A Batalha de Moscou
“Veja como somos espertos agora”
Diferentemente de muitos dos seus colegas que comandavam outras unidades militares da União Soviética na fronteira ocidental, o general Georgy Mikushev não se deixou ficar à toa enquanto a máquina militar alemã se preparava para o ataque. Sua 41ª Divisão de Infantaria, que consistia em 15 mil homens, estava colocada a cerca de 10 km da fronteira ocidental da Ucrânia, tendo à frente do outro lado 70 mil soldados alemães. Os alemães tinham também 400 peças de artilharia e morteiros prontos para o ataque, o dobro do número do regimento de Mikushev. O general soviético talvez não soubesse o número exato de soldados e armas inimigos que teria de enfrentar, mas não se impressionou com a insistência desesperada do Kremlin de que não havia nada errado na relação germano-soviética, e estava determinado a se preparar para o pior – mesmo que isso significasse desafiar seus superiores.
No dia 17 de junho, Mikushev começou discretamente a convocar as suas unidades despachadas para exercícios ou outras atividades. No acampamento básico, as tropas receberam ordens de se certificarem de que estavam armadas e prontas: os homens da artilharia prepararam seus projéteis, os metralhadores reuniram sua munição e os franco-atiradores encheram de balas as suas sacolas. Na noite de sábado, 21 de junho, Mikushev reuniu seus oficiais superiores, que lhe asseguraram que os homens estavam alertas. Relataram também a raiva provocada nas fileiras pelos voos frequentes de aviões alemães e pela falta de retaliação contra eles.
Mikushev ouviu, e então escolheu cuidadosamente as suas palavras.
Como o regimento está próximo da fronteira e temos missões específicas, temos de estar prontos para todo tipo de desenvolvimento. Da minha experiência na Primeira Guerra Mundial, sei o quanto o exército alemão é habilidoso. E, é claro, os fascistas são ainda mais habilidosos.
Ao encerrar sua fala, Mikushev ordenou aos seus oficiais que ficassem com suas unidades, ausentando-se o mínimo possível. E enfatizou que eles tinham de estar prontos para lutar com antecedência mínima. Para manter o estado de prontidão, os oficiais teriam de passar as ordens para todos os níveis. Para desviar a atenção do motivo real daqueles preparativos, Mikushev pediu aos seus oficiais que explicassem aos subordinados que o regimento esperava uma visita do alto-comando, e todos tinham de se apresentar em condições de prontidão para a batalha.
Passava pouco das três horas da madrugada de 22 de junho quando começou o ataque alemão. Enquanto outros regimentos foram pegos completamente de surpresa e então destroçados quase de imediato, as tropas de Mikushev entraram rapidamente em ação, atirando nos atacantes, reduzindo a velocidade do seu avanço. Mas isso estava em contradição direta com uma ordem enviada do Kremlin menos de uma hora antes, instruindo as unidades de fronteira a adotarem um estado de “completa prontidão para o combate”, mas avisando-as ao mesmo tempo “para não responderem a nenhuma ação provocadora que pudesse resultar em complicações graves”.
Apesar de muitas unidades – inclusive a de Mikushev – não terem recebido essa ordem antes do início do ataque alemão, seu superior imediato, o tenente-general Ivan Muzichenko ficou furioso quando recebeu um relatório de informantes na 41ª Divisão que Mikushev tinha autorizado suas tropas a abrirem fogo. Por volta das sete horas da manhã, no calor da batalha, chegou um jovem oficial com instruções do alto-comando para prender Mikushev por ter dado ordens de atirar, sem a permissão dos seus superiores – em outras palavras, por insubordinação. Mikushev manteve a calma e disse aos seus oficiais: “acredito que esta situação não vá durar muito. Presumivelmente, a ordem já foi rescindida”. Até mesmo os agentes da NKVD na unidade, que deveriam prendê-lo, pareciam desconcertados pela situação. Deviam prender seu comandante que tomou providências para prepará-los para o assalto alemão que agora acontecia a toda força. Mikushev lhes disse que podiam prendê-lo e seus homens continuariam a lutar.
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Como Stalin tinha se recusado a acreditar em todos os avisos de
que os alemães se preparavam para atacar, os invasores puderam avançar para leste em alta velocidade. Esquerda: tanque alemão de
reconhecimento passa por um sinal rodoviário indicando que Moscou
está a apenas 100 km de distância. Abaixo: civis russos fogem do
exército invasor.
Mas não foi uma conversa irritada. Mikushev tinha boas relações com o oficial sênior da NKVD no seu regimento, e nenhum dos dois queria que o outro se prejudicasse – e os dois homens reconheciam a gravidade da situação. Formalmente, Mikushev concordou com a prisão e se retirou para uma trincheira, onde seria oficialmente detido. Mas durante as três horas seguintes, seus dois principais oficiais continuaram a visitá-lo, recebendo suas ordens e enviando-as para as tropas, de forma que nada viesse diretamente dele. Assim foi possível manter o simulacro da sua prisão e destituição do seu comando.
Às dez horas da manhã, quando se intensificou a ofensiva alemã, o oficial da NKVD e um ajudante de ordens foram à trincheira. Depois de uma breve conversa com o prisioneiro, Mikushev emergiu vestindo macacão azul e capacete, levando uma arma automática. Muito calmo e em comando, ele assumiu uma posição num bosque de pinheiros próximo ao acampamento e começou novamente a dar ordens diretamente aos seus soldados. Vendo a sua atitude confiante, eles continuaram a lutar, saindo-se bem diante do maior número e do poder de fogo do invasor alemão. Na verdade, eles chegaram mesmo a atravessar a fronteira e entrar alguns quilômetros na Polônia ocupada pela Alemanha até serem rechaçados.
A história de Mikushev foi atípica por várias razões. Dada a sua previdência e iniciativa, suas tropas ofereceram uma resistência mais eficaz do que a da maioria dos seus compatriotas em outros locais, que também suportaram o ímpeto do ataque inicial alemão. Como o oficial da NKVD na sua unidade era um homem razoável, ele simulou uma prisão sem as consequências normais, e depois abandonou a simulação de que Mikushev estava preso. E como as defesas soviéticas estavam se desmanchando tão rapidamente e a liderança no Kremlin não tinha a mais pálida ideia do que fazer, Mikushev realizou o feito, virtualmente impossível, de agir independentemente dos seus senhores stalinistas sem por isso ser punido.
Na verdade, como suas tropas continuaram a lutar durante todo aquele verão, ele quase foi preso novamente quando conseguiu fugir com seus homens de um cerco alemão, ignorando ordens de não bater em retirada em nenhuma circunstância. Mas sua coragem e capacidade evidentes também foram vitoriosas naquele dia. Contudo, no dia 9 de setembro, sua sorte falhou. Uma metralhadora alemã o derrubou durante uma batalha pelo controle de uma ponte. De acordo com Nikolai Romanichev, coronel da reserva do Exército Vermelho e historiador militar, “homens como Mikushev lutaram até a última gota de sangue”. Mas o que foi notável com relação ao heroísmo de Mikushev foi ele ser tanto o produto do seu desafio à cegueira deliberada de Stalin, quanto da sua coragem diante dos alemães.
Muito mais típicas tornaram-se as histórias das tropas alemãs que foram agradavelmente surpreendidas pela velocidade das primeiras vitórias e pela confusão e desordem dos defensores soviéticos. Hans von Herwarth, que havia servido na embaixada alemã em Moscou durante a década de 1930, viu-se de volta ao território soviético, dessa vez como participante do exército de pretendentes a conquistadores. Antes da alvorada do dia 22 de junho, a artilharia do seu regimento disparou por 45 minutos contra as posições do Exército Vermelho, com poder de fogo “que fazia uma impressão terrível” contra o céu escuro. “Durante várias horas, os soviéticos não responderam”, lembrou ele. “Nós os tínhamos pego despreparados e, como nos disseram mais tarde muitos russos, eles não estavam nem mesmo vestidos para o dia.” Esse despreparo foi mais a regra que a exceção. Quando as tropas alemãs dispararam contra a cidade ucraniana de Lvov, o comandante soviético local também não respondeu. Depois de ser feito prisioneiro, ele disse aos seus captores que estava convencido de que a artilharia alemã disparava por engano contra as suas posições, e que tinha ordens expressas do Kremlin para evitar uma resposta excessiva a qualquer “provocação”.
Quando cruzaram o rio Bug para entrar em território soviético, o regimento de Herwarth encontrou forte resistência dos soldados de fronteira da NKVD, alguns dos quais escondidos na copa das árvores, atirando para baixo contra os invasores. Mas depois de vencer esses defensores, os alemães descobriram que a parte seguinte do avanço seria muito mais fácil. “O espírito de luta da infantaria soviética não poderia ter sido mais baixo”, escreveu Herwarth. “Se ofereciam uma resistência dura, era apenas por ser mais difícil desertar naquele momento em particular, em virtude, por exemplo, da estabilização temporária da linha de frente.” Depois que os alemães romperam a linha soviética, “o Exército Vermelho abandonou toda resistência, livrando-se das suas armas e esperando serem feitos prisioneiros”. Patrulhas de cavalaria do seu regimento saíam para reunir as vítimas, aparentemente dispostas a se entregarem. “Os prisioneiros seguiam sem resistência, em geral caminhando em longas fileiras atrás de um único soldado alemão”, acrescentou.
Das histórias de soldados do Exército Vermelho que sobreviveram ao assalto alemão, é fácil entender por que muitos dos seus companheiros sentiam que estariam melhor presos. Vyacheslav Dolgov, que tinha acabado de se formar numa academia militar em 21 de junho de 1941, foi enviado para servir como oficial político no 375º Regimento em Staraya Russa, na região de Novgorod, na frente noroeste. Hoje um general da reserva residente em Moscou, Dolgov se descreve como um crente naqueles dias: “eu realmente acreditava no punho de ferro e no gênio de Stalin”. Mas também se lembra do medo que todos na sua unidade sentiram de enfrentar os alemães, particularmente por estarem muito mal equipados.
Pedimos ao nosso comandante para nos dar armas, pois éramos enviados para lutar desarmados. Diziam-nos para tomar as armas do inimigo e derrotá-los com elas. Às vezes conseguíamos tomar as armas dos alemães, mas essa era a razão de tantas baixas. Eu via campos cobertos de cadáveres.
Dolgov e o comandante do regimento animavam os soldados com gritos de “hurrah! Pela pátria-mãe! Por Stalin!”. E tinham de avançar até que alguém resolvesse segui-los.
Dolgov também se lembrava da visão dos “covardes” que se rendiam aos milhares. Uma vez, ele viu um grupo de homens andando entre duas aldeias acenando roupas brancas. “Eram soldados russos desesperados que tinham despido a roupa branca de baixo e a acenavam para se render.” Outros soldados fugiam para a floresta, escondiam-se lá e sobreviviam comendo frutas, recolhendo água de pântano e fervendo-a no capacete. Durante as batalhas em torno de Staraya Russa, Dolgov foi ferido pela primeira de muitas vezes naquela guerra. Dos dois mil a três mil homens do seu regimento, somente 75 sobreviveram.
Enquanto seus camaradas morriam à sua volta, Dolgov também via caças alemães derrubando os poucos aviões da Força Aérea Soviética que tinham decolado para enfrentá-los. “Eu sentia pena dos nossos pilotos. Os alemães sempre acertavam os nossos aviões, e me lembro de ver um dos nossos pilotos saltar de paraquedas do seu avião em chamas, atingido por um piloto alemão.” Os pilotos alemães também jogavam folhetos de propaganda afirmando que toda a frente soviética estava caindo, inclusive Moscou. “Moscou se rendeu”, afirmavam. “Toda resistência agora é inútil. Rendam-se agora aos alemães vitoriosos.” Apesar da velocidade do avanço alemão nos primeiros dias, aquilo podia não ser verdade naquele momento, mas os folhetos convenceram muitos soldados assustados de que já faziam parte de um exército derrotado.
Não chega a surpreender que eles se sentissem assim. O ataque alemão foi devastador para a Força Aérea Soviética, cujos aviões continuavam estacionados em formação nas bases aéreas dos distritos ocidentais, oferecendo alvos ideais aos pilotos da Luftwaffe. No primeiro dia do assalto, os alemães destruíram quase todos os aviões do distrito militar do Báltico antes de decolarem, e ao longo de todas as regiões de fronteira, a contagem chegou a aproximadamente 1.200 aviões soviéticos. Ao mesmo tempo, os aviões alemães voavam livres pelos céus, atacando à vontade civis e tropas de terra em pânico. O major-general I. I. Kopets, comandante da força aérea da frente ocidental, tinha jurado se matar se seus aviões fossem destruídos por um ataque de surpresa. Ao ver isso acontecer no primeiro dia da invasão alemã, Kopets fez exatamente o que prometeu.
Durante o primeiro mês, as tropas alemãs avançaram cerca de 700 km, um ritmo assustador que refletia a desordem que encontraram em quase todas as áreas sob ataque. O moral entre os invasores aumentava proporcionalmente à confusão que encontravam ao avançar em território soviético. “Sinto que nasci novamente”, escreveu para casa o soldado Henry Nahler no dia 26 de junho. Ao descrever o assalto inicial, quatro dias antes, ele observou: “parecia que todas as armas ao longo da linha de frente eram disparadas ao mesmo tempo”. Quando os bombardeiros alemães surgiram nos céus, “as pessoas corriam como loucas pelas estradas com seus pertences”. Acrescentou que achou um balde de leite e dois ovos frescos num celeiro, o que lhe permitiu comemorar comendo e bebendo. “De modo geral, tudo está muito acolhedor e festivo. Os russos não usaram artilharia contra nós.”
Esse estado de espírito era ecoado nas cartas de outros soldados. “Vamos mandar a grande Rússia para o inferno”, escreveu no mesmo dia, um suboficial cujo último nome era Bering. “Se o Führer decidiu fazer alguma coisa assim, ele certamente vai ter sucesso.” Outro soldado, von Dirdelsen acrescentou: “vamos derrotar o país de governo louco e vencer o Exército Vermelho. Nossa companhia cruzou o Bug, destruiu três bunkers e avançou 40 km durante os primeiros três dias”. Apesar de admitir que “muitos oficiais” pereceram durante o avanço, ele afirmou que a bravura deles só fez inspirar seus homens a manter o avanço. Em outras cartas, os soldados descreviam como viam os aviões alemães derrubarem os aviões soviéticos que conseguiam enfrentá-los no céu. Nahler escreveu: “sim, nossos pilotos são uns grandes sujeitos! Acabei de ver um caça alemão atacar um grupo de caças inimigos e derrubar quatro aviões russos. Foi inesquecível”.
Em Moscou, o cidadão soviético médio não fazia ideia de como as coisas iam mal nas linhas de frente. Georgy Kumanev, que à época tinha 10 anos, foi com alguns amigos ao escritório de mobilização e ouviu a multidão ali reunida. Kumanev, que há muito tempo se abriga no Centro de História Militar, em Moscou, e conduz entrevistas com várias das principais figuras do tempo da guerra, lembra que as pessoas estavam cheias de bravatas. “Vamos arrancar os dentes de Hitler”, diziam. Outros perguntavam: “você ouviu? Nossas tropas se aproximam de Königsberg”, a cidade portuária do leste da Prússia. Ou “você sabia que o Exército Vermelho já está em território inimigo?” Alguns jovens tinham pressa em se alistar para ter uma chance de participar da guerra, pois estavam convencidos de que ela terminaria rapidamente e perderiam a vez se não se alistassem imediatamente.
Crianças cantavam novas cantigas que surgiam para a ocasião. “Aqui e ali – Hitler cuidado! Aposte suas botas – Hitler kaput!” dizia uma delas. Mas, junto com outros moscovitas, o escritor Yuri Druzhnikov, que se lembra de recitar aqueles versinhos aos 8 anos, na época da invasão, viu rapidamente o otimismo evaporar. Seu pai, Ilya Druzhnikov, que já tinha passado dos 40 e era ilustrador de livros, foi imediatamente convocado e enviado para o front com outros recrutas, em vagões de gado. Uma vez no campo de batalha, ele se viu numa cena de “caos total”, onde ninguém parecia saber o que se passava.
Como Ilya Druzhnikov diria ao seu filho, muito tempo depois da guerra, havia apenas um rifle para cada dez homens na sua unidade, o que significava que soldados desarmados seguiam em fila atrás de cada homem armado. Sempre que um deles caía, o primeiro da fila devia pegar a sua arma. Segundo ele, os oficiais estavam prontos a atirar em qualquer um dos seus homens que se movesse na direção errada – afastando-se da luta, em vez de ir na direção dela. Periodicamente, os recrutas recebiam ordens de ir para o campo e retirar dos corpos tudo que pudessem carregar – armas, munições e roupas. Uma razão para essa carência era que os alemães tinham rapidamente capturado e destruído os estoques soviéticos de armas e de outros suprimentos que haviam sido colocados perto da fronteira ocidental, sem que os soviéticos aparentemente levassem em conta a possibilidade de essa posição tornar o trabalho dos invasores muito mais fácil.
Druzhnikov ficou no front durante bem pouco tempo. Na época das chuvas fortes ele contraiu uma doença de pele que os médicos do exército temiam que pudesse ser infecciosa. De volta a Moscou, ele se recuperou e recebeu ordens de trabalhar, ao lado de outros artistas, pintando os telhados dos edifícios da capital. Com baldes de tinta verde, amarelo e marrom, eles tentavam camuflar os prédios da melhor maneira possível, para que parecessem florestas, pelo menos para os bombardeiros alemães a grande distância.
Fazer o que mandavam e manter silêncio sobre o que tinha visto na sua breve passagem pelo front era algo natural para Druzhnikov. Como ilustrador e competente retocador de fotografias, ele sabia que um lapso da língua poderia lhe custar a vida na Rússia de Stalin. No final da década de 1930, dois agentes da NKVD chegaram ao seu apartamento. Ordenaram à esposa de Druzhnikov que levasse Yuri e sua irmã para fora, enquanto ficavam no apartamento com o aterrorizado marido e pai. Ilya e sua mulher estavam convencidos de que ele seria preso. Mas um dos agentes tirou do bolso uma fotografia de Stalin, um close do seu rosto que – ao contrário de todas as fotos já publicadas – tinha muitas marcas de bexiga, provavelmente o resultado de um surto de varíola na sua infância. Os agentes perguntaram se ele era capaz de retocar a fotografia e desaparecer com as feias marcas. Vigiando-o, enquanto ele laboriosamente fazia o retoque, observaram o rosto do líder se tornar cada vez mais liso. Quando ele terminou, os agentes lhe entregaram um documento para assinar: era uma declaração de que ele detinha um segredo de estado que nunca poderia ser revelado. O ilustrador assinou e só contou essa história para seu filho Yuri muito depois da morte de Stalin.
Na época, a desastrosa derrota das forças soviéticas despreparadas para o ataque alemão foi considerada um segredo tão grande quanto as marcas de bexiga de Stalin. Ilya Druzhnikov já estava suficientemente escolado no sistema soviético e guardou absoluto silêncio sobre as suas duas experiências aterradoras, tendo ou não assinado um termo de juramento de segredo. Teve sorte em sobreviver às duas provações angustiantes – e disso ele tinha plena consciência.
O líder que inspirava tal terror, que presidia um Estado construído sobre o medo, de repente pareceu paralisado por seu próprio medo com a invasão alemã. Persistiu naquele estado de negação com relação às intenções dos alemães até o momento em que o inimigo atacou. No dia 20 de junho, dois dias antes da invasão, o supervisor do porto báltico de Riga havia chamado o membro do Politburo Anastas Mikoyan com a notícia que dificilmente poderia ser mal interpretada: os 25 navios de carga alemães no porto naquele momento tinham recebido instruções para partir no dia seguinte, tendo ou não completado o carregamento e descarregamento da sua carga. Mikoyan foi diretamente a Stalin e insistiu com ele para ordenar que os navios alemães não tivessem permissão de partida. “Seria uma provocação”, o líder soviético respondeu irritado. “Não podemos fazer isso. Dê instruções para não reter os navios e deixá-los partir.”
Mesmo depois de iniciada a invasão, o primeiro instinto de Stalin foi não acreditar. Quando o general Georgy Zhukov, chefe do Estado-Maior, chegou à dacha de Stalin às 4 da manhã para acordar o líder e informá-lo dos relatos de pesados ataques de artilharia, e bombardeios aéreos em toda a parte ocidental da União Soviética, as primeiras instruções de Stalin foram para não contra-atacar. Pouco depois, ao chegar ao Kremlin, ele especulou que o poder militar alemão poderia estar agindo por conta própria. “Hitler certamente não sabe disso”, declarou. Então ele deu ordens a Molotov para encontrar-se com o embaixador Schulemburg e descobrir o que significavam os relatos vindos da fronteira – como se ainda pudesse haver uma chance de estarem errados.
Na verdade, o enviado alemão já tinha solicitado uma reunião com Molotov para entregar-lhe uma mensagem clara do governo. Quando chegou, às 5h30 daquela manhã, Schulemburg não ocultou seu próprio desapontamento com o conteúdo que desfazia todos os seus esforços para manter a paz entre os dois países. A declaração explicava que a suposta ameaça, representada pelo aumento do número de forças soviéticas na fronteira, tinha forçado o governo alemão “a adotar contramedidas militares imediatas”. Inacreditavelmente, Molotov perguntou ao embaixador o que poderia significar aquela declaração. Como relatou secamente o taquígrafo presente à reunião, “Schulemburg respondeu que, na sua opinião, significava o começo da guerra”. Molotov protestou que, na verdade, não havia concentração de tropas soviéticas na fronteira e que a única atividade militar eram manobras de rotina. O embaixador disse que não podia acrescentar nada com relação ao assunto. Molotov voltou a Stalin para comunicar a mensagem de que “o governo alemão declarou guerra contra nós”. O líder soviético murmurou: “Ribbentrop nos enganou, o patife!”
O exército alemão que lançou o ataque contava 3,05 milhões de homens, 3.550 tanques, 2.770 aviões e cerca de 600 mil cavalos – apesar do moderno armamento da máquina militar nazista, os cavalos eram essenciais para o transporte de armas e outros suprimentos. Mais meio milhão de soldados foram fornecidos pela Finlândia e Romênia, que se aliaram à Alemanha. Era a maior força militar já reunida, mas só dá uma pálida ideia do tamanho do conflito a que chegaria a guerra germano-soviética. Durante os quatro anos seguintes, cerca de 9 milhões de soldados estariam numa ou noutra época envolvidos nesse conflito épico.
Os alemães dividiram a força de invasão em três partes: o Grupo de Exércitos do Norte, Centro e Sul. O Grupo de Exércitos do Norte deveria dirigir o assalto aos Estados Bálticos, tendo Leningrado como seu alvo último. O Grupo de Exércitos do Sul deveria concentrar os seus esforços em atingir Kiev, a capital ucraniana. Mas era o Grupo de Exércitos do Centro o mais pesadamente equipado, tendo sob seu comando a metade das divisões blindadas alemãs e suas unidades Panzer mais famosas. Tinha a atribuição de cercar e tomar Minsk e depois continuar o avanço na direção de Moscou. À medida que a luta se movia naquela rota, a maior concentração de soldados estaria envolvida na Batalha de Moscou.
Mas com a irregularidade das comunicações – sabotadores alemães tinham cortado todas as linhas telefônicas e telegráficas que puderam encontrar, e muitas divisões soviéticas foram arrasadas nas primeiras escaramuças –, Stalin e seu séquito no Kremlin ainda não tinham ideia do poder e do tamanho das forças invasoras. E nem de como as ordens iniciais do líder soviético devem ter soado irreais para quem as recebeu. Verdade seja dita, muitos dos soldados também estavam desinformados. Como admitiu mais tarde o general Ivan Fedyuninsky: “quando começou a batalha, o poder do Exército Alemão foi uma completa surpresa para muitos dos nossos oficiais”. Mas eles logo entenderam que lutavam contra um ataque para o qual seus superiores não os tinham preparado.
Os líderes do Kremlin ainda relutavam em admitir a magnitude dos seus erros. Enquanto recebia relatórios de que a Luftwaffe bombardeava e metralhava alvos civis e militares durante a manhã da invasão, o general Ivan Boldin, vice-comandante do distrito militar do oeste, recebeu no Estado-Maior em Minsk um chamado do comissário de defesa, Semyon Timoshenko.
“Companheiro Boldin, lembre-se de que nenhuma ação deverá ser lançada contra os alemães sem nosso conhecimento”, disse-lhe Timoshenko. “Por favor, diga ao [general Dmitry] Pavlov que o Companheiro Stalin proibiu que se abrisse fogo de artilharia contra os alemães.”
“Mas como isso vai ser possível?” – gritou Boldin. “Nossas tropas estão batendo em retirada. Cidades inteiras estão em chamas, pessoas são mortas por toda parte.”
Timoshenko não cedeu, pois Stalin ainda se recusava a acreditar no que ouvia. Mas depois de poucas horas, Stalin não podia mais duvidar de que o país enfrentava uma invasão em grande escala. Passou então a transmitir ordens que revelavam ainda mais ignorância. As tropas de fronteira receberam instruções para “atacar as forças inimigas com todos os recursos e meios à sua disposição, e aniquilá-las onde quer que tenham violado a fronteira soviética”. A força aérea recebeu ordens de lançar “ataques poderosos” e “esmagar as principais concentrações da força inimiga e seus aviões nos seus campos de pouso”. Bombardeiros soviéticos deviam atingir Königsberg e Memel, e as forças soviéticas na região sudoeste deviam capturar Lublin, a cidade polonesa a 50 km da fronteira. Com grande parte da força aérea soviética já destruída e exércitos inteiros em desintegração, Stalin poderia ter ordenado aos seus generais que voassem até a lua.
As ordens foram assinadas por Timoshenko, Zhukov e Georgy Malenkov, membro do círculo íntimo do Kremlin, mas não por Stalin, que sem dúvida compreendia que enfrentava uma situação capaz de se refletir mal sobre ele. Nas primeiras horas da manhã, a rádio soviética continuou a transmitir uma programação inócua, ignorando as notícias alarmantes do front. Mas o alto-comando político e militar reunido no Kremlin percebeu que tinha de anunciar o fato de a guerra já ter começado, e insistiram com Stalin para fazer o anúncio. “Que Molotov fale”, respondeu ele. Seus auxiliares argumentaram que o povo esperava Stalin “em momento histórico tão significativo”. Sem sucesso, pois Stalin não cedeu. “Foi certamente um erro”, Mikoyan lembrou mais tarde. “Mas Stalin estava tão deprimido que não sabia o que dizer à nação.”
Então Molotov falou, ao meio-dia, fazendo um discurso pela rádio que todo cidadão soviético vivo naquele dia ainda lembra. Stalin o ajudou a escrever o texto que refletiu a sensação de choque do líder por Hitler ter-se voltado contra ele. “Esse ataque inaudito contra o nosso país é um ato de perfídia sem paralelo na história das nações civilizadas”, declarou Molotov. “Esse ataque foi lançado apesar de haver um pacto de não agressão entre a União Soviética e a Alemanha, um pacto cujos termos foram escrupulosamente observados pela União Soviética.” Esquecendo a aquiescência do seu país às agressões alemãs até aquele ponto, ele denunciou a escravização alemã “dos franceses, dos tchecos, dos poloneses, dos sérvios, e dos povos da Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Grécia e outros países”. Jurou que o “arrogante Hitler” teria o mesmo destino de Napoleão na Rússia. E, resumindo, pronunciou as palavras que ficariam na mente da maioria dos ouvintes: “Nossa causa é justa. O inimigo será esmagado. A vitória será nossa.”
Mas as notícias do front não justificavam tal otimismo. Enquanto o Kremlin ainda enviava ordens sem sentido para as tropas soviéticas passarem à ofensiva, as forças alemãs do Grupo de Exércitos do Centro, as tropas encarregadas de atravessar a Bielo-Rússia, faziam rápido progresso. Em 28 de junho, a capital da Bielo-Rússia, Minsk, caiu em poder dos invasores, cercando 400 mil soldados do Exército Vermelho. A cidade talvez não fosse um alvo estratégico tão significativo, mas Stalin estava determinado a defendê-la, e sua queda lançou-o num redemoinho psicológico. No dia seguinte, ele informou à sua entourage: “Lenin nos deixou uma grande herança e nós, seus herdeiros, bagunçamos tudo!”
Como as notícias só pioravam, o líder se retirou para sua dacha e não apareceu no Kremlin no dia seguinte. Quem o procurava era informado: “o companheiro Stalin não está aqui, e não deverá ser encontrado aqui”. Durante dois dias, os membros do Politburo se perguntaram se ele ainda estava no cargo. Finalmente, uma delegação se dirigiu nervosamente à sua dacha. Quando entraram, Stalin olhou-os e perguntou: “por que vocês vieram”? Mikoyan se lembra de que “ele tinha a expressão mais estranha no rosto, e a própria pergunta também era bem estranha”. Mikoyan chegou a pensar que Stalin estava supondo que eles estivessem ali para prendê-lo.
Mas Molotov disse a Stalin que havia uma proposta de criação de um Comitê de Defesa do Estado para presidir o esforço de guerra. O líder perguntou: “com quem no comando”? Molotov e depois o chefe da polícia secreta, Beria, lhe disseram imediatamente que ele seria o chefe. Stalin pareceu surpreso e aliviado. “Ótimo”, disse.
Stalin retomou o papel de líder, mas não inspirava confiança na sua capacidade de comandar o país na saída daquela crise mortal. É preciso reconhecer que ele tomara decisões sensatas nos primeiros dias da invasão. Em 24 de junho, por exemplo, criou o Conselho de Evacuação, encarregado da tarefa de transportar fábricas inteiras, seus trabalhadores e suprimentos para as regiões a leste do país, fora do alcance dos alemães. Foi o começo de um processo que levaria à desmontagem de milhares de fábricas, desde pequenas oficinas até grandes empresas, para serem remontadas nas novas localidades.
Mas naqueles primeiros dias, Kruschev observou que ele era “um Stalin diferente, um saco de ossos vestido numa túnica cinzenta”. Quando Kruschev lhe disse que as coisas iam mal por causa da escassez de armas, o líder ofereceu uma resposta sarcástica: “bem, dizem que os russos são muito espertos. Veja como somos espertos agora”.
Kruschev não gostou, especialmente quando telefonou de Kiev para pedir armas que os operários das fábricas exigiam. Stalin colocou Malenkov na linha. De acordo com o seu relato, isso levou ao seguinte diálogo impaciente:
– Diga-me onde posso encontrar rifles? – Kruschev perguntou. – Temos operários aqui que desejam se juntar às fileiras
do Exército Vermelho para lutar contra os alemães, e não temos nada com que armá-los.
– É melhor você desistir de conseguir fuzis aqui – respondeu Malenkov. Os fuzis da defesa civil foram todos mandados
para Leningrado.
– Então, com que vamos lutar?
– Não sei; com lanças, espadas, armas de fabricação caseira, qualquer coisa que possa ser feita nas fábricas. – Você quer dizer que devemos enfrentar tanques com lanças?
– Você terá de fazer o máximo possível. Faça bombas incendiárias com garrafas de gasolina ou querosene e atire nos
tanques.
Kruschev sentiu “desânimo e indignação”. Como disse ele, “ali estávamos, tentando conter uma invasão sem fuzis nem metralhadoras, para não falar em artilharia ou armas mecanizadas!”
A Stavka, ou quartel-general, como se chamava o comando militar, talvez estivesse dando poucas respostas satisfatórias para esses apelos frenéticos, mas a partir do momento em que Stalin voltou ao Kremlin, depois de um quase colapso nervoso, ele reassumiu claramente as suas responsabilidades. Em 3 de julho, ele por fim falou aos seus compatriotas. Foi um desempenho notável em vários níveis. Mas o trecho mais importante do discurso foi a abertura. “Companheiros! Irmãos e irmãs! Homens do nosso exército e marinha! Dirijo-me a vocês, meus amigos!”
Para o déspota, dirigir-se ao seu povo como “irmãos e irmãs” e “meus amigos” não tinha precedentes. Seus ouvintes sabiam que alguma coisa fundamental havia mudado: ele apelava a eles como parceiros na luta comum, não somente como súditos. Foi realmente revolucionário, e seus ouvintes o sentiram. Foi diferente do discurso de Molotov. A mensagem dupla era que Stalin agora era responsável, e que ele precisava da ajuda de todos para rechaçar os invasores alemães.
O restante do discurso foi mais previsível e contraditório. Avisou do “grave perigo” que o país enfrentava, e elogiou a “resistência heroica do Exército Vermelho”, afirmando que os alemães já tinham sofrido terrível destruição das suas “melhores divisões e unidades da força aérea”. Na mesma frase ele admitiu, “o inimigo continua a avançar, lançando novas forças ao ataque”. Teve de reconhecer os ganhos evidentes do inimigo, assegurando ao mesmo tempo aos seus concidadãos que eles eram apenas temporários. “A história mostra que não existem exércitos invencíveis, nunca houve”, declarou ele, ecoando o discurso aos formandos da academia militar em maio. “O exército de Napoleão era considerado invencível, mas foi derrotado pelos exércitos russos, ingleses e alemães.” Jurou que os invasores nazistas, tal como Napoleão, “seriam esmagados” no solo soviético.
Revertendo à forma, ele mandou um recado direto aos seus próprios compatriotas, prometendo “fazer uma luta dura contra todos os desorganizadores da retaguarda, desertores, os que espalham o pânico” e “exterminar espiões, sabotadores e paraquedistas inimigos”. Tribunais militares rapidamente distribuiriam justiça a todo culpado de “covardia e de espalhar o pânico”. Nos casos em que o recuo fosse mesmo necessário, ele ordenou a evacuação de todos os equipamentos e suprimentos. “Não se deve deixar um único motor para o inimigo, nenhum vagão, nem um quilo de grãos, nenhum galão de combustível.” Tudo que não puder ser levado, concluiu, “tem de ser destruído sem exceção”.
Mas Stalin também se sentiu obrigado a dar uma justificativa tortuosa para sua decisão de concordar com o pacto de não agressão com Hitler. Afirmou que ele “garantiu para o nosso país a paz por um ano e meio, e a oportunidade de preparar suas forças para rechaçar a Alemanha fascista caso ela se arriscasse, apesar do pacto, a atacar o nosso país”. Esse trecho impunha a pergunta: por que esse tempo não foi mais bem usado e por que as forças soviéticas estavam tão mal preparadas para a invasão?
Stalin também tentou explicar as primeiras derrotas.
Quanto ao fato de parte do nosso território ter sido mesmo assim tomada pelas tropas fascistas alemãs, isso se deveu principalmente ao fato de a guerra da Alemanha fascista contra a URSS ter começado em condições propícias para as forças alemãs e desfavoráveis para as forças soviéticas.
Afirmou que os alemães estavam completamente mobilizados, “ao passo que as tropas soviéticas ainda tinham de efetuar a mobilização e se deslocar para a fronteira”. Insistiu que a responsabilidade por aquela disparidade estava com os alemães, por terem “traiçoeiramente” violado o pacto de não agressão – e, é claro, não havia nenhum vestígio de mea culpa em nenhum trecho do discurso.
O discurso atingiu o objetivo de mostrar que Stalin controlava de fato o país e tinha a esperança de uma vitória final. Mas nos campos de batalha, os alemães continuavam a avançar. Em 16 de julho, tropas alemãs comandadas pelo general Heinz Guderian, ou Schneller Heinz, como o famoso comandante de tanques era conhecido, chegaram a Smolensk, a primeira grande cidade a cair depois de Minsk, na marcha para o leste. Mais uma vez, centenas de milhares de soldados do Exército Vermelho se viram cercados e mortos ou capturados. Apenas três semanas após Hitler ter lançado a invasão, o avanço bem-sucedido até Smolensk significava que aos invasores restavam apenas mais 370 km para o leste para avançar até Moscou. Apesar das garantias de Stalin, o Exército Vermelho parecia não ser capaz de evitar que as forças alemãs fizessem quase tudo que quisessem – inclusive tomar a capital soviética, se Hitler decidisse fazer daquele o seu próximo objetivo. No dia 21 de julho, bombardeiros alemães atacaram a capital soviética pela primeira vez. O prognóstico era mau e ficava pior.
Tal como quase todos os homens mortos, Vladimir Ilyich Lenin não tinha viajado depois de chegar ao seu local de repouso em 1924. Na verdade, não lhe tinham permitido muito repouso. Os cientistas que cuidavam do seu corpo, ainda em exposição no mausoléu construído na Praça Vermelha, interferiam nele constantemente, aplicando, pelo menos duas vezes por semana, fluidos especiais ao rosto e mãos expostos, e a cada 18 meses encharcando-o num banho de acetato de potássio, glicerina, água e uma quantidade suficiente de cloreto de quinino para servir como desinfetante. Vinham seguindo esse procedimento desde os primeiros esforços frenéticos para encontrar um meio de preservar Lenin indefinidamente, por ordem de Joseph Stalin. O novo líder soviético estava determinado a manter por perto o seu antecessor como objeto de adoração, solidificando, assim, a mitologia da Revolução Bolchevique e o seu próprio comando do poder. Toda essa elaborada manutenção acontecia no mausoléu e no laboratório especial no porão, permitindo que Lenin continuasse no local enquanto era submetido a sucessivos ajustes.
Ou melhor, isso até 3 de julho de 1941, quando Lenin foi enviado numa longa viagem para longe da capital soviética pela primeira e única vez desde a sua morte. Antes mesmo de os tanques do general Guderian chegarem a Smolensk, duas semanas depois, e quando se preparava para falar aos seus compatriotas pela primeira vez desde o início da invasão, Stalin reconheceu que Moscou estava em fatal perigo. O que significava que Lenin também estava em perigo. A tomada da capital soviética pelos alemães seria uma derrota humilhante. Mas, se também tomassem o mais sagrado dos sagrados, Lenin, a derrota seria mais que humilhante: seria um golpe psicológico acachapante, representando o triunfo do fascismo sobre o comunismo, do culto de Hitler sobre o culto de Lenin e, por extensão, de Stalin. Assim, o líder soviético ordenou a evacuação de Lenin em completo segredo para Tyumen, uma pequena cidade a mais de 1.600 km a leste de Moscou.
Por uma boa razão, Ilya Zbarsky se lembra daquele dia, da viagem de trem e da estadia de Lenin em Tyumen, que duraria quase quatro anos, até o final da guerra em março de 1945: ele é o único sobrevivente de um punhado de cuidadores de Lenin, que acompanharam o corpo do líder naquela viagem. Seu pai, Boris Zbarsky, foi um dos dois homens que desenvolveram e executaram o trabalho original de embalsamamento de Lenin, e foi encarregado da operação clandestina que levou o corpo para lugar seguro. Em 1934, ele convenceu o filho Ilya, que então estudava bioquímica na Universidade Estadual de Moscou, a se juntar à equipe de cientistas do mausoléu, cujo trabalho era assegurar a preservação de Lenin. Pelos 18 anos seguintes, o trabalho de Ilya se concentrou nesse objetivo fundamental.
Sentado no seu modesto apartamento de dois quartos em Moscou, vestindo calça preta, camisa cinza claro, suéter vermelho sem mangas e chinelos que são indispensáveis em todo lar russo, Zbarsky, com uma elegante cabeleira branca, parecia bem mais jovem que os seus 90 anos de idade, quando o visitei no início de 2004. Enquanto sua mulher servia chá e generosas fatias de um bolo cremoso, ele relembrava livremente a história da sua família, suas relações geralmente tensas com o pai e uma madrasta que detestava e, é claro, os privilégios e os perigos de servir como uma das pessoas encarregadas do cuidado de um corpo que havia sido, para todos os propósitos práticos, divinizado pelo estado soviético.
Do seu pai, Ilya ficou sabendo a história de como ele e o professor Vladimir Vorobyov, chefe do departamento de anatomia da Universidade de Karkov, na Ucrânia, tinham trabalhado com uma equipe de assistentes durante quatro meses para preservar o corpo de Lenin – um feito que muitos dos seus colegas pensavam ter pouca probabilidade de sucesso e, por isso mesmo, política e pessoalmente perigoso. Contra as objeções da viúva de Lenin, Nadezhda Krupskaya, e de Leon Trotsky, rival de Stalin e sua futura vítima, Lenin foi submetido a um processo audacioso de embalsamamento sem precedentes. Por ordem de Stalin, seu cérebro foi removido para que os cientistas de um instituto especial pudessem estudá-lo e descobrir “pistas” do seu “gênio”. (Apesar dos esforços, eles nunca encontraram nenhuma evidência de que ele tivesse qualquer característica incomum.) A equipe também removeu os seus órgãos internos, como os pulmões e o fígado, e fizeram pequenos cortes na pele enquanto encharcavam o corpo com seus banhos químicos inovadores criados para permitir que ele retivesse a umidade e elasticidade. Finalmente, os olhos de Lenin foram substituídos por olhos falsos e a boca foi costurada abaixo do bigode pra manter os lábios fechados.
Na primeira vez em que ajudou a despir Lenin para prepará-lo para um dos seus banhos químicos rotineiros, lembrou Ilya, ele achou um tanto “desagradável” manuseá-lo, apesar de já ter trabalhado com cadáveres antes. Talvez fosse algo relacionado com a textura da pele, pensou, mas provavelmente tinha a ver com a ideia de que estava manuseando o cadáver de alguém que era objeto de tão intensa glorificação. Mesmo da perspectiva do século seguinte, ele ainda acha difícil analisar friamente seus sentimentos.
E ainda havia o fator medo. Tudo isso acontecia na década de 1930, a época em que Stalin desencadeou o terror em grande escala contra seu próprio povo, um período em que os expurgos, as execuções e as viagens sem volta para o Gulag eram ocorrências tão comuns como os relatórios sobre o clima nos dias de hoje. Graças ao seu emprego, Boris Zbarsky e sua família pareciam protegidos da máquina de terror de Stalin. Certo dia, lembrou seu filho, a NKVD invadiu 34 dos 36 apartamentos no prestigioso edifício do governo onde viviam; o pai de Zbarsky foi um dos dois únicos não incomodados. Mas ninguém podia ter certeza de que seria sempre assim. Ilya nunca discutia política com seu pai. “Na minha mente, eu sentia o terror, uma época terrível”, dizia ele. “Mas era perigoso até pensar nele.”
Boris Zbarsky vivia uma vida privilegiada, com um salário generoso e acesso a amplas provisões de alimentos, enquanto outros passavam fome, mas sabia que tudo podia mudar de uma hora para outra. Sua própria história oferecia muita munição para a NKVD caso ela se interessasse. Ele era, pela definição daquela época, um “judeu cosmopolita”, que tinha estudado na Suíça, falava várias línguas e contava entre seus amigos com pessoas como o pintor Leonid Pasternak e seu filho Boris, o futuro ganhador do Prêmio Nobel. E, de fato, em 1952, Boris Zbarsky iria descobrir que os serviços prestados a Lenin – e, é claro, por extensão a Stalin – não lhe garantiriam proteção indefinida. Detido por supostamente trabalhar com os alemães, ele foi um dos muitos cientistas e médicos presos nas últimas ondas de expurgos de Stalin, dirigida contra os judeus, antes da morte do ditador em março de 1953. Libertado em dezembro daquele ano, já debilitado, ele morreu pouco depois.
Mas no dia 3 de julho de 1941, tudo isso ainda estava no futuro, quando os dois Zbarsky acompanharam Lenin a Tyumen.
Naquela manhã, Boris contou ao seu filho a decisão secreta do Politburo de evacuar Lenin, informando-o de que ele e sua família deviam embalar seus pertences pessoais para a viagem de trem para leste. Ilya se lembrava de que não precisou ser convencido do senso de urgência: as forças alemãs avançavam em direção à capital e havia poucas indicações de que pudessem ser paradas. Ouviu naquele dia o discurso de Stalin pelo rádio e se impressionou com seu forte sotaque georgiano e suas palavras de abertura, em que saudava seus compatriotas como irmãos, irmãs e amigos. “Foi a primeira vez em que Stalin falou ao seu povo como seres humanos, e não apenas como ‘companheiros’”, observou Ilya. Somente uma situação realmente terrível poderia ter provocado uma reversão tão dramática.
“Sabíamos que era perigoso ficar em Moscou”, Ilya acrescentou. Ainda assim, ele se sentia mal por causa da ordem, que o deixou com a sensação de estar abandonando Moscou numa hora em que ela ia precisar de todos os defensores que pudesse reunir.
À noite, carros da NKVD chegaram para buscar Ilya, sua família e outro colega da equipe do mausoléu, o professor Sergei Mardashev e sua família, deixando todos num ramal da Estação Yaroslavsky. Lá, enquanto guardas da NKVD vigiavam, eles embarcaram num trem especial que levaria Lenin, os cientistas, suas famílias e 40 guardas do Kremlin. Mas, apesar de todos os preparativos, o trem não era refrigerado e os cientistas tiveram de trabalhar duro para proteger o corpo, deitado num caixão de madeira, da deterioração no calor do verão. Ilya se lembra de colocar cortinas nas janelas para bloquear o sol, trabalhando em turnos com seu pai e Mardashev durante os quatro dias de viagem, sem nunca deixar o corpo, e constantemente aplicando-lhe fluidos.
O trem tinha um bom estoque de alimentos e sua rota era marcada por uma série sem fim de sinais verdes. Nas estações ao longo do caminho, guardas e soldados estavam estacionados para bloquear qualquer um que tentasse embarcar. Com as tropas alemãs se aproximando e os ataques da Luftwaffe avançando para o interior da Rússia, multidões desesperadas buscavam qualquer transporte para leste. O trem especial deixou todos para trás.
Em Tyumen, as autoridades locais colocaram um edifício de dois andares da era czarista, pertencente a uma escola agrícola, à disposição dos visitantes de Moscou e do seu “objeto secreto”. Cercado por um muro de tijolos e isolado do resto da cidade, o prédio tinha seus próprios guardas, que vigiavam para que ninguém da cidade entrasse ali por engano. Ilya e sua mulher moravam num apartamento de dois quartos no primeiro andar, mas tinham de dividi-lo com a mãe da sua mulher, sua irmã e dois sobrinhos que os acompanharam na viagem. O pai de Ilya, a madrasta e o filho dos dois ocupavam um apartamento no segundo andar, onde ficou o corpo de Lenin.
O edifício teve de ser reformado. Apesar de ser bem aquecido e bem iluminado, ao contrário da maioria dos edifícios durante a guerra, não possuía instalações de refrigeração, e quantidades enormes de água destilada chegavam por via aérea de Omsk, ou eram enviadas de trem com os produtos químicos especiais necessários para preparar os banhos químicos de Lenin. Antes de mergulhá-lo, Ilya e os outros enrolavam o corpo em bandagens especiais feitas de borracha da Índia, que eram produzidas em Leningrado para esse objetivo sagrado. Ilya estima que, diferentemente de Moscou, onde Lenin era exposto grande parte do tempo, em Tyumen ele ficou mergulhado nos banhos durante cerca de 70% do tempo do período de guerra. Como tinham poucas outras responsabilidades, os cuidadores trabalhavam regularmente removendo manchas e cicatrizes que encontravam no corpo. Não escreveram nenhum relatório, mas uma comissão especial que chegou mais tarde durante a guerra para verificar o estado geral de Lenin concluiu, de acordo com Ilya, “que o corpo estava em melhores condições do que antes da evacuação”.
Além do contingente de guardas, o edifício tinha uma equipe completa de cozinha, e Ilya se lembra de que viviam com muito conforto durante uma época em que a maioria dos russos lutava com carências maiores que o normal. “Eles nos alimentavam bem”, disse ele. “Era bem mais confortável do que em Moscou. Tínhamos chá, bolos, conhaque.” Sintonizavam estações de rádio alemãs e russas e ficaram alarmados com as notícias ouvidas, que indicavam que os alemães ainda avançavam, e também particularmente com os relatos de Moscou em meados de outubro de 1941. “Era óbvio que alguma coisa terrível estava acontecendo”, escreveu Ilya. Ouviu de amigos sobre o pânico quando muitos moscovitas tentavam fugir da cidade, convencidos de que ela logo cairia. Ouviu também notícias sobre as prisões de professores que conhecia da Universidade Estadual de Moscou por ensinarem alemão. Mais tarde, soldados feridos que chegavam do front trouxeram aos residentes de Tyumen mais informações sobre a luta.
Embora Moscou tivesse conseguido conter o avanço dos alemães, Stalin só permitiu a volta de Lenin à capital em março de 1945, quando a guerra chegava ao fim. Maravilhado com a “saúde” do líder bolchevique, o governo agraciou Boris Zbarski com a Ordem de Lenin e o título de Herói do Trabalho Socialista. Seu filho foi agraciado com a Bandeira Vermelha do Trabalho. Mas quando Boris foi preso em 1952, Ilya também foi demitido – e nunca voltou ao trabalho no mausoléu.
Repassando sua vida e o foco de parte tão grande da sua atenção, ele finalmente estava disposto a expressar seus verdadeiros sentimentos com relação a Lenin. “Ele devia ser retirado do Kremlin e enterrado em outro lugar”, disse ele. “Ele é mais um símbolo de terror que um herói.” Ainda assim, Ilya se indignava com relatos de jornais do início da década de 1990 que se afirmavam que o corpo de Lenin não foi realmente preservado, só as mãos e a cabeça. “Isso é tolice”, protestou. “Tudo está intacto.”
Independentemente das conclusões a que chegou quanto ao sistema que Lenin construiu, Ilya tinha orgulho do papel que ele e seu pai desempenharam para manter Lenin “vivo” durante o pesadelo daqueles anos da guerra, quando milhões de seus compatriotas pereceram. Se os alemães tivessem capturado Lenin, o simbolismo teria sido enorme. E, é claro, teria significado que tinham capturado Moscou. E se tivessem capturado Moscou, os primeiros anos da guerra teriam tomado um caminho completamente diferente, e o resultado final do conflito poderia ter sido bem diferente.
Mas Lenin viveu.
Aquele verão de 1941, quando Stalin despachava Lenin secretamente para Tyumen, Hitler se tornava cada vez mais confiante de que a União Soviética – com Moscou no centro e Lenin como seu símbolo – logo seria história. Foi a confiança de Hitler que lhe permitiu lançar a Operação Barbarossa, varrendo todas as reservas e banindo as preocupações relativas a precedentes inquietantes. E foi sua confiança recarregada que então o levava a se aproximar de outro grande erro de cálculo que seria um fator importante no resultado final, tanto da Batalha de Moscou, que ainda pairava no horizonte, como de toda a guerra na frente oriental.
Hitler se sentia libertado pelo ataque contra a União Soviética. “Desde a luta para chegar a essa decisão, sinto-me outra vez espiritualmente livre”, escreveu a Mussolini. “Estou agora feliz por estar livre daquelas agonias mentais.” E as primeiras vitórias alemãs e a velocidade do avanço só pareciam confirmar a sabedoria do Führer. No dia 3 de julho, o mesmo dia em que Stalin tentava reunir seus compatriotas, o chefe do Estado-Maior alemão, Franz Halder, escreveu: “assim não seria provavelmente nenhum exagero dizer que a campanha russa foi vencida no espaço de duas semanas”. Mas ele avisou que ela ainda não tinha terminado. “A simples vastidão geográfica do país e a obstinação da resistência, que é oposta por todos os meios, há de exigir nossos esforços por bem mais semanas adiante.”
Estava claro que Halder previa uma operação de limpeza de “bem mais semanas”, não meses. No dia 8 de julho, ele escreveu o seguinte trecho no seu diário de guerra:
É decisão firme do Führer arrasar Moscou e Leningrado e torná-las inabitáveis, para aliviar a necessidade de alimentar populações durante o inverno. As cidades serão arrasadas pela força aérea. Tanques não serão usados para esse fim. “Uma catástrofe nacional que há de privar não só o bolchevismo, mas também o nacionalismo moscovita dos seus centros”.
Presumivelmente, essa última frase era uma citação direta de Hitler. No dia 27 de julho, ao jantar com seu séquito, o ditador alemão delineou sua visão mais ampla, não só para Moscou e Leningrado, mas para todo o território que pretendia conquistar. Seu império, explicou, se estenderia de 200 a 300 km a leste dos Urais. Os alemães senhores de terra deveriam ser capazes de controlar aquela área “com 250 mil homens mais um quadro de bons administradores”. Sua inspiração fora o Império Britânico. “Vamos aprender com os ingleses, que, com 250 mil homens ao todo, inclusive 50 mil soldados, governam 400 milhões de indianos. Esse espaço na Rússia tem de ser sempre dominado pelos alemães.” O povo conquistado deveria ser subjugado sem piedade, e a estratégia geral seria “germanizar esse país pela imigração de alemães, que deverão encarar os nativos como peles vermelhas. […] Nesse negócio vou avançar com sangue frio”.
Mas, apesar de todo otimismo irrefletido daqueles primeiros dias, e apesar do colapso das defesas soviéticas nas principais áreas, havia mesmo sinais de que os alemães enfrentavam mais do que esperavam. As unidades alemãs logo descobriram que as estradas e outras infraestruturas, que pareciam boas nos seus mapas, em geral eram na verdade inexistentes. E desde o primeiro dia, alguns soldados soviéticos lutavam ferozmente, recusando-se a se render por mais que parecessem condenados à derrota.
Por exemplo, os alemães esperavam passar rapidamente pela fortaleza de Brest, logo depois da fronteira, mas viram-se atolados durante vários dias em luta intensa. As tropas soviéticas, suas mulheres e filhos, resistiram sob uma barragem constante da artilharia e do fogo das metralhadoras alemãs muito mais tempo do que parecia humanamente possível. Alguns defensores inflexíveis continuaram lutando nos túneis e nas muralhas por mais de um mês. “Russos rendam-se”, os alemães apelaram a eles pelos alto-falantes. “O comando alemão garante as suas vidas. Moscou já capitulou.” Ironicamente, tropas polonesas resistiram aos invasores alemães na mesma fortaleza em setembro de 1939, quando Brest ainda pertencia à Polônia. (Um dos defensores sobreviventes foi o pai deste escritor.) Mais tarde, os alemães transferiram Brest para o controle do Exército Vermelho, pois a cidade devia pertencer à União Soviética de acordo com a divisão do butim por Hitler e Stalin.
O marechal de campo Fedor von Bock, comandante do Grupo de Exércitos do Centro, que observou a luta na fortaleza e no seu entorno, e depois as batalhas na região próxima, registrou em seu diário no dia 23 de junho, um dia depois do início da invasão:
Os russos estão se defendendo obstinadamente. Mulheres foram vistas frequentemente em combate. De acordo com declarações feitas por prisioneiros, os comissários políticos incentivam a máxima resistência, dizendo que vamos matar todos os prisioneiros! Aqui e ali, oficiais russos se mataram para evitar a captura.
Quando ele próprio e os diplomatas soviéticos se preparavam para partir de Berlim após o início das hostilidades, Valentin Berezhkov se encontrou com o tenente Heineman, das SS, que estava encarregado dos guardas em torno da embaixada. Heineman se mostrou um nazista menos comprometido, e logo informou a Berezhkov que altos oficiais alemães estavam extremamente preocupados com a resistência determinada que encontraram em algumas áreas nas primeiras escaramuças, com pesadas baixas alemãs. “Algumas pessoas na Chancelaria Imperial chegam a se perguntar se a Alemanha devia ter começado a guerra contra a União Soviética”, disse a Berezhkov.
Na verdade, o homem da SS estava ansioso para ser recrutado por dinheiro, por isso talvez tenha exagerado nas suas informações. De modo geral, os sucessos iniciais dos invasores alemães exaltaram os espíritos da liderança nazista, convencendo-os de que Hitler estava certo ao se lançar contra o vizinho do leste. Mas até mesmo Goebbels, ainda que afirmasse no seu diário, em 24 de junho, que “os desenvolvimentos militares no leste são excelentes acima de todas as nossas expectativas”, temperava seu otimismo com um respeito ressentido pelos adversários. Ao denunciar a “feroz propaganda de atrocidades” de Moscou em resposta à invasão, ele observou em 25 de junho que “a propaganda deles é melhor que a de Londres. Aqui nos vemos diante de um adversário mais competente”. Ele retornou ao tema dois dias depois. “Os bolcheviques não são ingleses. Sabem uma ou duas coisas sobre propaganda subversiva.”
Mais significativo, seus relatos sobre as vitórias logo passaram a ser salpicados de admissões de que os inimigos estavam oferecendo uma dura resistência. No dia 27 de junho, sexta-feira, ele observou: “os russos estão sofrendo enormes perdas de tanques e aviões. Mas lutam bem e aprenderam muito desde o domingo [o dia da invasão]”. No dia seguinte, ele acrescentou: “o inimigo se defende desesperadamente e tem boa liderança. A situação não se apresenta ameaçadora, mas estamos com as mãos ocupadas”.
À medida que o Kremlin organizava as defesas da capital soviética, preparando os opolchenie, ou unidades da guarda nacional, que logo atraíram 120 mil recrutas depois do discurso de Stalin, uma nota de hesitação surgiu no pensamento da liderança alemã com relação ao objetivo Moscou. No dia 4 de julho, Goebbels relatou mais uma vez que a situação no front central é “excelente” e que “o inimigo está começando a ceder”. Mas avisava: “bani toda ênfase especial em Moscou na propaganda alemã. Precisamos evitar fixar o olhar público sobre esse objetivo único e fascinante”.
Por que a hesitação quando as tropas alemãs avançavam para leste com tamanha velocidade? O general Alfred Jodl, chefe do Estado-Maior de Hitler, ofereceu pelo menos uma explicação parcial. “O Führer tem uma aversão instintiva a percorrer o mesmo caminho que Napoleão. Moscou lhe dá uma sensação sinistra. Ele teme que talvez haja uma luta de vida ou morte contra o bolchevismo.”
Mas foi precisamente essa luta de vida ou morte que Hitler desencadeou ao lançar a Operação Barbarossa. E não havia dúvida de que os alemães precisavam conquistar Moscou a fim de ter a chance de um golpe mortal contra o estado soviético. Ainda assim, naquele verão, exatamente quando aquele objetivo parecia estar ao alcance da mão, Hitler hesitou. O destino de Moscou – e também o destino dos dois regimes totalitários – pendia da balança, e então o normalmente ousado Führer, para desalento dos seus generais, pareceu não saber o que queria. Seu otimismo desde os primeiros momentos da invasão o havia convencido de que tinha muito tempo para perseguir, antes, outros objetivos da sua campanha no leste, especialmente a vitória na Ucrânia, enquanto seu nervosismo oculto com relação a Moscou o convencia de que este era também um curso mais seguro.
Esse seria um grande erro de cálculo, que ofereceu a Stalin o seu primeiro vislumbre de esperança. Foi quase como se cada déspota estivesse determinado a emular o outro, erro a erro.