A Batalha de Moscou
Pânico em Moscou
Se há um tema sempre presente nos relatos oficiais da Grande Guerra Patriótica, é que o povo russo nunca hesitou na luta contra os invasores alemães, por mais desesperada que fosse a sua situação ou o tamanho dos sacrifícios exigidos dele. O povo sempre acreditou, assim nos dizem esses relatos, na justiça da sua causa e na inevitabilidade da vitória, não importando quanto tempo fosse necessário. Resumindo, o patriotismo heroico era a ordem do dia. Mas nenhum dia destrói esse mito de forma mais decisiva que o 16 de outubro de 1941.
No momento mesmo em que diplomatas e jornalistas deixavam a capital soviética, a cidade explodiu em pânico. Foi um pânico que os historiadores soviéticos queriam esquecer, e isso explica a razão por que seus relatos da Batalha de Moscou são geralmente tão abreviados e cheios de omissões e distorções gritantes. Não há passe de mágica capaz de conciliar as duas versões dos acontecimentos – as altamente “sanitizadas” e a realidade do colapso da lei e da ordem, que incluía saques, greves e outros atos, antes inimagináveis, de desafio direto ao regime, que se viu num momento em que a maioria dos moscovitas estava convencida de que sua cidade estava prestes a ser tomada pelos alemães. A cidade não estava unida: estava dividida e perigosamente perto de sair de controle.
“Uma ameaça paira sobre Moscou e nosso país”, escreveu o Izvestia naquele dia. “Como sempre, o povo soviético encara o perigo de frente.” Não tanto, pois houve uma corrida em busca das saídas da capital soviética. Apesar de haver uma evacuação oficial de funcionários do governo e do partido, das principais fábricas e de outras instalações consideradas essenciais para a continuação do regime, muitos habitantes da cidade fugiram por conta própria. Nesse caso, os registros estatísticos contam a história: em 1º de janeiro de 1941, a população de Moscou era de 4.216.000 e, com refugiados de outras regiões mais que compensando os que saíram de Moscou, a população da cidade tinha aumentado para 4.236.000 em setembro. Mas desde então, a população da cidade começou a diminuir dramaticamente – para 3.148.000 em outubro e, em janeiro de 1942, para somente 2.028.000.
Em 16 de outubro, a corrida para fugir era quase um estouro. Dmitri Safonov, que trabalhava numa fábrica de artilharia perto de Moscou que devia ser evacuada para os Urais, tinha acabado de voltar para a cidade para recolher alguns pertences e ficou assustado com o que viu. “Toda Moscou parecia estar correndo para algum lugar”, lembrou ele. Carros e caminhões carregados de pertences pessoais, enquanto muitas pessoas que corriam sem destino pelas ruas “não sabiam para onde ir nem o que fazer”. Alguns diziam já ter visto alemães dentro da cidade. Na estação ferroviária, onde esperava tomar um trem, Safonov viu malas, sacolas, roupas, lâmpadas e até um piano abandonados por aqueles que tentavam, ou já tinham conseguido, embarcar em qualquer coisa que estivesse saindo. As plataformas estavam lotadas de pessoas. Em comparação com sua visita de duas semanas antes, “eu mal reconheci a cidade”, disse ele.
Enquanto cidadãos comuns lutavam para conseguir qualquer lugar num trem, mesmo abandonando seus pertences pessoais, os mandachuvas do partido e os gerentes de fábricas vociferavam com os despachantes da ferrovia que tinham o direito de levar tudo que quisessem. “Tentavam levar pianos, mesas, sofás e outros móveis”, lembrou F. Rostovtsev, o chefe da estação Leninskaya, que chefiava os despachos de todos os trens envolvidos na evacuação desde 14-16 de outubro. “Exigiam ‘consigam mais vagões para mim, minha mulher e o resto’”. Acrescentou que a tripulação tinha de ignorar essas exigências incessantes e forçar os evacuados a “controlarem seus apetites”.
Nas estradas para o leste, geralmente não havia ninguém para manter uma aparência mínima de ordem, pois a polícia, quase sempre onipresente, tinha desaparecido por completo. Vários moscovitas aparentemente afortunados que possuíam carro para sair da cidade tiveram uma surpresa muito desagradável. “Algumas pessoas paravam automóveis na estrada”, escreveu G. V. Reshetin, editor de arte. “Arrancavam motoristas e passageiros dos carros, espancavam-nos e jogavam no chão todos os seus pertences.” Alguns dos agressores se aboletavam nos carros, enquanto outros pareciam participar apenas por vingança. Reshetin testemunhou uma multidão gritando “matem os judeus!” antes de atacar um carro com um homem idoso e uma jovem com pacotes de documentos. Os dois foram arrancados e o rosto do homem sangrava, pois ele foi espancado repetidamente. A jovem tentava defendê-lo, gritando que ele não era judeu e que eles estavam apenas transportando documentos – mas sem sucesso. Embora já tivesse testemunhado pequenos incidentes antissemitas antes, Reshetin ficou “chocado” pela violência do episódio.
Em quase toda parte, parece, as regras normais já não se aplicavam e os serviços normais já não eram esperados. Os cinemas eram fechados para “reformas”, o metrô parou de correr e os bondes que ainda operavam geralmente não paravam por estarem lotados. Slava Yeremko, que na época tinha 14 anos, lembra a estranha visão do banco do Estado ao lado do seu edifício: “não havia ninguém no banco – as portas estavam abertas e havia dinheiro no chão”. Grupos grandes corriam diante dele a caminho da estação Bielo-Russa, aparentemente desinteressados pelo banco, ou pelo dinheiro espalhado.
Yuliy Labas, que tinha só 8 anos, lembra-se de sair com a mãe para buscar leite. Já estava acostumado à visão de balões no ar com redes penduradas destinadas a prender os aviões alemães, mas agora ele olhou para cima e viu uma novidade. Fumaça negra subia da chaminé da sede da NKVD na praça Lubianka, ao lado de onde ele vivia, e neve negra no chão. “Eles deviam estar queimando papéis”, disse ele.
Não muito longe do seu apartamento próximo ao edifício do Comitê Central, Ella Braginskaya, que tinha 15 anos, também viu cinzas negras e papéis parcialmente queimados esvoaçando, e pessoas saqueando as lojas na vizinhança. “A maioria dos saqueadores eram mulheres, não homens”, disse ela. Os saqueadores também atacavam lojas em outras partes da cidade, embora testemunhas não mencionem a preponderância de mulheres entre eles. Apesar de as lojas de alimentos racionados até aquela data serem os principais alvos, nada mais estava protegido, inclusive os apartamentos abandonados pelos moscovitas que já tinham partido. Saqueadores também atacaram a agora vazia embaixada britânica.
Valeria Prokhorova, então com 22 anos, graduada do Instituto de Línguas Estrangeiras, lembra os saques e outra visão comum. “As pessoas jogavam fora literatura comunista e retratos dos líderes do partido”, disse ela. De fato, os moscovitas esvaziavam seus apartamentos e escritórios dos retratos obrigatórios de Stalin e Lenin, ao lado dos volumes de Marx e outras literaturas comunistas. As latas de lixo estavam cheias desse detrito do regime de Stalin, que ninguém teria coragem de jogar fora em qualquer outra época. Muitos o faziam por medo de que os alemães, que esperavam a qualquer momento, os identificassem como comunistas. Mas alguns moscovitas deram vazão à sua raiva acumulada. Prokhorova ouviu pessoas amaldiçoando Stalin. “Sofríamos de fome e eles nos diziam que estamos vivendo no país mais rico”, eles diziam, segundo ela. “E agora? Onde está Stalin? Ele nos abandonou.”
Tamara Bylinina, a jovem viúva de um oficial militar que tinha sido executado durante os expurgos de alguns anos antes, estava cavando trincheiras com outras mulheres nos arredores de Moscou quando se espalhou o rumor de que os alemães se aproximavam. As mulheres correram para a cidade, e Bylinina voltou ao seu apartamento comunitário, que dividia com cerca de uma dúzia de outras pessoas. Os retratos de Stalin e de Lenin tinham desaparecido das paredes, e alguém tinha incinerado uma coleção de 12 volumes de textos e discursos de Lenin. “As pessoas tinham medo de que os alemães pudessem executá-las por adorar aqueles ídolos”, explicou.
Mas o medo se misturava com uma excitação evidente e, vez por outra, com a ansiedade de receber bem qualquer um que expulsasse do Kremlin os ocupantes de então. “Ótimo, eles já sugaram bastante o nosso sangue”, disse um dos seus vizinhos. Depois de ouvir que Hitler teria dito que queria tomar chá em Moscou, alguns dos seus vizinhos colocaram seus samovares na mesa. “Foi feito para saudar os alemães”, disse ela.
Ella Braginskaya, a moça de 15 anos que vivia próximo do edifício do Comitê Central, lembra-se de que se preocupava com o fato de que seus vizinhos talvez vissem a ocupação alemã como uma chance de acertar as contas. Sua mãe judia era muito impopular, contou, tanto por sua “arrogância” – tinha dito à filha que ela era de uma família boa demais para brincar com os filhos do proletariado – quanto pela religião. A melhor amiga de Ella era uma menina chamada Valya, a filha de um funcionário comunista. À medida que os alemães se aproximavam de Moscou, Ella era saudada por vaias quando passava pelo pátio do seu prédio. “Você está vivendo seus últimos dias”, gritavam. “Logo os alemães vão chegar e matar você e Valya.”
Nem todos agiam assim. Pelo menos uma vizinha, uma mulher que vivia no térreo, prometeu a Ella e sua mãe: “os alemães são gente decente. Vamos cavar um porão e vocês se escondem lá, e mais tarde tudo vai ficar certo”.
E enquanto incontáveis moscovitas fugiam para leste, outros ainda partiam para o front para tentar evitar que os alemães tomassem a cidade. Durante o caos de 16 de outubro, Valeria Prokhorova e vários amigos foram à estação Bielo-Russa para se despedir de dois voluntários que partiam para a luta – Aleksandr Aniks, seu professor favorito do instituto de línguas, e Grisha, marido da sua vizinha. Correram no escuro pela neve misturada com chuva, carregando um pacote de comida que tinham conseguido reunir das suas magras rações. Na estação, encontraram o trem e, como estava um breu, correram ao lado dos trilhos gritando “Grisha! Aleksandr!”
Milagrosamente, encontraram os dois homens, abraçaram-nos e lhes deram a comida, enquanto a vizinha se despedia do marido com um beijo. Quando o trem começou a sair, o professor gritou: “meninas, digam a todos que vamos defender nosso país. Vamos proteger vocês todos!” Poderia ter sido uma cena de um filme de propaganda – não fora por um motivo. “Ele não disse nada sobre Stalin”, observou Prokhorova. “Partiu para lutar por seu país.”
Quando as moças tomaram o caminho de casa, lembrou Prokhorova, as ruas estavam cheias de “criminosos e bêbados” e não havia nenhum policial à vista. “Parecia o dia do juízo final”, disse ela.
Posicionados entre as tropas alemãs e Moscou, soldados como Albert Tsessarsky sabiam que não estavam bem equipados para evitar o dia do juízo final. Estudante de medicina que tinha se apresentado como voluntário para servir depois que os alemães atacaram, Tsessarsky foi designado para uma unidade de 33 homens cuja principal arma era uma metralhadora quebrada que eles não conseguiam operar. No início de outubro, a unidade foi deslocada para oeste de Moscou, perto de Mozhaisk, a cidade no centro da linha de defesa a cerca de 100 km da capital. Eles tinham então uma metralhadora funcionando, que apontaram para os alemães posicionados do outro lado do rio Moscou. Sua missão era cavar abrigos subterrâneos onde se esconderiam se os alemães rompessem as frágeis defesas soviéticas. Naquele local, Tsessarsky e sua unidade se veriam atrás das linhas inimigas, onde deviam continuar operando, reunindo informações e assediando os alemães sempre que possível.
Como assistente médico da unidade, Tsessarsky foi enviado com um motorista a Moscou em busca de suprimentos, lá chegando em 16 de outubro. Nessa viagem à capital, ficou chocado quando não viu nenhum soldado soviético. “A estrada de Minsk estava aberta.” Se os alemães cruzassem o rio, percebeu, “todos eles poderiam marchar sobre Moscou”.
Uma vez na capital, Tsessarsky foi diretamente ao centro da cidade, passando pelo Teatro Bolshoi, e não viu nenhum policial. Mas viu girando no ar as cinzas e os pedaços de documentos queimados de que todos se lembravam naquele dia. Apresentando-se no depósito de suprimentos médicos, o gerente examinou sua lista de remédios requisitados e mandou-o embora com praticamente nada, alegando que ele não tinha as autorizações adequadas. Mas disse que ele poderia voltar mais tarde e tentar novamente.
Tsessarsky saiu, então, para encontrar sua esposa Tatyana, que ainda estudava medicina e vivia num dormitório próximo do instituto de medicina. Tatyana tinha saído de Moscou em 15 de outubro para visitar a família em Dmitrov, a mais de 60 km de distância e voltaria na tarde seguinte para uma Moscou muito diferente. Como o metrô já não corria, pela primeira vez desde que fora construído, ela teve de percorrer a pé o longo caminho até o dormitório, para descobrir que estava quase vazio. A maioria dos estudantes e funcionários tinha fugido, e o chão dos quartos e as salas do instituto estava coberto com os pertences e papéis que tinham deixado para trás na pressa da partida. “Tinham fugido e abandonaram tudo.”
Para mim, 16 de outubro foi um dia sem igual – o pior da minha vida. Nada igual aconteceu comigo nem antes nem depois. As pessoas que sabem da guerra e dos militares dizem que, se os alemães tivessem tido noção do que estava acontecendo naquele dia, teriam facilmente tomado a cidade.
Tatyana ficou aliviada ao ver o marido, retornado pelo menos brevemente do front, mas não foi suficiente para acalmar os seus medos com relação ao que aconteceria em seguida. Os dois viram uma suástica pintada no muro diante do dormitório. “Nem todo mundo se sentia patriótico”, observou Tatyana. “Havia muitas pessoas que se sentiam lesadas. A maioria esqueceria esses sentimentos quando começou a luta, mas nem todos.” Presumivelmente uma dessas pessoas foi responsável pela pintura da suástica no muro.
Depois de passar a noite com a mulher no dormitório quase vazio, Tsessarsky resolveu atender à sugestão do gerente e voltou ao depósito para buscar os suprimentos que tinha ido buscar. Descobriu que todos, com exceção de um funcionário solitário, tinham abandonado o depósito. “Leve o que você quiser”, disse-lhe o funcionário. Tsessarsky se lembra com satisfação: “enchemos o caminhão com remédios e voltei para minha unidade”.
Tsessarsky somente teve sucesso na sua missão por causa do colapso de praticamente toda autoridade na capital. Mesmo no dia 17 de outubro, a manhã seguinte ao pânico, as autoridades ficaram estranhamente silenciosas. Enquanto os programas de rádio pediam calma, a única boa notícia foi que os alemães não tinham chegado durante a noite.
Mas, para a maioria dos moscovitas, isso não significava que eles não iriam chegar. Muito tempo depois da guerra, Mikhail Maklyarsky, um alto oficial da NKVD que era um dos principais membros da equipe encarregada da preparação da atividade subterrânea na Moscou ocupada pelos alemães, admitiu para seu filho, Boris, algo que contrariava os relatos oficiais segundo os quais os habitantes da capital nunca vacilaram na certeza da vitória. “Ele me disse que 98 de cada 100 moscovitas pensavam que Hitler conquistaria Moscou mais cedo ou mais tarde”, disse Boris. Com sua mãe e outras esposas e filhos de altos oficiais da NKVD, Boris, que tinha apenas 8 anos na época, foi evacuado para Kuibyshev em julho. Quando se tratou das suas próprias famílias, as autoridades do Kremlin já tinham decidido muito cedo que Moscou não era segura.
No dia 18 de outubro, o chefe da diretoria da NKVD em Moscou e região, Mikhail Zhuravlev, apresentou um longo relatório sobre “a reação do povo ao fato de o inimigo se aproximar da capital”. Em particular, ele focalizava “o comportamento anarquista” dos operários de fábrica nos dois dias anteriores. Alguns exemplos:
Alguns operários da fábrica n° 219 […] atacaram carros com evacuados de Moscou que viajavam na rodovia dos Entusiastas. […] Começaram a tomar os pertences dos evacuados. Seis carros foram atirados na ravina por esse grupo.
Em outra fábrica, o diretor de pessoal, de nome Rugan, encheu o carro de comida e tentou sair do terreno da fábrica. “No caminho, ele foi parado e espancado pelos trabalhadores. Os soldados da guarda da fábrica estavam bêbados.”
Trabalhadores de uma fábrica de sapatos receberam o salário com atraso “devido à falta de notas” na filial local do banco estatal. “Os trabalhadores que protestavam demoliram os portões e entraram na fábrica. Casos de roubo de sapatos foram detectados.”
Buzanov, diretor da fábrica Frente Vermelha, tentou acalmar seus operários distribuindo doces. “Durante a distribuição dos doces, houve uma briga entre alguns dos operários bêbados.”
Perto de uma fábrica de couro sintético,
um grupo de operários parou um carro com membros das famílias evacuadas de empregados. Alguns passageiros foram impiedosamente espancados e seus pertences foram tomados. No mesmo local, quatro carros foram destruídos. Os trabalhadores não receberam salários na fábrica n° 58. Alguns operários gritaram “vamos espancar os comunistas!” O grupo de trabalhadores moldou uma chave para o depósito de produtos químicos, roubaram álcool e se embebedaram.
Na fábrica n° 8, houve uma “agitação contrarrevolucionária”, inclusive o saque dos pertences de um grupo de trabalhadores e suas famílias selecionadas para evacuação, e um ataque incendiário ao depósito. “O dano do fogo chegou a 500 mil rublos.”
Cerca de 500 estudantes da escola de comércio da fábrica Stalin se reuniram para receber o pagamento. O diretor da escola, Samoilov, não estava presente, pois tinha fugido de Moscou. Os estudantes não receberam seu dinheiro e começaram a destruir a escola. Rasgaram livros […] quebraram armários, roubaram roupas quentes e coisas de comer.
O relatório também relacionava incidentes de roubo de gado nas fazendas coletivas na região de Moscou, aparentemente por fazendeiros que se preparavam para fugir. Um grupo de empregados de fazendas coletivas tentou assaltar um escritório da NKVD. E, o que foi mais alarmante, às 2h da tarde do dia 17 de outubro, nas aldeias de Nikulino e Toropovo, “bandeiras brancas foram içadas em algumas casas das fazendas coletivas”. Não eram uma preparação para rendição a qualquer autoridade soviética: esperavam os alemães.
O relatório de Zhuravlev indicava que o colapso de autoridade não foi completo. Em alguns casos, a NKVD “com ajuda de ativistas do partido e guardas de fábrica” prenderam os perpetradores. Em outros casos, ele observou que oficiais foram enviados para investigar os incidentes. E patrulhas especiais da NKVD foram distribuídas pela cidade para tentar restaurar a ordem. Mas a impressão dominante deixada pelo relatório é que a NKVD e outros “órgãos”, como era chamada a máquina soviética de repressão, estavam lutando uma batalha perdida com uma população que já não era intimidada por eles.
Durante o pânico inicial de 16 de outubro, até mesmo as unidades da NKVD estavam por vezes indecisas quanto à forma como deviam reagir. Aleksandr Zevelev, estudante de história que tinha se apresentado como voluntário para o serviço no dia da invasão alemã, e que foi designado para a NKVD, viu-se numa patrulha na rua Gorky, a principal via no centro da cidade. “Havia saques”, lembrou ele. “Lojas de alimentos foram deixadas abertas e as pessoas saqueavam, então tínhamos de pará-las. Estavam roubando açúcar, pão e farinha.”. Ele também viu saqueadores tirando alimentos de um restaurante perto da estação Mayakovsky do metrô. Embora ele e os outros rapazes da sua unidade estivessem armados com fuzis, não atiraram. Limitaram-se a gritar para os saqueadores pararem e então relataram os incidentes aos superiores, que supostamente deviam enviar outros para fazer as prisões. Era como se os encarregados de impor a ordem já não soubessem o que impor.
Mas outros na NKVD ignoravam a confusão nas ruas e agiam como se nada tivesse mudado. Uma cena tipificava a sensação surrealista daquele dia notável. À meia-noite, milhares de prisioneiros políticos foram levados marchando à praça diante da estação ferroviária Kursky. Entre eles, vários cientistas proeminentes e acadêmicos, inclusive o geneticista Nikolai Vavilov. Andrei Sukhno, um colega e prisioneiro, descreveu mais tarde a sua provação:
Guardas com cachorros cercaram a praça e nos ordenaram que ficássemos de quatro. No dia anterior tinha nevado, era a primeira neve do ano, e ela tinha derretido. As pessoas pararam [de quatro] na lama fria. Tentaram evitar as poças maiores, mas ficaram muito próximas umas das outras e os guardas reagiram violentamente. […] E assim ficamos de quatro durante seis horas.
Os prisioneiros foram, então, levados a um trem para Saratov. Vinte e cinco prisioneiros foram apertados em cada compartimento destinado a abrigar cinco passageiros, e a viagem de 700 km levou duas semanas de sofrimento. Apesar de Sukhno ter vivido para contar a história, Vavilov morreu de inanição dois anos depois na prisão de Saratov. Ironicamente, seu irmão, Sergei Vavilov, que também era cientista, chegou a tal proeminência que, em 1945, Stalin o convocou ao Kremlin para indicá-lo para chefiar a Academia de Ciências da URSS. Durante o encontro, Sergei perguntou pelo destino do seu irmão. Na sua presença, Stalin tomou o microfone e chamou Beria. “Lavrenty, o que aconteceu a Nikolai Vavilov?”, perguntou ao chefe d a NKVD. “Morto?” Então, sem nenhuma sombra de ironia, o líder soviético acrescentou pesaroso: “oh, e perdemos um homem como ele”.
Enquanto a maioria da liderança do Kremlin permanecia em estranho silêncio durante o caos de 16 de outubro, Anastas Mikoyan interveio pessoalmente na greve da fábrica de automóveis Stalin. Depois que o diretor da fábrica o chamou pedindo ajuda, o membro do Politburo foi até lá e encontrou cerca de 5 mil a 6 mil empregados protestando diante dos portões trancados da fábrica. Os trabalhadores imediatamente reconheceram Mikoyan e o bombardearam com perguntas. Por que não recebiam os salários há duas semanas? Por que estavam trancados do lado de fora da sua própria fábrica? Por que o governo havia fugido de Moscou com os funcionários do partido e do Komsomol na fábrica? Por que ninguém lhes explicava nada?
Mikoyan os ouviu e então fez o possível para acalmar a situação.
Companheiros, por que vocês estão com tanta raiva? Há uma guerra e tudo pode acontecer. Quem lhes disse que o governo saiu de Moscou? Esses boatos são provocações: o governo não fugiu. Quem tem de ficar em Moscou está em Moscou. Stalin está em Moscou, Molotov também – todas as pessoas que têm de estar aqui estão aqui.
Admitiu que alguns departamentos tinham sido evacuados devido ao fato de que “o front se aproximava da cidade”. Mas assegurou aos operários que o governo operava de acordo com planos bem preparados e que eles não deviam se preocupar com seus salários, pois já tinham recebido alguns pagamentos extras. “Agora vocês devem manter a calma, obedecer às instruções definidas pela situação de guerra. Precisamos de serenidade e disciplina para enfrentar o inimigo.”
A intervenção pessoal de Mikoyan acalmou as coisas e os operários se dispersaram gradualmente. Mas ele tinha evitado algumas das perguntas e suas respostas foram em geral mentirosas. Ele não mencionou que Stalin tinha dado ordens a muitos altos funcionários para deixarem Moscou e que, naquele momento, a maioria dos seus assessores esperava que o líder soviético se juntasse a eles em breve. Nem disse aos operários que o motivo por que eles estavam trancados do lado de fora era que explosivos já tinham sido instalados no terreno da fábrica para destruí-la. No dia 15 de outubro Stalin tinha emitido uma diretiva para “explodir fábricas, depósitos e instituições que não pudessem ser evacuados, além de equipamentos elétricos do metrô (excluindo tubulações de água e sistemas de esgoto)”. A fábrica de automóveis era uma dessas instalações especificadas.
Mas alguns operários tinham sido informados dos relatos de que a NKVD estava instalando explosivos nas suas fábricas. Isso gerou, como lembrou mais tarde o chefe de contrainteligência da NKVD da região de Moscou, Sergei Fedoseyev, “um incidente grave” na fábrica n° 6, uma fábrica de defesa que também tinha sido designada como objeto a ser explodido para não cair nas mãos dos alemães. O equipamento da fábrica tinha sido embalado em caixas especiais para ser enviado para leste de Moscou, onde deveria ser montado para que a produção fosse retomada. Mas quando despachavam as caixas, os administradores entraram em pânico e decidiram instalar também as suas famílias nos carros. “Os empregados da fábrica viram tudo isso e se enfureceram, o que provocou o início de um protesto”, relatou Fedoseyev. “Exigiram que se abortasse a evacuação e que a fábrica não fosse fechada. Tinham medo de perder o emprego.”
Nesse ponto, um dos operários gritou que a fábrica poderia explodir a qualquer momento e as tensões aumentaram dramaticamente. Aterrorizados, os operários indicaram cinco pessoas para revistar a fábrica e insistiram para que um alto oficial da segurança, I. M. Serov, os acompanhasse. Apesar de saber que os explosivos já tinham sido instalados, Serov fingiu não saber de nada quando acompanhou os operários na sua ronda. Como estavam bem escondidos, os explosivos não foram encontrados.
Isso não terminou o minidrama. Serov rapidamente informou aos seus superiores do incidente. Apesar de os administradores da fábrica terem precipitado a confrontação, ao decidirem enviar suas famílias, o governo ordenou à NKVD que prendesse os líderes da demonstração. Os agentes detiveram cerca de 15 pessoas. “Foram todos fuzilados alguns dias depois, e só foram reabilitados em 1953”, observou laconicamente Fedoseyev. Aquele, é claro, foi o ano da morte de Stalin, o que tornou possível a reabilitação póstuma de pelo menos algumas das suas milhões de vítimas.
O tratamento desses operários que protestavam – de início com cautela e até com uma aparente disposição de atender às suas preocupações, depois com uma reação violenta mais típica – refletiu a incerteza inicial da liderança do Kremlin seguida de uma súbita determinação. Em termos mais precisos, ele refletiu as ações de Stalin numa época em que, mais uma vez, o líder russo inicialmente manteve todos tentando adivinhar o que ele pretendia fazer.
Por que Stalin desapareceu da vista de todos, e grande parte do seu governo se manteve em silêncio, durante aqueles dois dias em meados de outubro, quando tudo indicava que Moscou iria cair e os bandidos tomavam conta das ruas? O que ele estava fazendo e o que passava pela sua mente?
No dia 14 de outubro, quando o humor em Moscou se tornava cada vez mais volátil, Stalin se encontrou com Georgi Dimitrov, que, como chefe da Internacional Comunista, o Komintern, mantinha contatos com os movimentos comunistas de todo o mundo. Conhecedor do círculo íntimo do líder, Dimitrov foi abalado pelo grau a que todos consideraram inevitável a evacuação. “Como a própria Moscou passava a ser parte da frente de batalha, devem-se fazer preparativos para o pior cenário possível”, escreveu ele no seu diário. Molotov lhe deu instruções claras: “a evacuação é necessária. Aconselho que você parta antes do fim do dia”. De acordo com Dimitrov, a mensagem de Stalin para os dois era simples: “Moscou não pode ser defendida como Leningrado”.
Mudando de assunto, o ditador lançou uma lista de queixas contra Ernst Thälmann, o líder dos comunistas alemães que na época estava preso no campo de concentração de Buchenwald. Thälmann, acusou ele, não era um comunista comprometido e seus textos mostravam que ele fora manchado pela ideologia fascista, embora Hitler o tenha aprisionado tão logo chegou ao poder. Por isso, os nazistas não o matavam, concluiu Stalin. (Na verdade, Thälmann foi executado em Buchenwald, dois anos depois). Mais uma vez o ditador demonstrava sua obsessão por descobrir os menores sinais potenciais de heresia entre seus seguidores, mesmo numa época em que seu mundo ameaçava cair à sua volta.
Enquanto Molotov e Dimitrov se preparavam para partir, Stalin continuou: “é preciso evacuar antes do fim do dia!” De acordo com Dimitrov, isso foi dito com a mesma tranquilidade com que ele teria dito “hora do almoço”! Apesar de Stalin não dizer especificamente quando o seguiria, Dimitrov estava convencido de que seria muito em breve.
Dimitrov e Molotov tomaram o mesmo trem para Kuibyshev. Durante a viagem, no dia 17, eles se encontraram no trem com vários outros altos funcionários na hora do chá, as mentes focalizadas no destino da capital que estavam deixando para trás. “Todos estavam bem-humorados, apesar de muito preocupados. Todos esperavam a captura iminente de Moscou pelos alemães”, Dimitrov registrou no seu diário. Num apelo aos comunistas de todo o mundo, ele tentou enfatizar o positivo – os planos para reinstalação das indústrias soviéticas no leste e a continuação da luta contra Hitler – mas sua principal mensagem era um apelo “para que não cedessem ao desalento diante dos sucessos temporários da gangue fascista”.
Muito depois da guerra, Molotov iria negar que o humor estivesse tão sombrio ou que Stalin tivesse pensado em abandonar a capital, ainda que estivesse enviando seus assessores mais próximos para Kuibyshev. “Bobagem. Ele nunca teve dúvidas”, insistiu Molotov. “Não ia sair de Moscou. Fui para Kuibyshev por dois ou três dias e deixei Voznesensky no comando. Stalin tinha me dito: ‘Veja como eles estão se instalando lá e volte imediatamente’.”
Mas Molotov foi leal a Stalin até o fim, e não iria admitir o quanto seu patrão hesitava durante aqueles dias cruciais no meio de outubro – ou a gravidade da situação. Dimitri Volkogonov, ex-general do Exército Vermelho e biógrafo de Stalin, argumentou que o líder soviético estava tão profundamente abalado pela ameaça a Moscou que “foi atormentado por pressentimentos alarmantes”.
Tudo estava preparado para a evacuação de Stalin: um trem especial, completamente equipado e esperando na estação, e – caso fosse necessário fazer uma saída ainda mais rápida – seu Douglas DC3 especial e três outros aviões também estavam preparados para partir. Na noite de 15 de outubro, Stalin decidiu ir para sua dacha – mas lhe disseram que ela já estava minada em preparação para os alemães, e que ele não devia ir para lá. Irritado, Stalin ordenou aos seus auxiliares que “retirassem as minas” e anunciou que ia manter o plano de passar a noite lá. Essa decisão provavelmente era mais uma questão de Stalin afirmar o seu poder de determinar qualquer coisa que quisesse do que uma indicação de que ele tinha decidido se ia ou não deixar Moscou.
No dia seguinte, Stalin voltava ao Kremlin quando, de acordo com um dos seus guarda-costas, foi saudado pela visão de pessoas carregando sacos de farinha, pacotes de linguiças, presuntos, caixas de macarrão – em outras palavras, tudo que tinham saqueado das lojas. Ele ordenou ao motorista que parasse, desceu e foi imediatamente cercado pela multidão. Alguns aplaudiram, e alguém lhe perguntou: “companheiro Stalin, quando vamos parar o inimigo?”.
“Tudo tem seu tempo certo”, respondeu Stalin.
O fato de o líder soviético não ter condenado ninguém pelo saque só mostrou o quanto as desordens nas ruas o tomaram de surpresa.
Ao chegar ao Kremlin, ele disse à sua entourage que não somente as embaixadas estrangeiras, mas também o governo devia ser evacuado para Kuibyshev. Alguns ministérios deviam ser espalhados em várias cidades, mas Kuibyshev seria a capital no exílio. E Stalin declarou que os membros do Politburo também deviam partir. Quanto aos seus próprios planos, ele anunciou: “vou partir amanhã de manhã”. Era a mesma mensagem que Molotov tinha passado aos diplomatas estrangeiros: o líder vai seguir em breve.
Mikoyan não gostou do plano. “Por que temos de partir hoje, se você vai amanhã? Nós também podemos seguir amanhã.” Observou que o líder do partido em Moscou, Schcherbakov, e Beria, da NKVD, só poderiam deixar a cidade depois de terem feito os preparativos finais para a resistência subterrânea que seria deixada para trás. E acrescentou: “vou ficar e irei com você amanhã”.
Stalin não opôs objeções, e voltou sua atenção para os preparativos para a tomada pelos alemães, decidindo que fábricas e outras instalações deveriam ser explodidas e recebendo relatos militares de como o exército continuaria a tentar interromper o avanço dos atacantes, recuando para as linhas de defesa mais próximas, até chegarem à estrada de contorno de Moscou.
Mas Mikoyan fez a viagem a Kuibyshev. Stalin tinha insistido para que Molotov fosse até lá para ver se as novas instalações funcionavam a contento. “Deixe Mikoyan ir comigo”, implorou o ministro do Exterior. Apesar de ter tentado de início objetar, Mikoyan percebeu que não tinha escolha. Stalin aprovou a ideia e lhe disse: “por que você não vai com ele?” Não era uma pergunta, era uma ordem. Tal como Molotov, ele iria passar alguns dias em Kuibyshev antes de voltar a Moscou.
Durante todos esses acontecimentos, Stalin guardou para si o que pensava. Leu uma nova biografia do marechal Mikhail Kutuzov, que tinha liderado o exército russo até a vitória sobre Napoleão em 1812, e sublinhou a observação de que “até o último minuto ninguém sabia o que Kutuzov pretendia fazer”.
A sensação de perigo era palpável. Mikoyan relatou que tropas alemãs em motocicletas foram vistas a cerca de 25 km da dacha da sua família, que ficava a 15 km a sudoeste de Moscou. Isso significava que as tropas estavam a cerca de 40 km dos limites da cidade. Outros relatos colocavam os batedores alemães ainda mais perto, embora fosse difícil separar o que era verdade do que não passava de boato.
Do ar, os alemães deixavam clara a sua presença numa base quase diária com novos ataques aéreos. Stalin foi forçado a buscar abrigo na estação de metrô Kirovskaya, onde podia trabalhar e dormir num compartimento especialmente preparado num trem, oculto do resto da estação e dos outros trens por painéis de compensado. Mas em pelo menos uma ocasião, Stalin testemunhou um bombardeio fora da proteção da estação. Ao voltar para sua dacha nas primeiras horas do dia, ele saiu do carro ao som do fogo antiaéreo contra um grande grupo de bombardeiros alemães iluminados por fachos de holofotes dos defensores de Moscou. Ele se recusou a se mover mesmo quando um fragmento de bomba caiu no chão perto dele. Seu chefe de segurança o pegou e entregou a Stalin. Ainda estava quente.
Não se sabe se naquele momento Stalin sentiu coragem ou medo, mas ele não tinha certeza quanto aos seus próximos movimentos, quando parecia que o colapso de Moscou poderia vir de dentro ou de fora no dia 16 de outubro. O marechal da Força Aérea, Golovanov, o viu sentado no seu escritório naquele dia, perguntando repetidamente: “o que devemos fazer? O que devemos fazer?”.
Como muitos moscovitas estavam convencidos de que Stalin já tinha fugido, essa era uma questão muito mais que pessoal. Sua decisão de ficar ou partir poderia ser vista como um sinal de desespero ou decisão. Que era provavelmente a razão por que ele agonizou durante o que pareceram dois dias sem fim.
No livro sobre seu pai, Sergo Beria afirma que o chefe da NKVD insistiu que o líder soviético ficasse. De acordo com esse relato, o Beria mais velho disse a Stalin: “se você for, Moscou será perdida. Para garantir a sua segurança, podemos transformar a Praça Vermelha numa pista de pouso. O exército e o povo devem saber que você está em Moscou”. Quando Schcherbakov, chefe do partido em Moscou, e outros altos funcionários insistiram para que ele tomasse a decisão contrária, Stalin lhes teria dito: “sua atitude pode ser explicada de duas maneiras. Ou vocês são traidores e não prestam para nada, ou vocês não passam de idiotas. Prefiro encarar vocês como idiotas”.
O relato do jovem Beria não é necessariamente confiável, pois ele desejava colocar o pai sob a melhor luz possível. Retrospectivamente, todos os altos funcionários soviéticos queriam ser vistos como de acordo quanto à necessidade de Stalin continuar em Moscou. Mas naqueles dias, eles não tinham nenhuma certeza de que Moscou resistiria, e a última coisa que qualquer um deles queria era ser associado com um curso de ação que resultasse na captura ou morte de Stalin.
No fim, é claro, a decisão cabia exclusivamente a Stalin – mas ele não tinha pressa em tomá-la. No dia 18 de outubro, ele foi à estação onde o seu trem especial o esperava. Alguns relatos alegam que era a estação Kalanchevskaya, outros dizem que era a estação Kursky. Quando estava próximo ao seu centésimo aniversário, em 2005, Pavel Saprykin insistiu que era a estação Kursky, pois ele trabalhava lá naquele dia e tinha ajudado a preparar o trem especial. E ele viu Stalin naquele dia crucial. Saprykin se lembra que o líder soviético foi até o trem, andou na plataforma ao lado dele – mas não embarcou. Preferiu sair da estação.
Jurando não sair de Moscou, Stalin de repente reassumiu o governo, voltou à tática que tinha usado ao longo de toda a sua carreira – a força bruta. Em 19 de outubro, ele decretou a lei marcial e ordenou às tropas da NKVD que saíssem às ruas e atirassem em qualquer um que lhes parecesse suspeito, enquanto os tribunais de emergência receberam poderes para lidar com praticamente qualquer saque e violação da lei e da ordem – o que também significava sentenças imediatas de morte. Os membros sobreviventes das patrulhas da NKVD, como Yevgeny Anufriyev, são cautelosos ao descrever o que realmente fizeram, mas não evitam discutir suas instruções. “Tínhamos uma ordem espantosa de fuzilar espiões e desertores no local. Tínhamos ordens de fazer isso, mas não sabíamos como identificar quem era espião. Então, a ordem não teve maior significância.” Talvez no caso dele não tivesse – mas, relutantemente, ele indicou que houve outros, muitos outros casos em que teve. “Bem, muitas coisas estúpidas foram feitas naquela época. O que mais eu posso dizer?”, acrescentou.
Não existe contagem confiável de quantos moscovitas pereceram no aperto que se seguiu, mas a mensagem foi ouvida com toda clareza: Stalin tinha voltado ao poder, e poucas pessoas desconheciam o que isso significava. Os saques acabaram abruptamente, e os moscovitas que ficaram na cidade começaram a sentir uma nova determinação de evitar que os alemães tomassem a cidade.
Até moscovitas, como Valeria Prokhorova – que não confiava no regime que tinha varrido tantos parentes nos expurgos –, receberam bem a mudança. “Começamos a sentir que éramos defendidos, sentíamos que o regime defendia a nossa terra. Ninguém se importava com Stalin, mas muitas pessoas lutavam pela nossa terra.”
O pânico ameaçou mais que a ordem interna da capital; ameaçou solapar todo o esforço de defesa de Moscou contra os alemães, desmoralizando sua população, os militares e até os líderes. Muito tempo depois desses eventos, vários russos ainda acham extremamente difícil discuti-los, sobretudo porque foram quase responsáveis por uma implosão que teria tido consequências desastrosas – e por ser tão diferente da imagem popular alimentada pelos propagandistas do regime, de um povo bravo e sempre unido a resistir aos agressores alemães.
Nas suas memórias, o marechal Zhukov insistiu respeitosamente que a maioria dos moscovitas tinha se portado bem em meados de outubro.
Mas, como diz o dito popular, em toda família há ovelhas negras e, também nesse caso, covardes, semeadores de pânico e aproveitadores começaram a fugir da capital em todas as direções, espalhando boatos de pânico sobre uma rendição inevitável.
A proclamação do estado de sítio, ou lei marcial, era necessária para “mobilizar soldados e civis de Moscou para repelir o inimigo e […] evitar a repetição do pânico gerado por elementos provocadores em 16 de outubro”. Apesar de expresso na retórica soviética, sua declaração representa uma admissão de que muitos mais que algumas “ovelhas negras” se envolveram, e muito mais estava em jogo do que sugere o relato oficial.
Talvez o exame mais honesto das emoções dolorosas e conflitantes desencadeadas pelo que aconteceu em 16 de outubro esteja no clássico romance de guerra de Konstantin Simonov, Os vivos e os mortos. Muito depois da guerra, seu principal personagem “achava intolerável lembrar Moscou como estava naquele dia, assim como é intolerável ver o rosto da pessoa amada distorcida pelo terror”. Apesar de elogiar o heroísmo dos que continuaram a lutar contra os alemães, Simonov reconheceu que a guerra parecia ter tomado um rumo “desastroso”, e “houve outras pessoas naquele dia prontas no seu desespero a acreditar que os alemães entrariam amanhã”. Claramente perturbado pela lembrança do frenético êxodo em massa da cidade, ele acrescentou o importante aviso de que “para ser justo, apenas uns poucos milhares daquelas dezenas de milhares poderiam ser condenados mais tarde pela história”. Em outras palavras, o pânico, ainda que dificilmente louvável, era absolutamente compreensível.
Numa carta para a mulher ou namorada, Heinrich Lansen, um dos soldados alemães que avançavam sobre Moscou, escreveu no dia 8 de outubro:
a vitória próxima sobre o Exército Vermelho deveria ser e será nossa. O poderoso Führer prometeu terminar vitoriosamente a campanha mais difícil da história antes do início do frio severo. […] Querida, em breve o seu desejo do final da guerra será realizado. Moscou, o baluarte do bolchevismo mundial, deverá cair dentro de poucos dias e o restante do Exército Vermelho será aniquilado junto com a capital inimiga. […] Talvez quando você estiver lendo estas linhas, a guerra no leste já esteja terminada.
A carta de Lansen nunca chegou à Alemanha, tendo terminado nas mãos da NKVD – quase certamente depois de o autor ter perecido. Mas, quando escreveu aquelas palavras, Moscou parecia extremamente vulnerável e suas previsões, ainda que inspiradas pela propaganda nazista, estavam longe de estratosféricas. Para evitar que se mostrassem precisas, os líderes políticos e militares soviéticos tiveram de mobilizar todos que puderam convocar para reforçar as defesas vacilantes da capital. Não bastava acalmar o pânico. As autoridades precisavam que os habitantes de Moscou contribuíssem, fazendo desse um gigantesco esforço militar-civil conjunto.
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Para fazer parar os tanques alemães, civis russos cavaram uma
rede enorme de trincheiras, armadilhas e barreiras de madeira nos
arredores de Moscou. Ao mesmo tempo, funcionários soviéticos
supervisionavam a evacuação de fábricas e departamentos do
governo para o leste. Por volta do final de 1941, metade da
população já tinha fugido ou sido evacuada.
Com a maioria dos homens já vestindo farda, equipes de mulheres, ao lado de rapazes jovens demais para servir, construíam enormes redes de trincheiras, armadilhas antitanque e barreiras feitas de árvores derrubadas, entrelaçadas por arame farpado que, consideradas em conjunto, estendiam-se por milhares de quilômetros nas estradas que levavam à cidade. Trabalhando noite e dia, eles também cavavam milhares de bases de artilharia. E na própria capital, montaram barricadas de rua para o caso de os alemães superarem todos os obstáculos. Irina Bogolyubskaya, adolescente à época, lembra-se de como os soldados chegaram ao seu apartamento em outubro e de como sua família se convenceu de que seria despejada. Mas eles instalaram uma metralhadora na janela dando para a rua em baixo. “Estavam se preparando para a luta de rua”, concluiu ela.
“Os moscovitas transformaram sua cidade numa fortaleza inexpugnável”, afirmava um dos relatos oficiais. “Todo edifício se tronou um bastião, toda rua uma área fortificada. Moscou estava eriçada de barricadas, armadilhas antitanque de metal e arame farpado.” Zhukov relatou que mais de meio milhão de habitantes da região de Moscou, principalmente mulheres, participavam desse esforço gigantesco, e que seu exemplo levantou dramaticamente o moral das tropas, “aumentando sua força e disposição de luta”.
Pelos relatos soviéticos desse período, essas alegações eram exploradas por todo o seu valor como propaganda, afastando rapidamente o pânico, as lutas e o caos para apresentar o retrato de uma cidade muito mais unida do que era na realidade. Ainda assim, muitos moscovitas estavam determinados e dedicados, fazendo todo o possível para contribuir para a defesa da sua cidade, não importa o quanto estivessem abalados pelo êxodo de tantos vizinhos, pelo breve, mas assustador quase colapso de toda autoridade, ou pelas dificuldades que sofriam durante um período prolongado de racionamento agudo de alimentos, com carência mais acentuada de pão.
O outro sofrimento – e perigo – eram os bombardeios aéreos alemães. Desde o primeiro, em 22 de julho, Moscou conviveu com bombardeios regulares. De acordo com um relatório da NKVD apresentado em 24 de novembro de 1941 a Beria, Schcherbakov e outros altos oficiais, houve 90 bombardeios alemães da cidade durante os primeiros cinco meses da guerra. “Aviões inimigos soltaram 1.521 bombas de demolição e 56.620 bombas incendiárias sobre a cidade”, informava ainda o relatório. Por causa desses ataques, 1.327 morreram, 1.931 foram gravemente feridos e 3.122 sem gravidade. Apesar de os jovens, sobretudo mulheres jovens, correrem pelos tetos dos edifícios para se livrarem das bombas incendiárias antes que provocassem grandes danos, os dispositivos iniciaram 1.539 incêndios. Tomadas em conjunto, os dois tipos de bombas destruíram 402 edifícios de apartamentos e provocaram danos em outros 852; 22 fábricas também foram destruídas e outras 102 instalações industriais foram parcialmente destruídas. Contagens posteriores que incluíram bombardeios subsequentes elevaram esses números: 2.196 mortos num total de 7.708 baixas; 577 edifícios de apartamentos destruídos e 5.007 danificados; 71 fábricas destruídas e 88 danificadas.
Mas esses relatos podem ter subestimado os danos. Nas suas memórias, o comandante de ar de Moscou, Nikolai Sbytov, só se lembra da contagem do ataque de um dia, 10 de outubro. Ele relatou que 70 aviões alemães participaram, 10 dos quais foram derrubados. “As bombas atingiram o Teatro Bolshoi, a estação Kursky, e o telégrafo central”, escreveu ele. “Cinquenta edifícios de apartamentos foram destruídos, 150 moscovitas morreram, 278 se feriram sem gravidade e 248 gravemente”. Acentuando que esse foi “apenas mais um ataque” de um total de 122 durante todo o período dos bombardeios sobre Moscou, que se estendeu até a primavera de 1943, Sbytov declarou que isso demonstrou uma contagem de baixas muito mais alta que geralmente relatado. “A simples aritmética há de mostrar que Moscou se transformou num cemitério não somente para a aviação alemã, mas também um túmulo para milhares e milhares da população civil.”
Todos os moscovitas viviam com medo desses ataques aéreos, refugiando-se nas estações do metrô, que serviam como abrigos antibombas, sempre que soavam as sirenes. Mas os avisos às vezes chegavam tarde demais. Irina Bogolyubskaya, a jovem que viu os soldados instalando uma metralhadora na janela do seu apartamento, entrou no edifício do telégrafo central para enviar um telegrama no dia do ataque descrito por Sbytov. Planejava entrar depois na fila diante da loja de alimentos, do outro lado da rua. De repente, uma explosão destruiu as janelas do edifício do telégrafo central. “Um avião soltou uma bomba que caiu entre a loja e o telégrafo central”, lembrou ela. “Foi horrível.” Quando saiu correndo do edifício, ela viu que quase todas as pessoas na fila diante da loja de alimentos morreram, e muitas outras se feriram com gravidade.
Os bombardeiros também atacaram os civis despachados para os arredores da cidade para preparar as linhas de defesa. Olga Sapozhnikova e outros operários da tecelagem de algodão Trekhgorka receberam ordens para cavar trincheiras a vários quilômetros do centro da cidade. “Foram dias terríveis”, disse ela ao correspondente britânico Alexander Werth. Referindo-se aos alemães pelo termo insultuoso popular, ela acrescentou: “no primeiro dia fomos metralhados por um fritz que mergulhou. Onze meninas foram mortas e quatro feridas”.
Vera Stepanova, que tinha 16 anos e vivia no centro, relembra que a primeira vez que foi surpreendida num bombardeio ela se congelou de medo, completamente incapaz de correr. O avião inimigo veio tão baixo que “tive a sensação de que podia ver os pilotos alemães”, disse ela.
O Kremlin também não foi poupado pelos bombardeios. Mikoyan relatou que tinha notícias de seis vezes em que as bombas alemãs caíram sobre o território desse enclave da liderança durante a guerra. Uma caiu no palácio do Kremlin, mas não explodiu, e outra errou por pouco uma das igrejas do Kremlin e também não explodiu. Mas em outra ocasião, uma bomba explodiu as janelas do salão de recepção de um edifício e, em um caso, Mikoyan e seu guarda de segurança da NKVD foram jogados no chão pela força de uma explosão perto do portão Spassky, que matou duas pessoas. Quando uma bomba atingiu o edifício do Arsenal, cerca de 30 soldados morreram. Em 28 de outubro, Malenkov foi convocado ao Kremlin por Stalin, apenas para ser informado de que o edifício do Comitê Central, de onde tinha acabado de sair, tinha sido atingido diretamente por uma bomba. “Salvei a sua vida”, disse Stalin.
Ainda assim, os alemães não foram tão bem-sucedidos com seus ataques aéreos, que nunca chegaram a nada semelhante à escala e ferocidade da blitz de Londres, e não foram nem de longe tão eficazes. De acordo com os números do Museu de Defesa de Moscou, somente cerca de 3% dos edifícios da cidade sofreram danos durante os bombardeios, muito longe da destruição extensiva na capital britânica. E, mesmo que as mortes de civis em Moscou tenham sido subestimadas, foram muito menores que as mais de 20 mil mortes em Londres.
Os alemães não estavam em posição de montar o tipo de ataque aéreo maciço sobre Moscou que conduziram contra a capital britânica. E logo descobriram, com os aviões que podiam usar na batalha, como era difícil penetrar o intenso fogo antiaéreo que encontravam na aproximação de Moscou e na própria cidade. O tenente Richard Wernicke, que pilotava um dos notórios bombardeiros de mergulho Ju-87 Stuka, lembrou como ficou surpreso, junto com os outros pilotos alemães, com a chuva de fogo antiaéreo que enfrentavam ao mergulhar sobre os alvos. “Era terrível: o ar estava cheio de chumbo, e eles atiravam com grande precisão. Nunca tínhamos visto coisa igual antes”, disse ele, aludindo ao fato de os aviões alemães terem encontrado pouca resistência nos primeiros meses da guerra.
Não foi por acidente. A liderança soviética tinha concentrado cerca de 40% de todas as suas baterias antiaéreas na capital ou no seu entorno. Havia baterias antiaéreas no alto do Moskva Hotel, ao lado da Praça Vermelha, e na dacha de Stalin, nos arredores da capital. A cidade também instalou gigantescos holofotes operados por mulheres que se alternavam dia e noite, sete dias por semana, em turnos de quatro horas. “Vestiam roupas de homens e tinham o cabelo cortado curto, rente à pele, porque tinham medo de várias doenças, tifo e piolho”, relembrou Tatyana Petrova, cuja mãe servia numa unidade de holofotes. “Era muito importante pegar rapidamente os aviões alemães no movimento cruzado dos holofotes para determinar sua altitude, direção e velocidade.” A informação era então transferida para as baterias antiaéreas para que pudessem fazer pontaria. Como obstáculo final, havia os blimps, dirigíveis mantidos sobre a cidade com redes penduradas que conseguiam reter alguns aviões voando baixo. O lado soviético afirmou ter derrubado 1.392 aviões alemães sobre Moscou.
Os pilotos alemães descobriam todo tipo de perigo antes mesmo de terem alcançado a capital. Canhões surgiam de bases ocultas de artilharia, e os novos caças soviéticos Yak-7 apareciam no céu. “Eram muito perigosos”, lembrou Wernicke. “Mergulhavam logo atrás de nós.” Depois do golpe inicial que destruiu a força aérea soviética, os alemães não tiveram muito com que se preocupar. Durante a Batalha de Moscou isso começou a mudar.
Tal como os soldados no chão, os pilotos alemães começaram a entender a ferocidade do clima russo. Eles também não tinham recebido roupas de inverno. Na terra, isso significava que eles estavam sempre com frio – e voando a 5 mil metros, eles literalmente congelavam em temperaturas que chegavam a -45ºC. “Ninguém suportava o frio”, disse Wernicke, ainda tremendo com a lembrança de como isso diminuía as chances de sobrevivência. Durante novembro e dezembro de 1941, quase a metade dos 100 aviões da sua esquadrilha, que decolava de uma pista em Kalinin, ao norte de Moscou, não retornou das suas missões.
Mas o perigo real para Moscou estava no chão, não no ar. Seriam as tropas dos dois lados em terra quem determinaria o resultado da batalha, e o Kremlin tentou lançar tropas novas de todas as formas possíveis. Durante o pânico na cidade, em 16 de outubro, a região de Moscou informava ter reunido 11.500 voluntários para “as brigadas comunistas” ou unidades de guarda da pátria. Como consistiam de trabalhadores que não tinham sido convocados anteriormente, ou, em alguns casos, que tinham sido rejeitados por razões de saúde, aquele número se reduziu a 10 mil no final do mês.
Desde o início, esses lutadores recém-formados estavam em grave desvantagem. Recebiam as sobras de armas, em geral armas obsoletas polonesas, francesas ou de outra marca estrangeira, algumas datando da Primeira Guerra Mundial. Muitas delas eram defeituosas ou não tinham a munição adequada. Eram problemas que vinham desde o início da invasão alemã, quando os primeiros voluntários foram reunidos apressadamente. Abram Gordon, que tinha acabado de se formar no Instituto Pedagógico do Estado, apresentou-se de imediato como voluntário. Viu-se numa unidade equipada com fuzis poloneses sem nenhuma bala. Vestindo qualquer uniforme que pudesse ser remendado, eles mal pareciam soldados comuns. Gordon se lembrava de ter resgatado um companheiro voluntário de nome Petrovsky, que tinha sido cercado por uma multidão gritando que ele era espião alemão, o que fez a polícia correr até a cena. “Nosso companheiro vestia uma farda preta, carregava um estranho fuzil polonês e, com sua barba e bigode, foi confundido com um paraquedista alemão.”
Mesmo quando receberam armas soviéticas mais modernas, os voluntários tiveram poucas chances de treinar com elas antes de se verem em ação. “Não era definitivamente um treinamento suficiente, pois muitos de nós manuseávamos armas pela primeira vez na vida”, disse Gordon. Mas logo foram lançados em batalha contra os tanques alemães, às vezes armados apenas com granadas e coquetéis molotov. Em muitos casos, eram praticamente missões suicidas.
E a morte podia vir de qualquer lado. Boris Kagan, um jovem engenheiro que se ofereceu como voluntário no dia 15 de outubro, viu-se no meio de uma batalha a cerca 40 km de Moscou. Quando sua unidade chegou à aldeia, ele viu soldados soviéticos fugindo dos alemães. “De repente um oficial [soviético] alto saiu correndo armado de uma casa e começou a atirar nos soldados que fugiam”, disse ele. Quatro soldados foram mortos.
Durante a luta na segunda metade de outubro, o comando militar de Zhukov lançou um apelo às tropas pedindo coragem “nessa grave hora do nosso Estado”. Era uma mensagem de patriotismo:
A Pátria nos convoca para nos erguermos como um muro indestrutível e barrar a chegada das hordas fascistas à nossa amada Moscou. Precisamos agora, como nunca antes, de vigilância, disciplina de ferro, organização, ação determinada, vontade inflexível da vitória e a disposição ao autossacrifício.
Para a liderança soviética, como sempre, isso se traduzia em disposição para o sacrifício de qualquer um que lhes parecesse merecedor – como bem o demonstrou o fuzilamento dos soldados em fuga. O Kremlin não via razão para recuar na sua política de terror, tivesse ou não alguma coisa a ver com a luta em andamento. Pelo contrário, a máquina de repressão continuou a funcionar, geralmente com intensidade redobrada. Poucos dias depois do apelo de Zhukov, os carrascos de Stalin voltaram ao trabalho – atacando dessa vez os que tinham sobrevivido aos julgamentos dos expurgos da década de 1930. Entre as vítimas: as viúvas do marechal Tukhachevsky e de vários outros altos oficiais julgados e fuzilados em 1938, e os famosos pilotos de caça da Guerra Civil Espanhola, Pavel Rychagov e Yakov Smushkevich. Nada, nem mesmo os esforços desesperados para salvar Moscou, foi capaz de interromper o derramamento de sangue interno.
Com a chegada dos primeiros trens especiais de evacuação no meio de outubro, Kuibyshev começou a se ajustar ao seu papel como capital soviética alternativa – uma designação que manteria até o verão de 1943, quando já não era considerada necessária. Liderados por altos funcionários e diplomatas estrangeiros, acompanhados de teatros e orquestras inteiros de Moscou, os recém-chegados triplicaram a população da cidade, de 300 mil para 900 mil. Muitos habitantes locais tiveram 24 horas para deixar seus apartamentos para os funcionários do governo e embaixadas estrangeiras, e não se fez nenhuma provisão para acomodá-los em outro lugar. A mensagem era simples: como locais, eles tinham de se arranjar, mudando para a casa de parentes ou de quem quer que se dispusesse a recebê-los.
Como se poderia esperar, uma das principais prioridades dos funcionários despachados para Kuibyshev era preparar acomodações seguras para Stalin, no pressuposto de que ele teria de ser relocado para lá. Apesar de escritórios e acomodações serem rapidamente preparadas num edifício de cinco andares no centro da cidade, os funcionários não estavam dispostos a economizar na proteção completa para seu líder, no caso de os alemães continuarem a avançar depois de Moscou. Fizeram planos para a construção de um enorme bunker enterrado fundo no terreno, cuja existência foi mantida em segredo não somente durante a guerra, mas até o fim da União Soviética quase cinco décadas mais tarde.
A construção do bunker só começou em fevereiro de 1942, quando 597 operários de construção civil altamente experientes vindos de Moscou chegaram especialmente para tocar o projeto. Trabalhavam de 16 a 18 horas por dia e escavaram 25 mil metros cúbicos de terra para construírem o bunker a 36 metros de profundidade: o que fazia dele o bunker mais profundo do mundo, o equivalente a um edifício de 12 andares abaixo da superfície. O de Hitler no seu quartel-general da Toca do Lobo, no leste da Prússia, tinha menos de 15 metros de profundidade. Terminado em novembro de 1942, o salão principal do bunker, que deveria ser a área de trabalho de Stalin, era do tamanho da estação Aeroport do metrô de Moscou, e foi construído com materiais semelhantes. Hoje o bunker é um museu e abrigo de emergência, capaz de acomodar 600 pessoas.
Mas depois de ter imposto a lei marcial em Moscou que acabou com os saques e outras agitações, Stalin decidiu que não seria evacuado – pelo menos não naquele momento. Como provou com a construção do bunker, ele não estava descartando completamente aquela possibilidade. Mas seu instinto lhe dizia que devia ficar em Moscou o máximo possível, reconhecendo que sua presença ali poderia ter um enorme impacto psicológico. Temendo ou odiando Stalin, muitos moscovitas e os soldados soviéticos que tentavam defendê-los, observavam todos os seus movimentos. Não é difícil entender que o pânico tenha começado quando se espalharam os boatos de que ele estava saindo de Moscou, ou que já teria deixado a cidade, e, depois, que as pessoas tivessem se animado quando souberam que ele ainda estava na capital.
Com a aproximação do dia 7 de novembro, o aniversário da Revolução Bolchevique, que seria normalmente a ocasião de uma exibição grandiosa do poder militar soviético, Stalin espantou Molotov e Beria ao perguntar: “como vamos fazer a parada militar? Talvez duas ou três horas mais cedo?”.
Nenhum dos dois amigos, nem o comandante militar de Moscou, o general Pavel Artemyev, tinha contemplado a possibilidade de realizar a parada militar numa época em que os alemães se aproximavam cada dia mais de Moscou e seus aviões executavam ataques aéreos regulares contra a cidade. Artemyev disse claramente que uma parada era impossível.
Mas Stalin já tinha decidido. “As defesas antiaéreas em torno de Moscou devem ser reforçadas”, declarou.
Os principais líderes militares estão no front. O [general] Budenny deve assumir a parada e o general Artemyev estará no comando. Se houver um ataque aéreo durante a parada e houver mortos e feridos, eles deverão ser removidos o mais rápido possível e a parada deve continuar. Um filme deverá ser feito e distribuído por todo o país. Os jornais devem fazer uma ampla cobertura da parada.
Acrescentou que aproveitaria a ocasião para fazer um discurso. “O que você acha?” Molotov levantou a objeção óbvia. “Mas, e o risco? Haveria risco, embora eu tenha de admitir que a resposta política aqui e no exterior seria enorme.”
“Então está decidido!”, Stalin concluiu. “Tome as providências necessárias.”
Era quase como se o líder soviético soubesse alguma coisa – ou tivesse razão para esperar alguma coisa – que provasse que o risco valia a pena.