A Batalha de Moscou

Andrew Nagorski · Capítulo 14 de 17

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A Batalha de Moscou

“O pior de todos os mundos”

 

Em dezembro de 1941, quando as tropas soviéticas começaram seus contra-ataques que deveriam afastar os alemães dos acessos a Moscou, o britânico Anthony Eden iniciou a longa e tortuosa viagem à capital soviética exigida pelas condições de guerra. Enfraquecido pela gripe, o secretário do Exterior passou quatro dias num contratorpedeiro com destino a Murmansk, preso ao leito a maior parte do tempo. Como a cidade portuária do Ártico estava coberta de neblina quando chegaram no dia 12 de dezembro, a delegação britânica não pôde fazer por ar a parte seguinte da viagem. Pelo contrário, tiveram de enfrentar a perspectiva de uma viagem de dois ou três dias de trem até Moscou. Mas enquanto esperavam no navio, o lado soviético providenciou uma surpresa para Eden.

O secretário do exterior empreendeu a viagem porque as relações entre Stalin e seus aliados ocidentais permaneciam tensas, apesar das declarações de amizade pelos dois lados. Desde a visita de lorde Beaverbrook e de Averell Harriman a Moscou em setembro, o líder soviético tinha continuado a insistir no pedido de entregas mais rápidas dos suprimentos do Lend-Lease (programa de ajuda militar) e de toda sorte de ação militar que pudesse tirar um pouco da pressão sobre suas tropas esgotadas – não importando quantas vezes Churchill e outros lhe lembrassem que a Grã-Bretanha não tinha a menor condição de começar a lutar no continente, muito menos considerar a sugestão desvairada de que deveria enviar tropas para a Rússia.

Havia ainda outra questão por que Stalin pressionava: a necessidade de um acordo sobre as fronteiras no pós-guerra. Para desalento de Churchill e Roosevelt, Stalin insistia na definição dos novos contornos geopolíticos do continente após a derrota final de Hitler. Os exércitos russos mal conseguiam manter suas posições nos arredores de Moscou, mas seu líder já sonhava com uma nova ordem europeia que satisfizesse suas ambições territoriais.

Eden se ofereceu para essa missão a fim de tentar amortecer aquelas expectativas e também para manter tranquilas as relações entre esses dois aliados inquietos. Nem ele nem Churchill sabiam que tipo de recepção deveriam esperar, pois Stalin já tinha demonstrado sua obstinação em mais de uma ocasião, embora em geral adotasse um tom mais brando imediatamente após uma discussão mais dura. Ivan Maisky, o embaixador soviético em Londres que regularmente transmitia as queixas do seu líder, acompanhou Eden na viagem e forneceu a primeira indicação do estado de espírito de Stalin.

Depois de terem atracado em Murmansk, Eden continuou a bordo enquanto Maisky ia à cidade tentar providenciar um trem fortemente protegido. De volta ao seu contratorpedeiro, o embaixador soviético pediu uma reunião privada com Eden, e os dois foram para a cabine do secretário do exterior. Maisky colocou uma bolsa preta sobre a mesa e comunicou a mensagem de Stalin. O líder soviético, disse ele, não queria que Eden e a delegação britânica se sentissem “embaraçados” durante a visita pela controvérsia entre a Grã-Bretanha e a Rússia em torno da taxa de conversão do rublo. Como os americanos, os britânicos protestaram muitas vezes contra uma taxa de câmbio que inflava todas as suas despesas na Rússia. Sem fazer nenhuma concessão nessa questão, Maisky explicou que Stalin estava colocando à disposição de Eden rublos suficientes para que a delegação não tivesse nenhum problema durante a visita. Então, enquanto um atônito Eden observava, o embaixador puxou “pacotes e mais pacotes” de notas que colocou em filas sobre a mesa.

“Fiquei boquiaberto diante de tanta riqueza”, lembrou o secretário do exterior. Mas teve a presença de espírito de pedir a Maisky que agradecesse a Stalin pela generosidade e assegurasse que a delegação britânica era capaz de arcar com suas despesas e que não ia precisar do dinheiro na mesa.

Maisky ficou visivelmente desconcertado pela polida recusa de Eden, mas quando o secretário do Exterior não quis mudar de ideia, ele reuniu os pacotes de rublos, os colocou de volta na bolsa preta e trancou-a.

Aquilo era típico de Stalin: queria parecer conciliador e amaciar o visitante britânico antes das conversações, mas com um gesto tão ostensivamente generoso que deixou Eden numa posição delicada, não lhe restando alternativa a não ser recusar a oferta. O líder soviético provavelmente não fazia ideia da razão por que seu convidado não podia aceitar o dinheiro, pois no seu mundo ele gratificava ou punia qualquer um de acordo com sua inclinação – e nenhuma outra regra se aplicava.

No dia seguinte, 13 de dezembro, Maisky voltou a bordo para dar a Eden a notícia que o Pravda trombeteava: a vitória soviética na Batalha de Moscou. Apesar de saber que a luta estava longe de terminada, o secretário do Exterior ficou feliz. “Isso é maravilhoso! Pela primeira vez, os alemães sofreram um revés.”

Na viagem de trem que começou no fim da tarde do mesmo dia, Eden se impressionou com a capacidade dos russos de enfrentar o frio impiedoso que chegava a -26ºC à noite. O trem especial era equipado com metralhadoras antiaéreas, montadas em vagões abertos entre os vagões de passageiros, e que eram operadas em turnos de duas horas. “O frio que aqueles homens tinham de suportar quando em movimento a uma velocidade razoável através daquelas temperaturas árticas deve ter sido cruel”, observou Eden.

Durante uma das paradas ocasionais, quando desceram para caminhar ao lado dos trilhos, ele perguntou a Maisky: “como o seu povo suporta tanto frio?” O embaixador lhe assegurou que as equipes estavam adequadamente vestidas e acostumadas às temperaturas gélidas, ao que Eden acrescentou: “bem, os alemães não estão acostumados a esse frio”.

Quando o trem chegou a Moscou na noite de 15 de dezembro, havia pingentes de gelo pendurados nos vagões e a estação estava mergulhada na escuridão. De repente, as luzes foram acesas no local, durante os 14 minutos em que Molotov saudou o seu colega britânico. O ministro do Exterior soviético informou ansioso que tropas soviéticas tinham acabado de expulsar as tropas alemãs de Klin, a 80 km ao norte de Moscou. Então, as luzes se apagaram de novo, e as pessoas se moveram como sombras através do vapor e da fumaça do trem e do blecaute contínuo da capital para evitar oferecer alvos visíveis aos bombardeiros alemães. A capital não se sentia tão triunfante quanto a proclamação oficial fizera parecer dois dias antes.

 

Se Eden tinha alguma dúvida sobre o impacto da melhora da situação militar no estado de espírito de Stalin, ela se evaporou quando os dois homens se sentaram para a primeira reunião na noite seguinte. Já de início, o líder soviético focalizou as suas ambições territoriais paralelamente às outras ideias para o período do pós-guerra, por mais prematura que parecesse aquela discussão. Stalin não iria permitir que Eden fugisse dos temas, limitando a discussão à situação corrente. O primeiro sucesso real do seu exército – conter os alemães nas fronteiras de Moscou e empurrá-los para trás – só fortalecia a decisão de pressionar o hóspede inglês pelos compromissos que ele desejava. Stalin tentaria parecer generoso oferecendo pacotes de rublos, mas a generosidade não se estendia aos vizinhos do seu país, cuja situação e limites de antes da guerra não lhe agradavam.

Mesmo durante os primeiros dias da invasão alemã, quando por toda parte o Exército Vermelho estava em retirada e uma derrota catastrófica parecia iminente, a liderança soviética havia sinalizado a determinação em reclamar exigências futuras. Em julho de 1941, por insistência do governo de Churchill, Maisky tinha conduzido negociações em Londres com o líder do governo polonês no exílio, o general Wladyslaw Sikorski, destinadas a forçar aqueles vizinhos hostis a restabelecer relações diplomáticas e cooperar na luta contra a Alemanha. As conversações forneceram as primeiras pistas de como o lado soviético pretendia conquistar seus objetivos territoriais.

Os poloneses, evidentemente, eram a parte prejudicada desde que Stalin juntou forças com Hitler no desmembramento do seu país, de acordo com o pacto Molotov-Ribbentrop. Depois de invadir a Polônia pelo leste em setembro de 1939, a União Soviética anexou uma grande parte de território que antes fora a Polônia Oriental e deportou mais de 1,5 milhões de poloneses dessas regiões para prisões e campos de trabalho soviéticos. Entre eles, estava o equivalente a várias divisões de soldados poloneses que as forças soviéticas tinham capturado durante a invasão. Muitos milhares de oficiais tinham desaparecido sem vestígios – mais de 4 mil corpos foram descobertos em 1943 numa sepultura de massa na floresta de Katin, próxima a Smolensk. As vítimas tinham as mãos amarradas atrás das costas e um tiro na cabeça.

O governo do polonês Sikorski queria dois compromissos claros de Moscou: uma declaração de que a divisão nazissoviética da Polônia era nula e sem efeito – o que teria significado, que ao fim da guerra, o país voltaria às suas fronteiras de antes de 1939; e a libertação de todos os civis e militares poloneses deportados e presos. Isso permitiria a formação de unidades do exército polonês na União Soviética que se juntariam à luta contra os alemães.

Mas durante as conversações em julho de 1941, Maisky indicou imediatamente que a ideia do Kremlin de uma Polônia restaurada não estava de acordo com os objetivos dos poloneses. “Expliquei que, tal como o víamos, o futuro estado polonês deveria ser composto somente de poloneses e dos territórios habitados por poloneses”, lembrou ele. Pelo que entendiam os negociadores poloneses, essa formulação significava que o lado soviético pretendia manter o controle sobre uma grande parte dos territórios que tinham anexado em 1939, pois os viam como ucranianos e bielo-russos, e já tinham realizado neles a sua própria versão de limpeza étnica. Se esse fosse o critério para as fronteiras no pós-guerra, a disposição ostensiva dos soviéticos de renunciar ao seu acordo com o regime nazista teria pouca significância prática.

Sikorski sentiu-se compelido a concluir um acordo, apesar de estar muito perturbado pela atitude soviética. Como explicou Jan Ciechanowski, embaixador polonês em Washington, “o governo britânico estava pressionando fortemente o general Sikorski para apressar as conversações com os soviéticos, em vez de pressionar os soviéticos a aceitar as condições justas da Polônia”. Isso Churchill admitiu nas suas memórias. Apesar de a Grã-Bretanha ter entrado em guerra por causa da Polônia, ele agora estava particularmente interessado em manter o aliado soviético na luta contra os alemães – e, pelo menos de acordo com alguns relatos, ele ainda suspeitava que Stalin pudesse concluir outro acordo com Hitler se as circunstâncias mudassem outra vez. “A questão do futuro territorial da Polônia deveria ser adiada até tempos mais tranquilos”, escreveu o primeiro-ministro. “Tínhamos a responsabilidade odiosa de recomendar ao general Sikorski confiar na boa vontade soviética nos futuros acordos das relações russo-polonesas, e a não insistir naquele momento em nenhuma garantia escrita para o futuro.”

O acordo, concluído em 30 de julho, não incluiu provisões para a formação de unidades do exército polonês em solo soviético nem a anistia dos poloneses ali presos, e restaurou as relações diplomáticas entre os dois países. Mas, apesar de os tratados germano-soviéticos de 1939 terem sido declarados inválidos, a questão territorial continuou sem solução. Em Washington, o subsecretário de Estado, Sumner Welles, declarou que entendia que o acordo “estava conforme a política dos Estados Unidos de não reconhecimento de territórios tomados por conquista”. Na Casa dos Comuns, Eden reiterou a posição do seu governo de que não reconhecia as alterações territoriais de 1939, mas acrescentou que isso “não envolve nenhuma garantia de fronteiras pelo governo de Sua Majestade”. Para os poloneses, como expressou Ciechanowski, isso foi “a primeira andorinha na alvorada da nova política britânica de conciliação”.

Menos de duas semanas antes da visita de Eden a Moscou, Sikorski também fez uma viagem tortuosa até a capital soviética, voando de Londres, passando pelo Cairo, Teerã e Kuibyshev. Ao se reunir com Stalin nos dias 3 e 4 de dezembro, ele pediu informações sobre os seus oficiais desaparecidos e sobre a implementação da proclamada anistia de todos os prisioneiros militares poloneses, para que pudessem formar a base de uma nova força de luta. Mas só recebeu negativas e ignorância fingida quando se discutiu o destino dos oficiais poloneses desaparecidos. “Devem ter fugido em algum lugar”, declarou Stalin. Sikorski, contudo, conseguiu a anuência do líder soviético para permitir que os poloneses recém-libertados atravessassem a fronteira para o Irã, onde os britânicos tinham prometido fornecer suprimentos para se equipassem novamente como um exército regular. Sob o comando do general Wladyslaw Anders, mais tarde aqueles soldados lutariam valentemente no norte da África e na tomada do mosteiro de Monte Cassino, durante a campanha italiana de 1944.

Por sua vez, Stalin tentou conduzir Sikorski a uma discussão sobre as fronteiras entre a Polônia e a União Soviética no pós-guerra. “Acredito que seria útil se discutíssemos o assunto. Afinal, as alterações que pretendo sugerir são muito pequenas.” O líder polonês insistiu que não tinha direito de discutir nem mesmo a menor alteração das fronteiras “invioláveis” do seu país, e Stalin não insistiu.

Quando se sentou na primeira reunião com Stalin em Moscou, no dia 16 de dezembro, Eden também esperava ter sucesso em evitar essa questão politicamente delicada e as novas suspeitas de que seu governo estaria cedendo às exigências soviéticas. Em Washington, Roosevelt tentava tranquilizar os poloneses de que era sensível aos seus interesses, e que respeitava o compromisso que ele e Churchill tinham assumido na Carta do Atlântico, proclamada em agosto, durante sua primeira reunião de cúpula no mar. Naquela reunião, os dois tinham prometido que não haveria mudanças territoriais “que não se conformem com os desejos livremente expressos dos povos interessados”. Ele insistiu com Churchill para não assumir nenhum compromisso com Stalin relativo aos acordos no pós-guerra. Para Eden, quanto menos se dissesse sobre tudo isso em Moscou, melhor.

Stalin não se dispunha a fazer esse jogo. O líder soviético entregou imediatamente a Eden as minutas de dois tratados – uma para a sua aliança militar durante a guerra, e a outra para tratar dos acordos do pós-guerra. Ele então chocou os seus convidados ao propor um protocolo secreto para o segundo tratado, que definiria o futuro das fronteiras europeias. “As ideias russas já estavam bem definidas”, Eden observou ferozmente mais tarde. “Eles pouco mudaram durante os três anos seguintes, pois seu objetivo era assegurar as garantias físicas mais tangíveis para a futura segurança da Rússia.” Havia um exemplo recente desses protocolos secretos na redefinição de fronteiras: o pacto Molotov-Ribbentrop.

Apesar de Stalin não estar planejando extinguir o estado polonês naquela vez, a semelhança não terminava aí. Novamente, a Polônia e os Estados Bálticos figuravam como os primeiros derrotados nesse acordo. Para a Polônia, Stalin propôs que sua fronteira oriental deveria correr ao longo da linha Curzon – a linha do armistício sugerida pelo secretário do exterior britânico na guerra Russo-Polonesa de 1919-1920. As vitórias polonesas durante aquele conflito geraram uma fronteira muito mais a leste, significando que, no período entre guerras, a Polônia controlava uma grande faixa de território que o Kremlin cobiçava. Como resultado do pacto Molotov-Ribbentrop, a União Soviética tomou esse pedaço da Polônia e traçou uma nova fronteira bem próxima da linha Curzon original. Agora Stalin desejava tornar permanente essa situação.

Para compensar a perda de território, Stalin sugeriu que a Polônia deveria receber uma grande parte da região leste da Alemanha. Ele também sugeriu a restauração de um estado austríaco separado, privando a Alemanha da Renânia e possivelmente da Baviera, e a criação de um conselho de vencedores que decidiriam o que fazer com a Alemanha derrotada. Stalin queria saber o que Eden pensava da possibilidade de a Alemanha pagar reparações pelos danos que estava infligindo. Quanto aos Estados Bálticos, eles seriam engolidos mais uma vez pelo estado soviético, e as fronteiras soviéticas com a Finlândia e Romênia reverteriam ao que eram antes do ataque alemão. Em suma, ele propunha muitos dos termos que iriam figurar nas discussões das grandes potências em Teerã, em 1943, e em Yalta, em 1945.

Eden sabia como tinha de responder, e tentou fazê-lo com o maior tato possível. Seu governo, disse ele, estava aberto a examinar questões como a organização do controle militar sobre uma Alemanha derrotada, e certamente apoiava uma Áustria independente. Dado o impacto desastroso das reparações na guerra anterior, ele se oporia a qualquer esforço de exigência de reparações ao fim desta. Quanto à questão fundamental das futuras fronteiras, explicou que suas mãos estavam atadas. “Antes mesmo de a Rússia ser atacada, o senhor Roosevelt nos enviou uma mensagem pedindo que não entrássemos em nenhum acordo secreto visando à reorganização da Europa no pós-guerra, sem antes consultá-lo”, disse a Stalin.

De fato, John Winant, embaixador americano em Londres, tinha recebido instruções para transmitir uma mensagem do secretário de Estado, Cordell Hull, a Eden pouco antes de sua partida para Moscou. Datada de 5 de dezembro, a mensagem acentuava que as políticas do pós-guerra dos dois países e a União Soviética estavam encapsuladas na Carta do Atlântico, e seria “inadequado” para qualquer um dos dois governos “assumir compromissos relativos a termos específicos do acordo do pós-guerra”. Acrescentou: “acima de tudo, não deverá haver acordos secretos”.

Tendo em mente esses avisos, Eden continuou a enfatizar a Stalin que a Rússia, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos precisavam estar de acordo com relação às questões principais, e que ele não poderia se comprometer sozinho com nada.

“O que dizer da anexação do protocolo secreto?”, perguntou Stalin, recusando-se a desistir.

Quando Eden reiterou que isso exigiria consultas ao seu governo e a Washington, o líder soviético afirmou concordar, dizendo que uma frente unida era crucial para os esforços dos três países. A discussão passou, então, para a situação militar. Apesar de naquele caso também haver algumas questões complexas, o secretário do Exterior sentiu que tinha adiado a questão territorial, pelo menos naquele momento.

A reunião seguinte lhe mostrou que estava errado. “Stalin começou a mostrar as garras”, observou ele. Aparentemente esquecido das explicações anteriores de Eden, o líder soviético pediu de modo direto o reconhecimento britânico para as fronteiras da Rússia de 1941– em outras palavras, as que tinham sido estabelecidas conforme o pacto Molotov-Ribbentrop.

Era a volta à estaca zero e o que Eden descreveu como uma atmosfera “frígida”. Ele explicou mais uma vez que não poderia endossar nada semelhante. Observou que Churchill havia declarado antes que a Grã-Bretanha não reconheceria alterações de fronteiras produzidas por guerra – e que isso ocorrera numa época em que a Alemanha estava avançando e qualquer reconhecimento dessas fronteiras teria sido prejudicial para a Rússia.

“Se diz isso, o senhor poderia dizer amanhã que não reconhece que a Ucrânia faz parte da URSS”, Stalin retrucou asperamente.

“Isso é uma compreensão totalmente errônea da posição”, respondeu Eden. “Não reconhecemos apenas as alterações das fronteiras de antes da guerra.”

Stalin não abandonou o tema, insistindo que a recusa britânica deixaria o seu país como um suplicante. “Isso faz parecer que eu devia vir com o chapéu na mão”, disse.

Era o Stalin petulante, que se indignava toda vez que suas exigências – não importando o seu alcance – não eram aceitas de imediato. Insistia e insistia para ver o que poderia conseguir. Era uma prévia do Stalin que os líderes americanos e ingleses tornariam a ver outras vezes, à medida que a guerra avançava. Mas o líder soviético sabia quando aliviar a pressão, em especial quando sentia que suas táticas agressivas se mostravam contraproducentes. Ele também compreendia instintivamente que, depois de um ciclo de agressões, poderia ganhar pontos quando parecia mais razoável.

Que foi exatamente como os eventos se desenrolaram com Eden. O secretário do exterior percebeu que também ele teria de demonstrar irritação, se esperava que Stalin agisse mais razoavelmente. Voltando ao hotel depois da ríspida sessão, ele decidiu que poderia falar tranquilamente no carro, pois acreditava que aquele era o único lugar onde suas conversas não seriam monitoradas. Disse aos seus colegas britânicos que, uma vez na suíte do hotel, ele iria expressar sua frustração em voz alta para ser captada pelos equipamentos de escuta. Andando para lá para cá na sala, ele fez exatamente isso, afrontando o comportamento soviético e dizendo que teria sido melhor não ter vindo a Moscou. “Minha conclusão foi que, com a maior boa vontade do mundo, era impossível trabalhar com aquelas pessoas, nem mesmo como parceiros contra um inimigo comum”, lembrou ele. “Os outros se juntaram ao coro.”

Algumas horas depois, Eden recebeu a primeira indicação de que seus anfitriões soviéticos tentavam desfazer aquela impressão. Antes ele pedira para visitar o front, pois queria ter uma sensação mais direta da situação militar – mas o pedido tinha sido ignorado. Mas agora, Maisky estava ao telefone com a notícia de que ele teria permissão para viajar a Klin, que acabara de ser liberada. No carro com Maisky, ele viu aldeias incendiadas, tanques alemães e russos destruídos na luta, e os mortos russos e alemães espalhados sobre os dois lados da estrada. “Os cadáveres já estavam congelados, geralmente nas poses mais estranhas e incompreensíveis: alguns com os braços abertos, outros de quatro, alguns de pé com neve até a cintura”, relembrou Maisky.

Eden se comoveu com a visão de seis jovens prisioneiros alemães – “pouco mais que meninos”, segundo ele – que haviam sido capturados no dia anterior e tremiam de frio e de medo. “Estavam muito malvestidos, com sobretudos finos, casacos de lã e sem luvas. Só Deus sabe qual será o destino deles, mas eu posso imaginar: vítimas de Hitler.”

Durante a viagem de volta a Moscou, Eden reforçou a mensagem que tentou transmitir quando falou para os microfones da sua suíte. Disse a Maisky que se, como parecia, sua viagem terminasse em fracasso por causa da insistência do lado soviético em impor termos que ele não poderia aceitar, somente os alemães ficariam felizes.

Convencido de que os dois lados não seriam capazes de chegar a um acordo, Eden foi à última reunião com Stalin no dia 20 de dezembro levando a minuta de um comunicado curto. Porém, para surpresa do britânico, o líder soviético estava bem mais cordato do que antes. Apesar de ainda pedir o reconhecimento das fronteiras que queria, ele disse que agora entendia que o lado britânico tinha primeiro de consultar-se com os Estados Unidos, e que qualquer tratado poderia esperar. Nesse meio tempo, as relações entre seus dois países continuariam a se desenvolver, acrescentou. Ofereceu também um comunicado, segundo Eden, “mais longo e mais direto que o meu”. O secretário do Exterior lembrou que teve uma sensação de alívio – exatamente o que Stalin queria que ele sentisse.

Por fim, Stalin convidou Eden e seu grupo para um jantar no Kremlin. O convidado de honra notou que a refeição era “quase embaraçosamente suntuosa”. Registrou que havia borscht, esturjão, “um leitãozinho infeliz”, uma variedade de carnes – e, é claro, vinho, champanhe e vodca. O marechal Timoshenko, Eden acrescentou, “parecia estar bebendo desde antes de nos encontrarmos”. Aparentemente embaraçado por Eden ter notado, Stalin lhe perguntou: “os seus generais se embebedam”? Eden respondeu que eles raramente tinham oportunidade para tanto.

De acordo com Maisky, Eden sofreu seu próprio momento embaraçoso. Em certa hora, ele perguntou a Stalin a respeito de uma garrafa grande sobre uma mesa com um líquido amarelado. Era brandy de pimenta, mas Stalin sorriu e lhe disse: “esse é o nosso uísque russo”. Quando Eden disse que gostaria de experimentar, o líder soviético lhe ofereceu um copo grande. Ele tomou um gole grande, ficou vermelho e engasgou, “os olhos quase saltando das órbitas”, relembrou Maisky. Stalin então anunciou: “só gente muito forte é capaz de tomar uma bebida tão forte. Hitler está começando a sentir”.

Eden não mencionou esse incidente nas suas memórias, preferiu observar que sua visita terminou com uma “nota amistosa”. Mas o banquete o deixou com “uma sensação de irrealidade, que não se deveu à fome nem à penúria no nosso meio, nem aos exércitos alemães, tão próximos que quase ouvíamos a sua artilharia”. O que de fato o incomodou foi algo mais profundo. “Naqueles salões dourados a atmosfera era insalubre, porque onde um homem domina, todos os outros temem”, observou.

Ele também percebeu que, apesar de conseguir evitar todos os compromissos que Stalin exigia, sua visita representou apenas o primeiro ato de um drama que teria continuação. O líder soviético não se dispunha a desistir das suas ambições territoriais, observou ele no telegrama para Churchill, “e devemos esperar pressão contínua quanto a essa questão”.

 

Durante o inverno de 1941-1942, quando os alemães foram contidos e depois forçados a se retirar dos arredores de Moscou, Churchill deixou de irritar-se tanto com o tom geralmente arrogante das exigências de Stalin, como transmitidas por Maisky, e procurou não deixar que as pressões soviéticas azedassem as relações anglo-soviéticas. Era uma mudança que não escapou à vigilância de Berlim. “O busto de Stalin foi descerrado na bolsa de Londres. Lá é o seu lugar”, Goebbels observou com amargura no seu diário no dia 28 de janeiro de 1942. “A colaboração entre o bolchevismo e o supercapitalismo está assim simbolizada publicamente. A Inglaterra caiu no fundo do poço. Está enfrentando uma época difícil. Pode agradecer a Churchill.”

Numa anotação posterior, Goebbels mencionou que sabia haver especulação em Londres de que a União Soviética poderia fazer a paz em separado com a Alemanha nazista. “Esse medo não tem razão de ser”, escreveu em 6 de março. “A União Soviética tem de ser e será derrubada, não importa quanto tempo for necessário. A situação é propícia para dar um fim ao bolchevismo em toda a Europa e, considerando nossa posição, não podemos abrir mão desse objetivo.”

Na verdade, Churchill parece não ter se preocupado seriamente naquele ponto com um novo acordo de paz germano-soviético. Se essa possibilidade chegou a existir – e não há nenhuma evidência para apoiar essa ideia – foi durante os primeiros dias da invasão alemã, quando a União Soviética parecia à beira do colapso. Mas depois que os alemães falharam no avanço sobre Moscou, Stalin não tinha nenhum incentivo para tomar esse curso. Tal como Hitler, ele estava comprometido não apenas com a vitória, mas também com a destruição do sistema adversário.

Tal como Hitler, ele também fez previsões excessivamente otimistas. Stalin enviou uma mensagem a Churchill no dia 14 de março declarando a sua confiança de que “os esforços combinados de nossas tropas, sem levar em conta transtornos ocasionais, hão de culminar com a destruição completa do inimigo comum, e que o ano de 1942 verá uma mudança decisiva no front anti-Hitler”. Quando Maisky entregou a mensagem a Churchill, o primeiro-ministro não escondeu o seu ceticismo. “Não vejo como 1942 possa se tornar um ano decisivo.”

Durante suas conversações com Eden em dezembro, Stalin pareceu mais realista. Apesar da afirmação fantasiosa de que as tropas soviéticas poderiam se juntar à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos na luta contra o Japão na primavera seguinte, ele acrescentou a enorme advertência de que seria melhor se o Japão atacasse o seu país do que o contrário. “A guerra seria impopular com o nosso povo se o governo soviético desse o primeiro passo”, disse ele.

Foi uma declaração muito mentirosa, dando a impressão de que Stalin era um líder democrático que agia somente quando podia contar com o apoio da opinião pública. Ela também desconsiderava o fato de que os japoneses provavelmente não fariam esse favor porque, como explicou Eden, eles iam preferir “uma política de enfrentar seus inimigos um de cada vez”. O secretário do exterior entendeu a importância da mensagem de Stalin: assim como as potências ocidentais não podiam concordar com as demandas do líder soviético de abertura de uma segunda frente em futuro próximo, a União Soviética não estaria pronta a ajudar na guerra com o Japão num futuro previsível.

Churchill e Roosevelt estavam de pleno acordo quanto a outra questão: a necessidade urgente de aumentar o fluxo de suprimentos do Lend-Lease para a União Soviética, o que fortaleceria suas forças durante as próximas batalhas. Embora Roosevelt insistisse em produção e entregas mais rápidas, os primeiros resultados foram desapontadores, pois era um projeto bastante ambicioso. No final, ele iria fornecer à União Soviética 409.500 veículos, principalmente caminhões Studebaker, que manteriam a mobilidade do seu exército, 1.900 locomotivas, além de 43% de todos os pneus soviéticos, 56% de todos os trilhos para a rede ferroviária, e cerca de um terço dos explosivos. Além disso, os Estados Unidos forneceram enormes quantidades de alimentos, cobre, alumínio e combustível de alta octanagem para aviões. Por mais insistente que fosse Stalin na cobrança desses suprimentos, ele se recusou constantemente a reconhecer para o seu povo a escala daquele esforço de ajuda externa. Ele queria que o povo acreditasse que todos os sucessos militares eram resultado apenas da sua liderança inspirada e da coragem do Exército Vermelho.

Roosevelt e Churchill estavam dispostos a deixar passar essas falhas, unidos na opinião de que aquela ajuda era vital. Mas tinham posição diferente quando se tratava das demandas territoriais apresentadas por Stalin durante a visita de Eden a Moscou. Apesar da predisposição de confiar no líder soviético, Roosevelt parecia de início mais decidido a resistir a essas exigências. Contudo, na realidade a discordância revelava as fraquezas dos dois líderes quando se tratava de lidar com alguém tão esperto como Stalin.

Ao voltar a Londres, Eden insistiu com Churchill, com o apoio de outros altos funcionários, para considerar um compromisso que implicasse aceitar as pretensões soviéticas com relação aos Estados Bálticos, enquanto recusava apoio às suas pretensões quanto à Polônia. Em março, o primeiro-ministro tinha chegado a essa posição. “A gravidade crescente da guerra levou-me a sentir que os princípios da Carta Atlântica não deveriam ser entendidos como uma negação à Rússia das fronteiras que ocupava quando foi atacada pela Alemanha”, disse ele a Roosevelt, pedindo o seu apoio para os planos do seu governo para aceitar aquelas pretensões. Isso significaria aceitar a anexação dos Estados Bálticos, que fora resultado do pacto nazissoviético de 23 de agosto de 1939.

Roosevelt se recusou a apoiar essa mutilação intencional dos princípios da Carta. O subsecretário de Estado, Welles, explicou que a disposição britânica de se submeter na questão dos Estados Bálticos era “não só indefensável de qualquer ponto de vista moral, mas também extraordinariamente estúpida”, pois só levaria a mais exigências, inclusive a anexação do território polonês. Eden notou com acidez: “a política soviética é amoral; a política dos Estados Unidos é exageradamente moral, pelo menos onde estão envolvidos interesses não americanos”.

Porém, isso estava longe de ser a história completa. Se a abordagem de Churchill exibia um cálculo cínico, que no final iria condenar todos os esforços para conter as ambições de Stalin ao término da guerra, Roosevelt se mostraria a um só tempo ingênuo e incoerente. Ele desejava genuinamente evitar todos os protocolos secretos ou outros compromissos escritos sobre questões territoriais que queria resolver mais tarde – o que, e isso não foi insignificante, ajudou a manter as boas relações com os funcionários poloneses e sua boa posição junto aos eleitores americano-poloneses. Mas, ao mesmo tempo, ele enviou privadamente sinais muito diferentes e manteve a confiança nas boas intenções de Stalin.

Tudo isso ajudou a gerar tensões anglo-americanas nas negociações com a Rússia, que conduziriam de modo direto à conferência de Yalta em 1945, quando a maioria dos acordos para o pós-guerra já estavam finalizados. De início, essas tensões foram bastante visíveis durante a fase final da Batalha de Moscou, uma época em que alguns oficiais ainda duvidavam da vitória soviética. Foi então que Roosevelt sinalizou a intenção de negociar diretamente com Stalin, contornando os britânicos. Com as conversações anglo-americanas sobre a Rússia “embaraçadas”, como disse Eden, Welles informou a lorde Halifax, o embaixador britânico em Washington, que o presidente pretendia tomar exatamente esse curso.

Os funcionários britânicos ficaram consternados. “Esta foi a primeira de várias ocasiões em que o presidente, acredito que equivocadamente, afastou-se de nós, influenciado por sua convicção de que teria melhores resultados diretamente com Stalin do que no caso de os três países negociando juntos”, escreveu Eden. “Era uma ilusão.”

No dia 18 de março, Roosevelt mandou a Churchill uma mensagem franca. “Sei que você não vai se importar com a minha franqueza brutal quando lhe digo que posso lidar pessoalmente com Stalin melhor que o seu foreign office ou o meu departamento de Estado”, declarou. “Stalin odeia todos os seus altos funcionários. Ele pensa gostar mais de mim, e espero que continue a pensar assim.”

Até então, Roosevelt nunca tinha se encontrado com Stalin, o que tornava ainda mais espantosa a confiança na sua capacidade de “controlar” o líder soviético. Mas ao lado da sua convicção de que a sua relação pessoal seria capaz de desencadear a boa vontade de Stalin, Roosevelt demonstrou também seu próprio nível de cinismo, que alarmou até mesmo os seus aliados britânicos, supostamente mais desconfiados.

Nas suas conversações com Maxim Litvinov, que era então embaixador soviético em Washington, Roosevelt sugeriu que, apesar de ainda não poder aceitar as pretensões sobre os Estados Bálticos e os territórios romenos, mais tarde ele o faria. Como Litvinov relatou a Moscou, o presidente descreveu a si e a Stalin como “realistas”. Então, com um sorriso, ele indicou que “vai tratar dessas questões no fim da guerra”.

O assessor presidencial Harry Hopkins, que tinha advogado sistematicamente o envio desses sinais para agradar a Stalin, estava ao lado de Roosevelt quando ele se reuniu com lorde Halifax no dia 9 de março. O presidente disse ao embaixador britânico que planejava dizer a Stalin reconhecer a necessidade de acordos firmes de segurança para o país depois da guerra, mas que seria perigoso colocar qualquer coisa por escrito naquele momento. Então acrescentaria que Stalin não tinha razão para se preocupar com o futuro, porque, depois de o Exército Vermelho ter tomado os Estados Bálticos, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha não fariam nada para desalojá-lo.

Quando Halifax lhe informou o teor do seu plano, Eden ficou horrorizado. “Não gostei do método da sua declaração, porque tinha certeza de que não satisfaria Stalin e porque parecia nos dar o pior dos mundos”, relembrou o secretário do Exterior. “Seríamos coniventes de modo desprezível com o inevitável, sem ganhar nada em troca.”

O beneficiário imediato dessas tensões anglo-americanas era Stalin, que, de acordo com Eden, “como negociador era o personagem mais duro de todos”. Poucas vozes no campo inglês ou no americano pediam posturas de negociação mais duras. Alguém como Ivan Yeaton, o adido militar americano em Moscou, que via a ajuda incondicional para a União Soviética como um erro enorme, estava no lado mais fraco do debate, que só brilhou brevemente. Depois do choque com Hopkins durante a visita do assessor presidencial em julho de 1941, seus avisos quanto à natureza do regime de Stalin foram muitas vezes ignorados – e, ainda mais quando voltou para o departamento de guerra em Washington, mais tarde naquele ano. Apesar de Churchill parecer de início ansioso para agradar Stalin, a equipe de Roosevelt salientava enfaticamente que a ajuda pelo Lend-Lease era incondicional.

É opinião geral que o destino da Europa Oriental foi determinado na conferência de Yalta em 1945, submetendo-a ao controle da União Soviética e redesenhando suas fronteiras de acordo com os desejos de Stalin. Mas esse foi apenas o último passo de um longo processo. O líder soviético primeiro revelou seus planos em considerável detalhe durante a Batalha de Moscou. Como Molotov explicou mais tarde, “minha tarefa como ministro de Negócios Estrangeiros era expandir as fronteiras da pátria. E parece que Stalin e eu realizamos essa tarefa com grande sucesso”.

Franklin D. Roosevelt Library

Roosevelt com Harry Hopkins numa sala da Casa Branca. Apesar de

os Estados Unidos ainda não estarem na guerra, o presidente

insistia em oferecer toda ajuda possível à Rússia. Mesmo com o

destino de Moscou em risco, Stalin usou as conversações com líderes ocidentais para favorecer os seus planos de dominação

soviética da Europa Oriental no pós-guerra.

 

Por mais que discordassem quanto à tática, Churchill e Roosevelt responderam de uma forma que só aumentou a convicção do líder soviético de que, no fim, sairia ganhando o que queria. No dia 1º de dezembro, pouco antes de Stalin se reunir com Sikorski e depois com Eden, o lado soviético organizou um encontro secreto de comunistas poloneses em Saratov. Foi o primeiro passo na criação de um governo títere, que garantiria o controle soviético da Polônia do pós-guerra. Stalin ainda enfrentava a enorme ameaça dos invasores alemães, mas grande parte da resistência ocidental às suas ambições políticas já tinha desmoronado – e a pequena parte que restou continuaria a se erodir à medida que a luta avançava. O governante soviético não estava apenas revelando seus planos para o mundo no pós-guerra durante a Batalha de Moscou, ele também agia por eles.

 

Para os correspondentes ocidentais na União Soviética, o trabalho de tentar informar sobre a Batalha de Moscou, ou sobre qualquer outro aspecto da guerra, era em geral um exercício em frustração. Quentin Reynolds, correspondente do Collier’s Weekly que tinha chegado a Moscou assumindo o papel de porta-voz da missão Beaverbrook-Harriman em setembro, continuou na cidade como planejava – mas rapidamente passou a se perguntar se o trabalho valera o esforço. Referindo-se às duas entrevistas coletivas por semana do vice-ministro de Negócios Exteriores, Solomon Lozovsky, Reynolds observou com malícia:

sempre simpaticamente nos convidando a fazer todas as perguntas que quiséssemos, ele conseguia não responder a nenhuma. Na verdade, a maior parte das notícias sobre o que estava se passando vinha das embaixadas americana e britânica ou da rádio alemã.

Quando, junto com os diplomatas, os jornalistas foram evacuados para Kuibyshev em meados de outubro, sua disposição azedou ainda mais. Larry Lesueur, correspondente da Rádio CBS que chegou tarde demais à Rússia para ficar em Moscou e foi para a capital alternativa, encontrou os outros correspondentes “extremamente deprimidos” com relação à situação. Ele estava tão ansioso por transmitir da Rússia que tinha vindo num comboio britânico que transportava tanques, botas e outros itens de auxílio de guerra para a cidade portuária de Archangel, no norte, e depois suportado uma viagem tortuosa de 17 dias, num trem parador, ao longo de mais de 3.500 km até Kuibyshev. De início exultante por finalmente ter chegado, ele logo foi tomado pela depressão dos seus colegas. “Uma das batalhas mais decisivas do mundo se desenrolava a 1.000 km de distância e as únicas notícias que nós conseguíamos eram as que vinham pelo rádio russo”, escreveu.

Passando a maior parte do tempo no Grand Hotel de Kuibyshev, cujo acesso era proibido aos russos, os estrangeiros tinham muitas razões para se sentirem isolados. A entrega de jornais de Moscou era errática, relatou Lesueur, e, mesmo quando chegavam, já estavam atrasados três dias. A batalha pela capital soviética também provocou a interrupção das comunicações telegráficas, o que significava que ele geralmente perdia as instruções relativas à hora de transmissão. Nesses casos, Lesueur cruzava a cidade à noite para deixar a sua reportagem no departamento de censura, voltava para o hotel para descansar um pouco e depois percorria as ruas geladas de Kuibyshev até a estação de rádio para transmitir a sua reportagem no meio da noite – e ser informado de que a sua voz não tinha necessariamente chegado aos seus ouvintes.

Mesmo quando conseguiam sair de Kuibyshev para ver alguma coisa por si próprios, eles tinham dificuldade para relatar qualquer coisa além da informação oficial. Tentando descobrir uma desculpa aceitável para viajar, Reynolds e Arch Steele do Chicago Daily News pediram para visitar uma fábrica de munições – e, para sua surpresa, o pedido foi aceito. Acompanhados de um tenente que serviu como seu guia, eles passaram ao lado de um grupo de edifícios sombrios cercados de arame farpado, que não deixava dúvidas: era um campo de concentração para cidadãos soviéticos presos na rede de terror de Stalin. “Alguns soldados com fuzis guardavam despreocupados o campo dos cidadãos soviéticos”, relembrou Reynolds. “Era óbvio que nenhum dos prisioneiros tinha para onde fugir ou se esconder.” Pouco mais de 1,5 km depois do campo, eles encontraram um grande grupo de mulheres prisioneiras que trabalhavam na estrada com pás e picaretas. “Vestidas nas suas roupas cinzentas disformes, elas pararam ao lado da estrada e nos viram passar, os rostos sem expressão”, escreveu Reynolds.

Sabendo que os censores nunca permitiriam aos dois americanos relatar esse vislumbre inesperado da realidade soviética, o seu guia informou que as mulheres eram prisioneiras políticas. Quando Reynolds escreveu uma reportagem elogiosa sobre o moral alto na fábrica de munições e tentou incluir uma menção às prisioneiras trabalhando na estrada, o censor cortou-a: não retirou apenas o trecho, mas também grande parte da descrição laudatória da visita à fábrica. Reynolds ficou tão furioso que telegrafou ao seu editor pedindo uma transferência para ele e uma colega, Alice-Leon Moats. Como os “telégrafos de serviço” não eram censurados, ele contou tudo. “Moats e eu gostaríamos de ficar e escrever sobre o heroico povo soviético e o grande Exército Vermelho, mas uma censura estúpida não nos permite fazê-lo. Moats quer ir para a Índia. Eu quero ir para Londres. O que você acha?”

O editor respondeu 12 horas depois, dizendo: “vocês dois vão para onde puderem encontrar notícias”. Moats foi para a Índia e Reynolds foi para o Cairo para cobrir a guerra no norte da África. Nos dois casos, os dois repórteres gostaram de sair da Rússia.

Quando os correspondentes americanos que ficaram ouviram na noite de 7 para 8 de dezembro as notícias sobre o ataque japonês a Pearl Harbor, jogaram o sobretudo sobre o pijama e se reuniram no quarto de Henry Cassidy, chefe do bureau da Associated Press. Cassidy decidiu abrir uma garrafa de uísque que vinha guardando para o Natal, e os repórteres planejaram seus próximos movimentos. “Todos falavam ao mesmo tempo e fazíamos planos de deixar a Rússia imediatamente e ir para o Extremo Oriente”, contou Lesueur da CBS. “Apesar de sabermos que a Rússia continuaria a lutar mesmo se Moscou fosse tomada, sem dúvida seus exércitos seriam divididos se os alemães capturassem a capital soviética.” Ademais, para os americanos a notícia significava que sua guerra ocorreria em outro lugar. Como explicou Cassidy, “a grande história parecia ter saído da Rússia para o Pacífico”.

Mas, isolados como estavam, os correspondentes não sabiam nada sobre a contraofensiva soviética que Stalin acabara de lançar para afastar os alemães de Moscou. Quando viram o comunicado oficial em 12 de dezembro, proclamando o sucesso daquele esforço e a vitória na Batalha de Moscou, ficaram atônitos. “Naquela noite eu me perguntei se os japoneses teriam ousado o ataque contra Pearl Harbor se tivessem sabido que seus parceiros do Eixo no outro lado do mundo estavam realmente condenados ao fracasso, a apenas 40 km de Moscou”, escreveu Lesueur.

No dia seguinte, os assessores de imprensa do governo soviético começaram a oferecer convites aos correspondentes para voltarem a Moscou. Os convidados não poderiam ficar mais felizes, e logo abandonaram, pelo menos naquele momento, os planos de saída da Rússia. “O Exército Vermelho não tinha apenas salvo Moscou dos alemães”, Cassidy exultou. “Salvou também os correspondentes de Kuibyshev.”

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Cartaz de propaganda soviético com uma mensagem

urgente: “Defenderemos Moscou!”. Mas enquanto

exortavam o povo a lutar para salvar a capital,

funcionários do Kremlin não tinham nenhuma confiança

de que conseguiriam conter os alemães. Prepararam

equipes de agentes secretos treinados para operações

de sabotagem e assassinato, para serem deixados na

Moscou ocupada.

 

Seria apenas um adiamento temporário, pois os correspondentes receberiam ordens para voltar a Kuibyshev no final de dezembro, mas um episódio excitante, pois finalmente podiam sair e fazer alguma coisa. Receberiam a oferta de mais viagens ao front em janeiro, quando a contraofensiva soviética fez os alemães recuarem mais. Como sempre, mesmo quando tinham permissão para chegar perto da ação, só tinham um vislumbre do que estava acontecendo – e poderiam facilmente ser enganados pela propaganda soviética patentemente falsa. Cassidy informou que a Batalha de Moscou “foi vencida por um truque esperto aplicado a um oponente confiante”. Um oficial soviético lhe disse como foi esse “truque”. “Poderíamos tê-los contido antes, mas esperamos até que isso nos custasse menos – e custasse mais a eles.” Em outras palavras, o lado soviético tinha espertamente atraído os alemães para mais perto, e então lançaram a sua armadilha. Foi essa a versão da interpretação do Kremlin, e muito eficaz, pois correspondentes como Cassidy estavam ansiosos demais por alguma coisa nova para relatar.

Ainda assim, os jornalistas viam o suficiente para ter um retrato mais preciso. Viajando pela Klin-Volokolamsk ao norte de Moscou no fim de dezembro, Cassidy reconheceu que os alemães ainda tinham muita força, e as alegações soviéticas de vitória eram um tanto prematuras. “Lá, eu vi, não havia um exército alemão vencido que era perseguido para oeste. Havia uma máquina ainda poderosa que tinha parado e recuava para retomar o avanço”, relatou. “Também vi que não era um frágil Exército Vermelho que cambaleava atrás de um inimigo vencido. Era uma força crescente que apenas começava a sentir sua força ofensiva e ativamente precipitava o recuo do inimigo.”

Em Moscou, Lesueur e outros correspondentes se espantaram pelo pequeno número de edifícios atingidos por bombas alemãs, e como as crateras de bombas tinham sido enchidas. “Em comparação com Londres, a capital soviética estava intocada”, escreveu. Mas quando saíam da capital, viam como a guerra tinha chegado perto. A cerca de 40 km da cidade, na estrada para Leningrado, o correspondente da CBS viu aldeias incendiadas, tanques alemães e soviéticos destruídos espalhados pelo campo que parecia um lote de ferro velho, e uma floresta “devastada como que por um furacão” pelo feroz fogo de artilharia e pelas batalhas de tanques. “A ruína escurecida das aldeias era apavorante.” Ele viu algumas mulheres camponesas examinando os escombros das casas que eram “apenas brasas enegrecidas fumegantes”.

E por toda parte, os repórteres viam os mortos dos dois exércitos. Apesar de os alemães terem conseguido enterrar alguns dos companheiros e erguer cruzes com nomes queimados na madeira, muitos mortos estavam como os que Cassidy encontrou durante uma excursão. Escreveu:

aqui, os corpos, em pequenos grupos de 12 ou 50, congelados em estranhas posições, muitos com os braços curvos ainda erguidos como se para evitar o inevitável, pareciam mais estátuas de cera do que homens [...] A neve e o gelo vestiam suas mortes numa limpeza misericordiosa.

Em muitos casos as temperaturas gélidas preservavam a evidência do tipo de morte que os soldados encontraram. Lesueur percorreu uma estrada coberta de corpos rígidos de soldados do Exército Vermelho. Estavam descalços e com tiros na cabeça. “Prisioneiros”, o acompanhante soviético explicou. “Os alemães os matavam quando não conseguiam acompanhar a retirada.”

Lesueur também anotou outros tipos de morte. “A guerra é dura com os cavalos”, escreveu. “Ao longo da margem da estrada os corpos congelados jaziam em pedaços explodidos cobertos de neve.”

Um dos ocidentais que ficou particularmente comovido com o sofrimento dos russos foi Eve Curie, filha da cientista ganhadora do Prêmio Nobel, Marie Curie. Ela tinha vindo à Rússia como repórter e ávida partidária do movimento França Livre – e, por causa da fama da sua mãe, ela às vezes tinha mais liberdade que os outros correspondentes. Quando saía em viagem de Moscou, ela dizia a si mesma: “a Rússia é hoje o único lugar na Europa onde se veem cidades, aldeias e pessoas libertadas dos alemães”. Ao se encontrar com os habitantes daquelas aldeias e cidades e ouvir suas histórias, ela sentia uma ligação pessoal com eles, como explicou, “talvez por eu ser francesa, e por minha mãe ser polonesa”.

Curie ficou fascinada pelo que os habitantes locais tinham a dizer sobre a ocupação alemã. Uma mulher lhe disse que os oficiais alemães na sua aldeia, perto de Istra, a oeste da capital soviética, falavam de “tomar Moscou e voltar para a Alemanha”. E repetiam constantemente: “Moscou está acabada, kaput; a União Soviética está kaput”. Quando receberam a ordem de retirada, um oficial alemão declarou embaraçado: “isso não é uma retirada. Nossos tanques e caminhões apenas precisam de conserto. Precisamos ir embora, mas logo vamos voltar”. Mas quando partiram, os soldados alemães atiraram granadas incendiárias nas casas, deixando a aldeia em chamas.

Praticamente em todo lugar onde parava, Curie encontrava histórias do terror alemão. Os ocupantes expulsavam os habitantes das suas casas para a floresta, atiravam aleatoriamente nas pessoas, inclusive em uma mãe com cinco filhos que se recusou a lhes entregar um pouco de lenha que carregava, matavam vacas e roubavam toda comida que encontravam. Deixavam os corpos de suas vítimas pendurados nas cidades e aldeias, e havia uma infinidade de histórias de atrocidades – por exemplo, prisioneiros soviéticos queimados vivos e crianças que tinham rido dos invasores e foram metralhadas. “Aqueles crimes pareciam tão terríveis, tão sem sentido que, por vezes, eu hesitava em acreditar neles”, escreveu. Ainda assim, ela descobriu que os relatos de pessoas diferentes em cada cidade ou aldeia eram notavelmente consistentes.

Mas Curie – e Lesueur da CBS, independentemente – tropeçaram numa história que se mostraria ainda mais reveladora que os relatos de atrocidades alemãs que logo se tornariam conhecidos. Era uma história cuja significância eles não tinham meios de avaliar na época – e que as autoridades soviéticas tentariam retirar de todos os relatos da Batalha de Moscou. Que foi precisamente a razão por que o relato dos dois seria tão valioso.

 

No seu triunfante artigo de 13 de dezembro de 1941, proclamando o colapso do avanços alemães para tomar Moscou, o Pravda mencionou proeminentemente vários generais que tinham se distinguido na luta em torno da capital. Um deles foi Andrei Vlasov, cujas tropas tomaram Solnechnogorsk, a noroeste da cidade. Mas logo o nome de Vlasov desapareceria das novas edições daquele artigo e de todos os relatos da Batalha de Moscou. Nas histórias oficiais, ele simplesmente esvaneceu.

Vlasov nasceu em 1900, 13° filho de uma família camponesa. Em 1919, foi convocado para lutar na guerra civil. Depois de entrar para o Partido Comunista, em 1930, ele galgou rapidamente as fileiras, e no final da década já servia como conselheiro militar na China. Em 1940, foi agraciado com a Ordem de Lenin. Quando se deu a invasão dos alemães no verão seguinte, ele lutou na frente ucraniana e recebeu elogios por ter conseguido, no último momento, romper o cerco de Kiev com suas tropas. Em novembro, Stalin colocou-o no comando do 20º Exército, com a atribuição de evitar que os alemães chegassem a Moscou vindos do norte. Numa reunião pessoal com Vlasov no Kremlin, no dia 10 de novembro, o líder soviético teria negado o seu pedido de tropas de reserva para ajudá-lo na sua missão, e somente lhe forneceu 15 tanques. Apesar do tratamento tipicamente ríspido, Stalin o considerava um dos seus melhores comandantes.

No dia 16 de dezembro, três dias depois do artigo do Pravda que elogiou os feitos de Vlasov, Lesueur – acompanhado de um censor e de dois oficiais do Exército Vermelho – viajou para o norte de Moscou para uma entrevista prometida com o agora famoso general. Quando se aproximavam do local esperado, encontraram placas de cuidado com minas. Um dos oficiais disse a Lesueur que os alemães plantavam milhares de minas por ali enquanto se retiravam, minas que nem precisavam ser escondidas, pois a neve logo cuidava desse problema. Pararam numa casinha onde deviam encontrar Vlasov. O local, que até alguns dias antes tinha sido usado pelo comandante alemão, ainda exibia a placa quartel-general alemão de Divisão. Mas Vlasov não estava lá, pois já tinha avançado com suas tropas.

Finalmente, ao chegarem ao novo quartel-general temporário de Vlasov, Lesueur testemunhou a chegada do general e de outro oficial.

Com um sorriso, eles se aproximaram e automaticamente nós fomos até eles, seguidos por homens do Exército Vermelho em clara admiração. Os soldados não tinham medo dos oficiais comandantes, pareciam atraídos para eles como um aluno é atraído por um professor respeitado.

Depois de trocar cumprimentos com seus soldados, Vlasov apertou as mãos dos visitantes. Lesueur pareceu se impressionar pela sua aparência, observando que ele “parecia mais um professor do que um soldado, tão alto que o seu chapéu de astracã com coroa vermelha e dourada o fazia elevar-se sobre todos. Usava óculos de aro dourado na ponta do nariz”. Vlasov disse aos visitantes que suas tropas estavam preparando-se para libertar Volokolamsk naquela noite mesmo, e que ele já tinha enviado o seu batalhão de esquiadores para cercar a cidade. Enquanto falava sobre os próximos movimentos, “seus olhos tinham uma expressão brilhante de alegria”, relatou Lesueur.

Quando Lesueur perguntou a Vlasov onde esperava que os alemães se entrincheirassem para guardar posição naquele inverno, a resposta indicava o que Stalin gostava tanto nesse general. “Não planejo a minha ofensiva com base no fato de os alemães decidirem se entrincheirar em algum lugar. Pretendo expulsá-los para tão longe quanto possível.”

“Você acha que eles vão se entrincheirar em Smolensk?”, continuou Lesueur, referindo-se à cidade a 370 km a oeste de Moscou.

O general desviou o olhar. “Smolensk – é uma história diferente”, disse.

Lesueur concluiu que a mensagem de Vlasov era que ele não devia se entusiasmar com o que as tropas soviéticas poderiam conquistar na sua contraofensiva naquele inverno. Aquilo era apenas o início do esforço para expulsar os alemães.

Um mês depois, quando as tropas de Vlasov controlavam Volokolamsk e tinham derrotado vários contra-ataques alemães na região, Curie fez uma visita semelhante ao general, pois ela também estava ansiosa para conhecer “um dos jovens líderes cuja fama crescia rapidamente”. E também ela ficou impressionada pelo comandante que veio cumprimentá-la. “Vlasov era um homem alto e forte de 40 anos, com feições inteligentes e um rosto queimado de neve e sol”, escreveu. “Vestia uma farda verde-oliva simples: botas altas de couro, culote, e um casaco de estilo russo, com a forma de túnica de camponês. Não tinha nenhuma insígnia, nenhum distintivo, nenhuma estrela, nem medalha.”

À hora do chá, com zakuski e hors d’oeuvres, um animado Vlasov descreveu suas batalhas mais recentes, como as tropas lançaram-se à última em 10 de janeiro e avançaram quase 30 km em uma semana, derrotando três divisões alemãs no percurso. Com um riso triunfante, ele esvaziou o conteúdo de uma bolsa à prova d’água, que incluía os emblemas de regimentos de tanques e cavalaria alemães e várias cruzes de ferro de 1939, provavelmente dadas a soldados pela campanha da Polônia. “Havia uma coisa muito estimulante em conversar com esse homem enérgico, completamente obcecado com o seu trabalho duro […] [que] julgava tudo do ponto de vista puramente militar”, observou Curie.

Vlasov também queria falar de liderança militar. Mencionou Pedro, o Grande, e expressou admiração por Napoleão. “Uma loucura completa comparar sempre Hitler com Napoleão”, disse ele. “Napoleão foi um verdadeiro gênio militar, uma grande capitão de guerra!” Perguntou a Curie sobre Charles de Gaule, e estava obviamente intrigado por Guderian, o lendário comandante de tanques que recentemente tinha sido afastado dos seus deveres por Hitler.

Acima de tudo, ele se concentrava em atingir os alemães tão duramente quanto possível. “Não são tanto os quilômetros retomados que contam, mas o número de baixas impostas ao inimigo”, disse a Curie. “Nosso objetivo é enfraquecer Hitler. Por isso, as ordens de Stalin não são simplesmente para forçar o recuo dos alemães sempre que possível, mas cercar as suas unidades e aniquilá-las. O inimigo é agora uma fera ferida – mas ainda muito forte.”

Curie concluiu que aquele era um homem obcecado com a sua missão, alguém totalmente comprometido com sua causa. Além das declarações sobre a necessidade de destruir o inimigo, ele invocou muitas vezes as ordens de Stalin, iniciando suas declarações com “a ordem de Stalin é […]” ou “o plano de Stalin é […]”. Referindo-se a si mesmo, ele declarou: “meu sangue pertence à minha pátria”.

Seis meses depois, o impensável aconteceu. No dia 12 de julho de 1942, enquanto comandava o 2º Exército de Choque em Volkhov, na frente sul de Leningrado, Vlasov foi capturado pelos alemães. Mas não foi essa a parte impensável. Afinal, muitos altos oficiais tinham perecido ou sido capturados quando seus exércitos foram cercados. O que foi realmente espantoso foi o famoso general ter proposto aos seus captores alemães lhe darem permissão para criar um “movimento russo de libertação” cuja missão seria derrubar o regime de Stalin. Em outras palavras, Vlasov decidiu mudar de lado.

Stalin ficou atônito. Quando Beria lhe mostrou cópias das declarações de Vlasov anunciando suas intenções, ele perguntou ao chefe da polícia secreta se poderiam ser falsificações alemãs. Beria lhe disse que não havia dúvida de que Vlasov agora estava trabalhando para os alemães. “Como foi possível não descobri-lo antes da guerra?”, perguntou Molotov.

Procurando um bode expiatório, Stalin convocou Kruschev ao Kremlin e observou “num tom agourento” que ele era responsável por dar a Vlasov o comando do 37º Exército durante a batalha de Kiev. Kruschev se recusou a assumir o papel de culpado, lembrando a Stalin que foi decisão dele colocar Vlasov no comando da contraofensiva de Moscou. Isso foi suficiente para levar o líder soviético a abandonar o assunto. Mas aquela discussão não tratou da questão fundamental. “Era difícil entender como um homem que tinha demonstrado tanta dedicação, bravura e competência e que tinha angariado tanto respeito, fora capaz de trair o seu país”, escreveu Kruschev.

Em dezembro de 1942, Vlasov publicou a Declaração de Smolensk, em que expunha os seus objetivos e, em parte, explicava a transferência da sua lealdade. “Bolchevismo é o inimigo do povo russo”, proclamava a declaração. “Trouxe incontáveis desastres para o nosso país e por fim envolveu o povo russo numa guerra sangrenta lutada em nome dos interesses de outros.” Os “outros” foram identificados como os capitalistas britânicos e americanos, enquanto a Alemanha foi retratada como quem lutava contra o bolchevismo, não contra o povo russo. De acordo com a declaração, o grupo de Vlasov concentraria seus esforços na deposição de Stalin e do seu regime, e então concluiria “uma paz honrosa com a Alemanha”. Prometeu também o fim do terror, a libertação de todos os presos políticos e o desmantelamento das fazendas coletivas.

Apesar da sua rápida ascensão entre os militares soviéticos, durante todo aquele tempo, Vlasov provavelmente teve dúvidas quanto ao sistema político a que servia. De acordo com alguns relatos, um dos seus irmãos caiu vítima dos vermelhos durante a guerra civil e foi executado como traidor. Seus pais foram rotulados como “camponeses ricos” quando Vlasov lhes deu uma vaca. Independentemente do papel desses incidentes, Vlasov enfatizou mais tarde que ainda tinha orgulho do que fizera durante a Batalha de Moscou. “Fiz tudo que podia para defender a capital do país”, escreveu numa carta aberta. Mas tinha raiva da “liderança caótica corrompida pelo controle dos comissários” que foi responsável pelas “pesadas derrotas” sofridas pelo Exército Vermelho. E, revendo a forma como Stalin tinha governado o país mesmo antes da guerra, expressou sua raiva e tristeza pela perda de milhões de vidas durante a coletivização forçada e pela onda de prisões e execuções políticas.

Tal como muitos prisioneiros de guerra soviéticos que depois se juntaram ao seu movimento, Vlasov talvez tenha calculado que teria melhores chances de sobrevivência se tomasse as armas mais uma vez. Não era segredo que os prisioneiros soviéticos morriam aos milhares nas prisões alemães, e que Stalin considerava traidores os que conseguiam fugir. Ironicamente, Hitler também nutria enormes suspeitas de Vlasov e de outros oficiais soviéticos que se ofereciam para lutar. Ele queria uma Rússia subjugada, não uma Rússia libertada.

Somente bem mais tarde, durante a guerra, quando a Alemanha já estava praticamente derrotada, Hitler autorizou oficialmente o movimento de Vlasov. Ele, então, teve a chance de enviar suas divisões para ação em março e abril de 1945, quando as tropas lutavam uma guerra de retaguarda em Praga. Mas quando as SS começaram uma onda de fuzilamentos, as tropas de Vlasov mudaram novamente de lado, voltando as armas contra os alemães em defesa dos tchecos.

Isso não ajudou Vlasov e seus seguidores condenados. Capturado pelo Exército Vermelho, alguns foram fuzilados imediatamente. Vlasov e outros altos oficiais foram transferidos para a União Soviética, torturados e enforcados. E, evidentemente, o nome dele foi apagado de todos os relatos da Batalha de Moscou. Não se podia admitir que um dos seus heróis tivesse decidido que preferia morrer lutando contra Stalin do que na sua defesa. Desde o início, a história daquela batalha foi marcada por omissões deliberadas, distorções escandalosas e mentiras completas. Somente o depoimento de testemunhas oculares ocidentais, como Curie e Lesueur, pôde evitar que Vlasov desaparecesse sem deixar vestígios.