A Batalha de Moscou
Hitler e seus generais
Durante aqueles meses cruciais de verão, quando as forças alemãs avançavam cada vez mais profundamente em território soviético, Hitler e seus generais em geral divergiam quanto às táticas e à estratégia. Esse não chegou a ser o primeiro exemplo dessas tensões: os generais hesitaram em todos os casos anteriores em que Hitler apostou e ganhou – a anexação da Áustria, o desmembramento da Tchecoslováquia, a invasão da Polônia e, depois, a conquista da França e de grande parte do restante da Europa continental. E, é claro, quando Hitler lançou a Operação Barbarossa, alguns generais tiveram dúvidas quanto às suas previsões de que a União Soviética cairia rapidamente. Mas, quando aconteceu a invasão, Hitler de repente se mostrou hesitante no momento de decidir quando e como atacar Moscou, frustrando os seus generais no campo, que estavam convencidos de que somente o necessário assalto rápido e direto à capital soviética seria capaz de assegurar a vitória e a destruição da União Soviética.
Ao mesmo tempo, Hitler plantava as sementes da crescente resistência aos invasores alemães ao executar a sua política de terror contra os habitantes dos territórios conquistados por seus exércitos. Muitos dos seus generais também alegariam mais tarde que tinham se oposto a essa política. Mas, se isso foi verdade, eles raramente o fizeram de modo claro e aberto. E é pouco provável que suas dúvidas se baseassem em inibições morais: depois de servir Hitler durante tanto tempo, eles na verdade tinham posto de lado suas consciências.
Ainda assim, os protestos de que reconheciam que a brutalidade da dominação alemã estava rapidamente colocando as populações locais contra eles pareciam mais convincentes – pelo menos em alguns casos. Em termos puramente práticos, eles viam que a determinação de Hitler de governar pelo terror sem limites poderia ser um tiro pela culatra, tornando o medo do reino de terror de Hitler mais assustador que o do reino de terror de Stalin. Ainda mais importante, ele daria a Stalin a munição necessária para mobilizar o povo russo contra um inimigo inegavelmente mau, e facilitaria muito a tarefa dos propagandistas soviéticos. Liderando-os estava Ilya Ehrenburg, o poeta que em 1940 tinha retornado a Moscou do seu longo exílio em Paris. “Vamos matar! Se você passou um dia sem matar um alemão, o seu dia foi perdido.”
Como relataram muitos soldados alemães, a recepção inicial em várias partes ocidentais da União Soviética refletia uma disposição muito diferente. Hans von Herwarth, o ex-diplomata alemão em Moscou que voltava como parte da força invasora, observou atônito a reação dos camponeses que assistiam à batalha aérea desigual entre caças alemães e soviéticos. “Todos os aviões soviéticos foram abatidos. Quando cada um deles caía em chamas, os camponeses aplaudiam, gritando que logo Stalin também cairia.” Segundo ele, os camponeses perguntavam ansiosos se os alemães agora dissolveriam as fazendas coletivas, e alguns traziam listas de funcionários comunistas “contra quem eles pediam que agíssemos”.
Mas essa aceitação inicial logo foi substituída pela suspeita e depois pelo medo e ódio. O capitão Karl Haupt, cujo 350º Regimento de Infantaria foi de início saudado pelos camponeses com pão, sal e flores, no oeste da Ucrânia, relatou que já em meados de julho as atitudes locais tinham se tornado “completamente hostis”. Ele lamentou que “não há mais espaço para confiança e amizade ou para baixar a guarda”. E depois dessas observações, deu ordens aos seus homens para empregar “as medidas mais duras, mais cruéis” contra os habitantes das aldeias que poucas semanas antes pareciam tão hospitaleiros.
Muitos dos invasores alemães declararam ter-se chocado com as primeiras atrocidades do lado soviético, alegando que suas próprias ações tinham principalmente natureza retaliativa. O general Erich von Manstein, comandante do 56º Corpo Panzer no início da Operação Barbarossa, e que mais tarde chegaria ao posto de marechal de campo, declarou que no primeiro dia de luta, seus homens encontraram uma patrulha alemã abatida pelas forças soviéticas. “Todos estavam mortos e horrivelmente mutilados”, escreveu nas suas memórias. Ao ver aquilo, ele e seus oficiais juraram “que nunca se deixariam capturar vivos por um adversário como aquele”.
Em outra ocasião, Von Manstein relatou que sua unidade retomou um hospital de campo alemão onde três oficiais e 30 soldados tinham sido deixados durante a batalha. Todos os 33 estavam mortos, e “suas mutilações eram indescritíveis”. Ele também se queixou de vários casos em que soldados soviéticos erguiam os braços em sinal de rendição e depois abriam fogo, e outros casos em que soldados soviéticos fingiam estar mortos “e então atiravam nos nossos soldados quando estavam de costas”.
Precisos ou não, os relatos de Von Manstein sobre esses incidentes não explicam nem justificam as políticas que os alemães iriam adotar impiedosamente desde os primeiros dias da sua campanha. No começo, os invasores alemães prometeram melhorar a vida dos povos que estavam “libertando”. No primeiro dia da invasão, por exemplo, transmissões de rádio alemãs prometiam: “uma das primeiras medidas da administração alemã será a restauração da liberdade religiosa. […] Vamos permitir a organização de paróquias religiosas. Todos serão livres para orar a Deus à sua própria maneira”. Mas Hitler, cujo desprezo pelas igrejas era quase tão visceral quanto o de Stalin, logo deixou claro que não tinha intenção de cumprir tais promessas. Proibiu às unidades do exército alemão fazerem qualquer coisa para ajudar a entrada das igrejas e missionários nos territórios soviéticos recém-ocupados. “Se for concedido isso, então que se permita a todas as denominações cristãs a entrada na Rússia para que elas se espanquem até a morte com seus crucifixos”, declarou.
A visão de Hitler do que esperava os conquistados do leste não admitia nada além de morte e subjugação pelo terror. Ele expôs os elementos essenciais da sua abordagem antes do lançamento da Operação Barbarossa, sem deixar dúvida quanto à natureza da ocupação que imaginava, independentemente do comportamento dos soldados e civis soviéticos. No dia 30 de março de 1941, ele reuniu os seus generais e – como foi registrado em forma resumida por Franz Halder, seu chefe do Estado-Maior – transmitiu uma mensagem dura sobre a natureza da batalha:
Choque de duas ideologias. Denúncia esmagadora do bolchevismo, identificado como criminalidade social. Comunismo é um enorme perigo para o nosso futuro. Precisamos esquecer o conceito de companheirismo entre soldados. Um comunista não é companheiro nem antes nem depois da batalha. Esta é uma guerra de extermínio. Se não entendermos isso, venceremos o inimigo, mas 30 anos depois teremos novamente de lutar contra o inimigo comunista. Não fazemos guerra para preservar o inimigo. […] Extermínio dos comissários bolcheviques e da intelligentsia comunista.
Essa abordagem se transformou rapidamente num projeto de política de terror, que varreu todas as regras tradicionais da guerra. A premissa era simples: os russos e outros povos da União Soviética eram uma raça primitiva e inferior, que não mereciam consideração humana normal. Como diria Erich Koch, o brutal governador da Ucrânia: “A atitude dos alemães […] deve ser governada pelo fato de que tratamos com um povo inferior em todos os aspectos”. O objetivo da ocupação não foi “trazer bênçãos sobre a Ucrânia, mas assegurar para a Alemanha o espaço vital necessário e uma fonte de alimentos”.
Nada disso era retórica vazia. O pronunciamento de Hitler sobre o esquecimento do conceito de companheirismo entre soldados levou ao infame Decreto dos Comissários – a ordem para executar todos os funcionários políticos nas unidades do Exército Vermelho, mesmo que tentassem se render. “Comissários políticos não são reconhecidos como prisioneiros de guerra e devem ser liquidados, o mais tardar nos campos de trânsito de prisioneiros de guerra”, dizia a ordem elaborada no dia 12 de maio, mais de um mês antes de as forças alemãs lançarem seu ataque. O general Jodl acrescentou uma nota, que não deixava dúvida sobre a natureza cínica dos protestos subsequentes, de que essas políticas teriam sido motivadas pelo comportamento soviético. “Vamos ter de enfrentar a retaliação contra os pilotos alemães; portanto, será melhor encarar toda a ação como retaliação.”
O Decreto dos Comissários teve o efeito previsível de convencer os comissários do Exército Vermelho a resistir a todo custo, pois logo perceberam que a derrota representava uma sentença instantânea de morte. Quando os alemães começaram a encontrar tropas soviéticas que resistiam ferozmente contra todas as possibilidades, as explicações oficiais nunca faziam essa ligação – na verdade, manteve-se a fábula de que tal ligação não existia. “A principal razão por que o russo nunca se rende é que, mestiço asiático retardado, ele acredita piamente na ideia, repetida para eles pelos comissários, de que será fuzilado se for capturado”, declarava uma diretiva emitida para o Quarto Exército Alemão.
Visando preparar suas forças para a missão que se aproximava, a Wehrmacht distribuiu folhetos de propaganda que combinavam a denúncia dos comissários com os temas antissemitas do nazismo. Referindo-se aos comissários, um deles declarava: “estaríamos insultando os animais se descrevêssemos esses homens, em sua maioria judeus, como feras. Eles são a corporificação do ódio satânico e insano contra toda a nobre humanidade”.
Enquanto os alemães despejavam sobre as áreas controladas pelos soviéticos folhetos de propaganda em que alegavam estar chegando para libertar o país, e convidando os soldados do Exército Vermelho a se renderem – por volta do final de 1941 a Luftwaffe já tinha jogado mais de 400 milhões –, esses esforços eram solapados pelas políticas baseadas na doutrina nazista dirigidas a todos que caíam sob seu domínio no leste. Um relatório de 2 de maio de 1941, produzido pelos planejadores econômicos nazistas encarregados de fixar os objetivos da campanha no leste, previa que em setembro daquele ano “todas as forças armadas alemãs possam ser alimentadas à custa da Rússia”. Longe de fugir das implicações daquela declaração, o relatório continuava mostrando que: “portanto, dezenas de milhões de homens deverão, sem dúvida, morrer de fome se tirarmos do país todas as nossas necessidades”.
Como Untermenschen, ou sub-homens, os eslavos não mereciam consideração, nem mesmo os números assustadores de soldados capturados nos primeiros meses de luta. Quando os jornais alemães começaram a publicar fotos dos prisioneiros de guerra, era para ridicularizar suas “fisionomias asiáticas, mongóis” e suas “qualidades” degeneradas. Não chega a surpreender, então, que os invasores alemães não se preocupassem com a sobrevivência dos prisioneiros de guerra ou, em muitos casos, simplesmente assassinassem os soldados que se rendiam. Com relação aos primeiros dias de luta, quase en passant, o marechal de campo Von Manstein admitiu: “nesse estágio tivemos dificuldades ou poucos homens disponíveis para reunir os prisioneiros”. Ele fez questão de não dizer o que acontecia com os que não eram detidos, mas não é difícil imaginar o seu destino. E à medida que se espalhava a notícia desse tratamento, os comissários nas unidades soviéticas certamente achavam mais fácil convencer os seus homens de que a prisão significava morte, e que seria mais sensato continuar lutando.
Os civis não podiam esperar melhor tratamento. Já no dia 6 de maio, mais de um mês antes do ataque, o comando militar alemão autorizou o fuzilamento de todos os habitantes “que por seu comportamento constituam ameaça direta às nossas tropas” e “medidas coletivas de força” contra qualquer localidade “de onde tenham partido ataques insidiosos e maliciosos de qualquer tipo”. As tropas alemãs, as ordens concluíam, “devem se defender sem piedade contra qualquer ameaça de populações civis hostis”. E, mesmo que cometessem “atos merecedores de punição”, os soldados alemães não seriam submetidos a julgamento se fossem motivados pelo “desespero contra atrocidades ou trabalho subversivo dos mensageiros do sistema judeu-bolchevique”.
No fim de julho de 1941, o marechal de campo Walther von Brauchitsch, comandante do exército, emitiu uma ordem secreta em nome de Hitler que reforçava diretamente a mensagem relativa à natureza da ocupação alemã.
Dada a vasta extensão das áreas ocupadas no leste, as forças que estarão disponíveis para definir a segurança serão suficientes somente se toda resistência for punida, não pela instauração de processo legal contra os culpados, mas pela distribuição pelas forças de ocupação de terror tão grande que seja suficiente para remover todo desejo de resistência entre a população.
Quando os alemães começaram a encontrar atividade partisan, as autoridades militares cumpriram a promessa de invocar “medidas coletivas”, instruindo suas tropas a executar entre 50 e 100 cidadãos soviéticos para cada alemão morto.
Essas políticas deram aos soldados alemães carta branca para assassinar e destruir à vontade. E, nesse contexto, qualquer ato de clemência era considerado contrário às diretivas nazistas. “Alimentar, com alimentos do exército, habitantes e prisioneiros de guerra que não trabalham para as forças armadas alemãs é um ato impróprio de humanidade, tal como distribuir pão e cigarros”, avisou o marechal de campo Walther von Reichenau em outubro de 1941. A implementação prática dessas políticas teve consequências imediatas para a enorme população de prisioneiros de guerra. Hans von Herwarth se lembrava de ter visto colunas de prisioneiros soviéticos “marchando de braços dados mas cambaleando como bêbados”. Na manhã seguinte outro soldado mostrou os cadáveres de muitos dos prisioneiros de guerra espalhados ali perto. De repente, ele entendeu a verdade. “Aparentemente eles não foram alimentados por vários dias, e sua ‘embriaguês’ era apenas o resultado de pura exaustão.” Um dito popular alemão resumiu a premissa oculta que tornou esse tipo de tratamento a norma e não a exceção: “os russos precisam morrer para que possamos viver”.
Se isso fazia de qualquer pessoa uma vítima potencial, os alemães fizeram preparativos especiais para começar a matança dos judeus soviéticos. Numa guerra em que “o bolchevismo judeu” era definido como o inimigo, todos os judeus mortos podiam ser explicados como eliminação do inimigo. No outono, quando a atividade partisan se generalizou atrás das linhas alemãs, os comandantes alemães chamavam de judeus todos os inimigos, independentemente da sua origem. Segundo eles, “onde está um judeu está um partisan, e onde está um partisan está um judeu”.
Mas muito antes das primeiras lutas dos partisans – na verdade, antes de os alemães lançarem sua invasão –, os preparativos para o massacre dos judeus já estavam em andamento. Novas unidades móveis das SS chamadas einsatzgruppen, compostas de veteranos endurecidos que executavam a matança de intelectuais, religiosos e judeus na Polônia ocupada, além de batalhões especiais de polícia, seguiram os exércitos alemães no território soviético. Naquele verão o chefe das SS, Heinrich Himmler, visitou essas unidades na frente leste para incentivá-las pessoalmente a matar todos os judeus soviéticos.
Os massacres começaram tão logo as tropas alemãs cruzaram a fronteira. Quando entrou na cidade de Bialystok, no final de junho, o Batalhão de Polícia 309 se lançou violentamente contra os judeus, fuzilando-os e espancando-os. Quando um grupo desesperado de líderes judeus foi ao quartel-general da divisão de segurança responsável pela área, o general encarregado deu-lhes as costas no momento em que um dos membros do batalhão de polícia urinava neles. Alguns judeus foram alinhados e fuzilados, enquanto outros foram levados e trancados numa sinagoga, que foi então incendiada. O incêndio se alastrou para as casas próximas onde se escondiam outros judeus. A contagem no final daquele dia macabro: entre 2 mil e 2.200 judeus mortos.
Essa não foi a última matança em Bialystok. No dia 12 de julho, dois outros batalhões de polícia encheram o estádio da cidade com homens judeus. As ordens eram que, “todos os homens judeus entre as idades de 17 e 45 anos condenados como saqueadores devem ser fuzilados de acordo com a lei marcial”. Depois de recolher as coisas de valor das vítimas, os policiais os conduziram a valas nos arredores da cidade, formaram pelotões de fuzilamento e atiraram até tarde da noite, quando usaram os faróis dos caminhões para iluminar os alvos. Nesse caso, a contagem foi de mais de 3 mil judeus.
No final do verão e início do outono, os batalhões de polícia relatavam cada vez mais massacres semelhantes, que eram compostos com todos os judeus que pudessem capturar, inclusive mulheres e crianças. Os relatórios sucintos oferecem o nome da unidade e o número das vítimas a cada dia, por exemplo: “25 de agosto; Regimento de Polícia Sul, fuzilados 1.324 judeus”, ou “31 de agosto; Batalhão 320, fuzilados 2.200 judeus em Minkovtsy”.
Interrogado pelo psiquiatra americano Leon Goldensohn, antes de ser julgado no Tribunal de Nuremberg e enforcado em 1948, Otto Ohlendorf, o famigerado comandante do Einsatzgruppe D, descreveu sem emoção como sua unidade funcionava durante os primeiros meses da guerra. “Os judeus eram fuzilados de maneira militar, em fila. Havia pelotões de fuzilamentos compostos de 15 homens. Uma bala por judeu. Em outras palavras, um pelotão de 15 homens executava 15 judeus de cada vez.” As vítimas eram homens, mulheres e crianças. Quantos pereceram nas mãos dos homens dele durante o ano passado na Rússia? “Foram relatados 90 mil. Calculo que apenas entre 60 e 70 mil foram realmente mortos.” Ohlendorf, é claro, explicou que apenas seguia ordens. “Tudo que eu tinha de fazer era providenciar para que tudo fosse feito tão humanamente quanto possível”, acrescentou.
No final de setembro, depois da queda de Kiev, os grupos especiais estavam em ação na ravina de Babi Yar, onde mais de 33 mil judeus foram assassinados. Tudo isso constituiria apenas o primeiro ato do Holocausto, com as matanças industrializadas das câmaras de gás ainda no futuro. Os esquadrões especiais de matança faziam o seu trabalho, apesar de não serem tão rápidos e eficientes quanto gostariam seus líderes. Mas não era certamente por falta de tentar.
Tal como tantos compatriotas, os generais de Hitler alegariam ignorância do Holocausto, inclusive aqueles primeiros massacres. O marechal de campo Von Manstein, que também foi julgado depois da guerra, mas só passou alguns anos na prisão, admitiu para Goldensohn que o Einsatzgruppe de Ohlendorf estava no seu distrito. “Mas fomos informados de que aquelas formações das SS tinham funções puramente policiais”, insistiu ele. “O que eles faziam eu nunca soube.”
Manstein também afirmou não saber nada sobre os campos de concentração antes do fim da guerra. Apesar de estar entre os generais que frequentemente discordavam de Hitler em questões militares, ele nunca se dispôs a condenar o Führer por questões morais. “Aparentemente, à medida que o tempo passava, Hitler perdia todos os seus escrúpulos morais”, Manstein disse a Goldensohn. “Mas isso é algo que só reconheci em retrospectiva, mas não tinha reconhecido à época.” É difícil imaginar uma declaração mais autoincriminadora, embora Manstein não a visse como tal.
O alto-comando militar não poderia alegar ignorância do Decreto Comissário ou de qualquer outra ordem militar que resultasse em atrocidades sistemáticas. Nas suas memórias, Von Manstein chamou aquela ordem de “absolutamente indigna de um soldado”. Uma vez que ela “colocava em risco não somente a honra das nossas tropas em luta, mas também o seu moral”, afirmou, ele não permitiria que seus subordinados a cumprissem. Heinz Guderian, o famoso líder dos Panzer, também afirmou que seus soldados nunca a implementaram – e é possível que a estatura militar desses comandantes lhes permitisse afirmá-lo.
Manstein deixou claro que suas objeções eram práticas, ainda que se pudesse ou não acreditar no seu argumento moral. “A ordem simplesmente induzia os comissários a usar os métodos mais brutais para forçar seus soldados a lutar até o fim.” Até o mais obediente dos generais reconheceu esse resultado provável quando a ordem foi emitida pela primeira vez. Na véspera da invasão, o comandante de exército, Von Brauchitsch, acrescentou uma linha às instruções sobre como tratar os comissários sugerindo que deviam ser executados “imperceptivelmente”. Não era a vergonha a razão daquele conselho; era o cálculo pragmático.
Muitas das primeiras tensões entre Hitler e seus generais foram disparadas por discordâncias semelhantes em torno de táticas e de objetivos, certamente não grandes princípios morais. Manstein se queixou mais tarde de que, desde o início, o exército tentara se apegar às suas “noções tradicionais de simplicidade e cavalheirismo e à sua noção da honra do soldado”, apesar da pressão constante para se ajustar à doutrina nazista. Dado o horrendo histórico subsequente do exército, certamente é um eufemismo dizer que essas queixas não soam verdadeiras. Até o fracassado plano de oficiais descontentes para assassinar Hitler em 1944 pouco fez para recuperar a reputação de uma liderança militar cujas ações a colocaram além da redenção.
Ainda assim, seria errado esquecer as discordâncias reais entre Hitler e seus generais, e o papel dessas discordâncias na Operação Barbarossa e no avanço para tomar Moscou. Hitler e seus generais eram parceiros no crime, mas parceiros que não se davam bem. Hitler tinha assumido o título de comandante supremo em 1938 e se considerava o supremo estrategista militar, que combinava uma compreensão das condições no campo de batalha – adquirida durante o conflito global anterior – com uma compreensão abrangente da história, economia e psicologia básica que lhe permitia ser mais inteligente que seus inimigos. Nenhum dos seus generais, ele sentia, sequer se aproximava do seu domínio de todos aqueles campos. Os generais, por sua vez, alternavam-se entre respeitosos e alarmados pelo seu comportamento, vendo-o por vezes como gênio, outras vezes como uma fraude perigosa, ainda que geralmente se mostrassem aterrorizados demais para admiti-lo, até para si mesmos.
A época em que o alto-comando mais se aproximou de enfrentar e, possivelmente, de derrubar Hitler, foi durante o período anterior à guerra, no verão de 1938, quando o líder alemão começou a ameaçar a Tchecoslováquia. O general Ludwig Beck, o chefe do Estado-Maior do exército naquela época, pediu a Hitler para enunciar os seus planos, buscando garantias de que ele não iria iniciar uma guerra. Apesar de admitir que a crise em torno da Tchecoslováquia poderia se transformar num conflito armado, Hitler afirmou que não levaria a uma guerra maior. Mas o Führer não se dispôs a oferecer nenhuma garantia que Beck desejava. “O exército é um instrumento de política”, disse ao general. “Quando chegar o momento, vou atribuir ao exército a sua missão e o exército terá de cumprir a sua tarefa, sem discutir se ela é certa ou errada.”
Em agosto de 1938, Beck foi afastado do posto de chefe do Estado-Maior. Apesar de estar convencido de que tinha apoio entre outros generais críticos de Hitler, ele se sentiu amargamente desapontado com o general Von Brauchisch, o comandante em chefe do exército, a quem acusou de desertá-lo. Depois da guerra, o general Halder, que tinha substituído Beck no cargo de chefe do Estado-Maior, e outros generais iriam afirmar que continuaram a considerar um complô contra Hitler em setembro, embora seus relatos fossem inconsistentes e parecessem suspeitosamente motivados por seus próprios interesses – uma tentativa óbvia de se distanciarem do líder caído. Mas toda disposição se evaporou quando o primeiro-ministro Britânico, Neville Chamberlain, e o premier francês, Edouard Daladier, aceitaram ir ao encontro de Hitler e concordaram com o desmembramento da Tchecoslováquia ao assinar o Pacto de Munique. Afirmando que vinha preparando um golpe de estado rápido, e até a possível execução de Hitler, Halder culpou os líderes ocidentais por puxarem o tapete sob os conspiradores. Sem a ameaça de guerra, argumentou Halder, “toda a base daquela ação foi afastada”.
Com toda probabilidade, Halder e vários outros enriqueceram suas versões dos acontecimentos, e de como estavam preparados para agir. O papel do general Beck como um dos primeiros oponentes da marcha de Hitler para a guerra foi muito mais convincente, e ele acabou suicidando-se na noite de 20 de julho de 1944, depois da tentativa fracassada de assassinar Hitler. Mas toda disposição dos generais de resistir a Hitler foi, na verdade, solapada pelos notáveis sucessos dele: primeiro, a anexação da Áustria, em março; depois a conquista dos seus objetivos na Tchecoslováquia, sem a necessidade de ir à guerra. Como recordaria mais tarde o marechal de campo Von Manstein:
observamos com atenção a Alemanha avançar precariamente sobre o fio da navalha e ficamos cada vez mais impressionados com a sorte incrível de Hitler para obter – até então sem o recurso às armas – todos os seus objetivos políticos ocultos e declarados. O homem parecia ter um instinto infalível.
Mesmo quando a invasão da Polônia levou à guerra maior que temiam os generais, eles não desafiaram Hitler seriamente. O líder alemão ignorou a agitação por causa da violação da neutralidade da Bélgica e do ataque à França, e mais uma vez o sucesso das suas ações ousadas fez os generais parecerem fracos em termos de liderança – apesar de serem as vitórias rápidas deles a fazerem Hitler parecer tão poderoso. O Führer não hesitou em expressar o seu desprezo pela “eterna hesitação dos generais”, insistindo na mensagem de ter sido ele, e não eles, quem teve a visão e a coragem de catapultar a Alemanha a novas alturas.
Os generais começaram a perceber por toda parte pequenos atos de desprezo. Depois da derrota da Polônia, Hitler compareceu a um desfile da vitória em Varsóvia, em 5 de outubro de 1939. Antes de voar de volta à Alemanha, ele fez uma escala para uma visita aos comandantes e soldados. O alto-comando o esperava num hangar, onde pretendiam servir uma sopa das cozinhas de campanha numa mesa adornada com uma toalha branca e flores. Mas quando chegou, o Führer apenas olhou aqueles preparativos e preferiu se juntar aos soldados na sua própria cozinha de campanha. Provou a sopa, conversou brevemente com eles, e então se dirigiu para o seu avião, ignorando os comandantes. É possível que Hitler estivesse tentando ganhar pontos de propaganda mostrando que se sentia à vontade com seus soldados comuns, mas o comando não teve dúvida de que foi um ato deliberado de descaso da parte dele.
Hitler também não hesitava em promover ou rebaixar oficiais quando considerava conveniente, e mesmo quando elevou uma dúzia de generais ao nível de marechais de campo, motivou especulações de que ele estava tentando desvalorizar o nível de maior prestígio dos militares. O líder alemão não deixou dúvida de que queria assegurar a obediência dos seus principais generais e estava disposto a fazer o que fosse necessário para atingir aquele objetivo. Em alguns casos, ele simplesmente os subornava, oferecendo pagamentos livres de impostos que não eram registrados nas contas do exército.
“Embora esse método de pagamento fosse um insulto, de acordo com o código de honra do oficial alemão, muitos sucumbiam por causa do medo de perder posições e da atração pelo dinheiro”, escreveu depois da guerra Fabian von Schlabrendorff, um dos poucos oficiais que sobreviveram à participação na conspiração contra Hitler em 1944. “Assim, Hitler mantinha os seus oficiais superiores presos a coleiras de ouro muito eficazes.” O general Gunther von Kluge, por exemplo, recebeu de Hitler um cartão pessoal de aniversário, que incluía um cheque de 250 mil marcos.
Mas, na maioria dos casos, os subornos não eram necessários. Hitler sempre superava seus generais, desprezando seus avisos quando lhe parecia conveniente e recusando sem dificuldade as suas estratégias e táticas. Mesmo os generais que vez por outra tentavam enfrentá-lo eram claramente intimidados pelas suas vitórias e pela pura força da sua personalidade. “Quando se considera Hitler no papel de líder militar, não se pode certamente desconsiderá-lo com clichês do tipo ‘o cabo da Primeira Guerra Mundial’”, escreveu o marechal de campo Von Manstein. E apesar de suas críticas a Hitler por sua “excessiva autoestima”, sua propensão a ignorar informações que contradiziam as suas teorias e o tratamento desdenhoso do alto-comando, Manstein acrescentou:
Hitler tinha uma memória extraordinariamente retentiva e uma imaginação que lhe permitia entender com rapidez todas as questões e problemas técnicos de armas. Sabia tudo sobre o efeito das armas mais recentes do inimigo e discorria sobre colunas inteiras de números relativos à produção de guerra, tanto a nossa quanto a do inimigo. Na verdade, essa era a sua maneira favorita de evitar qualquer tópico de que não gostasse.
O outro método usado com eficácia por Hitler era despejar teorias, ou meras cortinas de fumaça, para derrubar argumentos puramente militares. “Ele tinha o gênio de enfrentar os seus colaboradores militares com argumentos políticos e econômicos que eles não conseguiam refutar imediatamente, e de cujo valor, de qualquer forma, o estadista forçosamente tem de ser considerado o melhor juiz”, observou Manstein, com relutante admiração. Tudo isso significava apenas que Hitler sempre superava seus generais. Na maioria dos casos, ele nem era contestado.
Ainda assim, Hitler submetia seus generais a tiradas desmoralizantes. “Antes de me tornar chanceler, eu acreditava que o Estado-Maior era assim como um cachorro de açougueiro, que tem de ser bem preso na coleira para não atacar outras pessoas”, declarou em certa ocasião. “Mas depois de me tornar chanceler, percebi que o Estado-Maior é tudo menos um cão feroz.” Ele então relacionou as decisões a que os generais se opuseram: o rearmamento, a ocupação da Renânia, a anexação da Áustria, o desmembramento da Tchecoslováquia, a invasão da Polônia. “O Estado-Maior me aconselhou contra a ofensiva na França e contra a guerra na Rússia”, concluiu. “Em todas essas ocasiões, fui eu quem teve de cutucar esse ‘cão feroz’.”
É verdade que, quando Hitler decidiu abandonar os planos de invadir a Grã-Bretanha e atacar a União Soviética, alguns generais expressaram seu ceticismo com relação a esse curso de ação. O almirante Erich Raeder, comandante da marinha, argumentou que a abertura de uma segunda frente deveria ser adiada “até após a vitória sobre a Inglaterra”. O general Von Brauchitsch também expressou reservas. “O objetivo não está claro”, teria dito ele, segundo Halder. “Não vamos atingir os ingleses assim. Nosso potencial econômico não vai ser substancialmente aumentado. O risco no oeste não deve ser subestimado.” Até Hermann Göring, o associado mais próximo de Hitler, e comandante da força aérea, alegaria em Nuremberg que tinha visto o perigo do plano de Hitler de atacar a Rússia. “Hitler decidiu. Eu achava que era uma estupidez porque acreditava que primeiro teríamos de vencer a Inglaterra.”
Mais tarde o marechal de campo Von Manstein comentaria os erros de julgamento que levariam à derrota da Alemanha na frente oriental. “O primeiro foi o erro cometido por Hitler, e por mais ninguém, de subestimar os recursos da União Soviética e as qualidades de luta do Exército Vermelho.” Mas se Manstein era mais confiável que alguém como Göring, ele enfraquece a sua argumentação quando tenta colocar toda a culpa em Hitler. O líder alemão não estava só ao subestimar a União Soviética. Na véspera da Operação Barbarossa, grande parte do alto-comando, inclusive Brauchitsch, Halder e Jodl, tinha-se convencido, ou permitiu que Hitler o convencesse, de que a campanha seria vitoriosa numa questão de semanas, e repetia as previsões otimistas deste.
Os céticos não ficaram completamente mudos. Pouco antes da invasão, Hitler enviou especialistas para dar palestras sobre a economia soviética, e eles afirmaram que o país não seria capaz de produzir boas armas em ritmo suficiente para substituir as que perdesse. Depois de uma dessas palestras, o almirante Wilhelm Canaris, chefe da inteligência militar, voltou-se para os colegas:
os senhores realmente acreditam em toda a tolice que ouviram hoje? Pelas informações dos melhores especialistas do meu departamento, a situação é completamente diferente. Até hoje, ninguém conseguiu derrotar nem conquistar a Rússia.
Mas, na época, a simples verdade era que mesmo os generais que talvez compartilhassem essas dúvidas estavam intimidados demais para se manifestarem. E a maioria chegou à conclusão de que, independentemente das suas reservas, seu líder já tinha demonstrado estar correto antes, e que estaria certo mais uma vez. Antes de ser enforcado em Nuremberg, em 1946, outro importante comandante, o marechal de campo Wilhelm Keitel, atribuiu a sua disposição de acreditar no Führer em parte à ignorância, em parte à fé cega. “Eu acreditava em Hitler e sabia pouco a respeito dos fatos. Não sou um tático, e não conhecia a força militar e econômica dos russos. Como poderia?”
Independentemente dos reais sentimentos do alto-comando em relação à invasão da União Soviética, ele logo começou a questionar a capacidade militar de Hitler quando a invasão teve início. Uma coisa era obedecer ao líder nas questões mais importantes da guerra e paz; outra muito diferente era continuar calado enquanto ele vacilava sobre como tirar vantagem dos sucessos iniciais sobre os alemães; ou quando ele ordenava que suas tropas lutassem onde elas pareciam dispersar, em vez de concentrar sua energia e força.
Enquanto a máquina de propaganda alemã trombeteava os sucessos das suas forças nas primeiras semanas da Operação Barbarossa, os comandantes no campo sabiam que estavam pagando um preço mais alto que o esperado em termos de baixas – e que, em muitas áreas, o avanço alemão não era tão rápido quanto tinham esperado. As forças do Grupo de Exércitos Norte ainda estavam longe de tomar Leningrado, e só em setembro eles chegariam suficientemente próximo da cidade para iniciar o infame cerco de 900 dias. Chuvas pesadas atrasavam o avanço das unidades do Grupo de Exércitos Sul, oferecendo uma previsão perturbadora das precipitações muito mais pesadas do fim do verão e início do outono, que atolariam exércitos inteiros. Como os alemães logo começaram a entender, estradas mostradas nos seus mapas não passavam geralmente de áreas lamacentas que, na prática, desapareciam quando o tempo se recusava a cooperar.
Mas havia boas notícias para os alemães no terreno que, pelo menos em teoria, levava diretamente a Moscou. Apesar dos seus colegas soviéticos se esforçarem para lançar mais soldados contra ele, Fedor von Bock, o comandante do Grupo de Exércitos Centro, estava feliz por ter chegado até Smolensk – e não tinha dúvida quanto ao que faria em seguida. “O inimigo só está realmente batido num único lugar na frente oriental – diante do Grupo de Exércitos Centro”, escreveu no seu diário no dia 13 de julho.
Se os grupos blindados agora correrem separados para o sul, leste e norte estaremos renunciando à exploração do nosso sucesso. […] O importante agora é esmagar completamente o inimigo e tornar impossível para ele fixar outra frente diante de Moscou. Para tanto é necessário concentrar todas as forças blindadas e com elas avançar rapidamente para leste até que eu possa relatar que o inimigo não oferece mais resistência diante de Moscou!
Mas Hitler não estava pronto para tomar essa decisão. O líder alemão, que tinha conquistado tantos dos seus objetivos anteriores adotando ações dramáticas que exigiam inacreditável autoconfiança, hesitou durante cerca de três semanas antes de responder aos apelos dos seus generais. E quando respondeu, foi por meio de ordens que iam não só diretamente contra as recomendações de Bock, mas também as de Halder, Brauchitsch e outros comandantes. Então, Hitler decidiu repentinamente que suas forças deviam agora se concentrar no avanço para Leningrado, no norte, e na ofensiva no sul, cortando a Ucrânia até o Cáucaso. A Diretiva 34, de 30 de julho, declarava especificamente: “o Grupo de Exércitos Centro deverá passar à defensiva, aproveitando-se do terreno adequado”.
Bock tinha recebido as notícias dois dias antes, quando o ajudante de Hitler, Rudolf Schmundt chegou para informá-lo dos novos planos do chefe. Um Bock claramente irritado resumiu em seu diário o teor da mensagem: “o principal é eliminar a área de Leningrado, depois a região de matérias-primas da Bacia do Donets [na Ucrânia]. O Führer não está nem um pouco interessado em Moscou”. Pouco mais de duas semanas depois, Bock descarregou novamente sua frustração no seu diário.
Todas as diretivas dizem que não é importante tomar Moscou! Eu quero esmagar o exército inimigo, e o grosso desse exército está bem à minha frente! Ir para o sul é uma operação secundária – ainda que igualmente grande – que vai colocar em risco a execução da operação principal, a saber, a destruição das forças armadas russas antes do inverno.
Outra diretiva do quartel general de Hitler no dia 12 de agosto contradizia, pelo menos formalmente, a afirmativa de Bock. Declarava que o objetivo das operações alemãs era ainda “privar o inimigo, antes da chegada do inverno, do seu governo, armamentos e do tráfego no entorno de Moscou, e assim evitar a reconstrução das suas forças derrotadas e a operação ordeira do controle governamental”. Mas se isso realmente resumia o pensamento dos generais que estavam convencidos de que a única maneira de garantir o sucesso da Operação Barbarossa era a tomada de Moscou, a provisão mais importante da diretiva era ordenar um atraso na busca daquele objetivo. “Antes do início desse ataque a Moscou, a operação contra Leningrado deve estar concluída.”
Como comandante do exército, Brauchitsch apresentou sua opinião contrária em 18 de agosto, quando insistiu na retomada do avanço para leste na direção da capital soviética. Hitler respondeu que o plano do exército “não está de acordo com as minhas intenções”. Em seguida, ele relacionou as suas prioridades:
o objetivo mais importante a ser conquistado antes da chegada do inverno não é a captura de Moscou, mas a tomada da Crimeia e a região industrial e carbonífera do Donets, e cortar o fornecimento de petróleo russo da área do Cáucaso. No norte, o objetivo e isolar Leningrado e fazer a união com os finlandeses.
Num choque como esse, Hitler não iria ceder depois que sua decisão estivesse tomada. Nessa mesma época, o general Von Manstein testemunhou o confronto entre Hitler e Halder, o chefe do Estado-Maior do exército. De acordo com Manstein, Hitler questionou “nos termos mais grosseiros o direito de Halder de discordar dele, declarando que como infante na linha de frente na Primeira Guerra Mundial ele era um juiz infinitamente melhor dessa questão que Halder, que nunca estivera naquela posição”. Manstein ficou tão perturbado com essa cena “pouco digna” que saiu da sala e só voltou depois que um Hitler mais calmo lhe pediu para voltar.
Apesar da sua admiração pela compreensão de Hitler de uma ampla gama de assuntos, inclusive tecnologia militar, Manstein concluiu que o líder alemão era muito deficiente sobretudo na área em que se comparava de modo favorável a Halder. “O que lhe faltava, em termos gerais, era simplesmente a ‘capacidade militar baseada na experiência’ – que não poderia ser substituída pela sua ‘intuição’”, escreveu Manstein.
Mas não era apenas o fato de Hitler carecer da experiência militar mais ampla dos seus generais. Nas primeiras semanas e meses da Operação Barbarossa, ele sempre mudava de opinião com relação aos objetivos estratégicos mais importantes – particularmente a hora do grande avanço para tomar Moscou. Em 6 de setembro, ele ordenou ao Grupo de Exércitos do Centro que se concentrasse na “destruição das forças inimigas localizadas na área a leste de Smolensk por um movimento de pinças na direção de Vyazma” – a próxima cidade mais importante e entroncamento ferroviário no caminho de Moscou. E em 16 de setembro, Hitler lançou a diretiva que seria a base de lançamento da Operação Tufão, que deveria ser o clímax do avanço contra Moscou, no dia 30 de setembro.
Era a decisão que seus generais esperavam, mas chegou bem mais tarde do que eles gostariam, com várias semanas críticas se perdendo no processo. Ela deixou-os diante de uma tarefa muito mais difícil do que teriam enfrentado se Hitler não tivesse rejeitado seus planos de avanço rápido. E deixou nos comandantes de campo uma sensação crescente de frustração com relação às ordens aparentemente contraditórias – e, em certos casos, dúvidas crescentes com relação ao homem que dava essas ordens.
Durante os anos 1920, quando o exército alemão foi severamente limitado pelo Tratado de Versalhes, um jovem oficial prussiano de nome Heinz Guderian se dedicou obstinadamente à proposição de que o país precisava desenvolver um componente blindado para suas forças armadas – as divisões ou brigadas Panzer, equipadas com tanques e outros veículos blindados. Quando Hitler assumiu o poder em 1933, ele teve condições de montar uma demonstração para o novo líder, inclusive motocicletas, tanques experimentais e veículos blindados de reconhecimento, operando todos em conjunto. Hitler ficou visivelmente impressionado. “É disso que eu preciso! É o que eu quero.”
Guderian ficou encantado com o entusiasmo do Führer. Muitos dos seus oficiais superiores que cresceram na infantaria ou na cavalaria eram céticos com a noção de que veículos motorizados teriam um papel crucial nos conflitos do futuro. Ademais, o Tratado de Versalhes proibia explicitamente à Alemanha adquirir ou construir veículos blindados ou tanques. Mas, na opinião de Guderian, isso só provava que “nossos inimigos consideravam o tanque uma arma decisiva”, e a Alemanha tinha de se equipar com essas armas o mais cedo possível. Para provar a sua tese, ele fez trazer cópias de tanques para participar de manobras do exército, já que ainda não podia usar tanques de verdade. “Aquelas pobres maquetes pareceram aos velhos soldados da Primeira Guerra Mundial uma coisa tão ridícula que eles tendiam a sentir pena de nós e a não nos levar a sério.”
Com Hitler no poder, tudo isso mudou. A Alemanha começou rapidamente a se rearmar, e novas unidades blindadas se tornaram uma parte essencial das novas forças armadas. No outono de 1935, Guderian assumiu o comando da 2ª Divisão Panzer – uma das três novas divisões daquele tipo. Já não era um planejador, mas um comandante operacional de uma unidade que ele tinha se empenhado tanto em criar.
Quando a Alemanha atacou a Polônia em setembro de 1939, os tanques de Guderian desempenharam um papel crucial naquela primeira vitória. Eles avançaram rapidamente até Brest, a cidade com uma fortaleza bem na fronteira soviética, a leste do rio Bug. Depois que as tropas soviéticas invadiram a Polônia do leste, as de Guderian receberam ordens de transferir a cidade para os russos, pois o rio Bug tornou-se a linha demarcatória da divisão germano-soviética da Polônia derrotada. Guderian não gostou de entregar o território que tinha conquistado numa batalha difícil com os poloneses, menos armados, mas corajosos. “Parece muito pouco provável que houvesse algum soldado presente quando o acordo sobre a linha de demarcação e o cessar-fogo foi finalizado”, notou ele com elegância nas suas memórias.
Apesar de manter esses pensamentos para si mesmo, Guderian logo se veria abertamente em conflito com seus superiores – até Hitler – no momento do seu maior triunfo. Durante a invasão da França, os Panzers de Guderian praticamente disputaram uma corrida pelo país até a costa, surpreendendo as forças francesas em colapso. O general francês Maurice Gamelin deu uma ordem, que foi interceptada pelos alemães: “a torrente de tanques alemães deve finalmente ser obrigada a parar!”. Mas não foram os franceses que interromperam o avanço de Guderian e dos outros comandantes de tanques; foi Hitler. De repente eles receberam ordens de parar diante de Dunquerque, o porto por onde as forças britânicas e francesas fugiam e esperavam evacuação. A Luftwaffe recebeu a tarefa de bombardear o porto, enquanto os tanques ficavam na retaguarda. “Ficamos absolutamente sem fala”, lembrou Guderian. “Fomos obrigados a parar tendo Dunquerque bem à nossa vista!”
Alguns dias antes, Guderian tinha ameaçado renunciar quando recebeu ordens de diminuir a velocidade do seu avanço. Ele então começou a entender que, exatamente quando o apoio de Hitler para uma estratégia agressiva para os Panzer começava a dar resultado, o líder alemão “era agora aquele que se assustava com sua própria temeridade”, receando que o avanço alemão se estendesse demais por causa da velocidade das unidades Panzer. Mas se essa questão foi logo resolvida, permitindo que Guderian continuasse o seu avanço, Dunquerque era outra história. As unidades de tanques de Guderian e dos outros comandantes não tiveram permissão para atacar o porto, oferecendo a Londres tempo suficiente para orquestrar a espetacular evacuação de 330 mil soldados britânicos e franceses, que poderiam então voltar a lutar. Tal como Guderian a via, essa poderia ter sido a chance de dar um golpe capaz de alterar o curso da guerra. “Infelizmente, a oportunidade foi perdida devido ao nervosismo de Hitler”, queixou-se.
Se estava convencido de que Hitler não tinha sido suficientemente ousado nos dias finais da campanha francesa, logo ele passaria a temer o contrário, quando se espalhou a notícia da invasão da União Soviética. Guderian acreditava que essa seria uma tarefa muito mais difícil do que derrotar a Polônia e a França. Mas a velocidade dos primeiros sucessos, observou ele, “tinha confundido tanto as mentes dos nossos comandantes supremos que eles eliminaram a palavra ‘impossível’ do seu vocabulário”.
Tal como alguns dos outros generais depois da guerra, Guderian talvez tenha exagerado suas dúvidas com relação à invasão da União Soviética. Mas ele certamente estava sobre terreno firme para manifestá-la à época. Com seu conhecimento íntimo da produção de tanques na Alemanha, ele sabia que a oferta de novos veículos estava muito abaixo do que ele considerava necessário, especialmente no caso de uma guerra prolongada contra a União Soviética.
Um encontro com seus colegas russos às vésperas daquele conflito fez Guderian pensar. Na primavera de 1941, uma delegação militar soviética chegou para examinar as escolas e fábricas de tanques alemães. Como ainda fingia observar o pacto nazissoviético e queria manter secretos os seus planos de invasão, Hitler autorizou especificamente a visita e ordenou que os visitantes vissem tudo para não despertar suspeita. Quando os alemães mostraram aos russos o Panzer IV, os russos protestaram que aquele não podia ser o tanque mais novo e mais pesado, como afirmavam os anfitriões. Na verdade, era o melhor tanque dos alemães à época, e Guderian e outros especialistas alemães concluíram com relutância que os russos talvez tivessem algo melhor nas suas próprias linhas de produção. Pouco depois, Guderian teria a oportunidade de confirmá-lo.
Como parte do Grupo de Exércitos do Centro do marechal de campo Von Bock, a Divisão Panzer de Guderian entrou em ação desde o primeiro dia da invasão, cruzando o rio Bug e atacando as tropas soviéticas de surpresa. Mas, dois dias depois, o famoso general escapou por pouco, quase perdendo a vida. Enquanto conferenciava com vários altos oficiais sobre os movimentos seguintes, dois tanques soviéticos surgiram de repente, sem serem vistos, de trás de um caminhão incendiado. Ao verem os oficiais inimigos, os tanques russos abriram fogo a curta distância, cegando e ensurdecendo os alemães por um momento. Guderian e dois outros generais se lançaram imediatamente ao chão e sobreviveram; um coronel menos experiente hesitou e foi morto. Num momento em que os alemães pareciam estar a caminho de uma rápida vitória, esse evento mostrou que seus adversários ainda poderiam ser muito perigosos.
Guderian e seus tanques continuaram a avançar para leste, participando das primeiras vitórias que culminaram nas batalhas em torno de Smolensk, em meados de julho. Quando voou ao quartel general do seu grupo de exércitos, em 27 de julho, esperava instruções para continuar avançando para leste para preparar o ataque contra Moscou. Em vez disso, ele ficou atônito ao saber que Hitler tinha ordenado que a sua unidade se juntasse à luta em volta de Gomel, uma cidade localizada a sudoeste de Smolensk – “ou seja, na direção da Alemanha”, como Guderian notou com raiva. Em outras palavras, ele recebera ordens para se afastar de Moscou.
De muitas formas, aquilo parecia um erro ainda mais grave que a decisão de fazer parar as próprias forças na França antes que pudessem atingir Dunquerque. Tal como muitos dos seus superiores, ele estava convencido de “que essas manobras da nossa parte simplesmente davam aos russos tempo para organizar novas formações e usar sua inesgotável força humana para a criação de novas linhas defensivas na retaguarda”, solapando as chances de se conseguir uma rápida vitória. E, tal como Bock, Guderian teve a chance de se encontrar com o auxiliar de Hitler, Rudolf Schmundt, a quem pediu para transmitir ao Führer a mensagem de que ele devia reconsiderar a sua decisão em favor de “um avanço direto para capturar Moscou, o coração da Rússia”.
No início de agosto, as forças de Guderian se envolveram numa batalha ao sul de Smolensk, conseguindo mais uma vitória, dessa vez em Roslavl. Mas seu comandante ainda estava determinado a argumentar contra continuarem mais para o sul e oeste, na direção de Gomel. Seus soldados estavam convencidos de que logo tomariam a direção da capital soviética, e ele via “com o coração pesado” eles colocarem placas que diziam “para Moscou”. Bock escreveu no seu diário: “Guderian está mordendo o freio!”
No fim de agosto, o marechal de campo concordou em enviar Guderian com o general Halder à Toca do Lobo, o quartel-general militar de Hitler na Prússia Oriental, para uma última tentativa de convencer o líder alemão a mudar de ideia com relação a fazer da capital da Ucrânia, Kiev, o próximo alvo militar prioritário, em vez de Moscou. Mas quando Guderian chegou, o marechal de campo Von Brauchitsch, o comandante em chefe do exército lhe deu um aviso rude: “eu proíbo que você mencione a questão de Moscou para o Führer”, declarou. “A operação no sul já foi ordenada. O problema agora é simplesmente definir como será executada. A discussão não tem sentido.”
Guderian não era homem de obedecer docilmente. Vendo-se com Hitler numa sala já lotada com oficiais, ele esperou uma oportunidade de defender a sua proposta – e ela chegou rapidamente. Quando Hitler perguntou se suas tropas estavam prontas para “mais um grande esforço”, ele respondeu: “se as tropas receberem um objetivo significativo, cuja importância seja evidente para qualquer soldado, sim”.
“Você quer dizer, é claro, Moscou?”, perguntou Hitler.
Guderian respondeu “sim” e pediu uma oportunidade para explicar suas razões. Quando Hitler concordou, ele expôs todos os argumentos por que Moscou devia ser o alvo: seu papel como importante centro de comunicação e transporte que, uma vez capturado, tornaria difícil para os soviéticos mover homens e suprimentos pelo país; seu papel como importante centro industrial; e seu papel inegável como o centro político do país. Uma vitória em Moscou levantaria o moral dos soldados alemães e devastaria moralmente os russos, acrescentou, e tornaria muito mais fácil conquistar vitórias em outros locais, inclusive na Ucrânia. Teria também um enorme impacto psicológico no resto do mundo. Mas se essa vitória não fosse conquistada logo e as tropas alemãs fossem desviadas para outros locais, “seria então tarde demais para lançar o golpe final por Moscou neste ano”, pois a chegada do outono e inverno tornaria a tarefa cada vez mais difícil.
Hitler ouviu Guderian sem interrompê-lo. Mas em seguida, ele lançou uma das suas teorias sobre por que as riquezas agrícolas e matérias-primas da Ucrânia precisavam ser tomadas primeiro, fornecendo aos alemães suprimentos vitais. “Meus generais não sabem nada sobre os aspectos econômicos da guerra”, queixou-se. Enquanto ele deixava claro que o próximo alvo deveria ser Kiev, e não Moscou, Guderian ficou atônito ao ver todos os outros na sala balançando a cabeça em concordância. No fim da sessão, ele se sentiu completamente só, sem apoio nem mesmo daqueles que haviam concordado antes com seus argumentos.
Por isso Guderian se viu lutando na batalha por Kiev durante a primeira metade de setembro, em vez de se aproximar de Moscou. Usando movimentos em pinça que já tinham usado em Minsk e Bialystok, as forças alemãs cercaram as forças soviéticas, lhes infligiram pesadas baixas e fizeram centenas de milhares de prisioneiros. À parte o combate feroz, os soldados tiveram de enfrentar os efeitos da chuva pesada. Escreveu Guderian:
só um homem que já tenha experimentado pessoalmente como é a vida nesses canais de lama que chamávamos de estrada terá uma ideia do que os soldados e seus equipamentos tiveram de enfrentar, e será capaz de julgar a situação no front e o consequente efeito sobre as nossas operações.
O comandante dos Panzer admitiu que a dura batalha representou uma grande vitória tática para o seu lado. “Mas ainda era questionável se uma grande vantagem estratégica poderia ser conseguida desse sucesso tático”, acrescentou. “Tudo dependia disso: antes do início do inverno e do surgimento da lama do outono, o exército alemão seria capaz de alcançar resultados definitivos”? Em outras palavras, o seu aviso para Hitler se revelaria preciso e o restante da janela de oportunidade seria muito curto?
Em consequência da vitória em Kiev, Hitler finalmente deu as ordens para a Operação Tufão. Como primeiro passo, os Panzers de Guderian receberam a incumbência de avançar para o norte na direção de Moscou, tomando Orel e Bryansk. Como sempre, o líder dos Panzers esteve à altura da ocasião. Quando seus tanques entraram em Orel no dia 3 de outubro, as autoridades locais foram pegas completamente de surpresa – tanto que os bondes trafegavam como se fosse um dia normal.
Vasily Grossman, o famoso correspondente de guerra para o jornal Krasnaya Zvezda, do Exército Vermelho, lembrou o seu diálogo mordaz com seu editor quando voltou a Moscou depois de cobrir o avanço alemão vindo do sul. “Por que você não escreveu nada sobre a heroica defesa de Orel?”, perguntou o editor. Grossman respondeu: “porque não houve defesa”.
Mas três dias depois de terem tomado Orel, os alemães receberam sua própria surpresa desagradável. Atacados por tanques T-34 russos, eles sofreram pesadas baixas. “Foi a primeira ocasião em que a vasta superioridade do T-34 russo sobre os nossos tanques se tornou clara”, admitiu Guderian. Para ser eficaz contra eles, o motorista de um Panzer IV alemão tinha de manobrar para se colocar atrás do T-34 e atirar com grande precisão na grade acima do motor para colocá-lo fora de serviço. De outros ângulos, os alemães só conseguiam danificar os tanques, mas não imobilizá-los.
Outra descoberta desagradável para Guderian foi que a enorme operação e o combate contínuo estavam cobrando um preço muito alto, não somente em termos de quantidade de baixas e soldados exaustos, mas também em termos de tensão das linhas de suprimento. Pela primeira vez, as unidades Panzer tiveram de enfrentar a falta ocasional de combustível. Porém, mais perturbador, na opinião de Guderian, era a ameaça de mudança de tempo e da falta de roupas quentes para seus soldados. Requisitava repetidamente roupas de inverno e recebia a resposta de que suas tropas as receberiam “no devido tempo”, e que ele devia parar de fazer aquelas requisições “desnecessárias”. O mesmo acontecia com as solicitações de anticongelante para os motores dos veículos. “Havia tão pouco anticongelante quanto roupas de inverno para os soldados”, escreveu causticamente. “A falta de roupas quentes, nos meses difíceis à nossa frente, iria causar os maiores problemas e o maior sofrimento para os nossos soldados – e teria sido a nossa dificuldade mais facilmente evitável.”
Tal como Stalin, Hitler assegurava que seus oficiais e homens pagariam um preço mais alto, tanto pelas vitórias como pelas derrotas, do que o provocado pelas ações do inimigo. Como Stalin, ele foi responsável por um número crescente de ferimentos autoinfligidos. Por isso, as forças alemãs que finalmente avançavam sobre Moscou, apesar de ainda vitoriosas e formidáveis, não eram mais o “rolo compressor” que tinham sido nas primeiras semanas da Operação Tufão. Tinham sido castigadas em mais de uma ocasião e começavam a se tornar evidentes as tensões de chegar tão longe, com tamanha velocidade – inclusive as mudanças repentinas de curso e de alvos, como no caso de Guderian. Estavam prestes a enfrentar seu teste mais difícil até então, mas com uma sensação crescente de incerteza quanto a estarem ou não à altura.
As setas do avanço alemão apontavam agora claramente na direção de Moscou.