A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 6 de 6 · parte 7/9

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Terceira Parte • os Sofrimentos do Inventor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

ingratidão de Carlos vii, de Richelieu, a ingratidão de...

— Mas, meu padre, na hipótese de que o senhor me salvasse a vida e

fizesse a minha fortuna, tornaria a minha gratidão muito fraca.

— Maroto! — disse o padre sorrindo e torcendo a orelha de Luciano com

uma familiaridade quase régia. — Se fosse ingrato comigo, seria então um

homem forte, e eu me dobraria diante de si; mas ainda não chegou a esse

ponto, porque, de simples colegial, quis o senhor passar muito cedo a mestre.

É o defeito dos franceses nesta época. Ficaram todos estragados com o

exemplo de Napoleão. Demitem-se quando não podem obter as

ambicionadas dragonas... Mas o senhor encaminhou todos os desejos, todos

os seus atos para uma ideia?...

— Infelizmente não! — disse Luciano.

— O senhor foi o que os ingleses chamam inconsistent — tornou o

cônego, sorrindo.

— Que importa o que eu tenha sido, se não posso ser mais nada! —

replicou Luciano.

— Cumpre que se encontre por detrás de todas as suas belas qualidades

uma força semper virens[427] — disse o padre, para mostrar que também

sabia o seu latim —, e nesse caso nada lhe resistirá no mundo. Já o estimo

bastante...

Luciano sorriu com ar incrédulo.

— Sim — continuou o desconhecido, respondendo ao sorriso de Luciano

—, o senhor me interessa como se fosse meu filho, e eu sou bastante

poderoso para lhe falar de coração aberto, como acaba de falar-me. Sabe o

que é que me agrada no senhor? É que fez tábua rasa de si mesmo, e pode

então ouvir um curso de moral que não se leciona em parte alguma; pois os

homens, reunidos em grupo, são ainda mais hipócritas do que quando o seu

interesse os obriga a representar uma comédia. Passa-se assim boa parte da

vida a arrancar o que se deixou crescer no coração durante a adolescência.

Chama-se a essa operação adquirir experiência.

Luciano, ouvindo o padre, dizia consigo: “Eis aí algum velho político

encantado de poder divertir-se em viagem. Distrai-se em fazer mudar de

opinião a um pobre rapaz que se encontra às portas do suicídio, e vai largar-me ao terminar a sua brincadeira... Mas na verdade é entendido em

paradoxos, e parece-me tão forte como Blondet ou Lousteau”.

Apesar dessas judiciosas reflexões, a corrupção tentada pelo diplomata

penetrava fundo naquela alma, assaz predisposta a recebê-la, e tanto mais

estrago fazia por se apoiar em exemplos famosos. Seduzido pelo encanto

daquela conversação cínica, Luciano ainda com mais ardor se apegava à

vida, pois se sentia trazido à tona do suicídio por um braço poderoso.

Nesse ponto, o padre evidentemente triunfava. Tanto assim que, de

tempos em tempos, acompanhava seus gracejos históricos com um malicioso

sorriso.

 

XXXIII – CURSO DE MORAL POR UM DISCÍPULO

DE R. P. ESCOBAR[428]

 

— Se a sua maneira de tratar a moral se parece com a sua maneira de

encarar a história — disse Luciano —, eu bem desejaria saber qual é neste

momento a causa de sua aparente caridade.

— Isso, jovem, é o último ponto de minha homilia e há de permitir-me

que o guarde em reserva, pois então não nos separaremos hoje — respondeu

ele com a finura de um padre que vê a sua malícia triunfar.

— Pois bem, fale-me de moral — disse Luciano, que pensou consigo:

“Vou fazê-lo pavonear-se”.

— A moral, meu jovem, começa na lei. Se apenas se tratasse da religião,

as leis seriam inúteis: os povos religiosos têm poucas leis. Acima da lei civil

está a lei política. Pois quer saber o que, para um político, está escrito na

fronte do vosso século xix? Os franceses inventaram, em 1793, uma soberania

popular que terminou nas mãos de um imperador absoluto. Isso quanto à

vossa história nacional. Quanto aos costumes: a sra. Tallien[429] e a sra. de

Beauharnais[430] tiveram a mesma conduta. Napoleão desposa uma, torna-

a vossa imperatriz, e jamais consentiu em receber a outra, embora fosse

princesa. Sans-culotte[431] em 1793, Napoleão cinge a coroa de ferro em

1804. Os ferozes amantes da Igualdade ou Morte de 1792 tornam-se, a

partir de 1806, cúmplices de uma aristocracia legitimada por Luís xviii. No

estrangeiro, a aristocracia, que pompeia hoje no seu Faubourg Saint-Germain, fez pior: foi usurária, foi negociante, fabricou pastéis, foi

cozinheira, granjeira, guardadora de rebanhos. Na França, pois, tanto a lei

política como a lei moral consistem em que todos têm desmentido o ponto

de partida no ponto da chegada, as suas opiniões com a conduta, ou a

conduta com as opiniões. Não houve lógica, nem no governo nem entre os

particulares. De modo que não tendes mais moral. Hoje, entre vós, o sucesso

é a razão suprema de todas as ações quaisquer que sejam elas. O fato não é

pois mais nada por si mesmo, consiste inteiramente na ideia que os outros

formam a seu respeito. Vem daí, jovem, o segundo preceito: tenha um belo

exterior! Esconda o avesso da sua vida e apresente um direito muito

brilhante. A discrição, essa divisa dos ambiciosos, é a da nossa ordem; adote-a

como sua. Os grandes cometem quase tantas covardias como os miseráveis;

mas cometem-nas na sombra e fazem ostentação das suas virtudes;

permanecem grandes. Os pobres exercem suas virtudes na sombra e expõem

suas misérias ao sol: são desprezados. O senhor ocultou as suas grandezas e

deixou ver as suas chagas. Teve publicamente por amante a uma atriz, viveu

em casa dela, com ela; o senhor não era absolutamente repreensível, cada

qual considerava a ambos perfeitamente livres; mas rompia assim com as leis

do mundo e não teve a consideração que o mundo concede aos que

obedecem às suas leis. Se tivesse deixado Corália com esse sr. Camusot, se

tivesse ocultado as suas relações com ela, teria desposado a sra. de Bargeton,

seria prefeito de Angoulême e marquês de Rubempré. Mude de proceder:

ponha do lado de fora a sua beleza, as suas graças, o seu espírito, a sua

poesia. Se se permitir pequenas infâmias, que seja entre quatro paredes. E

então não será mais culpado de enodoar o cenário desse grande teatro a que

se chama o mundo. Napoleão chama a isso lavar a roupa suja em casa. Do

segundo preceito decorre este corolário: tudo reside na forma. Compreenda

bem o que é que eu chamo de forma. Há pessoas sem instrução que, levadas

pela necessidade, tomam uma soma qualquer a outrem, por violência; são

chamados ladrões e veem-se forçados a prestar contas à justiça. Um pobre

homem de gênio descobre um segredo cuja exploração equivale a um

tesouro, emprestam-se-lhe três mil francos (como esses Cointet, que se

encontraram com os seus três mil francos nas mãos e que vão despojar seu

cunhado), atormentam-no de maneira a fazê-lo ceder todo ou parte do segredo, e neste caso só têm de prestar contas à consciência, e a consciência

nunca leva ninguém ao banco dos réus. Os inimigos da ordem social

aproveitam esse contraste para bradar contra a justiça e indignar-se em

nome do povo pelo fato de se mandar para as galés um ladrão de galinhas

que age de noite num lugar habitado, ao passo que se põe na prisão apenas

por alguns meses a um homem que arruína famílias, abrindo falência

fraudulenta; mas esses hipócritas bem sabem que os juízes, condenando o

ladrão, mantêm a barreira entre os pobres e os ricos, a qual, derrubada, traria

o fim da ordem social; ao passo que o bancarroteiro, o hábil captor de

heranças, um banqueiro que arruína uma empresa em seu proveito só

produzem deslocamentos de fortuna. Assim, meu filho, a sociedade é

obrigada a distinguir por conta própria o que eu lhe estou fazendo distinguir

por sua conta. A grande questão é a gente igualar-se à sociedade. Napoleão,

Richelieu, os Médicis igualaram-se ao seu século. E o senhor avalia-se em

doze mil francos!... A vossa sociedade não mais adora o verdadeiro Deus, mas

o bezerro de ouro! Tal é a religião da vossa Carta Magna, que, em política, só

leva em conta a propriedade. Não é o mesmo que dizer a todos os súditos:

“Tratem de enriquecer”? Quando, depois de arranjar legalmente uma

fortuna, o senhor for rico e marquês de Rubempré, poderá permitir-se o luxo

da honra. Professará então tamanhos escrúpulos que ninguém ousará acusá-

lo de não os ter tido algum dia, se por acaso não os tiver tido ao fazer

fortuna, o que eu jamais lhe aconselharia — disse o padre, tomando a mão

de Luciano e dando-lhe palmadinhas. — Que deve pois meter nessa bela

cabeça?... Unicamente o tema seguinte: colimar um fito brilhante e ocultar

os meios de vencer, os passos dados na sua direção. O senhor procedeu como

uma criança! Seja homem, seja bom caçador, ponha-se à espreita, fique de

tocaia no mundo parisiense, aguarde uma presa e uma ocasião, não poupe

nem a sua pessoa nem o que se chama a dignidade; pois obedecemos todos a

alguma coisa, a um vício, a uma necessidade; mas observe a lei suprema: o

segredo!

— O senhor me assusta, padre! — exclamou Luciano. — Isso mais me

parece uma teoria de estrada real.

— Tem razão — disse o padre —, mas não é minha. Foi assim que

raciocinaram os intrusos, tanto a casa de Áustria como a casa de França. O senhor não tem nada. Está na situação dos Médicis, de Richelieu, de

Napoleão, quando do início da sua ambição. Esses, meu pequeno, avaliaram

o seu futuro ao preço da ingratidão, da traição e das contradições mais

violentas. É preciso tudo ousar para tudo ter. Raciocinemos. Quando o

senhor se assenta a uma mesa de jogo, acaso lhe discute as condições? As

regras ali estão, o senhor aceita-as.

“Bem”, pensou Luciano, “ele conhece jogo.”

— Que faz o senhor à mesa de jogo? — indagou o padre. — Pratica ali a

mais bela das virtudes, a franqueza? Não somente oculta o seu jogo, mas

ainda trata de dar a entender, quando está certo de ganhar, que vai perder

tudo. Dissimula, em suma, não é verdade? Mente para ganhar cinco luíses!...

Que diria o senhor de um jogador bastante generoso para prevenir aos outros

de que tem o trunfo? Pois bem, o ambicioso que quer lutar auxiliado pelos

preceitos da virtude, numa carreira em que os seus antagonistas os põem de

lado, é uma criança a quem os velhos políticos diriam o que dizem os

jogadores àquele que não aproveita os seus trunfos: “Senhor, não jogue

nunca...”. É acaso o senhor quem faz as regras no jogo da ambição? Por que

lhe disse eu que se igualasse à sociedade?... É que hoje, meu jovem, a

sociedade insensivelmente se arrogou tantos direitos sobre os indivíduos que

o indivíduo se vê obrigado a combater a sociedade. Não há mais leis, só há

costumes, isto é, macaquices, sempre a forma.

Luciano fez um gesto de espanto.

— Ah! meu filho — disse o padre, receando haver escandalizado a

candura de Luciano —, esperava encontrar o anjo Gabriel num padre

carregado de todas as iniquidades da contradiplomacia de dois grandes reis

(pois sou intermediário entre Fernando vii e Luís xviii, dois grandes... reis

que devem ambos a Coroa a profundas... combinações)? Creio em Deus, mas

creio muito mais na nossa ordem, e a nossa ordem só crê no poder temporal.

Para tornar bastante forte o poder temporal, a nossa ordem mantém a Igreja

apostólica, católica e romana, isto é, o conjunto dos sentimentos que trazem

o povo em obediência. Somos os templários modernos, temos uma doutrina.

Como o Templo, nossa ordem foi dissolvida pelas mesmas razões: igualara-se

ao mundo. Quer ser soldado? Serei o seu capitão. Obedeça-me como uma

esposa ao marido, como um filho à mãe, e eu lhe garanto que em menos de três anos será marquês de Rubempré, desposará uma das mais nobres moças

do Faubourg Saint-Germain e assentará um dia nas bancadas do pariato.

Que seria do senhor neste momento, se eu não o tivesse distraído com a

minha conversa? Um cadáver para sempre oculto num profundo leito de

vasa. Bem, faça um esforço de poesia!...

Nesse ponto Luciano olhou com curiosidade para o seu protetor.

— O jovem que se encontra sentado aqui, nesta caleça, ao lado do padre

Carlos Herrera, cônego honorário do capítulo de Toledo, enviado secreto de

S. M. Fernando vii a S. M. o rei de França, para lhe entregar um despacho

onde talvez esteja escrito: “Quando me houver libertado,[432] mande

enforcar a todos aqueles a quem bafejo neste momento, mas principalmente

a meu enviado, para que ele seja deveras secreto”, esse jovem — disse o

padre — nada mais tem de comum com o poeta que acaba de morrer. Eu o

pesquei, devolvi-o à vida, e o senhor me pertence como a criatura ao criador,

como, nos contos de fadas, pertence o afrita[433] ao gênio, como o

icoglã[434] pertence ao sultão, como o corpo pertence à alma! Eu o

ampararei com mão poderosa no caminho do poder, e prometo-lhe, ainda

mais, uma vida de prazeres, de honras, de festas contínuas... Jamais lhe

faltará dinheiro... O senhor brilhará e pompeará, enquanto, curvado na lama

dos alicerces, eu assegurarei o brilhante edifício da sua fortuna. Amo o poder

pelo poder! Sempre me sentirei feliz com os seus prazeres, que me são

proibidos. Enfim, serei o senhor!... Pois bem, no dia em que esse pacto de

homem com demônio, de criança com diplomata não mais lhe convenha,

sempre poderá o senhor ir procurar um lugarzinho como aquele de que me

falava, para afogar-se: há de estar um pouco mais ou menos tão infeliz ou

desonrado como hoje.

 

XXXIV – PERFIL DO ESPANHOL

 

— Isso não é uma homilia do arcebispo de Granada! — exclamou Luciano,

vendo parar o carro numa estação de muda.

— Não sei que nome dá a esta instrução sumária, meu filho, pois o adoto

como tal e o farei meu herdeiro; mas é o código da ambição. Os eleitos de

Deus são muito poucos. Não há que escolher: ou ir para o fundo de um claustro (e ali encontrará muitas vezes o mundo em miniatura) ou aceitar

esse código.

— Talvez fosse melhor não ser tão sábio — disse Luciano, tentando

sondar a alma daquele terrível padre.

— Como! — tornou o padre. — Então, depois de ter jogado sem conhecer

as regras do jogo, abandona a partida no momento em que se torna forte, em

que se apresenta com um padrinho sólido... e sem ao menos sentir desejo de

tomar desforra? Como! Não tem vontade de cavalgar aqueles que o

escorraçaram de Paris?

Luciano estremeceu como se algum instrumento de bronze, um gongo

chinês, fizesse ouvir esses terríveis sons que arrepiam os nervos.

— Eu não passo de um humilde padre — continuou aquele homem,

deixando transparecer uma horrível expressão no rosto acobreado pelo sol da

Espanha —, mas, se me tivessem humilhado, vexado, torturado, traído,

vendido, como o senhor o foi pelos velhacos de que me falou, eu seria como o

árabe do deserto!... Sim, eu consagraria meu corpo e minha alma à vingança.

Pouco me importaria acabar a vida amarrado a um pelourinho, no garrote,

empalado, guilhotinado como entre vós; mas eu não deixaria que me

tirassem a cabeça antes de haver esmagado os meus inimigos com os pés.

Luciano conservava-se em silêncio. Já não tinha vontade de se divertir à

custa do padre.

— Uns descendem de Abel, outros de Caim — disse o cônego,

concluindo. — Eu sou de sangue cruzado: Caim para os inimigos, Abel para

os amigos. E ai de quem desperte Caim!... Afinal, o senhor é francês e eu sou

espanhol e, ainda por cima, cônego!...

“Que natureza de árabe!”, pensou Luciano, examinando o protetor que

o Céu acabava de enviar-lhe.

O padre Carlos Herrera nada apresentava em si que revelasse um jesuíta,

nem sequer um religioso. Baixo e gordo, de mãos grandes, largo busto, força

hercúlea, olhar terrível mas suavizado por uma mansuetude de encomenda,

uma tez de bronze que nada deixava passar de dentro para fora, tudo isso

inspirava mais antipatia que atração. Longos e belos cabelos empoados à

moda do príncipe de Talleyrand davam àquele singular diplomata o ar de

um bispo, e a fita azul debruada de branco da qual pendia uma cruz de ouro indicava, aliás, um dignitário eclesiástico. Suas meias de seda modelavam

pernas de atleta. O vestuário, de singular asseio, revelava esse meticuloso

cuidado da sua pessoa que nem sempre têm os simples padres,

principalmente na Espanha. Um tricórnio se achava pousado no banco da

frente da carruagem, onde se viam as armas de Espanha. Apesar de tantas

causas de repulsa, as suas maneiras ao mesmo tempo violentas e untuosas

atenuavam o efeito da fisionomia; e, para com Luciano, o padre

evidentemente se mostrara fascinante, caricioso, quase felino. Luciano

pesava as menores coisas com um ar preocupado. Sentia que se tratava,

nesse momento, de viver ou de morrer, pois se encontrava na segunda muda

de cavalos após Ruffec. As últimas frases do padre espanhol tinham ferido

muitas cordas em seu coração; e, digamo-lo para vergonha de Luciano e do

padre, que, com olhar perspicaz, estudava as belas feições do poeta, essas

cordas eram as piores, as que vibram ao toque dos sentimentos depravados.

Luciano revia Paris, recuperava as rédeas do domínio que suas mãos inábeis

haviam largado, vingava-se enfim! A comparação que acabava de fazer entre

a vida de Paris e a da província, e que era a mais importante das causas de

seu suicídio, desaparecia: ia encontrar-se no seu verdadeiro meio, mas

protegido por um político profundo até a perversidade de Cromwell.[435]

“Eu estava sozinho, agora seremos dois”, pensava ele.

Quanto mais faltas revelara na sua conduta passada, mais interesse lhe

mostrava o padre. A caridade daquele homem crescera na razão direta dos

males, e ele de nada se espantava. Contudo, Luciano pôs-se a indagar

consigo qual seria o móvel daquele intermediário de intrigas reais.

Contentou-se primeiro com uma razão vulgar: os espanhóis são generosos!

Afinal de contas, o espanhol é tão generoso como o italiano é envenenador e

ciumento, como o francês é leviano, como o alemão é franco, como o judeu é

ignóbil, como o inglês é nobre. Invertei essas proposições, e estareis com a

verdade. Os judeus monopolizam o ouro, escrevem Roberto, o Diabo,[436]

representam Fedra, cantam o Guilherme Tell, encomendam quadros,

edificam palácios, escrevem os Reisebilder[437] e admiráveis poesias, são

mais poderosos do que nunca, sua religião é aceita, e, enfim, emprestam

dinheiro ao papa! Na Alemanha, para as menores coisas, perguntam a um

estrangeiro: “Tem um contrato?”, de tal modo aquela gente é chicaneira. Na França, desde uns cinquenta anos para cá se vêm aplaudindo nos teatros

verdadeiras tolices nacionais, continuam a usar chapéus inexplicáveis, e o

governo só muda com a condição de continuar sendo o mesmo!... A

Inglaterra mostra à face do mundo perfídias cujo horror só se pode

comparar com a sua avidez. O espanhol, depois de ter tido o ouro das duas

Índias, nada mais possui. Não há país no mundo em que haja menos

envenenamentos do que na Itália, e onde os costumes sejam mais simples e

mais corteses. Os espanhóis têm vivido muito à custa da reputação dos

mouros.

Quando subiu para a caleça, o espanhol disse ao ouvido do postilhão:

— Depressa, que ganharás três francos de gorjeta.

Como Luciano hesitasse em subir, o padre disse-lhe:

— Vamos lá!

E Luciano subiu, sob o pretexto de lhe lançar um argumento ad

hominem.[438]

— Padre, um homem que acaba de desenvolver com o mais belo sangue-

frio do mundo máximas que muitos burgueses taxariam de profundamente

imorais...

— E que o são — disse o padre. — Por isso é que Jesus Cristo queria que

houvesse escândalo, meu filho, e eis por que o mundo manifesta tamanho

horror ao escândalo.

— Um homem da sua têmpera não se espantará da pergunta que lhe

vou fazer?

— Ande, meu filho! Bem se vê que não me conhece... — disse Carlos

Herrera. — Pensa que eu tomaria um secretário antes de saber que ele tem

princípios suficientemente seguros para que não me lese em nada? Estou

contente consigo. O senhor tem ainda toda a inocência de quem se mata aos

vinte anos. Qual é a sua pergunta?

— Por que se interessa por mim? Por que preço exige a minha

obediência.... Por que me dá tudo? Qual é a sua parte?

O espanhol olhou para Luciano e pôs-se a sorrir.

— Esperemos uma encosta, nós a subiremos a pé e falaremos ao ar livre.

O fundo de uma caleça é indiscreto.

Durante algum tempo reinou silêncio entre os dois companheiros, e a rapidez da corrida contribuiu, por assim dizer, para a embriaguez moral de

Luciano.

— Padre, eis a subida — disse Luciano, despertando como de um sonho.

— Pois bem, andemos — disse o padre, e gritou com voz forte para o

cocheiro que parasse. E os dois tomaram pela estrada.

 

XXXV – POR QUE OS CRIMINOSOS

SÃO ESSENCIALMENTE CORRUPTORES

 

— Criança — disse o padre, tomando Luciano pelo braço —, já meditaste

sobre a Veneza salva[439] de Otway? Compreendes-te aquela amizade

profunda, de homem para homem, que une Pedro a Jaffier, que para eles

faz de uma mulher uma bagatela, e que inverte entre eles todos os termos

sociais?... Aí tem para o poeta.

“O cônego também conhece teatro”, pensou Luciano.

— O senhor já leu Voltaire? — perguntou-lhe.

— Faço melhor — respondeu o cônego —, ponho-o em prática.

— Não acredita em Deus?...

— Bem, agora eu é que sou ateu! — disse o padre, sorrindo. — Vamos ao

que é positivo — prosseguiu ele, enlaçando-o pela cintura. — Tenho

quarenta e seis anos, sou filho natural de um grão-senhor, sem família por

assim dizer, e tenho coração... Pois fica sabendo, grava-o no teu cérebro

ainda tenro: o homem tem horror à solidão. E, de todas as solidões, a que

mais o amedronta é a solidão moral. Os primeiros anacoretas viviam com

Deus, habitavam o mais povoado dos mundos, o mundo espiritual. Os

avarentos habitam o mundo da fantasia e dos prazeres. O avarento tem tudo

no cérebro, até o sexo. O primeiro pensamento do homem, leproso ou

forçado, infame ou enfermo, é obter um cúmplice para o seu destino. Para

satisfazer a esse sentimento, que é a própria vida, emprega todas as suas

forças, todo o seu poder, o sumo da sua vida. A não ser esse desejo soberano,

teria Satã encontrado companheiros?... Há todo um poema por fazer, que

seria o preâmbulo do Paraíso perdido,[440] o qual é apenas a apologia da

revolta.

— Esse seria a Ilíada da corrupção — observou Luciano.

— Pois bem, eu sou sozinho, vivo sozinho! De monge, se tenho o hábito,

não tenho o coração. Gosto de dedicar-me, é o meu vício. Vivo pela

dedicação, e por isso é que sou padre. Não temo a ingratidão, e sou

reconhecido. A Igreja, para mim, nada mais é que uma ideia. Devotei-me ao

rei da Espanha; mas não se pode amar ao rei da Espanha; ele protege-me,

paira acima de mim. Quero amar a minha criatura, afeiçoá-la, amoldá-la

para mim, para que a possa amar como um pai ama a seu filho. Serei eu que

andarei no teu tílburi, meu rapaz; alegrar-me-ei com teus sucessos junto às

mulheres; pensarei: “Aquele belo jovem sou eu! Esse marquês de Rubempré

fui eu que o criei e introduzi no mundo aristocrático; sua grandeza é obra

minha, à minha voz ele cala-se ou fala; consulta-me em tudo”. O padre de

Vermont[441] era isso para Maria Antonieta.

— E levou-a ao cadafalso!

— Ele não amava a rainha. Ele só amava ao padre de Vermont.

— Devo deixar atrás de mim a desolação? — disse Luciano.

— Tenho tesouros, de que te utilizarás.

— O que eu não faria neste momento para pôr Séchard em liberdade! —

replicou Luciano num tom em que já não havia resquícios de ideias suicidas.

— Dize uma palavra, meu filho, e ele receberá amanhã de manhã a soma

necessária para a sua libertação.

— Como! o senhor me daria doze mil francos?!...

— Pois não vês, criança, que estamos fazendo quatro léguas por hora?

Vamos jantar em Poitiers. Lá, se quiseres assinar o pacto, e dar-me uma

única prova de obediência, prova que eu desejo grande, pois bem, a

diligência de Bordeaux levará quinze mil francos para a tua irmã...

— Onde estão?

O padre espanhol nada respondeu e Luciano pensou: “Apanhei-o, ele

estava era divertindo-se à minha custa”.

Um instante depois, o espanhol e o poeta subiam silenciosamente para o

carro. Também silenciosamente o padre meteu a mão na bolsa do carro e dali

tirou esse saco de couro com três compartimentos que os viajantes tão bem

conhecem; três vezes mergulhou a mão, trazendo-a de cada vez cheia de

ouro, ao todo umas cem peças portuguesas.

— Padre, pode dispor de mim — disse Luciano, ofuscado com aquela inundação de ouro.

— Criança! — disse o padre, beijando com ternura a fronte de Luciano

—, isso é apenas o terço do ouro que se encontra nesta bolsa, uns trinta mil

francos, sem contar o dinheiro da viagem.

— E viaja sozinho?! — exclamou Luciano.

— Isso não é nada. Tenho mais de cem mil escudos de letras sobre Paris.

Um diplomata sem dinheiro é o mesmo que tu eras há pouco: um poeta sem

vontade.

 

XXXVI – O INSTANTE EM QUE SE LARGA A PRESA

 

No momento em que Luciano subia para o carro com o suposto diplomata

espanhol, Eva erguia-se para alimentar o filho, encontrava a carta fatal e lia-

a. Um suor frio gelou-lhe a tepidez que dá o sono da manhã, sentiu uma

tontura, chamou Marion e Kolb.

À pergunta: “Meu irmão saiu?”, Kolb respondeu:

— Zim, zeniora, antes to amaniecer.

— Guardem o mais profundo segredo sobre o que lhes confio — disse Eva

aos dois criados. — Meu irmão com certeza saiu para se matar. Vão vocês

dois, tomem informações com cautela e vigiem o curso do rio.

Eva ficou sozinha num terrível estado de estupor. Foi no meio da

perturbação em que ela se encontrava que, pelas sete horas, Petit-Claud se

apresentou para lhe falar de negócios. Nesses momentos, atende-se a todo o

mundo.

— Minha senhora — disse o solicitador —, o nosso pobre David está preso,

e chega à situação que eu previ logo no início deste assunto. Aconselhava-o

então a associar-se, na exploração de sua descoberta, com os seus

concorrentes, os Cointet, que têm os meios para executar o que, em mãos de

seu marido, se acha em estado de concepção. Assim, na noite passada, logo

que soube da sua prisão, que fiz eu? Fui procurar os srs. Cointet, na intenção

de obter deles concessões que a pudessem satisfazer. Se quiser defender essa

descoberta, sua vida vai continuar o que é: uma vida de chicanas em que

sucumbirão, em que acabarão, exaustos e moribundos, por fazer, talvez em

seu prejuízo, com algum argentário, o que eu quero vê-los fazer, em seu benefício, hoje mesmo, com os irmãos Cointet. Pouparão assim as privações,

as angústias da luta do inventor contra a avidez do capitalista e a

indiferença da sociedade. Vejamos! Se os srs. Cointet pagam as suas dívidas...

se, pagas essas dívidas, lhes dão ainda uma soma, qualquer que seja o mérito,

o futuro ou a possibilidade da descoberta, sempre lhes concedendo, está

visto, certa parte nos lucros da exploração, não ficariam contentes?... A

senhora fica proprietária do material da tipografia, e sem dúvida o venderá,

o que dará uns vinte mil francos; garanto desde já um comprador por esse

preço. Recebendo quinze mil francos por uma escritura de sociedade com os

srs. Cointet, ficam com uma fortuna de trinta e cinco mil francos, que, pela

taxa atual, lhes dariam dois mil francos de renda... Vive-se com dois mil

francos de renda na província. E, note bem, minha senhora, que ainda têm

as eventualidades da associação com os srs. Cointet. Digo eventualidades

porque sempre é necessário considerar o insucesso. Pois bem, eis o que estou

em condições de obter: primeiro a liberdade integral de David, depois

quinze mil francos a título de indenização por suas experiências, sem que

jamais os srs. Cointet possam reclamá-los a qualquer título, mesmo que a

descoberta se mostrasse improdutiva; enfim, um contrato de sociedade

entre David e os srs. Cointet para exploração de um privilégio de invenção a

conseguir, após uma experiência, feita em comum e secretamente, do seu

processo de fabricação, nas bases seguintes: os srs. Cointet farão todas as

despesas, David entra com o privilégio e terá um quarto dos lucros. A

senhora, que tem tanto juízo e bom senso, o que não acontece muito seguido

com mulheres bonitas, queira pensar sobre estas propostas, e há de achá-las

bastante aceitáveis...

— Ah, senhor! — exclamou a pobre Eva em desespero e rompendo em

pranto —, por que não veio ontem à noite propor-me essa transação?

Teríamos evitado a desonra e... o que é muito pior...

— Minha discussão com os Cointet, que, como a senhora já deve ter

desconfiado, se ocultam por trás de Métivier, só terminou à meia-noite. Mas

o que aconteceu depois que seja pior do que a prisão do nosso pobre David?

— perguntou Petit-Claud.

— Aqui está a terrível notícia que encontrei ao despertar — respondeu

ela, alcançando a Petit-Claud a carta de Luciano. — Como o senhor me prova neste momento que se interessa por nós, que é amigo de David e de

Luciano, não preciso pedir-lhe segredo...

— Pode ficar sem cuidados — disse Petit-Claud, devolvendo a carta

depois de lê-la. — Luciano não se matará. Depois de ter sido o causador da

prisão de seu cunhado, precisava de uma razão para deixá-los, e eu vejo

nisso uma saída em estilo de teatro.

Os Cointet tinham alcançado o seu intento. Depois de torturar o

inventor e sua família, aproveitavam o instante desse suplício em que a

fadiga faz desejar algum repouso. Nem todos os buscadores de segredos têm

o ânimo do buldogue, que morre com a presa entre os dentes, e os Cointet

haviam estudado sabiamente o caráter de suas vítimas. Para o Cointet

grande a prisão de David era a última cena do primeiro ato daquele drama.

O segundo ato começava com a proposta que Petit-Claud acabava de fazer.

Como mestre consumado, o solicitador considerou a cabeçada de Luciano

como uma dessas imprevistas oportunidades que decidem da sorte de uma

partida. Viu Eva tão completamente aniquilada com aquele acontecimento

que resolveu aproveitar-se disso para ganhar sua confiança, pois afinal

adivinhara a influência da mulher sobre o marido. Assim, em vez de mais

afundar no desespero a sra. Séchard, tentou tranquilizá-la, e muito

habilmente procurou levá-la até a prisão no estado de espírito em que se

encontrava, pensando que ela então decidiria David a associar-se com os

Cointet.

— David me disse que só desejava fortuna por amor da senhora e de seu

irmão; mas hão de estar convencidos que seria uma loucura enriquecer a

Luciano. Esse rapaz devoraria três fortunas.

A atitude de Eva bem significava que já se dissipara a última das suas

ilusões a respeito do irmão; assim, o solicitador fez uma pausa para converter

o silêncio da cliente numa espécie de assentimento.

— De modo que nesta questão — prosseguiu ele — trata-se apenas da

senhora e de seu filho. Compete à senhora resolver se dois mil francos de

renda lhes bastam para ser felizes, não contando a herança do velho

Séchard. Desde muito o seu sogro possui uma renda de sete a oito mil

francos, sem levar em conta os juros que sabe tirar de seus capitais. Têm pois

um belo futuro. Para que afligir-se?

O solicitador deixou a sra. Séchard a refletir sobre essa perspectiva,

muito habilmente preparada na véspera pelo Cointet grande.

— Faça-lhes entrever a possibilidade de receberem uma quantia

qualquer — dissera o usurário de Angoulême ao solicitador quando este lhe

fora anunciar a prisão. — E logo que se acostumarem à ideia de embolsar

uma soma, serão nossos: regatearemos e, pouco a pouco, os faremos chegar

ao preço que queremos dar pelo segredo.

Essa frase continha de certo modo o argumento do segundo ato daquele

drama financeiro.

Quando a sra. Séchard, com o coração partido por suas apreensões

quanto à sorte do irmão, se vestiu e desceu para ir à prisão, experimentou a

angústia que lhe deu a ideia de atravessar sozinha as ruas de Angoulême.

Sem se preocupar com a ansiedade de sua cliente, Petit-Claud voltou no

entanto para lhe oferecer o braço, trazido por um pensamento assaz

maquiavélico, e teve o mérito de uma delicadeza a que Eva se mostrou

extremamente sensível, pois deixou que ela lhe agradecesse sem a tirar do

seu engano. Aquela pequena atenção, num homem tão duro, tão ríspido, e

em tal momento, modificou os juízos que a sra. Séchard até então formara a

respeito de Petit-Claud.

— Levo-a — disse ele — pelo caminho mais longo, mas não

encontraremos ninguém.

— Eis a primeira vez, senhor, que não tenho direito de andar de cabeça

erguida! Bem duramente mo ensinaram ontem...

— Será a primeira e a última vez.

— Oh! eu certamente não vou ficar nesta cidade...

— Se o seu marido concordasse com as propostas que os Cointet e eu

deixamos mais ou menos assentes — disse Petit-Claud a Eva, chegando à

entrada da prisão — faça-me saber que eu logo voltarei com uma autorização

de Cachan para David sair; e, possivelmente, ele não voltará mais à prisão...

Isso, dito defronte da cadeia, era o que os italianos chamam uma

combinação. Entre eles, essa palavra exprime o ato indefinível em que se

encontra um pouco de perfídia misturada com o direito, e a propósito de

uma fraude permitida, uma velhacaria quase legítima e bem-feita; segundo

eles, a São Bartolomeu é uma combinação política.

XXXVII – AS INFLUÊNCIAS DA PRISÃO

 

Pelas causas acima expostas, a detenção por dívidas é fato judiciário tão raro

na província que, na maioria das cidades da França, não há prisão

apropriada para esses casos. Em tais circunstâncias, o devedor é metido na

prisão dos inculpados, dos condenados, dos acusados, dos réus. Tais são os

diversos nomes que tomam legal e sucessivamente aqueles que o povo chama

genericamente de criminosos. Assim foi David colocado provisoriamente

numa das celas da prisão de Angoulême, de onde talvez acabava de sair

algum condenado, depois de cumprido o seu tempo. Uma vez preso, com a

soma decretada por lei para o sustento do prisioneiro, David encontrou-se

diante de um homenzarrão que, para os cativos, se torna uma potência

maior que o rei: o carcereiro! Na província, não se conhecem carcereiros

magros. Primeiro, porque esse lugar é quase uma sinecura; depois um

carcereiro é como um estalajadeiro que não tivesse casa a alugar e que se

sustenta muito bem, sustentando muito mal a seus prisioneiros, a quem

hospeda, como aliás o faz o estalajadeiro, conforme os recursos destes.

Conhecia David de nome, principalmente por causa de seu pai, e teve a

amabilidade de alojá-lo bem por uma noite, embora David não tivesse um

vintém.

A prisão de Angoulême data da Idade Média, e não sofreu mais

alterações que a catedral. Ainda chamada casa de justiça, é contígua ao

antigo tribunal. A porta, clássica, é essa porta pregueada, aparentemente

sólida, gasta, baixa, e de construção tanto mais ciclópica visto que tem como

que um olho único na frente, o postigo por onde o carcereiro vem

reconhecer as pessoas antes de abrir. Há um corredor no rés do chão, ao

longo da fachada, e para esse corredor dão vários cubículos, cujas janelas,

altas e gradeadas, recebem luz do pátio. O carcereiro ocupa um alojamento

separado desses cubículos por uma abóbada que divide o rés do chão em

duas partes e ao fundo da qual se avista, da entrada, uma grade que fecha o

pátio. David foi conduzido pelo carcereiro ao cubículo que ficava junto da

abóbada e cuja porta era fronteira ao seu alojamento. O carcereiro queria

vizinhar com um homem que, em vista da sua posição particular, poderia

fazer-lhe companhia.

— É a melhor cela — disse ele, ao ver David estupefato com o aspecto do

local.

As paredes eram de cantaria e bastante úmidas. As janelas, muito

elevadas, tinham barras de ferro. As lajes de pedra exalavam um frio glacial.

Ouvia-se o passo regular da sentinela de serviço que passeava pelo corredor.

Aquele ruído, monótono como o da maré, lançava a cada instante este

pensamento: “Prenderam-te! Já não és livre!”. Todos esses pormenores, esse

conjunto de coisas influi poderosamente no moral das pessoas honradas.

David avistou um leito execrável, mas na primeira noite os prisioneiros se

acham em tamanha agitação que só notam a dureza da cama na segunda

noite. O carcereiro mostrou-se amável, propôs naturalmente ao seu detido

que passeasse no pátio até a noite. O suplício de David só começou no

momento de deitar-se. Era proibido fornecer luz aos prisioneiros, e

necessitava-se, pois, de uma licença do procurador régio para isentar o

detido por dívidas do regulamento que evidentemente só dizia respeito aos

criminosos sob a alçada da justiça. O carcereiro na verdade admitiu David no

seu alojamento, mas, à hora de recolher, era preciso encarcerá-lo. O pobre

marido de Eva conheceu então os horrores da prisão e a grosseria dos seus

usos, que o revoltaram. Mas, por uma dessas reações muito familiares aos

pensadores, isolou-se naquela solidão, libertando-se dela por um desses

sonhos que os poetas têm o poder de sonhar acordados. O infeliz acabou por

dirigir as reflexões para os seus negócios. A prisão induz enormemente ao

exame de consciência. David indagou consigo se teria acaso cumprido com

os seus deveres de chefe de família. Em que desespero não estaria a sua

mulher! Por que, como lhe dizia Marion, não ganhar dinheiro suficiente

para poder dedicar-se mais tarde folgadamente às suas experiências?

“Como ficar em Angoulême depois de tal escândalo?”, pensou. “Se saio

da prisão, que vai ser de nós, para onde iremos?”

Ocorreram-lhe algumas dúvidas sobre os seus trabalhos. Foi uma dessas

angústias que só podem ser compreendidas pelos próprios inventores! De

dúvida em dúvida, David chegou a ver claro na sua situação, e disse a si

mesmo o que os Cointet tinham dito ao velho Séchard, o que Petit-Claud

acabava de dizer a Eva:

— Supondo que tudo corra bem, como não será na prática? Necessito privilégio, e isso demanda dinheiro!... Preciso de uma fábrica onde faça as

minhas experiências em grande escala, e isso é revelar a minha descoberta!...

Oh! como Petit-Claud tinha razão!

As prisões mais escuras deitam vivas claridades.

— Ora! — pensou David, ao adormecer sobre aquela espécie de tarimba

onde se encontrava uma horrível enxerga de pano grosseiro. — Decerto

amanhã de manhã poderei falar com Petit-Claud.

David estava pois bem preparado para ouvir as propostas que a mulher

lhe trazia da parte de seus inimigos. Depois de beijar o marido e sentar-se ao

pé da cama, pois só havia uma cadeira de pau da pior espécie, o olhar de

Eva foi dar no horrendo balde que estava a um canto e nas paredes

semeadas de nomes e sentenças escritas pelos predecessores de David.

Então, de seus olhos avermelhados, as lágrimas recomeçaram a tombar.

Tinha ainda lágrimas, depois de todas as que já vertera, ao ver o marido na

situação de um criminoso.

— Eis até onde pode levar o desejo da glória!... — exclamou. — Oh, meu

anjo, abandona essa carreira... Sigamos juntos ao longo da estrada batida, e

não busquemos uma fortuna rápida... Basta-me pouca coisa para ser feliz,

principalmente depois de ter sofrido tanto!... Se soubesses!... Essa desonrosa

prisão não é a nossa maior desgraça!... Olha!

Estendeu-lhe a carta de Luciano, que David leu num momento; e, para

consolá-lo, repetiu-lhe a terrível frase de Petit-Claud sobre Luciano.

— Se Luciano se matou está acabado — disse David —, mas, se não se

matou até este momento, não mais o fará: ele só pode ter coragem para

poucas horas....

— Mas como ficar nesta incerteza? — exclamou a irmã, que perdoava

quase tudo ante a ideia da morte. Repetiu as propostas que Petit-Claud

dizia haver obtido dos Cointet, e que foram em seguida aceitas por David

com visível prazer.

— Teremos com que viver nalguma aldeia próxima do Houmeau, onde

está situada a fábrica dos Cointet, e eu só quero tranquilidade! — exclamou o

inventor. — Se Luciano se puniu matando-se, teremos dinheiro suficiente

para esperar o de meu pai; e, se Luciano está vivo, o pobre rapaz saberá

conformar-se com a nossa mediocridade... Os Cointet certamente se aproveitarão da minha descoberta; mas, afinal de contas, que sou eu

relativamente à minha pátria?... Um homem. Se o meu segredo aproveita a

todos, estarei contente! Olha, minha querida Eva, nenhum de nós dois foi

feito para comerciante. Não temos o amor do lucro, nem essa dificuldade em

largar qualquer dinheiro, mesmo o mais legitimamente devido, que são talvez

as virtudes do negociante, pois essas duas avarezas se chamam prudência e

gênio comercial!

Encantada com essa uniformidade de opiniões, uma das mais suaves

flores de amor, pois os interesses e o espírito podem não estar de acordo

entre duas criaturas que se amam, Eva pediu ao carcereiro para enviar a

Petit-Claud um bilhete em que lhe dizia que soltasse David, anunciando-lhe

o seu mútuo consentimento nas bases do arranjo projetado. Dez minutos

depois, Petit-Claud entrava na horrível cela de David e dizia a Eva:

— Volte para casa, minha senhora, que lá estaremos em seguida... Com

que então te deixaste apanhar, meu caro amigo! — disse ele a David. — Mas

como pudeste cometer a falta de sair?

— E como poderia eu deixar de sair, em vista do que Luciano me

escreveu?

David entregou a Petit-Claud a carta de Cérizet; Petit-Claud agarrou-a,

leu-a, examinou-a, apalpou o papel, e pôs-se a falar de negócios enquanto

dobrava a carta como que por distração e a guardava no bolso. Depois o

procurador tomou David pelo braço e saiu com ele, pois o alvará de soltura

tinha sido entregue ao carcereiro durante essa conversação.

Voltando a casa, David julgou-se no céu. Chorou como uma criança ao

beijar o seu pequeno Luciano e ao ver-se de novo em seu quarto de dormir,

após vinte dias de uma detenção cujas últimas horas eram, segundo os

costumes da província, desonrosas. Kolb e Marion tinham voltado. Marion

soube no Houmeau que Luciano fora visto na estrada de Paris, além de

Marsac. O vestuário do dândi fora notado pelos campônios que traziam

gêneros à cidade. Depois de lançar-se a cavalo estrada afora, Kolb acabara

por saber em Mansle que Luciano, reconhecido pelo dr. Marron, viajava

numa carruagem de posta.

— Que lhe dizia eu? — exclamou Petit-Claud. — Esse rapaz não é um

poeta, é um romance sem fim.

— Viajando! — dizia Eva. — Aonde irá ele desta vez?

— Agora — disse Petit-Claud a David —, venha à casa dos srs. Cointet,

que estão à sua espera.

— Ah, senhor! — exclamou a bela sra. Séchard —, rogo-lhe que defenda

bem os nossos interesses, o senhor tem todo o nosso futuro nas mãos.

— Deseja, minha senhora, que a conferência tenha lugar em sua casa? —

indagou Petit-Claud. — Deixo-lhe David. Aqueles senhores virão aqui esta

noite; verá então a senhora se eu sei defender os seus interesses.

— Ah! o senhor me daria um grande prazer — disse Eva.

— Pois bem — disse Petit-Claud —, esta noite, aqui, às sete horas.

— Muito agradecida — respondeu Eva, com um olhar e um acento que

provaram a Petit-Claud os progressos que estava fazendo na confiança da

sua cliente.

— Nada tema! Bem vê como eu tinha razão — acrescentou ele. — Seu

irmão está a trinta léguas do suicídio. E, enfim, talvez tenham esta noite

uma pequena fortuna. Apareceu um pretendente sério para a sua

tipografia.

— Se assim é — observou Eva —, não seria melhor esperar antes de nos

comprometermos com os Cointet?

— Esquece-se, minha senhora — respondeu Petit-Claud, que viu o

perigo da sua confidência —, de que só poderá vender a sua tipografia

depois de haver pago ao sr. Métivier, pois todos os utensílios estão

penhorados.

Chegando em casa, Petit-Claud mandou chamar Cérizet. Quando o

chefe de oficina chegou em seu gabinete, ele o levou para o vão de uma

janela.

— Amanhã à noite serás proprietário da tipografia Séchard, e com

proteção bastante para obter a transmissão do privilégio — disse-lhe ao

ouvido. — Mas não queres acabar nas galés, não é?

— Como! Como! Nas galés? — exclamou Cérizet.

— Tua carta a David é uma falsificação, e eu a tenho em meu poder... Se

interrogassem Henriqueta, que diria ela?... Mas eu não quero desgraçar-te —

disse em seguida Petit-Claud, vendo Cérizet empalidecer.

— Quer mais alguma coisa de mim? — exclamou o parisiense.

— Pois bem, eis o que eu espero de ti — prosseguiu Petit-Claud. —

Escuta bem! Serás impressor em Angoulême dentro de dois meses..., mas

deverás a tua tipografia, e só a terás pago em dez anos!... Trabalharás por

muito tempo para os teus capitalistas! E ainda mais, serás obrigado a ser o

testa de ferro do partido liberal... Eu é que redijo a tua escritura de

comandita com o Gannerac; fá-lo-ei de maneira que possas um dia ficar

com a tipografia... Mas se eles fundarem um jornal e tu fores o gerente, e eu

for aqui primeiro delegado, tu te entenderás com o Cointet grande para a

inserção de artigos que façam com que o jornal seja apreendido e suspenso.

Os Cointet te pagarão generosamente por esse serviço... Bem sei que serás

condenado, que irás para a cadeia, mas passarás por um homem importante

e perseguido. Tu te tornarás um figurão do partido liberal, um sargento

Mercier, um Paul-Louis Courier, um Manuel.[442] Jamais deixarei cassarem

o teu privilégio. Finalmente, no dia em que teu jornal for suprimido,

queimarei esta carta diante de ti... Tua fortuna não te custará caro...

A gente do povo tem ideias muito errôneas sobre as distinções legais da

falsificação, e Cérizet, que já se via no banco dos réus, respirou.

— Daqui a três anos serei procurador do rei em Angoulême — continuou

Petit-Claud —, e poderás precisar de mim, não te esqueças!

— Está combinado — disse Cérizet. — Mas o senhor não me conhece:

queime essa carta diante de mim, e pode confiar na minha gratidão.

Petit-Claud olhou para Cérizet. Foi um desses duelos em que o olhar

daquele que observa é como um escalpelo com o qual tenta revolver a alma e

em que os olhos do homem que quer demonstrar virtude são como um

espetáculo.

Petit-Claud nada respondeu; acendeu uma vela e queimou a carta,

dizendo consigo: “Ele tem de fazer fortuna”.

— O senhor tem a seu dispor uma alma disposta a tudo — disse o

tipógrafo.

 

XXXVIII – UM DIA DEMASIADO TARDE

 

David esperava numa vaga inquietação a conferência com os Cointet: não

era a discussão dos seus interesses nem da escritura a lavrar o que o preocupava, mas sim a opinião que os negociantes formariam a respeito de

seus trabalhos. Achava-se na situação do autor dramático perante os seus

juízes. O amor-próprio do inventor e suas ansiedades no momento de atingir

o fim faziam empalidecer quaisquer outros sentimentos. Afinal, pelas sete da

noite, no momento em que a sra. condessa du Châtelet se metia na cama sob

o pretexto de uma enxaqueca e deixava ao marido o cuidado de fazer as

honras do jantar, tão aflita se achava ela com as notícias contraditórias que

corriam a respeito de Luciano, os Cointet, o gordo e o grande, entraram com

Petit-Claud na casa de seu concorrente, que se entregava a eles de pés e

mãos atados. Viram-se primeiro ante uma dificuldade preliminar: como

fazer uma escritura de sociedade sem conhecer os processos de David? E,

divulgados os processos de David, ficaria este à mercê dos Cointet. Petit-

Claud conseguiu que se fizesse antes a escritura. O Cointet grande disse

então a David que lhe mostrasse alguns de seus produtos, e o inventor

apresentou-lhe as últimas folhas fabricadas, garantindo o preço de custo.

— Bem, já se achou a base do contrato — disse Petit-Claud. — Com esses

dados, poderão associar-se, estabelecendo uma cláusula de dissolução para o

caso em que as condições do privilégio não sejam cumpridas na execução em

fábrica

— Uma coisa, senhor — disse o Cointet grande a David —, uma coisa é

fabricar, em ponto pequeno e em casa, com fôrma pequena, umas amostras

de papel, e outra coisa é realizar uma fabricação em larga escala. Veja o

senhor por um único exemplo! Fabricamos papel de cor, e compramos, para

colorir, partidas de tinta idênticas. Assim, o anil para azular as nossas

coquilles é tirado de uma caixa cujas pedras provêm todas do mesmo fabrico.

Pois bem, nunca conseguimos obter duas cubas de tintas iguais... Na

preparação de nossos materiais, operam-se fenômenos que nos escapam. A

quantidade, a qualidade da pasta transformam imediatamente a questão.

Quando o senhor tinha numa caldeira uma porção de ingredientes que não

peço para conhecer, era o seu dono, podia manipulá-los uniformemente,

ligá-los, sová-los, moldá-los a seu gosto, dar-lhes uma composição

homogênea... Mas, quem lhe garante que numa caldeira de quinhentas

resmas acontecerá o mesmo, e que os seus processos darão resultado?...

David, Eva e Petit-Claud entreolharam-se significativamente.

— Tome um exemplo que lhe ofereça uma analogia qualquer — disse o

Cointet grande após uma pausa. — O senhor corta dois feixes de feno num

prado e os mete bem amarrados no seu quarto, sem os deixar arejar; a

fermentação opera-se, mas não causa acidentes. O senhor se apoiaria nessa

experiência para empilhar dois mil feixes num barracão de madeira?... Sabe

perfeitamente que o feno pegaria fogo, e que o seu depósito arderia como

um pau de fósforo. O senhor, que é um homem instruído, tire as

conclusões... O senhor, até este momento, cortou dois feixes de feno, e nós

receamos incendiar a nossa papelaria, armazenando lá dois mil feixes.

Podemos, em outros termos, perder mais de uma caldeirada, e encontrarmo-

nos sem nada nas mãos depois de ter gasto tanto dinheiro.

David estava aterrado. A prática falava sua linguagem positiva à teoria,

cuja palavra está sempre no futuro.

— Com os diabos, se eu assino semelhante contrato! — exclamou

brutamente o Cointet gordo. — Podes perder o teu dinheiro, se quiseres,

Bonifácio, mas eu guardo o meu... Estou disposto a pagar as dívidas do sr.

Séchard, e seis mil francos... Ainda assim três mil francos em letras —

continuou ele, emendando-se — a doze e quinze meses... Bastam os riscos

que se correm... Temos doze mil francos a saldar com Métivier. O que perfaz

um total de quinze mil francos!... É o mais que posso dar pelo segredo, para

explorá-lo sozinho. Ah! era esse o grande achado de que me falavas,

Bonifácio?... Muito agradecido, eu te julgava mais esperto. Não é

precisamente o que se chama um bom negócio...

— A questão, para os senhores — disse então Petit-Claud, sem se assustar

com a tirada —, se reduz a isto: querem arriscar vinte mil francos para

adquirir um segredo que pode enriquecê-los? Mas, senhores, os riscos são

sempre proporcionais aos lucros... É uma parada de vinte mil francos contra

a riqueza. O jogador põe um luís para embolsar trinta e seis na roleta, mas

sabe que o seu luís está perdido. Façam o mesmo.

— Quero primeiro refletir — disse o Cointet gordo —, eu não sou tão forte

como o meu irmão. Sou um pobre rapaz que só sabe uma coisa: fazer um

livro de missa por vinte sous e vendê-lo por quarenta. Numa invenção que

ainda está na primeira experiência, só percebo uma causa de ruína. Hão de

fazer bem a primeira caldeira, errar a segunda, continuar, deixar-se arrastar e, quando se mete o braço numas engrenagens dessas, vai em seguida o

corpo...

Contou a história de um negociante de Bordeaux, arruinado por haver

tentado cultivar as charnecas a conselho de um sábio; achou seis exemplos

semelhantes nas redondezas, no departamento de Charente e do Dordogne,

na indústria e na agricultura; arrebatou-se, não quis ouvir mais nada, e as

objeções de Petit-Claud lhe aumentavam a irritação, em vez de acalmá-lo.

— Prefiro comprar por mais dinheiro algo de mais certo do que essa

descoberta, e só obter um pequeno lucro — disse ele, olhando para o irmão.

— A meu ver, nada disso oferece base sólida para um negócio! — exclamou,

terminando.

— Mas, afinal, os senhores vieram aqui para alguma coisa... — disse Petit-

Claud. — Que é que propõem?

— Pagar as dívidas do sr. Séchard e garantir-lhe, em caso de êxito, trinta

por cento dos lucros — respondeu vivamente o Cointet gordo.

— Mas, senhor — disse Eva —, com que viveremos durante todo o tempo

Continuar: parte 8 de 9