A Batalha de Moscou
A vitória mais mortal
No dia 11 de janeiro de 1942, Stalin enviou uma ordem tipicamente violenta ao comandante da frente de Kalinin, tratando de Rzhev, a cidade de 54 mil habitantes que os alemães ocupavam desde 14 de outubro de 1941. Localizada a 210 km a noroeste de Moscou, Rzhev era considerada pelos dois lados um trampolim crucial para as tropas alemãs que ainda esperavam tomar a capital. “Durante o dia 11, e em nenhuma hipótese depois do dia 12 de janeiro, a cidade de Rzhev deve ser capturada”, ordenou Stalin. “O Estado-Maior recomenda para esse fim que toda artilharia, morteiros e força aérea sejam usados para destruir toda a cidade, e que o comando não deve hesitar em destruí-la.”
Os historiadores russos insistem que a Batalha de Moscou terminou no dia 20 de abril de 1942, quando a contraofensiva soviética estacou e os dois exércitos esgotados ficaram presos durante outra estação lamacenta, tornando impossível o lançamento de qualquer assalto importante. Mas a batalha por Rzhev, que na realidade foi uma extensão da Batalha de Moscou, continuaria por mais quase um ano. Apesar das repetidas ordens de Stalin aos seus comandantes para expulsar os alemães, o resultado foi um ataque fracassado depois do outro, com as tropas soviéticas sofrendo baixas assustadoras mesmo pelos padrões inflados da época. Veteranos sobreviventes falam em voz abafada do “moedor de carne de Rzhev” – uma máquina de matar que só deixou de dizimar suas centenas de milhares quando os alemães decidiram se retirar sem uma luta final, e as tropas soviéticas entraram na cidade no dia 3 de março de 1943.
Até hoje, os habitantes de Rzhev se ressentem do fato de que em muitos relatos do período aqueles que foram capturados nessas batalhas épicas não tenham recebido o reconhecimento que mereciam. No modesto museu da cidade dedicado à luta, a pesquisadora Olga Dudkina explicou que as forças soviéticas montaram quatro grandes operações para libertar Rzhev – todas fracassadas, em certos casos bem nos limites da cidade. Entre estas, as maiores batalhas de tanques de toda a guerra, além de outros choques de unidades de infantaria e artilharia. Os alemães também sofreram tremendas baixas, mas o fato de terem se mantido por tanto tempo em Rzhev enfureceu Stalin. “Durante muitos anos, Rzhev foi esquecida, provavelmente porque ninguém queria uma lembrança dos fracassos ocorridos ali”, Dudkina explicou. “Na história da Grande Guerra Patriótica, esse foi o maior fracasso militar.”
As tropas soviéticas que deveriam ter cercado e destruído o inimigo eram com frequência, elas próprias, cercadas e destruídas. Foi o que aconteceu com o 33º Exército do general Yefremov e o primeiro corpo de cavalaria do general Pavlov perto de Vyazma, em abril, e aconteceria várias outras vezes com outras unidades que lutavam próximo de Rzhev. De acordo com um relatório da Wehrmacht datado de 13 de julho de 1942, por exemplo, os alemães cercaram e aniquilaram uma brigada soviética de tanques e várias divisões de fuzileiros e cavalaria. A luta que se seguiu resultou na captura de mais de 30 mil soldados soviéticos que sobreviveram ao ataque. Os vencedores também relataram que tinham destruído 218 tanques, 591 peças de artilharia e 130 metralhadoras, além de vários outros armamentos.
Com os alemães preparando a sua ofensiva no sul, que levou ao início da batalha por Stalingrado naquele verão de 1942, as forças soviéticas se viram muito estendidas e altamente vulneráveis. A insistência de Stalin no lançamento de uma contraofensiva geral em janeiro para continuar a empurrar os alemães para mais longe de Moscou já tinha dado início a esse processo. Quando os comandantes soviéticos tiveram de começar a reforçar suas forças para enfrentar a ameaça alemã no sul, foi necessário despachar para lá algumas tropas que deveriam participar da luta nas proximidades de Vyazma e Rzhev.
Os dois exércitos estavam muito desgastados, desesperados por suprimentos de todos os tipos, e as condições dentro e em torno de Rzhev se tornavam cada vez mais horríveis enquanto a luta se arrastava. Quando ouviam a aproximação de aviões, soldados dos dois lados enviavam “caçadores” para procurar pacotes de alimentos, correndo para chegar a eles antes dos inimigos. Oficiais soviéticos, de Zhukov para baixo, queixavam-se de que muitas unidades tinham de racionar com cuidado suas granadas e outras munições, pois, caso contrário, eles se veriam completamente indefesos.
Quando um esquadrão de aviões soviéticos tentou lançar alimentos desesperadamente necessários para as tropas do general Ivan Maslennikov, que estavam cercadas pelos alemães, os soldados observaram atônitos os paraquedas caírem em território ocupado pelos alemães. Maslennikov comunicou por rádio ao general da Força Aérea, Pavel Zhigarev, que era o responsável por aquelas operações: “estamos morrendo de inanição e você alimenta os alemães!” Informado da mensagem, Stalin convocou prontamente Zhigarev ao seu gabinete. De acordo com o general Aleksandr Vasilevsky, que estava presente, Stalin estava “tão furioso que pensei que ele fosse matar Zhigarev com as próprias mãos na sua sala”. Felizmente para Zhigarev, a raiva do governante durou pouco, pois ele preocupava-se com muitos outros problemas – e o general da força aérea saiu ileso.
Em contraste com a carência crônica de alimentos e munições, havia um fluxo constante de feridos que consumia as equipes médicas que trabalhavam nos hospitais de campo. Faina Sobolevskaya, enfermeira designada para uma unidade médica das tropas que tentavam tomar Rzhev no verão de 1942, relembra que sua equipe de dois cirurgiões e sete enfermeiras trabalhava freneticamente nas tendas montadas na floresta, com suas duas mesas de operação sempre ocupadas. “Não sabíamos como cuidar de tantos feridos”, disse ela. “Estávamos sempre lotados.”
Durante as pesadas chuvas de agosto, não havia espaço suficiente dentro das tendas para todos os feridos. Como era impossível lavar e mudar de roupa, quase todos estavam infestados de piolhos. (O mesmo valia para os alemães do outro lado das linhas de frente.) Acompanhados pelo som enlouquecedor das barragens de artilharia próximas, os médicos e as enfermeiras trabalhavam sem descanso, com ocasionais períodos curtos de sono sempre que possível. “Éramos jovens e, de alguma forma, seguíamos em frente”, disse Sobolevskaya. Quando uma das enfermeiras morria, lembrou ela, sua já pesada carga de trabalho aumentava e as chances de descanso se tornavam ainda mais raras. O que as mantinha de pé era a gratidão evidente dos soldados que salvavam ou atendiam. “Os soldados nos amavam”, disse ela com simplicidade.
A escala da luta significava que, em geral não havia tempo para enterrar os mortos nos campos de batalha ou oferecer socorro aos moribundos. Havia também casos em que os mortos e os gravemente feridos não eram adequadamente separados. No inverno de 1942, o tenente Mirzakhan Galeyev, da 174ª Divisão de Fuzileiros sofreu um grave ferimento na cabeça, perto de Rzhev. Quando a batalha terminou, os corpos dos caídos foram colocados numa cova comum – e Galeyev foi colocado com eles. Quando começaram a encher a cova de terra, os coveiros perceberam suas convulsões. Galeyev estava inconsciente, mas muito vivo. Arrancado da cova e tratado num hospital próximo, ele sobreviveu. Viveria até a idade de 86 anos, mas a lápide da cova comum onde ele quase morreu ainda tem o seu nome, ao lado dos nomes de seus companheiros que ali morreram.
Na cidade de Rzhev, os habitantes que não conseguiram fugir antes da chegada dos alemães enfrentaram seu próprio terror. Os soldados de ocupação distribuíram folhetos avisando que qualquer um que abrigasse ou alimentasse soldados do Exército Vermelho seria enforcado – e montaram uma forca no meio da cidade para provar que falavam sério. Como chegaram em meados de outubro, quando o clima já estava anormalmente frio, tomaram toda roupa que puderam dos habitantes locais. Nikolai Yakovlev – que, aos 16 anos, era muito jovem para se juntar ao Exército Vermelho – se lembra de ver soldados alemães arrancando valenki, as botas russas de feltro, dos pés das pessoas. “Eles tomavam as suas valenki e lhe davam suas botas de verão – ou mandavam você embora descalço.”
Os alemães também tomavam toda comida que encontravam. E tanto os soldados quanto os habitantes de Rzhev consumiam rapidamente os cavalos mortos que encontravam, descarnando-os e comendo-os, apesar dos riscos. A dor da fome sempre afastava todo medo de doença provocada pela carne decomposta.
Forçando os habitantes locais a cruzar a ponte sobre o Volga de uma parte da cidade para a outra, os alemães atiravam em quem ficava para trás – e de acordo com Yakovlev, jogavam granadas de mão em qualquer lugar onde acreditassem que uma pessoa pudesse se esconder. “Havia muitos cadáveres por toda parte”, contou. Começaram também a selecionar os jovens mais sadios para servir como trabalhadores forçados, embarcando-os em trens para oeste, arrancando os filhos das mães desesperadas, quando decidiam que só queriam um membro da família.
No outono de 1942, Zhukov orquestrou a Operação Marte, a ofensiva mais ambiciosa para desalojar as forças alemãs na região de Rzhev e finalmente livrar Moscou da ameaça que representavam. Stavka, o quartel-general militar soviético, enviou a ordem para a operação no dia 10 de outubro. “As forças da ala direita da frente ocidental e a ala esquerda da frente de Kalinin devem cercar o Grupo Rzhev do inimigo, tomar Rzhev e libertar a linha ferroviária de Moscou a Velikiye Luki.” Nas três semanas da operação, que foi lançada no fim de novembro, as tropas de Zhukov pagaram um preço enorme, pois muitas vezes receberam ordens de atacar posições fortificadas alemãs. A contagem soviética foi de cerca de 100 mil mortos ou desaparecidos e 235 mil feridos. E, mais uma vez, fracassaram na sua missão.
Zhukov e seus defensores alegariam, mais tarde, que esses sacrifícios mantiveram as tropas alemãs ocupadas, e por isso não puderam ser enviadas para o sul resgatar o 6° Exército do marechal de campo Friedrich von Paulus, em Stalingrado. Ao executar o plano denominado Operação Urano, o Exército Vermelho conseguiu cercar as tropas de Paulus em novembro, preparando o palco para a derrota devastadora dos alemães. Apesar de Zhukov ter sido um dos arquitetos daquela vitória, o historiador militar David M. Glantz demonstra que as tentativas de representar esses fracassos em Rzhev como uma diversão inteligente são, “na melhor das hipóteses enganosas, e na pior, mentiras escandalosas”. No seu livro Zhukov’s Greatest Defeat, ele argumenta que a ofensiva no norte, Operação Marte, representou um enorme fracasso do principal comandante militar de Stalin. Ela deveria ter aplicado um golpe tão violento nos alemães quanto a enormemente bem-sucedida Operação Uranus, no sul. Mas, ao contrário, enquanto os alemães tiveram de se render em Stalingrado em janeiro de 1943, eles continuaram a ocupar Rzhev até março daquele ano.
Na Rzhev ocupada, o terror alemão continuou até as primeiras tropas soviéticas finalmente entrarem na cidade no dia 3 de março de 1943, embora os alemães tivessem fugido dois dias antes. A maioria dos edifícios da cidade já estavam destruídos – primeiro pelos bombardeiros e artilharia alemães quando eles atacavam, depois por sucessivos bombardeios soviéticos quando tentavam retomá-la, e, por fim, pelos alemães em retirada que incendiaram tudo que puderam ao sair. Somente 297 dos 534 edifícios ainda estavam de pé no início de março, e apenas algumas centenas de habitantes continuaram na cidade. Os outros fugiram, morreram ou foram deportados. A maioria dos residentes que ficaram sobreviveram em trincheiras e outros abrigos improvisados contra as bombas, e minimizaram os contatos com os alemães.
Quando um pelotão de inteligência soviético entrou na cidade, não conseguiu encontrar nenhum habitante local. Então descobriu 362 trancados numa igreja. Os alemães tinham plantado explosivos para explodir a igreja, mas as tropas em retirada não os detonaram. Os que estavam presos dentro só poderiam esperar o pior. Com a temperatura caindo a -20C, eles queimaram bíblias e outras leituras religiosas para se aquecerem. Também não tinham comida. Mas todas as pessoas aterrorizadas sobreviveram.
O adolescente Nikolai Yakovlev se considerou relativamente afortunado. Alguns meses depois de os alemães terem tomado o controle de Rzhev, eles o prenderam com sua mãe e o colocaram por alguns dias no campo de concentração da cidade. Durante esse período, sua mãe fez sopa da carne de um gato morto que encontraram – que os alimentou até serem despachados para outro campo de concentração em Vyazma, onde não receberam nenhum alimento. Os presos que tentavam fugir eram fuzilados. Os outros foram enfiados alguns dias depois em trens e mandados para Brest-Litovsk, onde eram desinfetados dos piolhos. A parada seguinte foi Königsberg, na Prússia Oriental, e de lá Yakovlev e sua mãe foram despachados para uma fazenda, onde trabalharam até o Exército Vermelho se aproximar daquela área, perto do fim da guerra.
Logo, Yakovlev se sentiria duplamente afortunado. Os alemães levavam todos os trabalhadores forçados para um campo de concentração à medida que a luta se aproximava, e lá eles foram abandonados. Diferentemente de outros campos, ali não houve a marcha final da morte. As forças soviéticas chegaram e a SMERSH, a temida unidade de contrainteligência militar cuja missão era descobrir “traidores”, começou a avaliar todos que tinham caído nas suas mãos. “Eu não era prisioneiro de guerra – estava limpo”, disse ele ainda suspirando de alívio por não estar na posição dos prisioneiros de guerra soviéticos, que eram automaticamente considerados traidores pelo regime de Stalin. Por ser ainda muito novo para servir, foi considerado um risco menor de segurança. “Os ex-prisioneiros de guerra foram separados e levados embora.”
O líder responsável por essas políticas de terror interno raramente saiu de Moscou durante a guerra. Não sentia necessidade de se aproximar da luta, nem de fazer excursões para aumentar o moral em outras cidades. Mas na noite de 4 para 5 de agosto de 1943, Stalin ficou numa casinha de madeira em Rzhev. Ninguém sabe bem por que ele decidiu ficar ali, mas os habitantes locais gostam de pensar que talvez essa fosse a sua maneira de prestar homenagem à memória dos que pereceram ali – o que, para dizer o mínimo, teria sido um gesto muito incomum para um homem que nunca hesitou em mandar milhões para a morte.
Preservada como uma modesta biblioteca, a casa contém uma placa informando os visitantes que Stalin parou ali e ordenou uma salva de tiros em homenagem aos soldados que tinham libertado dos alemães o maior número de cidades. Depois de Kruschev ter lançado a sua campanha de “desestalinização” em 1956, a placa foi retirada. Recolocada na década de 1980, ela ainda está lá hoje, servindo como uma pequena lembrança dos sentimentos profundamente ambivalentes que Stalin continua inspirando entre tantos que sobreviveram à guerra e ao seu reino de terror.
Como a Batalha de Moscou, de que fez parte, a provação de Rzhev expôs em sua totalidade o horror do conflito germano-soviético – e demonstrou as forças e fraquezas dos dois lados. Mostrou a tenacidade com que o exército invasor se agarrou a um terreno estratégico muito tempo depois de o Kremlin ter declarado que a capital estava salva, mas mostrou também a natureza autodestruidora das políticas de Hitler de aterrorização do povo soviético. Mostrou como Stalin obrigou Zhukov e outros a continuar a enviar para batalhas suas tropas sem preparação ou equipamento adequados, e a recusa do líder soviético em ponderar, ainda que por um momento, se uma estratégia mais cuidadosamente calibrada, menos insensivelmente brutal, poderia salvar vidas e ter conquistado pelo menos o mesmo número de vitórias.
Até morrer aos 96 anos no fim de 1986, Vyacheslav Molotov continuou completamente fiel ao governante a quem serviu por tanto tempo, sempre defendendo suas ações, nunca admitindo que ele pudesse estar gravemente errado em qualquer coisa, seja antes, seja durante a guerra. Para ele, Stalin não foi culpado de nada. Afinal, ele era “um gênio” – e um gênio incrivelmente belo. Seus olhos eram “lindos”, disse Molotov, e ele não entendia como alguém podia ver imperfeições na sua aparência. “Ele tinha marcas de varíola no rosto, mas elas quase não eram notadas”, disse a um entrevistador muito tempo depois da guerra.
O antigo ministro do Exterior era mais estridente quando lhe faziam perguntas sobre a paranoia de Stalin que o levou a lançar ondas e ondas de terror e a desconfiar dos relatórios dos seus melhores espiões sobre as intenções de Hitler. Molotov sugeriu em certo ponto que Stalin não poderia agir com base nos avisos, pois isso teria dado a Hitler a desculpa para atacar a União Soviética antes do que o fez; então, sem reconhecer a contradição, ele declarou que Stalin deixou de agir porque não podia acreditar nos seus espiões. “Os provocadores por toda parte são incontáveis. […] Não se podia acreditar naqueles relatórios”, disse ele.
Quanto à noção de que Stalin fora enganado para acreditar em Hitler, Molotov respondeu com uma mistura de desprezo e orgulho.
Um Stalin tão ingênuo. Stalin entendeu tudo. Stalin confiou em Hitler? Ele não confiou nem no seu próprio povo! E havia razões para aquilo. Hitler enganou Stalin? O resultado desse engano foi Hitler ter de se envenenar, e Stalin se tornou o senhor da metade do mundo!
Em outras palavras, o resultado final da guerra provou que Stalin tinha razão desde o início.
Também foi tolice sugerir, como fizeram os críticos do tirano, que o terror, particularmente os expurgos de 1937 enfraqueceram o estado soviético e contribuíram para a desorganização das suas forças armadas quando os alemães atacaram em 1941. Na opinião de Molotov, isso foi uma leitura absolutamente errada da história. As vítimas dos expurgos eram, sem dúvida, “inimigos”, e se não tivessem sido eliminados antes da guerra, o conflito com os alemães teria sido ainda mais sangrento do que foi. “Teria havido mais vítimas”, afirmou ele. “Teríamos vencido de qualquer forma. Mas seriam necessárias mais milhões de vítimas. Teríamos de derrotar a invasão alemã e lutar contra o inimigo interno ao mesmo tempo.”
A natureza ilusória dessa lógica à parte, é difícil imaginar ainda mais vítimas. Hoje, os historiadores russos estimam que aproximadamente 27 milhões de cidadãos soviéticos morreram durante a guerra, dos quais pelo menos 8,6 milhões eram militares soviéticos. Mesmo durante o período final da guerra, quando as forças de Hitler recuavam, as perdas soviéticas foram maiores do que as alemãs na frente oriental: em média, foram três vezes maiores. O general reformado Vyacheslav Dolgov, que tinha acabado de se formar na escola militar em junho de 1941 e serviu como oficial político no período inicial da luta, reviu a Batalha de Moscou e o restante da guerra a que miraculosamente sobreviveu – e declarou uma verdade simples. “Suponho que seja correto trombetear vitórias para a geração jovem de hoje. Mas nossa vitória não foi resultado apenas de batalhas bem-sucedidas; foi principalmente o produto de derrotas brutais.”
A contagem horrível dessas vitórias e derrotas foi consequência direta das decisões de Stalin, que enfraqueceram, não fortaleceram, o seu país – primeiro ao decapitar o comando militar em 1937 e, segundo, ao manter o fornecimento constante de suprimentos para a máquina de guerra de Hitler durante o período do pacto nazissoviético, lançando um olho deliberadamente cego para os preparativos do ditador alemão da invasão.
“Seria difícil encontrar um início pior para uma guerra que o de junho de 1941”, observou outro general da reserva e historiador militar, Dmitri Volkogonov.
Todas as principais autoridades políticas e militares pensaram que a URSS poderia sobreviver no máximo três meses. Mas o povo soviético provou que estavam errados. Porém a incrível resistência e fortaleza seria atribuída à “sábia liderança” de Stalin, exatamente o principal responsável pela catástrofe.
Stepan Mikoyan, filho do membro do Politburo Anastas Mikoyan e piloto de caça durante a guerra, explicou mais sucintamente. “Tudo considerado, creio, contrariamente à opinião de alguns veteranos de guerra que ainda dizem ‘que vencemos graças a Stalin’, que seria mais correto dizer que vencemos ‘apesar’ da ditadura de Stalin”, escreveu ele.
Pode-se também afirmar que a União Soviética saiu vitoriosa apesar da política continuada de terror de Stalin durante o conflito. As execuções arbitrárias de soldados soviéticos por suposta traição, deserção e outros crimes, os surtos de matança pelo Exército Vermelho e pela NKVD de civis e prisioneiros quando recuavam diante do avanço alemão, e o estabelecimento de “unidades de bloqueio” atrás das linhas soviéticas para metralhar qualquer um dos seus próprios homens que tentassem recuar – tudo isso contribuiu para um número de defecções sem precedente. Não foi apenas o general Vlasov que mudou de lado, e depois organizou o seu Movimento de Libertação Russa. Havia os “hiwis” – termo abreviado de hilfswillige, voluntários soviéticos – desde o início do conflito. Muitos eram prisioneiros de guerra desesperados para encontrar um meio de sobreviver, e que esperavam aumentar as suas chances ao trocar de lado. Mas houve muitos desertores que acreditavam ter tomado a decisão correta.
Entre eles os membros de diversas minorias nacionais e outras – ucranianos, bálticos, cossacos, georgianos e outros – cujas queixas contra o regime de Stalin levou-os a lutar a favor de qualquer um que prometesse destruí-lo. As políticas instituídas por Stalin para subjugar os seus súditos – execuções, deportações em massa, o Gulag – ajudaram a preparar o cenário para essa onda de deserções. Durante a guerra, os desertores eram contados em centenas de milhares.
Mas Stalin pode ter sido salvo das consequências das suas estratégias pela política de terror do próprio Hitler. Se alguns habitantes da Ucrânia e de outros territórios soviéticos de início saudaram os alemães como libertadores, a ocupação draconiana que se seguiu rapidamente abriu os seus olhos para a natureza dos conquistadores. Em muitas aldeias, em muitas cidades, da fronteira a lugares como Rzhev nos acessos a Moscou, a ladainha de atrocidades ficava cada vez mais longa – e a noção de libertação nas mãos dos alemães tornou-se completamente desacreditada. O número de desertores chegou ao máximo no período inicial da guerra, e declinou bastante com o progresso da luta. Em parte isso se deveu à percepção de que o pêndulo se voltava contra os invasores, mas foi também o resultado evidente da natureza da ocupação alemã. O reino de terror de Hitler foi o maior presente que o líder alemão poderia ter dado ao seu colega soviético.
Indiretamente, Stalin sugeriu isso num discurso que pronunciou no dia 24 de maio de 1945, logo depois do final da guerra.
Nosso governo cometeu muitos erros. Tivemos alguns momentos de desespero em 1941-1942, quando nosso exército estava em retirada, forçado a abandonar nossas aldeias e cidades […] abandonando-as porque não havia outra saída. Outra nação poderia ter dito para seus governantes: vocês não atenderam às nossas expectativas, vão embora, vamos montar outro governo, que há de concluir a paz com os alemães e garantir para nós a tranquilidade.
Foi um reconhecimento raro da parte de Stalin, apesar de, como sempre, ele não ter assumido responsabilidade por nenhum dos “erros”, lançando a culpa sobre o governo – como se ele operasse independentemente do seu controle. Mais importante, sua declaração constituiu um reconhecimento implícito de que ele poderia ter tido de enfrentar mais deserções, e mesmo uma revolta geral, se os invasores alemães tivessem tido outro comportamento. Stalin governava pelo medo e, dada uma alternativa que oferecesse uma vida sem medo, não há como saber o que seu povo teria feito. Mas com Hitler dando ordens ao exército invasor, uma vida sem medo nunca seria uma opção. Seu terror começou a superar o terror de Stalin.
Se o primeiro período da guerra colocou em nítido relevo as táticas de terror dos dois lados, isso não explicou o resultado da Batalha de Moscou, que seria a maior e mais mortal batalha da Segunda Guerra Mundial. Não explicou por que a poderosa máquina de guerra de Hitler não venceu, por que a estratégia da Blitzkrieg, que tinha sido tão bem-sucedida na Polônia, França e no resto da Europa Ocidental, não chegou aos mesmos resultados na União Soviética, por que sua capital conseguiu resistir.
Generais e altos oficiais alemães geralmente culpavam o clima russo – primeiro a lama que agarrava e exauria os seus exércitos, depois o inverno excepcionalmente frio – pelos seus problemas. “Esse inverno nunca vai acabar? Uma nova era glacial está começando?”, Goebbels escreveu queixoso no seu diário no dia 20 de março de 1942. “Tem-se certamente a tentação de ceder a essa suspeita quando se contemplam os ataques constantes e repetidos do inverno.” Hitler, acrescentou, nunca gostou do inverno e nunca imaginou que ele “infligiria tamanho sofrimento aos soldados alemães”. Nas suas memórias, Churchill traçou o paralelo óbvio com Napoleão. “Tal como o gênio militar supremo que percorreu essa estrada um século antes dele, Hitler agora descobre o que significa o inverno russo.”
Essas explicações enfureciam Zhukov, pois ele as via como um esforço para convencer a todos de que “os soldados alemães foram vencidos em Moscou não pela firmeza, coragem e heroísmo de ferro dos soldados soviéticos, mas pela lama, frio e pela neve profunda”. E acrescentou: “os autores dessa apologética parecem esquecer que as forças soviéticas tiveram de operar nas mesmas condições”. É claro que combateram, mas estavam muito mais bem preparadas – o que de forma alguma absolve Hitler da sua responsabilidade por não ter fornecido aos seus soldados roupas adequadas para o inverno.
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Um tanque soviético T-34 passa por um cadáver alemão no terreno
coberto de neve. Como explicou um oficial alemão, a incapacidade do seu lado em lançar o avanço final sobre Moscou destruiu o mito
da invencibilidade das forças de Hitler. “O exército alemão nunca se
recuperou totalmente daquela derrota”, escreveu ele.
Walter Kerr, correspondente do New York Herald Tribune , que escreveu da Rússia naquele inverno, ofereceu um veredito mais judicioso. “Estava frio, é claro”, escreveu ele ao descrever o mês de dezembro de 1941, “mas o inverno nunca poderia explicar o que aconteceu ao exército alemão nos dois meses seguintes. Ainda assim, ele teve o seu papel”.
Além de não ter preparado seus soldados para a guerra no inverno, o outro erro colossal de Hitler foi não ter ouvido Guderian e outros generais que queriam continuar avançando para leste desde Smolensk, em agosto, fazendo de Moscou o seu objetivo imediato. Mas o líder alemão preferiu naquele momento desviar o exército para o sul, para a Ucrânia e sua capital Kiev, atrasando o ataque à capital por quase dois meses cruciais.
Durante suas conversações com o enviado de Roosevelt, Averell Harriman, Stalin não deixou dúvida com relação à sua opinião da importância daquela decisão. “Stalin me contou que os alemães tinham cometido um grande erro”, relembrou Harriman após a guerra.
Tentaram um avanço em três frentes, lembre-se, uma em Leningrado, uma em Moscou e uma no sul. Stalin disse que se eles tivessem se concentrado no avanço na direção de Moscou, eles poderiam ter tomado a cidade; Moscou era o centro nervoso e seria muito difícil conduzir uma grande operação se Moscou estivesse perdida. Disse que os alemães tinham cometido o mesmo erro na Primeira Guerra Mundial – quando não entraram em Paris. E Stalin disse que manteriam Moscou a qualquer custo.
Segundo todos os relatos, Hitler mudava continuamente de ideia sobre a importância da tomada de Moscou. Ele previa que uma vitória rápida produziria o colapso da União Soviética, mas, depois de encontrar mais resistência do que esperava, ele agia como se aquilo não estivesse no alto da sua lista de prioridades. Um reflexo claro disso pode ser encontrado no diário de Goebbels numa anotação de 20 de março de 1942, em que ele declara: “o Führer não tinha nenhuma intenção de ir a Moscou”. Ainda assim, algumas linhas adiante, ele declara que os planos de Hitler para a primavera e verão seguintes mencionam “o Cáucaso, Leningrado e Moscou”. Para um líder que conquistou suas primeiras vitórias por uma série de ações ousadas, seu comportamento durante a Batalha de Moscou revelou um lado vacilante do seu caráter, que se tornaria cada vez mais visível com o progresso da guerra.
A única decisão firme que Hitler tomou então – demitir vários generais e assumir o comando direto de todas as operações militares em dezembro de 1941 – significou que da derrota às portas de Moscou ele concluiu que precisava depender cada vez menos, não mais, dos seus generais. “Ele queria ser outro Napoleão, que só tolerava sob seu comando homens que executassem obedientemente a sua vontade”, escreveria mais tarde o marechal de campo Erich von Manstein. “Infelizmente, ele não tinha a formação militar de Napoleão, nem o seu gênio militar.” Hitler continuou a acreditar que poderia superar Napoleão, ganhando a guerra na Rússia no mesmo momento em que muitos dos seus generais chegavam à conclusão oposta.
A Batalha de Moscou definiu um novo padrão no comportamento de Hitler como líder militar. Quando as coisas davam errado, como se deu nos arredores da capital soviética, eram sempre os seus subordinados os culpados, nunca ele mesmo. Nisso, e no total desprezo pelos sacrifícios que exigia dos seus soldados, Hitler e Stalin eram muito parecidos. Mas foi a decisão de Hitler de adiar o avanço sobre Moscou, contra as objeções de muitos daqueles que o serviam, o que permitiu que o clima tivesse o papel que desempenhou. Um avanço anterior teria dado às forças alemãs a oportunidade de tomar a capital soviética antes das primeiras chuvas de outono que as deixaram atoladas na lama, ou do inverno gelado, tão mortal como o fogo inimigo.
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Depois do atraso causado pela insistência de Hitler em tomar Kiev
primeiro, as tropas alemãs que marchavam sobre Moscou se viram presas pelas chuvas do outono. Como apontou o general Guderian,
as estradas russas se transformaram em “canais de barro”,
reduzindo dramaticamente a velocidade do seu avanço.
O atraso também foi custoso de outra maneira. Ofereceu a Stalin o tempo de que precisava para se convencer de que os japoneses não fariam a invasão pelo leste, o que lhe permitiu tomar a decisão-chave de trazer as tropas siberianas para defender Moscou. Durante a visita de Eden em dezembro de 1941, o líder soviético disse ao secretário do exterior britânico: “a transferência de novos reforços foi a causa dos sucessos recentes”.
Por mais que Hitler o tenha salvado com seus erros enormes, Stalin saiu da Batalha de Moscou convencido de que tinha planejado essa primeira vitória soviética, o que teve impacto imediato sobre o seu comportamento. Convocado ao Kremlin para uma conferência com seu chefe, Kruschev ficou atônito com o que viu.
Vi-me diante de um novo homem. Ele estava muito mudado em relação ao que tinha sido desde o início da guerra. Ele se recompôs, ficou ereto, e agia como um verdadeiro soldado. Tinha começado a se ver como um grande estrategista militar, o que tornou mais difícil que nunca discutir com ele. Ele exibia toda a determinação e força de vontade de um líder heroico.
Kruschev não resistiu a atirar uma farpa que deixou claro seus sentimentos. “Mas eu sabia que tipo de herói ele era. Já o tinha visto quando ficou paralisado pelo medo de Hitler, como um coelho diante de uma jiboia. E minha opinião sobre ele não tinha mudado desde então.” Ainda assim, uma grande vitória sempre melhora a imagem de um líder, e não há dúvida de que o resultado da Batalha de Moscou animou o povo de Stalin e seus aliados.
As palavras de Churchill resumiram a reação naquela época.
Todas as nações antinazistas, grandes e pequenas, exultaram ao ver a primeira derrota de uma Blitzkrieg alemã. A ameaça de invasão da nossa ilha foi removida desde que os exércitos alemães estivessem engajados numa luta de vida ou morte no leste.
Time-Life Pictures/Getty Images
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Soldados soviéticos, sobretudo os que foram transferidos da Sibéria para defender Moscou, estavam mais bem equipados para enfrentar as temperaturas gélidas. Muitos deles tinham botas adequadas para
o inverno, casacos grossos de algodão, sobretudos, e capas
brancas de camuflagem. Essas vestimentas provaram ser um fator
cada vez mais crítico na luta.
Mas acrescentou cauteloso: “quanto tempo aquela luta poderia durar ninguém podia saber”.
O que teria acontecido se a Batalha de Moscou tivesse um resultado diferente? A ideia soviética padrão era de que a guerra teria continuado e que teria sido apenas uma questão de tempo até os alemães serem expulsos – em outras palavras, o resultado final do conflito nunca esteve em dúvida. Mas, como Stalin confidenciou a Harriman, Moscou era o centro nervoso e uma vitória alemã ali teria sido um golpe muito forte contra seus esforços de mobilização do país para derrotar as forças de Hitler. Para os invasores alemães, ela serviria como um enorme impulso psicológico, prova de que Hitler mais uma vez estava certo ao invadir a União Soviética.
R. H. S. Stolfi, que ensinava História Europeia Moderna na Escola de Pós-graduação Naval em Monterey, California, argumentou no seu livro Hitler’s Panzers east: World War II reinterpreted que a decisão de desviar suas forças para a Ucrânia em agosto custou a guerra para os alemães. Se o líder alemão tivesse ouvido o conselho de Guderian, e dos outros generais que queriam capitalizar sobre as vitórias rápidas de junho e julho, Stolfi insistiu, suas tropas teriam tomado a capital soviética no fim de agosto.
“A chegada do Grupo de Exércitos Centro por volta do dia 28 de agosto de 1941 a Moscou – o centro de comunicações da Rússia europeia – teria desintegrado as frentes de Leningrado e da Ucrânia”, escreveu Stolfi. E ele insistiu que isso teria significado a derrota da União Soviética em outubro de 1941, o que, por sua vez, teria produzido um efeito ondulatório cataclísmico. “Pela magnitude da vitória e o seu timing, os alemães teriam também vencido a guerra na Europa”, concluiu.
É impossível provar ou negar essa tese, embora muitos historiadores estejam mais inclinados a concordar com as afirmações soviéticas de que o regime de Stalin teria continuado a lutar, não importa até que distância ele fosse empurrado para leste – e que no final ele teria mobilizado recursos e homens para expulsar os alemães. Afinal, ele tinha evacuado para leste grande parte da sua capacidade de produção, e logo essas fábricas superariam as alemãs, produzindo armas e suprimentos necessários no campo de batalha. Mas mesmo se isso fosse verdade, a guerra na frente leste teria durado muito mais do que durou. E isso teria significado que a Segunda Guerra Mundial teria sido muito mais longa, um conflito muito mais angustiante do que foi.
A realidade da derrota alemã atingiu duramente os invasores, em particular os soldados que quase chegaram à capital soviética. O correspondente da CBS Larry Lesueur descreveu sua viagem pela estrada de Leningrado em dezembro de 1941. “Foi o ponto alto do avanço alemão. Estávamos a cerca de 40 km dos limites da cidade de Moscou”, escreveu. “O fracasso alemão foi provavelmente o maior desapontamento de um exército invasor na história”.
Com o benefício da visão em retrospectiva, muitos alemães admitiram isso. Richard Wernicke, o piloto de Stukas que participou dos ataques de bombardeio de mergulho sobre Moscou, declarou: “depois de Moscou, não tínhamos mais nenhuma esperança, e sentíamos que essa era uma grande catástrofe”. Com essa frase, ele se referia a toda a guerra, não somente a uma batalha.
Apesar de ter sido inegavelmente uma enorme derrota para os alemães, uma questão mais duvidosa é a importância que a vitória em Moscou representou para o lado soviético. “A Batalha de Moscou permitiu a Stalin lutar mais um dia, mas não foi o ponto de inflexão da guerra, como sempre se tem afirmado”, argumentou o historiador britânico Richard Overy. “Moscou foi um primeiro passo, hesitante, um breve sucesso quase posto a perder pela incapacidade militar de Stalin.”
As perdas de quase 2 milhões de soldados do Exército Vermelho durante a Batalha de Moscou representaram, em grau considerável, o preço dessa incapacidade. E, sim, as grandes batalhas seguintes – Stalingrado, Kursk – seriam vitórias mais decisivas, pontos de inflexão mais nítidos. Mas Moscou foi o primeiro ponto de inflexão, mesmo que Overy tenha razão quanto à fragilidade daquela vitória. Em retrospecto, o fracasso de Hitler em chegar a Moscou sinalizou realmente o começo do seu fim, mas não mais que o primeiro movimento do começo.
E, apesar de todos os seus erros e toda a sua brutalidade, Stalin mereceu crédito por uma decisão fundamental que ajudou a produzir aquele resultado, por mais que Hitler também tenha contribuído. Magomed-Ganifa Shaidayev, que serviu como funcionário político numa unidade que lutava nos acessos a Moscou pelo norte, expressou a opinião de muitos veteranos e civis que viveram durante aqueles caóticos dias de outubro de 1941, quando a capital parecia prestes a cair. “Se Stalin tivesse decidido sair de Moscou durante o pânico, se o líder do país tivesse deixado a capital, isso poderia ter levado à destruição da cidade. O fato de ele ter ficado em Moscou com seus auxiliares nos inspirou e salvou a capital.”
Mas Stalin e seus sucessores não quiseram se estender sobre aquele momento, ou sobre a Batalha de Moscou, preferindo falar das batalhas subsequentes que não ofereceram tantas indicações do que saiu errado no período inicial da guerra. Também não quiseram se estender sobre a escala assustadora das perdas soviéticas. Não há como contornar o fato de que Stalin foi responsável pela maioria dos erros que produziram aqueles números impressionantes de baixas. Moscou foi a primeira vitória soviética na Segunda Guerra Mundial, mas uma vitória frágil. E, de longe, a mais mortal.
A Batalha de Moscou demonstrou que o povo soviético estava muito menos unido e determinado nos primeiros dias da guerra do que proclamou a propaganda oficial. Apesar de isso não ser tão surpreendente quando chegou-se a áreas como a Ucrânia e os Estados Bálticos, Moscou foi outra história. Mesmo para explicar a demonstração mais louvável de liderança, sua decisão de não abandonar a capital, seria necessária uma discussão honesta das condições na cidade naquele momento – do pânico, os saques, as greves, o breve, mas completo, colapso da lei e da ordem. Tudo isso está em completo desacordo com a imagem padrão de Stalin na União Soviética e de sua linha de propaganda sobre a unidade e heroísmo inabaláveis do seu povo no momento do maior perigo. Assim, os livros de história soviéticos apagaram o que aconteceu, passando de imediato às vitórias subsequentes que tornaram desnecessários muitos contorcionismos em torno das verdades inconvenientes.
A ironia é que esse apagamento prestou um enorme desserviço aos heróis genuínos da luta, e contribuiu para a versão popularizada da guerra, onde a Batalha de Moscou tem um papel menor, em que os principais acontecimentos foram envoltos numa névoa artificial. Hoje, a Batalha de Moscou merece assumir o seu lugar de direito, na frente e no centro, em todos os relatos do conflito entre dois sistemas políticos monstruosos. Eles pagaram um preço horrível, mas os defensores de Moscou mudaram o curso da história – não somente para seu próprio país, mas igualmente para todos que se envolveram na luta contra a Alemanha de Hitler.