A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Terceira Parte • os Sofrimentos do Inventor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
das experiências? Já que sofreu a vergonha da prisão, pode meu marido
voltar para a cadeia, e pagaremos as nossas dívidas...
Petit-Claud levou um dedo aos lábios, olhando para Eva.
— Os senhores não são razoáveis — disse ele aos dois irmãos. — Já viram o
papel; o velho Séchard lhes disse que o filho, encerrado por ele, tinha
fabricado numa única noite excelente papel que devia custar muito pouco...
Os senhores vieram aqui para tratar da aquisição; afinal, querem ou não
querem comprar?
— Olhe — disse o Cointet grande —, quer o meu irmão queira, quer não
queira, arrisco-me a pagar as dívidas do sr. Séchard; dou seis mil francos,
pagos à vista, e trinta por cento sobre os lucros; mas ouçam isto: se no espaço
de um ano o sr. Séchard não cumprir as condições que ele próprio incluirá
no contrato, ele nos devolve os seis mil francos, o privilégio fica conosco e nós
nos arranjaremos como pudermos.
— Tens confiança em ti mesmo? — perguntou Petit-Claud, tomando
David à parte.
— Tenho — disse David, apanhado na tática dos dois irmãos, temeroso
de que o Cointet gordo interrompesse aquela conferência de que dependia o seu futuro.
— Bem, então vou redigir a escritura — disse Petit-Claud aos Cointet e a
Eva —; os senhores terão uma cópia cada um esta noite e refletirão sobre o
seu texto durante toda a manhã; amanhã, às quatro da tarde, à saída da
audiência, poderão assinar. Retirem os srs. Cointet a ação de Métivier. Eu
escreverei mandando parar o processo na Corte real, e atestaremos as
desistências recíprocas.
Eis o enunciado dos compromissos de Séchard:
“entre os abaixo-assinados etc.
Afirmando o sr. David Séchard filho, impressor em Angoulême, ter
descoberto o meio de colar uniformemente o papel em pasta, e o meio
de reduzir o preço da fabricação de qualquer espécie de papel em
mais de cinquenta por cento, com a introdução de matérias vegetais
na pasta, ou misturando-as aos trapos empregados até agora, ou
empregando-as sem adição de mais nada, é formada uma sociedade
entre o sr. David Séchard filho e os srs. Irmãos Cointet para exploração
do privilégio a ser tirado para os referidos processos, e sob as cláusulas e
condições seguintes...”
Um dos artigos da escritura despojava completamente David Séchard de
seus direitos, no caso em que ele não cumprisse as promessas enunciadas
naquele texto, cuidadosamente organizado pelo Cointet grande e admitido
por David.
Ao entregar esse documento no dia seguinte, às sete e meia da manhã,
Petit-Claud comunicou a David e a Eva que Cérizet oferecia pela tipografia
vinte e dois mil francos, à vista. A escritura de venda poderia ser assinada
naquela mesma tarde.
— Mas — disse ele —, se os Cointet soubessem dessa aquisição, seriam
capazes de não assinar o seu contrato, de aborrecê-los e obrigar a fazer leilão
aqui...
— Está seguro do pagamento? — indagou Eva, espantada de ver findo um negócio de que já desesperava e que, três meses antes, teria salvo tudo.
— Tenho os fundos em minha casa — respondeu ele peremptoriamente.
— Até parece mágica! — disse David, pedindo a Petit-Claud explicação
daquela ventura.
— A coisa é muito simples: os negociantes do Houmeau querem fundar
um jornal — disse Petit-Claud.
— Mas isso me é vedado — exclamou David.
— Mas não ao seu sucessor... Aliás, não se inquiete com coisa alguma,
venda, embolse o dinheiro, e deixe Cérizet às voltas com as cláusulas da
venda, ele saberá arranjar-se.
— Oh! sem dúvida — disse Eva.
— Se o senhor se comprometeu a não fazer nenhum jornal em
Angoulême — tornou Petit-Claud —, os capitalistas de Cérizet o farão no
Houmeau.
Eva, deslumbrada com a perspectiva de possuir trinta mil francos, de
estar acima da necessidade, passou a considerar o contrato de sociedade
apenas como uma esperança secundária. Também os Séchard cederam num
ponto que deu azo a uma derradeira discussão. O Cointet grande exigiu a
faculdade de tirar em seu nome o privilégio de invenção. Conseguiu
estabelecer que, uma vez que os direitos úteis de David estavam
perfeitamente definidos no contrato, o privilégio podia ficar
indiferentemente em nome de um dos sócios. Seu irmão acabou por dizer:
— É ele quem dá o dinheiro do privilégio e quem faz as despesas da
viagem, mais dois mil francos em suma! Que ele o tire em seu nome, ou nada
feito!
O usurário triunfou, pois, em todos os pontos. O contrato de sociedade
foi assinado pelas quatro e meia. O Cointet grande ofereceu galantemente à
sra. Séchard uma dúzia de talheres e um belo xale de Ternaux, à guisa de
alfinetes, para lhe fazer esquecer os percalços da discussão!, disse ele. Mal
acabavam de trocar-se as públicas-formas, mal Cachan acabava de entregar
a Petit-Claud as desistências, bem como as três terríveis letras forjadas por
Luciano, quando a voz de Kolb reboou na escada, após o ruído ensurdecedor
de um carro da mala-posta que parara à porta da casa.
— Zeniora! Zeniora! Quinze mil francos! — gritou ele —, em pom tinieirou mantatos de Poitiers pelou sr. Lucianou.
— Quinze mil francos! — exclamou Eva, erguendo os braços.
— Sim, minha senhora — disse o carregador, apresentando-se —, quinze
mil francos trazidos pela diligência de Bordeaux, que vinha bastante
carregada! Tenho lá embaixo dois homens que estão transportando os sacos.
Vem da parte do sr. Luciano Chardon de Rubempré... E trago aqui um
saquinho de couro, com quinhentos francos em ouro para a senhora, e
parece que também uma carta.
Eva julgou estar sonhando, ao ler a carta seguinte:
Minha querida irmã,
Aí vão quinze mil francos.
Em vez de matar-me, vendi a minha vida. Já não me pertenço:
sou mais que o secretário de um diplomata espanhol, pois sou criatura
sua. Recomeço uma existência terrível. Talvez tenha sido melhor
afogar-me. Adeus, David ficará livre, e, com quatro mil francos, poderá
comprar uma pequena fábrica de papel e fazer fortuna.
Não penses mais, assim o quero, no teu pobre irmão
luciano.
— Está escrito — exclamou a sra. Chardon, que viera ver amontoar os
sacos — que o meu pobre filho há de ser sempre fatal, como nos disse, até
quando pratica o bem.
— Escapamos de boa! — exclamou o Cointet mais velho, ao chegar à
Place du Mûrier. — Uma hora mais tarde, os reflexos desse dinheiro teriam
alumiado o contrato, e o nosso homem se assustaria. Dentro em três meses,
como ele nos prometeu, saberemos o que se pode esperar. Às sete da noite,
Cérizet comprou a tipografia e pagou-a, ficando a seu cargo o aluguel do
último trimestre. No dia seguinte, Eva entregou quarenta mil francos ao
recebedor-geral para comprar em nome do marido dois mil e quinhentos
francos de rendimento. Depois escreveu ao sogro para que lhe conseguisse
em Marsac uma pequena propriedade de dez mil francos, para base de sua fortuna pessoal.
XXXIX – HISTÓRIA DE UMA SOCIEDADE COMERCIAL
O plano do Cointet grande era de uma simplicidade formidável. À primeira
vista, julgou inviável a colagem na pasta. O acréscimo de matérias vegetais
pouco dispendiosas à pasta de trapo lhe pareceu o verdadeiro, o único meio
de fortuna. Resolveu, pois, considerar sem importância o baixo custo da
pasta, e fazer enorme questão da colagem. Eis o motivo. As fábricas de
Angoulême se ocupavam então quase unicamente dos papéis para escrever
chamados écu, paulet, écalier, coquille, que, necessariamente, são todos
colados. Isso constituiu durante muito tempo a glória da fabricação de papel
de Angoulême. Assim, a especialidade, monopolizada de longa data pelos
fabricantes de Angoulême, dava ganho de causa à exigência dos Cointet; e o
papel colado, como se vai ver, não entrava na sua especulação. O
fornecimento de papéis para escrever é consideravelmente limitado, ao
passo que o dos papéis de impressão não colados é quase sem limites. Na
viagem que fez a Paris para obter a patente em seu nome, pensava Cointet
concluir negócios que determinariam grandes mudanças em seu sistema de
fabricação. Alojado em casa de Métivier, Cointet lhe deu instruções para, no
espaço de um ano, arrebatar o fornecimento dos jornais aos papeleiros que o
exploravam, baixando o preço da resma a uma taxa a que nenhuma fábrica
pudesse chegar, e prometendo a cada jornal uma brancura e qualidades
superiores às mais belas até então empregadas. Como os negócios dos jornais
são a prazo, fazia-se mister certo período de trabalhos subterrâneos junto às
administrações para a realização de tal monopólio; mas Cointet calculou que
teria tempo de se descartar de Séchard enquanto Métivier obtinha contratos
com os principais jornais de Paris, cujo consumo se elevava então a duzentas
resmas diárias. Cointet, naturalmente, ofereceu determinada percentagem a
Métivier nesses fornecimentos, a fim de ter um representante capaz na
praça de Paris e não perder tempo em viagens. A fortuna de Métivier, uma
das mais consideráveis do comércio da fabricação de papel, teve por origem
esse negócio. Durante dez anos teve ele, sem concorrência possível, o
fornecimento dos jornais de Paris. Tranquilizado quanto às futuras vendas, Cointet voltou para Angoulême a tempo de assistir ao casamento de Petit-
Claud, que vendera o cartório e esperava a nomeação de seu sucessor para
tomar o lugar do sr. Milaud, prometido ao protegido da condessa du
Châtelet. O segundo delegado do procurador régio de Angoulême foi
nomeado primeiro delegado em Limoges, e o ministro da Justiça enviou um
dos seus protegidos para Angoulême, onde o lugar de primeiro delegado
esteve dois meses vago. Esse intervalo foi a lua de mel de Petit-Claud. Na
ausência de Cointet, David preparou primeiro uma caldeirada sem cola que
deu um papel de jornal muito superior ao que os jornais empregavam,
depois outra de magnífico papel velino, destinado às belas edições, e de que
se utilizou a tipografia Cointet para uma edição do livro de missa da diocese.
As matérias tinham sido preparadas pelo próprio David, em segredo, pois
não quis outros operários consigo a não ser Kolb e Marion.
No regresso de Cointet, tudo mudou de figura; ele examinou as amostras
do papel fabricado e mostrou-se mediocremente satisfeito.
— Meu caro amigo — disse então a David —, o comércio de Angoulême é
o papel coquille. Trata-se antes de tudo de fabricar o mais belo papel para
escrever por metade do custo atual.
David tentou fabricar uma caldeira de pasta colada para coquille, e
obteve um papel áspero como escova, onde a cola se apresentava granulosa.
No dia em que terminou a experiência e David teve em mão uma das folhas,
foi para um canto, pois queria devorar sozinho o seu pesar; mas Cointet foi
falar-lhe, e mostrou-se de uma habilidade encantadora, procurando
consolar o sócio.
— Não desanime — disse Cointet —, continue sempre. Eu sou de bom
gênio, e compreendo-o. Irei até o fim!
— Realmente — disse David à mulher na hora do jantar —, estamos com
boa gente. Nunca supus que o Cointet grande fosse tão generoso!
E contou a conversação que tivera com o seu pérfido sócio.
Três meses se passaram em experiências. David dormia na fábrica,
observava os efeitos das diversas composições da sua pasta. Ora atribuía o
insucesso à mescla do trapo com os seus materiais, e fazia uma caldeirada
inteiramente composta de seus ingredientes. Ora tentava colar uma
caldeirada inteiramente composta de trapos. E, prosseguindo na sua obra com admirável perseverança e à vista de Cointet, de quem o pobre homem
não mais desconfiava, foi indo, de matéria homogênea em matéria
homogênea, até esgotar a série de seus ingredientes combinados com toda
sorte de colas. Durante os seis primeiros meses do ano de 1823, David
Séchard viveu na fábrica com Kolb, se acaso era viver negligenciar daquele
modo o alimento, o vestuário e sua pessoa. Tão desesperadamente se bateu
contra as dificuldades que, para quaisquer outros homens que não os
Cointet, seria um espetáculo sublime, pois nenhum pensamento de interesse
preocupava aquele audaz lutador. Houve um momento em que não desejou
nada senão a vitória. Espiava com maravilhosa sagacidade os efeitos tão
estranhos das substâncias transformadas pelo homem em produtos úteis, em
que a natureza é de certo modo domada nas suas resistências secretas, e
deduziu belas leis industriais, observando que não se podiam obter essas
espécies de criações senão obedecendo às relações ulteriores das coisas, ao
que chamou a segunda natureza das substâncias. Afinal chegou, pelo mês
de agosto, a obter um papel colado na pasta, absolutamente igual ao que a
indústria agora fabrica, e que se emprega nas tipografias para tirar provas,
mas que não tem uniformidade alguma e cuja colagem nem sempre é certa.
Esse resultado, tão belo em 1823, relativamente ao estado da fábrica, custara
dez mil francos, e David esperava resolver as últimas dificuldades do
problema. Mas começaram então a espalhar-se por Angoulême e pelo
Houmeau singulares rumores: David Séchard estava arruinando os irmãos
Cointet. Depois de haver devorado trinta mil francos, obtinha enfim, diziam,
um péssimo papel. Os outros fabricantes, assustados, se limitavam aos
antigos processos; e, ciumentos dos Cointet, espalhavam o boato da próxima
ruína daquela ambiciosa casa. O Cointet grande encomendava máquinas de
fabricar papel contínuo, deixando crer que essas máquinas eram necessárias
para as experiências de David Séchard. Mas o jesuíta juntava à sua pasta os
ingredientes indicados por Séchard, induzindo-o sempre a só se ocupar com
a colagem na pasta, e expedia a Métivier milhares de resmas de papel para
jornal.
No mês de setembro, o Cointet grande chamou David Séchard à parte;
e, sabendo dele que planejava uma triunfante experiência, dissuadiu-o de
prosseguir em semelhante luta.
— Meu caro David, vá a Marsac visitar sua mulher e descansar dos seus
trabalhos, nós não queremos arruinar-nos — disse ele amigavelmente. — O
que o senhor considera como um grande triunfo é por enquanto um simples
ponto de partida. Esperemos agora antes de nos lançarmos a novas
experiências. Seja justo! Veja os resultados. Nós não somos apenas
fabricantes de papel, somos impressores, banqueiros, e dizem por aí que o
senhor nos está arruinando...
David Séchard fez um gesto de sublime ingenuidade para protestar a
sua boa-fé.
— Não são cinquenta mil francos lançados ao Charente que nos vão
arruinar — disse Cointet, respondendo ao gesto de David. — Mas não
queremos ser obrigados, por causa das calúnias que correm a nosso respeito,
a pagar tudo à vista. Teríamos de parar com as nossas operações. Estamos
nos termos de nosso contrato, cumpre refletirmos a esse respeito.
“Ele tem razão!”, pensou David, que, mergulhado nas suas experiências
em grande escala, não atentara para o movimento da fábrica.
Voltou a Marsac, onde, desde uns seis meses, costumava ir ter com Eva
todos os sábados à tarde, deixando-a terça-feira pela manhã. Aconselhada
pelo velho Séchard, Eva comprara, precisamente defronte às vinhas do
sogro, uma casa chamada Verberie, com três jeiras e um cercado de vinhas
encravado nas terras do velho. Vivia muito economicamente com a mãe e
Marion, pois ainda devia cinco mil francos por aquela encantadora
propriedade, a mais bonita de Marsac. A casa, entre o pátio e o jardim, era de
pedra lioz, coberta de ardósia e adornada de esculturas que a facilidade em
talhar o lioz permite prodigar sem muita despesa. O bonito mobiliário vindo
de Angoulême parecia ainda mais bonito no campo, onde ninguém
ostentava o menor luxo naquela região. Diante da face que dava para o
jardim, havia um renque de romeiras, laranjeiras e plantas raras, que o
precedente proprietário, um velho general morto nas mãos do sr. Marron,
cultivava pessoalmente. Foi debaixo dessas laranjeiras, no momento em que
David brincava com a mulher e o seu pequeno Luciano, diante do pai, que o
oficial de diligências de Mansle apareceu com uma intimação dos irmãos
Cointet ao seu sócio para constituir um tribunal arbitral, o qual, nos termos
do contrato, devia resolver as suas contestações. Os irmãos Cointet pediam a restituição dos seis mil francos e a propriedade do privilégio, bem como os
futuros contingentes de exploração, a título de indenização pelas
exorbitantes despesas por eles feitas sem resultado algum.
— Dizem que tu os arruínas! — disse o vinhateiro ao filho. — Eis aí a
única coisa que já fizeste de agradável para mim!
No dia seguinte, às nove horas, Eva e David se achavam na sala de
espera do sr. Petit-Claud, transformado agora em defensor de viúvas e tutor
de órfãos, e cujos conselhos lhes pareciam os únicos dignos de ser seguidos.
O magistrado recebeu à maravilha os seus antigos clientes e fez absoluta
questão de que o casal Séchard lhe desse o prazer de almoçar com ele.
— Os Cointet lhes reclamam seis mil francos! — disse ele, sorrindo. —
Quanto devem ainda pela Verberie?
— Cinco mil francos, senhor, mas eu tenho dois mil... — respondeu Eva.
— Guarde os seus dois mil francos — tornou Petit-Claud. — Cinco mil,
então? Quer dizer que precisam mais dez mil francos para se instalarem
convenientemente. Pois bem, dentro de duas horas os Cointet lhes trarão
quinze mil francos...
Eva fez um gesto de surpresa.
— ... em paga da renúncia a todos os benefícios do contrato de
sociedade, que rescindirão amigavelmente — disse o magistrado. — Está bem
assim?
— E esse dinheiro será legalmente nosso? — indagou Eva.
— Muito legalmente — respondeu o magistrado, sorrindo. — Os Cointet
já lhes causaram muitos dissabores, e eu quero pôr fim às suas pretensões.
Escutem, hoje sou magistrado, e devo-lhes dizer toda a verdade. Pois bem, os
Cointet os enganam neste momento; mas os senhores estão nas mãos deles.
Poderiam ganhar a demanda que eles intentam, aceitando a batalha. Mas
ainda querem andar pelos tribunais daqui a dez anos? Multiplicarão os
inquéritos e arbitragens, e ficariam sujeitos aos azares das sentenças mais
contraditórias... E eu — continuou ele, sorrindo — não vejo por aqui um
solicitador que possa defendê-los, e o meu sucessor é um incapaz. Olhem,
um mau arranjo sempre vale mais que um bom processo...
— Para mim, será bom qualquer arranjo que nos dê tranquilidade — disse
David.
— Paulo! — gritou Petit-Claud ao criado —, vá chamar o sr. Ségaud, meu
sucessor!... Enquanto almoçarmos, ele irá falar com os Cointet — disse ele a
seus antigos clientes —, e daqui a algumas horas os senhores partirão para
Marsac, arruinados, mas tranquilos. Com dez mil francos, farão mais
quinhentos francos de renda, e viverão felizes na sua linda propriedade.
Duas horas depois, como o dissera Petit-Claud, Ségaud voltou com
papéis em boa forma assinados pelos Cointet, e com quinze notas de mil
francos.
— Nós te devemos muito — disse Séchard a Petit-Claud.
— Mas eu acabo de os arruinar — respondeu Petit-Claud a seus antigos
clientes atônitos. — Eu os arruinei, repito-o, hão de ver isso com o tempo.
Mas conheço-os bem e sei que preferem a ruína a uma fortuna que teriam
talvez demasiado tarde.
— Não nos interessamos por tanto, senhor — disse Eva —, e muito lhe
agradecemos por nos haver proporcionado os meios de viver felizes. Pode
sempre contar com o nosso reconhecimento.
— Meu Deus! Não me abençoem — disse Petit-Claud —, que me dão
remorsos! Mas creio haver reparado tudo hoje. Tornei-me magistrado, e isso
o devo aos senhores. E, se alguém deve estar agradecido, sou eu... Adeus.
Com o tempo, o alsaciano mudou de opinião a respeito do velho
Séchard, que, por seu lado, lhe tomou afeição, achando-o, como ele próprio,
sem a mínima noção de leitura e de escrita e amigo do copo. O antigo urso
ensinou ao antigo couraceiro a cuidar da vinha e vender-lhe os produtos,
educando-o na intenção de deixar um homem de tino para os filhos; pois,
nos seus últimos dias, era perseguido por grandes e pueris temores quanto à
sorte de seus bens. Tomara o moleiro Courtois para confidente.
— Você há de ver — dizia-lhe — como andarão as coisas em casa de
meus filhos, quando eu estiver na cova. Ah, meu Deus! O futuro deles me
faz tremer!
XL – CONCLUSÃO
Em 1829, no mês de março, morreu o velho Séchard, deixando cerca de
duzentos mil francos em bens imóveis que, reunidos à Verberie, constituíram uma propriedade magnífica, já há dois anos muito bem dirigida por Kolb.
David e a mulher encontraram perto de cem mil escudos em ouro em
casa do pai. A voz do povo, como sempre, aumentara de tal modo o tesouro
do velho Séchard que o avaliavam em um milhão em todo o departamento
de Charente. Juntando a essa herança a sua pequena fortuna, Eva e David
conseguiram aproximadamente trinta mil francos de renda, pois esperaram
algum tempo para empregar seus fundos, investindo-os no Estado, por
ocasião da Revolução de Julho. Só então o departamento de Charente e
David Séchard puderam saber qual a fortuna do Cointet grande. Com vários
milhões, deputado, é hoje par de França, e dizem que será ministro do
Comércio no próximo gabinete. Em 1842, desposou a filha de um dos mais
influentes estadistas da dinastia, a srta. Popinot, filha do sr. Anselmo
Popinot,[443] deputado de Paris e maire de uma circunscrição.
A descoberta de David Séchard introduziu-se na indústria francesa
como o alimento num grande corpo. Graças à introdução de matérias
diferentes do trapo, pôde a França fabricar papel mais barato do que
qualquer outro país da Europa. Mas o papel da Holanda, segundo a previsão
de David Séchard, não mais existe. Mais cedo ou mais tarde, será preciso sem
dúvida fundar uma manufatura real de papel, como foram criados os
Gobelins,[444] Sèvres,[445] a Savonnerie,[446] e a Imprensa Real,[447]
que até hoje têm aguentado os golpes desferidos por vândalos burgueses.
David Séchard, amado pela mulher, pai de dois filhos e de uma filha,
teve o bom gosto de jamais falar nas suas tentativas. Soube Eva fazê-lo
renunciar à terrível vocação dos inventores, esses Moisés devorados por suas
sarças ardentes. Ele cultiva as letras por desfastio, mas leva a vida feliz e
preguiçosa do proprietário vivendo de suas rendas. Depois de dar um adeus
definitivo à glória, alistou-se bravamente na classe dos sonhadores e dos
colecionadores; dedica-se à entomologia e estuda as transformações até
agora tão secretas dos insetos, que a ciência apenas conhece em seu último
estado.
Toda gente tem ouvido falar dos sucessos de Petit-Claud como
procurador-geral; é rival do famoso Vinet[448] de Provins, e sua ambição é
tornar-se presidente da Relação de Poitiers.
Cérizet, condenado várias vezes por delitos políticos, deu muito que falar de si. É o mais audaz dos filhos pródigos do partido liberal, e chamavam-no
“o bravo Cérizet”. Obrigado pelo sucessor de Petit-Claud a vender a
tipografia, procurou nos palcos da província uma nova existência que o seu
talento de ator podia tornar brilhante. Uma jovem primeira atriz obrigou-o a
ir à capital a fim de pedir à ciência recursos contra o amor, e ele ali tentou
explorar a proteção do partido liberal.
Quanto a Luciano, sua volta a Paris é do domínio das Cenas da vida
parisiense.
1835-1843
[1] Victor Hugo, de quem Balzac pretende fazer, com essa dedicatória, um aliado seu contra a imprensa, admirava o romancista e mantinha com ele relações de amizade. Seria ele que em 1850 lhe pronunciaria o discurso fúnebre, por assim dizer o primeiro reconhecimento solene da grandeza do romancista.
[2] Castigat ridendo mores: “corrige os costumes rindo”. Palavras do poeta neolatino Jean de Santeuil, utilizadas pelo Arlequim Dominique na inscrição do seu teatro.
[3] Em 1819.
[4] Stanhope: conde Charles Stanhope (1753-1816), aristocrata inglês, membro da Câmara dos Lordes, amador de mecânica e inventor de uma impressora que lhe ostenta o nome.
[5] A especialidade de Angoulême é a tipografia, sua indústria principal.
[6] Elzevier ou Elzevir: nome de uma família de tipógrafos holandeses dos séculos xvi e xvii, famosa pela perfeição de seu trabalho; Plantin: Christophe Plantin (1520-1589), impressor célebre, estabelecido em Antuérpia; Aldo: Aldo Manuzio (1449-1515), fundador de uma família de impressores estabelecida em Veneza, editor de grande número de primeiras edições impressas de clássicos latinos e gregos; Didot: família francesa de impressores-livreiros, cuja casa, a Librairie Firmin Didot, existe ainda hoje.
[7] Este conde de Maucombe era pai de Renata de Maucombe, casada com o conde Luís de l’Estorade (Memórias de duas jovens esposas).
[8] Pantagruel: gigante comilão e beberrão, herói de Feitos e ditos heroicos do grande Pantagruel, de François Rabelais (1494-1553).
[9] O nome de Séchard liga-se etimologicamente ao adjetivo sec, sèche, “seco”, e ao verbo sécher, “secar”. — A respeito dos ursos da América, lê-se o seguinte em Atala, de Chateaubriand: “Da extremidade das avenidas, percebem-se ursos embriagados por uvas e que titubeiam debaixo dos ramos dos olmos”.
[10] Os contos de La Fontaine são historietas licenciosas em verso; não devem ser confundidas com as fábulas do mesmo autor.
[11] Sou: moeda de 5 centavos. Um franco tem 20 sous. Para compreender os cálculos do velho Séchard, é preciso lembrar que um escudo equivalia a 3 francos e que, tratando-se de rendimentos ou aluguéis, o termo libra era usado como sinônimo de franco.
[12] Almanach Liégeois: almanaque dos mais populares da época. De acordo com o tamanho, era designado como simples, duplo ou tríplice.
[13] Mairie: na França, sede da administração comunal.
[14] Setembristas (em francês: septembriseurs): nome dado aos participantes das chacinas de 2 a 5 de setembro de 1792, quando em Paris e noutras cidades da França o populacho invadiu as prisões e massacrou 1.200 prisioneiros “contrarrevolucionários”.
[15] O ilustre Desplein: grande cirurgião, protagonista de A comédia humana, personagem principal da novela A missa do ateu; para criar esta personagem, o romancista serviu-se de alguns traços de Guillaume Dupuytren [1777-1835], ilustre anatomista e cirurgião francês, que se tornou célebre por tratar das hemorroidas de Napoleão.
[16] Grisette: palavra que designava qualquer moça de origem modesta obrigada a trabalhar; o nome era primitivamente o de um tecido barato, de cor cinzenta, de que essas moças se trajavam de preferência.
[17] Et nunc et semper et in secula seculorum (em latim no original): “e agora e sempre e até os séculos dos séculos”.
[18] Boileau, na Sátira ii, arrependido de ter adotado a difícil profissão de poeta, escreve: “Se não fora esse mister fatal ao repouso de minha vida, meus dias, cheios de lazeres, escoariam sem inveja. Poderia limitar-me a cantar, rir, beber e, como um gordo cônego, satisfeito, à vontade, sem inquietações, sem negócios, passar a noite a dormir bem e o dia a não fazer nada”.
[19]Sileno: deus frígio, pai dos sátiros e pai adotivo de Baco.
[20] Jean Paul: Jean-Paul Richter (1763-1825), escritor alemão, já citado por Balzac em Úrsula Mirouët. Ele e os outros, cujos nomes aqui enumera, estavam entre seus autores preferidos.
[21] Berzélius (1779-1848): químico sueco, inventor da notação dos corpos químicos por meio de símbolos, fundada na noção dos equivalentes.
[22] Davy: sir Humphry Davy (1778-1829), químico inglês, descobridor do sódio e do potássio, inventor da lâmpada usada nas minas de carvão.
[23]Cuvier: Georges Cuvier (1769-1832), fundador da anatomia comparada e da paleontologia, frequentemente citado por Balzac, inclusive em seu prefácio a A comédia humana.
[24] Um poeta reencontrado por outro poeta...: alusão a Henri de Latouche, amigo de Balzac, que publicou e prefaciou em 1819 os poemas de André de Chénier (1762-1794), guilhotinado durante a Revolução.
[25] Verso da “Elegia xv”; em francês: S’ils n’ont point de bonheur, où est-il sur la terre?
[26] Segundo seu hábito, para reforçar a aparência de verdade da sua obra, Balzac introduz nessa lista de celebridades da época uma personagem inventada por ele, o poeta Canalis, chefe da escola angélica, a quem já conhecemos em Modesta Mignon (volume 1 desta edição). Entre os demais nomes da lista há alguns de intelectuais pouco lembrados hoje, como Casimir Delavigne (1793-1843), poeta lírico e dramático; François Villemain (1790-1870), crítico e professor de literatura na Sorbonne, autor de um Curso de literatura francesa; Étienne Aignan (1773-1824), dramaturgo, tradutor da Ilíada; Alexandre Soumet (1788-1845), poeta épico, autor da Divina epopeia e de Joana d’Arc; Pierre Tissot (1768-1854), autor de História completa da Revolução Francesa, de Estudos sobre Virgílio e tradutor de poetas latinos; Guillaume Étienne (1777-1845), dramaturgo, publicista liberal, autor de Dois genros; Charles-Joseph Loeillard d’Avrigny (1760-1823), poeta, autor da tragédia Joana d’Arc em Rouen; Joseph-François Michaud (1767-1839), historiador, autor de História das Cruzadas.
[27]De Nègrepelisse e D’Espard: duas famílias da alta nobreza inventada por Balzac. Já encontramos o conde D’Espard em A interdição (volume 4 desta edição); sua esposa, além de nessa novela, apareceu em Beatriz (volume 3), Uma filha de Eva (volume 2) etc., em papéis de intrigante.
[28] Padre Rose: Nicolas Rose (1745-1819), compositor e bibliotecário do Conservatório, autor de obras de música religiosa.
[29] Os irmãos Faucher : César e Constantin Faucher (1760-1815), irmãos gêmeos, generais de brigada do Exército republicano da Vendeia, condenados à morte e executados no começo da Restauração sob acusação falsa, por motivos políticos.
[30] D’Arlincourt: visconde Charles d’Arlincourt (1789-1856), autor de tragédias e de grande número de romances históricos, de estilo frenético e enfático; Ipsiboé é um deles.
[31] Lewis: Matthew Gregory Lewis (1775-1818), escritor inglês, um dos representantes do “romance negro” baseado na exploração excessiva do horrível; seu livro mais frenético, O monge, obteve êxito enorme na Inglaterra e no estrangeiro.
[32] Lavalette: conde Antoine-Marie Lavalette (1769-1830), político bonapartista, condenado à morte após os Cem Dias e salvo graças ao estratagema de sua esposa, sobrinha da imperatriz Josefina, a qual, entrando na prisão do marido na véspera do dia marcado para a execução, trocou trajes com ele, tornando-lhe, assim, possível a fuga. O conde Lavalette viveu no estrangeiro até 1822, quando foi indultado. Sua mulher enlouquecera de emoção.
[33] O paxá de Janina: Ali, paxá de Janina (1741-1822), apoderou-se da Albânia, que governou com extraordinária crueldade até que, detido pelos soldados do sultão Mamud, foi executado.
[34] Lady Esther Stanhope (1776-1839): sobrinha e secretária de William Pitt; depois da morte do tio, foi viver no Líbano, onde se viu cercada de grande prestígio entre os nativos, graças às suas práticas de feiticeira e profetisa.
[35]Mehemet-Ali (1769-1849): vice-rei, depois paxá do Egito, país cuja vida reformou completamente. Tornou-se famoso pelo extermínio, em 1811, no desfiladeiro de El-Azab, dos mamelucos, milícia formada primitivamente de escravos e que se apoderou do governo do Egito.
[36] As obras principais do visconde Louis de Bonald (1754-1840), pensador católico, publicadas até 1821, são: Teoria do poder político e religioso na sociedade civil (1796); Legislação primitiva considerada nos últimos tempos pelas Luzes só de razão (1802); e as do conde Joseph de Maistre (1753-1821), outro defensor ultramontano do princípio de autoridade: Considerações sobre a França (1796); Do papa (1819-1821); Serões de São Petersburgo (1821).
[37] Sr. de Barante: barão Guillaume Prosper Brugière de Barante (1782-1866), diretor geral das contribuições indiretas no período da Restauração.
[38] Esta viagem do general Montriveau é lembrada em A duquesa de Langeais (volume 8 desta edição).
[39] Mascate: cidade árabe na costa sul da baía de Omã, sede de um imamado.
[40] Casba: cidadela, palácio do soberano nos Estados barbarescos.
[41]O palácio de Rambouillet, de Paris, foi em meados do século xvii o lugar de encontro da sociedade elegante e espirituosa da França, frequentado por Voiture, Corneille, Benserade, Racan e outros escritores que desempenharam papel importante na depuração da língua.
[42] La Quotidienne: jornal ultramonarquista, aristocrático e clerical, órgão da extrema direita.
[43] Apesar dos pesares (em francês quand même): sob Luís Felipe, divisa dos legitimistas derrotados, adotada para significar que não se conformavam com a situação; a expressão tornou-se uma espécie de slogan na época e ocorre frequentemente na pena de Balzac.
[44] Chatterton: Thomas Chatterton (1752-1770), poeta inglês. Pastichou poesias da Idade Média, fazendo-as passar por autênticas. Amargurado pela extrema miséria em que vivia, escreveu panfletos violentos, inspirados em sua sede de desforra. Suicidou-se tomando veneno. Vigny fez dele o símbolo do poeta incompreendido, no drama Chatterton e numa das novelas de Stello.
[45] Se fiato in corpo avete: (em italiano no original, “Se tendes fôlego no corpo”); trecho de um dueto de Matrimônio secreto, de Cimarosa.
[46] Raca: palavra siríaca de sentido impreciso, citada no Evangelho como injúria. “Quem disser a seu irmão raca será réu no conselho” (Mateus, 5, 22).
[47] Camaïeu: pintura que imita os baixos-relevos e na qual se empregam unicamente os diversos tons de uma só cor, muito comum no século xviii.
[48] Canalis, poeta da aristocracia: Ver a nota 26. O poema reproduzido aqui foi publicado anteriormente pelo próprio romancista nos Anais românticos, almanaque literário de 1827-1828, impresso na tipografia de Balzac. A tradução é de Mario Quintana.
[49] Outro dito de espírito: o sr. de Brébian está fazendo um trocadilho com o nome de família de Luciano — Chardon, “cardo” — e a palavra chardonneret, “pintassilgo”.
[50] Duclos, Grimm, Crébillon: autores do século xviii. Charles Pinot Duclos (1704-1772), moralista, autor de Considerações sobre os costumes e de Memórias decretas dos reinados de Luís xiv e Luís xv; barão Friedrich Melchior Grimm (1723-1807), amigo dos Enciclopedistas, autor de importante correspondência literária; Claude-Prosper Jolyot de Crébillon (1707-1777), autor de contos licenciosos.
[51] Provável cochilo de Balzac, já que, em outros trechos, ele afirma que Luciano tem vinte e um anos.
[52]Jean-Baptiste Rousseau (1671-1741): poeta lírico francês.
[53]Corina: protagonista de um livro do mesmo nome da Madame de Staël, no qual a autora celebra os grandes homens e as obras-primas da Itália e conta a história de Corina, poetisa genial e infeliz.
[54] In petto (do italiano): “em segredo”.
[55]Quibuscumque viis (do latim): “por quaisquer meios”.
[56] Todas essas personagens tiveram, de fato, começos bem difíceis: Bernard Palissy (1510-1590), inventor do esmalte, passou a sua mocidade na miséria; Luís xi, mais tarde rei da França, na idade de dezessete anos, chefiou uma revolta contra o pai, Carlos vii, e casou-se contra a vontade deste com Carlota de Savoia; George Fox (1624-1691), fundador da seita dos quakers na Inglaterra, foi primitivamente sapateiro. As biografias de Napoleão, Colombo e César, bastante conhecidas, dispensam explicação.
[57] Mário: general romano (165-86 a.C.), chefe do partido popular, fugindo à perseguição de seu rival vitorioso, Sila, consolou-se com a vista das ruínas de Cartago.
[58] Cuvier: ver a nota 23.
[59] Keller e Desplein: ambos personagens de A comédia humana; rico banqueiro o primeiro, famoso cirurgião o segundo.
[60] Partilha à Montgommery: expressão proverbial que o dicionário Littré explica assim: “Tudo para um, nada para outro”.
[61]O sr. barão e a sra. baronesa de Rastignac são os pais de Eugênio de Rastignac, um dos heróis preferidos de Balzac, protagonista de O pai Goriot (volume 4 desta edição). Nesse mesmo romance lemos as cartas da sra. de Rastignac e de suas filhas, oferecendo suas economias para que Eugênio pudesse vencer na vida parisiense.
[62] Uíste: a palavra whist, em inglês, usa-se também como interjeição, no sentido de “calado!”.
[63] Iambos: poesias satíricas de André Chénier (1762-1794) contra as violências revolucionárias, escritas pouco tempo antes de o poeta ser guilhotinado.
[64] Em francês: “Tes vers sont doux, j’aime à les répéter”.
[65] Este poema, escrito por Balzac em 1824 para uma moça com quem queriam casá-lo, fora publicado anteriormente ao romance no almanaque impresso na tipografia do próprio Balzac (ver a nota 48). A tradução é de Mario Quintana.
[66] As brumas ossiânicas: alusão à moda que tiveram na França e em toda a Europa, no fim do século xviii, os poemas falsamente atribuídos por seu autor, Macpherson, ao legendário bardo escocês Ossian, do século iii. Nesses poemas aparecem Malvina, nora de Ossian, que assiste o poeta cego na velhice e lhe decora os versos, e Fingal, pai de Ossian e rei de Morven, que se fez acompanhar do filho em suas expedições militares. As palavras finais do barão contêm uma crítica velada, mas bastante compreensível, da poesia de Lamartine que serviu de modelo para a personagem de Canalis.
[67] Biscoitos contra vermes: Há no texto francês um trocadilho intraduzível, baseado na homonímia das palavras vers (“verso” e “versos”) e vers (“vermes”).
[68] Magna parens (em latim): “grande mãe”.
[69] Esta romança, que principia pelo verso “Combien j’ai douce souvenance”, está em Aventuras do último dos Abencerrages.
[70] Faust, na realidade Johann Fust (1410-1465): ourives, segundo a tradição, colaborador ou financiador de Gutenberg; frequentemente confundido com o famoso dr. Fausto, a imortal personagem de Goethe.
[71] Coster: Laurens Janszoon Coster (1370-1440), a quem os holandeses atribuem erradamente o invento da impressão com caracteres móveis.
[72] Guttemberg ou Gutenberg (1400-1468), cujo verdadeiro nome é Johann Gensfleisch: erradamente considerado inventor da tipografia; na realidade aperfeiçoou a imprensa pelo desenvolvimento do sistema de caracteres móveis.
[73]Os Aldos: ilustre família de impressores venezianos, fundada por Aldo Manuzio (1449-1515), cuja tipografia imprimiu famosas edições princeps de clássicos gregos e latinos.
[74] Vae victis! (em latim): “Ai dos vencidos!”.
[75] Fourier: Charles Fourier (1772-1837), sociólogo, fundador da teoria falansteriana, que expôs em seu Tratado de associação doméstica e agrícola (1822); procurou realizar um falanstério socialista em Condé-sur-Vesgre.
[76] Pierre Leroux (1798-1871): de início operário de tipografia, depois publicista e propagador da doutrina de Saint-Simon. Deputado da extrema esquerda em 1848, teve de exilar-se depois do golpe de Estado de 2 de dezembro.
[77] Conde de Saint-Simon: conde Claude Henri de Saint-Simon (1760-1825), fundador da doutrina filosófica, social e religiosa que lhe traz o nome, autor de Da reorganização da sociedade moderna e outras obras. A seita saint-simonista foi fundada por seus adeptos.
[78] Kaempfer: Engelbert Kaempfer (1651-1716), cirurgião da Marinha; percorreu os países do Extremo Oriente e publicou vários volumes em latim sobre suas viagens, entre os quais Imagens seletas das plantas colhidas no Japão (1791).
[79] Du Halde: Jean-Baptiste du Halde (1674-1743), jesuíta, autor de Descrição histórica, geográfica e física do Império da China (1735).
[80] Marcel: Jean-Joseph Marcel (1776-1854), orientalista eminente, participante da missão científica que acompanhou Bonaparte no Egito; autor de Lições de línguas bíblicas, de uma História do Egito etc.
[81]Padre Grozier: Jean-Baptiste Grozier (1743-1823), jesuíta, conservador da biblioteca do Arsenal a partir de 1817, autor de uma Descrição geral da China. Foi com ele que o conde d’Espard aprendeu o idioma chinês (A interdição, no volume 4 desta edição).
[82] Criança sublime: Victor Hugo.
[83] Segundo a Bíblia (Números, 22, 28-30), a burra do adivinho Balaão obteve o dom da voz para advertir seu dono da presença de um anjo que vinha barrar-lhe o caminho com uma espada.
[84] O trocadilho a que se faz alusão versa sobre o nome Tulloye e a frase Tue l’oie, “Mata o ganso”, que se pronunciam da mesma forma.
[85] Hernan Cortez (1485-1547): capitão espanhol, conquistador do México.
[86] Os Navarreins, os Blamont-Chauvry, os Lenoncourt: famílias da alta aristocracia inventada por Balzac.
[87] A marechala de Carigliano: personagem de A comédia humana, amante do pintor Sommervieux; a esposa deste foi visitá-la a fim de pedir sua compaixão (Ao “Chat-qui-pelote”, no volume 1 desta edição). A sra. de Sérisy, outra personagem balzaquiana, abusava também da fraqueza do marido e tinha vários amantes (Uma estreia na vida, no volume 2 desta edição).
[88] O Apolo de Belvedere: estátua antiga, considerada como o protótipo da beleza plástica; conservada no museu de Belvedere, no Vaticano.
[89] Antínoo: nome de um jovem escravo de grande beleza, favorito do imperador Adriano.
[90] O Marquês d’Espard se havia retirado da sociedade: O motivo dessa decisão é explicado em A interdição (volume 4 desta edição).
[91] Rocher de Cancale: afamado restaurante parisiense da época, frequentado pela alta roda balzaquiana; cenário de um luxuoso banquete oferecido por Jorge Marest (em Uma estreia na vida, no volume 2 desta edição).
[92] Vaudeville: Théâtre du Vaudeville, inaugurado em 1807, no Boulevard Montmartre, para a representação de vaudevilles (comédias leves entremeadas de canções).
[93] Alusão à lenda de Arion, famoso poeta grego do século vii a.C., o qual, atirado ao mar pelos piratas, foi salvo por um delfim, encantado pelos acentos de sua lira; e também a uma fábula de Esopo (e de La Fontaine) em que um macaco, salvo de um naufrágio, viaja nas costas de um delfim, que o toma por homem, e se trai por uma observação tola.
[94] As danaides: tragédia lírica em cinco atos — com letra de Leblanc du Roullet e do barão Tschudi, música de Salieri — cujo assunto é um episódio famoso da mitologia grega: o assassínio, pelas cinquenta filhas do rei Danaus, de seus maridos, filhos do rei do Egito, e o castigo das assassinas no Inferno.
[95] Véry: restaurante elegante e caro no Palais-Royal, perto das Tuileries.
[96] Terrasse des Feuillants: nome de um logradouro entre a atual Rue Saint-Honoré e o Terrasse des Tuileries, onde Henrique iii instalou o mosteiro da ordem dos Feuillants, mais tarde ocupada pela convenção; cenário do capítulo i de A mulher de trinta anos (volume 3 desta edição).
[97] Marais: antigo bairro de Paris, correspondente aos atuais iii e iv distritos, onde ainda hoje se veem muitos edifícios antigos. O próprio Balzac morou vários anos nesse bairro, então dos mais pobres da capital: descreveu-o no começo de Uma dupla família (volume 2 desta edição).
[98] Tigre: pequeno criado de libré que os dândis da época, os “leões”, tinham às suas ordens.
[99] Deve tratar-se da condessa Maria Aurora Konigsmarck (1662-1728), favorita de Frederico-Augusto, rei da Saxônia, mulher famosa por sua beleza e sua inteligência. O episódio a que Balzac faz alusão aqui deve ser o mesmo a que se refere uma de suas personagens, a princesa de Blamont-Chauvry, em A duquesa de Langeais, ao dizer: “Onde encontrar um desses pajens que se deixam abater a machado e enterrar sob um assoalho para beijar o dedo enluvado de uma Konigsmarck?”.
[100] Srta. des Touches, muito conhecida sob o pseudônimo de Camille Maupin: protagonista do romance Beatriz (no volume 3 desta edição).
[101] Sra. Firmiani: protagonista do conto que lhe traz o nome (no volume 2 desta edição).
[102] A pobre duquesa de Langeais, que desapareceu como uma estrela cadente: os amores da duquesa de Langeais e do general de Montriveau são contados na História dos Treze (volume 8 desta edição).
[103] A sra. de Nucingen, uma das filhas de Goriot, era amante de Rastignac (O pai Goriot, no volume 4 desta edição).
[104] O sr. de Marsay: protagonista de A comédia humana, aventureiro e político de grande envergadura; desempenha papel importante em O contrato de casamento (volume 4), onde procura impedir, em vão, o casamento desastroso do amigo Paulo de Manerville.
[105] O amor platônico de Félix de Vandenesse à sra. de Mortsauf, perturbado por lady Arabella Dudley, é contado em O lírio do vale (volume 4 desta edição). Posteriores à ação desse romance são dois outros episódios da vida de De Vandenesse que já conhecemos por obras anteriores a essa: sua ligação com a condessa Natália de Manerville (O contrato de casamento, no volume 4) e seu casamento com Angélica Maria de Granville (Uma filha de Eva, volume 2).
[106] Canalis: personagem balzaquiana, encontrada em Modesta Mignon e Memórias de duas jovens esposas (ambos no volume 1 desta edição), onde já aparece como amante da duquesa de Chaulieu.
[107] Ourika: título de um romance da duquesa de Duras (1824) que obteve na época êxito enorme. A protagonista, Ourika, é uma linda moça negra, trazida na idade de dois anos à França, onde recebe educação esmerada e vive no meio da alta sociedade; ao descobrir, porém, a inferioridade social a que a condena a sua cor e ao verificar a impossibilidade de casar com um rapaz branco por quem se apaixona, retira-se a um convento, onde morre de desgosto. O pintor Gérard é autor de um famoso retrato de Ourika.
[108] A marquesa de Listomère e Rastignac tiveram um início de flerte (Estudo de mulher).
[109] Provável alusão às amargas experiências de Rousseau, relatadas nas Confissões deste, com damas da alta sociedade. Distinguido pelas atenções da sra. d’Epinay, acaba sem querer por fazer dela uma inimiga, e essa inimizade se exaspera quando a sra. d’Epinay percebe que Jean-Jacques se apaixonou pela condessa d’Houdetot, cunhada dela.
[110] Célimene: personagem de O misantropo, de Molière; tipo da mulher faceira, bonita, espirituosa e desembaraçada.
[111] Ser preterida pelas cinquenta filhas de Danaus...: alusão à peça que se representava na cena.
[112] Staub, o alfaiate mais célebre da época: personagem real, o alfaiate em voga em 1834, segundo consta do Balzac de pantufas, de Léon Gozlan.
[113] Verdier: loja elegante da Paris da época; foi uma chibata comprada lá pelo marido de Luísa de Chaulieu que provocou o ciúme desta e lhe apressou o fim (Memórias de duas jovens esposas, no volume 1 desta edição).
[114] Longchamps: a planície de Longchamps, no Bois de Bologne, perto de Paris, durante o século xviii e a primeira metade do século xix, era, em três dias da semana santa, o alvo de verdadeira invasão da sociedade elegante, que a princípio lá ia rezar na igreja da famosa abadia, mas depois com o fim único de exibir o esplendor de suas carruagens e de seus trajes.
[115] Fouquier-Tinville (1746-1795): temível acusador do Tribunal Revolucionário; pediu a morte até de Camille Desmoulins, seu parente.
[116] Eva querida etc.: a primeira frase desta carta pode aplicar-se às relações entre Balzac e sua irmã Laure.
[117] Sou: ver a nota 11.
[118] O comediógrafo Plauto (250-184 a.C.) foi, durante algum tempo, empresário de representações públicas, ocupação em que de início enriqueceu, mas que depois o levou à falência e o tornou escravo de um de seus credores. Este forçava o infeliz devedor a rodar a mó de um moinho.
[119] Maquiavel, depois de reinstalados no governo de Florença os Médicis, seus inimigos, viu-se demitido do cargo de secretário da República e exilado. Segundo as próprias confissões do escritor, foi no meio de grandes privações que escreveu, em seu exílio de San Casciano, o célebre tratado O Príncipe, publicado em 1515.
[120] Quartier Latin: bairro de Paris, à margem esquerda do Sena; desde o século xii é o centro de ensino, e nele se encontra ainda hoje grande número de escolas superiores, rodeadas de hotéis baratos, moradia de grande parte dos estudantes. — O restaurante Flicoteaux existiu realmente e foi frequentado pelo próprio Balzac nos anos de sua difícil estreia.
[121] Dias de Julho...: subentenda-se de 1830 (alusão à Revolução de Julho).
[122] Véry: ver a nota 95.
[123] Estêvão Lousteau: personagem de primeiro plano de A comédia humana, a quem já encontramos em várias obras, que, entretanto, o apresentavam em fases ulteriores de sua carreira. Em Beatriz, vimo-lo amante da sra. Schontz; em Um conchego de solteirão, desembaraçou Felipe Bridau de sua mulher, a “Gapuiadora”, atirando-a na prostituição; em A musa do departamento, seduziu Diná de la Baudraye, que dele teve dois filhos e a quem abandonou após uma ligação, bastante longa. Conforme se fez já ver aos leitores desta edição (no Prefácio de Uma filha de Eva), a ordem estabelecida por Balzac em A comédia humana não é cronológica, e muitas vezes, como no caso de Lousteau, só nos inteiramos dos começos de uma personagem após a sua maturidade. Quando apareceu Ilusões perdidas, os jornais da época pretenderam identificar em Lousteau o crítico Jules Janin; Balzac, porém, teria declarado que o modelo era Jules Sandeau.
[124] Ambigu-Comique: teatro do Boulevard Saint-Martin que representava sobretudo vaudevilles e melodramas.
[125] Gaîté: teatro fundado em 1760 no Boulevard du Temple, reconstruído em 1860 em outro local, onde existe ainda hoje; no tempo deste romance, especializava-se na representação de melodramas.
[126] Panorama-Dramatique: teatro inaugurado em 1821, onde se representaram dramas, comédias e vaudevilles, alguns de grande êxito. Apesar disso acabou em 1823, por motivos não elucidados, talvez por causa de algumas cláusulas desfavoráveis do “privilégio” ou licença (na cena não podia haver mais de dois atores ao mesmo tempo etc).
[127] Biblioteca Sainte-Geneviève: biblioteca ainda existente no Quartier Latin. Fundada em 1624, primitivamente pertenceu à abadia de Santa Genoveva; a Revolução transformou-a em biblioteca pública.
[128] Gabinete Literário de Blosse: era uma das salas públicas de leitura, situada na Galeria do Comércio, onde, mediante retribuição módica, se podiam ler os jornais do dia e as novidades literárias, e consultar manuais e livros escolares.
[129] Théâtre-Français ou Comédie Française: o primeiro teatro nacional francês.
[130] Variétés ou Théâtre des Variétés, inaugurado em 1807 no Boulevard Montmartre para a representação de vaudevilles (comédias leves entremeadas de canções).
[131] Opéra-Comique: teatro de Paris, destinado à representação de peças do gênero cujo nome ostenta; construído e inaugurado em 1783.
[132] Talma: François-Joseph Talma (1763-1826), ator trágico francês, comediante preferido de Napoleão.
[133] Casimir Delavigne (1793-1843): poeta lírico, comparado pelos críticos da época a Lamartine e a Hugo, teve retumbante êxito com o drama As vésperas sicilianas (1819), seguido de outros (Os comediantes, O pária).
[134] Fleury: Abraham Joseph Bénard, dito Fleury (1751-1822), famoso comediante francês, um dos melhores intérpretes das comédias de Marivaux.
[135] Os dois Baptiste: Baptiste Velho e Baptiste Moço, cujos verdadeiros nomes são Nicolas Anselme (1761-1835) e Paul-Eustache Anselme (1765-1839); atores irmãos, ambos membros da Comédie Française; o primeiro distinguiu-se em papéis graves, o segundo em personagens cômicas.
[136] Michot: Antoine Michot (1768-1826), autor cômico; destacou-se em papéis de marinheiro, artesão, burguês etc.
[137] Visconde d’Arlincourt: ver a nota 30. O solitário, romance no qual o autor pretendia dar um quadro dos costumes da Idade Média, foi publicado em 1821 e alcançou vivíssimo êxito, em parte de escândalo e troça. Em pouco tempo teve treze edições vendidas, deu assunto para uma ópera, um drama; o título tornou-se um slogan que se aplicava a toda a espécie de trajes, objetos, quadros etc.
[138] Victor Ducange: romancista e teatrólogo francês (1783-1833), autor de romances populares, o primeiro dos quais, Ágata ou O anciãozinho de Calais (1820), o tornou logo conhecido. Liberal e anticlerical, teve Ducange vários de seus livros apreendidos e foi condenado muitas vezes à prisão.
[139] Kératry: Auguste Hilarion de Kératry (1769-1859), político e escritor francês, adversário liberal da Restauração, que combateu na Câmara e nos jornais. Suas Induções morais e fisiológicas foram publicadas em 1817.
[140] Sra. Radcliffe: Ann Radcliffe (1768-1823), romancista inglesa, autora de romances terrificantes, entre os quais o mais famoso é O italiano, ou O confessionário dos penitentes negros.
[141] Segundo o testemunho de um contemporâneo, citado por Desnoirterres em M. de Balzac, o caso de Doguereau seria verdadeiro e teria acontecido a um dos editores do próprio Balzac durante a mocidade deste. O editor que ia comprar a Balzac A última fada — um dos romances em folhetim que o autor, conhecendo-lhes a fraqueza, publicou anonimamente —, vendo as condições miseráveis em que o jovem autor vivia, resolveu reduzir o preço que lhe pretendera oferecer de início.
[142] Habent sua fata libelli (Terenciano Mauro): “Os livros têm o seu destino”.
[143] Este difícil período de sua vida, o próprio Desplein o conta em A missa do ateu (no volume 4 desta edição). — Teresa: Thérèse Le Vasseur, costureira, a quem Rousseau conheceu no hotel onde se hospedou durante a sua estada em Paris e de quem fez sua companheira, desposando-a mais tarde.
[144] Os conselhos de D’Arthez a Luciano sobre o método do romance histórico são um resultado da própria experiência de Balzac. Como sabemos, ele também estreou com um romance histórico, A Bretanha em 1799, no qual a influência de Walter Scott era bastante forte, mas onde já introduziu as modificações aqui recomendadas, sobretudo no que diz respeito ao papel das paixões.
[145] Clarissa Harlowe: heroína do romance do mesmo nome de Richardson; tipo da moça ingênua, pouco ativa, vítima do primeiro sedutor.
[146] Catarina: Catarina de Médicis (1519-1589), esposa de Henrique ii, mãe de Francisco ii, de Carlos ix e de Henrique iii; regente durante a menoridade de Carlos ix; principal responsável pela carnificina da noite de São Bartolomeu. O próprio Balzac sobre ela escreveu um romance (no volume 16 desta edição).
[147] Luís: Luís Lambert, personagem de Balzac e título de um de seus romances (no volume 17 desta edição), onde conta sua história trágica.
[148] Horácio Bianchon: um dos protagonistas preferidos de Balzac, encontrado em O pai Goriot, A missa do ateu etc.
[149] Hôtel-Dieu: grande hospital de Paris, fundado há mais de mil anos na ilha do Sena chamada Cité; reconstruído e ampliado várias vezes.
[150] Leão Giraud: amigo do pintor José Bridau, cuja casa frequentava (Um conchego de solteirão); o modelo dessa personagem balzaquiana seria o publicista saint-simoniano Pierre Leroux (ver a nota 76).