A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 6 de 6 · parte 2/9

Páginas do PDF

A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Terceira Parte • os Sofrimentos do Inventor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

de Cérizet e, sem o saber, na dependência do Cointet grande.

— Eles são nossos! — disse, ao sair, o diretor da fábrica de papel ao seu

irmão impressor. — Essa pobre gente vai habituar-se a receber o aluguel da

tipografia; contarão com isso e farão dívidas. Daqui a seis meses, não

renovaremos o arrendamento, e então veremos o que esse gênio está

guardando no fundo do saco, pois lhe faremos a proposta de o tirar de

dificuldades, associando-nos com ele na exploração da sua descoberta.

Se algum esperto comerciante pudesse ver como o Cointet grande

pronunciava estas palavras, associando-nos, compreenderia que o perigo do

consórcio é ainda menor na mairie do que no Tribunal de Comércio. Já não

bastava que aqueles ferozes caçadores estivessem nos rastos da sua presa?

David e a esposa, ajudados por Kolb e Marion, seriam capazes de resistir às

manhas de um Bonifácio Cointet?

 

VII – A PRIMEIRA TROVOADA

 

Ao chegar a época do parto da sra. Séchard, a nota de quinhentos francos

remetida por Luciano, juntamente com o segundo pagamento de Cérizet,

permitiu atender a todas as despesas. Eva, sua mãe e David, que se julgavam

esquecidos por Luciano, tiveram então uma alegria igual à que lhes deram os

primeiros sucessos do poeta, cuja estreia no jornalismo fez ainda mais

barulho em Angoulême do que em Paris.

Embalado numa enganadora segurança, David cambaleou ao receber do

cunhado este cruel bilhete:

 

Meu caro David,

 

Descontei, com Métivier, três letras aceites por ti, em meu favor, a um,

dois e três meses de prazo. Entre essa negociação e o suicídio, optei por

este horrível recurso, que, sem dúvida, muito te incomodará. Explicar-

te-ei as necessidades em que me encontro, e aliás tratarei de enviar-te

os fundos por ocasião do vencimento.

Queima esta carta, não digas nada à minha irmã nem à minha

mãe, pois confesso haver contado com o teu heroísmo, tão conhecido

de teu desesperado irmão

luciano de rubempré

 

— Teu pobre irmão — disse David à mulher, que então convalescia do parto

— está em terríveis embaraços, e eu remeti-lhe três letras de mil francos, a

um, dois e três meses de prazo; toma nota.

Depois saiu para o campo, a fim de evitar as explicações que a mulher

lhe ia pedir. Mas, ao comentar com a mãe aquela frase prenhe de desgraças,

Eva, já muito inquieta com o silêncio do irmão nos últimos seis meses, teve

tão maus pressentimentos que, para os dissipar, resolveu dar um desses

passos que o desespero aconselha. O sr. de Rastignac filho viera passar

alguns dias com a família, e tinha falado de Luciano em termos tão

desabonadores que essas novas de Paris, comentadas por todas as línguas

que as tinham repetido, chegaram aos ouvidos da irmã e da mãe do

jornalista. Eva foi à casa da sra. de Rastignac e solicitou uma entrevista com

o filho, a quem comunicou todos os seus temores, pedindo-lhe que dissesse a

verdade sobre a situação de Luciano em Paris. Num momento, soube Eva da

ligação de Luciano com Corália, de seu duelo com Miguel Chrestien, causado

por sua traição para com D’Arthez, em suma, todas as circunstâncias da vida

de Luciano, envenenadas por um dândi de espírito que soube dar à sua

inveja e ao seu ódio as aparências da piedade, a forma amistosa do

patriotismo alarmado com o futuro de um grande homem e as cores de uma

admiração sincera pelo talento de um filho de Angoulême, agora tão

cruelmente comprometido. Falou dos erros que Luciano cometera e que

acabavam de lhe retirar a proteção das mais altas personagens e fazer com

que se anulasse um decreto que lhe conferia o brasão e o nome de

Rubempré.

— Minha senhora, se o seu irmão tivesse sido bem aconselhado, estaria

hoje no caminho das honrarias e seria esposo da sra. de Bargeton. Mas que

quer? Ele abandonou-a, insultou-a. Ela se tornou, com grande pesar seu, a

sra. condessa Sixto du Châtelet, pois amava a Luciano.

— Será possível? — exclamou a sra. Séchard.

— O seu irmão é uma pequena águia a quem cegaram os primeiros raios

do luxo e da glória. Quando uma águia tomba, quem pode saber no fundo de

que precipício se deterá? A queda de um grande homem está sempre em

proporção da altura a que chegou.

Eva voltou aterrorizada com esta última frase, que lhe atravessou o

coração como uma flecha. Ferida nas mais sensíveis cordas de sua alma,

guardou em casa o mais profundo silêncio; mais de uma lágrima, porém,

rolou pelas faces e pela fronte do filho que ela amamentava. Tão difícil é

renunciar às ilusões que o espírito de família autoriza e que nascem com a

vida, que Eva desconfiou de Eugênio de Rastignac e quis ouvir a palavra de

um verdadeiro amigo. Escreveu pois uma comovedora carta a D’Arthez, cujo

endereço lhe fora dado por Luciano quando era entusiasta do cenáculo; eis

a resposta que recebeu:

 

Minha senhora,

Pede-me a verdade sobre a vida que leva em Paris o senhor seu irmão,

e deseja ser esclarecida quanto ao seu futuro, e, para induzir-me a

responder-lhe francamente, repete-me o que disse o sr. de Rastignac,

perguntando-me se tais fatos são verdadeiros.

No que me concerne, senhora, cumpre retificar, em favor de

Luciano, as confidências do sr. de Rastignac. Seu irmão teve remorsos,

e veio mostrar-me a crítica de meu livro, dizendo que não podia

resolver-se a publicá-la, apesar do perigo que a desobediência às

ordens de seu partido fazia correr a uma pessoa muito cara.

Infelizmente, senhora, a tarefa de um escritor é conceber paixões, pois

sua glória consiste em expressá-las: compreendi pois que entre uma

amante e um amigo, o amigo devia ser sacrificado. Facilitei o crime a

seu irmão, eu próprio revisei esse artigo libelicida, e aprovei-o

completamente.

Pergunta-me se Luciano conservou minha estima e amizade. Aqui,

a resposta é difícil. Seu irmão está num caminho em que se perderá.

Agora, ainda o lamento; em breve o terei voluntariamente esquecido,

não tanto pelo que ele já fez como pelo que deve ainda fazer. O seu

Luciano é um homem de poesia e não um poeta, sonha e não pensa,

agita-se e não cria. E, permita-me que o diga, uma mulherzinha que

gosta de aparecer, o principal vício do francês. Assim Luciano

sacrificará sempre o melhor de seus amigos ao prazer de alardear

espírito. De bom grado assinaria amanhã um pacto com o demônio, se

esse pacto lhe desse por alguns anos uma vida brilhante e luxuosa. Já

não fez pior, trocando o seu futuro pelas passageiras delícias de sua

vida pública com uma atriz? Neste momento, a mocidade, a beleza, a

dedicação dessa mulher, pois ela o adora, lhe ocultam os perigos de

uma situação que nem a glória, nem o sucesso, nem a fortuna fazem

com que a sociedade a admita. Pois bem, a cada nova tentação, o seu

irmão só há de ver, como hoje, apenas os prazeres do momento.

Tranquilize-se, Luciano jamais irá até o crime, não teria forças para tal;

mas aceitaria um crime já consumado, participaria dos seus proveitos

sem ter participado dos perigos: o que parece horrível a todo o mundo,

até aos celerados. Sentirá desprezo por si mesmo, arrepender-se-á;

mas, voltando a necessidade, começará tudo de novo, pois falta-lhe

vontade, não tem forças contra os engodos da volúpia, contra a

satisfação de suas mínimas ambições. Preguiçoso como todos os

homens de poesia, julga-se muito hábil quando escamoteia as

dificuldades em vez de as vencer. Terá coragem em determinada

hora, mas em tal outra será covarde. E não se lhe deve louvar a

coragem nem tampouco censurar a covardia: Luciano é uma harpa

cujas cordas se retesam ou relaxam ao sabor das variações atmosféricas.

Poderá fazer um belo livro numa fase de cólera ou de felicidade e

mostrar-se insensível ao sucesso depois de o ter desejado.

Desde os primeiros dias de sua chegada a Paris caiu sob o domínio

de um jovem sem moralidade, mas cuja astúcia e experiência em meio

às dificuldades da vida literária o deixaram deslumbrado. Esse

prestidigitador seduziu completamente Luciano, arrastou-o a uma

existência sem dignidade sobre a qual, infelizmente para ele, o amor

lançou o seu fascínio. Quando concedida muito facilmente, a

admiração é um sinal de fraqueza: não se deve pagar na mesma

moeda um dançarino de corda e um poeta. Sentimo-nos todos

melindrados com a preferência dada à intriga e ao charlatanismo

literário, em detrimento da coragem e da honra dos que aconselhavam

a Luciano que aceitasse o combate em vez de surrupiar o sucesso, que

se lançasse na arena em vez de se fazer um dos clarins da banda.

A sociedade, minha senhora, é, por singular capricho, plena de

indulgência para com os jovens dessa natureza; ama-os, deixa-se

enlevar pela bela aparência de seus dotes exteriores; deles, nada exige,

desculpa todas as suas faltas, concede-lhes os benefícios das naturezas

completas, só enxergando as suas vantagens; transforma-os, em suma,

em meninos mimados. Pelo contrário, é de uma severidade sem limites

para com as naturezas fortes e completas. Nesse modo de proceder, a

sociedade, tão violentamente injusta na aparência, é talvez sublime.

Diverte-se com os bufões, sem lhes pedir outra coisa senão prazer, e

esquece-os prontamente; ao passo que, para dobrar o joelho ante a

grandeza, pede-lhe divinas magnificências. Para cada coisa, a sua lei:

o diamante eterno deve ser sem mácula, a criação momentânea da

moda tem o direito de ser leviana, esquisita e sem consistência. Assim,

apesar de seus erros, talvez Luciano triunfe às mil maravilhas, basta-

lhe aproveitar uma veia feliz, ou achar-se em boa companhia; mas, se

encontra um anjo mau, irá até o fundo do inferno. É um brilhante

conjunto de belas qualidades bordadas sobre um fundo demasiado

frágil; a idade carrega as flores, e lá um dia não resta mais que o

tecido; e, se o tecido é mau, só se vê um trapo. Enquanto for jovem,

Luciano agradará; mas, aos trinta anos, em que posição estará ele? Tal

a pergunta que se devem fazer aqueles que o estimam sinceramente.

Se eu fosse o único a pensar desse modo a respeito de Luciano, teria

talvez evitado desgostá-la tanto com a minha sinceridade; mas, além

de que contornar com banalidades as perguntas formuladas por sua

solicitude me parecia indigno da senhora, cuja carta é um brado de

angústia, e indigno de mim, de quem faz tão alta estima, os meus

amigos que conheceram Luciano são unânimes neste juízo: vi pois o

cumprimento de um dever na manifestação da verdade, por mais

terrível que seja.

Tudo se pode esperar de Luciano, tanto no bem como no mal. Tal

o nosso pensamento, numa única frase em que esta carta se resume.

Se os acasos da sua vida, agora tão miserável e precária, levarem o

poeta para junto da senhora, use de toda a sua influência para

conservá-lo no seio da família; pois, até que seu caráter tenha

adquirido firmeza, Paris será sempre perigosa para ele. Luciano os

chamava, à senhora e a seu marido, de seus anjos da guarda, e sem

dúvida os esqueceu; mas se lembrará dos dois no momento em que,

acossado pela tempestade, só terá para asilo a sua família; conserve-

lhe pois o seu afeto, minha senhora, de que ele há de ter necessidade.

Aceite, senhora, as sinceras homenagens de um homem de quem

são conhecidas as suas preciosas qualidades e que muito respeita as

suas maternais inquietações para aqui oferecer-lhe os seus préstimos,

confessando-se seu dedicado servidor

d’arthez

 

Dois dias depois de recebida essa resposta, Eva foi obrigada a contratar uma

ama, pois seu leite secara. Depois de ter feito um deus de seu irmão, via-o

depravado pelo exercício das mais belas faculdades; para ela, em suma, ele

rolava na lama. A nobre criatura não sabia transigir com a probidade, com a

delicadeza, com todas as religiões domésticas cultivadas no lar da família,

ainda tão puro e radiante no fundo da província. David tivera pois razão em

suas previsões. Quando as preocupações que lhe obscureciam a fronte tão

branca foram confiadas por Eva ao marido, numa dessas límpidas

conversações em que duas criaturas amantes podem tudo dizer, David

pronunciou consoladoras palavras. Embora tivesse os olhos rasos d’água ao

ver o belo seio da mulher estancado pela dor e aquela mãe desesperada por

não poder cumprir seu dever maternal, tranquilizou a esposa, dando-lhe

algumas esperanças.

— Bem, minha filha, teu irmão pecou pela imaginação. É tão natural a um poeta querer as suas vestes de púrpura e azul, corre com tanta pressa

aos festins... O poeta é uma ave que se deixa seduzir pelo brilho e pelo luxo

com tamanha boa-fé que Deus o desculpa quando a sociedade o condena!

— Mas ele nos mata! — exclamou a pobre mulher.

— Mata-nos hoje como nos salvava há alguns meses, enviando-nos as

primícias de seu ganho! — respondeu o bom David, que teve o

discernimento de ver que o desespero levava sua mulher além dos limites e

que ela em breve voltaria a seu amor por Luciano. Dizia Mercier em seu

Quadro de Paris,[385] há cerca de cinquenta anos, que a literatura, a

poesia, as letras e as ciências, que as criações do cérebro não podiam jamais

alimentar um homem; e Luciano, na sua qualidade de poeta, não acreditou

na experiência de cinco séculos. Não se colhem as searas regadas a tinta

(quando se colhem) senão dez a doze anos após a semeadura, e Luciano

tomou a erva pela espiga. Pelo menos terá aprendido a vida. Depois de ter

sido joguete de uma mulher, devia ser joguete do mundo e das falsas

amizades. A experiência que adquiriu foi paga bastante caro, eis o que

aconteceu. Diziam nossos avós: “Contanto que um filho de família volte com

as duas orelhas e a honra salva, tudo está bem...”.

— A honra! — exclamou a pobre Eva. — Ai! a quantas virtudes não faltou

Luciano!... Escrever contra a própria consciência!... Atacar ao melhor

amigo!... Aceitar o dinheiro de uma atriz!... Mostrar-se com ela!... Deixar-nos

na miséria!...

— Oh! isso, isso não é nada!... — exclamou David, que se deteve a tempo.

Ia escapar-lhe o segredo da falsificação cometida pelo cunhado, e

infelizmente Eva, ao perceber o seu gesto, sentiu uma vaga inquietação.

— Como nada? — retrucou ela. — E como nos arranjaremos para pagar

os três mil francos?

— Em primeiro lugar, teremos a renovação do arrendamento de nossa

tipografia a Cérizet. Nos últimos seis meses, os quinze por cento que lhes dão

os Cointet sobre os trabalhos feitos para eles lhe renderam seiscentos francos

e ele conseguiu ganhar quinhentos francos com outras encomendas.

— Se os Cointet sabem disso, talvez não renovem o arrendamento;

ficarão receosos dele — disse Eva, — pois Cérizet é um homem perigoso.

— E que importa? — exclamou Séchard. — Daqui a alguns dias estaremos ricos! Uma vez Luciano rico, meu anjo, só terá virtudes...

— Ah, David, David! O que deixaste escapar! Quer dizer que Luciano,

na miséria, não teria forças contra o mal? Pensas dele o mesmo que o sr.

D’Arthez! Não há superioridade sem força, e Luciano é fraco... Que vale um

anjo que não pode ser tentado?

— Oh! É uma natureza que só é bela no seu meio, na sua esfera, no seu

firmamento. Luciano não é feito para lutar, eu lhe pouparei a luta. Olha! Já

estou muito perto dos resultados para que não te inicie nos meios.

Tirou do bolso várias folhas de papel branco in-octavo, brandiu-as

triunfalmente e colocou-as nos joelhos da mulher.

 

VIII – UMA VISTA D’OLHOS À INDÚSTRIA DO PAPEL

 

— Uma resma deste papel, em formato grand-raisin, não custará mais de

cinco francos — disse ele, fazendo Eva examinar as amostras, a qual

mostrava uma surpresa infantil.

— Pois bem, mas como fizeste essas experiências? — indagou ela.

— Com uma velha peneira de crina que pedi a Marion.

— E ainda não te dás por satisfeito?

— A questão não está no fabrico, e sim no preço de custo da pasta. Ah,

minha filha! Sou apenas um dos últimos que entraram nessa via difícil. A sra.

Masson, desde 1794, procurava converter os papéis impressos em papel

branco; conseguiu-o, mas a que preço! Na Inglaterra, por volta de 1800, o

marquês de Salisbury tentava, como Séguin em 1801, na França, empregar

palha na fabricação do papel. Nosso caniço comum, o Arundo phragmitis,

forneceu as folhas de papel que aí tens. Mas vou empregar as urtigas, os

cardos; pois, para manter o baixo custo da matéria-prima, cumpre recorrer a

substâncias vegetais que possam dar nos pântanos e nos maus terrenos:

serão então baratíssimas. Todo o segredo consiste no preparo a dar a essas

plantas. Neste momento, o meu processo ainda não é bastante simples. Pois

bem, apesar desta dificuldade, tenho certeza de dar ao fabrico do papel na

França o privilégio de que goza a nossa literatura, fazendo dele um

monopólio para o nosso país, como os ingleses têm o do ferro, o da hulha e o

da olaria comum. Quero ser o Jacquart[386] da papelaria.

Eva ergueu-se, movida por um entusiasmo e admiração que a singeleza

de David excitava; abriu os braços e apertou-o contra o coração, pousando a

cabeça em seu ombro.

— Tu me recompensas como se eu já tivesse encontrado — disse ele.

Como única resposta, Eva mostrou seu belo rosto inundado de lágrimas,

e ficou um momento sem poder falar.

— Não beijo o homem de gênio — disse ela —, mas o consolador! A uma

glória tombada, opões uma glória que se eleva. Ao pesar que me causa o

rebaixamento de um irmão, opões a grandeza do marido... Sim, serás grande

como os Graindorge,[387] os Rouvet,[388] os Van Robais,[389] como o persa

que nos deu a garança, como todos esses homens de que me falaste, cujos

nomes permanecem obscuros, porque, aperfeiçoando uma indústria,

fizeram o bem sem alarde.

— Que estarão eles fazendo a esta hora?... — dizia Bonifácio.

O Cointet grande passeava na Place du Mûrier com Cérizet, examinando

as sombras da mulher e do marido que se desenhavam atrás das cortinas de

musselina; pois vinha conversar diariamente à meia-noite com Cérizet,

encarregado de vigiar os mínimos passos de seu antigo patrão.

— Com certeza ele lhe está mostrando os papéis que fabricou esta

manhã — respondeu Cérizet.

— De que substâncias se serviu? — indagou o fabricante de papel.

— Impossível adivinhá-lo — respondeu Cérizet. — Fiz um buraco no

telhado, espiei por cima e vi o meu homenzinho, durante a noite inteira,

fervendo a pasta na caldeira de cobre; por mais que examinasse suas

provisões amontoadas num canto, só o que pude notar é que as matérias-

primas se pareciam com montes de filaça...

— Não vá mais longe — disse Bonifácio Cointet com voz untuosa a seu

espião, — não ficaria direito!... A sra. Séchard lhe proporá a renovação do

arrendamento da tipografia; diga-lhe que quer fazer-se impressor, ofereça a

metade do que valem o privilégio e o material, e, se consentirem, venha

procurar-me. Em todo caso, vá arrastando a coisa... Eles estão sem dinheiro?

— Sem um vintém! — respondeu Cérizet.

— Sem um vintém — repetiu o Cointet grande. “Eles são meus”, pensou

ele.

A casa Métivier e a casa Irmãos Cointet reuniam a qualidade de

banqueiros à sua profissão de papeleiros-impressores, título pelo qual se

guardavam aliás de pagar patente. O fisco ainda não encontrou meios de

controlar os negócios comerciais a ponto de forçar todos os que se fazem sub-

repticiamente de banqueiros a tirar privilégio de banqueiro, o qual em Paris,

por exemplo, custa quinhentos francos. Mas os irmãos Cointet e Métivier,

mesmo sendo o que na Bolsa se denomina pescadores, não deixavam de

movimentar entre si algumas centenas de mil francos por trimestre, nas

praças de Paris, de Bordeaux e de Angoulême. Ora, na mesma tarde a casa

Irmãos Cointet recebera de Paris os três mil francos de letras falsificadas por

Luciano. O Cointet grande imediatamente construíra sobre essa dívida uma

formidável máquina dirigida, como se vai ver, contra o paciente e pobre

inventor.

 

IX – DOS PROCURADORES DE PROVÍNCIA EM GERAL E DE MESTRE PETIT-CLAUD EM PARTICULAR

 

No dia seguinte, às sete da manhã, passeava Bonifácio Cointet ao longo da

represa que alimentava sua vasta fábrica de papel, e cujo ruído cobria o das

vozes. Esperava-o um homem dos seus vinte e nove anos, há seis semanas

solicitador junto ao Tribunal de Primeira Instância de Angoulême, e

chamado Pedro Petit-Claud.

— O senhor não cursou o colégio de Angoulême ao mesmo tempo que

David Séchard? — indagou o Cointet grande, saudando o jovem procurador,

que bem cuidara de não faltar à chamada do rico fabricante.

— Sim, senhor — respondeu Petit-Claud, ajustando o passo pelo do

Cointet grande.

— E reataram as relações.

— Encontramo-nos quando muito umas duas vezes depois do seu

regresso. Não podia ser de outro modo: eu vivia mergulhado no cartório ou

no tribunal; e nos domingos ou feriados estudava para completar minha

instrução, pois esperava tudo de mim mesmo...

Cointet abanou a cabeça aprovativamente.

— Quando nos tornamos a encontrar, David perguntou-me o que fazia eu. Disse-lhe que, depois de cursar direito em Poitiers, me tornara primeiro

escrevente do sr. Olivet, a quem esperava um dia suceder... Tinha maiores

relações com Luciano Chardon, que agora se faz chamar De Rubempré, o

amante da sra. de Bargeton, o nosso grande poeta, o cunhado, enfim, de

David Séchard.

— Pode então ir participar sua nomeação a David e oferecer-lhe os seus

serviços — disse Cointet.

— Não é costume — respondeu o jovem solicitador.

— Ele nunca teve processos e não tem solicitador, o senhor bem pode

procurá-lo — respondeu Cointet, que examinava o pequeno solicitador ao

abrigo das suas lentes escuras.

Filho de um alfaiate do Houmeau, desdenhado por seus companheiros

de colégio, Pedro Petit-Claud parecia ter certa porção de fel extravasada no

sangue. Seu rosto oferecia uma dessas colorações de tons sujos e confusos

que acusam doenças antigas, as vigílias da miséria e, quase sempre, maus

sentimentos. O estilo familiar oferece uma expressão que pode pintar esse

jovem em duas palavras: ele era desabrido e áspero. Sua voz rachada

harmonizava-se com o azedume da face, com o seu aspecto raquítico e com

a cor indecisa de seus olhos de pega. Os olhos de pega, segundo uma

observação de Napoleão, são um índice de improbidade. “Repare em

fulano”, dizia ele a Las Cases[390] em Santa Helena, falando de um de seus

confidentes que fora forçado a despachar por malversações, “não sei como

pude enganar-me por tanto tempo; ele tem olhos de pega.” Assim, depois de

ter bem examinado o pequeno solicitador magricela, picado de bexiga, de

cabelos raros, cuja fronte já se confundia com o crânio, quando o viu já a

dar-se ares, com o punho no quadril, o Cointet grande disse consigo: “Eis o

meu homem”. De fato, Petit-Claud, farto de desprezos, devorado por um

corrosivo desejo de triunfar, tivera a audácia, embora sem fortuna, de

comprar o lugar de seu antecessor por trinta mil francos, contando com

algum casamento para saldar a dívida; e, conforme o costume, fiava-se no

patrão para lhe conseguir uma esposa, pois o predecessor tem sempre

interesse em casar o sucessor, para que lhe paguem o seu cargo. Petit-Claud

contava ainda mais consigo mesmo, pois não deixava de possuir certa

superioridade, rara na província, mas que tinha origem no seu rancor. Grande ódio, grandes esforços.

Há grande diferença entre os solicitadores de Paris e os da província, e o

Cointet grande era muito esperto para que não se aproveitasse das pequenas

paixões a que obedecem esses pequenos solicitadores. Em Paris, um

solicitador notável, e existem muitos, comporta um pouco das qualidades

que distinguem um diplomata: o número dos negócios, a grandeza dos

interesses, a amplitude das questões que lhe são confiadas dispensam-no de

ver no processo um meio de fortuna. Arma ofensiva ou defensiva, o processo

não é para ele, como outrora, objeto de lucro. Na província, pelo contrário, os

solicitadores cultivam o que nos cartórios de Paris se denomina de miudezas,

essa multidão de pequenas formalidades que aumentam as custas e

consomem papel timbrado. Tais bagatelas ocupam o solicitador da província,

que não vê senão custas onde o solicitador de Paris só se preocupa com os

honorários. Os honorários são o que o constituinte deve, além das custas, ao

solicitador, pela conduta mais ou menos hábil do seu caso. O fisco fica com a

metade das custas, ao passo que os honorários são totalmente para o

solicitador. Digamo-lo com franqueza: os honorários pagos raramente estão

em harmonia com os honorários pedidos e devidos pelos serviços que presta

um bom solicitador. Os solicitadores, advogados e médicos de Paris, como as

cortesãs com os seus amantes ocasionais, são excessivamente prevenidos

contra a gratidão de seus clientes. O cliente antes e depois do processo

poderia constituir dois admiráveis quadros de costumes dignos de

Meissonier,[391] e que seriam sem dúvida encarecidos pelos solicitadores

honorários. Existe mais outra diferença entre o solicitador de Paris e o da

província. O de Paris raramente advoga, às vezes faz alegações verbais no

tribunal; mas, em 1822, na maioria dos departamentos (depois os advogados

pulularam) os solicitadores eram advogados e eles mesmos pleiteavam as

suas causas. Dessa dupla vida resulta um duplo trabalho que dá ao

solicitador de província os vícios intelectuais do advogado, sem lhe tirar as

pesadas obrigações do solicitador. O solicitador de província se torna tagarela

e perde essa lucidez de julgamento tão necessária à conduta dos negócios.

Quando assim se desdobra, um homem superior muita vez encontra em si

mesmo dois homens medíocres. Em Paris, o solicitador, não se

desperdiçando em palavras no tribunal, não advogando muitas vezes o pró e o contra, pode conservar retidão nas ideias. Se prepara a balística do Direito,

se revolve o arsenal dos recursos que apresentam as contradições da

jurisprudência, conserva a sua convicção sobre o processo ao qual se esforça

por preparar uma vitória. Em suma, o pensamento embriaga muito menos

que a palavra. À força de falar, um homem acaba por acreditar no que diz;

ao passo que se pode agir contra o próprio pensamento sem viciá-lo e ganhar

uma causa má sem sustentar que seja boa, como o faz o advogado ao

pleitear. É assim que um velho solicitador de Paris pode dar um bom juiz,

muito melhor do que o seria um velho advogado. Um solicitador de província

tem pois razões bastantes para ser um homem medíocre: esposa pequenas

paixões, conduz pequenas causas, vive descobrindo custas, abusa do código

de processo e pleiteia! Numa palavra, tem muita doença junta. Assim,

quando se encontra entre os solicitadores de província um homem notável é

que é verdadeiramente superior.

— Eu supunha, senhor, que me mandara chamar para os seus negócios

— respondeu Petit-Claud, fazendo com essa observação um epigrama com o

olhar que lançou às impenetráveis lentes do Cointet grande.

— Nada de rodeios — replicou Bonifácio Cointet. — Escute-me...

Depois dessa frase, prenhe de confidências, Cointet foi sentar-se num

banco, convidando Petit-Claud a imitá-lo.

— Quando o sr. du Hautoy passou por Angoulême em 1804, a caminho

de Valência, na qualidade de cônsul, aqui travou relações com a atual sra. de

Sénonches, então srta. Zeferina, e dela teve uma filha — disse Cointet em

voz baixa ao ouvido de seu interlocutor. — Sim — continuou, ante um gesto

de surpresa de Petit-Claud —, o casamento da srta. Zeferina com o sr. de

Sénonches efetuou-se logo depois desse parto clandestino. A filha, criada no

campo em casa de minha mãe, é a srta. Francisca de La Haye, de quem

cuida a sra. de Sénonches, que, segundo o costume em tais casos, é sua

madrinha. Como minha mãe, caseira da velha sra. de Cardanet, avó de

Zeferina, sabia o segredo da única herdeira dos Cardanet e dos Sénonches

do ramo mais antigo, fui encarregado de aplicar a pequena soma que o sr.

Francis du Hautoy destinou naquela época à sua filha. Minha fortuna se fez

com esses dez mil francos, que montam hoje a trinta mil. A sra. de

Sénonches sempre dará o enxoval, a baixela e alguma mobília à sua afilhada; mas eu posso conseguir-lhe a menina, meu rapaz — acrescentou Cointet,

batendo no joelho de Petit-Claud. — Desposando Francisca de La Haye, o

senhor aumentará a sua clientela com grande parte da aristocracia de

Angoulême. Essa aliança pela mão esquerda lhe oferece magnífico futuro... A

posição de advogado-solicitador parecerá suficiente: não se exige mais, eu o

sei.

— Mas o que é preciso fazer? — indagou avidamente Petit-Claud —, pois

o senhor tem mestre Cachan como solicitador...

— Também não deixarei bruscamente Cachan pelo senhor; só mais tarde

há de ter a minha clientela — disse finamente o Cointet grande. — O que

deve fazer, pergunta o amigo? Oh! mas os negócios de David Séchard. Esse

pobre-diabo tem mil escudos de letras a pagar-nos; não pagará; o senhor o

defenderá contra as diligências de modo a aumentar enormemente as

custas... Não se preocupe, mexa-se, acumule incidentes... Doublon, meu

oficial de diligências, que será encarregado de intimá-lo, sob a direção de

Cachan, não irá com panos quentes. A bom entendedor, meia palavra basta.

Agora, meu rapaz...

Fez-se uma pausa eloquente, enquanto aqueles dois homens se

entrefitaram.

— Nós nunca nos vimos — tornou Cointet —, eu não lhe disse nada, o

senhor não sabe coisa alguma a respeito do sr. du Hautoy, nem da sra. de

Sénonches, nem da srta. de La Haye; apenas, quando for tempo, dentro de

dois meses, o senhor pedirá a mão da referida jovem. Quando tivermos de

nos ver, venha aqui à noite. Não nos escrevamos.

— Pretende então arruinar a Séchard? — indagou Petit-Claud.

— Não inteiramente; mas é preciso mantê-lo algum tempo em prisão...

— E com que fim?

— Julga-me tão tolo que o diga? Se tiver a esperteza de adivinhar, terá

também a de calar-se.

— O velho Séchard é rico — disse Petit-Claud, já penetrando nas ideias

de Bonifácio e divisando uma causa de insucesso.

— Enquanto for vivo, o pai não dará um liard ao filho; e o velho

tipógrafo ainda não tem desejos de passar desta para melhor...

— Está combinado! — disse Petit-Claud, que se decidiu prontamente. —

Não lhe peço garantias, sou solicitador; se o senhor me enganasse, teríamos

de ajustar contas.

“O velhaco irá longe”, pensou Cointet, despedindo-se de Petit-Claud.

 

X – CURSO PÚBLICO E GRATUITO DAS CONTAS DE RECÂMBIO PARA OS QUE NÃO ESTÃO EM CONDIÇÕES DE PAGAR AS SUAS PROMISSÓRIAS

 

No dia seguinte ao dessa conferência, 30 de abril, os irmãos Cointet

mandaram apresentar a primeira das três letras falsificadas por Luciano. Por

desgraça, o documento foi entregue à pobre sra. Séchard, que,

reconhecendo a imitação da assinatura de seu marido por Luciano, chamou

David e disse-lhe à queima-roupa:

— Não assinaste esta letra...

— Não. Teu irmão tinha tanta pressa que assinou por mim...

Eva devolveu a letra ao cobrador da casa Irmãos Cointet, dizendo-lhe:

— Não estamos prevenidos.

Depois, sentindo-se desfalecer, subiu para o quarto, aonde David a

seguiu.

— Meu amigo — disse Eva em voz moribunda —, corre à casa dos srs.

Cointet, eles terão consideração contigo; pede-lhes que esperem; de resto,

observa-lhes que, na renovação do arrendamento de Cérizet, te deverão mil

francos.

David dirigiu-se imediatamente à casa de seus inimigos. Um tipógrafo

pode sempre tornar-se impressor, mas nem sempre existe um negociante

num hábil tipógrafo; assim, David, pouco conhecendo de negócios, ficou

confuso perante o Cointet grande, quando depois de lhe apresentar

atrapalhadamente as desculpas e formular o pedido, com a garganta

apertada e o coração palpitante, recebeu esta resposta:

— Isto não é conosco, foi Métivier quem nos remeteu a letra, e Métivier

nos pagará. Dirija-se ao sr. Métivier.

— Oh! — disse Eva ao saber dessa resposta —, uma vez que a letra voltar

ao sr. Métivier, podemos ficar descansados.

No dia seguinte, Vítor Angelo Hermenegildo Doublon, oficial de diligências dos srs. Cointet, fez o protesto às duas horas, momento em que a

Place du Mûrier está cheia de gente, e apesar do cuidado que teve de

conversar à porta de entrada com Marion e Kolb, o protesto não era menos

sabido por todo o comércio de Angoulême nessa mesma noite. E acaso

poderiam as maneiras hipócritas de Doublon, a quem o Cointet grande

recomendara as maiores considerações, salvar Eva e David da ignomínia

comercial que resulta de uma suspensão de pagamento? Imaginem! Aqui, as

prolixidades vão parecer demasiado breves. Noventa por cento dos leitores

serão atraídos pelos seguintes pormenores como pela novidade mais picante.

Ficará assim mais uma vez provada a verdade deste axioma: não há nada

menos conhecido do que aquilo que todo mundo deve saber, a lei!

Por certo, para a imensa maioria dos franceses, o mecanismo de uma das

engrenagens bancárias, bem descrito, oferecerá o interesse de um capítulo

de viagem por um país estrangeiro. Quando um negociante envia da cidade

onde tem o seu estabelecimento uma das suas letras a uma pessoa residente

noutra cidade, como se presumia que fizera David para obsequiar a Luciano,

transforma a operação tão simples, de uma letra passada entre negociantes

da mesma terra para fins comerciais, a algo parecido com a letra de câmbio

sacada de uma praça para outra. Assim, tomando a Luciano as três letras,

Métivier era obrigado, para receber-lhes a importância, a remetê-las aos srs.

Cointet, seus correspondentes. Daí, uma primeira perda para Luciano,

designada sob o nome de comissão por câmbio de praça e que se traduzira

nuns tantos por cento abatidos em cada letra, fora o desconto. As letras

Séchard tinham portanto passado para a categoria dos negócios bancários.

Não poderiam imaginar até que ponto a qualidade de banqueiro, a par do

título augusto de credor, transforma a condição do devedor! Assim, em

transações bancárias (notem bem esta expressão), logo que uma letra

transmitida da praça de Paris para a praça de Angoulême fica insolvável, os

banqueiros colocam-se na obrigação de trocar o que a lei denomina uma

conta de recâmbio. Trocadilhos à parte, mas na verdade nunca os

romancistas inventaram conto mais inverossímil do que esse; pois eis aqui as

engenhosas manigâncias à moda de Mascarilho[392] que certo artigo do

código comercial autoriza e cuja elucidação lhes demonstrará o que de

atrocidades não se oculta sob esta palavra terrível: a Legalidade!

Logo que Doublon mandou registrar seu protesto, foi pessoalmente levá-

lo aos srs. Cointet. O oficial tinha conta corrente com esses linces de

Angoulême, e concedia-lhes um crédito de seis meses que o Cointet grande

elevava para um ano pela maneira como o saldava, apenas dizendo de mês

em mês àquele sublince: “Doublon, não precisas de dinheiro?”. E ainda não é

tudo! Doublon favorecia com o desconto aquela poderosa casa, que ganhava

assim alguma coisa em cada diligência, um nada, uma miséria, um franco e

cinquenta cêntimos por protesto. Cointet grande sentou-se tranquilamente

à secretária, apanhou um papel timbrado de trinta e cinco cêntimos,

enquanto conversava com Doublon de modo a informar-se da verdadeira

situação dos comerciantes.

— E então, está satisfeito com o Gannerac?

— Ele não vai mal. Pudera! uma empresa de transportes...

— O fato é que ele tem fôlego! Disseram-me que a mulher lhe dava

muitas despesas...

— A ele? — exclamou Doublon com ar finório.

E o lince, que acabava de ajustar o papel, escreveu em ronde o sinistro

título sob o qual lançou a conta seguinte (sic):

 

conta de recâmbio e custas

 

De uma letra de 1.000 francos, datada de Angoulême a 10 de

fevereiro de 1822, aceite por SÉCHARD FILHO, à ordem de

LUCIANO CHARDON, chamado DE RUBEMPRÉ, passada à ordem

de MÉTIVIER, e à nossa ordem, vencida a 30 de abril, protestada

por DOUBLON, oficial de diligências, a 1º de maio de 1822.

Principal......................................................................1.000,00

Protesto.............................................................................12,35

Comissão de meio %................................................................5

Comissão do corretor, de um quarto %............................2,50

Selo de nosso retorno e do presente...................................1,35

Juros e porte de cartas...........................................................3

1.024,20

Câmbio de praça a um e um quarto % sobre o

 

total acima......................................................................13,25

Total...........................................................................1.037,45

 

Mil e trinta e sete francos e quarenta e cinco cêntimos, soma da qual

nos reembolsamos em nossa letra à vista contra o sr. Métivier, Rue

Serpente, Paris, à ordem do sr. Gannerac, do Houmeau.

Angoulême, 2de maio de 1822.

COINTET, Irmãos

 

Abaixo dessa pequena conta, extraída com toda a facilidade de um

profissional, pois não deixara de falar com Doublon, Cointet escreveu a

seguinte declaração:

 

Nós, abaixo-assinados, Postel, farmacêutico no Houmeau, e Gannerac,

comissário de transportes, negociantes nesta cidade, certificamos que

o câmbio de nossa praça sobre Paris é de um e um quarto por cento.

Angoulême, 3de maio de 1822.

 

— Olha, Doublon, faça-me o favor de ir a Postel e a Gannerac pedir-lhes que

assinem esta declaração, e traga-ma amanhã de manhã.

E Doublon, a par daqueles instrumentos de tortura, lá se foi, como se se

tratasse da coisa mais simples do mundo. Evidentemente, ainda que o

protesto fosse entregue em envelope fechado, como se faz em Paris, toda

Angoulême devia estar ciente da infeliz condição em que se encontravam os

negócios do pobre Séchard. E de quantas acusações não foi alvo a sua apatia!

Uns diziam-no perdido pelo excessivo amor que tinha à mulher; acusavam-

no outros de demasiada afeição ao cunhado. E que atrozes conclusões tirava

cada qual de tais premissas! Jamais se devia perfilhar os interesses do

próximo! Aprovavam a dureza do velho Séchard para com o filho,

admiravam-no!

Agora, vós todos que, por quaisquer motivos, esqueceis de honrar os

vossos compromissos, examinai bem os processos, perfeitamente legais, por

meio dos quais, em dez minutos, se faz um capital de mil francos render 28

francos de juros:

O primeiro artigo dessa conta de recâmbio é a única coisa incontestável.

O segundo artigo contém o quinhão do fisco e do oficial de diligências.

Os seis francos que o Tesouro percebe, registrando o pesar do devedor e

fornecendo o papel timbrado, farão persistir o abuso, ainda por muito

tempo! Como aliás já sabeis, esse artigo dá um lucro de um franco e

cinquenta cêntimos ao banqueiro, em consequência do desconto feito por

Doublon.

A comissão de meio por cento, objeto da terceira verba, é baseada no

engenhoso pretexto de que não receber um pagamento equivale, em

assuntos bancários, a descontar uma letra. Embora seja absolutamente o

contrário, nada é tão semelhante a dar mil francos como não os receber.

Quem quer que haja apresentado letras a desconto sabe que, além dos seis

por cento legalmente devidos, o banqueiro percebe, sob o modesto nome de

comissão, uns tantos por cento que representam os juros que lhe dá, acima

da taxa legal, o gênio com que valoriza os seus fundos. Quanto mais dinheiro

pode ganhar, mais exige de vós. Por isso é preciso escolher banqueiro não

muito esperto, pois sai mais barato. Mas será que há banqueiros pouco

espertos?

A lei obriga o banqueiro a mandar certificar por um agente de câmbio a

respectiva taxa. Nas praças assaz desgraçadas para não terem Bolsa, é o

agente de câmbio substituído por dois negociantes. A comissão chamada de

corretagem devida ao agente é fixada em um quarto por cento da soma

constante da letra protestada. Estatuiu-se o costume de considerar tal

comissão entregue aos comerciantes que substituem o agente, e o banqueiro

a guarda sem mais nem menos no seu caixa. Daí, o terceiro artigo dessa

indizível conta.

O quarto artigo compreende o custo do papel timbrado em que é

redigida a conta de recâmbio e o do selo daquilo que é tão engenhosamente

chamado conta de recâmbio, isto é, a nova letra sacada pelo banqueiro

contra o seu colega para se reembolsar.

O quinto artigo compreende o preço do porte de cartas e os juros legais

da quantia durante todo o tempo em que possa faltar no caixa do banqueiro.

Enfim, o câmbio da praça, que constitui o próprio objeto dos negócios

bancários, vem a ser o que custa obter pagamento de uma praça para outra.

Agora, destrinchem essa conta, em que, conforme a maneira de calcular

do polichinelo da canção napolitana tão bem interpretada por Lablache,

[393] 15 e 5 são 22! Evidentemente, a assinatura dos srs. Postel e Gannerac

era uma questão de complacência: quando necessário, os Cointet

certificavam para Gannerac o que Gannerac certificava para os Cointet. Era

a realização prática do conhecido provérbio “Uma mão lava a outra”. Tendo

os irmãos Cointet conta corrente com Métivier, uma letra devolvida não

tinha outro efeito senão uma linha a mais no deve ou no haver.

Essa conta fantástica reduzia-se pois na verdade aos mil francos devidos,

ao protesto de treze francos e a meio por cento de juros por um mês de

atraso, talvez uns mil e dezoito francos ao todo.

Se um banco tem todos os dias, em média, uma conta de recâmbio sobre

um valor de mil francos, percebe diariamente 28 francos por graça de Deus

e da constituição bancária, formidável realeza inventada pelos judeus no

século xii e que hoje domina os tronos e os povos.

Em outros termos, mil francos rendem então nesse estabelecimento 28

francos por dia ou 10.220 francos por ano. Triplicai a média das contas de

recâmbio e encontrareis um rendimento de 30.000 francos, produzido por

esses capitais fictícios. Assim, nada mais amorosamente cultivado do que as

contas de recâmbio.

Se David Séchard fosse pagar sua letra a 3 de maio, ou mesmo no dia

seguinte ao do protesto, os srs. Cointet lhe diriam: “Devolvemos sua letra ao

sr. Métivier”, mesmo que esta se encontrasse sobre a sua secretária. A conta

de recâmbio é válida na própria tarde do protesto.

Isto, em linguagem de banco de província, se chama fazer suar os

escudos. Só o porte de cartas produz uns 20.000 francos à Casa Keller, que

corresponde com o mundo inteiro; e as contas de recâmbio pagam o

camarote da Opéra, a carruagem e a toilette da sra. baronesa de Nucingen.

[394] O porte de cartas é um abuso tanto mais terrível, visto que os

banqueiros se ocupam de dez negócios semelhantes em dez linhas de uma mesma carta.

Coisa estranha! O fisco tem o seu nessa taxa arrancada à desgraça, e o

Tesouro Público assim se locupleta com os infortúnios comerciais. Quanto ao

banco, lança ao devedor, do alto do seu balcão, esta frase cheia de bom

senso: “Por que não se achava prevenido?” e à qual o desgraçado nada pode

retrucar. Destarte, a conta de recâmbio é um conto cheio de terríveis

peripécias pelo qual os devedores que refletirem sobre esta instrutiva página

sentirão doravante um salutar terror.

A 4 de maio, Métivier recebeu dos srs. Cointet a conta de recâmbio, com

ordem de perseguir sem trégua em Paris o sr. Luciano Chardon, conhecido

por De Rubempré.

 

XI – ONDE SE VÊ QUE UM SELO DE

CINQUENTA CÊNTIMOS FAZ O MESMO QUE

UM OBUS EM TRAJETÓRIA E ESTRAGOS

 

Alguns dias depois, Eva recebeu, em resposta à sua carta ao sr. Métivier, o

seguinte bilhete, que a tranquilizou completamente:

 

ao sr. séchard filho, impressor

em angoulême.

 

Recebi em tempo sua carta de 5 do corrente. Inferi, de suas

explicações relativamente à letra de 30 de abril passado, que quis o

senhor obsequiar a seu cunhado, o sr. de Rubempré, o qual faz

bastantes despesas para que obrigá-lo a pagar constitua um serviço

prestado ao senhor: acha-se ele em situação de não se deixar perseguir

por muito tempo. Se o seu digno cunhado não pagasse, eu me fiaria na

lealdade da sua velha casa. E, sem mais, subscrevo-me, como sempre,

seu devotado servidor

métivier

 

— Pois bem — disse Eva a David —, meu irmão saberá por essa diligência que não pudemos pagar.

Que transformação não anunciava esta frase em Eva? O crescente amor

que lhe inspirava o caráter de David, cada vez mais bem conhecido, tomava

em seu coração o lugar do afeto fraternal. Mas a quantas ilusões não dizia ela

adeus!

Vejamos agora todo o caminho que percorreu a conta de recâmbio na

praça de Paris. Um terceiro portador, nome comercial daquele que possui

uma letra por transmissão, é livre, nos termos da lei, de perseguir, entre os

diversos devedores da referida letra, unicamente aquele que lhe ofereça

maiores probabilidades de pronto pagamento. Em virtude de tal faculdade,

Luciano foi perseguido pelo agente do sr. Métivier. Eis quais foram as fases

dessa diligência, aliás completamente inútil. Métivier, atrás do qual se

ocultavam os Cointet, bem sabia da insolvência de Luciano; mas, sempre

dentro do espírito da lei, a insolvência de fato não existe em direito senão

depois de ter sido verificada.

A impossibilidade de obter de Luciano o pagamento da letra foi pois

verificada da seguinte maneira:

O agente de Métivier denunciou a Luciano no dia 5 de maio a conta de

recâmbio e o protesto de Angoulême, citando-o para ouvir no Tribunal de

Comércio de Paris uma infinidade de coisas, entre outras que seria

condenado à prisão como negociante.

Quando lia aquela geringonça, no meio da sua vida de animal acuado,

Luciano recebia a notificação de uma sentença obtida à revelia contra ele no

Tribunal de Comércio. Sua amante Corália, ignorando de que se tratava,

imaginou que Luciano prestara algum favor ao cunhado; deu-lhe todos os

papéis juntos, demasiado tarde. Uma atriz costuma ver tantos atores no

papel de oficial de diligências em vaudevilles que não acredita em papel

timbrado.

Luciano sentiu lágrimas nos olhos, compadeceu-se de Séchard,

envergonhou-se de sua falsificação e pretendeu pagar. Naturalmente, foi

consultar os amigos sobre o que deveria fazer para ganhar tempo. Mas,

quando Lousteau, Blondet, Bixiou, Nathan informaram Luciano do pouco-

caso que um poeta devia fazer do Tribunal de Comércio, jurisdição

estabelecida para vendeiros, já o poeta se achava às voltas com uma penhora. Via à sua porta aquele pequeno edital amarelo cuja cor desbota os

reposteiros, que tem a virtude mais adstringente sobre o crédito, que leva o

terror ao coração dos mais modestos fornecedores e que sobretudo gela o

sangue nas veias dos poetas bastante sensíveis para criar afeição a esses

pedaços de madeira, a esses trapos de seda, a esses retalhos de lã pintalgada,

a essas bugigangas denominadas mobília.

Quando vieram carregar os móveis de Corália, o autor das Boninas foi

procurar um amigo de Bixiou, Desroches, solicitador, que se pôs a rir ao ver

Luciano assustado com tão pouca coisa.

— Não é nada, meu caro... Quer ganhar tempo?

— O máximo possível.

— Pois bem, ponha embargos à execução da sentença. Vá falar com um

de meus amigos, o solicitador Masson; leve-lhe os seus papéis, ele renovará o

embargo, se apresentará em seu lugar e impugnará a competência do

Tribunal de Comércio. Isso não apresentará a mínima dificuldade, pois o

senhor é um jornalista bastante conhecido. Se for citado perante o tribunal

do cível, venha ver-me, que isso é comigo: encarrego-me de mandar passear

os que querem aborrecer a bela Corália.

A 28 de maio, Luciano, citado perante o tribunal do cível, foi condenado

mais prontamente do que esperava Desroches, pois perseguiam Luciano a

todo transe. Autorizada nova penhora, quando o edital amarelo foi mais uma

vez dourar os umbrais da porta de Corália e quiseram carregar os móveis,

Desroches, um pouco desapontado por deixar o colega passar-lhe a perna

(tal foi a sua expressão), opôs-se, alegando, aliás com razão, que o mobiliário

pertencia à srta. Corália. Diante disso, o presidente do tribunal mandou

ouvir as partes em audiência, sendo então, por sentença, adjudicada à atriz

a propriedade dos móveis. Métivier, que apelou dessa sentença, viu a mesma

confirmada a 30 de julho.

A 7 de agosto, Cachan recebeu pela diligência um enorme dossiê

intitulado:

 

métivier contra séchard filho

e luciano chardon

A primeira peça era a linda notinha seguinte, cuja exatidão é

garantida, pois foi copiada textualmente:

 

Letra de 30 de abril, aceite por Séchard

Filho, ordem Luciano de Rubempré

(2 de maio). Conta de recâmbio........................................1.037,45 frs.

 

5 de maio. — Apresentação da conta de

recâmbio e do protesto, com intimação

perante o Tribunal de Comércio

de Paris, para 7 de maio................................................................8,75

7 de maio. — Julgamento, condenação à

revelia, com mandado de prisão .....................................................35

10 de maio. — Intimação da sentença...........................................8,50

12 de maio. — Execução..................................................................5,50

14 de maio. — Auto de penhora..........................................................16

18 de maio. — Auto de afixação de editais....................................15,25

19 de maio. — Inserção na imprensa..................................................4

24 de maio. — Auto de balanço dos objetos a arrestar,

e contendo embargos à execução da sentença

pelo sr. Luciano de Rubempré............................................................12

27 de maio. — Julgamento do Tribunal,

que, em vista do embargo, envia as

partes perante o tribunal do cível.......................................................35

28 de maio. — Intimação a breve prazo por

Métivier perante o tribunal do cível,

com constituição de solicitador.......................................................6,50

2 de junho. — Julgamento desfavorável

que condena Luciano Chardon à conta de

recâmbio e deixa a cargo do autor as

custas do processo comercia............................................................150

6 de junho. — Notificação da sentença..............................................10

15 de junho. — Execução..................................................................5,50

19 de junho. — Auto de penhora, e contendo

embargos à mesma pela srta. Corália,

que alega pertencer-lhe o mobiliário e

solicita comparecer em audiência no

caso de prosseguir a penhora...........................................................20

19 de junho. — Despacho do juiz, que

manda ouvir as partes em audiência................................................40

19 de junho. — Sentença que adjudica

a propriedade dos móveis à referida

srta. Corália......................................................................................250

20 de junho. — Apelação de Métivier .................................................17

30 de junho. — Sentença confirmativa

do julgamento em primeira instância...............................................250

Total....................................................................................................889

 

Letra de 31 de maio, conta de recâmbio...............................1.037,45 frs.

Intimação a Luciano..........................................................................8,75

Total......................................................................................1.046,20 frs.

 

Letra de 30 de junho, conta de recâmbio...............................1.037,45

frs.

Intimação a Luciano............................................................................8,75

Total........................................................................................1.046,20 frs.

 

Estes documentos vinham acompanhados de uma carta em que Métivier

dava ordem ao sr. Cachan de perseguir David Séchard por todos os meios

legais. Vítor Angelo Hermenegildo Doublon intimou pois David Séchard, a 3

de julho, perante o Tribunal de Comércio de Angoulême, a fim de efetuar o

pagamento da soma total de quatro mil e dezoito francos e oitenta e cinco

cêntimos, total das três letras e das despesas feitas. No mesmo dia em que

deviam entregar-lhe a intimação de pagar essa quantia enorme para as suas posses, Eva recebeu esta carta fulminante de Métivier:

 

sr. séchard filho, impressor. — angoulême

 

O seu cunhado, sr. Chardon, é um homem de má-fé que colocou sua

mobília em nome de uma atriz com quem vive, e o senhor deveria ter-

me prevenido lealmente dessas circunstâncias, para não permitir que

eu intentasse diligências inúteis, pois não respondeu à minha carta de

10 de maio último. Não estranhe pois que eu lhe solicite

imediatamente o reembolso das três letras e de todos os meus gastos.

Com as minhas saudações,

métivier

 

Como não tivesse ouvido falar de mais nada, Eva, pouco entendida em

direito comercial, pensava que o irmão havia reparado o seu crime, pagando

as letras falsificadas.

— Meu amigo — disse ela ao marido —, corre antes de mais nada à casa

de Petit-Claud, explica-lhe a nossa posição e consulta-o.

 

XII – O QUE SE CHAMA FOGO NOS NEGÓCIOS

 

— Meu amigo — disse o pobre impressor, entrando no gabinete do

condiscípulo, a cuja casa correra precipitadamente —, eu não sabia, quando

vieste participar-me tua nomeação e oferecer-me teus serviços, que tão cedo

teria necessidade deles.

Petit-Claud estudou a bela face de pensador que lhe apresentava aquele

homem sentado numa poltrona à sua frente, pois não prestava atenção aos

detalhes de negócios que conhecia muito melhor do que aquele que lhos

explicava. Ao ver entrar David aflito, dissera consigo: “Feito o golpe!”.

Tal cena é assaz frequente em gabinetes de solicitadores. “Por que será

que os Cointet o perseguem?...”, indagava consigo Petit-Claud.

É do gênio dos solicitadores penetrarem tão bem na alma dos

constituintes como na dos adversários: devem conhecer tanto o direito como o avesso da trama judiciária.

— Queres ganhar tempo — respondeu afinal Petit-Claud, quando

Séchard terminou a sua exposição. — Que tempo precisas? Uns três ou

quatro meses?

— Quatro meses! Oh! Estou salvo! — exclamou David, a quem Petit-

Claud se afigurava um anjo.

— Pois bem, não tocarão em nenhum de teus móveis, e não poderão

prender-te antes de três ou quatro meses... Mas isso vai sair-te caro —

Continuar: parte 3 de 9