A Batalha de Moscou

Andrew Nagorski · Capítulo 12 de 17

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A Batalha de Moscou

“O mein Gott! O mein Gott!”

 

A luta em outubro ainda não tinha produzido vitória decisiva para nenhum dos dois lados. As unidades alemãs estavam a 60 km de Moscou, e em alguns pontos até mais perto. Embora os invasores estivessem cansados, esgotados e as suas linhas muito extensas, eles ainda ameaçavam cumprir a promessa de Hitler de tomar e aniquilar a capital soviética. O pânico na cidade tinha-se acalmado, mas Stalin e sua entourage não estavam nem de longe convencidos de que o pior já tivesse passado. Mesmo com a chegada de novas tropas da Sibéria, não havia garantia de que Moscou poderia evitar o desastre.

Foi nesse momento que Stalin insistiu em executar seu maior gesto de desafio – uma grandiosa comemoração de 7 de novembro, dia do 24º aniversário da Revolução Bolchevique. Estava convencido de que, precisamente porque o destino de Moscou ainda era incerto, um evento tão teatral poderia oferecer aos defensores da cidade um surto de confiança muito necessário. Ou melhor, desde que nenhuma falha produzisse o resultado oposto.

A primeira parte das cerimônias não transmitiu uma mensagem positiva. No dia 6 de novembro, os líderes soviéticos se reuniram na estação Maiakovsky do metrô para um discurso de Stalin aos delegados do Soviete da Cidade de Moscou e funcionários civis e militares. Sentados em cadeiras trazidas do Teatro Bolshoi para a ocasião, os dignitários reunidos aplaudiram quando Stalin, acompanhado de Molotov, Mikoyan e outros líderes do Kremlin, chegou num trem vindo de uma estação próxima. Transmitidas pelo rádio e para serviços de alto-falantes, as cerimônias começaram com uma explosão de música patriótica, seguida pelo discurso do líder à nação. Tudo isso foi pensado para máximo efeito inspirador.

Isso talvez tenha funcionado para quem ouvia o rádio, mas não necessariamente para os oficiais reunidos abaixo do chão na estação de metrô. O correspondente britânico Alexander Werth observou que todos sabiam que o local fora escolhido por causa do perigo dos bombardeios alemães para qualquer coisa acima do chão. “Como mais tarde me disseram muitos dos que compareceram à reunião, o ambiente subterrâneo da cerimônia era estranho, deprimente e humilhante.” Acrescentou que o discurso de Stalin “foi uma mistura estranha de negro abatimento e total autoconfiança”.

Foi assim mesmo. Ao falar sobre o perigo que o país enfrentava desde que os alemães tinham lançado seu ataque, ele declarou:

Hoje, como resultado de quatro meses de guerra, devo enfatizar que esse perigo – longe de diminuir – pelo contrário, aumentou. O inimigo capturou a maior parte da Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldova e Estônia, além de várias outras

regiões, penetrou no Donbass, * e paira como uma nuvem negra sobre Leningrado e ameaça nossa gloriosa capital, Moscou.

Também avisou que o inimigo “está usando toda a sua força para capturar Leningrado e Moscou antes que chegue o inverno, pois sabe que o inverno não guarda nada de bom para ele”.

Mas, se essa parte do discurso pintava um retrato sombrio, ele também afirmou que as heroicas tropas soviéticas “tinham forçado o inimigo a perder rios de sangue” e que a Blitzkrieg [guerra relâmpago] já tinha fracassado. Ele então apresentou estatísticas que deveriam comprovar o quanto os alemães padeciam, apesar de momentos antes ele ter tido de admitir que foi seu exército a sofrer uma devastadora série de derrotas. “Em quatro meses de guerra, perdemos 350 mil mortos, 378 mil desaparecidos e 1.020.000 homens feridos”, afirmou ele. “No mesmo período, o inimigo perdeu mais de 4.500.000 mortos, feridos e presos.”

Como já demonstraram historiadores ocidentais, o Exército Vermelho geralmente tinha mais baixas que a Wehrmacht – mesmo mais tarde na guerra, quando já somava vitórias sucessivas e expulsava os alemães. Durante todo o período do conflito, o Exército Vermelho perdeu três vezes mais homens que os alemães. Os números de Stalin, que supostamente refletiam as perdas durante a série das primeiras vitórias alemãs, não passavam de fantasia. “É extremamente duvidoso que alguém na Rússia tivesse acreditado naqueles números”, escreveu Werth. Mas, como observou o correspondente britânico, eles deveriam reforçar sua afirmativa mais ampla de que a Blitzkrieg tinha fracassado por não ter conseguido produzir o colapso rápido da sua vítima, como o que tinha alcançado na Polônia e Europa Ocidental.

Para explicar “as dificuldades militares temporárias” do Exército Vermelho, Stalin ofereceu várias desculpas. Apesar de proclamar o fato de a Grã-Bretanha e os Estados Unidos estarem agora aliados à União Soviética, a primeira desculpa que deu foi “a ausência de uma segunda frente na Europa”, o que permitiu aos alemães se concentrarem na frente oriental. “A situação agora é tal que nosso país está lutando sozinho a guerra de libertação, sem ajuda militar de ninguém.” Evidentemente, ele nunca mencionou como os alemães puderam invadir a Polônia graças à sua aliança com a Rússia, ou durante quanto tempo a Grã-Bretanha tinha lutado sozinha antes da Operação Barbarossa.

ITAR/TASS Photo Agency

 

Depois do pânico de meados de outubro, com saques, greves e a

fuga em massa de Moscou, Stalin surpreendeu a sua equipe ao

insistir na parada de 7 de novembro na Praça Vermelha, o

aniversário da Revolução Bolchevique. Uma forte nevasca minimizou

o perigo de ataques aéreos alemães, e Stalin pôde demonstrar que

ainda controlava a cidade.

Da mesma forma, ele atribuiu a culpa pelas derrotas à “carência de tanques e também, em parte, de aviões”, apresentando o problema como apenas uma questão de capacidade de produção, sem nunca reconhecer as enormes perdas que foram resultado direto da sua recusa em acreditar que os alemães iriam atacar quando o fizeram. Jurou que a indústria soviética seria capaz de gerar um aumento de “muitas vezes” na produção de tanques e de outros armamentos – e, de fato, a verdade dessa previsão seria comprovada posteriormente durante a guerra, apagando a inicial vantagem dos alemães em armamentos.

Mas o saldo das evasivas e promessas foi menos importante que a invocação do dever patriótico de resistir aos invasores que “já caíram ao nível de animais selvagens”. Representando o conflito como mais uma de uma longa série de defesas da Mãe Rússia, ele lembrou aos seus ouvintes as grandes figuras da história nacional – todos, desde Pushkin e Tolstoi até os lendários comandantes militares Aleksandr Suvorov e Mikhail Kutuzov, este último que derrotou os exércitos de Napoleão. “O destino de Napoleão não deve ser esquecido”, proferiu ele. Também mencionou Lenin, mas o foco era na luta nacional, e não na ideológica, pela sobrevivência.

E, por fim, houve a sua promessa de muito mais que a vitória: “Os invasores alemães querem uma guerra de extermínio contra os povos da URSS. Bem, se os alemães querem uma guerra de extermínio, eles a terão.” Seria olho por olho ou, mais precisamente, vingança a qualquer preço.

A tradicional parada militar na Praça Vermelha, a parte mais arriscada das cerimônias, foi programada para as 8h da manhã seguinte – embora somente os envolvidos diretamente, que tiveram de jurar segredo, sabiam a hora e os detalhes. A maioria dos comandantes das unidades militares que deveriam participar receberam informações sobre os planos às 2h da madrugada, pouco antes de terem de organizar suas tropas. Quando os soldados, tanques e artilharia se reuniam no frio do início da manhã, diminuiu o medo de um ataque aéreo alemão. Apesar de os aviões soviéticos ainda patrulharem o céu cinzento, uma pesada nevasca começou na hora do desfile, tornando os ataques aéreos muito improváveis. Do portão do Kremlin, o marechal Budyenny surgiu montado num cavalo branco com o sabre desembainhado, e se juntou a Stalin e aos outros líderes do Kremlin no Mausoléu de Lenin para a revista das tropas.

Durante a noite, espalharam areia na Praça Vermelha e nas ruas próximas, mas ela desapareceu nos ventos e na nevasca da manhã, o que tornou particularmente difícil o trabalho das brigadas de artilharia e tanques, pois tinham de operar sobre superfícies escorregadias e neve em movimento. Com Stalin e o alto-comando assistindo, alguns soldados tiveram de empurrar peças recalcitrantes de artilharia. Dois tanques pesados pararam no meio da praça e tomaram a direção errada, provocando um momento de alarme seguido de alívio quando ficou claro que era apenas um erro de comunicação. Mas os soldados, em sua maioria, marcharam pela Praça Vermelha sem incidentes – e imediatamente saíram marchando da cidade para se juntar de novo à luta na frente de batalha próxima.

Com ventos fortes castigando a neve naquela manhã, a voz de Stalin não foi bem ouvida. A maioria dos que marchavam na Praça Vermelha naquele dia registraram apenas a sua presença, não a sua mensagem. “Marchamos diante do mausoléu e o vimos”, lembrou Aleksandr Zevelev, membro da OMSBON. “Ele acenou com o braço.”

Mas o que importava era exatamente a presença de Stalin. Na véspera da parada, Leonid Shevelev, novo recruta, não entendia por que seus instrutores perdiam tempo treinando movimentos de marcha. “Para nós era inacreditável: o inimigo estava perto de Moscou e nós treinávamos marcha para a parada”, disse ele. Mas bem cedo na manhã de 7 de novembro eles descobriram a razão – e sua participação lhes deu um enorme impulso moral. “Tínhamos ouvido que Stalin havia saído da capital”, disse Shevelev, referindo-se aos boatos que circularam antes. “Era muito importante para nós ver que nosso líder tinha preferido ficar conosco em Moscou. E isso nos fez marchar com a mesma determinação como se estivéssemos batendo os pregos do caixão dos nazistas que avançavam.”

Outro voluntário do OMSBON presente naquele dia, Yevgeny Teleguyev observou que a importância da parada foi ela ter acontecido. Quando a sua unidade chegou ao front, vindo diretamente da Praça Vermelha, os soldados que os recebiam já tinham ouvido relatos do que tinha acontecido. “É verdade que houve uma parada em Moscou?” Teleguyev e os outros responderam: “houve, e nós participamos dela”. Teleguyev se lembra que os soldados ficaram assombrados com o testemunho deles.

Mas Stalin queria muito mais do que simplesmente provar que estava em Moscou. Como os técnicos de som não conseguiram uma gravação clara do seu discurso na parada, e os câmeras tiveram problemas em conseguir boas imagens do líder, ele concordou em ler novamente o seu discurso no dia seguinte para obter uma boa gravação e trilha sonora. O discurso que a maioria dos cidadãos soviéticos ouviu pelo rádio no dia 8 de novembro e o filme que viram de Stalin supostamente passando as tropas em revista foram geradas numa sessão encenada no Kremlin. O líder soviético não ia permitir que o mau tempo frustrasse seus esforços para transmitir sua mensagem.

Como já tinha feito no discurso da estação Mayakovsky, o líder soviético admitiu que muito território tinha sido “temporariamente perdido” e que “o inimigo está diante das portas de Leningrado e de Moscou”. Porém, mais uma vez ele se jactou de as tropas soviéticas estarem infligindo pesadas baixas aos invasores, e insistiu em que os alemães estavam “exaurindo suas últimas forças”. “O inimigo não é tão forte como alguns supostos intelectuais aterrorizados o representam”, acrescentou – uma declaração que enfatizou o seu ódio aos “intelectuais” e preparou sua previsão de que a guerra iria terminar em desastre não somente para as tropas alemãs, mas também para seus senhores. “Mais alguns meses, mais uns seis meses, talvez um ano – e a Alemanha hitlerista há de desabar sob o peso de seus próprios crimes”, declarou ele.

Acreditando ou não nas suas próprias palavras, Stalin sabia que tinha de unir seus compatrícios. Um meio era sinalizar sua determinação de convocar tantos soldados quantos fossem necessários para rechaçar os invasores. “Nossas reservas de homens são inesgotáveis”, afirmou. Outro era repetir e expandir sua ladainha dos heróis russos – começando dessa vez pelos guerreiros dos séculos XII e XIV, Aleksandr Nevsky e Dmitri Donskoi, terminando mais uma vez com o marechal Kutuzov, o arquiteto da vitória sobre Napoleão. “Deixemos as imagens másculas dos nossos grandes ancestrais […] nos inspirar nesta guerra!” Era um apelo descarado ao tipo de patriotismo que não fazia distinção entre o novo e o antigo regimes. Assim, ele também admitia que o país enfrentava tamanho perigo que não podia depender da lealdade ao Partido Comunista para chegar à vitória.

Apesar de todas as profecias de vitória e de se vangloriar das perdas alemãs tão inflacionadas, Stalin buscava desesperadamente garantias de que não seria descoberto em erro. Por volta do dia 19 de novembro, ele telefonou ao marechal Zhukov e perguntou: “você tem certeza de que teremos condições de salvar Moscou? Estou perguntando com o coração sangrando. Diga-me com toda honestidade, como membro do Partido”.

“Não há dúvida de que vamos salvar Moscou”, Zhukov lhe disse. Mas aproveitou a oportunidade para pedir a designação de mais dois exércitos para a defesa da capital e mais 200 tanques.

“Fico feliz por você ter tanta certeza”, respondeu Stalin. Prometeu a Zhukov dois exércitos de reserva no fim de novembro, mas disse que não tinha como atender ao pedido de tanques. “Por enquanto não temos tanques”, disse.

Apesar de ter de corresponder com as garantias que Stalin pedia, Zhukov não estava tão tranquilo como queria parecer. Elena Rzhevskaya, que fez relatos extensivos sobre suas próprias experiências de guerra, conheceu Zhukov quando ele escrevia suas memórias em 1964. Na época, o famoso líder militar estava esquecido, vítima da luta política no Kremlin, e falou abertamente com ela dos momentos cruciais da guerra. “O marechal Zhukov considerava novembro de 1941 o mês mais crítico e agourento para Moscou, quando o destino da cidade foi decido em batalha”, lembrou ela.

Apesar de todo o tom de desafio demonstrado no aniversário da Revolução Bolchevique, Stalin e seus generais sabiam que a luta pelo controle de Moscou – e do país – poderia evoluir a favor de qualquer dos dois lados.

 

Hitler continuou a exalar confiança de que suas forças em breve sairiam vitoriosas, e as pessoas encarregadas de manter o moral dos soldados faziam o máximo para incentivá-los. Uma proclamação dirigida aos soldados alemães em outubro declarava:

Soldados! Moscou está à sua frente. Ao longo de dois anos de guerra, todas as capitais do continente se curvaram diante de vocês, vocês marcharam pelas ruas das melhores cidades. Falta Moscou. Forcem-na a se curvar, mostrem a ela a força das suas armas, caminhem pelas suas praças. Moscou significa o fim da guerra! (O Alto-Comando da Wehrmacht)

Mas muitos oficiais e homens que realmente lutavam começavam a ser tomados de dúvidas. Apesar de a série de vitórias iniciais parecerem confirmar que o Exército Vermelho não seria capaz de resistir, havia também as primeiras indicações de que o inimigo que tinham aprendido a desprezar só seria esmagado com dificuldade – por mais terríveis que fossem suas perdas.

O general Ewald von Kleist, que comandava a Primeira Divisão Panzer, ficou atônito pela recusa de algumas unidades do Exército Vermelho a se renderem sob nenhuma circunstância. “Os russos são tão primitivos a ponto de não se renderem nem quando estão cercados por uma dúzia de metralhadoras”, lembrou ele depois da guerra, quando estava preso em Nuremberg. “Eu diria que há uma diferença entre a bravura alemã e a bravura russa no sentido de que a primeira é lógica e a segunda brutal.”

Um soldado alemão enviado para a frente oriental em agosto de 1941 descreveu seu choque ao descobrir que o Exército Vermelho empregava o mesmo tipo de tática de onda humana que era usada na Primeira Guerra Mundial. Os ataques soviéticos “eram executados por massas de homens que não tentavam se esconder, mas confiavam no puro peso dos números para nos esmagar”, escreveu ele. Num desses ataques, “as linhas de homens se estendiam para direita e esquerda da nossa frente, superando-a completamente, e toda a massa de soldados russos veio marchando sólida e incansavelmente à frente”.

Ao descrever a imagem diante de si como “uma visão inacreditável, o alvo dos sonhos de um metralhador”, ele acrescentou:

circulava o boato de que os comissários calculavam o número de metralhadoras que tínhamos, multiplicavam pelo número de balas por minuto que elas eram capazes de atirar, calculavam quantos minutos um corpo de soldados levaria para cruzar a área e acrescentavam ao número final mais alguns milhares de homens. Assim, alguns homens conseguiriam romper as nossas linhas […].

O alemão estava convencido de que o ataque que via tinha sido calculado precisamente daquela forma.

A 600 metros abrimos fogo e seções inteiras da primeira onda simplesmente desapareceram, deixando aqui e ali alguns sobreviventes caminhando resolutamente para frente. Era estranho, inacreditável, desumano. Nenhum dos nossos soldados teria continuado a avançar sozinho.

Quando as metralhadoras alemãs superaqueciam devido ao fogo contínuo, o lado soviético continuava a mandar mais ondas de soldados. “Os ‘Ivans’”, como ele os chamava, continuavam a atacar durante três dias e ele nunca viu nenhum maqueiro durante todo aquele tempo.

“O número, duração e fúria daqueles ataques nos tinham exaurido e entorpecido completamente. Para não esconder a verdade, eles nos davam medo”, admitiu o alemão. Observou que isso deprimiu muitos dos homens da sua unidade, que agora percebiam que tinham pela frente uma luta bem mais difícil do que tinham esperado. “Que íamos vencer, não havia dúvida, mas aquilo em que estávamos engajados seria uma guerra longa, dolorosa e dura”, concluiu.

Muitas unidades alemãs se envolveram em batalhas menos dramáticas, e não se expuseram àquelas táticas de ondas humanas. Mas elas também estavam descobrindo que a luta na Rússia era diferente de qualquer outra que tiveram de enfrentar até então. O tenente Kurt Gruman, do 185º Regimento de Infantaria, 87ª Divisão de Infantaria, ponderou os contrastes ao escrever no seu diário no dia 17 de novembro de 1941, quando participava do avanço na direção de Moscou. Revendo o tempo passado na França, ele se lembrava amorosamente das “belezas do campo em Versalhes”, “das noites agradáveis no salão do clube, sentado nas poltronas fundas com um copo de absinto ou uma garrafa com o rótulo ‘Martel’, ‘Henessy’ ou ‘Montmousseau’”, e a “luz inebriante” de Paris.

Quando Gruman participou da invasão da União Soviética no dia 22 de junho, sua vida mudou imediatamente. As primeiras batalhas correram com relativa tranquilidade, mas logo ele estava envolvido na luta em Smolensk, onde cada vitória chegava com um preço mais alto. “Sempre vou me lembrar das batalhas ferozes e das pesadas perdas sofridas pelos dois lados.” Seu espírito se animou com os sucessos da “grande ofensiva de outubro”. “O grande cerco de que participamos há de entrar na história com o nome ‘a Batalha de Bryansk e Vyazma’”, escreveu. “Nada seria capaz de nos fazer parar; superamos rapidamente campos minados e pontes caídas.”

Apesar de lembrar das dificuldades de “uma estação de verdadeiro atoleiro” de lama que o forçou a aprender a cavalgar, Gruman se orgulhava de terem cruzado “o campo de Borodino, onde Napoleão tinha lutado” e então atravessado a vau o rio Moscou. Apesar do primeiro encontro com as divisões siberianas, sua fé na vitória parecia inabalada. “O ataque contra Moscou já tinha começado”, notou com clara satisfação.

Gruman era evidentemente um oficial leal, mas as entradas do seu diário tratavam cada vez mais das privações enfrentadas pelos alemães. No dia 16 de novembro, ele registrou que “sua unidade recebeu por fim alguns pares de botas de inverno” do comando do regimento – deixando poucas dúvidas de que estava com raiva, pois a maioria dos homens ainda não tinha as suas. Enquanto nota que a manhã de inverno era linda e que a paisagem nevada “encanta”, ele sugere que se podia suportar o frio “dessa atmosfera maravilhosa de inverno” durante o dia, “mas à noite, ele nos tortura”. Na manhã seguinte, escreveu que o termômetro mostrava -9°, e “a manhã estava linda, quase como um conto de fadas”.

Mas Gruman sabia que aqueles primeiros sinais do inverno, e a certeza de que as temperaturas se tornariam muito mais baixas, não eram um bom presságio. Estava preocupado não somente com seus homens, mas também com os cavalos da sua unidade. “Os pobres animais estavam exaustos. A falta de forragem e o frio tiveram consequências – todos os cavalos ficavam ao ar livre”, escreveu.

A saúde dos animais de transporte não era uma questão sem importância. Apesar da sua reputação de exército altamente moderno e mecanizado, a força de invasão alemã dependia, e muito, de cavalos. Ainda existiam algumas unidades tradicionais de cavalaria, mas os cavalos eram usados sobretudo para arrastar artilharia e suprimentos. Quando os veículos se atolavam na lama traiçoeira da Rússia, como geralmente acontecia, os cavalos os soltavam. Como relatou o general Günther Blumentritt, chefe do Estado-Maior do Quarto Exército do Grupo de Exércitos do Centro:

a infantaria agora desliza no barro, enquanto muitas parelhas de cavalos são necessárias para arrastar os canhões para frente. Todos os veículos com rodas afundam no barro até os eixos. Até os tratores só conseguem se mover com grande dificuldade. Grande parte da nossa artilharia logo ficou presa.

Estima-se que os alemães tenham usado 750 mil cavalos durante os primeiros estágios da Operação Barbarossa, e um total de 2,5 milhões durante toda a guerra contra a União Soviética. Na média, cerca de mil cavalos morriam em cada dia de luta.

Apesar de bombas e balas matarem a maioria dos cavalos, muitos morriam de ataques cardíacos causados por esforço excessivo, particularmente durante a estação da lama; outros sucumbiram às doenças e ao frio. Os russos tinham cavalos capazes de suportar muito melhor as baixas temperaturas que aqueles reunidos pelos alemães nos seus territórios ocupados. Na verdade, seus cavalos morriam no frio mais depressa que os homens.

Como sua unidade recebeu ordens de avançar, Gruman registrou mais queixas. “Os mapas eram tão imprecisos que era mesmo impossível usá-los. […] Obstruções e engarrafamentos por todo o caminho. Gostaria de poder ter matado alguns motoristas e comandantes de comboios. […]” O céu estava de “um vermelho feroz” do fogo de artilharia, e os soldados caíam enquanto “os mísseis explodem entre as árvores”. Um dos maiores medos dos homens eram as famosas katyushas, ou “órgãos de Stalin”, o nome da nova artilharia de foguetes disparada de caminhões. Embora seus homens não tivessem enfrentado aquela arma, ele observou que outros lhe tinham dito que “o efeito das explosões dos foguetes sobre o moral é muito maior do que sua força destruidora”.

O moral da unidade de Gruman estava cada vez mais instável mesmo sem as katyushas. O tenente observou em 24 de novembro: “a cada dia a capacidade de combate da unidade se enfraquecia”. Duas semanas antes, a companhia tinha 70 homens, mas agora estava reduzida a 40. Ele relatou que alguns dos melhores oficiais tinham morrido tentando dar exemplo de coragem para seus homens, e “os novos comandantes substitutos não conheciam bem as suas obrigações” e “não tinham consciência”, usando todas as oportunidades para se colocarem na retaguarda enquanto os outros morriam.

Mas, acima de tudo, Gruman avisava sobre os perigos da exaustão.

Nossos homens, que vinham lutando desde o início de agosto, estavam cansados. O peso do moral era extremo. O grito de “médico!” acompanhava a luta como fogo descontrolado, e o grito de “metralhadora à frente!” não era ouvido. Esses tristes episódios antes eram desconhecidos no nosso regimento.

Relembrando os soldados corajosos que tinha visto em outras batalhas, acrescentou: “aquele guerreiro não pode ser criado de uma companhia numericamente pequena, cansada, infestada de piolhos.”

Num trecho datado de 25 a 29 de novembro, ele escreveu que “éramos incapazes de quebrar a resistência do inimigo” e que tinham enterrado mais homens. Enquanto observava que outras unidades ainda avançavam sobre a capital soviética, ele já não acreditava que ele e seus homens estariam entre os que conquistariam “a glória de chegar primeiro a Moscou”. Pelo contrário, ele esperava isso de Schneller Heinz!, o famoso comandante de Panzers Heinz Guderian, que avançava do sul. “Nossas esperanças de entrar em Moscou vindo de sudoeste estão com as unidades de tanques de Guderian”, concluiu.

 

Guderian, que antes estivera plenamente convencido de que realizaria aquelas esperanças, sentia-se agora assolado de dúvidas quanto à capacidade de seus tanques terem sucesso naquela tarefa. Pouco depois de ter tomado Orel em 3 de outubro, seus tanques tiveram de enfrentar mais T-34s soviéticos e sofreram pesadas baixas. “Até agora fomos superiores em tanques, mas a partir de agora a situação se inverteu. [...] Por isso, desaparecia a perspectiva de uma vitória rápida e decisiva.” Para o lado soviético esse julgamento parecia prematuro, pois ainda não tinham, nem de longe, o número necessário de tanques de que precisavam. Ainda assim, não havia dúvida de que os T-34s, mesmo em número limitado, faziam notar com grande efeito a sua presença.

O outro fator importante era o tempo. A lama de outubro era um adversário desanimador. “Os russos são um obstáculo muito menor que a umidade e a lama!” O marechal de Campo Fedor von Bock, comandante do Grupo de Exércitos Centro, queixou-se no dia 21 de outubro no seu diário de guerra. Acompanhando o avanço de Guderian na direção de Tula, a cidade produtora de armas que guardava a estrada para Moscou pelo sul, Bock escreveu no dia 30 de outubro: “a fraca vanguarda de Guderian chegou à região ao sul de Tula, que é defendida pelo inimigo. Tudo mais está atrasado nas estradas lamacentas”.

Um dia depois, Bock acrescentou que “nossas perdas se tornaram muito consideráveis”, e relatou que Hitler exigia uma explicação para a falta de progresso. “Ele provavelmente se recusou a acreditar nos relatórios escritos, o que não deve ser surpresa, pois qualquer um que não tenha visto essa lama não pode considerá-la possível”, escreveu ele amargamente.

Guderian se exasperava tanto pelas ordens vindas de Hitler quanto pelas condições que tinha de enfrentar. Quando seus tanques começaram a avançar de Orel para Tula, na única estrada que ligava as duas cidades, descobriram que os russos tinham explodido as pontes e minado extensas áreas dos dois lados da estrada. Além do clima e dos contra-ataques soviéticos, isso dificultava ainda mais os esforços de reabastecimento. O resultado foi o racionamento de combustível ter começado a limitar a velocidade do avanço. Quando recebeu a ordem de Hitler no dia 28 de outubro pedindo “unidades rápidas” para tomar as principais pontes, ele ficou furioso. Observou que seus tanques atingiam uma velocidade máxima de 20 km por hora na estrada Orel-Tula, e escreveu: “já não havia mais ‘unidades rápidas’. Hitler estava vivendo num mundo de fantasia”.

Na noite de 3 para 4 de novembro, o frio extremo congelou a lama das estradas, tornando mais fácil o avanço dos tanques de Guderian. Mas o alívio que sentiu foi compensado pelos maus pressentimentos quanto às consequências que a queda de temperatura poderia provocar em seus soldados – e aumentou sua raiva pelas decisões anteriores de Hitler que atrasaram o avanço sobre Moscou até aquela data tardia. “É um sofrimento para os soldados e uma pena para a nossa causa que o inimigo tenha ganhado tempo, enquanto nossos planos são adiados até que o inverno esteja mais avançado”, escreveu numa carta de 6 de novembro.

Tudo isso me entristece muito. Com a maior boa vontade do mundo não há nada que se possa fazer com relação aos elementos. A chance única de um único grande ataque desaparece cada vez mais, e não vai ocorrer novamente. Como as coisas vão terminar, só Deus sabe.

Quando a temperatura caiu para -15ºC no dia 12 de novembro e depois para -22ºC no dia seguinte, Guderian foi convocado para uma reunião dos comandantes dos exércitos do Grupo de Exércitos Centro que só o irritou ainda mais. Nas Ordens para a Ofensiva de Outono, 1941, que o alto-comando revelou naquela reunião, o plano de ação para o Segundo Exército Panzer chegava ao surreal. Sua atribuição era tomar Gorky que, observou Guderian, estava a 640 km de Orel e a 400 km “a leste” de Moscou. A ideia era cortar as linhas de comunicação da capital soviética com a retaguarda. “Não era o mês de maio e não estávamos lutando na França!” Guderian notou, zombeteiro. Com o apoio do seu superior imediato, ele escreveu um relatório explicando porque “o Exército Panzer já não era capaz de executar as ordens emitidas para ele”.

Quando voltou às suas unidades no campo, ele estava ainda mais desanimado. No dia 14 de novembro, visitou a 167ª Divisão de Infantaria. “A situação de suprimento está ruim”, lembrou Guderian. “Não havia disponibilidade de camisas de neve, graxa de botas, roupas de baixo e, acima de tudo, calças de lã. Uma grande proporção dos homens ainda vestiam calças de denim, e a temperatura estava em 8°C abaixo de zero!” Algumas horas depois, ele chegou à 112ª Divisão de Infantaria, onde a situação era igual. Se alguns soldados ainda conseguiam controlar o frio, era apenas devido ao que tinham conseguido tomar do inimigo. “Nossos soldados tomaram sobretudos e quepes de pele russos, e somente o emblema nacional mostrava que eram alemães.” Os suprimentos de roupas de inverno oferecidos por seu próprio exército eram tão parcos que constituíam “mera gota no oceano”, acrescentou.

Alguns dias depois, as mesmas tropas exaustas da 112ª Divisão de Infantaria teriam uma surpresa aterradora. Tropas siberianas recém-saídas dos trens do Extremo Oriente, e completamente equipadas com uniformes de inverno, lançaram um ataque total que balançou os alemães. Guderian tentou explicar aos homens o que tinha acontecido – mas não procurou disfarçar as dimensões do desastre. “Antes de julgar o desempenho dos soldados, é preciso ter em mente que cada regimento já tinha perdido 500 homens para o frio, que também devido ao frio as metralhadoras não atiravam, que nossos canhões antitanque de 37 mm não tiveram efeito contra os T-34”, escreveu ele. “O resultado de tudo isso foi o pânico. […] Essa foi a primeira vez que isso aconteceu durante a campanha russa, e foi um aviso de que a capacidade de combate da nossa infantaria estava no fim e que não se devia esperar que ela executasse tarefas difíceis.”

Apesar de Guderian talvez ter chegado a essa ideia um pouco mais tarde do que deu a entender, ele se alarmava cada vez mais pelo contraste entre “seus homens mal vestidos e mal alimentados” e “os siberianos descansados, bem alimentados, vestidos em roupas aquecidas, plenamente equipados para a luta no inverno”. Ao escrever sobre as batalhas de novembro, enquanto tentava chegar a Tula e fracassava, ele acrescentou: “só um homem que conhecesse tudo aquilo seria capaz de verdadeiramente julgar os eventos que ocorrem agora”.

Guderian e outros generais no campo começavam a reconhecer que não eram apenas os soldados siberianos que lutavam com determinação maior do que a que tinham encontrado até aquele ponto. Havia uma convicção crescente entre muitos soldados soviéticos de que aquela era uma luta nacional, algo que não estava tão evidente nos primeiros dias da invasão.

Em Orel, por aqueles dias, Guderian conheceu um velho general czarista que lhe disse: “se vocês tivessem chegado há vinte anos, nós os teríamos recebido de braços abertos. Mas agora é tarde demais”. Referindo-se à devastação da guerra civil russa após a Revolução Bolchevique, o general czarista acrescentou: “estávamos começando a nos pôr de pé, e agora chegam vocês e nos atrasam 20 anos e temos de começar tudo de novo. Agora estamos lutando pela Rússia e nessa causa estamos todos unidos”.

Esses sentimentos não eram acidentais. Eram em parte resultado das políticas brutais dos nazistas nos territórios já ocupados que destruíram as ilusões das populações locais, e dos soldados soviéticos que acreditavam que os novos senhores mostrariam um pouco de clemência. Mas foram também resultado direto da mudança de tom que emanava do Kremlin. Como relataria mais tarde o general das Waffen-SS, Max Simon, “a essa época (verão e outono de 1941), um conceito ‘nacional’ ainda não tinha penetrado nas mentes dos soldados no front; e só foi proclamado por Stalin no fim do outono”. Por essa data, até alguém como o antigo general czarista que Guderian conheceu era receptivo a apelos nacionais que vinham dos comunistas contra quem ele tinha lutado.

A decisão de Stalin de usar as comemorações do Dia da Revolução em Moscou para proclamar esses objetivos nacionais – por oposição aos ideológicos – logo começaria a produzir resultados.

 

Vasily Grossman, escritor e correspondente de guerra do Krasnaya Zvezda, refletiu sobre as diferenças entre os exércitos opostos que lutavam entre si, e contra os elementos naturais, primeiro a chuva e a lama, depois as temperaturas congelantes. “Os alemães não são tão bem preparados para o sofrimento físico, quando um homem ‘nu’ enfrenta a natureza”, escreveu no seu caderno de notas.

Um russo é criado no sofrimento, e suas vitórias são duramente conquistadas. Os alemães, por sua vez, são preparados para vitórias fáceis baseadas na superioridade tecnológica, e cedem ao sofrimento causado pela natureza. O general Lama e o general Frio ajudam o lado russo. (Mas é verdade que somente os fortes são capazes de fazer a natureza trabalhar a seu favor, enquanto os fracos ficam à mercê da natureza.)

Independentemente do grau de verdade nas generalizações de Grossman, o soldado do Exército Vermelho não era um super-homem, nem física nem psicologicamente. Muitos dos soldados que lutavam para defender Moscou sentiam-se tão exaustos quanto seus adversários. Eles também lutavam contra os elementos da natureza, e tentavam se manter bem alimentados e aquecidos. Seus superiores monitoravam nervosamente a sua disposição, procurando sinais de problemas.

O departamento de censura da região militar de Moscou afirmou num memorando interno que tinha censurado 2.505.867 cartas entre 15 de novembro e 1º de dezembro, ou seja, toda a correspondência daquele período. Apesar de afirmar que quase todas as cartas demonstraram que o moral estava alto, ele relatava o confisco de 3.698 cartas e o apagamento de trechos em outras 26.276. Como quase todos os soldados sabiam com certeza que suas cartas poderiam ser e seriam censuradas, o fato de uma parte das correspondências ter demonstrado “baixo moral, ligado a questões de provisões e roupas quentes”, e outras conterem “propaganda antissoviética”, indica que as autoridades tinham sérias razões de preocupação.

“A comida é realmente ruim. Logo não vou poder mais me mover por causa da fome”, escreveu um soldado de nome Ptashnikov. Semyon Leskov foi mais descritivo: “você sabe como está frio e estamos sentados nas trincheiras usando botas frias”, escreveu.

Estamos aqui sentados, tremendo, e os alemães nos bombardeiam dia e noite. Querem por todos os meios chegar a Moscou, mas estamos aqui ao lado do rio e não vamos permitir que eles passem. Às vezes temos comida suficiente, mas em geral não temos, porque sempre mudamos de posição para lutar.

As queixas pelo frio e da comida eram amplamente ecoadas. “Você quer que eu descreva o meu serviço. […] Você sabe que é muito frio no inverno e que não temos pão suficiente. Já não tomamos banho há dois meses, e todos têm muitos piolhos”, escreveu N. I. Folimonov à sua mulher ou mãe. Outro soldado se queixou: “Eles nos dão a comida suficiente apenas para nos mantermos vivos. E nossa vida é realmente muito difícil – só prisioneiros vivem assim, e soldados não deviam ter de suportar essas condições. […] Temos só repolho e batatas para comer”. V. Sorokin relatou que sua unidade só recebia “cinco colheres de sopa” pela manhã, o que devia ser suficiente para mantê-los ativos até a noite.

As cartas mais alarmantes eram as que ligavam as condições deploráveis com previsões de derrota. Escreveu E. S. Suslin:

Onde quer que vamos, os alemães nos cercam e perseguem como cães caçam coelhos. Não acredite nem nos jornais nem no rádio – eles contam mentiras! Vimos tudo e eu vi como os alemães caçam nossos soldados e não sabemos para onde correr. Não temos armas suficientes para lutar nem veículos para nos movermos. Falta combustível, e assim nossos soldados abandonam tanques e veículos e correm.

Outra carta, assinada com o sobrenome Dronov, passou da queixa por rações insuficientes para a previsão: “os alemães vão tomar Moscou dentro de alguns dias – não acredite nos jornais”. Todas essas cartas foram confiscadas.

No momento mesmo em que alguns soldados se desencorajavam, outros respondiam à convocação de voluntários para defender a capital. As autoridades de Moscou tinham conseguido expandir as brigadas comunistas ou unidades de guarda nacional, que eram compostas por uma combinação de voluntários e recrutas. Por volta do fim de novembro, suas fileiras já atingiam 48 mil soldados – um crescimento de cinco vezes desde outubro, quando se organizaram os primeiros grupos. Unidades civis logo se transformaram em formações militares regulares. Algumas foram organizadas como unidades antitanque, enquanto outras foram preparadas para a luta de rua se os alemães conseguissem entrar na cidade; e outras foram rapidamente distribuídas em posições que guardavam as estradas para a capital.

Foi uma distribuição escassa – e eles sabiam. Mesmo com os novos recrutas se juntando às suas fileiras, as unidades de vanguarda mal constituíam uma força de peso para conter os alemães. Albert Tsessarsky, o ordenança médico que foi a Moscou buscar suprimentos no dia 16 de outubro, estava de volta com sua unidade de guarda nacional, com 33 homens, nas proximidades de Mozhaisk, a 100 km de Moscou. Com cerca de 400 a 500 soldados inimigos à sua frente, no outro lado do rio Moscou, eles sabiam que não tinham chance de parar os alemães com sua única metralhadora, caso eles decidissem atacar.

Mas as tropas da guarda nacional desenvolveram um plano inteligente para tornar os alemães nervosos com relação à possibilidade de ataque. Começando no início de novembro, eles patrulhavam a margem do rio com dez homens de cada vez – em outras palavras, com um terço da sua força total. Normalmente, uma patrulha desse tamanho só seria lançada por uma unidade muito maior – exatamente a impressão que queriam passar. A ideia era levar os alemães a acreditar que eles tinham muito mais homens do que realmente tinham. Embora estivessem vestindo roupas de inverno e velenki (botas russas de feltro), cada unidade de dez homens só saía durante duas horas por vez. “Era o máximo que suportávamos passar no frio”, afirmou Tsessarsky.

Na outra margem do rio os alemães, que careciam de uniformes de inverno, se encolhiam no acampamento e não pareciam ansiosos por se mover. Nem quando o rio congelou os alemães tentaram cruzar – o que aliviou e desorientou Tsessarsky e os outros russos, que sabiam que não seriam capazes de contê-los se cruzassem.

Mas uma noite alguns dos habitantes locais que tinham sido cercados no lado alemão tentaram fugir através do gelo. Os alemães de repente voltaram à vida, ligaram um holofote e atiraram nos civis em fuga. “Foram cenas terríveis”, lembrou Tsessarsky.

Lembro-me de uma mãe que cruzava o rio com uma criança sobre um trenó. Quando chegou onde estávamos, ela nos pediu para ficarmos com o bebê, mas ele tinha sido morto. Na manhã seguinte, vimos muitos cadáveres sobre o gelo, que estava vermelho de sangue.

Tsessarsky tratou os feridos da melhor maneira que podia. “Minha primeira prática médica foi lá”, afirmou ele. Alguns dos aldeões trouxeram seus mortos. Como era impossível enterrá-los na terra congelada, Tsessarsky e os outros soldados escreveram os nomes dos mortos e prenderam nas roupas, oferecendo vagas esperanças de que teriam um enterro adequado na primavera. “Até hoje não sei o que aconteceu aos corpos”, acrescentou, ainda perturbado por aquela lembrança, quando descrevia aquele período 65 anos depois.

Aquela noite no rio era uma lembrança terrível do que os alemães eram capazes e do que devia esperar alguém que fosse surpreendido na mira deles.

 

Stalin e Zhukov sabiam que não podiam contar com as unidades de guarda nacional para conter ou enganar os alemães durante muito tempo, e que seriam as divisões siberianas que lhes ofereciam a grande esperança de evitar que Hitler tomasse Moscou. Apesar de as tropas que foram apressadamente transferidas do Extremo Oriente soviético serem conhecidas como “siberianas”, nem todas se originavam daquela região. Alguns dos homens lutavam as primeiras batalhas, e estavam entre os sobreviventes de unidades que tinham sido praticamente exterminadas. Transferidos para o Extremo Oriente, misturaram-se a unidades recém-organizadas que estavam sendo treinadas lá. Logo retornaram às frentes de batalha nos acessos a Moscou, quando Stalin se convenceu de que não seria atacado ao leste pelo Japão.

Boris Godov estivera numa brigada aerotransportada perto de Kiev no início da guerra e sofrera um ferimento no estômago quando escapava do cerco alemão da capital da Ucrânia. Depois de se recuperar num hospital na região de Moscou, ele foi designado para a 413ª Divisão Siberiana – despachada no final de outubro para defender Tula, a cidade produtora de armas ao sul de Moscou, dos soldados alemães liderados, entre outros, pelo general Guderian. “Tula ficava na estrada para Moscou, e ninguém sabe se Moscou teria sobrevivido se não tivéssemos vencido os alemães lá”, disse, orgulhoso.

Mas Godov e seus colegas soldados da Divisão Siberiana logo descobriram que não estavam preparados para a intensidade da luta que enfrentariam – e para a qual, em alguns casos, não contavam com equipamentos adequados. É verdade que tinham boas roupas de inverno: valenki ou botas, jaquetas de algodão e lã, sobretudos e capas brancas de camuflagem. A cozinha de campo também era melhor que na maioria das outras unidades, oferecia sopa quente e kasha pela manhã e à noite, e até 100 ml de vodca quando o tempo esfriava. As más notícias eram o início dos bombardeios aéreos logo depois de terem chegado, e o fato de não contar com as armas necessárias para rechaçar os ataques terrestres.

Num dos casos, uma unidade de artilharia descobriu que tinha recebido projéteis muito pequenos para seus canhões, deixando-a à mercê dos tanques alemães. “Todo o regimento de artilharia pereceu, pois não podiam fazer nada”, lembrou Godov. Muitos soldados morreram tentando explodir tanques alemães com granadas de mão, pois esta era a única arma que podiam usar. Dos 15.400 homens da divisão de Godov, só 500 sobreviveram. Porém, Guderian fracassou na tentativa de chegar a Tula – e, em consequência, no que esperava que fosse o avanço final do sul na direção de Moscou.

Em outras partes do front, os invasores já tinham penetrado na região da Grande Moscou, que se compunha de 87 distritos. Em novembro e dezembro, tropas alemãs controlavam completamente 17 deles e ocupavam partes de outros dez. Quem vivia nos arredores da capital nunca sabia com certeza se o próximo soldado a aparecer seria amigo ou inimigo.

Durante aquele período incerto, Natalya Kravchenko, a filha de um artista de Moscou que tinha morrido um ano antes, vivia na dacha da família, na aldeia de Nikolina Gora, cerca de 50 km a oeste de Moscou. Na estrada fortemente castigada por fogo de artilharia que levava a aldeia à capital, havia 17 pontos de verificação, operados por soldados do Exército Vermelho. De repente foram todos abandonados, e os sons de batalha – de armas leves e de artilharia que os aldeões antes ouviam – desapareceram com a mesma rapidez. “Foi um momento muito difícil”, lembrou Kravchenko. “Os silêncios eram as coisas mais assustadoras durante a guerra.”

Kravchenko, sua irmã e avó estavam em casa quando o silêncio foi quebrado por um estranho ruído. “Não entendemos de onde vinha o som e saímos para verificar”, explicou ela. Bem em frente da casa, ao longo de toda a estrada da aldeia, estavam as tropas siberianas, dormindo pesadamente e roncando. “É difícil imaginar a velocidade com que avançavam as tropas siberianas. Costumavam dormir somente duas ou três horas por dia.” Aquela era uma das suas paradas para dormir, e os soldados exaustos aproveitavam-na completamente.

Quando acordaram, os soldados pediram água, que as mulheres Kravchenko derramaram nos seus capacetes. Partiram marchando e a luta logo recomeçou nas proximidades. A dacha de Kravchenko foi transformada num posto de primeiros socorros para os feridos. As cortinas da família, os cobertores e lençóis foram todos usados para improvisar salas de operação, onde os feridos eram tratados sobre as grandes mesas de desenho do ateliê do pai. A intensidade da luta logo convenceu as Kravchenko a voltar para Moscou, pois a cidade começava a parecer mais segura que os arredores, onde não se tinha como escapar da carnificina.

Os siberianos não tinham essa opção. Vladimir Edelman foi um dos homens que tinham acabado de chegar do leste. Tal como Godov, ele não era realmente siberiano. Judeu ucraniano, ele também lutou na batalha por Kiev em setembro. Ao contrário de muitos dos seus parentes que estavam entre as vítimas do massacre de judeus em Babi Yar, ele fugiu da sua cidade natal e terminou numa unidade de infantaria na região de Omsk composta principalmente de cadetes militares siberianos e graduados recentes das escolas militares.

Como tenente com experiência de combate, Edelman foi colocado no comando de uma unidade de 25 homens. Quando os oficiais superiores vieram verificar a habilidade dos soldados como atiradores, irritaram-se pelo que viram inicialmente: em vez de se posicionarem no chão e apontarem de acordo com os regulamentos, os siberianos se relaxavam e apontavam da posição que lhes era mais confortável. Os oficiais censuraram Edelman por não lhes ter ensinado as posições e procedimentos corretos. Mas quando viram os alvos em que eles atiravam, eles logo esqueceram todas as reclamações. “Eles eram excelentes atiradores porque eram caçadores”, explicou Edelman. Numa escala de 1 a 10, a contagem de acertos da maioria era de 9 ou 10.

Enquanto ainda estava na Sibéria, Edelman e os outros homens receberam roupas de baixo longas, suéteres, coletes de pele, calças de algodão e lã, luvas, casacos de inverno e chapéus de pele. Guardavam as armas de mão e rádios debaixo do casaco para que não congelassem. Edelman admitiu que naquele ponto da guerra os alemães tinham melhores rádios, metralhadoras e morteiros, e os russos iriam tentar tomar seus equipamentos sempre que possível. Mas depois que ele e seus 25 homens foram transferidos para a região noroeste de Moscou, Edelman percebeu rapidamente que a grande vantagem dos seus homens era a farda de inverno. Às vezes o termômetro caía até -40ºC em novembro e dezembro, e os alemães sofriam muito mais com essas temperaturas.

Não eram somente os soldados alemães que congelavam; os lubrificantes nos seus tanques e outros veículos também congelavam. As tropas alemãs nos acessos a Moscou não tinham recebido anticongelante nem correntes para rebocar os veículos atolados. Em alguns casos, os aviões alemães deixavam cair cordas para as tropas, que seriam usadas para esse fim. À medida que as temperaturas despencavam, os problemas de transporte ficavam mais sérios – e a responsabilidade disso eram as expectativas exageradamente otimistas de uma vitória rápida que também explicavam o fato de os planejadores alemães não terem fornecido uniformes de inverno.

Não havia dúvidas de que os verdadeiros siberianos sentiam menos o frio que a maioria dos russos e certamente bem menos que os alemães. “Estávamos muito entusiasmados e mostramos a eles que lutávamos bem”, disse Edelman. “Mas o severo inverno russo nos ajudou muito.” Durante novembro e a maior parte de dezembro, explicou, ele e seus homens não puderam se lavar. Finalmente chegaram a uma aldeia onde havia um banya, ou casa de banhos simples – a água fria só era disponível nos poço ao ar livre. “Os siberianos tomavam seu banho de vapor e depois pulavam na neve”, lembrou Edelman atônito. Incapaz de fazer o mesmo, ele esfregou sabão em todo corpo no banho de vapor, depois correu até o poço para jogar água fria sobre o corpo e correu de volta para o banho de vapor. Os siberianos precisaram ajudá-lo a se enxaguar e enxugar para que ele se aquecesse de novo.

Uma visão contínua vividamente desenhada na memória de Edelman: um grupo de alemães capturados parados num entroncamento onde ele dirigia o trânsito no frio extremo. Eles usavam fardas de verão, com casacos leves e sem chapéus. Os únicos sons que emitiam eram suspiros, gemidos e as palavras “O mein Gott! O mein Gott!”. Vez por outra um deles caía morto no chão.

Em outra ocasião, quando ele conduzia seus homens por um campo coberto de neve perto de Volokolamsk, Edelman percebeu que estavam literalmente caminhando sobre cadáveres abaixo da superfície branca, tão amontoados depois de uma batalha recente que era impossível evitá-los. “Os campos no entorno de Moscou estavam cheios de centenas de milhares de cadáveres”, observou ele. “É difícil descrever o que estava acontecendo ali.” Muitos morreram devido às minas plantadas pelos russos para atrasar os invasores alemães, e depois pelos alemães para retardar o avanço do Exército Vermelho que veio expulsá-los.

Quando forçaram o inimigo a recuar, Edelman e seus homens às vezes encontravam corpos congelados de alemães empilhados como lenha. Os alemães sobreviventes tinham evidentemente esperado poder enterrar os que tinham caído quando o terreno descongelasse na primavera.

Apesar de toda conversa a respeito do entusiasmo dos seus homens, Edelman admite relutante que eles foram submetidos a brutal disciplina. “Vi o fuzilamento de desertores”, disse ele. “Vi isso no meu batalhão.” Ele não se recusava a discutir lembranças que muitos veteranos preferiam suprimir, colocando-as no contexto dos terrores normais de combate.

Na primeira vez em que você tem de sair de uma trincheira e correr diretamente para as armas do inimigo, seu coração dispara e você se encharca em suor frio. Você corre e os homens à sua esquerda e direita caem, e você sabe que a qualquer momento o mesmo pode acontecer a você.

Como oficial, ele acrescentou: “você tem de atacar e acreditar que seus soldados vão seguir você”.

E se alguém não quisesse sair da trincheira para segui-lo? Edelman olhou para o outro lado e respondeu: “quando você vê que alguém fica para trás, você lhe bate na cara. Há regras diferentes na guerra. Por que eu deveria atacar e você não? Não é hora de sentimentos”.

Os siberianos ajudaram a recapturar várias cidades e aldeias a noroeste de Moscou, mas pagaram um alto preço por suas vitórias. Dos 25 homens sob o comando de Edelman quando entraram na Batalha de Moscou no fim de outubro, somente três ainda estavam com ele em janeiro de 1942. “Os outros estavam mortos, feridos ou congelados”, disse ele. “Minhas mãos e pés também congelaram, mas ainda assim continuei lutando.” Edelman foi ferido cinco vezes durante a guerra e condecorado por bravura depois da Batalha de Moscou. Sua mãe, que fugiu de Kiev, recebeu duas vezes a notificação de que ele estava morto.

Apesar do seu evidente patriotismo e coragem, Edelman estava ansioso por esclarecer uma questão. “É um mito que as pessoas gritassem ‘pela pátria! Por Stalin!’ Nunca vi ninguém gritar isso. Há muitos mitos e só se pode descobrir a verdade pouco a pouco.”

A verdade com relação aos siberianos, como se deu com outros que participaram da defesa de Moscou, permaneceu logo abaixo da superfície dos campos e aldeias onde tantos lutaram e morreram. Semyon Timokhin cresceu em Toropovo, uma pequena aldeia na região de Kemerovsky, na Sibéria. Tinha apenas 7 anos quando a batalha pela capital atingia o seu clímax, e seu pai foi recrutado e despachado para a região de Moscou. Quando seu trem se aproximava do destino, bombardeiros alemães atacaram – e ele foi gravemente ferido. “O braço dele foi dilacerado, e ali terminou a guerra para ele”, lembrou Semyon.

Semyon cresceu com relatos vívidos das provações dos siberianos. Seu tio Vladimir Timokhin também foi enviado naquele outono para lutar nos arredores de Moscou, e contou de uma noite particularmente horrível. Por volta das 3h da madrugada, uma enorme explosão sacudiu o quartel e uma parte do edifício simplesmente desapareceu. Vladimir saltou do seu catre, olhou para fora e viu que o chão estava branco – apesar de não estar coberto de neve no dia anterior. Na verdade, ainda não havia neve. Mas os soldados receberam pijamas brancos na véspera, e eram seus pijamas e corpos que estavam espalhados sobre a terra escura.

Crescendo depois da guerra, Semyon seguiu uma carreira militar, chegando ao nível de general no exército, especializado em aviação. Depois de se afastar da sua última atribuição como chefe da aviação da área Moscou, recebeu um lote de terreno não muito longe de Snegeri, uma aldeia a noroeste de Moscou, onde os siberianos tinham participado de batalhas brutais de tanques e infantaria. “Comecei a cultivar e cercar o terreno e descobri ossos por todo o lugar”, disse ele. Acontece que os habitantes locais tinham tentado enterrar os que tinham morrido no final de 1941 e início de 1942, quando os corpos começaram a descongelar na primavera. “Todo esse território com mais de 200 lotes de terreno era um enorme cemitério”, explicou Semyon.

Um pedaço de terra tão perto de Moscou era uma posse valiosa, mas como ele já sabia o preço que os siberianos haviam pagado ali, ele não conseguiu tratá-lo como mais um lugar onde cultivar repolho, tomates, salsa, maçãs e peras como tinha planejado. “Não consegui continuar lá”, explicou. Os fantasmas de siberianos como ele expulsaram-no da sua terra.

 

* N. T.: Donets Basin, região da bacia do rio Donets na Ucrânia.