade. De qualquer forma, Stalin e seus capangas eram absolutamente capazes de forjar suas próprias evidências e, estivessem os alemães envolvidos ou não, eles eram perfeitamente capazes de provar sua “acusação”. E, é claro, isso significava que eles iriam distribuir sua própria versão de justiça. Como escreveu Ivan Belov, um dos juízes no julgamento: “quando eu via os patifes no salão do tribunal, eu tremia. Uma fera me possuía. Eu não queria julgá-los, só queria bater e bater neles num frenesi feroz”.
Todos os réus já tinham sido espancados, e alguns receberam promessas de leniências se confessassem, ou pelo menos indulgência para suas famílias. Isso foi comum durante o Grande Terror, bem como a despreocupação com que as autoridades “esqueciam” as promessas, uma vez extraídas as confissões que implicavam um círculo cada vez maior de vítimas. Mas, confessando ou não, o resultado era sempre o mesmo. A clemência estava fora de questão. Quando um dos réus, o general Jonah Yakir, enviou um apelo particularmente emocional, Stalin anotou sobre ele: “porco e prostituto”. Voroshilov acrescentou obedientemente: “uma definição absolutamente precisa”, e o membro do Politburo Lazar Kaganovich concordou em perfeita harmonia: “para um bastardo, lixo e puto, só existe uma punição, a pena de morte”. No dia 11 de junho, Tukhachevsky – que tentou provar a sua inocência naquele tribunal de fachada – foi condenado, junto com todos os outros. Stalin autorizou imediatamente a pena de morte e execução para o dia seguinte, 12 de junho.
Para as famílias das vítimas, a provação geralmente começava ali. Como notou o historiador britânico Robert Conquest, “esposas de inimigos do povo” era uma categoria penal na União Soviética de Stalin. Comparada a outras nessa situação – 15 das quais foram executadas em 28 de agosto de 1938 –, Nina Tukhachevsky e várias outras viúvas de oficiais do primeiro julgamento de início saíram-se relativamente bem. Foram condenadas a oito anos de prisão. Mas no auge da Batalha de Moscou, em outubro de 1941, as autoridades mudaram de ideia. Tal como no caso dos pilotos Rychagov e Smushkevich, que foram executados mais ou menos na mesma época, de repente passou a ser uma questão urgente terminar logo com elas, ainda que a capital parecesse prestes a sucumbir aos invasores alemães exatamente naquele momento. As autoridades rapidamente julgaram de novo aquelas viúvas e elas também foram fuziladas.
O julgamento de Tukhachevsky e dos outros em junho de 1937 foi um sinal para o Grande Terror varrer as forças armadas com resultados devastadores. Por volta de 29 de novembro de 1938, Voroshilov relatou: “o expurgo foi drástico e abrangente. Expurgamos todos que tínhamos de expurgar, a começar dos altos postos e terminando com os mais baixos”. E concluiu que isso explicava a “impressionante” contagem final: o Exército Vermelho tinha-se “purificado” de mais de 40 mil homens.
É difícil exagerar o impacto. Konstantin Rokossovsky, que ficou preso durante dois anos, mas conseguiu sobreviver e até emergir como um dos principais generais durante a guerra, comentou: “isso é pior do que quando a artilharia atira contra seus próprios soldados”. Os expurgos atingiram mais duramente os altos oficiais, inclusive 3 dos 5 marechais, 13 dos 15 comandantes de exército, 8 dos 9 almirantes de esquadra de primeiro grau, 50 dos 57 comandantes de corpo, 154 dos 186 comandantes de divisão, e assim por diante ao longo da cadeia de comando.
Apesar de cerca de 13 mil dos oficiais expurgados terem sido reconduzidos entre 1939 e 1941, Kruschev argumentou que o custo das execuções, prisões e demissões irreversíveis foi uma das principais razões por que os militares soviéticos estivessem tão mal preparados para enfrentar os alemães em 1941.
Tantos foram executados, que o alto-comando, bem como os escalões intermediários e inferiores, foram devastados. Por isso o nosso exército foi privado de quadros que tinham ganhado experiência na guerra civil, e tivemos de enfrentar despreparados um novo inimigo.
De acordo com Stepan Mikoyan, seu pai, Anastas, concordou com essa avaliação – embora, tal como Kruschev, o membro do Politburo nunca tenha ousado sugerir que havia algo errado naquelas políticas enquanto serviu Stalin.
Repetidamente ouvi de meu pai que a perda antes da guerra de comandantes experientes, bem educados e capazes de pensar, especialmente nos primeiros dias e semanas, produziu o efeito mais danoso sobre os preparativos para repelir o ataque de Hitler e sobre o próprio curso da guerra.
Por causa dos expurgos oficiais, jovens foram rapidamente promovidos, muitas vezes apenas com base na sua confiabilidade política. Em incontáveis casos, homens com limitadas habilidades militares substituíram veteranos experientes, que foram expurgados. Esses acontecimentos não deixaram de ser notados. Os alemães observavam com mórbida satisfação a carnificina no Exército Vermelho, concluindo que aquilo só poderia ser “desastroso” para seu futuro inimigo. Era quase como se Stalin quisesse ajudar Hitler. Na sua clássica biografia de Stalin, o general Volkogonov, que serviu como chefe de propaganda do Exército Vermelho, argumentou que os expurgos “forjaram as derrotas de 1941 que produziram milhões de novas vítimas”. Não foi um exagero.
Outro dos primeiros biógrafos de Stalin, Isaac Deutscher, ofereceu uma perspectiva radicalmente diferente dos expurgos militares de Stalin.
Imaginemos por um momento que os líderes da oposição tivessem vivido para testemunhar as terríveis derrotas do Exército Vermelho em 1941 e 1942, ver Hitler às portas de Moscou, milhões de soldados russos prisioneiros, uma perigosa crise no moral do povo como a que se desenvolveu no outono de 1941, quando todo o futuro dos soviéticos pendia por um fio e a autoridade moral de Stalin estava no seu ponto mais baixo. É possível que eles tivessem, então, tentado derrubar Stalin. Stalin estava determinado a não permitir que as coisas chegassem a tanto.
Parece uma chocante apologia. Parece admitir pelo menos a existência de uma “oposição” latente no exército – e não apenas oficiais torturados, aterrorizados, forçados a confessar crimes e planos traiçoeiros inexistentes.
Mas então, Deutscher afastou qualquer sugestão de que pudesse haver alguma verdade nas acusações de Stalin contra suas vítimas. “Entre todos os documentos do julgamento dos líderes nazistas em Nuremberg, nenhum contém nem mesmo uma alusão à suposta quinta coluna nazista dentro do governo e exército soviéticos”, acrescentou ele, curiosamente numa nota de pé de página. “Poderia haver refutação mais eloquente dos julgamentos dos expurgos que essa notável lacuna na abundante evidência dos preparativos de Hitler para a guerra?”
Deutscher também não fez a pergunta lógica que resulta da especulação anterior, sobre como teriam reagido Tukhachevsky e as legiões de comandantes assassinados às derrotas de 1941 e 1942. Se tivessem sobrevivido e os expurgos não tivessem acontecido, essas derrotas teriam sido tão devastadoras como foram? Com base nas reflexões de Rossokovsky, Kruschev, Mikoyan e muitos outros daquele período, há pouca dúvida de que o Exército Vermelho teria sido uma força muito mais eficaz naquelas circunstâncias – mesmo que, com toda probabilidade, ainda tivesse de lutar desesperadamente pela sobrevivência. Mas, pelo menos, teria sido uma batalha pela sobrevivência contra os alemães, sem o peso adicional da batalha pela sobrevivência diante do terror incansável que vinha de dentro.
Em qualquer lugar e sempre que Stalin ampliava o seu poder, seguia-se também o terror contra a população civil. Quando a União Soviética invadiu a Polônia pelo leste, dividindo o país com os alemães como proposto no pacto nazissoviético, os invasores alemães e russos lançaram campanhas de terror contra a população local, nos seus respectivos territórios ocupados. No que antes fora o leste da Polônia, as autoridades soviéticas rapidamente organizaram trens especiais para deportar cerca de dois milhões dos seus novos súditos, entre setembro de 1939 e junho de 1941. Centenas de milhares morreram naqueles comboios horríveis ou nos destinos remotos dos campos do norte da Rússia, Sibéria e Cazaquistão, ou simplesmente exilados para regiões onde muitos padeceram de fome ou congelados.
“Numa época em que os alemães ainda refinavam os preparativos para Auschwitz e Treblinka, os russos acomodaram com relativa facilidade alguns milhões de poloneses e ucranianos ocidentais entre a população do ‘arquipélago Gulag’”, observou o historiador britânico Norman Davies. De acordo com um dito que os poloneses atribuíam aos russos durante aquela época, os invasores dividiam a população polonesa sob seu controle entre “os que estiveram na prisão, os que estão na prisão e os que vão estar na prisão”.
E aconteceram as execuções em massa. Stalin estava determinado a eliminar todos os poloneses que pudessem um dia tentar resistir à subjugação da União Soviética. Em março de 1940, o Kremlin decretou a “punição suprema: execução por pelotão de fuzilamento” de 14.736 oficiais do exército polonês e funcionários públicos, além de mais 10.685 poloneses detidos pela NKVD. Os corpos de cerca de 4 mil oficiais poloneses, cada um com uma bala na cabeça, foram descobertos pelos alemães na floresta de Katin, perto de Smolensk, em 1943. Até o colapso da União Soviética, as autoridades do país alegaram que os alemães estavam tentando atribuir a elas a culpa da sua própria atrocidade. Mas mesmo então, ficou claro que a época do massacre, evidenciada pelos pertences das vítimas, só podia levar a uma conclusão: aquele era um massacre soviético. Num gesto de boa vontade para com a Polônia em 1992, o presidente Boris Yeltsin finalmente liberou a ordem do Politburo, que confirmou oficialmente o fato hediondo.
Nos Estados Bálticos, onde os soviéticos demoraram mais para estabelecer o controle total, houve a preocupação semelhante de atacar qualquer um que pudesse ser potencialmente classificado como “inimigo do povo”. Paralelamente às medidas como a nacionalização de empresas comerciais, a proibição de livros e outras literaturas consideradas antissoviéticas ou “nacionalistas”, as prisões começaram na Lituânia, às vésperas das primeiras eleições sob controle soviético. Duas mil pessoas foram presas na noite de 11 para 12 de julho de 1940, e as prisões continuaram numa média de 200 a 300 por mês até o fim do ano.
Se fosse necessária outra evidência adicional para demonstrar o quanto as autoridades soviéticas se preocupavam com a repressão, no momento mesmo em que recebiam diariamente, de todos os lados, sinais de que a Alemanha preparava a invasão, o cronograma de deportações dos Estados Bálticos seria uma delas. Já em 28 de novembro de 1940, o ministro do Interior lituano, Aleksandras Guzevicius, publicou uma lista de 14 categorias de pessoas destinadas à deportação. Entre elas estavam os membros de partidos “esquerdistas” e “nacionalistas” antissoviéticos, veteranos dos exércitos czarista e branco, oficiais dos exércitos lituano e polonês, “todos os emigrados políticos e elementos instáveis”, funcionários da Cruz Vermelha, clérigos, ex-nobres e comerciantes, entre outros. De fato, a lista era uma verdadeira carta branca para deportar praticamente qualquer um. Mas somente na noite de 13 para 14 de junho de 1941 – apenas uma semana antes de os alemães lançarem a Operação Barbarossa –, as autoridades lançaram sua principal ação.
Apesar de haver diferentes estimativas de números, aproximadamente 60 mil estonianos, 35 mil letões e 34 mil lituanos foram deportados pelos invasores soviéticos antes do ataque alemão, sendo que o maior contingente foi detido e despachado em vagões de carga para o leste, naquela noite pavorosa de junho e nos dias seguintes. Para os pequenos estados, aqueles foram números assustadores: no caso da Estônia, cerca de 4% da população; para a Lituânia e Letônia, entre 1,5 a 2%. Se Stalin pensava que, por medidas como essas, poderia garantir lealdade, na verdade estava obtendo o resultado oposto. Não chega a surpreender o fato de muitos cidadãos bálticos, bem como muitos ucranianos, se convencerem de início que os invasores alemães os estavam libertando do reino de terror de Stalin.
Quando os alemães atacaram, o primeiro instinto da NKVD e de seus chefes foi acelerar o trabalho nas regiões ocupadas da Polônia e dos Estados Bálticos, que logo mudariam de mãos mais uma vez. No esquema mental stalinista, todos os prisioneiros políticos “antissoviéticos” ainda sob custódia nas áreas de fronteira não podiam ser simplesmente abandonados: tinham de ser eliminados. Mesmo que isso significasse deslocar tropas para essa tarefa pavorosa, em vez de enviá-las para lutar contra os alemães, essa atitude parecia perfeitamente lógica. Em Lvov – ou Lwöw, como era conhecida quando fazia parte da Polônia até 1939 –, a NKVD começou a executar prisioneiros no dia 22 de junho. Um levante ucraniano forçou a NKVD a recuar, mas ela voltou para assassinar os prisioneiros restantes nas suas celas. Quando as tropas soviéticas começaram a fugir, já tinham matado cerca de 4 mil prisioneiros, deixando para trás seus corpos metralhados em mal disfarçadas covas coletivas.
A NKVD e o Exército Vermelho se engajaram em exageros semelhantes de assassinatos em outras cidades bálticas ou polonesas, fuzilando prisioneiros onde quer que estivessem detidos. No fim, alguns prisioneiros foram abandonados ou conseguiram escapar, pois os carrascos soviéticos, em pânico, não eram capazes de vigiar todos. Entretanto, mais distante da fronteira, outros prisioneiros do Gulag foram submetidos a evacuações forçadas para leste, geralmente a pé, porque não se dispunha de transporte ferroviário. Algumas das cenas resultantes prenunciavam as marchas da morte dos campos nazistas no final da guerra, quando a frente alemã entrava em colapso. “Os que puderem vão caminhar”, um guarda soviético disse aos prisioneiros. “Protestem ou não, todos vão andar. Os que não puderem, vamos fuzilar. Não vamos deixar ninguém para os alemães.”
À medida que os alemães continuavam o avanço para leste, além das áreas de fronteira no território russo, a política do Kremlin continuou imutável com relação aos prisioneiros. Beria, o chefe da NKVD, a quem Stalin chamava de “nosso Himmler”, emitiu uma ordem depois da outra – com pleno apoio do seu chefe – para atirar nos prisioneiros em cidades russas, como em Orel, onde 154 foram executados antes que a cidade caísse diante dos alemães, no início de outubro. Mesmo quando a estrada para Moscou parecia amplamente aberta, os governantes na cidade continuaram a dedicar sua atenção a ordenar mais execuções.
Vendo esses atos da perspectiva de mais de seis décadas depois, Victor Chernyavsky, que serviu à NKVD durante aquele período, ainda acha difícil entender por que aquelas mortes deviam ser vistas como perturbadoras. “Era a viabilidade da vida”, explicou, referindo-se à execução dos prisioneiros.
A situação no front era terrível. Imagine: tinham de resolver como transportar os prisioneiros e todo aquele material. Chamavam Beria e lhe pediam conselhos sobre o que fazer. Os alemães estavam às portas e a situação era de perigo, portanto a resposta era liquidá-los. Assim, foi a viabilidade da vida. Os prisioneiros eram um peso morto.
Mas nem mesmo essa lógica tortuosa foi aplicada em alguns casos. As autoridades conseguiram evacuar cerca de 3 mil prisioneiros da prisão de Butyrka, em Moscou, até Kuibyshev, a cidade no Volga onde os evacuados da capital ameaçada deveriam se reagrupar. Porém, em meio a tudo isso, perdeu-se tempo para executar 138 prisioneiros mais proeminentes. No todo, de acordo com um estudo russo recente, 42.776 prisioneiros “se perderam por várias razões” durante o avanço alemão, a caótica retirada soviética e a evacuação de cidades que não conseguiram proteger. Muitos foram executados antes de deixar a prisão ou os campos de prisioneiros, enquanto outros morreram ou foram fuzilados durante as marchas forçadas.
Gradualmente, Stalin e Beria tiveram de pensar mais em como recompor as fileiras do exército, dadas as perdas estarrecedoras sofridas durante os primeiros meses da invasão alemã, e o ritmo de execuções se reduziu. Em alguns casos, altos oficiais militares cujo destino parecia selado, receberam repentinamente a suspensão da sentença. Foi o caso do general Kirill Meretskov, que se viu preso e torturado nos primeiros dias da guerra, quando Stalin procurava bodes expiatórios. Espancado impiedosamente com barras de borracha, Meretskov foi readmitido no círculo íntimo, ainda que nele também estivesse um ex-colega que tinha sido o seu principal torturador. Ao contrário de outros em situação semelhante, ele não escondeu seu desconforto. “Nós nos encontrávamos informalmente, mas agora eu tenho medo de você”, disse ele ao seu torturador. Por sua vez, Stalin fez uma concessão rara. Como Meretskov foi aleijado pelo tratamento brutal a que fora submetido, o líder soviético lhe permitiu comunicar-se sentado com ele.
Nada era excessivamente surreal no universo de terror de Stalin. Depois de o general Rokossovsky ser libertado da prisão em 1940, Stalin percebeu que o homem libertado não tinha unhas e lhe perguntou se ele tinha sido torturado. Quando Rokossovsky confirmou que tinha sido, Stalin declarou: “há muita gente covarde neste país”. Em outras ocasiões, ele perguntava por alguém em particular e expressava surpresa e desapontamento por aquela pessoa ter sido executada, como se não tivesse nada a ver com essas decisões.
As cortes e os defensores de Stalin insistiam que suas táticas de terror, antes e depois da invasão alemã, eram justificadas. Molotov, que foi o homem essencialmente leal até sua morte em 1986, defendeu os expurgos militares de 1937 a 1938: “Evidentemente, houve excessos, mas, na minha opinião, tudo era permissível em nome do objetivo principal – resguardar o poder do estado! […] Nossos erros, inclusive os mais grosseiros, foram justificados”. Quando se tratou das primeiras vítimas militares dos expurgos, como o general Tukhachevsky, ele foi igualmente franco.
Se surgissem problemas, para que lado ele penderia? Era um homem perigoso. Eu duvidava que ele ficasse completamente do nosso lado quando as coisas se agravassem, porque ele era um direitista. O perigo da direita era o maior perigo naquela época. E muitos direitistas não percebiam que eram direitistas, eram direitistas apesar de si mesmos.
Esses argumentos refletiam uma lógica que somente um verdadeiro stalinista poderia entender. Não se podia confiar em ninguém: qualquer um poderia ser um inimigo do povo, mesmo que ainda não soubesse. Era esta a lógica de Stalin antes da guerra, e continuaria a ser a sua lógica durante a guerra, quando permaneceu o avanço alemão. De acordo com esse raciocínio, somente o terror, e mais terror – fosse ele na forma de “unidades de bloqueio” atirando contra suas próprias tropas em retirada, ou nas execuções frenéticas de prisioneiros que não podiam ser evacuados – poderia assegurar a vitória.
Sergo Beria, filho do chefe da polícia secreta de Stalin, ofereceu uma perspectiva diferente do terror de antes da guerra, particularmente os expurgos militares de 1937 e 1938. “Meu pai me explicou que se essa política de extermínio da elite tivesse continuado por mais dois anos, os alemães não teriam de nos invadir porque o estado teria entrado sozinho em colapso”, escreveu ele. É preciso reconhecer que esse era o discurso de um filho para defender o indefensável, um pai monstruoso que alegava estar mitigando as políticas que ele, na verdade, estava executando com brutal eficiência. Mas, ainda assim, é um comentário revelador sobre as políticas de carnificina indiscriminada do próprio povo, praticadas por Stalin e seus asseclas. Essas políticas trouxeram o caos para as forças armadas soviéticas e antagonizaram muitos súditos de Stalin, principalmente nas regiões recém-ocupadas entre 1939 e 1941. Elas também geraram um clima de medo que paralisou muitos dos oficiais militares que sobreviveram, o que dificilmente teria incentivado uma liderança eficaz quando chegasse o momento de crise.
Mas, felizmente para Stalin, Hitler estava decidido a impor seu próprio domínio de terror em todos os locais por onde avançavam as suas forças, o que produziu uma disputa mais equilibrada do que poderia parecer inicialmente. Foi também uma disputa que refletiu a desumanidade que descia do alto dos dois regimes. Como escreveu Robert Service, “a guerra reverteu à colossal brutalidade só vista anteriormente nas guerras religiosas do século XVII, e Stalin estava no seu elemento”. O mesmo valia para Hitler, mas suas tropas tentavam navegar o terreno de um país que não conheciam, e enfrentavam um povo que não compreendiam. Para chegarem a Moscou, teriam de remediar rapidamente essas deficiências e fazer todos os movimentos sem erros – com pouca demora. O Führer tinha a sua janela de oportunidade, mas ela não continuaria aberta por muito tempo.