A Batalha de Moscou
“A fraternidade do homem”
Não eram apenas os moscovitas, nem Hitler ou Stalin, que monitoravam ansiosamente o avanço alemão sobre a capital soviética. Não é exagero dizer que o mundo estava acompanhando. Winston Churchill estava certamente observando, com a esperança de que o lado soviético pudesse reter as forças de Hitler tempo suficiente para aliviar a pressão sobre o seu país, que resistia sozinho há tanto tempo contra uma máquina militar que tinha triunfado em todos os lugares que havia atacado na Europa. Franklin D. Roosevelt certamente observava, pois sabia – mesmo que não tivesse confiado essa informação aos seus compatriotas – que mais cedo ou mais tarde os Estados Unidos seriam inevitavelmente atraídos para esse conflito global. Certamente os governantes militares do Japão estavam observando, monitorando com cuidado o progresso das forças alemãs e avaliando se deviam continuar à margem ou atacar a União Soviética do leste se o país estivesse a ponto de cair.
Depois dos sucessos iniciais da Operação Barbarossa, muitos funcionários estrangeiros estavam pessimistas com relação às chances da Rússia – e reconheciam que, caso se justificasse o seu pessimismo, as implicações mais amplas seriam verdadeiramente assustadoras. Na edição de 4 de agosto de 1941 da revista Life, Hanson W. Baldwin, o mais respeitado escritor militar do país, publicou “Plano para a vitória”. Apesar do otimismo do título, o artigo era um pedido desesperado para que os Estados Unidos entrassem na guerra, precisamente porque as perspectivas da União Soviética pareciam tão sombrias.
O futuro depende em grande medida da campanha da Rússia. Uma vitória em dois ou quatro meses na Rússia (por “vitória” quero dizer aniquilação do grosso do Exército Vermelho) vai colocar a Alemanha numa posição estratégica muito mais forte que a anterior.
Ao controlar os recursos da Ucrânia e de outras partes da União Soviética, argumentou, a Alemanha se tornará “imune a bloqueio” e teria “completado a conquista da Europa”. E acrescentou: “A ‘Nova Ordem’ de Hitler terá mãos livres para se desenvolver até sua fruição política e econômica”.
Hanson reconheceu que outro resultado seria teoricamente possível. “Por outro lado, se o avanço alemão no interior da Rússia se reduzir à futilidade napoleônica, o próprio Hitler talvez tenha de enfrentar uma derrota final”, escreveu. Mas nisso ele não apostava. Na melhor das hipóteses, acreditava, Hitler só venceria na Rússia depois de uma longa campanha que iria solapar a força da Alemanha e daria mais tempo à Grã- Bretanha para recompor suas forças. “Mas, com base na experiência passada – no nosso conhecimento limitado do Exército Vermelho, e nas operações do primeiro mês – o mundo pode esperar na Rússia mais uma vitória alemã rápida e decisiva”, concluiu sombriamente. O resultado seria evidente para a Grã-Bretanha. “Se a Rússia e seus recursos caírem facilmente na órbita nazista, a vitória ficará claramente além do alcance da Grã-Bretanha”, escreveu. “O máximo que ela pode esperar é uma paz negociada.”
É certo que Hanson defendia essa hipótese para recomendar que seu país se juntasse ao esforço de guerra a fim de conter Hitler, insistindo que nenhuma outra ação além dessa teria esperança de sucesso. Mas o seu pessimismo com relação às chances da Rússia era genuíno – e compartilhado por todos à época. Nas vésperas da invasão alemã da União Soviética, que as potências ocidentais sabiam estar próxima, mas Stalin se recusava a ver, a opinião dominante era de que ali se tinha um desastre em formação.
No dia 16 de junho de 1941, o embaixador britânico em Moscou, Sir Stafford Cripps, informou ao Gabinete de Guerra que o consenso entre diplomatas da capital soviética era que a Rússia não seria capaz de se defender da invasão alemã por mais de três ou quatro semanas. Depois da informação de Cripps, John Dill, chefe do Estado-Maior Imperial, disse ao Secretário do Exterior Anthony Eden que o lado soviético poderia resistir um pouco mais, mas seria imprudente contar com mais de seis ou sete semanas de luta. Ivan Maisky, o embaixador soviético em Londres, sabia do pessimismo dos seus anfitriões. Funcionários da defesa britânica, escreveu ele, estavam convencidos de que os alemães “atravessariam a Rússia como faca na manteiga”, permitindo assim que Hitler se tornasse “senhor da Rússia”.
Ainda assim, Churchill e seus ministros estavam ansiosos para ver os alemães concentrarem seu poder de fogo contra a União Soviética, forçando Stalin a se juntar à aliança antinazista depois de quase dois anos de ostensiva “amizade” com a Alemanha. Na manhã de 22 de junho, o mordomo de Churchill apresentou-se no quarto de Eden e o presenteou com um grande charuto numa bandeja de prata. “Com os cumprimentos do primeiro-ministro, os exércitos alemães invadiram a Rússia”, anunciou. Como Eden notou mais tarde, “foi possível saborear o alívio, mas o charuto ficou para depois”. Em vez disso, ele e Churchill começaram imediatamente a discutir como reagir, levando à primeira de uma longa série de aberturas para o novo e – como imediatamente se tornou evidente – difícil aliado.
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O primeiro-ministro Winston Churchill e o secretário do Exterior
Anthony Eden. Os líderes britânicos estavam determinados a ajudar
o esforço de guerra soviético. Mas Churchill se enfureceu com os
pedidos incessantes de Stalin para que a Grã-Bretanha abrisse uma
nova frente no continente europeu, e com seus pedidos igualmente
irrealistas de enormes quantidades de aviões, tanques e outros
suprimentos.
À medida que a luta se aproximava cada vez mais de Moscou, britânicos, americanos, japoneses e outros diplomatas enviaram para seus governos relatórios cada vez mais sombrios sobre as chances de que o assalto alemão pudesse ser contido. Mas nem todos concordaram com esse prognóstico, e estouraram as tensões que há muito se aqueciam entre colegas em algumas missões. Moscou fora posta numa panela de pressão no período anterior à guerra, quando as embaixadas tenderam a ferozes batalhas internas, baseadas nas diferentes avaliações do regime de Stalin, exacerbadas ainda mais pela perspectiva sempre presente de os alemães conquistarem a cidade. Com o destino de Moscou pendendo da balança, os diplomatas – e os funcionários mais altos em Londres e Washington – viram-se envolvidos num debate não só sobre o que aconteceria, mas também sobre como o Ocidente deveria responder aos pedidos de ajuda dos soviéticos.
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O enviado do presidente Roosevelt, Harry Hopkins, com
Stalin durante sua visita a Moscou em agosto de 1941.
Um funcionário russo ficou eufórico com a “óbvia
simpatia de Hopkins pela União Soviética”.
Apesar de se concentrarem na urgente questão de qual deveria ser a política do Ocidente, esses debates continham premissas explícitas ou implícitas relativas à natureza do sistema soviético e à personalidade de Stalin que vinham desde as primeiras reuniões entre os enviados ocidentais e a liderança do Kremlin. E o debate sobre aquelas premissas e suas implicações políticas continuariam durante toda a guerra, e até depois dela. Eles começaram a entrar em foco no momento de maior perigo para Moscou.
Ao contrário dos seus antecessores republicanos, Roosevelt estava ansioso para estender ajuda para o Kremlin, dando fim a um longo período em que os Estados Unidos e grande parte do Ocidente ainda tratavam os líderes soviéticos como representantes de um regime ilegítimo, perigoso e – muito possivelmente – transitório. No dia 16 de novembro de 1933, o presidente assinou um acordo com o ministro do Exterior, Maxim Litvinov, estabelecendo relações diplomáticas entre os dois países. Em seguida indicou William Bullit como o primeiro embaixador americano na União Soviética. Bullit também se tornaria o primeiro enviado, mas não o último, que Roosevelt despachou para Moscou e que logo ganharia uma perspectiva sobre o regime soviético que o colocaria em choque com seu chefe em Washington.
Nascido numa rica família de Filadélfia em 1891 e formado em Yale, Bullit estava ansioso para servir ao presidente que tanto admirava e ficou radiante por ter sido escolhido para um posto tão importante. Em 1914, ele tinha visitado Moscou com sua mãe, no momento mesmo em que estourava a Primeira Guerra Mundial. Logo depois da Revolução Bolchevique de 1917, ele entrou para o Departamento de Estado e se tornou um fervoroso advogado do reconhecimento do novo regime soviético, que ele via como uma experiência promissora de uma nova forma de governo. Em novembro de 1919, enviado à Rússia numa missão de reconhecimento de fatos, ele expandiu o seu mandato para ajudar a negociar diretamente com Lenin um armistício na guerra civil. O líder bolchevique, relatou ele, era um “homem notável – muito franco e direto, mas também cordial, com grande senso de humor e serenidade”. Por qualquer critério, Bullit parecia ser o enviado que Roosevelt queria: alguém que compartilhava a sua predisposição positiva em relação à União Soviética e a crença de que seria possível uma nova era de cooperação e progresso.
Menos de um mês depois da assinatura do acordo Roosevelt-Litvinov, em novembro de 1933, Bullit chegou para uma estada curta em Moscou, com o plano de voltar em seguida para os Estados Unidos para suas preparações finais antes de se mudar e instalar a embaixada na capital. Levou como seu assistente e intérprete George Kennan, um jovem funcionário do serviço diplomático que tinha trabalhado muito no conhecimento da língua russa. Kennan mais tarde descreveria Bullit como “encantador, brilhante, bem educado, imaginativo, um homem do mundo capaz de se equiparar intelectualmente com qualquer um”. Mas também observou que esse “ótimo embaixador” era muito impaciente. “Ele veio para a Rússia com muitas esperanças, e queria vê-las realizadas imediatamente.”
Essas grandes esperanças estavam completamente evidentes durante sua visita inicial a Moscou, em dezembro de 1933. Num longo jantar com “talvez 50 brindes”, como recordou Bullit, o enviado se viu festejado por Stalin e a alta cúpula do Kremlin, todos lá para convencê-lo da importância que davam à nova relação com Washington. Depois de Stalin ter-lhe prometido um bom local para a nova embaixada, Bullit contou, “estendi a mão para apertar a de Stalin e, para meu espanto, ele tomou minha cabeça nas duas mãos e me deu um grande beijo! Engoli atônito e, quando ele ofereceu o rosto para um beijo, eu o dei”.
Mas, por mais atônito que estivesse, Bullit não deixou de registrar outras impressões, menos lisonjeiras do líder soviético. Tinha esperado “um homem muito grande com rosto de ferro e voz trovejante”, mas se viu diante de alguém que era “bem baixo, o alto da sua cabeça chegava ao nível dos meus olhos, e de físico comum, rijo, mas não poderoso”. E Bullit se impressionou pelo contraste entre Stalin e seu antecessor. “Com Lenin, a pessoa se sentia imediatamente na presença de um grande homem: com Stalin, eu sentia que estava conversando com um cigano rijo com raízes e emoções além da minha experiência”, escreveu.
Ainda assim, o novo enviado estava numa disposição otimista quando, depois de concluir suas atividades em Washington, voltou a Moscou em março de 1934. Convenceu-se de que a boa recepção que tivera em dezembro se transformaria numa relação amistosa entre os dois países e, em particular, entre as autoridades soviéticas e a equipe da sua nova embaixada. Pelo contrário, os funcionários soviéticos pareciam fazer questão de fazê-lo se desiludir dessa noção. Recusaram seus pedidos de uma taxa de câmbio razoável para o rublo para que a embaixada não tivesse de seguir o exemplo de outras missões e comprasse seus rublos no estrangeiro e os trouxesse pela mala diplomática. Também restringiram o uso de um avião pequeno que tinha trazido a um raio de 15 km, tornando-o virtualmente inútil. E nas questões mais importantes, como o débito pendente da Rússia com os Estados Unidos desde os tempos dos czares, ele não conseguiu fazer nenhum progresso, embora a ideia fosse tratar dessa questão para facilitar a extensão de créditos ao regime soviético.
A jovem e ansiosa equipe de embaixada se viu lutando diariamente apenas para poder funcionar, na sua sede provisória no Savoy Hotel e na nova residência do embaixador, conhecida como Spaso House, uma mansão que antes pertencera a um comerciante de peles e que necessitava de pesadas reformas. Além de Kennan, a equipe incluía outro futuro embaixador em Moscou, Charles “Chip” Bohlen e Charles Thayer, formado em West Point, que mais tarde escreveria livros sobre a Rússia. Apesar de tentarem ampliar os contatos com os russos, Bullit e sua equipe, em geral, eram frustrados em todos os esforços, e recebiam recusas ásperas dos que eram parte – e em muitos casos, logo seriam vítimas – daquele regime infernal.
Karl Radek, um revolucionário que logo perderia a vida nos expurgos, disse a Bohlen:
vocês ocidentais nunca vão entender o bolchevismo. Vocês consideram o bolchevismo um banho quente cuja temperatura pode ser aumentada ou diminuída para atender ao banhista. Não é assim. Ou você está cem por cento no banho e o apoia integralmente, ou você está cem por cento fora dele, e é integralmente contra ele.
Essas atitudes, combinadas com a luta diária para prover as necessidades mais básicas da embaixada, levaram os americanos a se sentirem isolados e combatidos. “Nós nos víamos como um bastião solitário e exposto da vida governamental americana, cercado por um verdadeiro oceano de má vontade oficial soviética; nós nos orgulhávamos das nossas realizações precisamente por causa de toda essa adversidade”, lembrou Kennan.
Bullit logo percebeu que a embaixada teria também de se preocupar em manter a segurança num estado de obsessão com a espionagem de todos, inclusive dos diplomatas. Ele próprio era sempre seguido por quatro senhores em roupas civis, que se sentavam diante da sua residência sempre que ele lá estava. Os funcionários soviéticos insistiam que eles o protegiam e se recusavam a retirá-los. Devido aos esforços de Bullit, seis fuzileiros navais foram enviados a Moscou para guardar a embaixada, dando início a uma prática que depois seria estendida a todas as embaixadas americanas no mundo. Mas essa ação gerou seus próprios problemas. Como relatou Bohlen, ele viu “uma mulher russa muito pintada” entrar no Savoy e declarar ao recepcionista que queria subir ao quarto do Sargento O’Dean, um dos fuzileiros. Quando o recepcionista perguntou para quê, ela respondeu: “sou a sua professora de russo”. Bohlen relatou que a segurança foi aumentada quando a embaixada se instalou no novo local na rua Mokhovaya, mas aquela com certeza não foi a última vez que mulheres russas seriam usadas para comprometer os fuzileiros em serviço em Moscou.
Bullit logo perdeu todas as ilusões com o regime que antes vira como uma inspiração. Escreveu a Roosevelt que “a atmosfera de lua de mel evaporou”, e se frustrou de tal forma com seus contatos com o Kremlin que informou ao Secretário de Estado, Cordell Hull, que “talvez fosse melhor paralisar todas as relações comerciais e financeiras” até o lado soviético adotar uma atitude mais positiva. Com Roosevelt, ele argumentou que, apesar de manter ligações pessoais tão amistosas quanto possível com os funcionários soviéticos, os americanos deviam “deixá-los ver com toda clareza que se não estiverem dispostos a avançar e comer a cenoura, eles vão receber o cacete no traseiro”. Em outras palavras, Washington não devia se adaptar ao regime de Stalin a qualquer preço.
Não foram apenas as questões bilaterais que produziram o novo pensamento de Bullit. Tal como Kennan, Bohlen e outros, ele sentiu alarmante e depressiva a atmosfera de crescente paranoia e xenofobia gerada pelos expurgos. Em março de 1936, ele escreveu numa carta a um amigo que estava chocado com o alcance das prisões, e observou que as vítimas que conhecia pessoalmente “eram sem dúvida leais ao regime soviético”. Um mês depois, ele avisou ao secretário Hull que era uma política soviética fazer amizade com os democratas “a fim de no final levar mais facilmente esses democratas ao pelotão de fuzilamento”.
Mas Roosevelt não gostou da nova perspectiva, nem das recomendações de uma política mais dura. Não quis acreditar que o regime de Stalin tinha avançado tanto no caminho do terror arbitrário como indicava a evidência, pois ainda aceitava a noção de que a União Soviética iria desenvolver instituições mais democráticas e abandonar as noções mais agressivas de disseminação do comunismo para outros países. O presidente estava mais próximo das opiniões do único membro da embaixada que aceitava consistentemente a propaganda soviética. O tenente-coronel Philip Faymonville, o principal adido militar, relatou que as vítimas dos expurgos eram culpadas, e acreditava que houve apenas “casos individuais” de violência contra camponeses durante a brutal campanha de coletivização de Stalin. De acordo com Bohlen, “o viés definitivamente pró-russo de Faymonville” fazia dele “o elo fraco da equipe”.
De fato, Faymonville solapou seu próprio embaixador, deixando claro para os funcionários soviéticos que discordava das suas políticas. Esses oficiais, por sua vez, queixavam-se abertamente de Bullit, e elogiavam o adido militar. Yevgeny Rubinin, funcionário sênior do ministro do Exterior, observou que as agências do governo tinham “uma atitude muito amistosa para com Faymonville”. Em Washington, Roosevelt decidiu que queria alguém na embaixada que recebesse o mesmo tipo de elogio. No final de 1936, ele tinha encontrado o seu homem: Joseph Davies, que logo adotaria Faymonville como aliado e iria alterar radicalmente o teor dos relatórios da missão em Moscou.
Um amigo do presidente, parceiro de golfe e – graças à sua segunda esposa, Marjorie Merriweather Post, herdeira da General Foods – importante contribuinte para a campanha, Davies, não conhecia nada sobre a Rússia. O que para Stalin era ótimo. O ministro do Exterior Litvinov ficou eufórico com o relatório enviado pelo embaixador soviético em Washington: “Davies não entende nada dos nossos negócios, mas está cheio de desejo de trabalhar conosco em completa cooperação e executar rigorosamente as instruções de Roosevelt”.
Para Kennan e outros na embaixada, tudo isso soava como más notícias. “Se o presidente queria nos insultar e zombar dos nossos esforços de desenvolvimento das relações soviético-americanas, essa indicação foi a sua melhor providência”, declarou Kennan. Junto com vários dos seus colegas, Kennan chegou a considerar a possibilidade de renunciar em protesto, mas recuaram, sentindo que o novo embaixador merecia uma chance. Ainda assim, Davies reconheceu desde o início que enfrentava oposição interna. Apesar de elogiar o desempenho de Kennan num relatório para o Departamento de Estado, ele maquinou sua transferência para Washington argumentando que ele já estava em Moscou “há tempo demais”.
Do ponto de vista do Kremlin, Davies era um embaixador de sonho – alguém cego para o que se passava à sua frente e totalmente disposto, até ansioso, a aceitar as racionalizações mais transparentes e absurdas do regime para suas ações. Suas observações sobre os líderes soviéticos eram nada menos que absurdas. “Stalin é um homem muito forte e capaz, prático, dono de muito bom senso e sabedoria”, escreveu no seu diário no dia 11 de março de 1937. “Molotov é um homem excepcional, com grande capacidade mental e sabedoria.” Numa carta à filha, em 9 de junho de 1938, quando se preparava para deixar Moscou, ele continuou no mesmo tom.
Ele [Stalin] tem um humor malicioso. Tem uma grande mentalidade, aguda, esperta e, acima de tudo, sábia, pelo menos assim ela me parece. Se você puder imaginar uma personalidade que seja o oposto exato do que poderia conceber o mais radical antistalinista, então você será capaz de fazer um retrato desse homem.
Davies compareceu a muitos dos mais infames julgamentos dos expurgos, enviando relatórios para Washington que diferiam muito pouco dos relatos soviéticos de propaganda daqueles eventos. No seu relatório para o Secretário Hull sobre o julgamento de Bukharin e outros altos líderes bolcheviques, ele escreveu:
minha opinião, no que se refere aos réus, crimes suficientes de acordo com o direito soviético foram estabelecidos pelas provas além de dúvida razoável e justificaram o veredicto de culpado de traição e a determinação da sentença definida pelos estatutos criminais soviéticos.
Ou seja, o regime de Stalin estava perfeitamente justificado ao executá-los.
Numa mensagem anterior a Hull, sobre a execução do marechal Tukhachevsky e de outros generais do Exército Vermelho, Davies afirmou que grande parte do corpo diplomático em Moscou estava convencido “de que o acusado devia ser culpado de um crime que na União Soviética mereceria a pena de morte”. E concluiu: “o regime de Stalin, política e internamente, está quase com certeza mais forte do que antes. Toda oposição potencial foi eliminada”.
Na verdade, muitos outros diplomatas não eram tão crédulos com relação às racionalizações soviéticas da onda de execuções – e ficaram atônitos com o comportamento de Davies. Um funcionário da embaixada alemã relembrou que até mesmo o embaixador do seu país, conde Von Schulenburg, sentiu “indignação e perplexidade” ao saber do comparecimento de Davies aos julgamentos de fachada. Charles Bohlen, que tinha voltado para a embaixada depois de um período em Washington, ficou chocado com os relatórios de Davies e tentou adivinhar os seus motivos. “Ele desejava ardentemente fazer um sucesso da linha pró-soviética e provavelmente refletia as visões de alguns assessores de Roosevelt para reforçar sua posição política no país”, escreveu. E enquanto Davies afirmava que Stalin estava fortalecendo o seu país, Bohlen chegou à conclusão contrária:
não conseguia entender por que Stalin preferiu, numa época em que a União Soviética era ameaçada pela Alemanha e pelo Japão, demolir a estrutura do oficialato que ele próprio tinha erguido e destruir a liderança do Exército Vermelho.
Como Bohlen notou causticamente, Davies nunca pediu sua opinião a respeito dos julgamentos, preferindo discuti-los com o coronel Faymonville, o adido militar que invariavelmente confirmava a versão soviética dos acontecimentos, e com os correspondentes americanos da mesma inclinação. O seu favorito entre eles era claramente Walter Duranty, repórter do New York Times ganhador do Prêmio Pulitzer, que negou a existência da fome na Ucrânia durante a campanha de coletivização forçada e que, em geral funcionava como descarado apologista de Stalin. “Sempre me sentirei em dívida com Walter Duranty, que dizia a verdade como a via, e tem os olhos de um gênio”, escreveu Davies no seu diário.
Quando publicou seu livro Mission to Moscou (Missão em Moscou), pouco depois de os alemães terem lançado o ataque contra a União Soviética, Davies sentiu-se mais do que nunca impelido a oferecer uma explicação benigna de todo o comportamento soviético.
Na minha opinião, o povo russo, o governo soviético e os líderes soviéticos são movidos basicamente por conceitos altruístas. Seu objetivo é promover a irmandade do homem e apurar a sorte do homem comum. Querem criar uma sociedade em que os homens possam viver como iguais, governados por ideais éticos. São devotados à paz.
Como acreditava em quase tudo que seus anfitriões soviéticos lhe tinham dito, Davies também aceitou suas garantias de que o país estava pronto para se defender. “É meu juízo que o governo soviético e seu exército são muito mais fortes do que geralmente se acredita em certas áreas da Europa”, escreveu a Roosevelt, em 18 de janeiro de 1939, do seu novo posto na embaixada de Bruxelas.
Quanto ao impacto dos expurgos no exército, ele escreveu depois da invasão alemã: “não havia quintas colunas na Rússia em 1941 – eles mataram todos. O expurgo limpou o país e o livrou da traição”.
No dia 7 de setembro de 1939, poucos dias depois de os alemães terem invadido a Polônia para iniciar a Segunda Guerra Mundial, um novo adido militar chegou para assumir seu posto na embaixada americana em Moscou. Seu nome era Ivan Yeaton, e o major do exército chegou com um conjunto de premissas sobre a União Soviética oposto ao que Davies e Faymonville tinham adotado. Suas primeiras experiências só reforçaram a convicção de que a Rússia de Stalin era um submundo sinistro e violento. Yeaton mal tinha acabado de desfazer as malas, lembrou nas suas memórias inéditas, quando o Exército Vermelho atacou a Polônia partindo do leste e o adido militar polonês chegou à sua porta. “Recebemos ordens de evacuar a embaixada dentro de poucas horas e só podemos levar uma mala”, explicou o polonês.
Fui avisado de que tão logo eu deixe a embaixada, vou ser preso e possivelmente fuzilado. Portanto, eu tenho de fugir. Vai custar muito dinheiro; por isso eu agradeceria se você comprar uma parte ou todo o meu equipamento de casa pelo seu preço.
Yeaton lhe ofereceu o dinheiro que tinha à mão, comprando toda a sua adega a 1 dólar a garrafa, e nunca mais viu o seu colega polonês, embora tenha ouvido mais tarde que a NKVD o estava procurando em Kiev. Relembrando o destino de milhares de oficiais poloneses fuzilados no ano seguinte na floresta de Katin, o americano explicou: “ele não tinha nada a perder com uma tentativa desesperada de fuga”. E Yeaton se apressou a registrar o que estava acontecendo com outros, cujos países estavam caindo sob o domínio soviético. Escreveu:
a esposa do embaixador da Letônia, uma anfitriã cativante, encantadora e graciosa, que por toda a sua vida sempre teve empregados, foi vista com um grupo de mulheres prisioneiras esperando para ser embarcada num vagão de carga num trem que ia para leste.
Desconfiado, Yeaton de imediato despediu o seu motorista russo, que era “um tanto demasiadamente cheio de si”. Duas semanas depois, o americano o encontrou na rua com a farda de capitão da NKVD, comandando os quatro “guardas” cuja atribuição era segui-lo dia e noite. “Ele riu na minha cara”, contou Yeaton. Não havia nada que o novo adido pudesse fazer, mas ele estava decidido a seguir uma rotina muito diferente da de Faymonville, cujos aposentos ele herdou. Desprezava o antecessor por “acreditar nas notícias que recebia dos soviéticos”, e procurou outros adidos militares de outras embaixadas que eram igualmente críticos. “O que abriu outras portas para mim era o desprezo e o medo do comunismo unânimes de todas as missões em Moscou”, afirmou. Essas observações deixaram a impressão de que seus relatórios eram enviados de uma capital diferente da que fora habitada por Davies e Faymonville.
Yeaton também lançou uma campanha para aumentar a segurança da embaixada. Observou que muitos funcionários do consulado davam festas repletas de jovens russas “generosamente oferecidas” pela NKVD.
Essas “moças de festas” eram linguistas bem treinadas e informantes conhecidas nos círculos de inteligência como “pombas”. Depois de comparecer a algumas dessas festas, fiquei pasmo com a liberdade com que aqueles rapazes discutiam negócios da embaixada diante das pombas.
E fez outra observação: “também ficou claro, pelo menos para mim, que havia homossexuais no grupo. Do ponto de vista da segurança, era uma situação perigosa”. Sem informar aos colegas, ele pediu ao FBI para enviar um especialista em homossexualidade a Moscou. Um agente chegou para uma visita e, como Yeaton registrou satisfeito, “uma semana depois, um grupo de solteiros foi enviado de volta para casa”.
Ações como essa não tornaram Yeaton uma figura popular na embaixada, nem entre os diplomatas que compartilhavam a sua visão desanimadora do ambiente. Mas o novo embaixador, Laurence Steinhardt, logo passou a apreciar os membros da equipe que não adotavam a cegueira deliberada de Davies e Faymonville.
Um advogado bem estabelecido na comunidade judaica de Nova York, que já tinha servido como embaixador na Suécia, Steinhardt, era um democrata liberal com, do ponto de vista de Roosevelt, excelentes ligações familiares. Seu tio, Samuel Untermeyer, era um grande contribuinte de campanhas, abertamente simpático à União Soviética. Quando indicou Steinhardt para o posto em Moscou, o presidente acreditava que ele estaria mais na tradição de Davies do que na de Bullit. Mas, como observou Yeaton, Steinhardt logo se mostrou “pronto a enfrentar as táticas soviéticas de obstrução quando necessário”. Tão logo o novo enviado começou a exibir essas tendências, os oficiais soviéticos zombaram dele em termos particularmente virulentos. Konstantin Umansky, o embaixador soviético em Washington, relatou que Steinhardt era “um rico burguês judeu saturado do cheiro ruim do sionismo”.
Em pouco tempo, Steinhardt se irritou com a perseguição rotineira de diplomatas em Moscou – a vigilância constante e o clima de suspeita, além da prática soviética de tornar a vida diária tão difícil e cheia de restrições quanto possível. Tal como Bullit, ele começou a cobrar uma política americana de reciprocidade, que permitisse ao Departamento de Estado tratar os diplomatas soviéticos em Washington da mesma forma, e adotou a abordagem de que o comportamento americano deveria responder na mesma moeda às ações soviéticas. Apesar de antes ter rejeitado recomendações semelhantes, Roosevelt pareceu mudar de ideia depois da série de ações soviéticas em seguida ao pacto Molotov-Ribbentrop – a invasão da Polônia, a ocupação dos Estados Bálticos e a invasão da Finlândia. “Acho que devemos responder a cada contratempo soviético com um contratempo semelhante contra eles”, disse a Hull e ao Subsecretário de Estado, Sumner Welles, em dezembro de 1940.
Apesar das restrições, Yeaton se movia na medida do possível, observando cuidadosamente o que estava acontecendo. Dava longos passeios, e nos primeiros meses de 1940 observou que, à medida que mais homens eram convocados para o serviço militar, “mais e mais mulheres e meninos substituíam operários adultos”. Um dia, um caça experimental, tendo a bordo o projetista, desintegrou-se ao voar quase diretamente sobre ele. A polícia isolou os destroços com rapidez, e o Ministério do Exterior respondeu a um pedido de informações de Yeaton, alegando que tal acidente não tinha acontecido. Mas alguns dias depois a imprensa soviética relatou que o projetista tinha morrido, dando a entender que por causas naturais.
No dia 18 de junho de 1941, Yeaton viu um diplomata alemão embarcando seus dois boxers premiados num avião para a Alemanha, o que o levou a informar a Washington que Hitler deveria atacar “dentro de alguns dias”. Quando veio o ataque, o motorista de Yeaton foi convocado, o que lhe permitiu dirigir ele mesmo. E logo ele descobriu que os guarda-costas também tinham desaparecido, resultado da necessidade desesperada de mão de obra – não uma mudança na política soviética. Mas Yeaton decidiu explorar ao máximo a situação. Logo tinha recebido um bom número de citações da milícia por violação das regras de tempo de guerra, inclusive dirigir à noite e tentar sair discretamente da cidade em direção ao campo de batalha a oeste. Ao comparar suas anotações com as de outros estrangeiros na capital e com os relatos dos refugiados que desertavam da luta, ele fez uma avaliação bem pessimista das chances da União Soviética de conter os alemães. “Se meus relatórios pareciam seguir mais a linha da propaganda alemã que as informações oficiais soviéticas, eu não percebia e não descobri nenhuma evidência em que basear um relatório otimista”, lembrou mais tarde.
Mas não foi o pessimismo de Yeaton sobre a situação militar o que lhe trouxe problemas. Afinal, sua opinião de que o Exército Vermelho não suportaria o assalto alemão não era rara. Foi a combinação daquele pessimismo com sua aversão instintiva ao regime de Stalin que o levou a se opor às políticas que logo seriam defendidas por Churchill e Roosevelt, em resposta ao ataque alemão à União Soviética. Naqueles meses de verão de 1941, aquelas políticas se tornaram tanto uma questão de disputas públicas quanto de disputas pessoais.
Na noite anterior à invasão alemã, Churchill ofereceu um banquete no seu retiro no campo, Chequers, para o secretário do Interior, Eden, o secretário do Gabinete, Edward Bridges, o embaixador americano, John Winant, e suas esposas. O líder britânico declarou que a invasão da União Soviética era agora uma certeza, e que Hitler esperava poder contar com o apoio de direitistas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos para aquela ação. O ditador alemão ia descobrir que estava errado. Churchill garantiu aos seus convidados que a Grã-Bretanha faria tudo ao seu alcance para ajudar a Rússia naquele conflito. Winant acrescentou que a mesma certeza valia para o seu país.
Depois do jantar, Churchill e seu secretário pessoal, John Colville, andaram pelo campo de croqué e continuaram a tratar do mesmo tema. Colville lhe perguntou se, como um autêntico anticomunista, ele não se sentia perturbado pela ideia de ajudar o Kremlin. “De forma alguma. Eu só tenho um objetivo: a destruição de Hitler, e por isso a minha vida é muito simplificada. Se Hitler invadisse o inferno, eu faria, no mínimo, uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns.”
Acordado às quatro na manhã seguinte, com as notícias do ataque alemão, Churchill preparou uma comunicação pelo rádio a ser transmitida pela BBC naquela noite. Seria um dos discursos mais memoráveis, prometendo à nação lutar pela vitória total contra Hitler. “Vamos lutar contra ele em terra, vamos lutar contra ele no mar, vamos lutar contra ele no ar, até que, com a ajuda de Deus, tivermos livrado a terra da sua sombra e libertado o seu povo do seu jugo”, entoou. Declarou que “qualquer homem ou estado que lute contra o nazismo terá a nossa ajuda”, e acrescentou:
segue-se portanto que daremos toda ajuda à Rússia e ao povo russo. Vamos apelar a todos os nossos amigos e aliados em todas as partes do mundo para tomarem o mesmo curso, e segui-lo, como nós, fiel e constantemente até o fim.
Churchill não tinha esquecido o comportamento anterior do Kremlin, nem se forçou a acreditar que Stalin de repente tinha-se tornado o parceiro ideal. Escrevendo sobre a invasão da Rússia por Hitler, maliciosamente, ele observou:
Assim, os delírios de ódio contra a Grã-Bretanha e os Estados Unidos que a máquina de propaganda soviética lançou no ar da meia-noite foram sufocados na madrugada pela canhonada alemã. Os maus não são sempre espertos, nem os ditadores estão sempre certos.
Mas provavelmente nem mesmo o arguto primeiro-ministro percebeu quanto tempo, energia e frustração lhe custariam sustentar a relação com o ditador que agora era seu aliado.
Desde o início, Stalin e sua entourage frequentemente ignoravam seus novos aliados ocidentais, ou simplesmente os rejeitavam. Churchill ficou atônito por seu discurso emocionado de 22 de junho, de apoio à União Soviética, ter sido recebido sem qualquer reação do Kremlin. Sentindo “opressivo” aquele silêncio, Churchill escreveu para Stalin no dia 7, prometendo mais uma vez toda ajuda possível à Rússia. Só no dia 18 de julho, quase quatro semanas depois do discurso de Churchill, Stalin escreveu ao primeiro-ministro para lhe agradecer as garantias de apoio. Mas aquela primeira carta também continha a exigência que o Kremlin iria apresentar consistentemente, a partir de então: a criação de uma segunda frente contra Hitler no Ocidente – ou seja, que a Grã-Bretanha enviasse tropas para lutar no continente contra os alemães.
Churchill respondeu com mal disfarçada impaciência que seu país não estava em posição de lançar um ataque ao continente naquela época. Explicou:
Você deve se lembrar de que estamos lutando sozinhos há mais de um ano, e que, apesar de nossos recursos estarem aumentando, e vão aumentar mais a partir de agora, estamos numa situação de grande tensão tanto internamente, como no Oriente Médio […].
Seguir-se-ia uma fila contínua de exigências e queixas do lado soviético e, como disse Churchill, “recebi muitas rejeições e raramente uma palavra gentil”. E acrescentou: “o governo soviético tinha a impressão de que nos prestava uma grande honra por estar lutando no seu próprio país por suas próprias vidas”.
Embora se visse lutando para conter a irritação, Churchill enfrentava pouca oposição interna à sua política de auxílio aos russos. Do outro lado do Atlântico, Roosevelt também tinha oferecido “toda ajuda possível à Rússia”, mas havia vozes públicas e privadas discordantes. O ex-presidente Herbert Hoover avisou que “estamos prometendo ajuda a Stalin e sua conspiração militante, contra todos os ideais democráticos do mundo” e que, se os Estados Unidos entrarem na guerra e ajudarem a tornar possível uma vitória soviética, isso facilitaria as ambições expansionistas de Stalin. O Senador Harry Truman apresentou o que soava como uma abordagem mais friamente calculada. Declarou, no dia em que os alemães atacaram a União Soviética:
Se virmos que a Alemanha está ganhando, devemos ajudar a Rússia, e se a Rússia estiver ganhando, ajudar a Alemanha, e assim deixar que os dois matem o maior número possível, embora eu não queira ver Hitler vitorioso sob nenhuma circunstância.
Até George Kennan, então servindo na embaixada americana em Berlim, escreveu para Loy Henderson, antigo colega em Moscou e agora novamente no Departamento de Estado, para lhe avisar que “não devemos fazer nada no país que dê a impressão de que estamos seguindo o caminho que Churchill parece ter tomado, de oferecer apoio moral para a causa russa”. Argumentou que a Rússia “não tem direito a reclamar simpatias ocidentais”, pois ela claramente não luta pelos mesmos ideais que o Ocidente. “Essa opinião não impede a oferta de ajuda material sempre que atenda aos nossos interesses”, concluiu. “Mas impediria tudo que possa nos identificar política ou ideologicamente com o esforço de guerra russo.” Outros funcionários civis e militares do governo tinham uma preocupação puramente prática: havia sentido em enviar ajuda militar, ou de outra natureza, para a União Soviética se, como muitos previam, ela não conseguiria se defender? Se os pessimistas estivessem certos, os alemães tomariam todos os suprimentos tão logo completassem a conquista.
Mas Roosevelt e seus auxiliares mais imediatos não tinham intenção de aceitar esse conselho. Na verdade, eles logo superariam Churchill e sua equipe ao derramar elogios sobre a Rússia pelo seu esforço de guerra e ao adotar a abordagem de não ver nada errado que justificasse qualquer consideração real de obtenção de concessões de Stalin em troca da ajuda. Na teoria e prática, logo se tornou claro que Roosevelt via os russos como um aliado digno de apoio incondicional. A noção de Steinhardt de reciprocidade nas relações, que o presidente tinha brevemente endossado, foi inequivocamente superada pela nova política.
O homem certo para essa política era Harry Hopkins, um dos assessores mais próximos do presidente cuja inclinação pró-soviética já tinha atraído a atenção de Moscou. Em meados de julho, Hopkins foi despachado para Londres para consultas com Churchill sobre como cumprir a promessa de ajuda para a Rússia, e o primeiro-ministro apresentou-o ao embaixador soviético Maisky. O enviado russo ficou encantado pela “óbvia simpatia de Hopkins pela União Soviética” e saiu convencido de que ele era “muito mais simpático” às necessidades soviéticas do que Churchill. Nas suas memórias, Maisky escreveu: “Harry Hopkins permaneceu com uma das pessoas mais avançadas entre as principais personalidades no mundo burguês durante a Segunda Guerra Mundial”.
Hopkins era muito afinado com o pensamento do antigo embaixador Joseph Davies, que ainda agia como conselheiro de Roosevelt sobre a Rússia e jantava regularmente com o embaixador soviético Umansky, em Washington. Como seria de se esperar, Davies era um advogado fervoroso da ajuda à Rússia e, refletindo a linha oficial do Kremlin, buscava enfatizar seu lado positivo, mesmo durante as primeiras semanas da Operação Barbarossa, quando o Exército Vermelho sofria enormes perdas. Na carta My dear Harry a Hopkins do dia 18 de julho, Davies declarou: “a resistência do exército russo tem sido mais eficaz do que geralmente se esperava”. Ao mesmo tempo, ele argumentava que os russos continuariam a resistir mesmo que os alemães ocupassem grande parte do seu território. Tudo isso significava que, não importando a dificuldade da situação militar, a ajuda ocidental à Rússia não seria em vão.
Não foi acidente o adido militar favorito de Davies ter reemergido na mesma época. Depois de o coronel Faymonville ter voltado de Moscou, o Departamento da Guerra o tinha banido por sua reputação de apologista do regime de Stalin. Mas no dia 13 de julho, ele foi nomeado para a Divisão de Relatórios de Ajuda, que supervisionava o Lend-Lease, o programa de ajuda militar que, até aquele ponto, canalizava suprimentos para a Grã-Bretanha. Apesar de o general James Burns ser o responsável formal por essa operação, o programa de ajuda era a área de trabalho de Hopkins. Faymonville foi designado para ajudar a pôr nos trilhos o programa de ajuda aos russos, o que ele fez com o entusiasmo usual.
Foi ele quem acompanhou a missão militar soviética quando chegou a Washington, em 26 de julho, para pressionar seus anfitriões por ações mais rápidas. Faymonville estava tão ansioso para agradar os soviéticos que chegou a lhes mostrar documentos secretos, gerando acusações posteriores de que ele teria violado regulamentos militares. Mas Hopkins e – por extensão – Roosevelt garantiram que nenhuma providência fosse tomada contra Faymonville. De fato, logo ele assumiria responsabilidades mais amplas no programa russo.
Mais ou menos na mesma época, Hopkins saiu de Londres para Moscou. Quando a RAF o levou até Archangel, ele teve o primeiro gosto da hospitalidade oficial soviética: uma refeição “monumental” de 4 horas, com muitos pratos, principalmente peixe frio e caviar, e os inevitáveis brindes de vodca. “Vodca tem autoridade”, relatou ele mais tarde. “Não é coisa com que um amador possa brincar.” Então, depois de apenas duas horas de sono, embarcou para Moscou, onde foi recebido pelo embaixador Steinhardt.
Nas primeiras conversas, Hopkins quis saber se Steinhardt considerava precisos os relatórios do major Yeaton, então adido militar. Steinhardt respondeu que seria um erro subestimar os russos, pois sua história indicava que eles sempre defenderam a sua terra. Mas o embaixador mostrou que era extremamente difícil saber em que pé estavam realmente as coisas, pois a obsessão do Kremlin com a confidencialidade e o medo dos estrangeiros significavam que os diplomatas em Moscou só podiam reunir fragmentos de informação e impressões do que estava acontecendo.
Durante a visita de três dias a Moscou, Stalin ofereceu um tipo de recepção pessoal em várias horas de conversas cara a cara que deixaram o visitante claramente assombrado – e confiante – de que tinha recebido informações privilegiadas. Depois de transmitir suas mensagens de apoio de Roosevelt e de Churchill, Hopkins teve acesso a uma visão geral da situação militar e a uma discussão detalhada dos suprimentos que o Kremlin esperava receber. Apesar das derrotas sofridas pelo seu exército, Stalin insistiu que os alemães tinham subestimado suas forças. “Stalin disse que seus soldados não consideravam a batalha perdida apenas porque os alemães, em um ou outro ponto, tinham rompido as defesas com suas forças mecanizadas”, Hopkins relatou mais tarde. O líder soviético observou que as tropas alemãs se abriram demais numa frente muito extensa e “até já falta combustível para os tanques alemães”.
Mais significativos, os pedidos específicos de suprimentos de Stalin, como baterias antiaéreas, alumínio para construção de aviões, combustível de alta octanagem para aviões e mais de um milhão de fuzis, indicavam que ele esperava uma guerra de longa duração. “Deem-nos baterias antiaéreas e alumínio e poderemos lutar por três ou quatro anos”, disse a Hopkins. Afirmou também que a resistência atrás das linhas alemãs já estava tornando a vida difícil para os invasores. Ademais, Hopkins poderia ver por si mesmo que Moscou era uma cidade bem preparada para os ataques aéreos: blackout completo à noite e, quando os bombardeiros apareciam no céu, eram recebidos por violento fogo antiaéreo.
Stalin argumentou que os Estados Unidos se veriam obrigados a se juntar à luta contra Hitler, e disse ao seu visitante para transmitir a Roosevelt a mensagem de que estava disposto a receber na frente russa tropas americanas com seu próprio comando. Como observou um surpreso Hopkins no seu relatório, “eu lhe disse que duvidava que nosso governo, no caso de uma guerra, iria querer um exército americano na Rússia, mas que transmitiria a mensagem ao presidente”. A recusa constante das autoridades soviéticas a permitir que Yeaton e outros adidos militares visitassem a frente, muito menos que participassem de qualquer ação ali, sugeriu que Stalin estava simplesmente lançando aquela oferta para efeito dramático.
Hopkins se impressionou tanto pela aparência e discurso de Stalin quanto pela sua mensagem. “Ele falava tal como sabia que suas tropas atiravam – duro e no alvo”, lembrou mais tarde. Descreveu o líder soviético como
uma figura austera, vigorosa e determinada, calçando botas que brilhavam como espelhos, calças baggy e uma blusa justa. Não usava nenhum ornamento militar nem civil. Um homem com os pés firmemente plantados no chão, o jogador de defesa dos sonhos de um técnico de futebol americano. […] As mãos são enormes, duras como sua mente.
Não chega a surpreender, portanto, que Hopkins não tivesse paciência com o major Yeaton, o adido militar que enviava relatórios prevendo a derrota soviética, quando se encontraram no desjejum da embaixada. O visitante logo contou a Yeaton que estava convencido de que a União Soviética sairia vitoriosa do conflito, e que os Estados Unidos ofereceriam “toda ajuda econômica e militar possível”. Essa ajuda, acrescentou, “nunca seria usada como barganha”.
Yeaton ficou desanimado. Aludindo à pouca saúde de Hopkins, o adido militar escreveu mais tarde: “seu entusiasmo para nos envolver nessa guerra e sua disposição de negociar com Stalin numa base de ‘eu confio em você’ me dão razões para me perguntar se sua doença afetou a sua mente”. Diante de Hopkins, Yeaton lançou seus argumentos contrários, explicando sua visão bem mais pessimista da situação militar e a natureza do regime de Stalin. “Quando impugnei a integridade e os métodos de Stalin, ele [Hopkins] não suportou mais e me fez calar com um intenso ‘não quero mais discutir esse assunto’”, relatou Yeaton.
Na manhã seguinte, Yeaton tentou uma reconciliação. Pediu desculpas a Hopkins por tê-lo irritado e pediu sua ajuda. Se os Estados Unidos e a União Soviética seriam aliados, explicou, era importante que ele pudesse se mover livremente para avaliar a situação militar. Em outras palavras, era preciso dizer ao Kremlin para deixar de restringir os movimentos dos adidos militares estrangeiros. Yeaton relatou que Hopkins respondeu com “um ‘não’ frio e enfático”. Não poderia haver uma evidência mais convincente de que Hopkins falava sério quando disse a Yeaton que a ajuda americana nunca seria usada como alavancagem com os russos, nem mesmo em questões de procedimento. Seria uma ajuda verdadeiramente incondicional.
Não foram só os americanos que se dividiram nas previsões sobre a União Soviética ser capaz de resistir ou não aos invasores alemães. Em despachos interceptados pela NKVD, dois adidos militares japoneses estacionados em Moscou transmitiam avaliações diametralmente opostas aos seus superiores em Tóquio. Em abril, o coronel Michitake Yamaoka, o adido mais antigo, previa uma invasão no verão e estava convencido de que os alemães seriam vitoriosos no final do ano. O correspondente de um jornal japonês que mantinha contato com Yamaoka escreveu no seu diário, em 19 de julho: “o destino de Moscou será decidido dentro de uma semana”. No dia 11 de agosto ele previu: “Moscou deve cair no início de setembro”.
Mas o capitão Takeda Yamaguchi, o adido da marinha, relatou em 11 de agosto que o objetivo inicial dos alemães de chegar à vitória dentro de dois meses era irrealista. “Se for conduzida de acordo com esses planos, a guerra sem dúvida será perdida e devemos esperar uma situação extremamente perigosa no futuro”, escreveu ao Ministério da Marinha. O resultado, previu ele, seria uma guerra demorada. Ao relatar o avanço alemão do sul até Moscou, em setembro, ele acrescentou que o Exército Vermelho tinha tido “bastante sucesso” em infligir perdas ao inimigo, principalmente às unidades do general Guderian.
Isso era muito mais que um debate acadêmico. Em abril de 1941, o Japão e a União Soviética tinham assinado um pacto de neutralidade de cinco anos, mas Stalin tinha medo de que o Japão decidisse atacar do leste, especialmente se os alemães parecessem estar a ponto de ganhar uma vitória rápida. Dentro da embaixada alemã em Tóquio, o espião soviético Richard Sorge relatava a pressão persistente dos alemães para os japoneses se juntarem à luta. No dia 1º de julho, o ministro do Exterior Ribbentrop tinha argumentado num telegrama para o seu colega japonês que “o iminente colapso da principal força militar da Rússia e presumivelmente do próprio regime bolchevique oferece aos japoneses uma oportunidade única” de tomar Vladivostok e continuar avançando. “O objetivo dessas operações”, acrescentou Ribbentrop, “deveria ser os japoneses, no seu avanço para oeste, encontrarem as tropas alemãs que avançavam para leste, antes mesmo de se instalar a estação fria”.
Foi um caso de exagero retórico, já que nem mesmo os principais generais da Alemanha consideravam o encontro desses dois exércitos, o que teria exigido que os dois exércitos avançassem milhares de quilômetros antes do inverno. Mas a ideia era instigar o Japão a atacar. E enquanto as intenções do Japão continuassem incertas, Stalin sentia que não podia se dar o luxo de redistribuir grande número de soldados do Extremo Oriente Soviético para ajudar seus companheiros que tentavam conter o avanço em direção a Moscou. Assim, o Japão pairava cada vez maior no pensamento estratégico do líder soviético.
Durante sua visita a Moscou, Hopkins tinha discutido essa situação com Molotov. O americano relatou que, embora não esperasse um golpe imediato, o ministro do Exterior soviético “sentia que os japoneses não hesitariam em atacar, se ocorresse uma ocasião propícia”. Molotov disse a Hopkins que, dada essa incerteza com relação às intenções do Japão, ele esperava que Roosevelt pudesse avisar aos japoneses que qualquer ação semelhante poderia induzir os Estados Unidos a se juntar à defesa da Rússia. Hopkins respondeu cautelosamente que o governo dos Estados Unidos estava monitorando a situação “com grande atenção”, mas não queriam ser “provocativos” nas suas relações com o Japão.
Mas, de outras formas, Roosevelt e seus conselheiros buscavam demonstrar que estavam respondendo rapidamente – e de forma positiva – aos pedidos soviéticos de ajuda. Em 2 de agosto, Roosevelt escreveu uma nota direta a Wayne Coy, a quem foi entregue a supervisão do programa de ajuda soviética enquanto Hopkins estava longe. O presidente chamou a atenção para o fato de ter-se queixado na última reunião do gabinete, seis semanas depois da invasão alemã, que os Estados Unidos não tinham feito “quase nada” em termos de entregas reais de suprimentos pedidos pelos russos. “Francamente, se fosse russo, eu estaria me sentindo enrolado pelos Estados Unidos”, queixou-se. Ordenou a Coy que “com toda a minha autoridade, aja com força – seja a rebarba sob a sela para pôr as coisas em movimento”. E concluiu com uma ordem seca: “pé na tábua!”
No famoso encontro de cúpula no mar, entre 9 e 12 de agosto, Roosevelt e Churchill repassaram a situação na Europa e no Extremo Oriente, e prepararam uma declaração conjunta de princípios conhecida como a Carta do Atlântico. Entre outras, estavam as promessas de que não haveria alterações territoriais “que não estejam de acordo com os desejos livremente expressos dos povos interessados” e todos deverão ser livres “para escolher a forma de governo sob a qual irão viver”.
Na teoria, esses princípios poderiam ter levantado de imediato preocupações com relação aos objetivos de longo prazo da União Soviética, pois Stalin já pressionava pela aceitação dos ganhos políticos e territoriais do seu país tornados possíveis pelo agora defunto pacto Molotov-Ribbentrop. Mas isso não era prioritário na ocasião. Baseado no relatório de Hopkins sobre sua visita a Moscou, Roosevelt e Churchill discutiram a melhor forma de responder às exigências de Stalin e enviaram a ele uma declaração conjunta em 14 de agosto. “Neste momento, estamos cooperando para oferecer o máximo de suprimentos mais urgentemente necessários”, asseguraram a ele. “Muitos navios já partiram das nossas costas e outros partirão em futuro imediato.” Mas atentaram para não haver expectativas grandiosas, pois a guerra acontecia em muitas frentes e eles tinham de alocar com cuidado seus recursos. Propuseram então enviar uma delegação anglo-americana de alto nível a Moscou, para desenvolver um detalhado plano de ação conjunta que garantisse um programa efetivo de ajuda para a Rússia.
Temendo que Hopkins não estivesse disposto a mais uma viagem a Moscou, Roosevelt designou Averell Harriman, presidente da Union Pacific Railroad, para a missão. Churchill indicou Lord Beaverbrook, o barão da imprensa e ministro de Suprimentos, para representar o lado britânico. Embora os dois homens se mostrassem ansiosos para mostrar o que podiam fazer para ajudar o esforço de guerra soviético, seus líderes já exibiam algumas diferenças de atitude. Churchill disse a Beaverbrook: “sua função será não apenas propor a formação de planos para ajudar a Rússia, mas também cerificar-se de que não seremos sangrados no processo”.
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As divisões Panzer do general Heinz Guderian
avançaram para leste até Smolensk em menos de um
mês. Guderian insistiu com Hitler para lhe permitir
continuar seguindo diretamente para Moscou, mas o
ditador alemão ordenou que suas tropas primeiro
tomassem Kiev. Como Guderian tinha previsto, a ordem
foi um erro enorme. Atrasou o avanço em direção a
Moscou até o clima começar a mudar e Stalin ter
condições de convocar reforços da Sibéria.
Do outro lado do Atlântico, Roosevelt estava mais preocupado em encontrar formas de apresentar a sua política russa sob a melhor luz possível. Em 11 de setembro, ele se encontrou com o embaixador Umansky e sugeriu que os russos poderiam ajudar a própria causa, publicando o seu suposto compromisso com a liberdade de religião, já que isso “poderia ter um ótimo efeito educacional antes que o próximo projeto de lei de Lend-Lease seja apresentado no Congresso”. Ao mesmo tempo, Roosevelt desejava tranquilizar os russos de que os americanos iriam a Moscou como amigos. Um dos principais sinais foi a decisão de incluir o coronel Faymonville, o antigo adido militar, na delegação de Harriman.
Apesar de estar também comprometido em oferecer a Stalin suprimentos militares vitais, Churchill era mais calculista no tratamento do líder soviético – e não ia permitir que o líder soviético ou seu enviado lhe impusesse decisões que poderia lamentar. Em 29 de agosto, ele escreveu a Stalin que, em resposta aos pedidos do embaixador Maisky de mais aviões caça, 40 Hurricanes chegariam a Murmansk em 6 de setembro, e que 200 Tomahawks também estavam sendo preparados. Ofereceu mais 200 Hurricanes, completando um total de 440 caças “se os seus pilotos puderem usá-los eficazmente”. Mas ele preveniu o líder russo contra expectativas irrealisticamente altas, pois “os caças são a base da defesa do país” e eram necessários também no Norte da África. Polida, mas firmemente, o primeiro-ministro explicava que tinha de atender primeiro às necessidades do seu país.
Em 4 de setembro, Maisky apareceu com a resposta de Stalin – “a primeira mensagem desde julho” do líder soviético, como observou Churchill causticamente. Admitindo que a posição das forças soviéticas tinha se “deteriorado consideravelmente” nas três semanas anteriores, Stalin deixava claro que avaliava a oferta de Churchill insuficiente para ajudar a reduzir a velocidade do avanço alemão no seu território. Para alterar a situação, declarou ele, a Grã-Bretanha “tinha de criar no ano em curso uma segunda frente em algum ponto dos Bálcãs ou na França, capaz de retirar da frente oriental 30 ou 40 divisões”, fornecer à União Soviética 30 mil toneladas de alumínio até o início de outubro e oferecer “um mínimo mensal de ajuda” de 400 aviões e 500 tanques.
Não contente em permitir que a carta de Stalin falasse por si, Maisky se queixou de que a Rússia já estava há 11 semanas sob ataque, lutando sozinha para repelir a enorme concentração de forças alemãs lançadas contra ela. Churchill tinha simpatia pelos problemas da Rússia, mas irritou-se quando Maisky perguntou, de forma quase ameaçadora, como a Grã-Bretanha poderia esperar ganhar a guerra se permitia que a Rússia fosse derrotada. “Lembre-se de que há apenas quatro meses nesta ilha nós não sabíamos se vocês viriam contra nós, do lado alemão”, respondeu o primeiro-ministro.
Na verdade, nós achávamos muito provável que viessem. Na época tínhamos certeza de que no final seríamos vencedores. Nunca pensamos que a nossa sobrevivência dependeria de qualquer forma da sua ação. O que quer que aconteça, e o que quer que vocês façam, não têm direito de nos censurar.
Maisky recuou. “Calma, por favor, meu caro sr. Churchill”, pediu ele. Como lembrou o embaixador soviético, “comecei a temer que na sua grande irritação ele pudesse dizer muita coisa desnecessária”.
Stalin não facilitou as coisas quando enviou um telegrama em 15 de setembro com mais uma sugestão. “Parece-me que a Grã-Bretanha poderia sem risco desembarcar em Archangel entre 26 e 30 divisões, ou transportá-las através do Irã até as regiões meridionais da URSS”, escreveu. “Assim se poderia estabelecer uma colaboração militar entre as tropas soviéticas e britânicas no território da URSS.” Churchill ficou atônito que Stalin pudesse acreditar, ainda que por um instante, que a Grã-Bretanha estivesse em posição de contemplar uma ação como aquela. “É quase inacreditável que o chefe do governo russo, com todos os conselhos dos seus especialistas militares, pudesse se comprometer com tais absurdos”, escreveu o primeiro-ministro nas suas memórias num acesso de cólera. “Não havia como discutir com um homem que pensava em termos de irrealidade absoluta.”
Mais tarde, Maisky mostrou que entendia a necessidade de um gesto ocasional para ajudar a manter as tensões sob controle. Por exemplo, quando foi publicada uma nova edição de Guerra e Paz, a esposa de Maisky deu de presente um exemplar para a sra. Churchill com a inscrição: “1812-1942: destruímos o nosso inimigo de então, vamos destruir o nosso inimigo de hoje”.
Mas no verão de 1941, era difícil encontrar entre a comunidade estrangeira de Moscou alguma sensação de confiança que o inimigo seria destruído. Para os americanos, a fragilidade da situação ficou clara quando uma bomba de mil libras (pouco mais de 450 kg) explodiu a menos de 50 metros da Spaso House, estourando quase todas as janelas da residência do embaixador Steinhardt. Moscou não se sentia de forma alguma segura.
Em 28 de setembro, a delegação anglo-americana liderada por Beaverbrook e Harriman chegou a Moscou. Quentin Reynolds, que tinha tentado sem sucesso um visto para a Rússia como correspondente de guerra, conseguiu entrar como agente de imprensa da delegação. Collier’s Weekly, seu empregador, tinha concordado em “emprestá-lo” pela duração da missão. Dadas as notícias terríveis de que os alemães se aproximavam rapidamente de Moscou, ele queria chegar lá de qualquer maneira. No voo, em um bombardeiro do exército, ele se sentou na cabine gélida ao lado do coronel Faymonville. “Ele era um dos poucos americanos que eu conhecia que duvidavam que os alemães conquistariam a Rússia”, lembrou.
Enquanto os outros membros da delegação se reuniam em subcomitês com seus colegas soviéticos, Beaverbrook e Harriman se reuniram três dias consecutivos com Stalin, por três horas a cada vez. Na primeira reunião, o líder soviético repassou toda a situação militar, detendo-se particularmente na relação de 3 por 1, às vezes 4 por 1 entre os tanques alemães e soviéticos. Então passou descrever a sua lista de desejos – tanques e canhões antitanque, aviões, artilharia antiaérea, e até arame farpado. Dirigiu-se a Beaverbrook e mais uma vez levantou a possibilidade de tropas inglesas se juntarem às forças soviéticas na Ucrânia. Tal como seu primeiro-ministro, o enviado britânico não ofereceu encorajamento. Harriman tentou levantar a questão da liberdade religiosa, observando que era uma preocupação do povo americano, mas Stalin nem se deu ao trabalho de responder. Ainda assim, Harriman e Beaverbrook gostaram da primeira sessão, relatando que tinha sido “extraordinariamente amistosa”.
Mas a noite seguinte foi outra história. “Stalin estava muito agitado, andando de um lado para o outro e fumando sem parar, e pareceu a nós dois estar sob intensa pressão”, contou Beaverbrook. Apesar de os dois visitantes terem concluído mais tarde que ele devia estar preocupado com os relatos indicando que os alemães estavam a ponto de tomar Moscou, eles se assustaram com seu comportamento aparentemente brusco, deliberadamente rude. Quando Beaverbrook lhe entregou uma carta de Churchill, Stalin mal a olhou e deixou-a na mesa, ignorando-a ostensivamente.
Na questão dos suprimentos, o líder soviético foi mais combativo que agradecido. “Por que os Estados Unidos só podem me dar 1.000 toneladas de placas para blindagem de tanques – um país com uma produção de mais de 50 milhões de toneladas”? – cobrou de Harriman. Quando o americano tentou explicar que era preciso tempo para aumentar a capacidade de produção desse tipo de aço, Stalin retrucou: “só é preciso acrescentar as ligas”. A única vez em que ele pareceu agradecido foi quando Harriman ofereceu 5 mil jipes americanos e perguntou imediatamente se poderia receber mais.
No dia seguinte, os alemães proclamaram que as conversações tinham sido um fracasso. O chefe de propaganda Joseph Goebbels exultava dizendo que não poderia haver acordo entre os visitantes e os “bolcheviques”. Mas quando a dupla desanimada de Beaverbrook e Harriman chegou ao Kremlin para a última reunião, Stalin imediatamente sinalizou uma mudança de tom. “Cabe a nós três provar que Goebbels é um mentiroso”, declarou.
Beaverbrook respondeu, percorrendo a lista de suprimentos pedida pelo lado soviético, mostrando quais a Inglaterra e os Estados Unidos poderiam entregar mais rapidamente, acrescentando algumas sugestões. Apesar de também ter indicado quais suprimentos seriam mais difíceis de obter, Stalin estava visivelmente feliz. Maxim Litvinov, ex-ministro do Exterior que servia como intérprete durante as conversações, saltou e exultou: “agora nós vamos ganhar a guerra”.
Os visitantes estavam encantados. “A reunião terminou da maneira mais amistosa possível”, relatou Harriman. “Stalin não fez nenhum esforço para esconder seu entusiasmo. Tive a impressão de que ele estava plenamente convencido de que a Inglaterra e os Estados Unidos falavam sério.” Beaverbrook observou com atenção o líder soviético, chegando mesmo a notar que o seu hábito de rabiscar incluía “desenhar inúmeras figuras de lobos no papel e encher o fundo com lápis vermelho”, enquanto Litvinov traduzia as observações dele. Falando em seu próprio nome e no de Harriman, o visitante inglês ofereceu suas conclusões sobre Stalin. “Temos de gostar dele: um homem gentil, que, quando agitado, tem o hábito de andar pela sala com as mãos às costas”, declarou. “Fumava muito e quase não demonstra impaciência.” Era como se estivessem tão aliviados por terem encontrado um Stalin mais cordial na última reunião que baniram toda lembrança do Stalin grosseiro que tinham visto antes.
Mas outros membros da delegação eram mais observadores – e menos inclinados a ver somente o que queriam ver. O general Hastings Ismay, que chefiava o contingente militar britânico, observou que Stalin
se movia sorrateiro como um animal selvagem em busca da presa, e seus olhos eram espertos e cheios de astúcia. Nunca olhava ninguém nos olhos, Mas tinha grande dignidade e sua personalidade era dominante. Quando entrava em qualquer sala, todos os rostos russos se congelavam em silêncio, e a expressão de caça nos olhos dos generais mostrava claramente o medo constante em que viviam. Era nauseante ver homens corajosos reduzidos aquele servilismo abjeto.
Reynolds, o correspondente americano que servia como agente de imprensa da missão, ficou atônito por uma razão bastante diferente, quando viu Stalin chegar para cumprimentar Beaverbrook e Harriman. Dos retratos do líder soviético, Reynolds esperava alguém “enorme, ameaçador, carrancudo”. Em vez disso, “o homenzinho de pernas curvas que caminhava na nossa direção, com um enorme sorriso no rosto ao ver Beaverbrook e Harriman, era uma contradição desmoralizadora da imagem pública”, lembrou. “Imagino que usasse sapatos altos.” Reynolds citou um correspondente britânico que teria dito: “ele parece o jardineiro italiano bondoso que vem duas vezes por semana”.
No banquete de despedida no Kremlin, um verdadeiro festim oferecido a britânicos e americanos – como Reynolds anotou cuidadosamente – “uma orgia de 23 pratos”, com caviar em tigelas enormes, cogumelos sautés em creme azedo, esturjão em molho de champanhe e pilafe com codorna. Tudo isso acompanhado de intermináveis brindes de vodca, com os copos enchidos instantaneamente de garrafas de diferentes variedades da bebida. “Festejando assim, achei difícil lembrar que os alemães estavam a apenas 150 km de Moscou – ou lembrar as filas de famintos dessa sociedade sem classes sem dúvida esperando agora mesmo à porta das lojas de alimentos”, escreveu Reynolds. Stalin pode não tê-lo impressionado, mas a cena surreal o fez se perguntar se ele era um exemplo moderno do imperador tocando violino enquanto Roma ardia.
O jornalista americano ficou em Moscou depois da partida do restante da delegação para cumprir o desejo de ver o que aconteceria em seguida na capital soviética. Não foi a única pessoa a perder o voo de volta. Hopkins discretamente fez Faymonville ficar para trás para tratar do programa Lend-Lease na Rússia, o que equivalia a contornar o embaixador Steinhardt e outros membros da equipe da embaixada que viam o oficial como alguém no bolso dos russos. Protestaram sem sucesso. Roosevelt, Hopkins e Harriman queriam naquele posto alguém que agradasse ao Kremlin, e agora eles tinham o seu homem.
Ninguém ficou mais irritado por essa manobra que Yeaton, que acusava Faymonville de “ser inegavelmente um cativo da NKVD”. O adido militar era igualmente mordaz na sua caracterização da “atitude obsequiosa de Harriman com relação a Stalin”. Mas sua principal preocupação era prever a rapidez com que os alemães tomariam Moscou – algo que cada vez mais ele considerava inevitável. Enquanto as unidades de milícia e trabalhadores que ainda fossem encontrados cavavam trincheiras e instalavam armadilhas antitanque nos arredores da cidade, Yeaton concluiu: “a questão era saber quem chegaria primeiro, os alemães ou as primeiras nevascas da estação”.
No dia 14 de outubro, Yeaton decidiu passar a noite na dacha da embaixada, a 18 km da cidade na estrada para Smolensk. “Meu moral estava baixo e eu precisava do ar do campo”, relembrou. Acordou na manhã seguinte com o som do fogo de artilharia, e quando olhou pela janela, ele viu soldados do Exército Vermelho montando metralhadoras no pátio da frente. Convenceu-se de que era o fim. “Sabia que nunca mais veria aquele lugar”, escreveu.
Quando voltou à Spaso House, em 15 de outubro, essa visão era praticamente unânime entre os americanos reunidos. O embaixador Steinhardt já tinha enviado sua mulher para a Suécia, por segurança, e o objetivo do grupo era discutir os procedimentos de evacuação para todos os demais. De acordo com Charles Thayer, um dos funcionários originais na embaixada, Yeaton previu que a capital só se aguentaria por mais 36 horas. Mesmo Faymonville, como Thayer se lembrava, “tinha perdido completamente a coragem e lhes deu mais 5 horas antes que os alemães chegassem”. Durante essa discussão, Molotov convocou Steinhardt ao Kremlin e lhe deu instruções para evacuar todos os americanos para Kuiybishev, a cidade no Volga a cerca de 1.000 km que supostamente deveria servir como a nova base do governo quando a capital caísse.
Molotov disse a Steinhardt e Cripps, o embaixador britânico, que também tinha sido convocado: “a luta por Moscou vai continuar e a luta para derrotar Hitler vai se tornar mais furiosa”. Mas quando os dois embaixadores pediram para ficar na capital enquanto ele e Stalin ficassem, Molotov recusou, dizendo que iria se juntar a eles em Kuibyshev dentro de um ou dois dias. A mensagem parecia clara: a luta por Moscou continuaria fora de Moscou.
Steinhardt voltou à Spaso House e contou à equipe a notícia de que todos tinham de se apresentar na estação Kazan para tomar um trem à noite. Passou a mesma mensagem aos correspondentes, dizendo a eles que, junto com os censores, também deveriam partir logo. “Nessa questão a decisão não é de vocês”, declarou ele.
Depois de horas andando pela estação, os estrangeiros reunidos – diplomatas e jornalistas de todos os países representados na capital soviética – embarcaram num trem com 33 vagões e uma locomotiva “que frequentemente parecia se cansar”, como disse Reynolds. Os diplomatas viajavam nos carros “macios”, e os jornalistas nos carros “duros”, mas a viagem de cinco dias, a passo de lesma, não foi confortável para ninguém. O suprimento de água potável acabou no primeiro dia, e poucos carros eram aquecidos. Mas a boa nova para Moscou foi que começou a nevar em 16 de outubro. “A neve se transformou numa tempestade de cinco dias e foi a melhor defesa de Moscou”, observou Yeaton.
Quando os estrangeiros exaustos tiveram a primeira visão do seu novo lar – uma cidade sombria no Volga, que ainda assim os espantou com suas luzes à noite, pois estava muito longe a leste e lá não havia necessidade dos blackouts que eram a norma em Moscou –, nenhum deles viu alguma razão para acreditar que seria possível evitar que os alemães tomassem a capital. Afinal, Molotov tinha praticamente admitido que ela cairia. Representado por aqueles diplomatas e jornalistas, o mundo ainda observava, mas achava cada vez mais difícil agarrar-se ao fio de esperança de que outro resultado ainda fosse possível.