A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Terceira Parte • os Sofrimentos do Inventor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
respondeu Petit-Claud.
— E que me importa?! — exclamou Séchard.
— Esperas dinheiro? Estás bem certo disso?... — perguntou o solicitador,
quase surpreso da facilidade com que o seu cliente mordia a isca.
— Dentro de três meses estarei rico — retrucou o inventor, com a
segurança própria dos inventores.
— Teu pai ainda não está no campo-santo e se empenha em
permanecer entre as vinhas — respondeu Petit-Claud.
— E então vou eu contar com a morte de meu pai?! — disse David. —
Estou na pista de um segredo industrial que me permitirá fabricar sem um
fio de algodão um papel tão sólido como o papel da Holanda, e por metade
do atual custo do papel de algodão...
— É uma fortuna! — exclamou Petit-Claud, que compreendeu então o
plano de Cointet.
— Uma grande fortuna, meu amigo, pois será preciso, daqui a dez anos,
dez vezes mais papel do que se gasta hoje. O jornalismo será a loucura da
nossa época!
— Ninguém sabe do teu segredo?
— Ninguém, exceto minha mulher.
— Não falaste no teu projeto, no teu programa a alguém... aos Cointet,
por exemplo?
— Falei-lhes, mas vagamente, creio eu.
Um relâmpago de generosidade fulgiu na alma envenenada de Petit-
Claud, que tentou conciliar tudo, os interesses dos Cointet, os seus e os de
Séchard.
— Escuta, David, nós somos camaradas de colégio, eu te defenderei; mas é bom que saibas que essa defesa contra a lei vai custar-te de cinco a seis mil
francos!... Não comprometas a tua fortuna. Creio que serás obrigado a dividir
os benefícios de tua invenção com algum dos nossos fabricantes. Terás de
ponderar muito antes de comprar ou mandar construir uma fábrica... Será
preciso, aliás, obter patente de invenção. Tudo isso demanda tempo e
dinheiro. Os oficiais de diligências cairão sobre ti talvez demasiado cedo,
apesar das voltas que vamos dar para despistá-los...
— O meu segredo está garantido! — respondeu David com a
ingenuidade dos sábios.
— Pois bem, teu segredo será a tua tábua de salvação — continuou Petit-
Claud, repelido na sua primeira e leal intenção de evitar um processo com
uma transação —, e eu não quero saber dele. Mas ouve-me bem: trata de
trabalhar nas entranhas da terra, que ninguém te veja nem possa suspeitar
teus meios de execução, senão te roubariam a tábua debaixo dos pés... Um
inventor tem muito de ingênuo! Vocês pensam muito em seus segredos para
que possam cogitar de tudo. Acabarão por desconfiar do objeto de tuas
pesquisas, estás cercado de fabricantes. Cada fabricante, um inimigo! Eu te
vejo como um castor no meio dos caçadores; não lhes entregues a tua pele...
— Obrigado, meu bom amigo, já pensei em tudo isso — exclamou
Séchard —, mas fico-te agradecido por tanta prudência e solicitude! Não se
trata da minha pessoa neste caso. A mim me bastariam mil e duzentos
francos de renda, e meu pai deve deixar-me, algum dia, três vezes mais do
que isso... Eu vivo pelo amor e pelo pensamento... uma vida celeste!... Trata-
se de Luciano e de minha esposa, é para eles que eu trabalho...
— Vamos, assina-me esta procuração, e trata só da tua descoberta. No
dia em que for preciso te esconderes por causa da ordem de prisão, eu te
avisarei na véspera, pois convém prever tudo. E permite-me que recomende
que não deixes entrar em tua casa senão pessoas em quem confies como em
ti mesmo.
— Cérizet não quis renovar o arrendamento de minha tipografia, e
vieram daí os nossos contratempos financeiros. Lá em casa só me resta
portanto Marion, Kolb, um alsaciano que me é dedicado como um cão,
minha mulher e minha sogra...
— Escuta — disse Petit-Claud —, cautela com o cão...
— É que tu não o conheces! — exclamou David. — Kolb é como se fosse
eu mesmo.
— Deixas que eu o experimente?
— Pois não.
— Bem, então manda-me a bela sra. Séchard, pois é indispensável que
ela me passe uma procuração. E pensa bem, meu amigo, que há fogo em
teus negócios — disse Petit-Claud ao condiscípulo, prevenindo-o assim de
todas as desgraças judiciárias que iam abater-se sobre ele.
“Eis-me acendendo uma vela a Deus, outra ao diabo”, pensou Petit-
Claud, depois de acompanhar seu amigo Séchard até a porta do escritório.
Entregue aos cuidados que causa a falta de dinheiro e ao desgosto que
lhe provocava o estado da mulher, sucumbida com a infâmia de Luciano,
continuava David, apesar de tudo, a martelar no seu problema; ora,
enquanto se dirigia da sua casa ao escritório de Petit-Claud, mastigava
distraidamente uma haste de urtiga que pusera para amolecer dentro
d’água e fazer a maceração utilizada como material para a sua massa. Queria
substituir por processos equivalentes as diversas triturações operadas pela
maceração, tecelagem ou desgaste de tudo o que se transforma em fio ou
trapo. Quando regressava, muito satisfeito da conferência com seu amigo
Petit-Claud, deu com uma bolinha de massa na boca; deitou-a na palma da
mão, estendeu-a e viu uma pasta superior a todas as composições que já
tinha obtido; pois o principal inconveniente das pastas provenientes de
vegetais era a falta de uma liga. Assim, a palha dá um papel quebradiço,
quase metálico e sonoro. Tais acasos só são encontrados pelos audazes
pesquisadores das causas naturais!
“Vou substituir”, pensava ele, “pela ação de uma máquina e de um
agente químico a operação que acabo de fazer maquinalmente.”
E apareceu ante a mulher com toda a alegria da sua crença na vitória.
— Oh! Não te preocupes, meu anjo — disse David, ao ver que a mulher
havia chorado. — Petit-Claud garante-nos alguns meses de tranquilidade.
Haverá gastos; mas, como me disse ele à despedida, “todos os franceses têm
o direito de fazer seus credores esperarem, contanto que acabem por lhes
pagar o capital, os juros e as custas!”. Pois bem, nós pagaremos...
— E como nos sustentaremos? — disse a pobre Eva, que pensava em tudo.
— Ah! é verdade! — respondeu David, levando a mão à orelha num
gesto inexplicável e familiar a quase todas as pessoas embaraçadas.
— Minha mãe tomará conta do nosso pequeno Luciano e eu então
poderei trabalhar — disse ela.
— Eva! Ó minha querida Eva! — exclamou David, apertando a mulher
contra o peito. — Eva, a dois passos daqui, em Saintes, no século xvi, um dos
maiores homens da França, pois não foi somente o inventor dos esmaltes, foi
também o glorioso precursor de Buffon e de Cuvier, descobrindo antes deles
a geologia, esse bom homem, Bernard de Palissy,[395] em suma, sofria a
paixão dos buscadores de segredos, mas via contra si a mulher, os filhos, um
bairro inteiro. A mulher vendia os seus utensílios... Ele vagueava pelos
campos, incompreendido!... perseguido, apontado a dedo!... Mas eu, eu sou
amado...
— Bem-amado! — respondeu Eva, com a plácida expressão do amor
seguro de si mesmo.
— Pode-se então sofrer tudo o que sofreu esse pobre Bernard de Palissy,
autor das faianças de Écouen, e que Carlos ix excetuou da São Bartolomeu,
[396] que deu enfim, à face da Europa, velho, rico e cheio de honrarias,
cursos públicos sobre a sua ciência das terras, como a chamava ele.
— Enquanto meus dedos tiverem forças para empunhar um ferro de
engomar, nada te faltará! — exclamou a pobre mulher, no tom do mais
profundo devotamento. — Quando eu era primeira empregada do
estabelecimento da sra. Prieur, tinha como amiga uma mocinha de muito
senso, Basine Clerget, prima de Postel; pois Basine acaba de participar-me,
ao trazer-me a roupa, que vai ficar com a casa da sra. Prieur; eu irei
trabalhar com ela...
— Ah! Não há de ser por muito tempo! — respondeu Séchard. — Eu
descobri...
Pela primeira vez, a sublime crença no sucesso, que ampara os
inventores e lhes dá coragem de penetrar avante na floresta virgem do país
das descobertas, foi acolhida por Eva com um sorriso quase triste, e David
baixou a cabeça num gesto fúnebre.
— Ah, meu amigo! Eu não zombo, não rio, não duvido! — exclamou a bela Eva, ajoelhando-se diante do esposo. — Mas vejo como tinhas razão em
guardar o mais profundo silêncio sobre as tuas experiências, sobre as tuas
esperanças. Sim, meu amigo, os inventores devem ocultar a penosa gestação
da sua glória a todo o mundo, até mesmo às suas mulheres!... Uma mulher é
sempre mulher. A tua Eva não pôde deixar de sorrir ao ouvir-te dizer “Eu
descobri!” pela décima sétima vez nos últimos trinta dias.
David pôs-se a rir de si mesmo com tanta franqueza que Eva lhe tomou a
mão e beijou-a santamente. Foi um momento delicioso, uma dessas rosas de
amor e de ternura que desabrocham à beira dos mais áridos caminhos da
miséria e às vezes no fundo dos precipícios.
XIII – O PAI E OS DOIS CRIADOS
Eva redobrou de coragem ao ver a desgraça redobrar de fúria. A grandeza do
marido, a sua ingenuidade de inventor, as lágrimas que por vezes
surpreendeu nos olhos daquele homem de coração e de poesia, tudo
contribuiu para desenvolver nela uma inaudita resistência. Mais uma vez
recorreu ao meio que já lhe dera tão bons resultados. Escreveu ao sr. Métivier
para que anunciasse a venda da tipografia, propondo-se a pagar do preço
que obtivesse e pedindo-lhe que não arruinasse David com custas inúteis.
Diante dessa carta sublime, Métivier se fez de morto; seu primeiro
empregado respondeu que, na ausência do sr. Métivier, não poderia assumir
a responsabilidade de fazer parar a ação, pois tal não era o costume de seu
patrão em negócios. Eva propôs a reforma das letras, pagando todas as
custas, e o empregado consentiu, contanto que o pai de David Séchard
desse a sua garantia por meio de um aval. Eva dirigiu-se então a pé a Marsac,
acompanhada de sua mãe e de Kolb. Enfrentou o velho vinhateiro, fez-se
amável, conseguiu desanuviar aquela velha face; mas, quando, com o
coração a saltar, falou no aval, viu uma súbita e completa mudança naquele
rosto ebriográfico.
— Se eu deixasse a meu filho a liberdade de pôr a mão em meus lábios, à
beira de meu caixão, ele a mergulharia até o fundo de minhas entranhas e
esvaziaria tudo! — exclamou. — Os filhos avançam todos da mesma forma
na bolsa paterna. E eu, como foi que fiz? Nunca custei um liard a meus pais. A sua imprensa se acha deserta. Impressões, só as fazem os ratos... Você, sim,
eu a estimo; é uma mulher trabalhadeira e cuidadosa; mas o meu filho!...
Sabe o que é meu filho? É um sabichão mariola. Se o tivesse sovado, como a
mim me sovaram sem pensar em letras, e o tivesse tornado um urso, como o
seu pai, ele agora teria rendas... Oh! é a minha cruz esse rapaz! E, por
desgraça, é filho único, pois não haverá segunda tiragem! E ainda por cima
torna você desgraçada...
Eva protestou num gesto de enérgica negação.
— Sim — continuou ele, em resposta a esse gesto, — você foi obrigada a
tomar uma ama, o desgosto lhe secou o leite. Eu sei de tudo! Vocês estão às
voltas com a justiça e apregoados por toda a cidade. Eu não passava de um
urso, não sou sábio, não trabalhei com os Didot, a glória da tipografia; mas
nunca fui citado! Sabe o que penso, quando ando pelas minhas vinhas, a
cuidar delas e tratando de meus pequenos negócios?... Eu digo a mim
mesmo: “Pobre velho, tens tanto trabalho, juntas escudo por escudo,
deixarás bom dinheiro... e para quem?... para os oficiais de diligências, para
os solicitadores... ou para as fantasias, para as ideias...”. Olha, minha filha,
você é mãe desse pequeno, que me pareceu ter a cara de seu avô quando o
fui batizar com a sra. Chardon; pois bem, pense menos em David do que
nesse garotinho... Só tenho confiança em você... Você poderia impedir a
dissipação de meus bens... de meus pobres bens...
— Mas, meu caro papai Séchard, o seu filho há de ser a sua glória, e o
senhor o verá um dia rico por sua própria conta e com a cruz da Legião de
Honra ao peito...
— E que fará ele para isso? — perguntou o vinhateiro.
— Ainda verá! Mas, enquanto espera, acha que mil escudos poderiam
arruiná-lo?... Com mil escudos, o senhor deteria a ação da justiça... Pois bem,
se não tem confiança nele, empreste-os a mim, que eu lhos devolverei;
hipoteco-lhe o meu dote, o meu trabalho...
— Então David Séchard está sendo processado?! — exclamou o
vinhateiro, espantado ao ouvir aquilo que até então supusera uma calúnia.
— Aí está o que é saber assinar o nome!... E os meus aluguéis!... Oh! é preciso,
minha filhinha, que eu vá a Angoulême informar-me e consultar Cachan,
meu solicitador... Você fez muito bem em vir... Um homem avisado vale por dois!
Após uma luta de duas horas, Eva se viu obrigada a retirar-se, batida por
este argumento invencível: “As mulheres nada entendem de negócios”.
Tendo ido com uma vaga esperança de vitória, Eva voltou de Marsac para
Angoulême quase aniquilada. Chegou em casa precisamente a tempo de
receber a notificação da sentença que condenava Séchard a pagar tudo a
Métivier. Na província, a presença de um oficial de diligências à porta de
uma casa é um acontecimento; mas fazia algum tempo que Doublon ia ali
muito seguido para que a vizinhança deixasse de rumorejar. De modo que
Eva não se atrevia mais a sair de casa por medo de ouvir cochichos.
— Ah, meu irmão, meu irmão! — exclamou a pobre Eva, precipitando-se
pelo corredor e subindo a escada. — Eu só te poderia perdoar isto se se
tratasse de...
— Sim — disse Séchard, que vinha ao seu encontro —, tratava-se de
evitar o suicídio de Luciano!
— Nunca mais falemos nisso — respondeu ela suavemente. — A mulher
que o levou para aquele abismo de Paris é bem criminosa!... E teu pai, meu
David, é implacável!... Soframos em silêncio.
Uma discreta batida à porta embargou alguma terna frase nos lábios de
David, e Marion apresentou-se rebocando o grande e gordo Kolb.
— Minha senhora — disse ela —, Kolb e eu soubemos que o patrão e a
patroa andavam muito aflitos; e, como temos mil e seiscentos francos de
economias, pensamos que não podiam estar mais bem colocados do que em
mãos da senhora...
— Ta zenhora[397] — repetiu Kolb com entusiasmo.
— Kolb — exclamou David Séchard —, jamais nos separaremos! Leva mil
francos por conta ao solicitador Cachan, mas pede-lhe recibo; guardaremos
o resto. Kolb, que nenhum poder humano te arranque uma palavra sobre o
que eu faço, sobre as minhas horas de ausência, sobre o que poderás ver-me
trazer, e, quando eu te mandar buscar ervas, que nenhum olhar humano te
veja... Procurarão seduzir-te, meu bom Kolb, hão de oferecer-te talvez mil,
dez mil francos para falares...
— Nem por tez milhons eu tiria uma palavra! Entom non conheçou a
tisciplina militar?
— Estás avisado, anda, e vai pedir ao sr. Petit-Claud que assista à entrega
desse dinheiro ao sr. Cachan.
— Eu ainta echperou zer um tia bachtante ricou para tar uma liçon
àquele homem — disse o alsaciano. — Non vou com a cara tele.
— É um bom homem, senhora — disse a gorda Marion. — Forte como um
turco e manso como um cordeiro. Eis aí um que faria a felicidade de uma
mulher! Foi ele quem teve a ideia de aplicar assim nossos ordenados! Pobre
homem! Fala mal, mas pensa bem, e afinal de contas eu o entendo.
Tenciona ir trabalhar fora para não nos ser pesado...
— Devíamos enriquecer só para poder recompensar a essa boa gente —
disse Séchard, olhando para a mulher.
Eva achava aquilo tudo muito simples, não se espantava de encontrar
almas à altura da sua. Essa atitude bastaria para explicar toda a beleza de
seu caráter às criaturas mais estúpidas, e até a um indiferente.
— Será rico, meu caro senhor! — exclamou Marion. — Seu pão está
quentinho, pois seu pai acaba de comprar uma granja e lhe está preparando
rendas...
Em tais circunstâncias, essas palavras ditas por Marion para diminuir de
algum modo o mérito de seu gesto não denotavam acaso uma grande
delicadeza de sentimentos?
XIV – DESCRIÇÃO DO INCÊNDIO ALIMENTADO POR PETIT-CLAUD E CACHAN COM A ASSISTÊNCIA DE DOUBLON
Como todas as coisas humanas, o código de processo francês tem os seus
defeitos; mas, como arma de dois gumes, tanto serve para a defesa como
para o ataque. Por outro lado, tem isso de divertido que, se dois solicitadores
se entendem (e podem entender-se sem necessidade de trocar duas
palavras, compreendem-se pela simples marcha do processo!), um processo
se assemelha então à guerra como a fazia o primeiro marechal de Biron,
[398] a quem o filho propunha, no cerco de Rouen, um meio de tomar a
cidade em dois dias: “Tens então muita pressa de ir plantar as nossas
couves?”, perguntou ele.
Dois generais podem eternizar a guerra sem chegar a nada de decisivo e poupando as suas tropas, segundo o método dos generais austríacos, a quem
o Conselho Áulico jamais censura de terem feito gorar uma combinação para
que os soldados pudessem comer seu rancho descansadamente. Cachan,
Petit-Claud e Doublon portaram-se ainda melhor que generais austríacos,
tomaram por modelo a um austríaco da Antiguidade, Fábio Cunctator![399]
Petit-Claud, malicioso como um mulo, logo reconheceu todas as
vantagens da sua posição. Como o pagamento das custas estava garantido
pelo Cointet grande, resolveu negacear com Cachan e brilhar aos olhos do
fabricante, criando incidentes que retumbassem em Métivier.
Mas, infelizmente para a glória desse jovem Fígaro da chicana, deve o
historiador passar pelo terreno das suas façanhas como se andasse sobre
brasas. Um único memorial de custas, como o de Paris, basta sem dúvida
para a história dos costumes contemporâneos. Imitemos o estilo dos boletins
do Grande Exército; pois, para inteligência da narrativa, quanto mais rápido
o enunciado das ações e gestos de Petit-Claud, melhor ficará esta página
exclusivamente judiciária.
Intimado a 3 de julho a comparecer perante o Tribunal de Comércio de
Angoulême, David faltou; a sentença foi-lhe imposta a 8. A 10, Doublon
executou-o, e tentou a 12 uma penhora à qual Petit-Claud se opôs,
intimando Métivier a apresentar-se no prazo de quinze dias. Métivier, por
sua vez, achou que era tempo demasiado e, entrando novamente em ação
no dia seguinte, obteve, a 19, uma sentença que anulou a oposição de
Séchard. Essa sentença intimada a 21 autorizou execução para 22, intimação
de captura a 23 e auto de arresto a 24. Esse furor de penhora foi embargado
por Petit-Claud, que apelou para a Corte real. Essa apelação, reiterada a 15
de julho, levava Métivier a Poitiers.
“Bem!”, pensou Petit-Claud. “Ficaremos por aqui durante algum
tempo.”
Uma vez encaminhada a tempestade para Poitiers, a um solicitador da
Corte real a quem Petit-Claud dera instruções, esse defensor bifronte fez
intimar a breve prazo David Séchard, em nome da sra. Séchard, para uma
ação de separação de bens. Segundo a expressão do foro, diligenciou de
modo a obter a sentença de separação a 28 de julho, inseriu-a no Correio de
Charente, notificou-a devidamente, e, a 1º de agosto, fazia-se perante o tabelião uma liquidação da parte da sra. Séchard, constituindo-a credora do
marido pela pequena soma de dez mil francos que o enamorado David lhe
reconhecera em dote nas escrituras de casamento e para cujo pagamento
lhe abandonou os móveis da imprensa e do domicílio conjugal. Enquanto
punha assim a salvo os bens do casal, Petit-Claud fazia triunfar em Poitiers a
pretensão sobre a qual apoiara a sua apelação. A seu ver, David era tanto
menos passível das custas feitas em Paris contra Luciano de Rubempré
quanto era positivo que o tribunal do Sena, em sentença, as lançara a cargo
de Métivier.
Esse sistema, adotado pela Corte, foi consagrado num acórdão que
confirmou as condenações pronunciadas na sentença do Tribunal de
Comércio de Angoulême contra Séchard filho, deduzindo uma soma de
seiscentos francos em que importavam as custas de Paris, que ficavam por
conta de Métivier, e compensando certas custas entre as partes, em vista do
acidente que motivara a apelação de Séchard.
Esse acórdão, notificado a 17 de agosto a Séchard filho, traduziu-se, a 18,
numa intimação para pagar capital, juros e custas, seguida de um auto de
penhora a 20. Neste ponto, Petit-Claud interveio em nome da sra. Séchard e
reivindicou o mobiliário como pertencente à esposa, devidamente separado.
De resto, Petit-Claud fez intimar Séchard pai, que se tornara seu cliente.
Eis o motivo:
No dia seguinte ao da visita que lhe fez a nora, o lavrador fora visitar seu
solicitador de Angoulême, o sr. Cachan, a quem perguntou como recuperar
os arrendamentos comprometidos na embrulhada em que seu filho se
metera.
— Eu não posso representar o pai quando persigo o filho — disse Cachan
—, mas vá procurar Petit-Claud, que é muito hábil, e talvez o atenda melhor
do que eu o poderia fazer...
No tribunal, disse Cachan a Petit-Claud:
— Mandei-te o velho Séchard; encarrega-te dele por mim, que me
encarregarei do outro por ti.
É comum trocarem-se tais serviços entre solicitadores, tanto na província
como em Paris.
No dia seguinte àquele em que Séchard pai entregou seu caso a Petit-Claud, o Cointet grande foi procurar seu cúmplice e lhe disse:
— Trate de dar uma lição ao velho Séchard! Ele é homem para jamais
perdoar ao filho um prejuízo de mil francos; e esse desembolso lhe secará no
coração qualquer sentimento generoso, se é que algum dia o teve!
— Volte para as suas vinhas — disse Petit-Claud ao novo cliente —, seu
filho vai mal, não acabe de roê-lo comendo em casa dele. Eu mandarei
chamá-lo quando for tempo.
Portanto, em nome de Séchard, Petit-Claud alegou que os prelos,
estando selados, se tornavam bens imóveis por destinação, tanto mais que a
casa servia de tipografia desde o reinado de Luís xiv. Cachan, indignado por
conta de Métivier, que, depois de encontrar em Paris os móveis de Luciano
como pertencentes a Corália, vinha ainda encontrar em Angoulême os
móveis de David pertencentes à mulher e ao pai (a esse respeito se disseram
lindas coisas em audiência), intimou pai e filho, a fim de repelir tais
pretensões.
— Queremos — exclamou ele — desmascarar as fraudes desses homens
que assentam as mais temíveis fortificações da má-fé; que dos artigos mais
inocentes e mais claros do Código fazem cavalos de frisa para se
defenderem! E de quê? De pagar três mil francos! Saídos de onde?... Do
cofre do pobre Métivier! E ainda há quem ouse acusar aos que descontam
letras! Em que tempo estamos vivendo!... Enfim, dir-se-ia que só se trata de
ver quem mais tira do bolso do vizinho... Não, vós não sancionareis uma
pretensão que transferiria a imoralidade para o seio da justiça!
O tribunal de Angoulême, comovido com o belo discurso de Cachan,
pronunciou uma sentença contraditória entre todas as partes, que atribuiu a
propriedade dos móveis domésticos unicamente à sra. Séchard e repeliu as
pretensões de Séchard pai, condenando-o a pagar quatrocentos e trinta e
quatro francos e sessenta e cinco cêntimos de custas.
— Boa bisca o velho Séchard! — disseram a rir os solicitadores. — Quis
meter a sua colher, agora que se lamba!
A 26 de agosto foi essa sentença notificada, para que se pudesse arrestar
os prelos e demais acessórios a 28 de agosto. Afixaram os editais!
Obteve-se autorização para que se realizasse a hasta pública no próprio
local. Foi publicado nos jornais o anúncio do leilão, e Doublon contava já proceder ao balanço e à venda no dia 2 de setembro. A essa altura David
Séchard devia, por sentença em regra e por executórias, muito legalmente, a
Métivier a soma total de cinco mil e duzentos e setenta e cinco francos e
vinte e cinco cêntimos, fora os juros. Devia a Petit-Claud mil e duzentos
francos e os honorários, cuja importância estava indeterminada, segundo a
nobre confiança dos cocheiros que fazem dar voltas inúteis ao freguês, à sua
generosidade. A sra. Séchard devia a Petit-Claud cerca de trezentos e
cinquenta francos, mais os honorários. O velho Séchard devia os seus
quatrocentos e trinta e quatro francos e sessenta e cinco cêntimos, e Petit-
Claud lhe pedia cem escudos de honorários. Assim, o total podia orçar por
uns dez mil francos.
Sem falar na utilidade desses documentos para as nações estrangeiras,
que neles poderão ver em exercício a artilharia judiciária da França, é
necessário que o legislador, se é que o legislador tem tempo de ler, conheça
até onde pode ir o abuso do processo. Não se deveria arranjar uma leizinha
que, em certos casos, proibisse aos solicitadores ultrapassar em custas a soma
que constitui o objeto do processo? Não há qualquer coisa de ridículo em
submeter uma propriedade de um centiare às formalidades que regem uma
terra de um milhão? Compreender-se-á, por esta perfunctória exposição de
todas as fases por que passava o debate, o valor destas palavras:
formalidades, justiça, custas! e de que não suspeita a imensa maioria dos
franceses. Eis o que se chama, em gíria forense, atear fogo nos negócios de
alguém. Os caracteres da tipografia, que pesavam cinco mil libras, valiam,
fundidos, dois mil francos. Os três prelos valiam seiscentos francos. O resto
do material seria vendido como ferro-velho e tábuas velhas. O mobiliário
doméstico daria, quando muito, mil francos. Assim, de valores pertencentes
a Séchard filho e representando uma soma de quatro mil francos, Cachan e
Petit-Claud tinham feito pretexto para sete mil francos de custas, sem
contar o futuro, cuja flor prometia frutos assaz formosos, como se verá. É
claro que os rábulas da França e de Navarra, até mesmo os da Normandia,
hão de conceder sua estima e admiração a Petit-Claud; mas as pessoas de
sentimentos não concederão uma lágrima de simpatia a Kolb e a Marion?
Durante aquela guerra, Kolb, sentado numa cadeira à entrada da casa,
quando David não precisava dele, preenchia os deveres de um cão de guarda. Recebia os papéis judiciários, sempre vigiado aliás por um
escrevente de Petit-Claud. Quando editais anunciavam a venda do material
de uma tipografia, Kolb os arrancava logo que os pregavam e corria pela
cidade a tirá-los, exclamando:
— Patifes! Atormentarem um homem tam bom! É istou a justiça?!
Marion ganhava, pela manhã, uma moeda de dez sous para tocar a roda
de uma máquina numa fábrica de papel e empregava-a nas despesas da
casa. A sra. Chardon recomeçara sem murmurar as fatigantes vigílias do seu
ofício de enfermeira e trazia à filha o seu salário no fim de cada semana.
Já fizera duas novenas, espantando-se de encontrar Deus surdo às suas
orações e cego para a luz dos círios que ela Lhe acendia.
XV – O APOGEU DAS PERSEGUIÇÕES
A 2 de setembro recebeu Eva a única carta que Luciano escreveu depois
daquela em que anunciara o desconto das três letras ao cunhado e que
David ocultara à mulher. “É a terceira carta que tenho dele depois que
partiu!”, pensou a pobre irmã, hesitando em abrir o fatal papel.
Naquele momento, dava de mamar ao filho com uma mamadeira, pois se
vira obrigada a despachar a ama por economia. Pode-se imaginar em que
estado não a deixou a leitura da carta seguinte, assim como a David, que ela
tirou da cama. Depois de ter passado a noite a fabricar papel, o inventor se
deitara ao raiar do dia.
Paris, 29 de agosto.
Minha querida irmã,
Há dois dias, às cinco da madrugada, recebi o último suspiro de uma
das mais belas criaturas de Deus, a única mulher que podia amar-me
como tu me amas, como me amam David e minha mãe, juntando a
esses sentimentos tão desinteressados o que uma mãe e uma irmã não
poderiam dar: todas as venturas do amor! Depois de me haver
sacrificado tudo, talvez a pobre Corália tenha morrido por mim! Por
mim que neste momento não tenho com que lhe fazer o enterro... Ela
me consolaria da vida; só vós, meus anjos queridos, podereis consolar-
me da sua morte. Essa inocente rapariga, creio eu, foi absolvida por
Deus, porque morreu cristãmente. Oh! Paris!... Minha Eva, Paris é ao
mesmo tempo toda a glória e toda a infâmia da França, aqui perdi
muitas ilusões, e ainda vou perder mais outras, mendigando o pouco
dinheiro que preciso para enterrar em chão sagrado o corpo de um
anjo!
Teu desgraçado irmão
luciano
P.S. Devo ter-te causado muitos desgostos com a minha leviandade;
um dia saberás tudo e me desculparás. Aliás, podes ficar tranquila: ao
ver-nos tão atormentados, a Corália e a mim, um honrado negociante,
o sr. Camusot, a quem causei cruéis dissabores, encarregou-se, pelo que
diz, de arranjar este assunto.
— A carta ainda está úmida das suas lágrimas! — disse ela a David com um
olhar tão compassivo que deixava transparecer alguma coisa da sua antiga
afeição a Luciano.
— Pobre rapaz, deve ter sofrido muito, se era amado como diz! —
exclamou o feliz esposo de Eva.
E tanto o marido como a mulher esqueceram todas as suas dores ante o
grito daquela dor suprema. Nesse momento, Marion entrou a correr,
dizendo:
— Senhora, aí vêm eles!... aí vêm eles!...
— Eles quem?
— Doublon e seus homens, o diabo! Kolb se bate com eles. Vieram para
fazer o leilão.
— Não, não venderão coisa alguma, podem ficar tranquilos! — exclamou
Petit-Claud, cuja voz ressoou na peça que precedia ao quarto de dormir. —
Acabo de fazer uma apelação. Não podemos ficar sob o peso de uma
sentença que nos inquina de má-fé. Não tratei de defender-me aqui. Para ganhar tempo, deixei Cachan tagarelar, pois estou certo de triunfar mais
uma vez em Poitiers...
— Mas quanto custará esse triunfo? — indagou a sra. Séchard.
— Meus honorários se ganharmos e mil francos se perdermos.
— Meu Deus! — exclamou a pobre Eva. — Mas o remédio não é pior do
que o mal?...
Ao ouvir esse grito da inocência esclarecida ao fogo judiciário, Petit-
Claud sentiu-se confuso, tão bela lhe pareceu Eva.
Nesse meio tempo chegava o velho Séchard, a chamado de Petit-Claud.
A presença do velho no quarto dos filhos, onde o seu neto, no berço, sorria
para a desgraça, tornou completa a cena.
— Papai Séchard — disse o jovem solicitador —, o senhor me deve
setecentos francos por serviços profissionais; mas o senhor os recuperará
com seu filho, acrescentando-os aos arrendamentos em débito.
O velho vinhateiro sentiu a mordente ironia que Petit-Claud pôs no tom
de voz e na fisionomia ao dirigir-lhe tal frase.
— Saía-lhe menos caro se tivesse caucionado o seu filho!... — disse-lhe
Eva, deixando o berço para ir abraçar o velho. David, acabrunhado com o
ajuntamento que se formara diante da casa, onde a luta de Kolb com o
pessoal de Doublon atraíra o povo, estendeu a mão ao pai, sem lhe dizer
palavra.
— E como posso eu dever-lhe setecentos francos? — perguntou o velho a
Petit-Claud.
— Ora! Porque eu, em primeiro lugar, o representei. Como se trata de
seus arrendamentos, o senhor é, perante mim, solidário com o seu devedor.
Se seu filho não me pagar essas custas, o senhor mas pagará... Mas isto não é
nada: daqui a duas horas, virão prender David. O senhor vai deixar que o
metam na cadeia?
— Quanto deve ele?
— Alguma coisa assim como cinco a seis mil francos, sem contar o que ele
deve ao senhor e à esposa.
O velho, agora todo desconfiança, contemplou o comovente quadro que
se apresentava a seus olhos naquele quarto azul e branco: uma formosa
mulher em pranto ao lado de um berço, David vergando enfim ao peso da desgraça, o solicitador, que talvez o tivesse atraído para ali como a uma
ratoeira; o urso julgou então que estavam explorando a sua paternidade e
teve medo de ser ludibriado. Foi olhar e acariciar o neto, que lhe estendeu as
mãozinhas. No meio de tantas preocupações, o menino, cuidado como o
filho de um par da Inglaterra, tinha à cabeça uma touca bordada, com forro
cor-de-rosa.
— Que David se arranje como puder! Eu só penso é neste menino —
exclamou o velho avô —, e sua mãe me aprovará. David é tão sábio que deve
saber como pagar as suas dívidas.
— Vou traduzir-lhe em bom francês os seus sentimentos — disse-lhe o
solicitador com ar zombeteiro. — Olhe, papai Séchard, o senhor tem inveja
de seu filho. Escute a verdade! O senhor colocou David na posição em que
ele está, vendendo-lhe a sua tipografia pelo triplo do valor e arruinando-o
para fazê-lo pagar esse preço usurário. Não, não abane a cabeça, o jornal
vendido aos Cointet, e cujo preço de venda o senhor embolsou todo, era o
único valor da sua tipografia... O senhor odeia a seu filho não só porque o
espoliou, mas ainda porque fez dele um homem acima do senhor. O senhor
se dá ares de querer prodigiosamente a seu netinho para mascarar a sua
bancarrota de sentimentos perante o filho e a nora, que lhe custariam
dinheiro hic et nunc,[400] ao passo que seu neto só precisa da sua afeição
in extremis.[401] O senhor ama a esse garotinho para parecer que ama a
alguém da sua família e não ser tachado de insensível. Eis o fundo de seu
surrão, tio Séchard...
— Foi para me dizer isso que me mandou chamar? — disse o velho num
tom ameaçador, olhando sucessivamente para o solicitador, para a nora e
para o filho.
— Mas, pelo amor de Deus — exclamou a pobre Eva, dirigindo-se a Petit-
Claud —, o senhor jurou a nossa ruína?! Meu marido nunca se queixou de
seu pai...
O vinhateiro olhou para a nora com ar manhoso.
— O que ele muitas vezes me tem dito é que o senhor o estima à sua
maneira — explicou ela ao velho, compreendendo-lhe a desconfiança.
Segundo as instruções do Cointet grande, Petit-Claud acabava de
indispor o pai com o filho, a fim de que o pai não fizesse David sair da cruel posição em que se encontrava.
— No dia em que tivermos David na prisão — dissera na véspera Cointet
a Petit-Claud —, o senhor será apresentado em casa da sra. de Sénonches.
A inteligência que proporciona o afeto esclarecera a sra. Séchard, que
adivinhava aquela inimizade de encomenda, como já sentira a traição de
Cérizet. Facilmente se poderá imaginar o ar surpreso de David, que não
podia compreender que Petit-Claud lhe conhecesse tão bem o pai e os
negócios deste. O leal impressor não sabia das ligações de seu defensor com
os Cointet e ignorava, aliás, que os Cointet estivessem na pele de Métivier. O
silêncio de David era uma afronta para o velho vinhateiro; o solicitador
aproveitou o mudo espanto de seu cliente para deixar o local.
— Adeus, meu caro David; ficas avisado de que a prisão não pode ser
suspensa por apelação nenhuma; só resta esse caminho a teus credores, e
eles vão segui-lo. Trata de fugir!... Ou melhor, se queres seguir o meu
conselho, vai falar com os irmãos Cointet, que possuem capitais; e, se a tua
descoberta está feita, se confirmar as suas promessas, associa-te com eles;
afinal de contas, são excelentes sujeitos...
— Que descoberta? — indagou o velho Séchard.
— Então o senhor acha o seu filho tão tolo que abandonasse a tipografia
sem ter alguma coisa em mente? — exclamou o solicitador. — Disse-me ele
que estava em caminho de descobrir o meio de fabricar por três francos a
resma de papel que atualmente custa dez...
— Mais outra maneira de me apanharem! — exclamou o velho Séchard.
— Vocês aqui estão todos combinados, como ladrões na feira. Se David
descobriu isso, não tem necessidade de mim, está milionário. Adeus, meus
amiguinhos, passem bem.
E lá se foi o velho pela escada.
— Trate de ocultar-se — disse a David Petit-Claud, que correu atrás do
velho Séchard, para exasperá-lo ainda mais. O solicitador encontrou o
vinhateiro a resmungar na Place du Mûrier, acompanhou-o até o Houmeau
e deixou-o ameaçando de o mandar executar pelas custas que lhe eram
devidas, se não fosse pago naquela mesma semana.
— Eu lhe pago se o senhor descobrir um meio de deserdar meu filho sem
prejudicar meu neto e minha nora!... — disse o velho Séchard, deixando bruscamente Petit-Claud.
— Como o Cointet grande conhece bem a gente com quem lida!... Ah,
bem me dizia ele: esses setecentos francos a dar impedirão o pai de pagar os
sete mil francos do filho! — exclamava o solicitador, voltando para
Angoulême. — Contudo, não nos deixemos embair por esse velho finório, é
tempo de lhe pedir outra coisa além de palavras.
— E então, meu David, que pretendes fazer? — disse Eva ao marido,
depois que o velho Séchard e o solicitador os deixaram.
— Põe a tua maior marmita no fogo — exclamou David, olhando para
Marion —, eu já descobri o que buscava!
Ao ouvir esta frase, Eva pôs o chapéu, o xale e os sapatos, com uma febril
vivacidade.
— Vista-se, meu amigo — disse ela a Kolb —, você vai acompanhar-me,
pois é preciso que eu saiba se existe um meio de sair deste inferno...
— Senhor — exclamou Marion depois que Eva saiu —, seja razoável, ou a
patroa morrerá de desgosto. Ganhe dinheiro para pagar o que deve, e depois
então poderá procurar seus tesouros à vontade...
— Cala-te, Marion — respondeu David. — A última dificuldade será
vencida. Conseguirei ao mesmo tempo uma patente de invenção e uma
patente de aperfeiçoamento.
O privilégio de aperfeiçoamento constitui o inferno dos inventores na
França. Gasta a gente dez anos de vida a procurar um segredo industrial,
uma máquina, uma invenção qualquer, tira patente, julga-se dono do que é
seu, e depois vem um concorrente que, por meio de um parafuso, aperfeiçoa
o invento, arrancando-o assim de nossas mãos. Inventada, pois, para o
fabrico de papel, uma pasta mais barata, ainda não estava tudo feito! Outros
poderiam aperfeiçoar o processo. David Séchard queria prever tudo, para
que não lhe extorquissem uma fortuna buscada em meio de tantas
atribulações.
O papel da Holanda (nome que se continua a dar ao papel de linho,
embora a Holanda não mais o fabrique) é ligeiramente colado; mas cola-se
folha a folha, por uma mão de obra que encarece o papel. Se fosse possível
colar a pasta na cuba, e com uma cola pouco dispendiosa (o que aliás se faz
hoje em dia, mas ainda imperfeitamente), não restaria mais nenhum aperfeiçoamento que buscar. Fazia um mês que David procurava por isso
colar na cuba a pasta de seu papel. Visava ao mesmo tempo dois segredos.
Eva foi procurar a mãe. Por um favorável acaso, a sra. Chardon estava a
cuidar da mulher do delegado, que acabava de dar um herdeiro presuntivo
aos Milaud de Nevers.[402] Eva, desconfiada de todos os oficiais ministeriais,
resolvera consultar sobre a sua situação o defensor legal das viúvas e dos
órfãos e perguntar-lhe se poderia libertar David mediante a venda de seus
direitos; mas esperava também saber a verdade sobre a conduta ambígua de
Petit-Claud. O magistrado, surpreso com a beleza da sra. Séchard, recebeu-a
não somente com as atenções devidas a uma mulher, mas ainda com uma
espécie de cortesia a que Eva não estava habituada. A pobre mulher viu
enfim nos olhos do magistrado essa expressão que, desde o casamento, só
encontrara em Kolb, e que para as mulheres formosas como Eva é o critério
com que julgam os homens. Quando uma paixão, o interesse ou a idade
gelam nos olhos do homem o brilho da obediência absoluta que neles arde na
juventude, a mulher põe-se então em guarda contra esse homem e começa
a observá-lo. Os Cointet, Petit-Claud, Cérizet, todas as pessoas em que Eva
adivinhara inimigos a tinham fitado com um olhar seco e frio; sentiu-se pois
à vontade com o delegado, que, acolhendo-a graciosamente, todavia
destruiu em poucas palavras todas as suas esperanças.
— Não é certo, minha senhora, que a segunda instância possa reformar a
sentença que restringe aos móveis domésticos o abandono que seu marido
lhe fez de tudo quanto possuía, para a indenizar do seu dote. O seu
privilégio não pode servir para cobrir uma fraude. Mas, como a senhora será
admitida na qualidade de credora à partilha dos objetos arrestados, como
seu sogro deve fazer valer também seu privilégio quanto à soma dos
arrendamentos em débito, uma vez proferida a sentença, haverá matéria
para outras contestações, a propósito do que chamamos, em termos de
direito, uma contribuição.
— Mas então o sr. Petit-Claud nos está arruinando?! — exclamou Eva.
— A conduta de Petit-Claud — tornou o magistrado — é conforme o
mandato passado por seu marido, que quer ganhar tempo, segundo o seu
solicitador. A meu ver, talvez fosse melhor desistir da apelação, e comprarem
em leilão, a senhora e seu sogro, os utensílios mais necessários para o seu negócio, a senhora no limite do que lhe deve caber, ele em proporção aos
seus arrendamentos... Mas seria ir muito depressa ao fim. Os solicitadores
devoram-nos!...
— Eu ficaria então nas mãos de meu sogro, a quem deveria o aluguel dos
utensílios e o da casa; e meu marido não deixaria de ficar à mercê do sr.
Métivier, que não teria recebido quase nada...
— Sim, minha senhora.
— E então a nossa posição seria pior do que a atual.
— A força da lei, minha senhora, pertence em definitivo ao credor.
Receberam três mil francos, é preciso forçosamente pagá-los.
— Oh! senhor, julga-nos porventura capazes de...
Eva conteve-se, vendo o perigo a que sujeitaria Luciano com a sua
explicação.
— Oh! eu bem sei — tornou o magistrado — que este caso é obscuro,
tanto da parte dos devedores, que são sérios, honrados, grandes até... como
do lado do credor, que não passa de um testa de ferro...
Eva, aterrada, olhou para o magistrado com ar pasmo.
— Bem compreende a senhora — disse ele, lançando-lhe um olhar cheio
de finura — que nós dispomos, para refletir sobre tudo o que se passa à nossa
vista, de todo o tempo em que ficamos sentados a ouvir os discursos dos
senhores advogados.
Eva despediu-se, desesperada com a sua inutilidade.
Às sete da noite, Doublon entregou a ordem de prisão. À essa hora,
portanto, chegou a perseguição ao apogeu.
— A partir de amanhã — disse David —, só poderei sair durante a noite.
Eva e a sra. Chardon romperam em pranto. Ocultar-se, para elas, era
uma desonra.
XVI – DE COMO A PRISÃO POR DÍVIDAS QUASE
NÃO EXISTE NA PROVÍNCIA
Ao saberem que estava ameaçada a liberdade de seu patrão, Kolb e Marion se
alarmaram, tanto mais que de há muito o julgavam destituído de qualquer
malícia; tanto temeram por ele que foram procurar a sra. Chardon, Eva e David, sob o pretexto de saber no que lhes poderia ser útil a sua dedicação.
Chegaram no momento em que aquelas três criaturas, para quem a vida até
então fora tão simples, choravam ante a necessidade de terem de ocultar
David. Mas como escapar aos espiões invisíveis que dali por diante deviam
observar os mínimos passos daquele homem, infelizmente tão distraído?
— Ze a zeniora quiser echperar um pequenou quartou de hora, eu
vou fazer um reconhecimentou no campou inimigou — disse Kolb —, e
verá que ententou tissou, empora tenha cheito de alemon; comou sou um
vertateiro francês, tenhou tampém esperteza.
— Deixe-o ir, senhora — disse Marion —; Kolb só pensa em salvar o
patrão, não tem outra ideia. Kolb não é um alsaciano: é... como direi?... um
verdadeiro cão terra-nova.
— Vai, meu bom Kolb — disse-lhe David —, ainda temos tempo de tomar
algum partido.
Kolb correu à casa do oficial de diligências, onde os inimigos de David,
reunidos em conselho, estudavam um meio de apoderar-se dele.
A prisão de devedores é, na província, um fato exorbitante, anormal, se
alguma vez aconteceu. Antes de tudo, todos se conhecem muito, para que
possa alguém empregar um meio tão odioso.
Credores e devedores se encontram cara a cara toda a vida. E depois,
quando um comerciante, um bancarroteiro, para nos servirmos das
expressões da província, que não transige com essa espécie de roubo legal
medita uma vasta falência, Paris lhe serve de refúgio.
Paris é uma espécie de Bélgica da província: ali se encontram retiros
quase impenetráveis, e o mandado do oficial de diligências expira nos limites
da sua jurisdição. Por outro lado, há outros impedimentos quase dirimentes.
Assim, a lei que consagra a inviolabilidade do domicílio reina sem exceção na
província; o oficial de diligências não tem direito, como em Paris, de
penetrar em casa de terceiro para prender o devedor. O legislador julgou
que deveria excetuar Paris, em vista da reunião constante de várias famílias
na mesma casa. Mas na província, para violar o domicílio do próprio devedor,
o oficial deve apresentar-se acompanhado do juiz de paz.
Ora, o juiz de paz, que tem sob sua jurisdição os oficiais de diligências,
está quase no direito de conceder ou recusar o seu concurso. Em louvor dos juízes de paz, cumpre dizer que tal obrigação lhes é penosa; não querem
servir a paixões cegas ou a vinganças. Existem ainda outras dificuldades não
menos graves, que tendem a modificar a crueldade inteiramente inútil da lei
sobre a prisão por dívidas, por força dos costumes, que muitas vezes
modificam as leis a ponto de as anular. Nas grandes cidades, há muitos
miseráveis, gente sem fé nem lei, que se prestam a servir de espiões; mas nas
cidades pequenas todos se conhecem muito para que se possam colocar a
soldo de um oficial de diligências. Qualquer indivíduo da classe ínfima que
se prestasse a esse gênero de degradação seria obrigado a deixar a cidade.
Assim, não sendo a prisão do devedor, como em Paris ou nos grandes
centros populosos, objeto da indústria privilegiada dos guardas de comércio,
torna-se uma ação judiciária extremamente difícil, um combate de
esperteza entre o devedor e o oficial de diligências, e cujas peripécias têm às
vezes fornecido divertidíssimo assunto à seção policialesca dos jornais
parisienses. O Cointet mais velho não quisera mostrar-se; mas o Cointet
gordo, que se dizia encarregado do negócio por Métivier, fora procurar
Doublon em companhia de Cérizet, agora seu chefe de tipografia, e cuja
cooperação fora conseguida com a promessa de uma nota de mil francos.
Doublon contaria com dois de seus rábulas. De modo que os Cointet tinham
já três sabujos para vigiar sua presa. No momento da prisão, aliás, poderia
Doublon empregar a gendarmaria, que, nos termos das sentenças, deve
prestar auxílio ao oficial de diligências que a requisitar. Essas cinco pessoas se
achavam, pois, naquele mesmo instante, reunidas no gabinete de Doublon,
situado no andar térreo da casa, em seguida ao cartório.
Entrava-se no cartório por um longo corredor pavimentado que formava
uma espécie de aleia. A casa tinha um simples postigo, ornado de cada lado
dos emblemas ministeriais dourados em cujo centro se lia em letras negras:
oficial de diligências. As duas janelas do cartório que davam para a rua eram
defendidas por fortes barras de ferro. Do gabinete se gozava a vista de um
quintal, onde o oficial de diligências, amante de Pomona,[403] cultivava
com sucesso umas latadas. A cozinha defrontava o cartório, e por detrás da
cozinha ficava a escada que dava acesso ao andar superior. A casa se
encontrava numa pequena rua, atrás do novo tribunal, então em construção
e que só foi terminado em 1830. Tais pormenores não são inúteis à compreensão do que sucedeu a Kolb. O alsaciano imaginara apresentar-se ao
oficial sob o pretexto de lhe vender o seu patrão, para saber desse modo as
armadilhas que lhe preparariam e defendê-lo das mesmas. Quando a
cozinheira lhe veio abrir a porta, Kolb manifestou o desejo de falar com o sr.
Doublon, a negócios. Contrariada por a terem interrompido enquanto lavava
a louça, a mulher abriu a porta do cartório, dizendo a Kolb, que lhe era
desconhecido, que esperasse pelo patrão, de momento em conferência no
gabinete. Depois foi prevenir Doublon de que um homem lhe desejava falar.
Essa expressão um homem tão bem significava um campônio que Doublon
disse:
— Que espere!
Kolb sentou-se junto à porta do gabinete.
— Bem, como pensam fazer? Se pudéssemos pegá-lo amanhã de manhã,
ganharíamos bastante tempo — dizia o Cointet gordo.
— Nada mais fácil! — exclamou Cérizet. — Não é debalde que o chamam
de Bobo.
Ao reconhecer a voz de Cointet gordo, mas principalmente ao ouvir essas
duas frases, Kolb logo adivinhou que se tratava de seu patrão, e seu espanto
ainda mais cresceu quando distinguiu a voz de Cérizet.
— Um rapaz que comeu o pan tele! — resmungou aterrado.
— Meus filhos — disse Doublon —, eis o que se deve fazer. Escalonaremos
a nossa gente a grandes intervalos, desde a Rue de Beaulieu à Place du
Mûrier, de modo a seguir o Bobo... esse apelido me agrada... sem que ele o
perceba; não o abandonaremos enquanto não entrar na casa onde se julgará
oculto; lá o deixaremos alguns dias em segurança, e um belo dia o
encontraremos antes do nascer ou do pôr do sol.
— Mas que está ele fazendo agora? Pode escapar-nos — disse Cointet.
— Está em casa — disse Doublon. — Se saísse, eu logo o saberia. Tenho
um dos meus práticos em observação na Place du Mûrier, outro na esquina
do tribunal e outro a trinta passos de minha casa. Se o nosso homem saísse,
eles assobiariam; e não daria ele dois passos que eu já o ficaria sabendo por
meio dessa comunicação telegráfica.
Os oficiais de diligências dão a seus beleguins o nome honrado de
“práticos”. Kolb não contava com um acaso tão favorável e saiu cautelosamente do cartório, dizendo à criada:
— O sr. Doublon está muito ocupado; voltarei amanhã cedo.
O alsaciano, na sua qualidade de antigo soldado de cavalaria, tivera uma
ideia que imediatamente foi executar. Correu a um alquilador de cavalos seu
conhecido, escolheu um bom animal, mandou-o encelar e voltou a toda
pressa à casa do patrão, onde encontrou Eva no mais profundo desespero.
— Que há, Kolb? — indagou o impressor, ante o ar ao mesmo tempo
alegre e assustado do alsaciano.
— Eston zercatos de canalhas. Ou mais zegurou é esconter ou
patrono. A zeniora já pensou nalgum lugar onte ou colocar?
Depois que o honrado Kolb explicou a traição de Cérizet, as
circunvalações traçadas em torno da casa, a parte que tomava o Cointet
gordo em tal negócio, fazendo pressentir as ciladas que estariam preparando
aqueles homens contra o seu patrão, os mais fatais clarões esclareceram a
situação de David.
— São os Cointet que te perseguem — exclamou a pobre Eva, aniquilada
—, e eis por que Métivier se mostrava tão duro!... Eles são papeleiros, querem
o teu segredo.
— Mas que fazer para lhes escapar? — exclamou a sra. Chardon.
— Ze a zeniora tem algum lugarzinhou onte possa meter ou senior —
disse Kolb —, prometou contuzilou zem que ninquém ou tescupra.
— Entrem só de noite em casa de Basine Clerget — respondeu Eva —,
vou combinar tudo com ela. Nestas circunstâncias, Basine é como se fosse eu
mesma.
— Os espiões te seguirão — disse afinal David, que recobrou alguma
presença de espírito. — É preciso achar um meio de prevenir Basine sem que
nenhum de nós vá até lá.
— A zeniora pote ir — disse Kolb. — O meu planou é echte: eu zaiou
com o zenior e levamos atrás te nós os assopiatores. Nesse meiou tempou a
zeniora vai à casa da srta. Clerche zem zer zeguida. Teniou um cavalou,
levou ou zenior à carupa; e o tiapou que nos apanie!
— Então, adeus, meu amigo! — exclamou a pobre mulher, lançando-se
nos braços do marido.
— Nenhum de nós irá visitar-te, pois poderíamos fazer com que te prendessem. Temos de nos despedir por todo o tempo que durar essa prisão
voluntária. Nós nos corresponderemos pelo correio; Basine porá na caixa as
tuas cartas, e eu te escreverei em seu nome.
Ao saírem, David e Kolb ouviram os assobios e levaram os espiões até a
porte Palet, onde residia o alquilador. Ali Kolb pôs o patrão à garupa,
recomendando-lhe que se agarrasse bem.
— Assopiem, assopiem, meus pons amigos — exclamou Kolb —, que eu
estou rinto te vocês! Não é assim que ze pega um veliou cavalariano.
E o velho cavalariano partiu pelo campo em disparada tal que devia
deixar, e deixou, os dois espiões na impossibilidade de segui-los e de saber
aonde iam.
Eva foi visitar Postel sob o pretexto assaz engenhoso de o consultar.
Depois de ter sofrido os insultos dessa piedade que só é pródiga em palavras,
deixou o casal Postel e pôde alcançar, sem ser vista, a casa de Basine, a quem