A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 6 de 6 · parte 4/9

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Terceira Parte • os Sofrimentos do Inventor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

confiou seus padecimentos, pedindo-lhe socorro e proteção.

Basine, que, para maior discrição, levara Eva para o quarto de dormir,

abriu a porta de um salão contíguo, cuja luz vinha de uma claraboia e para

dentro do qual ninguém poderia olhar. As duas amigas destaparam um

pequeno fogão cuja chaminé acompanhava a do fogão da oficina onde as

operárias faziam fogo para os seus ferros. Eva e Basine estenderam cobertas

velhas no soalho para abafar os ruídos que David pudesse fazer

involuntariamente; arranjaram-lhe um catre, um forno para as suas

experiências, uma mesa e uma cadeira para sentar e escrever. Basine

prometeu dar-lhe de comer à noite, e, como ninguém jamais penetrava em

seu quarto, podia David desafiar todos os seus inimigos, e até a polícia.

— Enfim — disse Eva, beijando a amiga —, está ele em segurança.

Eva voltou à casa de Postel para esclarecer certa dúvida que, disse ela, a

trazia de novo ante um juiz tão competente do Tribunal de Comércio, e fez

com que ele a conduzisse até em casa, ouvindo-lhe as queixas.

— Se tivesse casado comigo, estaria agora em tal situação?...

Era esse o sentimento que estava no fundo de todas as frases do

pequeno farmacêutico. No regresso, Postel encontrou a mulher enciumada

da admirável beleza da sra. Séchard e furiosa com a polidez de seu marido.

Leôncia ficou tranquilizada com a opinião que o farmacêutico alegou ter quanto à superioridade das mulheres baixas e ruivas sobre as mulheres altas

e morenas, que, a seu ver, eram como belos cavalos, eternamente na

estrebaria. Decerto deu algumas provas de sinceridade, pois no dia seguinte

a sra. Postel se mostrava muito carinhosa.

— Podemos ficar tranquilas — disse Eva a sua mãe e a Marion, a quem

encontrou ainda estuporadas, segundo a expressão da própria Marion.

— Oh! eles partiram — disse Marion quando Eva olhou maquinalmente

para o seu quarto.

 

XVII – DUAS EXPERIÊNCIAS,

UMA QUE NÃO ATINGIU O CORAÇÃO PATERNO

E OUTRA QUE ATINGIU O SEU FIM

 

— Para onte tevemos tirichir-nos? — perguntou Kolb, depois de avançarem

uma légua na estrada de Paris.

— Para Marsac — respondeu David. — Já que me puseste neste

caminho, vou fazer uma última tentativa sobre o coração de meu pai.

— Eu preferia assaltar uma pateria de canions, pois ou zenior zeu

pai non tem coraçon.

O velho impressor não acreditava no filho; julgava-o, como julga o povo,

segundo os resultados. Primeiro, não julgava haver espoliado David; e,

depois, sem atentar na diferença das épocas, dizia consigo: “Coloquei-o à

frente de uma tipografia, como eu mesmo estive; e ele, que sabia mil vezes

mais do que eu, não soube ir avante!”.

Incapaz de compreender o filho, condenava-o, e arrogava-se sobre

aquela alta inteligência uma espécie de superioridade, pensando:

— Eu lhe guardo o pão.

Jamais conseguirão os moralistas fazer com que se compreenda toda a

influência que os sentimentos exercem sobre os interesses. Essa influência é

tão poderosa como a dos interesses sobre os sentimentos. Todas as leis da

natureza têm duplo efeito, em sentido inverso. David compreendia o pai e

tinha a sublime caridade de escusá-lo. Chegando às oito horas em Marsac,

Kolb e David surpreenderam o velho no fim do jantar, que se aproximava

forçosamente da hora de se meter na cama.

— Só te vejo por força da justiça — disse o pai ao filho, com um amargo

sorriso.

— Mas como potem os tois encontrar-se — exclamou Kolb, indignado

—, se ele anta nas nuvens e o zenior zempre nas zuas vinhas?!... Pague,

pague! É a zua oprigaçon te pai.

— Anda, Kolb, vai-te embora; leva o cavalo para a estrebaria da sra.

Courtois, para que não dê incômodo a meu pai, e fica sabendo que os pais

têm sempre razão.

Kolb retirou-se, rosnando como um cão com que o dono ralha para que

se aquiete e que protesta embora obedecendo. David, sem revelar os seus

segredos, ofereceu-se então ao pai para lhe dar a prova mais evidente da sua

descoberta, propondo-lhe um interesse no negócio em troca das somas que

lhe eram necessárias, tanto para se livrar imediatamente das dívidas como

para entregar-se à exploração de seu segredo.

— E como me provarás que podes fazer com coisa nenhuma um bom

papel que não custa nada? — perguntou o antigo tipógrafo, lançando ao

filho um olhar avinhado, mas fino, curioso, ávido.

Dir-se-ia um relâmpago saindo de uma nuvem chuvosa, pois o velho

Urso, fiel às suas tradições, nunca se deitava “sem pôr a touca de dormir”.

Sua touca consistia em duas garrafas de excelente vinho velho que, segundo

a sua expressão, ele bebericava.

— Nada mais simples — disse David. — Não tenho papel comigo, vim por

aqui para fugir de Doublon; e, vendo-me na estrada de Marsac, pensei que

bem poderia conseguir com o senhor as facilidades que conseguiria com um

usurário. Só tenho a roupa do corpo. Encerre-me num local bem fechado,

onde ninguém possa penetrar, onde ninguém me possa ver, e...

— Como! — exclamou o velho, lançando ao filho um terrível olhar. —

Então não me deixarás assistir às tuas operações?

— Meu pai — respondeu David —, o senhor me provou que não há pai

em negócios...

— Ah! com que então desconfias de quem te deu a vida!

— Não, mas de quem me tirou os meios de vida.

— Tens razão, cada um por si! — disse o velho. — Está bem, vou pôr-te

no meu celeiro.

— Entro lá com Kolb; o senhor me dará uma caldeira para fazer a pasta

— continuou David, sem perceber o olhar que lhe lançou o pai —, depois irá

conseguir-me talos de alcachofras, de espargos, urtigas e caniços, que cortará

à margem de seu arroio. Amanhã de manhã sairei de seu celeiro com um

papel magnífico.

— Se for possível! — exclamou o urso, deixando escapar um arroto —, eu

talvez te dê... isto é, verei se posso dar-te... digamos aí uns vinte e cinco mil

francos, com a condição de que me faças ganhar outro tanto por ano...

— Ponha-me à prova, eu consinto! — exclamou David. — Kolb, monta a

cavalo, vai até Mansle, compra-me uma peneira de crina e cola, e volta a

toda pressa.

— Toma, bebe!... — disse o pai, colocando diante do filho uma garrafa de

vinho, pão e restos de carne fria. — Toma forças, que eu vou conseguir-te a

tua provisão de trapos verdes, pois que são verdes os teus trapos! Tenho até

medo de que sejam demasiado verdes.

Duas horas depois, pelas onze da noite, o velho encerrava o filho e Kolb

numa pequena peça contígua ao celeiro, coberta de telha-vã, e onde se

achavam os utensílios necessários para queimar os vinhos do Angoumois, que

fornecem, como é sabido, todas as aguardentes chamadas de Cognac.

— Oh! mas estou aqui como numa fábrica!... há lenha e caldeiras! —

exclamou David.

— Pois bem, até amanhã — disse o velho Séchard —, eu vou encerrá-los,

e soltarei os meus dois cachorros; estou certo de que ninguém trará papel a

vocês. Mostra-me umas folhas amanhã, e declaro que serei teu sócio; os

negócios serão então claros e bem conduzidos...

Kolb e David deixaram-se encerrar e passaram cerca de duas horas a

triturar e preparar os talos, servindo-se de dois paus. O fogo ardia, a água

fervia. Pelas duas da madrugada, Kolb, menos atarefado do que David,

ouvindo um suspiro que mais se parecia com um arroto de bêbado, tomou

uma das candeias e pôs-se a olhar por toda parte: avistou então o rosto

violáceo do velho Séchard, que enchia uma pequena abertura quadrada no

alto da porta que dava para o celeiro que se achava encoberta com pipas

vazias. O finório do velho introduzira o filho e Kolb na peça do alambique

pela porta exterior que servia para fazer sair os produtos. A porta interna permitia rolar as pipas do celeiro para o alambique sem dar a volta do pátio.

— Ah!, mas istou non está tireito! — exclamou Kolb. — Anta querentou

encanar zeu filiou... Zabe ou que faz quanto pepe uma carrafa de pom

vinhou? O zenior empempeta um pom velhacou.

— Meu pai! — exclamou David.

— Eu vinha ver se vocês não precisavam de alguma coisa — disse o

vinhateiro, quase sóbrio.

— E foi por nossou interesse que arranjou uma escatínia? —

perguntou Kolb, que abriu a porta depois de afastar as pipas e encontrou o

velho de camisola, trepado numa escada de mão.

— Arriscar assim a saúde! — exclamou David.

— Creio que sou sonâmbulo — disse o velho, envergonhado, descendo da

escada. — Tua falta de confiança em teu pai me fez sonhar, eu pensava que

te entendias com o diabo para realizar o impossível.

— Ou tiapou é zua paixon pelas moedas amarelínias! — exclamou

Kolb.

— Vá deitar-se, meu pai — disse David. — Encerre-nos se assim o quer,

mas poupe-se o trabalho de voltar: Kolb vai ficar de sentinela.

No dia seguinte às quatro horas, depois de fazer desaparecer todos os

vestígios das suas operações, David saiu de seu reduto e foi apresentar ao pai

umas trinta folhas de papel cuja fineza, alvura, consistência e força nada

deixavam a desejar, e que tinha como filigrana as marcas dos fios da peneira,

mais grossos uns do que os outros. O velho tomou das amostras e passou-lhes

a língua, como urso que era, habituado desde moço a fazer do paladar um

experimentador de papel; manejou-as, amassou-as, dobrou-as, submeteu-as

a todas as provas por que os tipógrafos fazem passar os papéis para lhes

reconhecer as qualidades, e, embora nada tivesse que objetar, não quis

confessar-se vencido.

— Resta saber o que isto dará no prelo!... — disse ele, para se dispensar

de louvar o filho.

— Que zucheitou! — exclamou Kolb.

O velho, de novo impassível, cobriu com a dignidade paterna uma

irresolução fingida.

— Não quero enganá-lo, meu pai, esse papel ainda me parece muito caro, e eu pretendo resolver o problema de o colar na pasta... É a única

vantagem que me resta conseguir...

— Ah! querias apanhar-me!

— Ora!, colar, eu colo, mas por enquanto a cola não penetra igualmente

a pasta, e dá ao papel a aspereza de uma escova.

— Pois bem, aperfeiçoa essa colagem, e poderás contar com meu

dinheiro.

— Meu patron nunca há de ver a cor tesse tinheirou! — aparteou

Kolb.

Evidentemente, o velho queria vingar-se da vergonha que passara na

noite anterior, de modo que passou a tratar mais do que friamente a David.

— Meu pai — disse David, que mandara Kolb retirar-se —, eu nunca lhe

quis mal por haver avaliado exorbitantemente a sua tipografia e tê-la

vendido a mim nessa base; sempre o considerei como um pai. Disse comigo:

“Deixemos um velho que muito lidou, e que decerto me educou muito

melhor do que devia, gozar em paz e à sua maneira do fruto de seus

trabalhos”. Abandonei-lhe até a herança materna e encetei sem murmurar a

vida afanosa que me destinou. Resolvi enriquecer sem importuná-lo. Pois

bem, este segredo, eu o descobri, com os pés no fogo, sem pão em casa,

atormentado por dívidas que não contraí... Sim, lutei pacientemente até que

minhas forças se esgotassem. Talvez esteja o senhor na obrigação de socorrer-

me!... mas não pense em mim, veja uma mulher e uma criancinha... (aqui

David não pôde conter as lágrimas) e lhes dê auxílio e proteção. Ficaria o

senhor abaixo de Marion e de Kolb, que me deram as suas economias? —

exclamou o filho, vendo o pai frio como uma pedra de prelo.

— E essas economias não te bastaram? — exclamou o velho

desavergonhadamente. — Serias capaz de devorar a França inteira!... Temos

conversado! Sou muito ignorante para me meter em explorações em que o

único explorado seria eu. O símio não comerá o urso — disse ele, fazendo

alusão aos apelidos do ofício. — Sou vinhateiro, não banqueiro... E, depois,

isto de negócios entre pai e filho não dá ponto. Olha, vamos jantar, não hás

de dizer que eu não te dou nada!...

David era uma dessas criaturas de coração profundo, onde podem

ocultar os sofrimentos de modo que se tornem secretos para os que lhe são queridos; neles, quando a dor transborda dessa forma, é esse o seu supremo

esforço. Eva bem compreendera aquele belo caráter de homem. Mas o pai

apenas viu, naquela onda de dor trazida do fundo para a superfície, a

queixa vulgar dos filhos que querem apanhar o pai, e tomou a humilhação

do filho pela vergonha do insucesso. Pai e filho separaram-se brigados. David

e Kolb regressaram cerca da meia-noite para Angoulême, onde entraram a

pé com tanta cautela como ladrões que fossem cometer um roubo. Pela uma

da madrugada, David foi introduzido, sem testemunhas, na residência da

srta. Basine Clerget, impenetrável asilo que a esposa lhe preparara. Ali

entrando, David ia ser guardado pela mais engenhosa de todas as piedades,

a de uma grisette. No dia seguinte de manhã, Kolb gabou-se de ter feito o

patrão escapulir a cavalo, e de só o ter deixado depois que o metera numa

carroça que o devia levar para as imediações de Limoges. Armazenou-se no

porão de Basine grande quantidade de provisões, de modo que Kolb, Marion,

a sra. Séchard e sua mãe puderam prescindir de quaisquer relações com a

srta. Clerget.

 

XVIII – NA DISPUTA DA PRESA,

QUANDO OS CÃES SE ENTREOLHAM

 

Dois dias depois da cena com o filho, o velho Séchard, que dispunha ainda

de vinte dias antes de se entregar aos trabalhos da vindima, correu à casa da

nora, levado pela cupidez. Já nem podia dormir, queria saber se a descoberta

oferecia alguma probabilidade de sucesso e pensava em cuidar do bolo,

segundo a sua expressão. Foi morar acima dos aposentos da nora, num dos

dois quartos que reservara para si na água-furtada, e ali viveu, fechando os

olhos à penúria que afligia o lar do filho. Deviam-lhe aluguéis, bem podiam

alimentá-lo! Não achava nada de mais que se servissem de talheres de

estanho.

— Comecei assim — respondeu à nora quando esta se desculpou por não

o servir com talher de prata.

Marion viu-se obrigada a ficar de fiadora, junto ao comércio, por tudo

quanto se consumia em casa. Kolb trabalhava de pedreiro, a vinte sous por

dia. Afinal, em breve não restavam mais que dez francos à pobre Eva, que, no interesse do filho e de David, sacrificava os últimos recursos para bem

acolher o vinhateiro. Esperava sempre que seus agrados, seu respeitoso afeto,

sua resignação acabariam por enternecer o avarento; mas encontrava-o

sempre insensível. Enfim, vendo nele o olhar frio dos Cointet, de Petit-Claud

e de Cérizet, quis observar o seu caráter e sondar as suas intenções; mas foi

tudo trabalho perdido! O velho Séchard permanecia impenetrável, embora

estivesse sempre entre dois vinhos. A embriaguez é um duplo véu. Por trás

da sua meia bebedeira, tantas vezes fingida quanto real, o homenzinho

tentava arrancar a Eva os segredos de David. Ora acariciava, ora assustava a

nora. Quando Eva lhe respondia que ignorava tudo, ele dizia:

— Vou beber tudo o que tenho, porei meus bens em usufruto...

Essas desonrosas lutas fatigavam a pobre vítima que, para não faltar com

o respeito ao sogro, acabara por guardar silêncio. Um dia, não podendo mais,

ela lhe disse:

— Mas, meu pai, há uma maneira muito simples de conseguir o que

deseja: pague as dívidas de David, ele voltará para casa e os dois se

entenderão.

— Ah, então é isso que querem de mim?! — exclamou ele. — É bom que

eu saiba...

O velho Séchard, que não acreditava no filho, acreditava nos Cointet. Os

Cointet, a quem foi consultar, o deslumbraram de propósito, dizendo-lhe

que as pesquisas empreendidas por seu filho eram coisa de render milhões.

— Se David conseguir demonstrar que obteve sucesso, não hesitarei em

tomá-lo como sócio em partes iguais na minha fábrica de papel, para

exploração da sua descoberta — disse-lhe o Cointet grande.

Tantas informações tomou o desconfiado velho, bebendo traguinhos

com os operários, interrogou tão bem a Petit-Claud, fingindo-se de tolo, que

acabou por suspeitar os Cointet de se ocultarem atrás de Métivier; atribuiu-

lhes o plano de arruinar a tipografia Séchard e apanhar o dinheiro dele com

o engodo da descoberta, pois o velho homem do povo não podia adivinhar a

cumplicidade de Petit-Claud nem nas tramas urdidas para se apoderarem

algum dia daquele belo segredo industrial. Um dia, afinal, exasperado por

não poder vencer o silêncio da nora nem ao menos saber por ela o paradeiro

do filho, o velho resolveu forçar a porta da peça onde se fundiam os rolos, depois de ter enfim sabido que era ali que David fazia as suas experiências.

Desceu de madrugada e pôs-se a bulir na fechadura.

— Que é que está fazendo aí, tio Séchard? — gritou Marion, que se

levantava ao raiar do dia para ir para a fábrica e que acorreu logo.

— Pois não estou em minha casa?! — disse ele confuso.

— Sim, senhor! Quer dizer que depois de velho deu para ladrão? Mas

isto não fica assim. Vou agora mesmo contar tudo à senhora.

— Cala-te, Marion — disse o velho, tirando do bolso dois escudos de seis

francos. — Toma...

— Calo-me, mas não faça mais isso — disse Marion, ameaçando-o com o

dedo —, senão vou contá-lo a toda Angoulême!

Logo que o velho se retirou, Marion foi ter com a patroa.

— Tome, senhora, estes doze francos que tirei de seu sogro...

— Mas como?

— Pois não é que ele queria examinar as caldeiras e as provisões do

patrão, para pilhar o segredo?! Bem sabia eu que não havia mais nada lá,

mas alarmei-o como se ele estivesse a roubar o filho, e então o velho me deu

dois escudos para me fazer calar a boca...

Naquele momento, Basine trazia alegremente à amiga uma carta de

David, escrita em magnífico papel, que lhe entregou em segredo:

 

Eva adorada,

Escrevo a ti em primeiro lugar na primeira folha de papel que obtenho

com os meus processos. Consegui resolver o problema da colagem na

cuba. A libra de pasta, mesmo supondo o cultivo especial de bons

terrenos para os produtos que emprego, sai a cinco sous. Assim, uma

resma de doze libras gastará três francos de massa com cola. Tenho

certeza de que poderei diminuir em metade o peso dos livros. Este

envelope, a carta e as amostras são de fabricações diferentes. Beijo-te,

seremos felizes pela riqueza, a única coisa que nos faltava.

 

— Olhe — disse Eva ao sogro, estendendo-lhe as amostras —, dê para seu

filho o rendimento da colheita deste ano, que ele lhe devolverá dez vezes mais, pois alcançou completo sucesso!...

O velho Séchard correu em seguida à casa dos Cointet. Ali, cada amostra

foi experimentada e meticulosamente examinada: umas tinham cola, outras

não; todas traziam o preço marcado, de três a dez francos a resma; umas

eram de pureza metálica, outras macias como papel da China; havia-as de

todas as nuanças possíveis do branco. Judeus que examinassem diamantes

não teriam uns olhos mais animados do que os Cointet e o velho Séchard.

— Seu filho está em bom caminho — disse o Cointet gordo.

— Então paguem as dívidas dele — retrucou o velho impressor.

— Com muito gosto, se ele nos tomar como sócios — respondeu o Cointet

grande.

— Vocês são uns finórios! — exclamou o urso aposentado. — Processam

meu filho por detrás de Métivier, e querem que eu lhes pague, não é? Nessa

não caio eu!...

Os dois irmãos se entreolharam, mas souberam conter a surpresa que

lhes causava a perspicácia do avarento.

— Ainda não somos milionários para nos divertirmos descontando letras

— replicou o Cointet gordo —; seríamos muito felizes se pudéssemos pagar

nossos trapos à vista, e ainda assinamos letras para o nosso fornecedor.

— É preciso tentar uma experiência em grande escala — respondeu

friamente o Cointet grande —, pois o que sai bem numa marmita pode

fracassar numa fábrica. Liberte primeiro o seu filho.

— Sim, mas será que meu filho, uma vez livre, irá admitir-me como

sócio? — indagou o velho Séchard.

— Isso não é conosco — disse o Cointet gordo. — Acha então que, depois

de ter dado dez mil francos a seu filho, nada mais será preciso? Uma

patente de invenção custa dois mil francos e tem-se de fazer viagens a Paris;

de resto, antes de entrar em ação nesse sentido, é prudente fabricar mil

resmas, como diz meu irmão, arriscar cubas inteiras para ver no que dá.

Olhe, não há nada de que se deva desconfiar tanto como dos inventores.

— Comigo — disse o Cointet grande — é tudo às claras.

O velho passou a noite a ruminar este dilema: “Se pago as dívidas de

David, ele está livre e, uma vez livre, não precisa de mim como sócio. Bem

sabe que o embrulhei em nossa primeira sociedade e não há de querer fazer uma segunda. Meu interesse, portanto, seria mantê-lo preso, na desgraça”.

Os Cointet conheciam bastante o velho Séchard para saber que caçariam

juntos. Pensavam, pois, os três: “Para constituir uma sociedade baseada no

segredo, é preciso fazer experiências; e, para fazer experiências, é preciso

libertar David Séchard. David em liberdade nos escapa”.

Além disso, cada qual tinha a sua ideia oculta. Petit-Claud considerava:

“Depois de meu casamento, faço o que quero com os Cointet; mas, até lá,

fico com eles”.

Pensava o Cointet grande: “Preferia ter David nas grades, aí então

mandaria eu”.

E o velho Séchard, por sua vez: “Se lhe pago as dívidas, meu filho dá-me

um adeusinho, e mais nada”.

Eva, atacada, ameaçada pelo vinhateiro de ser posta no olho da rua, não

queria revelar o asilo do marido nem lhe propor um salvo-conduto. Não

estava certa de poder ocultá-lo uma segunda vez tão bem como da primeira,

e respondia, pois, ao sogro:

— Liberte seu filho, e saberá tudo.

Nenhum dos quatro interessados, que se achavam todos como ante uma

mesa bem servida, ousava tocar nos pratos, por medo de que o vizinho fosse

mais rápido; e todos se observavam, desconfiando uns dos outros.

 

XIX – O FUTURO DE PETIT-CLAUD

 

Alguns dias depois da reclusão de Séchard, Petit-Claud fora falar com o

Cointet grande na fábrica.

— Fiz o mais que pude — disse-lhe ele. — David colocou-se

voluntariamente numa prisão que desconhecemos, e onde procura em paz

algum aperfeiçoamento. Se o senhor não conseguiu seus fins, a culpa não foi

minha. Está disposto a cumprir sua promessa?

— Por certo, se triunfarmos — respondeu Cointet. — O velho Séchard,

que anda por aqui há alguns dias, veio fazer-nos perguntas sobre o fabrico do

papel; o velho avarento farejou a invenção do filho e quer aproveitar-se; há

portanto esperanças de uma sociedade. Você é solicitador do pai e do filho...

— Tenha então o espírito santo de entregá-los — concluiu Petit-Claud sorrindo.

— Sim — respondeu Cointet. — Se você conseguir meter David na prisão

ou em nossas mãos por uma escritura de sociedade, será marido da srta. de

La Haye.

— É esse então seu ultimatum? — perguntou Petit-Claud.

— Yes — disse Cointet —, já que estamos a falar estrangeiro.

— Eis agora o meu em bom francês — replicou Petit-Claud em tom seco.

— Ah! sim? Vejamos — volveu Cointet com um ar curioso.

— Apresente-me amanhã à sra. de Sénonches, faça com que haja algo de

positivo para mim, cumpra em suma a sua promessa, ou então eu pago a

dívida de Séchard e me associo com ele, vendendo o meu cargo. Não quero

que me enganem. O senhor me falou claro, sirvo-me da mesma linguagem.

Já dei minhas provas, dê o senhor as suas. O senhor tem tudo, e eu, nada. Se

não recebo garantias de sua sinceridade, empato-lhe as cartadas.

O Cointet grande tomou o seu chapéu, o seu guarda-chuva, o seu ar de

jesuíta e saiu, dizendo a Petit-Claud que o acompanhasse.

— Verá, meu caro amigo, se eu não preparei o caminho! — disse o

negociante ao solicitador.

Num momento, o fino e astuto papeleiro reconhecera o perigo da sua

posição e vira em Petit-Claud um desses homens com quem é preciso jogar

jogo franco. Para estar em condições e por descargo de consciência, sob o

pretexto de apresentar um apanhado da situação financeira da srta. de La

Haye, já tinha ele lançado algumas palavras ao ouvido do antigo cônsul-

geral.

— Tenho o que convém a Francisca, pois hoje em dia, com trinta mil

francos de dote — disse ele a sorrir —, não pode uma moça ser exigente.

— Falaremos nisso — respondeu Francis du Hautoy. — Depois da

partida da sra. de Bargeton, a posição da sra. de Sénonches está muito

mudada: podemos casar Francisca com algum velho fidalgo provinciano.

— E ela se portará mal — disse o papeleiro, reassumindo o seu ar frio. —

Qual nada! Case-a com um jovem capaz, ambicioso, a quem o senhor

protegerá e que elevará a mulher a uma bela posição.

— Veremos — repetiu Francis. — Primeiramente é preciso consultar a

madrinha.

Após a morte do sr. de Bargeton, Luísa de Nègrepelisse resolvera pôr a

venda o palacete da Rue du Minage. A sra. de Sénonches, que então se

achava modestamente alojada, induziu o sr. de Sénonches a comprar a

referida casa, berço das ambições de Luciano e onde começou esta cena.

Zeferina de Sénonches concebera o plano de suceder à sra. de Bargeton na

espécie de realeza que esta exercera, de ter um salão, de fazer-se, em suma,

grande dama.

Ocorrera uma cisão na alta sociedade de Angoulême, por ocasião do

duelo do sr. de Bargeton com o sr. de Chandour, entre os que se

pronunciaram pela inocência de Luísa de Nègrepelisse e os que acreditaram

nas calúnias de Estanislau de Chandour. A sra. de Sénonches se declarou

pelos Bargeton e conquistou de início todos os desse partido. Depois,

instalada que foi em seu palacete, aproveitou-se dos hábitos de muita gente

que ali tinha vindo jogar durante anos. Deu recepção todas as noites,

levando decidida vantagem sobre Amélia de Chandour, que se apresentara

como sua antagonista.

As esperanças de Francis du Hautoy, que se viu em plena aristocracia de

Angoulême, iam até o desejo de casar Francisca com o velho sr. de Séverac,

que a sra. du Brossard não pudera capturar para a sua filha. O regresso da

sra. de Bargeton, agora como primeira-dama do prefeito de Angoulême,

aumentou as pretensões de Zeferina para a sua querida afilhada. Dizia

consigo que a condessa Sixto du Châtelet poria em jogo sua influência em

prol daquela que se constituíra seu paladino. O papeleiro, que conhecia a

sua Angoulême na ponta dos dedos, pesou num relance todas as

dificuldades; mas resolveu sair de tal impasse por uma dessas audácias que

só Tartufo[404] se teria permitido. O pequeno solicitador, bastante surpreso

com a lealdade de seu comanditário em chicana, deixava-o entregue às suas

preocupações no trajeto da fábrica de papel ao palacete da Rue du Minage,

em cujo patamar os dois intrusos foram detidos com estas palavras:

— O senhor e a senhora estão almoçando.

— Anuncie-nos assim mesmo — respondeu o Cointet grande.

E o devoto comerciante, logo introduzido, apresentou-o à enfatuada

Zeferina, que almoçava com o sr. Francis du Hautoy e a srta. de La Haye. O

sr. de Sénoches fora, como sempre, inaugurar a estação de caça nas propriedades do sr. de Pimentel.

— Eis aqui, minha senhora, o jovem advogado-solicitador de quem lhe

falei, e que se encarregará da emancipação da sua formosa pupila.

O antigo diplomata examinou Petit-Claud, o qual, por sua vez, olhava a

furto para a formosa pupila. Quanto à surpresa de Zeferina, a quem jamais

Cointet nem Francis haviam falado de tal assunto, foi tamanha que o garfo

lhe tombou das mãos.

A srta. de La Haye, espécie de pega de cara azeda, desgraciosa de corpo,

magra, cabelos de um loiro desbotado, era, apesar do seu arzinho

aristocrático, excessivamente difícil de casar. Estas palavras: “Pais

desconhecidos”, de seu registro de nascimento, lhe vedavam na realidade a

esfera em que a amizade da madrinha e de Francis a queria introduzir. A

srta. de La Haye, ignorando a sua situação, fazia-se de difícil: ela rejeitaria o

mais rico comerciante do Houmeau. A careta assaz significativa inspirada à

srta. de La Haye pelo aspecto do magro solicitador encontrou-a também

Cointet nos lábios de Petit-Claud. A sra. de Sénonches e Francis pareciam

consultar-se sobre a maneira de despedir Cointet e seu protegido. Cointet,

que notara tudo, pediu ao sr. du Hautoy que lhe concedesse um momento

de audiência e passou para o salão com o diplomata.

— O senhor — disse-lhe Cointet sem rodeios — deixa-se cegar pela

paternidade. Dificilmente poderá casar a sua filha; e, no interesse de todos,

coloquei-o na impossibilidade de recuar; pois estimo Francisca como se

estima uma pupila. Petit-Claud sabe de tudo!... Sua desmedida ambição

garante a felicidade de sua querida filha. Primeiramente, Francisca fará do

marido tudo o que quiser; mas o senhor, auxiliado pela prefeita que nos

chega, poderá fazê-lo solicitador da Coroa. O sr. Milaud está positivamente

transferido para Nevers. Petit-Claud venderá o cargo, o senhor lhe obterá

facilmente o lugar de segundo delegado, e ele em breve será solicitador da

Coroa, depois presidente do tribunal, deputado...

Voltando à sala de jantar, Francis mostrou-se amabilíssimo para com o

pretendente da filha. Fitou de maneira significativa a sra. de Sénonches, e

acabou aquela cena de apresentação convidando Petit-Claud para jantar no

dia seguinte para tratarem de negócios. Depois acompanhou o negociante e

o solicitador até o pátio, dizendo a Petit-Claud que, em vista da recomendação de Cointet, estava disposto, bem como a sra. de Sénonches, a

confirmar tudo quanto o zelador da fortuna da srta. de La Haye teria

disposto a bem da felicidade daquele anjinho.

— Ah! como é feia! — exclamou Petit-Claud. — Fui caçado!...

— Ela tem um ar distinto — respondeu Cointet. — Mas, se fosse bonita,

decerto não lha dariam... Olhe, meu caro, há mais de um pequeno

proprietário a quem trinta mil francos e a proteção da sra. de Sénonches e

da condessa du Châtelet iriam às maravilhas; tanto mais que o sr. Francis du

Hautoy nunca se casará, e essa pequena é sua herdeira... Seu casamento

está garantido!...

— Mas como?

— Eis o que acabo de dizer — tornou Cointet, contando ao solicitador o

seu golpe de audácia. — Meu caro, dizem que o sr. Milaud vai ser nomeado

solicitador da Coroa em Nevers; você venderá seu cargo e, dentro de dez

anos, será chanceler. É bastante audacioso para não recuar diante de

nenhum dos serviços que a Corte lhe pedir.

— Pois bem, encontre-me amanhã às quatro e meia na Place du Mûrier

— respondeu o solicitador, fanatizado com as probabilidades daquele futuro.

— Terei falado com o velho Séchard, e chegaremos a uma sociedade em que

o pai e o filho ficarão pertencendo ao Espírito Santo dos Cointet.

 

XX – UMA FRASE DE CURA

 

No momento em que o velho cura de Marsac subia as ladeiras de Angoulême

para ir informar Eva do estado em que se encontrava seu irmão, fazia onze

dias que David estava oculto a duas portas daquela que o digno sacerdote

acabava de deixar.

Ao entrar na Place du Mûrier, o padre Marron ali encontrou três

homens, notáveis cada qual no seu gênero, que forçavam com todo o seu

peso o futuro e o presente do pobre prisioneiro voluntário: o velho Séchard,

o Cointet grande e o pequeno solicitador magricela. Três homens, três

cobiças, mas três cobiças tão diferentes como os homens! Um havia

planejado vender o filho; o outro, o seu cliente; e o Cointet grande

comprava essas infâmias, muito satisfeito de nada desembolsar na transação. Eram cerca de cinco horas, e a maioria dos que voltavam para jantar em casa

parava a contemplar por um momento aqueles três homens.

— Que diabo têm a dizer-se o velho Séchard e o Cointet grande?... —

pensavam os mais curiosos.

— Tratam decerto desse pobre coitado que deixa a mulher, o filho e a

sogra na miséria — respondiam.

— É no que dá mandar os filhos aprender em Paris! — dizia um espírito

forte provinciano.

— Olá! Que vem fazer aqui, senhor cura?! — exclamou o vinhateiro, ao

avistar o padre Marron logo que surgiu na praça.

— Venho pelos seus — respondeu o cura.

— Mais alguma ideia de meu filho!... — exclamou o velho Séchard.

— Muito pouco lhe custaria tornar a todos felizes — disse o padre,

indicando as janelas onde a sra. Séchard entremostrava atrás das cortinas a

sua bela cabeça.

Naquele momento estava Eva a ver se acalmava o filho, fazendo-o saltar

e cantando para ele.

— Traz-me notícias de meu filho — disse o pai — ou dinheiro, o que seria

melhor?

— Nada disso; trago à irmã notícias do irmão.

— De Luciano?!... — exclamou Petit-Claud.

— Sim. O pobre rapaz veio de Paris a pé. Encontrei-o nos Courtois,

morrendo de cansaço e miséria. Oh! ele é bem infeliz!

Petit-Claud despediu-se do padre e pegou Cointet pelo braço, dizendo

em voz alta:

— Jantamos em casa da sra. de Sénonches; já é tempo de nos

prepararmos!...

E dois passos adiante lhe disse ao ouvido:

— Quando se tem o filho, logo se tem a mãe. David agora é nosso...

— Já o casei, agora case-me— disse Cointet, deixando escapar um sorriso.

— Luciano foi meu colega de estudo, éramos camaradas!... Em oito

dias, saberei alguma coisa por ele. Faça com que se publiquem o casamento,

que eu respondo pela prisão de David. Minha missão acaba com o registro da

entrada dele na prisão.

— Ah! — suspirou Cointet —, o grande negócio seria tirar a patente em

nosso nome!

Ao ouvir esta última frase, o esgrouvinhado solicitador estremeceu.

Naquele momento via Eva entrarem em sua casa o sogro e o padre

Marron, que, com uma única frase, acabava de dar desenlace ao drama

judiciário.

— Olhe, sra. Séchard — disse o velho Urso à nora —, aqui está o nosso

cura, que decerto vem contar boas coisas de seu irmão.

— Oh! — exclamou a pobre Eva, atingida no coração. — Que mais lhe

terá acontecido?

Tal exclamação denunciava tantas dores passadas, tantas e tão variadas

apreensões, que o padre Marron apressou-se a dizer:

— Tranquilize-se, senhora, ele está vivo!

— Pode ter a bondade, meu pai — disse Eva ao velho vinhateiro —, de ir

procurar minha mãe? Ela ouvirá o que o padre Marron tem a dizer-nos de

Luciano.

O velho foi chamar a sra. Chardon, a quem disse:

— A senhora terá pano para mangas com o padre Marron, que é bom

homem, apesar de padre. O jantar decerto vai atrasar-se. Voltarei daqui a

uma hora.

E o velho, insensível a tudo o que não soasse ou reluzisse a ouro, deixou a

velha senhora sem ver o efeito do golpe que acabava de lhe desferir. A

desgraça que pesava sobre os seus dois filhos, o ruir das esperanças

assentadas em Luciano, a mudança tão imprevista de um caráter que por

tanto tempo haviam julgado enérgico e probo, todos os acontecimentos,

enfim, daqueles últimos dezoito meses tinham tornado irreconhecível a sra.

Chardon. Não era apenas nobre de raça, era-o também de coração, e adorava

os filhos; sofrera assim mais naqueles seis meses que desde a sua viuvez.

Luciano tivera a oportunidade de se tornar Rubempré por decreto real, de

recomeçar aquela família, fazer-lhe reviver o título e os brasões, de

engrandecer-se! E tombara na lama! Pois, mais severa para com ele do que

Eva, considerara Luciano como perdido desde o dia em que soube do caso

das letras. As mães querem às vezes enganar-se; mas sempre conhecem bem

os filhos que criaram, que nunca perderam de vista; e, nas discussões que provocavam entre David e a mulher as oportunidades de Luciano em Paris,

a sra. Chardon, embora parecendo partilhar as ilusões de Eva a respeito de

Luciano, temia que David tivesse razão, pois ele falava como ela ouvia falar a

sua consciência de mãe. Conhecia muito a sensibilidade da filha para que

lhe confessasse os seus sentimentos; era pois obrigada a devorá-los nesse

silêncio que apenas são capazes de guardar as mães que sabem amar a seus

filhos. Eva, por seu lado, seguia com terror as devastações que os desgostos

provocavam em sua mãe, via-a passar da velhice para a decrepitude, e sem

parar! Mãe e filha, portanto, diziam uma à outra dessas nobres mentiras que

não enganam. Na vida daquela mãe, a frase do feroz vinhateiro foi a gota

d’água que devia encher a taça das aflições; a sra. Chardon sentiu-se ferida

em pleno coração.

Assim, quando Eva disse ao padre: “Aqui está minha mãe!”, quando o

sacerdote contemplou aquele rosto macerado como o de uma velha religiosa,

emoldurado pelos cabelos completamente embranquecidos, mas embelezado

pelo ar suave e calmo das mulheres piedosamente resignadas e que seguem,

como se diz, à mercê de Deus, compreendeu toda a vida daquelas duas

criaturas. O padre não teve mais piedade do carrasco, de Luciano;

estremeceu, adivinhando todos os suplícios sofridos pelas vítimas.

— Minha mãe — disse Eva, enxugando os olhos —, meu pobre irmão está

bem perto de nós, está em Marsac.

— E por que não aqui? — perguntou a sra. Chardon.

O padre Marron contou tudo o que Luciano lhe dissera das misérias de

sua viagem e das desgraças de seus últimos dias em Paris. Descreveu as

angústias que agitaram o poeta ao saber quais tinham sido os efeitos de suas

imprudências no seio da família e suas apreensões quanto ao acolhimento

que poderia esperá-lo em Angoulême.

— Chegou até a duvidar de nós? — disse a sra. Chardon.

— O desgraçado veio a pé para casa, sofrendo as mais terríveis privações,

e volta disposto a entrar nos mais humildes caminhos da vida... a reparar

suas faltas.

— Senhor — disse Eva —, apesar do mal que ele nos fez, eu amo meu

irmão, como se ama o corpo de uma criatura que não mais existe; e amá-lo

assim é amá-lo ainda mais do que muitas irmãs amam seus irmãos. Ele nos tornou muito pobres; mas que venha, partilhará do mísero pedaço de pão

que nos resta, do que nos deixou, enfim. Ah! se ele não nos tivesse deixado,

senhor, não teríamos perdido os nossos mais caros tesouros.

— E veio na carruagem da mulher que no-lo arrebatou! — exclamou a

sra. Chardon. — Partiu na caleça da sra. de Bargeton, a seu lado, e voltou na

traseira do carro!

— Em que lhes posso ser útil na situação em que se acham? — indagou o

bravo cura, que procurava uma frase de despedida.

— Oh! dizem que chaga de dinheiro não é mortal; mas essas chagas só o

próprio doente as pode curar — respondeu a sra. Chardon.

— Se o senhor tivesse influência bastante para convencer meu sogro a

ajudar o filho, salvaria uma família inteira — disse a sra. Séchard.

— Ele não crê na senhora e pareceu-me muito exasperado contra seu

marido — disse o cura, a quem as paráfrases do vinhateiro tinham feito

considerar os negócios de Séchard como uma casa de marimbondos onde

não convinha mexer.

Finda a sua missão, foi o padre jantar em casa de seu sobrinho-neto

Postel, que dissipou o pouco de boa vontade de seu velho tio, dando, como

toda Angoulême, razão ao pai contra o filho.

— Com os dissipadores ainda há recurso — terminou o pequeno Postel

—, mas com os que fazem experiências, é ruína na certa.

 

O TIPO FATAL DA FAMÍLIA

 

XXI – A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO

 

A curiosidade do cura de Marsac estava inteiramente satisfeita, o que, em

todas as províncias da França, é o fim principal do extraordinário interesse

que demonstram uns pelos outros. A noite, informou o poeta de tudo o que

se passava com os Séchard, apresentando-lhe a sua viagem como uma

missão ditada pela mais pura caridade.

— O senhor endividou sua irmã e seu cunhado em dez a doze mil

francos — concluiu ele —, e ninguém, meu caro senhor, tem essa bagatela para emprestar ao vizinho. No Angoumois não somos ricos. Eu julgava que se

tratasse de muito menos quando o senhor me falava de suas letras.

Depois de agradecer as bondades do velho, disse-lhe o poeta:

— A palavra de perdão que o senhor me traz é para mim o verdadeiro

tesouro.

No dia seguinte Luciano partiu muito cedo de Marsac para Angoulême,

aonde chegou pelas nove horas, de bengala, com uma pequena sobrecasaca

muito estragada pela viagem e umas calças pretas desbotadas nalguns

pontos. As botas gastas diziam aliás significativamente que ele pertencia à

desgraçada classe dos pedestres, de modo que não alimentava ilusões quanto

ao efeito que devia produzir em seus conterrâneos o contraste entre o seu

regresso e a sua partida. Mas, com o coração ainda abalado pelos remorsos

que lhe causara a narrativa do velho padre, aceitava no momento aquela

punição, disposto a afrontar os olhares dos conhecidos. Dizia com os seus

botões: “Eu sou mesmo heroico!”.

Essas naturezas de poeta principiam todas por se enganar a si mesmas. À

medida que avançava Houmeau adentro, sua alma lutava entre a vergonha

daquele regresso e a poesia de suas recordações. Seu coração palpitou ao

passar pela porta de Postel, onde, muito felizmente para ele, Leôncia

Marron se encontrava a sós na loja com o filho. Viu com prazer (tamanha era

ainda a força da vaidade) que fora apagado da fachada o nome do pai.

Depois de casado, Postel mandara repintar a botica, e pusera-lhe em cima,

como se usava em Paris, a denominação: farmácia. Ao subir a ladeira da

porte Palet, Luciano, experimentando a influência do ar natal, não mais

sentiu o peso de seus infortúnios, e pensou com delícia: “Vou tornar a vê-

los!”.

Chegou à Place du Mûrier sem ter encontrado ninguém: uma ventura

que mal esperava, ele que outrora passeava pela sua cidade como um

triunfador! Marion e Kolb, de sentinela à porta, precipitaram-se pela escada,

gritando:

— Aqui está ele!

Luciano reviu a velha oficina e o velho pátio, encontrou na escada a

irmã e a mãe, e beijaram-se, esquecendo por um instante naquelas efusões

todas as suas desventuras. Em família, a gente sempre se acomoda com a desgraça; faz-se dela um leito, e a esperança faz aceitar a sua dureza. Se

Luciano apresentava a imagem do desespero, também lhe apresentava a

poesia: o sol das estradas lhe tisnara a pele; e a melancolia profunda que

trazia impressa nas feições ensombrecia a sua fronte de poeta. Tantos

sofrimentos denunciava essa mudança que, ao aspecto dos vestígios

deixados pela miséria em sua fisionomia, o único sentimento possível era a

compaixão. A fantasia, partindo do seio da família, vinha encontrar na volta

as mais tristes realidades. Eva teve, no meio da sua alegria, o sorriso das

santas no martírio. A dor torna sublime o rosto das mulheres formosas. A

gravidade, que substituía na face da irmã a completa inocência que lhe vira

ao partir para Paris, falava com muita eloquência a Luciano para que ele não

recebesse uma impressão dolorosa. Assim, à primeira efusão dos sentimentos,

tão viva, tão natural, seguiu-se, em ambas as partes, uma reação: cada qual

temia falar. Luciano, entretanto, não pôde deixar de procurar com os olhos

aquele que faltava à reunião. Esse olhar, bem compreendido, fez Eva cair em

pranto, e também Luciano. Quanto à sra. Chardon, continuou pálida e

aparentemente impassível. Eva ergueu-se, desceu para poupar ao irmão

uma palavra dura e foi dizer a Marion:

— Luciano gosta muito de morangos, é preciso consegui-los!...

— Oh! eu logo vi que a senhora havia de querer festejar a vinda do sr.

Luciano. Fique descansada, que há de ter um lindo almoço, e um bom jantar

também.

— Luciano — disse a sra. Chardon ao filho —, tens muito que reparar

aqui. Tendo partido para ser um motivo de orgulho para tua família, tu nos

mergulhaste na miséria. Quase quebraste nas mãos de teu cunhado o

instrumento da riqueza, na qual ele só pensava para proveito da sua nova

família. E não quebraste apenas isso...

Fez-se uma terrível pausa, e o silêncio de Luciano implicou a aceitação

daquelas censuras maternais.

— Entra num caminho de trabalho — continuou brandamente a sra.

Chardon. — Não te censuro por teres tentado fazer reviver a nobre família

de que descendo; mas para tais empresas é preciso antes de tudo uma

fortuna e altivez de sentimentos: nada disso tiveste. À confiança fizeste

suceder em nós a desconfiança. Destruíste o sossego desta família trabalhadora e resignada, que seguia um penoso caminho. Às primeiras

faltas, deve-se perdoar. Mas não recomeces. Encontramo-nos em

circunstâncias difíceis, sê prudente, escuta a tua irmã. O infortúnio é um

mestre, cujas lições, bem duramente dadas, frutificaram nela: Eva tornou-se

séria, é mãe, carrega todo o fardo dos encargos da casa por dedicação ao

nosso querido David; tornou-se, enfim, por culpa tua, o meu único consolo.

— Podia ser mais severa — disse Luciano, beijando a mãe. — Aceito o seu

perdão, por ser o único que terei de receber.

Eva voltou; e, pela atitude humilhada do irmão, compreendeu que a sra.

Chardon havia falado. Sua bondade lhe pôs um sorriso nos lábios, a que

Luciano respondeu com lágrimas reprimidas. A presença possui como que

um encantamento, transforma as disposições mais hostis tanto entre

amantes como no seio das famílias, por mais fortes que sejam os motivos de

queixa. Será que o afeto traça, nos corações, caminhos que nos é grato

percorrer de novo? Pertencerá esse fenômeno à ciência do magnetismo? Diz

a razão que a gente nunca mais deve tornar a ver-se, ou então perdoar, não

é assim? Seja ao raciocínio, a uma causa física ou à alma que tal efeito

pertença, cada qual deve ter experimentado que os olhares, o gesto, a ação

de uma criatura amada encontram naqueles a quem mais ofendeu,

mortificou ou maltratou, vestígios de ternura. Se o espírito esquece

dificilmente, se o interesse ainda sofre, o coração, apesar de tudo, retorna à

escravidão. Assim, a pobre irmã, ouvindo até a hora do almoço as

confidências de Luciano, não foi senhora de seus olhos quando o encarou,

nem de sua voz quando deixou falar o coração. Compreendendo as

condições do meio literário de Paris, compreendeu como Luciano pudera

sucumbir na luta. A alegria do poeta ao acariciar o filho da irmã, as suas

criancices, a felicidade de rever a sua terra e os seus, mesclada ao profundo

pesar de saber David escondido, as palavras de melancolia que escaparam a

Luciano, seu enternecimento, quando Marion serviu os morangos, ao ver

que, na situação em que se achava, a irmã ainda se lembrara de suas

preferências, tudo, até a obrigação de alojar o irmão pródigo e ocupar-se

dele, fez daquele dia uma festa. Foi como que uma pausa na miséria. Até o

velho Séchard fez as duas mulheres contrariarem o impulso de seus

sentimentos, dizendo:

— Vocês o festejam como se ele lhes trouxesse mundos e fundos!...

— Mas que fez meu irmão para não ser festejado?! — exclamou a sra.

Séchard, zelosa de ocultar a vergonha de Luciano.

Todavia, passadas as primeiras ternuras, a verdade começou a

transparecer. Luciano logo percebeu em Eva a diferença entre a afeição

atual e a que ela outrora lhe dedicava. David era profundamente respeitado,

ao passo que Luciano era amado apesar de tudo, e como se ama a uma

amante, apesar dos transtornos que ela causa. A estima, fundo necessário a

nossos sentimentos, é o sólido estofo que lhes dá não sei que certeza, que

segurança de que vivemos, e que faltava entre a sra. Chardon e seu filho,

entre a irmã e o irmão. Luciano sentiu-se privado dessa inteira confiança

que teriam nele se não tivesse faltado à honra. A opinião escrita por D’Arthez

a seu respeito, e que se tornara a de sua irmã, traía-se nos gestos, nos olhares,

na voz. Luciano era lamentado! Mas, quanto a ser a glória, a nobreza da

família, o herói do lar doméstico, todas essas belas esperanças haviam fugido

para sempre. Temiam a sua leviandade a ponto de lhe ocultarem o asilo em

que vivia David. Eva, insensível às carícias de que veio acompanhada a

curiosidade de Luciano, que queria ver o cunhado, não era mais a Eva do

Houmeau para quem outrora um único olhar de Luciano era uma ordem

irresistível. Luciano falou de reparar suas faltas, gabando-se de poder salvar

David. Eva respondeu-lhe:

— Não te metas nisso; temos como adversários os indivíduos mais

pérfidos e mais hábeis daqui.

Luciano abanou a cabeça como se dissesse: “Eu combati contra

parisienses...”. A irmã replicou-lhe com um olhar que significava: “E foste

vencido”.

“Já não sou amado”, pensou Luciano. “Para a família, como para a

sociedade, é preciso, pois, triunfar.”

Desde o segundo dia, procurando explicar-se a pouca confiança da mãe

e da irmã, ocorreu-lhe um pensamento, não de ódio, mas de pesar. Aplicou

as medidas da vida parisiense àquela casta vida provinciana, esquecendo

que a mediocridade paciente daquele interior sublime de resignação era obra

sua.

“São burguesas, não podem compreender-me”, pensou ele, desligando-se assim da irmã, da mãe e de David, a quem não mais podia iludir quanto ao

seu caráter, nem quanto ao seu futuro.

Eva e a sra. Chardon, cujo senso divinatório fora despertado por tantos

choques e desgraças e que espiavam os mais secretos pensamentos de

Luciano, sentiam-se mal julgadas e o viam isolar-se delas.

“Paris mudou-o muito!”, pensaram ambas.

Colhiam enfim o fruto do egoísmo que elas próprias haviam cultivado.

De um lado e de outro, aquela tênue levedura devia fermentar, e

fermentou; mas principalmente em Luciano, que se julgava tão censurável.

Quanto a Eva, era bem dessas irmãs que sabem dizer a um irmão em falta:

“Perdoa-me os teus erros...”. Quando a união das almas foi perfeita, como no

início da vida entre Eva e Luciano, o mais leve golpe a esse belo ideal do

sentimento torna-se mortal. Enquanto criminosos se acomodam após uma

troca de punhaladas, os amorosos se desavêm irrevogavelmente por um

olhar, uma palavra. Nessa lembrança da quase perfeição da vida sentimental

se encontra o segredo de separações muitas vezes inexplicáveis. Pode-se

viver com uma desconfiança no coração quando o passado não oferece o

quadro de uma afeição pura e sem nuvens; mas, para duas criaturas outrora

perfeitamente unidas, quando a palavra e o olhar exigem explicações, a vida

se torna insuportável. Assim os grandes poetas fazem morrer os seus Paulos e

Virgínias[405] ao saírem da adolescência. Compreenderíeis Paulo e Virgínia

de mal um com o outro?... Notemos, para honra de Eva e de Luciano, que os

interesses, tão fortemente atingidos, não avivavam tais desinteligências: na

irmã irrepreensível, como no poeta culposo, tudo era sentimento; de modo

que o menor mal-entendido, a mínima querela, um novo deslize de Luciano

poderia desuni-los ou inspirar uma dessas questões que irrevogavelmente

dividem as famílias. Em assuntos de dinheiro, tudo se arranja; mas os

sentimentos são implacáveis.

 

XXII – UM TRIUNFO INESPERADO

 

No dia seguinte, Luciano recebeu um número do jornal de Angoulême e

empalideceu de prazer ao ver-se como assunto de um dos primeiros

Premiers-Angoulême que se permitia aquela estimável folha, que, semelhante às academias de província, no dizer de Voltaire, como donzela

bem-educada, jamais dava que falar de si:

 

Que o Franco-Condado se orgulhe de ter dado à luz Victor Hugo,

Charles Nodier e Cuvier; a Bretanha, a Chateaubriand e a Lamennais;

a Normandia, a Casimir Delavigne; a Touraine, ao autor de Eloá;[406]

hoje, o Angoumois, onde já sob Luís xiii o ilustre Guez,[407] mais

conhecido sob o nome de Balzac, se fez nosso compatriota, nada mais

tem que invejar nem a essas províncias nem ao Limousin, que

produziu Dupuytren,[408] nem ao Auvergne, pátria de Montlosier,

[409] nem a Bordeaux, que teve a felicidade de ver nascerem tantos

grandes homens; também nós possuímos um poeta! O autor dos belos

sonetos intitulados As boninas acrescentou à glória do poeta a do

prosador, pois se lhe deve igualmente magnífico romance intitulado O

arqueiro de Carlos ix. Um dia os nossos descendentes se orgulharão

de ter por compatriota a Luciano Chardon, um rival de Petrarca!!!...

 

Nos jornais provincianos daqueles tempos os pontos de exclamação se

assemelhavam aos hurras com que se acolhem os speeches dos meetings na

Inglaterra.

 

Apesar de seus brilhantes sucessos em Paris, lembrou-se o nosso jovem

poeta de que o palácio de Bargeton fora o berço de seus triunfos, que a

aristocracia do Angoumois aplaudira em primeiro lugar as suas poesias;

que a esposa do sr. conde du Châtelet, prefeito do nosso

departamento, animara os seus primeiros passos na carreira das musas,

e ei-lo que volta para o meio de nós!... O Houmeau inteiro se alvoroçou

quando ontem apareceu o nosso Luciano de Rubempré. A noticia de

seu regresso causou por toda a parte a mais viva sensação. É certo que

a cidade de Angoulême não se deixará preceder pelo Houmeau nas

honras que se tencionam prestar àquele que, tanto na imprensa como

Continuar: parte 5 de 9