A Batalha de Moscou

Andrew Nagorski · Capítulo 13 de 17

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A Batalha de Moscou

“Não seja sentimental”

 

Por volta do final de novembro, Stalin e seus generais começaram a perceber que tinham sobrevivido à pior parte do avanço sobre Moscou. Sabiam que os alemães tinham estendido demais suas linhas, careciam de suprimentos e morriam de frio. Sabiam também que naquele momento Hitler não dispunha de reservas para convocar ninguém como os siberianos para lançar na batalha. E sabiam que seus homens que correram a defender sua cidade, haviam lutado com todas as suas forças, em sua grande maioria. “Nossos soldados tinham plena consciência da sua responsabilidade pessoal pelo destino de Moscou, pelo destino da pátria, e estavam determinados a morrer para não deixar o inimigo entrar em Moscou”, escreveu mais tarde o marechal Zhukov. Apesar do tom propagandístico dessa avaliação, ela foi em geral precisa.

Mas nada disso significava que Stalin estivesse pronto a facilitar as coisas para seus generais ou seus homens. Zhukov sentiu isso na pele quando o líder soviético o convocou por causa de um relatório dizendo que Dedovsk – uma cidade a noroeste de Moscou, a apenas 30 km do Kremlin – havia sido abandonada por suas tropas e tomada pelos alemães.

“Você sabia que eles ocuparam Dedovsk?”, perguntou Stalin.

“Não, companheiro Stalin, eu não sabia”, respondeu Zhukov.

“Um comandante deve saber o que se passa no front!”, estourou o ditador. Ele, então, ordenou a Zhukov que fosse imediatamente para a área e organizasse “pessoalmente um contra-ataque para retomar Dedovsk”.

Quando Zhukov objetou, dizendo que não devia sair do quartel-general numa época tão tensa, Stalin nem quis ouvir. “Esqueça, nós vamos resolver isso de alguma forma”, informou-o asperamente, acrescentando que o chefe do Estado-Maior poderia assumir o seu posto enquanto ele estivesse fora naquela missão.

Zhukov logo descobriu a verdadeira história. O general Konstantin Rokossovsky, cujo 16º Exército era responsável por aquela região, explicou que Dedovsk não tinha caído em poder dos alemães. Na verdade, suas tropas estavam lutando ao longo da estrada de Volokolamsk, mais ao norte, para evitar que os alemães rompessem as defesas em direção a Dedovsk e Nakhabino. Durante a luta, os alemães tinham tomado uma aldeia chamada Dedovo. Os nomes eram suficientemente parecidos para alguém confundi-los. “Era claro que o relatório que Stalin tinha recebido estava errado”, lembrou Zhukov.

Mas quando chamou o quartel-general para explicar o mal-entendido, Stalin explodiu numa raiva e exigiu que Zhukov retomasse a aldeia. Não importava que o local não tivesse nenhum valor tático ou estratégico, nem que ele estivesse pensando em outro lugar quando tinha dado a ordem original. O general não ia se livrar tão facilmente.

Obediente, Zhukov foi para o campo e disse a Rokossovsky e a outro general para tomarem a aldeia dos alemães. Na verdade, isso significava deslocar tropas para recuperar algumas casas. Com batalhas bem mais importantes por todos os lados, de início eles discordaram, mostrando que seria um desvio desnecessário, que resultaria em enviar uma companhia de fuzileiros através de uma ravina profunda, retirando-a da batalha principal. Em vez de se envolver numa discussão sem razão, Zhukov lhes disse que era uma ordem de Stalin, e deu fim à polêmica.

Quando, em 1º de dezembro, Zhukov informou a conclusão bem-sucedida daquela missão sem sentido, disseram-lhe que Stalin tinha convocado-o três vezes. “Onde está Zhukov?”, perguntou, aparentemente esquecido de que ele próprio o tinha enviado em uma missão. “Por que ele saiu?”

Naquele mesmo dia, tropas alemãs tinham lançado um novo ataque em outra parte do front que até então estivera tranquila. Finalmente, de volta ao seu quartel-general, Zhukov chamou Stalin para discutir este último ataque. Quando estavam terminando, o líder soviético mencionou a missão anterior. “Bem, e o que você diz de Dedovsk?”

Zhukov sabia que não adiantaria repetir que a cidade nunca estivera em perigo, e que o líder soviético a tinha confundido com uma pequena aldeia. Ele apenas informou que suas tropas expulsaram os alemães de Dedovo. Enfatizar o fato de que Stalin recebera informações erradas, aumentado a gravidade do erro ao se recusar a reconhecê-lo, só poderia prejudicar a si próprio. Nos seus contatos com Stalin, Zhukov ousava ser mais franco do que qualquer outro, mas também não tinha ilusões quanto aos riscos de provocar sua ira.

Sob esse aspecto, Stalin e Hitler administravam suas campanhas militares de maneiras semelhantes. Os dois ditadores intimidavam regularmente os seus generais, negando sua autoridade sempre que lhe parecia adequado. Mas no final de novembro e início de dezembro, os dois líderes estavam numa nova posição em relação um ao outro. A rápida marcha do exército alemão através da Rússia tinha-se interrompido às portas de Moscou, e o Exército Vermelho estava em posição de contra-atacar em algumas áreas, em vez de simplesmente continuar recuando. Essa situação iria testar a liderança militar de Stalin e de Hitler de novas formas.

Enquanto Stalin ordenava a Zhukov lançar a primeira contraofensiva no dia 6 de dezembro, Hitler respondia com enorme atraso aos apelos dos seus generais e reconhecia o quanto as suas tropas estavam exaustas e dispersas numa grande extensão e ordenou a interrupção, durante o inverno, do avanço para tomar Moscou e outros objetivos-chave. A diretiva 39 de Hitler, emitida em 8 de dezembro, declarava: “o severo inverno que chegou surpreendentemente cedo no leste e as dificuldades consequentes de transporte de suprimentos nos forçam a abandonar imediatamente todos as principais operações ofensivas e passar à defensiva”.

Tal como a recusa de Stalin em admitir a verdade sobre a confusão entre Dedovsk e Dedovo, a diretiva de Hitler era deliberadamente enganadora ao lançar sobre o inverno a culpa por todos os problemas do seu exército. Seus próprios erros – em particular o fato de não planejar uma campanha de inverno – tiveram pelo menos culpa igualmente grande. E enquanto o líder alemão ostensivamente permitia às suas tropas assumir posições defensivas, a realidade era bem mais complicada e desoladora no campo. Ele ainda se recusava a ouvir seus generais. A recusa de Stalin a ouvi-los nos momentos críticos também seria muito custosa, mas a fé inabalável de Hitler no seu próprio gênio militar teria consequências ainda mais graves nessa nova fase da Batalha de Moscou.

 

Os dois ditadores eram parecidos de outra maneira: ambos exigiam que seus exércitos lutassem essa guerra sem nenhuma consideração pelos conceitos mais rudimentares de humanidade. Tratamento brutal não era apenas tolerado, mas era incentivado, até exigido. No lado alemão, a propaganda nazista insistia todos os dias na mensagem às tropas de que seus inimigos eram Untermenschen ou sub-humanos. No lado soviético, a doutrina racista não era oficialmente parte da ideologia comunista, mas desenvolveu muito rápido sua própria força.

Ilya Ehrenburg, tal como Konstantin Simonov, era um famoso correspondente de guerra para o jornal do exército Krasnaya Zvezda, e escreveu suas linhas mais citadas sobre os alemães em 1942.

Agora sabemos. Os alemães não são humanos. Agora a palavra “alemão” tornou-se o insulto mais terrível. Não falemos. Não nos indignemos. Matemos. Se você não matar um alemão, ele o matará. […] Se você já matou um alemão, mate outro. Não há nada mais alegre que cadáveres alemães.

Apesar de esse artigo ter sido publicado depois de terminada a Batalha de Moscou, sentimentos semelhantes permeavam a cobertura da guerra de Ehrenburg e de outros durante a luta em torno da capital. O que não chega a surpreender. Foi Stalin quem deu o tom para todos os propagandistas no seu discurso na estação Mayakovsky do metrô no dia 6 de novembro, quando prometeu: “bem, se os alemães querem uma guerra de extermínio, eles vão tê-la”.

Desde o início da guerra, o líder soviético não deixou dúvida de que, nesse processo, não se preocupava com o número de mortos entre o seu próprio povo. Já em setembro, Stalin ouviu relatos de que as forças alemãs que atacavam Leningrado tinham colocado velhos e crianças à sua frente como escudos humanos. O líder soviético respondeu denunciando “o porco alemão” por essa tática, mas deu instruções claras aos seus generais para não se preocuparem com as baixas civis.

Meu conselho é: não sejam sentimentais, esmaguem nos dentes os cúmplices do inimigo por opção ou contra a vontade. Agridam os alemães e seus delegados, quem quer que sejam, com tudo que tiverem, destruam o inimigo, sejam eles inimigos por opção ou contra a vontade.

Abram Gordon, que tinha se apresentado como voluntário logo após a formatura no Instituto Pedagógico do Estado em Moscou, aprendeu rapidamente o que significava em termos práticos essa abordagem deliberadamente desumana da guerra. No início de outubro, ele fazia parte de uma unidade designada para bloquear o avanço alemão em direção à capital, pela estrada de Varsóvia. Os 2 mil homens eram superados em armas e números. Durante um dia de batalha intensa eles tentaram desesperadamente parar os tanques alemães com granadas e coquetéis molotov até quando mesmo essas frágeis armas se esgotaram. Apenas cerca de 300 a 350 dos soldados soviéticos ainda estavam vivos e em condições de se moverem no final do dia. Sua única esperança era recuar para a floresta sob a cobertura da noite, deixando para trás os mortos e os gravemente feridos. “Só se pode imaginar o que teria acontecido a eles no dia seguinte quando os alemães ocuparam o território”, disse Gordon.

Nos estágios finais da batalha, Gordon e outros soldados encontraram dez alemães perdidos que se renderam de imediato. “Tínhamos de decidir o que fazer com eles”, lembrou Gordon, ainda visivelmente infeliz com aquela lembrança. “O fato é que tínhamos de recuar para a floresta o mais rápido possível. Não podíamos trazê-los conosco e não podíamos libertá-los.”

Muitos veteranos soviéticos preferem nem mencionar incidentes como esse, e Gordon claramente gostaria de parar por aí. Mas pressionado a esclarecer o que estava sugerindo, ele acrescentou: “tivemos de fuzilá-los”. E admitiu que era um dos homens designados para compor o pelotão de fuzilamento. “Tive ordens de matá-los. Por muito tempo essa lembrança me atormentou, mas agora eu entendo perfeitamente que essas medidas eram necessárias. Éramos soldados em guerra, onde ou você mata ou é morto.”

A situação se inverteu quando os alemães o capturaram. Levado para um pátio enorme, ele se viu atrás de uma cerca de arame farpado com milhares de outros prisioneiros de guerra soviéticos. Os captores alemães puseram-nos em fila e começaram a marchar para oeste, presumivelmente para um dos campos de prisioneiros, que tinham instalado atrás da linha de frente.

Naquele momento Gordon se viu na primeira de uma série de situações de perigo imediato. Olhando diretamente para ele, um guarda alemão gritou a pergunta: “você é judeu”? Como ele próprio admitiu, suas feições morenas deixam pouca dúvida quanto à resposta. Aterrorizado demais para responder, de repente ele ouviu alguém ao seu lado gritar a resposta: “não, ele é do Cáucaso”. Gordon está convencido de que aquelas palavras lhe salvaram a vida.

Os prisioneiros foram forçados a marchar mais de 50 km antes de terem permissão para descansar ao lado da estrada. Lá ele conheceu o tenente Nicolai Smirnov, que já pensava em fugir. Quando o oficial sugeriu a Gordon que tentassem se esconder em uma das muitas pilhas de feno próximas, o soldado não pensou duas vezes. Calculou que suas chances de sobrevivência na prisão eram quase zero.

Durante cerca de duas horas, os dois homens se arrastaram com dificuldade até as pilhas de feno, pois queriam ter certeza de que os guardas não os veriam. Conseguiram e se afundaram em uma das pilhas, passando umas três ou quatro horas lá. Durante esse tempo outros prisioneiros notaram sua ausência e, calculando o que tinham feito, decidiram fazer a mesma coisa. Mas quando chegaram às pilhas de feno, os guardas os viram. Logo o ar se encheu de gritos quando os alemães começaram a fincar suas baionetas nos locais onde eles acabaram de se esconder, e a atirar em outros. Como Smirnov e Gordon estavam no fundo da pilha, os dois sobreviveram ilesos.

Quando a escuridão já era completa e os alemães retomaram a marcha dos prisioneiros, Smirnov e Gordon finalmente saíram da pilha e começaram a voltar para o território controlado pelos soviéticos. Com a ajuda dos aldeões que lhes deram comida e orientação, eles encontraram suas tropas. Mas sua provação não tinha terminado.

Ao lado de vários outros homens que conseguiram fugir ou simplesmente se perderam das suas unidades, eles foram enviados de volta a Moscou para serem torturados pelos interrogadores militares. Smirnov e Gordon decidiram contar sua história, incluindo tudo, até o breve período de prisão nas mãos dos alemães. Calcularam que não poderiam ser considerados prisioneiros de guerra – traidores aos olhos do regime de Stalin –, pois tinham conseguido fugir em muito pouco tempo.

Mas o serviço de contrainteligência considerava igualmente suspeita uma volta rápida, pois isso poderia ser uma indicação de que eles estavam espiando para os alemães. Levado para o mesmo dormitório onde dormia quando era estudante, Gordon descobriu que aquele local fora transformado num centro de interrogatórios. Quando chegou a sua vez de enfrentar o interrogatório, ele foi levado para a sala 13, a mesma onde tinha vivido antes. Parecia uma estranha coincidência.

Mas não havia tempo para nostalgia. O oficial que o interrogou obviamente não acreditou na sua história e não deixou dúvida de que o considerava um possível espião. “Sou judeu”, Gordon declarou frustrado, tentando demonstrar que não teria condição de convencer os alemães a poupá-lo, mesmo que se dispusesse a espionar para eles. Isso finalmente convenceu o interrogador a liberá-lo, enviando-o de volta ao serviço militar. “Foi a única vez na minha vida em que minha origem me ajudou”, observou Gordon com ar infeliz.

Smirnov não teve tanta sorte. Seu interrogador o despachou para um campo de prisioneiros em Mordovia, uma região a sudeste de Moscou, onde morreram muitas vítimas do Gulag. Como oficial, ele era duplamente suspeito e foi enviado oficialmente para lá para poder ser examinado com mais detalhe. Gordon soube mais tarde, quando tentou descobrir o que tinha acontecido com o corajoso tenente que inventara o meio de ele fugir, que Smirnov morrera no campo de prisioneiros cerca de quatro meses depois. A causa oficial de morte foi tuberculose.

Elena Rzhevskaya, a futura escritora que aprendera alemão e sempre servia como intérprete do Exército Vermelho durante os interrogatórios dos prisioneiros de guerra alemães, lembrou seu espanto quando descobriu que o inimigo operava sob regras diferentes. Ao interrogar um tenente alemão, parte de um grupo de 16 homens que se renderam quando foram cercados por forças soviéticas, ela lhe perguntou se sua ação seria considerada traição. “Não, não é”, respondeu o tenente, acrescentando que seus homens lutavam melhor por saberem que podiam se render se fosse necessário. Relembrando aquele encontro décadas depois, Rzhevskaya ainda parecia surpresa. “Ao contrário dos soldados soviéticos, os soldados alemães não eram punidos [por seu próprio lado] por serem capturados”, disse ela. “Os que sobreviviam eram até promovidos.”

Mas muitos alemães já estavam mal quando eram capturados e vários não sobreviviam às provações subsequentes. Tal como outros soldados soviéticos, Rzhevskaya conheceu alemães capturados que pareciam quase cômicos no desespero de se proteger do inverno frígido – vestindo qualquer roupa que conseguissem tomar da população local, geralmente mulheres, pois os homens tinham ido para a guerra.

Rzhevskaya se lembrava em particular de um prisioneiro de guerra, logo depois de ter sido preso:

O alemão estava congelado, tinha pingentes de gelo no rosto e nas roupas. Estava enrolado num grosso xale de mulher, e o chapéu estava sobre o xale, que era bastante grande para envolver todo o seu corpo. Ele também usava botas de palha do tipo que os alemães obrigavam os habitantes locais a fazer para eles.

Sua aparência bizarra de início lhe oferecia um pouco de proteção, levando os russos a sorrir, em vez de descarregar a raiva sobre eles. Ele percebeu e ergueu as mãos para mostrar que estavam enfiadas em meias de lã, em vez de luvas, aumentando o efeito cômico.

Mas, como Rzhevskaya notou, o humor mudou quando o prisioneiro foi levado para uma cabana para ser interrogado. “Como estava quente na cabana, os pingentes de gelo começaram a derreter do seu rosto e ele começou a perder a camuflagem engraçada”, disse ela. “Ele pareceu confuso e começou a tocar o rosto como se tentasse segurar sua armadura que se derretia.”

As visões dos chamados “fritz do inverno”– os alemães que estavam reduzidos a tomar qualquer roupa dos habitantes locais para se manterem aquecidos – tornaram-se fonte de lembranças dos veteranos soviéticos. Albert Tsessarsky, o ordenança médico que foi mandado com seu pelotão de guardas nacionais para bloquear o avanço alemão sobre Moscou em Mozhaisk, se lembrava do que viu quando sua unidade se juntou à contraofensiva em 6 de dezembro. Depois de cruzar o rio Moscou congelado, os soldados soviéticos encontraram os cadáveres de alemães abandonados pelos companheiros em retirada. Um alemão morto usava um sutiã enrolado na cabeça, evidentemente para tentar proteger as orelhas do congelamento. Os outros estavam enrolados em tudo que encontraram para lutar contra o frio, e só usavam botas leves de couro. “Devo dizer que naquele momento senti uma enorme alegria, tamanha satisfação por eles terem recebido o que mereciam”, disse ele. Mais tarde, acrescentou, aquelas emoções passaram e ele só se lembrava da visão “horrível” daqueles homens que tinham seguido “cegamente para suas mortes”.

Nos primeiros estágios da luta, os alemães capturados exalavam desafio. Zoya Zarubina, outra jovem que agia como intérprete durante os interrogatórios dos prisioneiros de guerra, relembrava o “sentimento inicial de choque ao ver o inimigo sentado do outro lado da mesa – a arrogância deles”. Contudo, mais tarde ela os via cada vez mais como “doentes, amedrontados, um fantasma do exército que tinha invadido”. Alguns ainda estavam firmemente convencidos de que Hitler venceria, mas muitos deles estavam apenas aterrorizados por tudo que lhes acontecia, abatidos por meses de combate e por um clima implacável.

Para os seus colegas no Exército Vermelho, havia sempre a dimensão adicional do terror imposto por um regime que se recusava a aceitar a possibilidade da rendição. Yevgeny Anufriyev, que estudava arquitetura até o início da guerra, foi designado para um pelotão da NKVD de 80 homens, que deveria atacar os alemães na defesa de suas posições durante a contraofensiva soviética. Vestindo sobretudos brancos camuflados e operando em esquis, eles se moviam depressa – mas logo aprenderam que não estavam tão preparados para o combate como pensavam. “Homens não deviam lutar com esquis em aldeias”, observou. “Há os jardins e os portões, e os pés se prendem nos esquis.” Durante um dos primeiros ataques, suas metralhadoras se mostraram quase inúteis. “Os homens tiveram de pagar com o próprio sangue pelos erros do alto-comando. Ninguém nos avisou que a lubrificação das armas congelava no inverno. Nossas metralhadoras não funcionavam porque congelavam.”

A batalha que se seguiu custou as vidas de muitos dos homens do pelotão. Mas no momento em que tentavam se livrar de uma barragem de fogo inimigo, ninguém pensou em se render. “Não tínhamos permissão para nos render”, declarou Anufreyev. Naquele ponto, a maioria dos soldados sabia muito bem as consequências que sofreriam no seu próprio lado, mesmo que sobrevivessem à prisão dos alemães. Escondidos num abrigo e ao descobrir que só tinha três balas, Anufreyev apontou sua pistola para a cabeça, pronto a puxar o gatilho. Naquele momento, outro soldado, que carregava o comandante do pelotão gravemente ferido, gritou para ele: “ajude-me!”. De alguma forma, os dois conseguiram carregar o líder e evitar as balas até encontrarem mais soldados e fugir da aldeia. O pedido de socorro salvou as vidas do oficial e de Anufreyev.

O heroísmo das patrulhas em esqui foi mais tarde celebrado em artigos na imprensa soviética relatando que, apesar das taxas de mortalidade extraordinariamente altas, nenhum dos homens se rendeu. “Estávamos prontos a nos matar para não sermos capturados”, disse ele. Mas o que produziu determinação tão feroz foi uma mistura de medo e coragem. Stalin estava sempre disposto a puxar o gatilho se seus homens hesitassem.

 

Hitler estava também determinado em fazer seus homens se levantar e lutar, o que provocou a sua famosa confrontação com o afamado comandante de tanques, Heinz Guderian, e outros importantes generais que ousaram questionar suas decisões. Enfrentando a contraofensiva soviética lançada no dia 6 de dezembro, o ditador alemão começou a exibir comportamento errático e a recusar-se a reconhecer a realidade no campo que em última análise levou à sua queda. Com o benefício da visão em perspectiva, a Batalha de Moscou ofereceu a primeira demonstração clara dos seus erros como líder militar.

Apesar de relutantemente Hitler ter dado a ordem de interromper as operações ofensivas em 8 de dezembro, ele se recusou de modo enfático a aceitar o conselho de quem comandava tropas nas proximidades de Moscou sobre como melhor poderiam se defender e preservar sua força durante o duro inverno. Se os alemães queriam uma chance de retomar o avanço para tomar a capital soviética na primavera, tinham de minimizar suas perdas. Mas, tal como Stalin, Hitler via como sinal de fraqueza toda consideração pelas perdas humanas ligadas às suas políticas, apesar dos sinais crescentes de que o líder soviético era capaz de sacrificar mais homens que o seu colega alemão.

Guderian instalou seu quartel-general avançado em Yasnaya Polyana, a propriedade de Tolstoi ao sul de Moscou. Ao descrever sua visita ao local em 2 de dezembro, ele diria mais tarde que “nenhum pedaço de mobília foi queimado, nenhum livro ou manuscrito foi tocado”. Isso estava em completo desacordo com o que os soldados soviéticos encontraram quando retomaram o terreno duas semanas depois, ou com o que contaram os habitantes locais. Antes de fugirem, os alemães se aqueceram construindo fogueiras dentro da casa – de acordo com alguns relatos, usando como combustível os manuscritos da biblioteca de Tolstoi. E bem ao lado da sepultura do famoso escritor, eles enterraram cerca de 70 dos seus mortos, deixando destruídos o jardim e o parque. Um grande marco de madeira declarava que eles tinham caído “pela Grande Alemanha”.

Maria Shchegoleva, a irmã do curador do museu Tolstoi, disse à jornalista francesa Eve Curie, que visitou o local em janeiro de 1942, que os alemães tentaram incendiar os principais edifícios quando partiram. Depois de lançarem fogo na casa de Tolstoi, na escola e nas construções restantes, eles disseram aos russos que não deviam tentar entrar, pois todos os prédios estavam minados. Disse Shchegoleva:

Não demos atenção ao aviso, e tão logo os nazistas saíram, começamos a combater o incêndio com os extintores que os alemães não tinham encontrado e que ainda estavam em condições de uso – e com água trazida com dificuldade do poço, coberto de gelo e de 60 centímetros de neve.

Graças a esses esforços, o dano não foi tão devastador: no final de maio de 1942, os russos reabriram o museu em honra à vida e obra de Tolstoi.

Mas Eve Curie observou amargamente que ficou sabendo de uma coisa mais assustadora ocorrida durante a ocupação alemã: os cadáveres de dois russos continuaram pendurados por quatro dias na praça principal da aldeia. “Não podia haver ofensa maior à memória de Leon Tolstoi”, escreveu ela.

É concebível que grande parte da profanação tenha ocorrido depois da visita de Guderian a Yasnaya Polyana, mas de qualquer forma, honrar a memória de Tolstoi não seria a principal preocupação de um general alemão, que sabia que suas tropas estavam congelando – no dia 4 de dezembro, por exemplo, ele registrou que a temperatura chegou a -35ºC – e que as ulcerações pelo frio estavam provocando pesadas baixas. “O inimigo, o tamanho do país e o mau tempo foram todos subestimados, e agora sofríamos por isso”, escreveu ele à sua mulher.

Antes mesmo de Hitler ter dado a ordem de suspender as operações ofensivas, Guderian já tinha concluído que Moscou não poderia ser tomada naquele inverno. Apesar de outras unidades Panzer atacando do noroeste terem chegado a menos de 30 km do Kremlin, observou ele, “elas foram forçadas a abandonar o ataque porque careciam da força necessária para tomar o grande prêmio, agora tão próximo”. Guderian estava convencido de que a única forma de preservar a força alemã era recuar suas tropas para posições mais distantes das linhas de frente, se possível para áreas onde suas tropas tinham aberto trincheiras e fortificado-se antes de o terreno se congelar. “Mas isso era exatamente o que Hitler tinha se recusado a permitir”, queixou-se.

Os superiores imediatos de Guderian nutriam simpatia por seus apelos, pois reconheciam suas fraquezas antes mesmo de Zhukov lançar sua contraofensiva. “As lutas dos últimos 14 dias nos mostraram que a noção de que o inimigo diante do grupo de exércitos entrou em ‘colapso’ era uma fantasia”, escreveu no seu diário o marechal de Campo Fedor von Bock, comandante do Grupo de Exércitos Centro, em 1º de dezembro. Ele completou:

Parar diante dos portões de Moscou, para onde converge a rede de estradas e ferrovias de quase toda a Rússia Oriental implicava pesadas lutas defensivas contra um inimigo numericamente muito superior. As forças do grupo de exércitos não têm capacidade para tanto, nem por um tempo limitado.

O marechal de campo Von Brauchitsch, comandante em chefe do exército, autorizou Guderian a iniciar recuos limitados, que foram rapidamente executados. Mas Hitler insistiu em passar a mensagem de se tratarem de exceções, e não a regra. Falou a Guderian na noite de 16 de dezembro. Apesar da baixa qualidade da ligação, ele conseguiu transmitir a sua mensagem: o general devia manter sua posição corrente e nenhum recuo adicional seria tolerado. Como observou no seu diário de guerra, o chefe do Estado-Maior do exército, general Franz Halder, Hitler reiterou essas instruções à sua equipe de comando à meia-noite – junto com a desconsideração cheia de desprezo por todos que pediam um recuo mais amplo. “Um recuo geral está fora de questão”, registrou Halder. “O inimigo só fez substanciais penetrações em poucos pontos. A ideia de preparar posições na retaguarda não passa de tolice.”

O marechal de campo Erich von Manstein fez um paralelo direto entre o comportamento do líder alemão quando começou a sofrer os primeiros resultados negativos, e o do seu colega soviético no início do conflito. “A reação de Hitler, quando ocorreu a primeira crise diante de Moscou, foi adotar o preceito de Stalin de se agarrar obstinadamente a todas as posições”, escreveu depois da guerra. “Foi a política que levou os líderes soviéticos à beira do abismo em 1941…”

Quando Guderian foi convocado ao quartel-general de Hitler em 20 de dezembro, o líder alemão já havia demitido Von Brauchitsch, comandante em chefe do exército que tinha concordado com alguns planos de realocação de Guderian, e assumiu ele próprio o comando do exército. Se ainda havia dúvidas de que Hitler acreditava na superioridade da sua capacidade e de que desprezava os seus generais, essa decisão liquidou-as. “Esse pequeno problema de comando operacional é algo que qualquer um é capaz de resolver”, disse ele a Halder. “A tarefa do comandante em chefe é treinar o exército nos métodos nacional-socialistas. Não sei de nenhum general que o fizesse como eu o que era para ser feito, por isso decidi assumir eu mesmo o comando do exército.”

Hitler também tinha se livrado de Von Bock, o comandante do Grupo de Exércitos Centro, que argumentara, em vão, contra as suas ordens de manter as posições avançadas nos caminhos para Moscou. Guderian sabia que essas decisões não eram um bom sinal para o encontro cara a cara com Hitler, embora ainda esperasse que o líder alemão retivesse alguns sentimentos positivos em relação a ele.

Guderian perdeu as ilusões quanto a essa ideia ao entrar na sala mal iluminada onde Hitler e sua entourage o esperavam. “Quando Hitler avançou para me cumprimentar, vi pela primeira vez para minha surpresa uma expressão dura e inamistosa nos seus olhos”, escreveu mais tarde. O general dos Panzers que tinha encantado o Führer com seus planos ousados e desempenho brilhante estava agora entrando em território hostil.

Questionado sobre os movimentos do seu exército, Guderian deu sinais da sua intenção em continuar o recuo para as posições mais seguras que Von Brauchitsch tinha autorizado.

“Não, isso eu proíbo!”, gritou Hitler.

Guderian explicou que a única maneira de evitar perdas desnecessárias de seus homens era continuar com a realocação iniciada. Mas Hitler já tinha tomado a sua decisão e insistiu que as tropas “deviam cavar o solo onde estão e manter todos os metros quadrados de terreno!”.

“Cavar o solo já não é viável em muitos lugares, pois ele está congelado até uma profundidade de 1,5 m e nossas ferramentas de escavação não conseguem cortá-lo”, respondeu Guderian.

“Nesse caso abram crateras com obuses pesados. Foi o que tivemos de fazer na Primeira Guerra Mundial em Flandres.”

“Em Flandres nunca houve o frio que estamos enfrentando. Além disso, preciso da minha munição para atirar nos russos”, argumentou Guderian. E, mais uma vez, ele avisou das possíveis consequências de uma estratégia inflexível: “se essas táticas forem adotadas durante o próximo inverno, vamos sacrificar as vidas de nossos oficiais, nossos suboficiais e dos homens indicados para substituí-los, e esse sacrifício terá sido não somente inútil, mas irreparável”.

“Você acredita que os granadeiros de Frederico, o Grande, estavam ansiosos para morrer?”, retrucou Hitler. “Eles também queriam viver, mas o rei estava certo ao lhes pedir para se sacrificarem.”

Quando Guderian lembrou a ele que a maioria dos soldados usavam uniformes de verão, Hitler se recusou a acreditar. “Isso não é verdade”, insistiu ele. “O intendente-geral me informou que os uniformes de inverno já foram fornecidos.” Guderian observou que, mesmo que tivessem sido fornecidas, as roupas quentes ainda não tinham chegado aos soldados. Acrescentou que tinha descoberto um grande carregamento de roupas que estava há muito retido na estação de Varsóvia, e era improvável que elas fossem enviadas a tempo de ajudar os soldados naquele inverno.

Embora estivesse convencido de que Guderian exagerava os sofrimentos nas linhas de frente, Hitler tinha uma crítica mais fundamental ao general que antes tinha elogiado. “Você está impressionado demais pelo sofrimento dos soldados. Sente muita pena deles.”

Do ponto de vista do líder alemão, não poderia haver uma acusação mais grave que aquela, e essa conversa selou o destino de Guderian. Demitido do seu posto e transferido para a reserva, o lendário general dos Panzers enviou sua mensagem de despedida aos seus homens no dia 26 de dezembro. “Sei que vocês vão continuar a lutar com a bravura de sempre e que, apesar das dificuldades do inverno e da superioridade do inimigo, vocês vencerão”, declarou ele. Mas, por todas as indicações, Guderian já não acreditava nas suas próprias palavras.

Time-Life Pictures/Getty Images

 

Time-Life Pictures/Getty Images

 

O frio severo do inverno chegou cedo, quando as tropas alemãs

tentavam tomar Moscou. Como Hitler tinha se convencido de que

elas triunfariam antes da mudança do clima, os soldados, em sua

maioria, não tinham uniformes de inverno. As tropas soviéticas

passaram a capturar um número cada vez maior de soldados

alemães malvestidos e congelados.

 

Com a contraofensiva soviética em andamento, o Kremlin rapidamente proclamou vitória. No dia 13 de dezembro, o Pravda publicou uma história triunfante sob a manchete “Colapso dos planos dos comandantes alemães para sitiar e tomar Moscou. Tropas alemãs derrotadas perto de Moscou”. Nos primeiros quatro dias da contraofensiva soviética, entre 6 e 10 de dezembro, o jornal afirmava que o Exército Vermelho tinha retomado mais de 400 cidades e os alemães tinham sofrido cerca de 30 mil baixas. Relatou também a captura de 386 tanques, 4.317 veículos, 101 morteiros e 515 metralhadoras, além da destruição de outros 271 tanques e 565 veículos, 119 morteiros e 131 metralhadoras, e outros armamentos. “Essa informação é incompleta, mas não temos agora a oportunidade de relacionar todos os nossos troféus da nossa ofensiva”, acrescentou. Como sempre, era também incompleta de outra forma: o relato não oferecia nenhuma indicação da escala das baixas e perdas soviéticas.

Depois de um resumo do progresso das várias unidades responsáveis por aquelas ações, o artigo citava um boletim alemão de informações do início de dezembro, para desacreditá-lo. “Comandantes alemães vão considerar Moscou o principal alvo, mesmo que Stalin desloque o centro da ação militar para outra área”, declarava o boletim. “Alguns comandantes alemães informam que o ataque alemão contra Moscou é tão bem-sucedido que, com bons binóculos já podem ver o que acontece dentro da cidade.” O Pravda zombava dessas afirmações, concluindo que a cidade tinha sido salva e os alemães estavam derrotados.

A evidência para sustentar aquela afirmação podia ser encontrada nos acessos a Moscou, onde as forças soviéticas forçavam o recuo dos alemães, apesar das ordens de Hitler para suas tropas manterem suas posições. Vasily Grossman, o correspondente de guerra do Krasnaya Zvezda, escreveu no seu diário: “tudo está muito diferente do que era no verão. Há muitos veículos alemães quebrados nas estradas e na estepe, várias armas abandonadas, centenas de cadáveres alemães, capacetes e armas espalhados por toda parte. Estamos avançando!”.

O tenente Richard Wernicke, que participou dos ataques aéreos contra Moscou no seu bombardeiro de mergulho Ju-87 Stuka, lembrou os relatos horríveis que começou a ouvir de seus companheiros aviadores que participavam de ataques aéreos ao sul da capital. Falavam da “visão inesquecível” de centenas de tanque alemães incendiados em terra. Era particularmente terrível porque os aviadores viam que suas próprias tripulações começaram os incêndios, depois de terem esgotado o combustível ou da pane dos motores. Como tinham de recuar, os soldados eram forçados a adotar medidas como aquelas para evitar que os tanques caíssem em mãos russas.

Em terra, Kurt Gruman, o tenente de infantaria que mantinha um diário enquanto seu regimento tentava abrir caminho lutando até Moscou, observou que aquilo valia para tudo que os alemães tinham trazido consigo. “Tudo precisa ser destruído”, escreveu em 15 de dezembro. No dia seguinte, ele se queixou: “o moral e a disciplina durante essa retirada foram submetidos a pesados golpes. Quanta propriedade valiosa se perdeu em vão! Eles nem se incomodam por destruir tudo. Temo que aquelas munições caiam sobre a nossa cabeça”.

As linhas de suprimento já não estavam apenas distendidas; tinham-se rompido completamente em muitos casos. Afirmando que as condições terríveis do tempo não permitiam que os aviões decolassem, Gruman refletiu o sentimento geral de desespero. “Agora não podemos mais esperar a chegada de suprimentos”, escreveu no dia 21 de dezembro. “O que isso fará a nós? Há um sentimento entre os homens como se tivessem sido postos em serviços por alguém que se esqueceu de enviar substitutos. Não fomos abandonados?” Acrescentou em tom de queixa: “dá vontade de uivar de frustração”.

E, como sempre, o frio inclemente aumentava a sensação de desespero. Gruman tentava manter-se aquecido com dois sobretudos e um cobertor, mas ainda sentia que o frio penetrava por todos os lados. Um hospital de campo improvisado estava cheio de homens com ulcerações de 2° e 3° graus provocadas pelo frio. “Pernas inchadas cobertas de pústulas, de forma que já não são mais pernas, mas uma espécie de massa disforme”, registrou ele no seu diário. “Em alguns casos, a gangrena já se instalou. Os que conseguiram atravessar o dilúvio de estilhaços, aqui se tornam inválidos.” Durante aquele período, em algumas unidades, mais soldados eram aleijados por ferimentos do frio do que por ferimentos no campo de batalha.

Apesar de ainda tentar se obrigar a acreditar que a Alemanha no fim venceria – “não há dúvidas de que no verão os bolcheviques voltarão a sentir o nosso poder” –, seu diário irradiava um desespero crescente. Apareciam cada vez mais referências aos russos penetrando suas posições à medida que os alemães recuavam. Em janeiro, os textos se tornaram mais curtos e a última entrada foi em 17 de fevereiro. Naquele dia ou pouco depois, Gruman também provavelmente morreu. Não há como saber se ele morreu em batalha ou simplesmente de frio.

À medida que os feridos mais graves em batalha ou pelo frio eram enviados de volta para tratamento na Alemanha, tornou-se cada vez mais difícil para o regime de Hitler sustentar a ficção de que a guerra evoluía de acordo com os planos. “Aumenta a ansiedade do povo alemão com relação à frente leste”, Joseph Goebbels, o principal propagandista de Hitler, confidenciou em seu diário em 22 de janeiro de 1942: “Mortes causadas pelo frio são um fator especialmente importante nessa ligação.” Goebbels se queixava amargamente em especial do “efeito devastador” das correspondências que os soldados enviavam para seus entes queridos. “Palavras não podem descrever o que os soldados estão enviando do front para casa”, escreveu ele. Aparentemente, as autoridades alemãs eram bem menos eficazes do que suas equivalentes russas em separar as cartas com queixas.

Nem mesmo no seu diário Goebbels admitia a verdade daquelas correspondências. Lançava a culpa pelo tom de muitas das cartas chegadas do front em soldados que queriam se sentir importantes dramatizando a sua situação. “A paixão de se exibir tem, nesse caso, um papel considerável”, escreveu. “Quando o soldado escreve e exagera, ele não para para pensar que pode estar causando à sua família e parentes muita preocupação.” Apesar de declarar que estava recomendando uma doutrinação mais forte dos soldados, ele não dava muita esperança de que isso iria produzir o efeito desejado. “É uma questão de fraqueza humana, contra a qual somos impotentes.”

Como seu chefe, Goebbels já culpava os oficiais e soldados por fracassarem, sem aceitar responsabilidade pelas decisões que tiveram como consequência deixá-los naquelas condições extremas de inverno sem nem mesmo roupas adequadas. Se o moral desabava, os culpados eram os soldados. Se não suportavam sem queixas os sofrimentos, é porque não tinham sido adequadamente doutrinados.

Isso convenientemente desprezava dois fatores-chave. O primeiro era a crença de Hitler de que suas tropas poderiam conquistar a vitória antes da chegada do inverno – o que foi um erro fatal de cálculo, devido em grande parte aos seus erros táticos. E o segundo era a decisão do líder alemão relativa às prioridades de transporte.

Ao longo dos primeiros meses de invasão, Hitler teve de decidir-se entre enviar roupas de inverno, alimentos ou munição para o front. Precisou avaliar qual das três necessidades atender primeiro, pois a capacidade do sistema ferroviário alemão estava fortemente limitada. O sistema ferroviário soviético operava em bitola larga que não era usada no restante da Europa, e apenas uma pequena parte dos trens alemães estava equipada para ela. Além disso, as locomotivas alemãs quebravam com muita frequência quando a temperatura caía. Apesar de enviar alguns suprimentos de comida e de ordenar às suas tropas que tomassem o que pudessem dos territórios ocupados, Hitler decidiu dar prioridade máxima ao transporte de munições. Quanto às roupas quentes, mesmo quando estavam prontas para o transporte, não havia espaço para elas nos vagões com destino ao leste. Foi, por exemplo, o que se deu com as roupas de inverno que Guderian localizou na estação de Varsóvia.

Numa transmissão pelo rádio em 21 de dezembro de 1941, Goebbels apelou ao povo alemão para doar roupas de inverno para os homens no front, pedindo que oferecessem tudo que pudessem para ajudar a manter aquecidos os soldados. Guderian estava convencido de que isso foi resultado direto das suas queixas na sua reunião com Hitler no dia anterior sobre a falta de roupas de inverno. Mas dado os problemas de transporte, essa iniciativa das roupas foi insuficiente, e muito tarde para soldados que tentavam sobreviver ao primeiro inverno da guerra. A maior parte dos agasalhos não chegou a tempo para o período mortalmente frio.

Numa entrada no diário em 6 de março de 1942, Goebbels contou as perdas alemãs em toda a frente oriental, não apenas nas lutas próximo a Moscou, desde o início da Operação Barbarossa. Calculou o número de mortos em 200 mil e o total de mortos, feridos e desaparecidos próximo de um milhão. Anotou, em especial, o impacto das condições de inverno:

Até 20 de fevereiro, foram relatados 112.627 casos de congelamento e de ulcerações pelo frio, inclusive 14.357 casos de 3° grau e 62 mil de 2° grau. […] O número dos que sofreram por causa do congelamento é consideravelmente maior do que tínhamos imaginado de início.

E, mais uma vez, ele se preocupou com o impacto sobre o moral. “Mesmo assim como está, o número final é apenas uma pequena fração do que se espalha como boatos entre o povo”, escreveu ele.

Como sempre, a implicação era a de que aqueles sacrifícios não estavam sendo suportados com a dignidade e aceitação estoicas que a liderança nazista exigia e esperava.

Zhukov gostou de ver o seu exército forçar o inimigo a recuar dos arredores de Moscou, mas sabia que os alemães ainda tinham considerável poder de fogo. Também sabia as limitações de suas próprias tropas, que continuavam a morrer em números bem maiores do que as dos alemães, e que os soldados sobreviventes estavam castigados e exaustos. Assim, quando foi convocado à Stavka, ou Alto-Comando Supremo, para uma reunião em 5 de janeiro, para discutir a próxima fase da contraofensiva com Stalin, outros líderes políticos e o alto-comando militar, compreensivelmente ele se encheu de cautela. Tinha plena consciência das limitações das forças à sua disposição que teriam de executar as novas ordens.

No início da reunião, o marechal Boris Shaposhnikov, o ríspido ex-general czarista que tinha sobrevivido aos expurgos e ascendido à posição de chefe do Estado-Maior, apresentou uma visão da situação militar. Para tristeza de Zhukov, ele também delineou planos para uma nova ofensiva maciça destinada a não apenas empurrar os alemães para mais longe de Moscou, mas também a quebrar o sítio de Leningrado e a derrotar as forças alemãs na Ucrânia e no Cáucaso. Em outras palavras, o Exército Vermelho deveria atacar em todos os fronts.

Shaposhnikov por certo não imaginou aqueles planos sozinho – e ele sabia quem os aprovaria. “Os alemães parecem perplexos por sua derrota em Moscou e estão mal preparados para o inverno”, declarou Stalin. “Agora é a hora de lançar uma ofensiva geral.”

Zhukov avisou que aquela seria uma estratégia perigosa. Enquanto insistia na continuação da ofensiva na frente ocidental para afastar os alemães de perto de Moscou, ele pediu mais reforços e equipamentos, especialmente tanques para as divisões sob seu comando. “Quanto às ofensivas nas proximidades de Leningrado e no sudoeste, as forças que estão lá enfrentam enormes defesas do inimigo”, explicou. “Sem forte apoio da artilharia, nossas forças não terão condições de rompê-las, elas se esgotariam e sofreriam perdas pesadas e bastante injustificáveis.” Vindo de um comandante que nunca hesitou em sacrificar seus homens quando isso servia para conquistar seus objetivos, a mensagem era clara: uma ofensiva geral inevitavelmente fracassaria e se mostraria contraproducente.

Nikolai Voznesensky, responsável pelo planejamento econômico de guerra, aliou-se a Zhukov, mostrando que não teria como entregar o equipamento militar necessário para apoiar uma iniciativa tão ambiciosa. Mas Malenkov e Beria logo descartaram suas objeções, alegando que ele sempre exagerava as dificuldades. (Em 1950, durante outra rodada de expurgos, Voznesensky foi julgado e fuzilado.)

Como Zhukov já tinha imaginado, Stalin estava decidido, e nada que ele ou Vosnesensky dissessem faria a menor diferença. “Discuti o assunto com [o marechal] Timoshenko, e ele apoia o ataque”, acrescentou o ditador. “Temos de esmagar rapidamente os alemães para que não possam atacar quando chegar a primavera.” Houve então um floreio final: “assim, isso, ao que parece, encerra a discussão”, disse Stalin.

Ao saírem da reunião, Shaposhnikov se voltou para Zhukov. “Seria tolice discutir. O chefe já decidiu.”

Zhukov lhe perguntou por que Stalin tinha se dado ao trabalho de pedir a sua opinião. Shaposhnikov suspirou. “Não sei, meu velho, não sei.”

Tal como Hitler, Stalin não gostava de ouvir os seus generais quando tentavam lhe dizer algo que ele não queria ouvir – nem mesmo quando sua obstinação resultasse naquele tipo de “perdas completamente injustificáveis”, contra as quais Zhukov o tinha acautelado. Como sempre, o preço humano das suas decisões era a menor das preocupações de Stalin. Em 7 de fevereiro, por exemplo, os alemães interceptaram as ordens transmitidas por rádio aos comandantes soviéticos no campo. O teor da mensagem: os comandantes deviam fazer o possível para poupar munição, mas não os seus homens.

Relembrando aquelas batalhas com suas tantas mortes, Mikhail Geykhman, um tenente de uma das divisões siberianas de artilharia, que participou da ofensiva a oeste de Moscou naquele inverno, torna-se filosófico. “Não estávamos preparados para lutar uma guerra com menos baixas”, disse ele. Apesar de afirmar que o moral estava alto porque os soldados avançavam e ficavam cada vez mais convencidos de que seriam capazes de forçar o inimigo a recuar, ele observou que nem mesmo as unidades siberianas, como a sua, estavam tão bem equipadas como acreditavam os alemães – e como acreditava a sabedoria popular. “Não tínhamos suprimentos suficientes de nada”, afirmou.

Durante o primeiro inverno da guerra, muitos homens na sua unidade ainda usavam botas curtas com as pernas envoltas em panos, e um chapéu com a forma de capacete chamado budyonovka, que também exigia a inserção de um forro extra para manter a cabeça e as orelhas aquecidas. Só perto do final do inverno quase todos os soldados receberam o equipamento padrão: valenki – botas compridas de feltro – e ushanki – chapéus de pele com grossos protetores de orelhas. Como Goebbels tinha feito no lado alemão, as autoridades soviéticas apelaram aos civis para doarem qualquer coisa quente, inclusive roupas de baixo, para os soldados no front.

No que se referia a armamentos, os problemas eram ainda mais graves. Alguns canhões da divisão de Geykhman datavam da guerra civil e estavam montados sobre rodas de madeira, puxadas por cavalos. Muitos oficiais tinham pistolas inferiores às dos oficiais alemães. Quando podiam, tomavam qualquer pistola encontrada num cadáver alemão. Tinham também carência de metralhadoras e armas antitanque. Os momentos mais assustadores para Geykhman e sua unidade ocorreram no início de fevereiro, quando enfrentaram tanques alemães perto de Mozhaisk, a cidade a 100 km a oeste de Moscou, com o pouco poder de fogo que tinham. “Eles avançavam diretamente para nós. Compreendemos que estávamos enfrentando um inimigo muito forte que sabia lutar.”

A outra carência era de oficiais experientes. Geykhman, que tinha se apresentado como voluntário depois da formatura no 2° grau, aos 17 anos, era mais novo que a maioria dos estudantes e foi feito tenente depois de um curso de treinamento de apenas três semanas, ainda antes do seu aniversário de 18 anos. Apesar de orgulhoso do seu papel na salvação de Moscou, ele observou que muitos dos melhores oficiais tinham morrido durante os expurgos de antes da guerra – e todos ainda pagavam o preço. “Nossos oficiais não estavam prontos para essa guerra”, disse ele. “Só aprendemos realmente a lutar em 1943.”

Para completar, não eram apenas os alemães que tinham de agarrar toda oportunidade para roubar comida. Um racionamento estrito de alimentos tinha sido imposto em todas as cidades importantes, como Moscou e Leningrado, logo depois da invasão alemã, e se espalhou por todo o país à medida que a luta se intensificava. Com bizarra precisão, os planejadores determinavam que trabalhadores comuns deveriam receber 1.387 calorias por dia, enquanto os que executavam trabalho mais pesado recebiam 1.913 calorias. Seus dependentes recebiam apenas 750 calorias, e não havia provisões para quem não trabalhasse.

Os soldados geralmente recebiam rações mínimas pelo menos – mas tinham de tentar suplementá-las de toda maneira possível. Yevgeny Teleguyev, o jovem voluntário das forças especiais da NKVD, conhecidas como OMSBON, recordou a busca de comida do seu pelotão quando viajavam em esquis, em geral atrás das linhas inimigas. Numa ocasião, quando suas rações tinham acabado, encontraram um cavalo na floresta e o mataram. Depois tiveram de inventar um meio de esfolá-lo e cozinhá-lo. “Éramos gente da cidade e não sabíamos fazer aquele tipo de coisa”, disse ele. Como não tinham um machado para cortar os cascos, eles ferveram as pernas com os cascos e ferraduras intactos.

Outros esfolavam cavalos que já estavam mortos havia algum tempo – o que poderia ser um jeito perigoso de saciar a fome. Um oficial de uma unidade que lutava próximo a Rzhev relatou que seus homens estavam caindo doentes depois de comerem restos decompostos. Mas com alguns soldados morrendo de inanição, era duro conter quem quer que fosse. Se tivessem sorte, os soldados encontravam “poços de batatas” – buracos cavados no chão ou no porão das cabanas, onde os camponeses guardavam suas batatas para o inverno. Como os alemães, eles agarravam tudo que viam.

A guerra logo se reduziu a uma luta pela sobrevivência em todos os níveis. Vera Katayeva, enfermeira designada para os soldados que lutavam ao longo da estrada de Mozhaisk, recordou que depois que o Exército Vermelho retomou a cidade de Mozhaisk em janeiro, a luta além dela concentrou-se numa região estreita perto da cidade, como um corredor encharcado de sangue que ficou conhecido como Vale da Morte. “Soldados alemães e soviéticos passaram três meses ali – janeiro, fevereiro e março – matando-se uns aos outros”, disse ela. “O chão estava coberto de cadáveres de homens e cavalos.”

No final de janeiro, os alemães não estavam apenas seguindo as ordens de Hitler e mantendo o terreno em diversos locais, mas estavam também lançando pequenos contra-ataques por iniciativa própria. Em 26 de janeiro, Goebbels anotou no seu diário um relatório “extraordinariamente favorável” de um general comandante na frente norte, que afirmava que as forças soviéticas “estavam sendo sangradas até a última gota de sangue”. Como escreveu Goebbels:

ele acredita que a União Soviética vai cair na primavera, desde que tenhamos condições de lançar alguns ataques decisivos. Ainda que não possa agora compartilhar do seu otimismo, mesmo assim acredito que ele tenha algo […] possivelmente seja verdade que os bolcheviques estejam usando seus últimos recursos e vão entrar em colapso sob um forte ataque.

“Mas não vamos nos prender muito a essas esperanças”, acrescentou Goebbels. “Nossos preparativos para a próxima primavera têm de ser feitos como se os bolcheviques ainda tivessem enormes reservas. Isso nos tornará imunes a surpresas e ao revés moral, como os do último verão e outono.”

Esses resultados negativos, em particular o malogro na tomada de Moscou como planejado, antes do fim de 1941, tinham claramente abalado a sua confiança. Nas previsões otimistas, ainda que bem-vindas, ninguém mais acreditava automaticamente.

 

A ofensiva geral de Stalin no início de 1942 não atingiu nenhum dos seus objetivos grandiosos. Novas tentativas de romper o cerco de Leningrado e de retomar o controle de áreas-chave da Ucrânia foram fracassos custosos, mas a derrota mais custosa de todos foi a tentativa de cercar e destruir as tropas do Grupo de Exércitos Centro que ainda ameaçavam Moscou do oeste. Tal como todos os estágios anteriores da Batalha de Moscou, tudo parecia conspirar para produzir máximo sofrimento e máximas perdas – instigados, em quase todos os casos, pelas decisões que fluíam do alto.

Uma dessas decisões foi nada menos que uma política de terra arrasada. No dia 17 de novembro de 1941, Stalin ditou a Ordem n° 428, que declarava: “todos os locais habitados até uma distância de 40-60 km na retaguarda das tropas alemãs e até 20-30 km dos dois lados das estradas devem ser destruídos e reduzidos a cinzas”. A destruição devia ser executada de várias formas – por bombardeio aéreo, fogo de artilharia e patrulhas em esquis e guerrilhas de partisans armados com bombas de gasolina. Além disso, a ordem estipulava: “cada regimento deve ter uma equipe de voluntários de 20 a 30 homens para explodir e incendiar os locais habitados”. Os que se destacassem nessa destruição, acrescentava o documento, receberiam “condecorações especiais”.

Tudo isso foi a receita de incontáveis tragédias para civis que esperavam sobreviver à luta desenrolada à sua volta, já que a implementação daquela ordem significava a destruição dos seus pobres lares em pleno inverno. “Se a decisão foi tomada à luz da necessidade militar ou da crueldade insana ainda é uma questão sem resposta”, escreveu o biógrafo de Stalin, Dmitri Volkogonov, “mas nos dois casos foi um ato insensível, típico do stalinismo”.

Aquelas políticas ofereceram mais uma razão para os habitantes locais desconfiarem de todos os grupos combatentes, inclusive dos partisans, que começavam a operar atrás das linhas inimigas. Eles logo aprenderam que os partisans poderiam marcar suas casas para destruição e, mesmo quando não fosse esse o caso, sua presença os expunha a brutal retaliação dos invasores alemães. Num relatório ultrassecreto apresentado em 8 de novembro de 1941, N. P. Krasavchenko, um secretário do Komsomol que se vira atrás das linhas inimigas depois da vitória alemã em Vyazma, a pouco mais de 200 km a oeste de Moscou, relatou atitudes “antissoviéticas” depois de ter conseguido fugir. Ele encontrou um partisan que lhe disse ter sido forçado a operar sozinho por não poder confiar em ninguém. “Muita gente não gosta de mim por temerem a vingança alemã e ameaçam me entregar”, disse ele a Krasavchenko.

Nos seus próprios encontros com os aldeões, o secretário do Komsomol encontrou atitudes semelhantes. “Graças a Deus, não existem partisans aqui”, informou que eles teriam dito a ele. “Mas se aparecer algum, nós vamos entregá-lo aos alemães.” Os aldeões explicaram que, se não o fizessem, os alemães queimariam as suas casas e os fuzilariam. Essas atrocidades alemãs logo começariam a gerar suas próprias consequências, destruindo todas as ilusões de que a população local poderia esperar sobreviver silenciosamente à ocupação, por mais obediente que fosse. Quando as tropas soviéticas começaram a retomar as cidades e aldeias próximas a Moscou, uma visão comum era partisans e cidadãos comuns pendurados em forcas improvisadas. Para qualquer um que fosse preso na vizinhança dessa luta titânica não havia saída fácil.

Isso servia duplamente para os guerreiros, em especial os que tinham ordens de executar as orientações mais perigosas dos seus líderes. No lado soviético, isso significava os planos de Stalin e Zhukov de cercar e destruir o Grupo de Exércitos Centro – o principal corpo de tropas soviéticas a oeste de Moscou. A ideia era cercar as forças alemãs próximo a Vyazma, na mesma área em que as tropas soviéticas tinham sido cercadas e virtualmente exterminadas em outubro. Na visão de Stalin, seria um violento golpe contra a máquina de guerra alemã. Mas ao ordenar às forças soviéticas exaustas que avançassem cada vez mais fundo no território inimigo, o plano aumentava o risco de elas se estenderem demais sem meios de proteger seus flancos. Nesse caso, os alemães teriam a chance de cercá-las, em vez de serem cercados.

Para evitar esse resultado, Stalin e seus generais precisavam trabalhar juntos, certificando-se de que a força da tropa seria reforçada em pontos-chave. Mas já na primeira fase da ofensiva, o líder soviético demonstrou que se sentia livre para ignorar os pedidos urgentes dos seus comandantes militares – mesmo no caso de Zhukov, que normalmente tinha mais influência do que qualquer outro.

Depois de suas tropas terem conquistado vitórias nas proximidades de Volokolamsk, a noroeste de Moscou, em 19 de janeiro, Zhukov recebeu ordens para desligar uma parte significativa das suas forças, o Primeiro Exército de Choque, permitindo que eles voltassem às reservas. Ele telefonou para Stalin, argumentando que precisava daquela unidade para manter o avanço naquela área crucial. “Não discuta”, retrucou Stalin. “Mande a unidade.” Quando Zhukov continuou a protestar pelo enfraquecimento das suas forças, o ditador respondeu: “você tem tropas demais – conte-as”. Quando nem essa resposta calou Zhukov, Stalin bateu o telefone na cara dele.

Assim que chegou a hora do avanço sobre Vyazma, Zhukov mais tarde admitiria que ele e Stalin cometeram erros cruciais. “Superestimamos a capacidade das nossas forças e subestimamos a do inimigo, e essa noz foi mais difícil de quebrar do que esperávamos”, escreveu depois. Mas, tal como se deu no caso da decisão fundamental de lançar uma ofensiva geral, ele jogou a maior parte da culpa nas costas de Stalin. Mostrou que os alemães tinham recuado para as posições defensivas preparadas previamente pelos generais de Hitler, e que tinham começado a reforçar com tropas de reserva trazidas da França. Isso permitiu aos alemães entrincheirar-se para resistir aos ataques, e montar seus próprios contra-ataques.

Zhukov também avisou a Stalin que suas unidades de artilharia tinham uma carência extrema de munição, forçando a infantaria a montar contra-ataques sem nada equivalente a um suporte adequado de artilharia. Stalin não se convenceu e continuou a ordenar mais e mais ataques, muitos dos quais terminaram com contagens de mortos desproporcionalmente altas no lado soviético. “Se não conseguir o resultado hoje, vai conseguir amanhã”, Stalin disse a Zhukov. “Se você ataca, pode no mínimo conter o inimigo, e os resultados serão sentidos em outros pontos do front.”

Era um pobre consolo para os comandantes e homens despachados para lutar aquelas batalhas, sem o planejamento e apoio que lhes daria uma chance de vitória. Sob o comando do general Mikhail Yefremov, o 33º Exército abriu caminho até a distância de ataque de Vyazma. Aquelas forças deveriam ser completadas por tropas que vinham da região de Kalinin, no norte. Juntas, elas lançariam um ataque decisivo contra o Grupo de Exércitos Centro do inimigo, não somente em Vyazma, mas também até Rzhev, a cidade mais ao norte que continuava sendo um trampolim potencial para um avanço contra Moscou.

A missão das forças soviéticas era cercar e destruir os alemães, mas, de modo geral, elas se viram cercadas. O general Yefremov e o seu 33º Exército, junto com o Primeiro Corpo de Cavalaria do general Pavel Belov, foram isolados atrás das linhas inimigas perto de Vyazma. Durante fevereiro e março, outras forças soviéticas que tentavam expulsar os alemães que cercavam Rzhev tiveram o mesmo destino. A luta era tão próxima que era difícil para o comando soviético organizar os lançamentos de comida e munições por paraquedas, pois o inimigo quase sempre tomava os suprimentos. “Ei, russos! Ivan!”, os alemães escarneciam pelos megafones. “Danke schön [muito obrigado]. Estamos comendo a sua carne de porco e ervilhas. Está delicioso.” Para soldados geralmente à beira da inanição, nada poderia ser mais desmoralizante.

Forçados a reconhecer que as tropas sob o comando de Yefremov e Belov estavam irremediavelmente presas atrás das linhas inimigas, Stalin e Zhukov concordaram em permitir que os dois generais tentassem abrir caminho de volta para leste, para evitar que o cerco se fechasse. Belov finalmente teve sucesso com parte das suas forças, mas as tropas restantes do 33º Exército de Yefremov foram praticamente exterminadas, durante sua última tentativa desesperada de escapar em abril. O popular comandante estava entre aqueles que morreram. De acordo com muitos relatos, Yefremov estava ferido e se matou com um tiro para evitar a captura.

A contraofensiva soviética fez os alemães recuarem entre 70 e 100 km por todo o front, mas ficou aquém dos objetivos. “Os acontecimentos demonstraram o erro da decisão de Stalin ao pedir uma ofensiva geral em janeiro”, concluiu Zhukov. Apesar de ter argumentado contra a decisão e ter afirmado que se opunha a algumas propostas táticas feitas por Stalin naquele momento, Zhukov também se sentia culpado pelas enormes perdas durante a ofensiva. Como os alemães estavam também esgotados e exaustos, nenhum dos dois lados se sentiu triunfante.

De fato, Moscou parecia mais segura e estava mais segura, pois os eventos subsequentes demonstraram que os alemães não seriam capazes de montar outro avanço importante para tomar a capital soviética. Mas os alemães ainda ocupavam cidades como Vyazma e Rzhev, que foram os pontos de onde foi lançado o primeiro avanço sobre Moscou. Para Stalin, que tinha um interesse particular em libertar Rzhev, isso era uma fonte importante de frustração. Significava também que – mesmo depois de a Batalha de Moscou ter efetivamente terminado no fim de abril, no início do degelo da primavera (que tornou impossível qualquer ação importante por qualquer dos dois exércitos durante várias semanas) – a luta associada a Moscou teria de continuar. Rzhev, que já era cena de algumas das lutas mais intensas, ainda seria um dos maiores campos de extermínio durante quase mais um ano inteiro. Mesmo que a ameaça a Moscou já estivesse em grande parte afastada, ninguém comemorava.