A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Terceira Parte • os Sofrimentos do Inventor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
representarei a comédia. Assim, depois de amanhã, pela manhã, mando-te
por Basine um bilhete para te dizer se fui pateado... Quem sabe... talvez
então já estejas livre!... Compreendes agora por que queria eu vestuários de
Paris? Não se pode desempenhar em farrapos o papel de galã. Às seis da
manhã, Cérizet foi ter com Petit-Claud.
— Amanhã, ao meio-dia, Doublon pode preparar o golpe; ele apanhará o
nosso homem; respondo por isso — afiançou o parisiense. — Disponho de
uma das operárias da srta. Clerget, compreende?...
Depois de ouvir o plano de Cérizet, Petit-Claud correu à casa de Cointet.
— Faça de modo com que esta tarde o sr. du Hautoy se resolva a dar a
Francisca a propriedade de seus bens, e dentro de dois dias o senhor assinará um contrato de sociedade com Séchard. Só me casarei oito dias
depois do contrato; estaremos assim dentro dos termos das nossas
combinações: toma lá, dá cá. Mas espiemos o que se vai passar esta noite em
casa da sra. de Sénonches, entre Luciano e a sra. condessa du Châtelet, pois
disso depende tudo... Se Luciano tem esperança de triunfar junto à
primeira-dama, tenho David nas mãos.
— O senhor ainda acabará ministro da Justiça — disse Cointet.
— E por que não? O sr. de Peyronnet[416] não o é? — replicou Petit-
Claud, que ainda não despira de todo a pele de liberal.
XXVII – DESFORRA DE LUCIANO NO PALÁCIO DE BARGETON
A situação duvidosa da srta. de La Haye valeu-lhe a presença da maioria dos
fidalgos de Angoulême à assinatura de seu contrato. A pobreza do futuro
casal avivava o interesse que a sociedade gosta de manifestar; pois acontece
com a beneficência o mesmo que acontece com os triunfos: gosta-se de uma
caridade que satisfaz o amor-próprio. Assim, a marquesa de Pimentel, a
condessa du Châtelet, o sr. de Sénonches e dois ou três convivas da casa
deram a Francisca alguns presentes de que muito se falava na cidade. Essas
lindas bagatelas, reunidas ao enxoval preparado havia um ano por Zeferina,
às joias do padrinho e aos presentes costumeiros do noivo, consolaram
Francisca e espicaçaram a curiosidade de várias mães, que levaram consigo
as filhas.
Petit-Claud e Cointet já haviam notado que os nobres de Angoulême os
toleravam no seu Olimpo como uma necessidade: um era o regedor dos
bens, o subtutor de Francisca; o outro era indispensável à assinatura do
contrato como o enforcado a uma execução; mas, no dia seguinte ao do
casamento, se a sra. Petit-Claud conservava o direito de frequentar a casa da
madrinha, o esposo dificilmente ali se via admitido, e propunha-se a si
mesmo impor-se àquela roda orgulhosa. Envergonhado de sua família
obscura, o solicitador fizera com que sua mãe permanecesse em Mansle, para
onde se retirara, e pediu-lhe para que se fizesse de doente e mandasse seu
consentimento por escrito. Muito humilhado de se ver sem parentes, sem
protetores, sem testemunhas da sua parte, Petit-Claud achava-se pois muito feliz em apresentar no homem famoso um amigo aceitável e a quem a
condessa desejava rever. Assim sendo, foi ele buscar Luciano de carro.
Para aquela noite memorável, o poeta preparara uma toilette que lhe
deveria dar incontestável superioridade sobre todos os outros homens. A sra.
de Sénonches havia aliás anunciado o herói do momento, e a entrevista dos
dois amantes desavindos era uma dessas cenas de que se é particularmente
guloso na província. Luciano passara para o estado de leão: diziam-no tão
belo, tão mudado, tão maravilhoso, que todas as mulheres da nobreza de
Angoulême tinham veleidades de revê-lo. Segundo a moda daquela época, a
que se deve a transição dos antigos calções de baile para as ignóbeis calças
atuais, pusera ele uma calça negra ajustada. Os homens ainda desenhavam
as suas formas, com grande desespero dos magros ou malfeitos; e as de
Luciano eram apolíneas. Suas meias de seda gris abertas, seu colete de cetim
negro, sua gravata, tudo foi escrupulosamente amoldado, colado por assim
dizer sobre ele. A loira e abundante cabeleira frisada lhe evidenciava a fronte
branca, em torno à qual se erguiam os caracóis com uma graça procurada.
Suas pequenas mãos de mulher, belas dentro das luvas, não deviam deixar-
se ver desnudas. Copiou sua atitude da De Marsay, o famoso dândi
parisiense, levando numa das mãos a bengala e o chapéu, que não
abandonou, e servindo-se da outra para fazer raros gestos com que
comentava as suas frases.
Bem desejaria Luciano entrar sub-repticiamente no salão, à maneira
dessas pessoas célebres que, por falsa modéstia, se abaixam ao passar pela
Porte Saint-Denis.[417] Mas Petit-Claud, que tinha apenas um amigo, dele
abusou. Foi quase pomposamente que levou Luciano à presença da sra. de
Sénonches, ao meio da reunião. De passagem, ouviu o poeta murmúrios que
outrora lhe teriam feito perder a cabeça, e que o encontraram insensível;
estava certo de que valia, sozinho, todo o Olimpo de Angoulême.
— Minha senhora — disse ele à sra. de Sénonches —, já felicitei a meu
amigo Petit-Claud, que é da massa de que se fazem os ministros da Justiça,
por ter a felicidade de ficar pertencendo a esta casa, por mais fracos que
sejam os laços entre uma madrinha e a sua afilhada. (Isso foi dito com um ar
epigramático muito bem notado por todas as mulheres, que escutavam
dissimuladamente.) Mas, da minha parte, bendigo uma circunstância que permite apresentar-lhe os meus respeitos.
Tais palavras foram ditas sem embaraço e numa atitude de grão-senhor
em visita a gente humilde. Luciano ouviu a complicada resposta que lhe deu
Zeferina, e ao mesmo tempo lançava um olhar de circum-navegação pela
sala, a fim de preparar o seu efeito. Pôde assim saudar com graça, e
nuançando os sorrisos, a Francis du Hautoy e ao prefeito, que lhe
responderam; encaminhou-se depois para a sra. du Châtelet, só então
fingindo vê-la.
De tal forma constituía aquele encontro o grande acontecimento da
noite que foi esquecido o contrato de casamento que as pessoas notáveis iam
assinar, levadas até o quarto de dormir pelo tabelião ou por Francisca.
Luciano deu alguns passos para Luísa de Nègrepelisse; e, com aquela graça
parisiense, para ela em estado de recordação desde a sua chegada, disse-lhe
bem alto:
— E à senhora que devo o convite que me proporciona o prazer de jantar
depois de amanhã na Prefeitura?...
— O senhor apenas o deve à sua glória — replicou secamente Luísa, um
pouco melindrada com a forma agressiva da frase estudada por Luciano
para ferir o orgulho de sua antiga protetora.
— Ah! sra. condessa — disse Luciano com um ar ao mesmo tempo fino e
enfatuado —, é-me impossível levar-lhe o homem, se ele perdeu as suas boas
graças.
E, sem esperar pela resposta, voltou-se ao divisar o bispo, a quem saudou
muito nobremente.
— Vossa eminência foi quase profeta — disse ele com voz encantadora
—, e eu vou fazer o possível para que o seja completamente. Sinto-me feliz
de ter vindo aqui esta noite, pois lhe posso apresentar meus respeitos.
Luciano teve com o sr. arcebispo uma conversação que durou dez
minutos. Todas as mulheres olhavam Luciano como um fenômeno. Sua
inesperada impertinência deixara a sra. du Châtelet sem voz nem resposta.
Vendo Luciano objeto da admiração de todas as mulheres, seguindo de
grupo em grupo a narrativa que faziam, ao ouvido, das frases trocadas, nas
quais Luciano como que a aniquilara, aparentando desdenhá-la, ela sentiu
no coração um sobressalto de amor-próprio.
“E que escândalo, se depois dessa frase ele não comparecer à
Prefeitura!”, pensou ela. “De onde lhe vem essa altivez? Estará a srta. des
Touches enamorada dele?... Ele é tão belo! Dizem que ela correu à sua casa,
em Paris, logo depois da morte da atriz!... Talvez tenha vindo salvar o
cunhado e, se se encontrava atrás da nossa caleça, em Mansle, era por um
acidente de viagem. Luciano lançou-nos um olhar tão singular, naquela
manhã, a Sixto e a mim!”
Foi uma multidão de pensamentos e, infelizmente para Luísa, deixava-
se arrastar por eles com os olhos em Luciano, que conversava com o bispo
como se fosse o rei do salão: não saudava a ninguém e esperava que viessem
ter com ele, passeando o olhar com uma variedade de expressões, uma
segurança digna de De Marsay, seu modelo. Não deixou o prelado para ir
cumprimentar o sr. de Sénonches, que aparecera a pouca distância.
Passados dez minutos, Luísa não se conteve. Ergueu-se, caminhou até o
bispo e perguntou-lhe:
— E então, que dizem a monsenhor, para que sorria tão seguidamente?
Luciano recuou alguns passos, para deixar discretamente a sra. du
Châtelet com o prelado.
— Ah! sra. condessa! Como tem espírito esse jovem!... Explicava-me
como lhe devia toda a sua força.
— Eu não sou um ingrato, minha senhora!... — disse Luciano, lançando
um olhar de censura que encantou a condessa.
— Entendamo-nos — disse ela, chamando Luciano com um gesto de
leque —, venha com monsenhor, por aqui!... Sua reverendíssima será o nosso
juiz.
E mostrou o toucador, levando consigo o prelado.
— Lindo papel destina ela ao monsenhor — disse uma dama do partido
dos Chandour, bastante alto para ser ouvida.
— Nosso juiz?... — repetiu Luciano, fitando alternativamente o prelado e
a primeira-dama. — Há então um culpado?
Luísa de Nègrepelisse sentou-se no canapé de seu antigo toucador.
Depois de fazer Luciano e o bispo sentarem cada um a seu lado, começou a
falar.
Luciano deu à sua amiga de outros tempos a honra, a surpresa e a ventura de não escutar. Teve a atitude e os gestos da Pasta em
Tancredo[418] quando vai dizer: O patria!... Cantou na sua fisionomia a
famosa cavatina del Rizzo. Enfim, o discípulo de Corália conseguiu fazer
com que lhe viessem algumas lágrimas aos olhos.
— Ah! Luísa, como eu te amava! — disse-lhe ele ao ouvido, sem se
preocupar com o prelado nem com a conversação, quando notou que as suas
lágrimas tinham sido vistas pela condessa.
— Enxugue os olhos, ou me comprometeria, aqui, mais uma vez — disse
ela, voltando-se para Luciano num aparte que escandalizou o bispo.
— E basta uma — replicou vivamente Luciano. — Essa frase da prima da
sra. d’Espard secaria todas as lágrimas de uma Madalena. Meu Deus! Eu
reencontrei por um momento minhas recordações, minhas ilusões, os meus
vinte anos, e...
Monsenhor voltou bruscamente para o salão, compreendendo que a sua
dignidade poderia ficar comprometida entre os dois antigos amantes. Todos
fizeram questão de deixar a primeira-dama e Luciano sozinhos no toucador.
Mas, quinze minutos depois, o prefeito, a quem haviam desagradado as falas,
risos e passeios à porta do toucador, ali entrou mais do que preocupado e
encontrou Luciano e Luísa em grande animação.
— A senhora — disse Sixto ao ouvido da esposa —, que conhece
Angoulême melhor do que eu, não acha que deveria pensar na senhora
primeira-dama e no governo?
— Meu caro — disse Luísa, medindo o seu editor responsável com um ar
de altivez que o fez tremer —, eu converso com o sr. de Rubempré sobre
coisas importantes para o senhor. Trata-se de salvar um inventor prestes a
ser vítima das mais vis manobras, e o senhor nos ajudará... Quanto ao que
essas damas possam pensar de mim, vai ver como me vou portar para
coalhar o veneno em suas línguas.
Saiu do toucador apoiada ao braço de Luciano e levou-o para assinar o
contrato, ostentando-o com uma audácia de grande dama.
— Assinemos juntos — disse ela oferecendo a pena a Luciano.
Luciano esperou que ela lhe mostrasse o lugar onde acabava de assinar, a
fim de que suas duas assinaturas ficassem uma junto da outra.
— Sr. de Sénonches, não teria reconhecido o sr. de Rubempré? — disse a condessa, forçando o impertinente caçador a cumprimentar Luciano.
Conduziu Luciano ao salão, colocando-o entre si e Zeferina, no temível
canapé do centro. Depois, como uma rainha em seu trono, começou,
primeiro em voz baixa, uma conversação evidentemente epigramática, a que
se vieram juntar alguns de seus velhos amigos e várias mulheres que a
cortejavam. Luciano, feito herói daquela roda, foi levado pela condessa a
falar sobre a vida de Paris, e ele improvisou com incrível espírito uma sátira
semeada de anedotas sobre as pessoas famosas, verdadeiras gulodices de
conversação de que são muito ávidos os provincianos.
Admiraram o espírito como já haviam admirado o homem. A sra.
condessa triunfava tão pacientemente de Luciano, manejava-o tão bem
como mulher encantada com o seu instrumento, dava-lhe a réplica com
tamanha oportunidade, buscava-lhe aprovações com olhares tão
comprometedores que muitas mulheres começaram a ver na coincidência
da volta de Luísa e de Luciano um profundo amor, vítima de algum duplo
equívoco. Talvez algum despeito provocara o desasado enlace com Du
Châtelet, contra o qual agora se reagia.
— Bem — disse Luísa a Luciano, à uma hora da manhã e em voz baixa,
antes de retirar-se —, depois de amanhã faça-me o favor de ser pontual...
A primeira-dama separou-se de Luciano com uma inclinação de cabeça
excessivamente amigável e foi dizer algumas palavras ao marido, que
procurava o chapéu.
— Se o que a condessa acaba de dizer é verdade, meu caro Luciano,
conte comigo — disse o prefeito, correndo atrás da esposa, que ia saindo sem
ele, como em Paris. — Desde esta noite, o seu cunhado pode considerar-se
livre.
— O sr. conde bem me devia isso — disse Luciano, sorrindo.
— Estamos fritos! — disse Cointet ao ouvido de Petit-Claud, testemunha
daquela despedida.
Petit-Claud, fulminado com o sucesso de Luciano, estupefato com o
fulgor do seu espírito e a sua graça, olhava para Francisca de La Haye, cuja
fisionomia, cheia de admiração por Luciano, parecia dizer a seu noivo: “Seja
como o seu amigo”.
Um clarão de alegria iluminou o rosto de Petit-Claud.
— O jantar do prefeito é para depois de amanhã. Temos um dia inteiro a
nosso dispor. Eu respondo por tudo.
— Pois bem, meu caro — disse Luciano a Petit-Claud, às duas da
madrugada, quando voltavam a pé —, vim, vi, venci! Dentro de poucas
horas David será muito feliz.
“Eis o que eu queria saber”, pensou Petit-Claud.
— Eu só te julgava poeta, e tu és também Lauzun,[419] isto é, duas
vezes poeta — respondeu ele, dando-lhe um aperto de mão que devia ser o
último.
XXVIII – O CÚMULO DA DESOLAÇÃO
— Minha querida Eva — disse Luciano, acordando a irmã —, uma boa
notícia! Daqui a um mês, David não terá mais dívidas!
— Mas como!
— Pois bem, a sra. du Châtelet ocultava por baixo da saia a minha antiga
Luísa; ama-me mais do que nunca, e vai fazer um relatório ao Ministério do
Interior, por intermédio do marido, em favor da nossa descoberta!... Assim,
não temos mais que um mês para sofrer, o suficiente para me vingar do
prefeito e torná-lo o mais feliz dos esposos.
Eva julgou que continuava um sonho ao ouvir o irmão.
— Ao rever o salãozinho cinzento onde há dois anos eu tremia como uma
criança, ao examinar aqueles móveis, as pinturas e as fisionomias, tombava-
me uma venda dos olhos! Como Paris nos muda as ideias!
— Será uma felicidade isso?... — disse Eva, compreendendo afinal o
irmão.
— Bem, estás a cair de sono; amanhã conversaremos depois do almoço —
disse Luciano.
O plano de Cérizet era de extrema simplicidade. Embora pertencente às
artimanhas dos beleguins da província para prender os devedores, e de
sucesso hipotético, devia dar resultado, pois se baseava tanto no
conhecimento dos caracteres de Luciano e de David como nas suas
esperanças.
Entre as pequenas operárias de quem era o Don Juan e a quem governava opondo-as umas às outras, o chefe da tipografia dos Cointet,
agora em serviço extraordinário, distinguira uma das engomadeiras de
Basine Clerget, uma jovem quase tão bela como a sra. Séchard, chamada
Henriqueta Signol, e cujos pais eram modestos vinhateiros que moravam na
sua propriedade, a duas léguas de Angoulême, na estrada de Saintes. Os
Signol, como toda gente de campo, não se julgavam suficientemente ricos
para conservar consigo a sua única filha e a tinham destinado a entrar para
uma casa, isto é, a tornar-se criada de quarto. Na província, uma criada de
quarto tem de saber lavar e engomar. Tal era a reputação da sra. Prieur, a
quem Basine sucedia, que os Signol colocaram a filha como aprendiz no seu
estabelecimento, pagando alimentação e aluguel. A sra. Prieur pertencia a
essa raça de velhas patroas que, nas províncias, se julgam substitutas dos
pais. Vivia em família com suas aprendizes, levava-as à missa e vigiava-as
conscienciosamente.
Henriqueta Signol, bela morena bem-feita, de olhar atrevido, cabeleira
forte e longa, era branca como são brancas as filhas do Sul, da brancura de
uma flor de magnólia. Por isso foi Henriqueta uma das primeiras operárias
que Cérizet visou; mas, como pertencia a uma família de honrados
cultivadores, só cedeu vencida pelo ciúme, pelo mau exemplo e por esta
frase sedutora: “Eu casarei contigo!”, que lhe disse Cérizet logo que se viu
segundo tipógrafo dos Cointet. Ao saber que os Signol possuíam de dez a
doze mil francos de vinhas e uma pequena casa assaz habitável, o parisiense
apressou-se em colocar Henriqueta na impossibilidade de se tornar esposa
de outro. Estavam nesse ponto os amores da bela Henriqueta e do pequeno
Cérizet quando Petit-Claud lhe falou em torná-lo proprietário da tipografia
Séchard, acenando-lhe com uma espécie de comandita de vinte mil francos
que devia ser um cabresto. Esse futuro deslumbrou o tipógrafo, virou-lhe a
cabeça, a pequena Signol pareceu-lhe um obstáculo às suas ambições e ele
foi negligenciando a pobre rapariga. Desesperada, Henriqueta se afeiçoou
tanto mais a Cérizet quanto ele parecia querer abandoná-la. Descobrindo
que David se ocultava em casa da srta. Clerget, o parisiense mudou de ideia
a respeito de Henriqueta, mas não mudou de procedimento, pois
tencionava utilizar em proveito próprio a espécie de loucura que ataca a
uma moça quando, para ocultar a sua desonra, se vê na contingência de casar com o sedutor. Durante a manhã do dia em que Luciano devia
reconquistar a sua Luísa, Cérizet comunicou a Henriqueta o segredo de
Basine e disse-lhe que a fortuna de ambos e o seu casamento dependiam da
descoberta do local onde se ocultava David. Uma vez informada, Henriqueta
não teve dificuldade em reconhecer que o impressor só poderia estar no
quarto de vestir da srta. Clerget; não julgou que fizesse o menor mal ao
dedicar-se a essa espionagem, mas já Cérizet a envolvera na traição com esse
começo de cumplicidade.
Ainda Luciano dormia quando Cérizet, que fora saber o resultado do
sarau, ouvia no gabinete de Petit-Claud a narrativa dos grandes pequenos
acontecimentos que deviam agitar Angoulême.
— Luciano não lhe escreveu um bilhete na volta? — perguntou o
parisiense, depois de ter sacudido a cabeça em sinal de satisfação quando
Petit-Claud terminou.
— É só o que eu tenho — disse o solicitador, estendendo-lhe as poucas
linhas que Luciano escrevera no papel de cartas da irmã.
— Bem — disse Cérizet —, que dez minutos antes do anoitecer fique
Doublon de emboscada à porte Palet, esconda os gendarmes e disponha a
sua gente, e o senhor terá o nosso homem.
— Tens tanta certeza assim? — disse Petit-Claud, observando Cérizet.
— Confio no acaso — respondeu o ex-garoto de Paris —, mas o acaso é
um grande velhaco, e não gosta de gente honrada.
— Não se pode falhar — disse o solicitador, num tom seco.
— Não falharei — disse Cérizet. — Mas, já que o senhor me empurrou
para esta lama, bem podia dar-me umas notas de banco para me limpar...
Mas, senhor — continuou ele, surpreendendo uma expressão que não lhe
agradou na fisionomia de Petit-Claud —, se anda a enganar-me, e não me
comprar a imprensa dentro de oito dias... pois bem, deixará uma jovem viúva
— acrescentou baixinho o malandro de Paris, com um olhar assassino.
— Se pegarmos David às seis horas, podes ir às nove à casa do sr.
Gannerac, e resolveremos o teu assunto — respondeu peremptoriamente o
solicitador.
— Está combinado: o senhor será atendido, patrão! — disse Cérizet.
Cérizet conhecia já a indústria de lavar o papel e que põe hoje em perigo os interesses do fisco. Lavou as quatro linhas escritas por Luciano e
substituiu-as por estas, imitando a letra com uma perfeição desoladora para
o futuro social do chefe de tipografia:
Meu caro David,
Podes ir sem receio à casa do prefeito, que o teu negócio está
combinado. Aliás, a esta hora podes sair; irei a teu encontro para te
explicar como deves conduzir-te com o prefeito.
Teu irmão
luciano
Ao meio-dia Luciano escreveu uma carta a David, comunicando-lhe o
sucesso da noite passada e dando-lhe a certeza da proteção do prefeito, que,
dizia ele, fazia naquele mesmo dia um relatório ao ministro sobre a
descoberta, de que era entusiasta.
No momento em que Marion levava essa carta à srta. Basine, sob o
pretexto de lhe dar camisas de Luciano a engomar, Cérizet, informado por
Petit-Claud da probabilidade da referida carta, levou a srta. Signol a passear
com ele à margem do Charente. Houve sem dúvida um combate em que a
honestidade de Henriqueta se defendeu por muito tempo, pois o passeio
durou duas horas. Não só estavam em jogo os interesses de uma criança, mas
ainda todo um futuro de felicidade, uma fortuna, e o que Cérizet pedia era
uma bagatela; ele de resto evitou dizer-lhe as consequências. Só que o preço
exorbitante dessa bagatela assustava Henriqueta. Todavia, Cérizet acabou
por obter da amante que se prestasse a seu estratagema. Às cinco horas
Henriqueta devia sair e voltar, dizendo à srta. Clerget que a sra. Séchard
mandava chamá-la imediatamente. Um quarto de hora depois da saída de
Basine, ela iria bater à porta do gabinete, entregando a David a falsa carta de
Luciano. Depois Cérizet tudo esperava do acaso.
Pela primeira vez em mais de um ano, sentiu Eva afrouxar-se o círculo
de ferro em que a cingia a necessidade. Teve enfim esperanças. Também ela
quis desfrutar o irmão, mostrar-se ao braço do homem festejado na sua
pátria, adorado pelas mulheres, amado pela altiva condessa du Châtelet.
Preparou-se e resolveu ir passear em Beaulieu, após o jantar, de braço dado com o irmão. No mês de setembro, àquela hora, toda Angoulême vai tomar a
fresca.
— Oh! é a bela sra. Séchard — disseram algumas vozes, à passagem de
Eva.
— Eu não esperava isso dela — disse uma mulher.
— O marido se esconde e a mulher se mostra — disse a sra. Postel
bastante alto para que a pobre mulher a ouvisse.
— Oh! vamos voltar para casa, eu fiz mal — disse Eva ao irmão.
Minutos antes do pôr do sol subiu da ladeira do Houmeau o burburinho
de um ajuntamento. Luciano e a irmã, tomados de curiosidade, dirigiram-se
para aquelas bandas, pois ouviram algumas pessoas que vinham do
Houmeau a falar entre si, como se tivesse havido algum crime.
— Decerto é algum ladrão que acabam de prender... Ele vem pálido
como um defunto — disse um transeunte aos dois irmãos, vendo-os ir ao
encontro daquela crescente multidão.
Nem Luciano nem Eva sentiram a mínima apreensão. Olharam para as
trinta e poucas crianças e velhas, para os operários de volta do trabalho, que
precediam os gendarmes, cujos chapéus agaloados brilhavam no meio do
grupo principal. Aquele grupo, seguido de uma multidão de cerca de cem
pessoas, avançava como uma nuvem de tempestade.
— Ah! — disse Eva. — É o meu marido!
— David! — exclamou Luciano.
— É a mulher dele! — disse a multidão, abrindo passagem.
— Mas que foi que te fez sair?
— A tua carta — respondeu David, lívido.
— Eu bem sabia! — disse Eva, tombando desfalecida.
Luciano ergueu a irmã, que duas pessoas o ajudaram a transportar até
em casa, onde Marion a deitou. Kolb correu à procura de um médico. À
chegada deste, Eva ainda não recuperara os sentidos. Luciano viu-se então
forçado a confessar à mãe que era a causa da prisão de David, visto que não
podia compreender o equívoco provocado pela carta falsa. Luciano,
fulminado por um olhar de sua mãe, carregado de maldição, correu a
encerrar-se no quarto.
XXIX – O ADEUS SUPREMO
Quem ler esta carta escrita noite adentro e interrompida de momento a
momento adivinhará, pelas frases lançadas como que uma a uma, todas as
angústias de Luciano:
Minha irmã bem-amada,
Vimo-nos há pouco pela última vez. Minha resolução é inabalável. Eis o
motivo: em muitas famílias, encontra-se uma criatura fatal que é para
as mesmas uma espécie de doença. Eu sou essa criatura para vós. Não
é minha esta observação, mas de um homem que muito conheceu o
mundo. Ceávamos uma noite entre amigos, no Rocher de Cancale.
Entre os mil gracejos que então se trocaram, disse-nos aquele
diplomata que certa jovem a quem viam com espanto continuar
solteira estava doente de seu pai. Desenvolveu-nos então a sua teoria
sobre as doenças de família. Explicou-nos como, sem tal mãe, tal casa
teria prosperado, como tal filho arruinara o pai, como tal pai destruíra
o futuro e a consideração dos filhos. Embora sustentada a rir, essa tese
social foi apoiada em dez minutos com tantos exemplos que fiquei
impressionado. Essa verdade compensava todos os paradoxos
insensatos, mas espirituosamente demonstrados, com que os jornalistas
se divertem entre si, quando não têm a quem mistificar. Pois bem, eu
sou a criatura fatal da nossa família. Com o coração cheio de ternura,
procedo como um inimigo. A todos os vossos devotamentos tenho
correspondido com males. Embora involuntariamente desferido, o
último golpe foi o mais cruel de todos. Enquanto eu levava em Paris
uma vida sem dignidade, cheia de prazeres e de misérias, tomando a
camaradagem por amizade, deixando a verdadeiros amigos por gente
que queria e devia explorar-me, esquecendo-vos e só me lembrando de
vós para causar-vos mal, seguíeis a humilde vereda do trabalho,
encaminhando-vos penosa mas seguramente para a fortuna que eu
tentava tão loucamente apanhar de surpresa. Enquanto vos tornáveis
melhores, eu introduzia em minha vida um elemento funesto. Sim,
tenho ambições desmesuradas, que me impedem de aceitar uma vida
humilde. Tenho gostos e prazeres cuja lembrança envenena as alegrias
que estão a meu alcance e que outrora me teriam satisfeito. Ah, minha
querida Eva, julgo-me com mais severidade do que ninguém, pois me
condeno sem remissão e sem piedade para comigo mesmo. A luta em
Paris exige uma força constante, e minha vontade só marcha por
acessos: meu cérebro é intermitente. O futuro tanto me assusta que
não quero futuro, e o presente me é insuportável. Desejei rever-vos,
quando teria feito melhor expatriar-me para sempre. Mas o exílio, sem
meios de vida, seria uma loucura, e eu não a acrescentarei às restantes.
A morte parece-me preferível a uma vida incompleta; e, em qualquer
posição em que me suponha, sei que minha excessiva vaidade me faria
cometer tolices. Certas criaturas são como zeros, é-lhes preciso um
algarismo que as preceda, e o seu nada adquire então um valor
décuplo. Só posso adquirir valor por um casamento com alguma
vontade forte, inabalável. A sra. de Bargeton era mesmo a mulher para
mim, e eu pus a perder a minha vida não abandonando Corália por
ela. David e tu, poderíeis ambos ser excelentes pilotos para mim; mas
não sois bastante fortes para domar minha fraqueza, que de certo
modo se furta à dominação. Gosto de uma vida fácil, sem
aborrecimentos; e, para desembaraçar-me de uma contrariedade, sou
de uma covardia que pode levar-me muito longe. Nasci príncipe.
Tenho mais destreza de espírito do que é preciso para vencer, mas só a
tenho por um momento, e o prêmio, numa carreira percorrida por
tantos ambiciosos, pertence àquele que apenas desenvolve a destreza
necessária e que ainda se encontra com bastante ao fim da jornada.
Faria o mal, como acabo de o fazer aqui, com as melhores intenções do
mundo. Há homens-carvalhos, e eu talvez não seja mais que um
arbusto elegante, com pretensões a cedro. Eis aí o meu balanço. Esse
desacordo entre meus recursos e meus desejos sempre há de anular
todos os meus esforços. Há muitos desses caracteres na classe letrada,
devido a contínuas desproporções entre a inteligência e o caráter,
entre o querer e o desejo. Qual seria o meu destino? Posso vê-lo de
antemão ao lembrar-me de algumas velhas glórias parisienses que
encontrei inteiramente esquecidas. Ao limiar da velhice, estarei mais
velho que os meus anos, sem fortuna e sem consideração. Todo o meu
ser atual repele semelhante velhice: não quero ser um farrapo social.
Querida irmã, adorada tanto por teus últimos rigores como tuas
primeiras ternuras, se pagamos caro o prazer que tive em tornar a ver-
te, e a David, considerareis talvez mais tarde que nenhum preço era
demasiado elevado para as derradeiras venturas de um pobre ente que
vos amava!... Não procureis saber de mim nem de meu destino; ao
menos me terá servido a minha inteligência para a execução de meus
desejos. A resignação, meu anjo, é um suicídio cotidiano; mas eu só
tenho resignação para um dia, eu vou aproveitá-la hoje...
Duas horas.
Sim, está definitivamente resolvido. Adeus, pois, para sempre,
minha querida Eva. Sinto certa doçura em pensar que não viverei
senão em vossos corações. Aí será meu túmulo... não quero outro. Mais
uma vez, adeus!... É o último de teu irmão
luciano
Depois de escrever esta carta, Luciano desceu sem fazer o mínimo rumor,
colocou-a sobre o berço do sobrinho, depôs na fronte da irmã adormecida
um derradeiro beijo embebido de lágrimas e saiu. Apagou a vela ao
amanhecer e, depois de contemplar pela última vez aquela velha casa, abriu
suavemente a porta do corredor; mas, apesar de suas precauções, despertou
Kolb, que dormia numa enxerga na oficina.
— Quem fem lá?... — exclamou ele.
— Sou eu — disse Luciano —, eu vou-me embora, Kolb.
— Teria feitou melior se nunca tivesse vintou — disse Kolb consigo
mesmo, mas bastante alto para que Luciano o ouvisse.
— Eu teria feito melhor se não tivesse vindo a este mundo — respondeu
Luciano. — Adeus, Kolb, não te quero mal por um pensamento que também é meu. Dirás a David que meu último pensamento foi o pesar de não poder
abraçá-lo.
Quando o alsaciano chegou a vestir-se, já Luciano tinha fechado a porta
da casa e descia rumo ao Charente, pelo passeio de Beaulieu, trajado como
se fosse para uma festa, pois resolvera usar de mortalha o seu traje parisiense
e seu belo aparato de dândi.
Impressionado com o tom e as últimas palavras de Luciano, Kolb quis ir
ver se a sua patroa sabia da partida do irmão e se este se havia despedido;
mas, ao ver que a casa estava mergulhada em profundo silêncio, pensou que
decerto a partida já estaria combinada e tornou a deitar-se.
XXX – UM ENCONTRO DE ESTRADA
Em relação à gravidade do assunto, muito pouco se tem escrito sobre o
suicídio, nem tem sido devidamente observado. Talvez não seja essa uma
doença suscetível de observação.
O suicídio é efeito de um sentimento que denominaremos, se quiserem,
a estima de si mesmo, para não confundi-lo com a palavra “honra”. No dia
em que o homem se despreza, no dia em que se vê desprezado, no momento
em que a realidade da vida está em desacordo com as suas esperanças,
mata-se, e presta assim satisfação à sociedade, perante a qual não quer ficar
despojado de suas virtudes ou de seu esplendor. Por mais que se diga, entre
os ateus (cumpre excetuar os cristãos do suicídio), só os covardes aceitam
uma vida desonrada.
O suicídio é de três naturezas: primeiro o suicídio que não é mais que o
último acesso de uma longa enfermidade e que sem dúvida pertence à
patologia; depois o suicídio por desespero; e, finalmente, o suicídio por
raciocínio.
Luciano queria matar-se por desespero e raciocínio, as duas espécies de
suicídio de que se pode voltar atrás, porque de irrevogável só há o suicídio
patológico; mas às vezes as três causas se reúnem, como em Rousseau.[420]
Uma vez tomada a resolução, começou Luciano a procurar os meios de
executá-la, e o poeta quis findar poeticamente. Primeiro pensara apenas em
atirar-se às águas do Charente; mas, ao descer pela última vez a ladeira de Beaulieu, ouviu antecipadamente o barulho que provocaria o seu suicídio,
viu o terrível espetáculo de seu corpo vindo à tona na água, deformado, e
objeto de inquérito policial: sentiu, como alguns suicidas, um amor-próprio
póstumo.
Durante a estada no moinho de Courois, passeara ao longo do rio e
notara, não longe do moinho, um desses lagos redondos, como se encontram
nos pequenos cursos d’água, e cuja considerável profundidade é anunciada
pela calma da superfície. A água já não é verde nem azul, nem clara nem
amarela; é como um espelho de aço polido. As bordas daquela taça não
apresentavam mais nem gladíolos, nem flores azuis, nem as largas folhas dos
nenúfares. A relva marginal era curta e densa, os salgueiros choravam em
redor, todos pitorescamente situados. Adivinhava-se facilmente um
precipício cheio d’água. Aquele que tivesse a coragem de encher os bolsos de
pedras devia ali achar uma morte inevitável, e jamais seria encontrado.
— Eis aqui — dissera consigo o poeta, admirando aquela bonita paisagem
— um lugar que nos traz água à boca para um afogamento.
Voltou-lhe aquilo à memória no momento em que alcançava o
Houmeau. Encaminhou-se pois para Marsac, entregue a seus derradeiros e
fúnebres pensamentos, e na firme intenção de preservar assim o segredo da
sua morte, de não ser objeto de um inquérito, de não ser enterrado, de não
ser visto no horrível estado em que se mostram os afogados quando voltam à
tona.
Chegou em breve ao pé de uma dessas encostas que tão frequentemente
se deparam nas estradas da França, sobretudo entre Angoulême e Poitiers.
Aproximava-se rapidamente a diligência de Bordeaux a Paris, e os viajantes
iam sem dúvida descer para galgar a pé aquela longa encosta. Luciano, que
não queria ser visto, meteu-se por um atalho e pôs-se a colher flores numa
vinha. Quando voltou à estrada real, trazia na mão um grande ramalhete de
sedum, flor amarela que nasce entre o pedregulho dos vinhedos, e foi sair
precisamente nas costas de um viajante todo de preto, cabelos empoados,
sapatos com fivelas de prata, escuro de rosto e com cicatrizes como se tivesse
caído ao fogo em pequeno. Esse viajante, de aspecto tão eclesiástico, andava
lentamente e fumava um charuto.
Ao ouvir Luciano saltar da vinha para a estrada, o desconhecido voltou-se, parecendo impressionado com a beleza profundamente melancólica do
poeta, com o seu ramo simbólico e o seu elegante vestuário. O viajante
assemelhava-se a um caçador que encontra uma presa longa e inutilmente
procurada. Deixou Luciano aproximar-se e retardou o passo, fingindo olhar
o sopé da encosta. Luciano, que fez a mesma manobra, avistou ali uma
pequena caleça atrelada de dois cavalos e um postilhão a pé.
— O cavalheiro deixou partir a diligência e vai perder o seu lugar, a não
ser que queira subir na minha caleça para alcançá-la, pois as postas andam
mais depressa que os carros públicos — disse o viajante a Luciano,
pronunciando tais palavras com um sotaque acentuadamente espanhol e
empregando no seu oferecimento uma extrema polidez.
Sem esperar pela resposta de Luciano, o espanhol tirou do bolso um
estojo de charutos e estendeu-o aberto a Luciano, para que se servisse de
um.
— Eu não sou viajante — respondeu Luciano — e estou demasiado
próximo do fim de minha jornada para que me permita o prazer de fumar...
— O senhor é muito severo consigo mesmo — retrucou o espanhol. —
Embora cônego honorário da catedral de Toledo, eu de tempos em tempos
me permito um charutinho. Deus nos deu o fumo para adormecer nossas
paixões e nossas dores... O senhor me parece ter um pesar, pelo menos traz o
seu símbolo na mão, como o triste deus do himeneu. Tome... todos os seus
pesares se dissiparão com o fumo...
E o padre tornou a apresentar a charuteira de palha, com uma espécie
de sedução, lançando a Luciano olhares animados de caridade.
— Perdão, meu padre — replicou secamente Luciano —, não há
charutos que possam dissipar os meus pesares...
Ao dizer isso, os olhos de Luciano encheram-se de lágrimas.
— Oh! meu jovem, foi então a Divina Providência que fez com que eu
desejasse sacudir com um pouco de exercício a pé o sono que acomete os
viajantes pela manhã, para que, consolando-o, pudesse eu obedecer à minha
missão neste mundo?... E que grandes pesares se pode ter na sua idade?
— As suas consolações, meu padre, seriam de todo inúteis: o senhor é
espanhol, eu sou francês; o senhor acredita nos mandamentos da Igreja, eu
sou ateu...
— Santa Virgem del Pilar! O senhor é ateu! — exclamou o padre,
tomando do braço de Luciano com maternal solicitude. — Pois eis aí uma
das curiosidades que eu tencionava observar em Paris! Na Espanha, não
acreditamos nos ateus... Só mesmo na França é que pode alguém ter tais
ideias aos dezenove anos.
— Oh! eu sou um ateu completo; não creio nem em Deus, nem na
sociedade, nem na ventura. Olhe-me bem, meu padre, pois daqui a algumas
horas eu não mais existirei... Eis o meu último sol!... — disse Luciano, com
certa ênfase, apontando para o céu.
— Hum! Que fez para morrer? Quem o condenou à morte?
— Um tribunal soberano: eu mesmo!
— Criança! — exclamou o padre. — Matou algum homem? Espera-o o
cadafalso? Raciocinemos um pouco. Se quer voltar para o nada, na sua
opinião, tudo lhe é indiferente neste mundo, não é?
Luciano inclinou a cabeça em sinal de assentimento.
— Pois bem, pode então contar-me as suas penas?... Trata-se sem dúvida
de alguns amoricos que não vão bem, não é assim?
Luciano deu de ombros muito significativamente.
— Quer então matar-se para evitar a desonra ou porque desespera da
vida? Pois bem, poderá matar-se tanto em Poitiers como em Angoulême,
tanto em Tours como em Poitiers. As areias movediças do Loire não
devolvem a sua presa...
— Não, meu padre — respondeu Luciano —, tenho o que me serve. Há
vinte dias, vi a mais encantadora enseada em que possa aportar ao outro
mundo um homem desgostoso deste...
— Ao outro mundo? O senhor não é ateu!
— Oh! o que eu entendo por outro mundo é a minha futura
transformação em animal ou em planta...
— Tem alguma doença incurável?
— Sim, meu padre...
— Ainda bem que chegamos a algo de positivo; e que doença é?
— A pobreza.
O padre olhou para Luciano, sorrindo, e disse-lhe com uma graça
infinita e um sorriso quase irônico:
— O diamante ignora o seu valor.
— Só um padre poderia lisonjear um pobre que vai morrer!... —
exclamou Luciano.
— Não morrerá! — disse o espanhol com autoridade.
— Já ouvi dizer — retrucou Luciano — que roubavam as pessoas na
estrada, mas que as enriquecessem eu não sabia.
— Vai sabê-lo — disse o padre, depois de verificar se a distância a que se
encontravam do carro ainda lhes permitia darem alguns passos a sós.
XXXI – HISTÓRIA DE UM FAVORITO
— Escute — disse o padre, mastigando o charuto —, a sua pobreza não é
razão para morrer. Tenho necessidade de um secretário, o meu acaba de
falecer em Barcelona. Acho-me na situação em que se viu o barão de Goertz,
[421] o famoso ministro de Carlos xii, que chegou sem secretário a uma
pequena cidade, quando ia a caminho da Suécia, como eu a caminho de
Paris. O barão encontrou o filho de um ourives, notável por uma beleza que
decerto não podia comparar-se à do senhor... O barão descobre inteligência
naquele jovem, como eu descubro poesia na sua fronte; ele toma-o no seu
carro, como eu vou tomá-lo no meu; e, daquele menino condenado a brunir
talheres e a fabricar joias numa cidadezinha de província como Angoulême,
faz dele o seu favorito, como o senhor vai ser o meu. Chegado que foi em
Estocolmo, instala o seu secretário e cumula-o de trabalho. O jovem
secretário passa as noites a escrever; e, como todos os grandes trabalhadores,
adquire um hábito, põe-se a mastigar papel. O falecido sr. de Malesherbes,
[422] esse soltava baforadas nas ventas das pessoas e, entre parênteses, deu
uma a não sei que personagem cujo processo dependia de seu relatório. O
nosso belo jovem começa por papel em branco, mas afinal o enjoa e passa
para os papéis escritos, que acha mais saborosos. Naquele tempo ainda não se
fumava como hoje. Assim, de gosto em gosto, chega o pequeno secretário a
mastigar pergaminhos e a comê-los. Cogitava-se então, entre a Rússia e a
Suécia, de um tratado de paz que os Estados impunham a Carlos xii, tal
como em 1814 se queria forçar Napoleão a um tratado de paz. A base das
negociações era o tratado assente entre as duas potências a propósito da Finlândia. Goertz confia o original ao seu secretário; mas, quando se tratou
de submeter o projeto aos Estados, surge o pequeno contratempo de não o
encontrarem. Os Estados imaginam que o ministro, para servir às paixões do
rei, resolvera dar sumiço ao documento, acusam o barão de Goertz, e o seu
secretário confessa então que comeu o tratado... Abre-se inquérito, o fato fica
provado, e o secretário é condenado à morte. Mas, como o senhor ainda não
chegou a esse ponto, tome este charuto e fume-o enquanto esperamos a
nossa caleça.
Luciano tomou o charuto e acendeu-o, como se faz na Espanha, no
charuto do companheiro, dizendo consigo: “Ele tem razão, não falta tempo
para eu me matar”.
— Muitas vezes — continuou o espanhol —, precisamente quando os
jovens mais desesperam do futuro, é que a sua fortuna principia. Eis o que
eu queria dizer-lhe, preferi prová-lo com um exemplo. O belo secretário se
achava numa situação tanto mais desesperada visto que o rei da Suécia não
lhe podia conceder perdão, porque a sentença fora proferida pelos Estados
da Suécia; mas fechou os olhos a uma evasão. O belo secretário escapa de
barco com alguns escudos no bolso e chega à Corte da Curlândia, com uma
carta de recomendação de Goertz para o duque, a quem o ministro sueco
explicava a aventura e a mania do seu protegido. O duque coloca o belo
menino como secretário de seu intendente. O duque era um dissipador,
tinha uma mulher bonita e um intendente, três causas de ruína. Se acredita
que aquele lindo homem, condenado à morte por haver comido o tratado
relativo à Finlândia, se corrige de seu gosto depravado, é que o senhor não
conhece o império do vício sobre o homem; a pena de morte não o detém
quando se trata de um prazer que ele criou para si! De onde provém esse
poder do vício? De uma força que lhe é própria ou da fraqueza humana?
Haverá gostos que estejam colocados nos limites da loucura? Não posso
deixar de rir dos moralistas que querem combater tais doenças com belas
frases!... Houve um momento em que o duque, alarmado com a recusa que
lhe fizera o intendente a um pedido de dinheiro, exigiu prestação de contas,
uma tolice! Nada mais fácil que fazer uma escrita, não é aí que está a
dificuldade. O intendente entregou todos os documentos ao secretário para
estabelecer o orçamento da lista civil da Curlândia. No meio do seu trabalho e da noite em que o estava concluindo, o nosso comedor de papel repara que
está mastigando um recibo de considerável soma assinado pelo duque:
amedronta-se, para em meio da assinatura, corre a lançar-se aos pés da
duquesa, explicando-lhe a sua mania, implorando a proteção da sua
soberana, e implorando-a no meio da noite. A beleza do jovem secretário
causou tamanha impressão naquela mulher que ela o desposou logo que
ficou viúva. Assim, em pleno século xviii, num país onde reinavam os brasões,
o filho de um ourives chegou a príncipe soberano... Chegou a algo de
melhor!... Foi regente por morte da primeira Catarina, governou a imperatriz
Ana e quis ser o Richelieu da Rússia. Pois fique sabendo de uma coisa,
jovem: se o senhor é mais bonito do que Biren,[423] eu, apesar de simples
cônego, valho muito mais do que o barão de Goertz. Ande, suba, que lhe
arranjaremos um ducado da Curlândia em Paris, e, na falta do ducado,
sempre havemos de conseguir a duquesa!
O espanhol pegou Luciano por debaixo do braço, forçou-o literalmente a
subir em seu carro, e o postilhão fechou a portinhola.
— Agora fale, que eu escuto — disse o cônego de Toledo a Luciano,
estupefato. — Sou um velho padre a quem pode tudo dizer sem perigo. Sem
dúvida não comeu ainda senão o seu patrimônio ou o dinheiro da sua
mamãe. Teremos fugido às pressas sem pagar as nossas dívidas e temos
honra até as pontas de nossas lindas botas... Vamos, confesse-se
abertamente, que será o mesmo que se falasse consigo próprio.
Luciano encontrava-se na situação daquele pescador de não sei que
conto árabe, que, querendo afogar-se em pleno oceano, tomba no meio de
plagas submarinas, onde se torna rei.
O padre espanhol parecia tão sinceramente afetuoso que o poeta não
hesitou em abrir-lhe o seu coração; contou-lhe, pois, de Angoulême a
Ruffec, toda a sua vida, sem omitir nenhuma das faltas cometidas,
terminando pela catástrofe que acabava de causar. No momento em que
terminava essa narrativa, tanto mais poeticamente relatada, visto que era a
terceira vez que a contava em quinze dias, chegava Luciano ao local onde,
junto à estrada, se encontra o solar da família Rastignac, cujo nome, logo que
o pronunciou, provocou no espanhol um gesto de surpresa.
— Eis de onde partiu — disse Luciano — o jovem Rastignac, que decerto não vale tanto como eu, mas que foi mais feliz.
— Ah!
— Sim, esse esquisito solar é a casa de seu pai. Ele tornou-se, como eu lhe
dizia, amante da sra. de Nucingen, esposa do famoso banqueiro. Eu deixei-
me arrastar pela poesia; ele, mais hábil, pendeu para o lado positivo...
O padre mandou parar o carro e quis, por curiosidade, percorrer a
pequena avenida que ia da estrada até a casa, e examinou tudo com mais
interesse do que Luciano esperava de um padre espanhol.
— Conhece então os Rastignac?... — perguntou-lhe Luciano.
— Conheço Paris inteira — respondeu o espanhol, tornando a subir para
o carro.
XXXII – CURSO DE HISTÓRIA PARA USO DOS AMBICIOSOS POR UM DISCÍPULO DE MAQUIAVEL
— Quer dizer então que ia matar-se por falta de uns dez ou doze mil
francos? Que criança! Não conhece nem os homens nem as coisas. Um
destino vale exatamente aquilo em que o homem o avalia, e o senhor apenas
avalia o seu futuro em doze mil francos; pois bem, eu o comprarei por mais,
e imediatamente. Quanto à prisão de seu cunhado, é uma ninharia. Se esse
estimável sr. Séchard fez uma descoberta, há de enriquecer. Os ricos nunca
foram presos por dívidas. O senhor não me parece forte em história. Há duas
histórias: a história oficial, mentirosa, que se ensina, a história ad usum
Delphini;[424] depois a história secreta, onde estão as verdadeiras causas
dos acontecimentos, uma história vergonhosa. Deixe-me contar-lhe, em
duas palavras, outra historieta que o senhor não conhece. Um ambicioso,
padre e jovem, quer entrar nos negócios públicos, e faz-se o sabujo de um
favorito, o favorito de uma rainha. O favorito se interessa pelo padre e dá-lhe
categoria de ministro, com voz no Conselho. Uma noite, um desses homens
que julgam prestar serviço (nunca preste um serviço que não lhe
solicitaram!) escreve ao jovem ambicioso que a vida de seu benfeitor se acha
ameaçada. Tendo-se o rei zangado por possuir um senhor, no dia seguinte o
favorito deve ser morto se for ao palácio. Pois bem, meu jovem, que faria o
senhor ao receber essa carta?...
— Iria imediatamente avisar meu protetor! — exclamou vivamente
Luciano.
— Bem se vê que é ainda a criança que se revela na narrativa da sua
existência — observou o padre. — O nosso homem disse consigo: “Se o rei vai
até o crime, o meu benfeitor está perdido; é necessário que eu tenha
recebido esta carta demasiado tarde!”. E dormiu até a hora em que matavam
o favorito...
— É um monstro! — disse Luciano, que suspeitou no padre a intenção
de experimentá-lo.
Todos os grandes homens são monstros; esse de quem lhe falo chamava-
se cardeal de Richelieu, e seu benfeitor tinha o nome de marechal d’Ancre.
[425] Bem se vê que não conhece a história da França. Não tinha eu razão
em dizer-lhe que a história ensinada nos colégios é uma coleção de datas e
de fatos, antes de tudo muito duvidosa, mas sem o mínimo alcance? De que
lhe serve saber que Joana d’Arc existiu? Nunca tirou daí a conclusão de que,
se a França tivesse então aceitado a dinastia angevina dos plantagenetas, os
dois povos reunidos teriam hoje o império do mundo, e que as duas ilhas em
que se forjam as perturbações políticas do continente seriam duas províncias
francesas?... Não estudou os meios pelos quais os Médicis, de simples
negociantes, chegaram a grão-duques de Toscana?
— Um poeta, na França, não tem obrigação de ser um beneditino —
disse Luciano.
— Pois bem, meu jovem, eles se tornaram grão-duques como Richelieu se
tornou ministro. Se tivesse procurado na história as causas humanas dos
acontecimentos, em vez de aprender-lhes de cor as etiquetas, o senhor
obteria preceitos para a sua conduta. De que acabo de tomar ao acaso na
coleção dos fatos verdadeiros, resulta a seguinte lei: não veja nos homens, e
principalmente nas mulheres, senão instrumentos; mas não deixe que eles o
percebam. Adore como ao próprio Deus aquele que, colocado acima do
senhor, lhe pode ser útil, e não o abandone até que ele lhe tenha pago bem
caro a sua servidão. No comércio do mundo, seja, em suma, duro como o
judeu e vil como ele: faça pelo poder o que faz ele pelo dinheiro. Mas
também preocupe-se tanto com o homem que caiu como se ele jamais
tivesse existido. Sabe por que deve proceder assim?... O senhor quer dominar o mundo, não é? Pois é preciso começar por obedecer ao mundo e estudá-lo
bem. Os sábios estudam os livros, os políticos estudam os homens, seus
interesses, as causas geradoras de seus interesses, as causas geradores de suas
ações. Ora, o mundo, a sociedade, os homens tomados em conjunto são
fatalistas; eles adoram o acontecimento. Não sabe por que lhe faço esse
pequeno curso de história? É que o julgo de uma ambição desmedida...
— Sim, meu padre!
— Bem o vi — tornou o cônego. — Mas, neste momento, diz o senhor
com os seus botões: “Esse cônego espanhol inventa anedotas e espreme a
história para me provar que eu fui demasiado virtuoso...”.
Luciano começou a sorrir ao ver tão bem adivinhados os seus
pensamentos.
— Pois bem, meu jovem, tomemos fatos que tenham virado banalidades.
Um dia, a França está quase conquistada pelos ingleses, e ao rei não resta
mais que uma província. Do seio do povo erguem-se então duas criaturas:
uma pobre rapariga, essa mesma Joana d’Arc de que falávamos, e um
burguês chamado Jacques Coeur.[426] Uma dá o seu braço e o prestígio de
uma virgindade, o outro dá o seu ouro: o reino é salvo. Mas a rapariga é
aprisionada!... O rei, que pode resgatá-la, deixa que a queimem viva. Quanto
ao heroico burguês, o rei consente que seja acusado de crimes capitais pelos
seus cortesãos, que se apoderam de todos os seus bens. Os despojos do
inocente, acossado, cercado, abatido pela justiça, enriquecem cinco casas
nobres... E o pai do arcebispo de Bourges sai do reino para não mais voltar,
sem um sou de seus bens na França, não tendo de seu senão o dinheiro que
confiara aos árabes e sarracenos no Egito. Ainda poderá objetar-me: “Esses
exemplos são muito velhos, todas essas ingratidões contam trezentos anos de
instrução pública, e os esqueletos dessa época são já fabulosos”. Pois bem,
meu jovem, acredita no último semideus da França, em Napoleão? Ele
conservou um de seus generais em desvalimento, só o fez marechal a
contragosto, nunca se serviu dele de bom grado. Esse marechal chama-se
Kellermann. E sabe por que tudo isso?... Kellermann salvou a França e o
primeiro-cônsul em Marengo, com uma audaciosa carga que foi aplaudida
em meio do sangue e do fogo. Essa carga heroica nem sequer foi citada em
ordem do dia. A causa da frieza de Napoleão para com Kellermann é também a causa do desvalimento de Fouché, do príncipe de Talleyrand: é a