A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Terceira Parte • os Sofrimentos do Inventor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
na literatura, tão gloriosamente representou a nossa cidade em Paris.
Luciano, ao mesmo tempo poeta religioso e monarquista, afrontou o
furor dos partidos; veio, ao que dizem, repousar das fatigas de uma
luta que cansaria a atletas mais fortes ainda do que homens de poesia
e de meditação. Por uma ideia eminentemente política, a qual
aplaudimos e que, segundo se diz, partiu da sra. condessa du Châtelet,
pensa-se em restituir ao nosso grande poeta o título e o nome da
ilustre família dos Rubempré, cuja única herdeira é a sra. Chardon,
sua mãe. Remoçar assim, com talentos e glórias novas, as velhas
famílias prestes a extinguir-se constitui, no imortal autor da Carta,
[410] mais uma prova do seu constante desejo expresso nestas
palavras: União e Esquecimento. O nosso poeta está residindo em casa
de sua irmã, a sra. Séchard.
Sob a rubrica de Angoulême vinham as notícias seguintes:
“Nosso prefeito, o sr. conde du Châtelet, já nomeado gentil-homem
ordinário da Câmara de Sua Majestade, acaba de ser feito conselheiro de
Estado em serviço extraordinário.
“Ontem todas as autoridades foram apresentar-se ao sr. prefeito.
“A sra. condessa Sixto du Châtelet receberá às quintas-feiras.
“O maire de Escarbas, sr. de Nègrepelisse, representante do ramo
segundo dos D’Espard, pai da sra. du Châtelet, recentemente nomeado
conde, par de França e comendador da real ordem de São Luís, está
designado, pelo que dizem, para presidir o grande colégio eleitoral de
Angoulême nas próximas eleições”.
— Olha! — disse Luciano à irmã, entregando-lhe o jornal.
Depois de ler atentamente o artigo, Eva devolveu o jornal a Luciano com
um ar pensativo.
— Que dizes disso? — indagou Luciano, espantado de uma prudência
que mais parecia frieza.
— Meu caro — respondeu ela —, este jornal pertence aos Cointet, que
são absolutamente senhores de inserir ou não inserir artigos, e só podem ser
coagidos pela Prefeitura ou pelo arcebispado. Julgas o teu antigo rival, hoje
prefeito, tão generoso para entoar assim os teus louvores? Esqueces que os Cointet nos perseguem sob o nome de Métivier e querem sem dúvida obrigar
David a deixá-los aproveitar-se das suas descobertas?... De qualquer parte
que esse artigo provenha, acho-o inquietante. Aqui só provocavas ódios e
invejas; caluniavam-te, em vista do provérbio de que ninguém é profeta em
sua terra, e agora tudo muda num abrir e fechar de olhos!
— Tu não conheces o amor-próprio das cidades da província —
respondeu Luciano. — Num lugarejo do sul, chegaram a ir receber em
triunfo, às portas da cidade, a um jovem que obtivera o primeiro prêmio no
concurso geral, vendo nele um grande homem em projeto!
— Escuta, meu caro Luciano, eu não quero pregar-te sermões, direi
apenas isto: aqui, deves desconfiar das menores coisas.
— Tens razão — respondeu Luciano, surpreso de encontrar a irmã tão
pouco entusiástica.
O poeta achava-se no auge da alegria ao ver mudada num triunfo a sua
mesquinha e vergonhosa entrada em Angoulême.
— Não acreditam nem no pouco de glória que tão caro nos custa! —
exclamou Luciano, após uma hora de silêncio, durante a qual se acumulou
como que uma tempestade em seu coração.
Como única resposta, Eva olhou para Luciano, e esse olhar
envergonhou-o da sua acusação.
Alguns instantes após o jantar, um contínuo da Prefeitura trouxe uma
carta endereçada ao sr. Luciano Chardon, e que pareceu dar ganho de
causa à vaidade do poeta, que o mundo disputava à família.
Era o convite seguinte:
O sr. conde Sixto du Châtelet e a sra. condessa du Châtelet têm a
honra de convidar para jantar o sr. Luciano Chardon, a 15 de
setembro próximo.
Pede-se resposta
Ao convite vinha junto o seguinte cartão de visita:
conde sixto du châtelet
Gentil-homem ordinário da Câmara do rei
Prefeito de Charente
Conselheiro de Estado.
— Você está de maré — disse o velho Séchard —, é falado aí na cidade como
um grande personagem... Brigam entre Angoulême e o Houmeau para ver
quem lhe fará coroas.
— Minha querida Eva — disse Luciano ao ouvido da irmã —, encontro-
me exatamente como no Houmeau, no dia em que devia ir à casa da sra. de
Bargeton: não tenho roupa para o jantar do prefeito.
— Pretendes então aceitar esse convite?! — exclamou a sra. Séchard,
alarmada.
Sobre a questão de ir ou não ir à Prefeitura, travou-se uma polêmica
entre os dois irmãos. O bom senso de provinciana dizia a Eva que a gente só
se deve mostrar em sociedade com cara alegre, indumentária apropriada e
aspecto irrepreensível; mas o seu verdadeiro pensamento era o seguinte:
“Aonde o levará o jantar do prefeito? Que poderá fazer por Luciano a alta
sociedade de Angoulême? Não estarão maquinando alguma coisa contra
ele?”.
Luciano acabou por dizer à irmã antes de ir deitar-se:
— Então não sabes da minha influência? A mulher do prefeito teme o
jornalista; aliás, na condessa du Châtelet sempre existe Luísa de
Nègrepelisse! Uma mulher que acaba de obter tantos favores bem pode
salvar David. Contar-lhe-ei a descoberta que fez meu cunhado, e para ela
não custará nada conseguir um auxílio de dez mil francos do ministério.
Às onze da noite, Luciano, sua irmã, sua mãe, o velho Séchard, Marion e
Kolb foram despertados pela banda de música da cidade, à qual se reunira a
da guarnição, e viram a Place du Mûrier cheia de gente. Era uma serenata
que os jovens de Angoulême davam a Luciano de Rubempré. Luciano
chegou à janela da irmã e disse, no meio do mais profundo silêncio, após o
último trecho:
— Agradeço a meus conterrâneos a honra que me fazem, e tratarei de a
merecer; hão de perdoar-me que não lhes diga mais; minha emoção é tão
forte que eu não poderia continuar.
— Viva o autor do Arqueiro de Carlos ix!... Viva o autor das Boninas! Viva Luciano de Rubempré!...
Depois dessas três salvas gritadas por algumas vozes, foram habilmente
lançadas dentro da janela do aposento três coroas e três ramalhetes. Dez
minutos depois a Place du Mûrier estava deserta e o silêncio ali reinava.
— Eu por mim preferia dez mil francos — disse o velho Séchard,
examinando as flores com um ar profundamente malicioso. — Mas você lhes
deu margaridas, eles lhe devolvem ramalhetes: com vocês fica tudo em
flores.
— Eis o apreço que dá o senhor às honras que me conferem os meus
concidadãos! — exclamou Luciano, com uma expressão já sem nenhuma
melancolia e radiante de satisfação. — Se o senhor conhecesse os homens,
papai Séchard, veria que não sucedem dois instantes como este na vida. Só a
um entusiasmo verdadeiro é que se podem dever semelhantes triunfos!...
Isto, minha querida mãe e minha boa irmã, isto consola de muitos dissabores.
Luciano abraçou a irmã e a mãe como a gente se abraça nesses
momentos em que a alegria transborda de tal maneira que é preciso lançá-la
no coração de um amigo. “Na falta de um amigo”, dizia Bixiou, “um autor
embriagado de sucesso abraça o seu porteiro.”
— Mas por que estás chorando, minha querida? — disse ele a Eva. — Ah?
é de alegria...
— Ah! — disse Eva para a mãe, antes de voltar ao leito e quando se viram
a sós —, num poeta, penso eu, há sempre uma bonita mulher da pior
espécie...
— Tens razão — respondeu a mãe, sacudindo a cabeça —, Luciano já
esqueceu tudo, não só as suas desgraças, mas também as nossas.
Mãe e filha se separaram, sem se atreverem a trocar todos os seus
pensamentos.
XXIII – AS ENGRENAGENS DO TRIUNFO
Nos países devorados pelo sentimento de insubordinação social oculto sob a
palavra igualdade, todo triunfo é um desses milagres que não se realizam,
como aliás certos milagres, sem a cooperação de hábeis maquinistas. Em dez
ovações obtidas por dez homens vivos e conferidas no seio da pátria há nove cujas causas são estranhas ao glorioso homenageado. O triunfo de Voltaire
nos tablados do Théâtre-Français não era acaso o da filosofia do seu século?
Na França, só se pode triunfar quando toda a gente se coroa a si mesma na
cabeça do triunfador. Assim, as duas mulheres tinham razão em seus
pressentimentos. O sucesso do grande homem de província era muito
antipático aos costumes imóveis de Angoulême para não ter sido posto em
cena por interesses ou por um maquinista apaixonado, colaborações
igualmente pérfidas. Eva, como de resto a maioria das mulheres, desconfiava
por sentimento, sem que pudesse justificar a si mesma a sua desconfiança.
Dizia consigo ao adormecer: “Quem poderá estimar tanto a meu irmão para
assim alvoroçar a terra?... As boninas aliás ainda não estão publicadas... Como
poderão felicitá-lo por um futuro sucesso?”.
Esse triunfo era, com efeito, obra de Petit-Claud. No dia em que o cura
de Marsac lhe anunciou o regresso de Luciano, o solicitador jantava pela
primeira vez em casa da sra. de Sénonches, que devia receber oficialmente o
pedido da mão de sua pupila. Foi um desses jantares de família em que a
solenidade se mostra mais pelos vestuários do que pelo número de convivas.
Embora em família, sabe-se que se está representando, e em todas as
atitudes transparecem as intenções. Francisca estava como que em
exposição. A sra. de Sénonches arvorara os pavilhões das suas toilettes mais
pretensiosas. O sr. du Hautoy achava-se de casaca preta. O sr. de
Sénonches, a quem a mulher escrevera comunicando a chegada da sra. du
Châtelet, que devia aparecer pela primeira vez em casa deles, bem como a
apresentação oficial de um pretendente de Francisca, voltara da
propriedade do sr. de Pimentel. Cointet, na sua mais bela casaca castanha
de corte eclesiástico, ostentava aos olhares de todos, no peitilho da camisa,
um diamante de seis mil francos, vingança de rico comerciante sobre a
aristocracia pobre. Petit-Claud, barbeado, penteado, ensaboado, não pudera
desfazer-se do seu arzinho seco. Era impossível não comparar aquele magro
solicitador, entalado na sua casaca, a uma víbora inteiriçada pelo frio; mas a
esperança de tal modo aumentava a vivacidade de seus olhos de pega,
tamanha frieza imprimiu ele à fisionomia, empertigou-se tanto, que atingiu
justamente a dignidade de um ambicioso procuradorzinho do rei. A sra. de
Sénonches pedira aos íntimos que não dissessem palavras sobre a primeira entrevista de sua pupila com um pretendente, nem sobre o aparecimento
da mulher do prefeito, de forma que esperava ver cheios os seus salões.
Realmente, o senhor prefeito e a esposa tinham feito as visitas oficiais por
cartão, reservando como um meio de ação a honra das visitas pessoais. Assim,
achava-se a sociedade de Angoulême tomada de tamanha curiosidade que
várias pessoas partidárias de Chandour resolveram comparecer ao palácio de
Bargeton, pois teimavam em não chamar aquela casa de palácio de
Sénonches. As provas da influência da condessa du Châtelet haviam
despertado muitas ambições; e aliás a diziam de tal modo mudada em
vantagem própria que cada qual queria julgá-la por seus próprios olhos. Ao
saber, em caminho, por intermédio de Cointet, o grande favor que Zeferina
obtivera da prefeita para lhe apresentar o futuro esposo da sua querida
Francisca, Petit-Claud resolveu tirar partido da posição canhestra em que o
regresso de Luciano colocava Luísa de Nègrepelisse.
O sr. e a sra. de Sénonches tinham tomado compromissos tão pesados ao
comprar a casa que, como bons provincianos, não pensaram em lhe fazer a
mínima mudança. Assim, a primeira frase de Zeferina, ao anunciarem Luísa,
quando se dirigiu a seu encontro, foi a seguinte:
— Minha querida Luísa, veja... você aqui ainda está em sua casa. — E
mostrava-lhe o pequeno lustre com pendentes, os forros da sala e o
mobiliário que outrora haviam fascinado a Luciano.
— É o que eu menos quero lembrar, minha querida — disse
graciosamente a mulher do prefeito, lançando um olhar em torno de si para
examinar a assembleia.
Todos confessaram que Luísa de Nègrepelisse não parecia a mesma. A
sociedade parisiense onde vivera durante dezoito meses, as primeiras
felicidades do casamento, que transformaram tanto a mulher como Paris
transformara a provinciana, a espécie de dignidade que o poder confere,
tudo fazia da condessa du Châtelet uma mulher que se assemelhava à sra.
de Bargeton como uma rapariga de vinte anos se assemelha à sua mãe.
Trazia um encantador chapéu de rendas e flores, negligentemente pregado
com um alfinete de diamante. Seus cabelos à inglesa lhe acompanhavam a
linha do rosto e o rejuvenesciam, ocultando-lhe os contornos. Usava um
vestido de seda, com o corpete em ponta, deliciosamente franjado, e cujo corte, devido à famosa Vitorina, lhe realçava muito bem o talhe. Os ombros,
cobertos por um fichu, eram apenas visíveis sob a manta de gaze habilmente
enrolada ao pescoço muito longo. Brincava, enfim, com essas lindas bagatelas
cujo manejo é o escolho das provincianas: uma bonita caçoula pendia-lhe do
bracelete por uma corrente; numa das mãos trazia o leque e o lenço
enrolado, sem embaraçar-se com eles. O refinado bom gosto dos mínimos
detalhes, a atitude e maneiras copiadas à sra. d’Espard revelavam em Luísa
um sábio estudo do Faubourg Saint-Germain. Quanto ao velho janota do
Império, o casamento o amadurecera, como a esses melões que, de verdes
ainda na véspera, se tornam amarelos da noite para o dia. Ao descobrir na
face radiante da esposa o verdor que Sixto perdera, fizeram-se, de ouvido
para ouvido, gracejos provincianos, tanto mais que todas as mulheres
estavam furiosas com a nova superioridade da antiga rainha de Angoulême;
e o tenaz intruso teve de pagar pela mulher. Excetuados o sr. de Chandour e
esposa, o falecido Bargeton, o sr. de Pimentel e os Rastignac, o salão se
achava mais ou menos tão concorrido como no dia em que Luciano ali fizera
a sua leitura, pois chegara o sr. bispo, acompanhado de seus vigários-gerais.
Petit-Claud, impressionado com o espetáculo da aristocracia do Angoumois,
em cujo seio desesperava de jamais encontrar-se quatro dias antes, sentiu
apaziguar-se o seu ódio contra as classes superiores. Achou encantadora a
condessa du Châtelet, dizendo consigo: “Aí está a mulher que me pode fazer
nomear substituto!”.
Pelo meio da noite, depois de ter conversado o mesmo tempo com cada
uma das mulheres, variando o tom da palestra segundo a importância da
pessoa e a conduta que tivera a mesma a propósito da sua fuga com
Luciano, Luísa retirou-se para o toucador com o sr. arcebispo. Zeferina
tomou então o braço de Petit-Claud, cujo coração palpitou, e levou-o para
aquele gabinete onde haviam começado os infortúnios de Luciano, e onde
eles se iam consumar.
— Apresento-te o sr. Petit-Claud, minha querida, e tanto mais vivamente
to recomendo porque tudo o que fizeres por ele reverterá sem dúvida em
benefício da minha pupila.
— O senhor é solicitador? — disse a augusta filha dos Nègrepelisse,
medindo de alto a baixo Petit-Claud.
— Infelizmente!, senhora condessa.
Jamais o filho do alfaiate do Houmeau tivera em toda a sua vida uma
única ocasião de servir-se dessas duas palavras: encheu então a boca com
elas.
— Mas — continuou ele — o meu progresso depende da sra. condessa.
Dizem que o sr. Milaud vai para Nevers...
— Mas não se principia como segundo delegado — observou a condessa
— passando depois para primeiro? Eu desejaria vê-lo imediatamente como
primeiro delegado... Para ocupar-me de si e obter-lhe esse favor, quero ter
alguma certeza da sua dedicação à legitimidade, à religião, e principalmente
ao sr. de Villèle.
— Ah! minha senhora — disse Petit-Claud, aproximando-se de seu
ouvido —, eu sou homem de obedecer absolutamente ao rei.
— É disso que nós precisamos hoje — replicou ela, recuando um pouco
para lhe dar a entender que não mais queria saber de conversas ao ouvido. —
Se o senhor continuar a ser do agrado da sra. de Sénonches, pode contar
comigo — acrescentou, fazendo um gesto régio com o leque.
— Minha senhora — disse Petit-Claud, vendo Cointet assomar à porta do
gabinete —, Luciano está na cidade.
— E daí, senhor?... — respondeu a condessa num tom que faria parar
qualquer palavra na garganta de um homem comum.
— A sra. condessa não me compreende — tornou Petit-Claud, servindo-
se da fórmula mais respeitosa —, eu pretendo dar uma prova da minha
dedicação à sua pessoa. Como quer a sra. condessa que seja recebido em
Angoulême o grande homem a quem fez? Não há meio-termo: ele deve ser
objeto de desprezo ou de glorificação.
Luísa de Nègrepelisse não pensara nesse dilema, em que estava
evidentemente interessada, mais pelo passado do que pelo presente. Ora,
dos sentimentos que a condessa atualmente dedicava a Luciano dependia o
sucesso do plano concebido pelo solicitador para a captura de Séchard.
— Sr. Petit-Claud — disse ela, tomando uma atitude de altivez e
dignidade —, o senhor quer pertencer ao governo. Pois saiba que o primeiro
princípio do governo deve ser o de jamais haver errado, e que as mulheres
têm ainda mais do que os governos o instinto do poder e o sentimento da sua dignidade.
— Era isso mesmo o que eu pensava, senhora — respondeu ele
prontamente, observando a condessa com uma atenção tão profunda como
pouco visível. — Luciano chega aqui na maior miséria. Mas se deve ele
receber uma ovação, posso também constrangê-lo, por causa dessa mesma
ovação, a deixar Angoulême, onde a sua irmã e o seu cunhado David
Séchard estão agora sob severa ação da justiça...
Luísa de Nègrepelisse deixou transparecer na fisionomia altiva um leve
movimento provocado pela repressão do prazer que sentira. Surpreendida
de ser tão bem adivinhada, olhou para Petit-Claud, abrindo o leque, pois
vinha entrando Francisca de La Haye, o que lhe deu tempo para encontrar
uma resposta.
— Senhor — disse ela com um sorriso significativo —, brevemente
chegará a procurador do rei...
Não era dizer tudo sem se comprometer?
— Ah, senhora! — disse Francisca, vindo agradecer à prefeita —, eu lhe
ficarei devendo a felicidade de minha vida!
E disse-lhe ao ouvido, inclinando-se para a sua protetora num gesto de
menina:
— Eu morreria a fogo lento se me visse casada com um solicitador de
província...
Se Zeferina assim se lançara sobre Luísa, é que fora impelida por Francis,
a quem não faltava certo conhecimento do mundo burocrático.
— Nos primeiros dias de qualquer advento, seja o de um prefeito, de
uma dinastia, ou de uma exploração — disse o antigo cônsul-geral à sua
amiga —, mostra-se o estreante muito zeloso em prestar serviços; mas em
breve reconhece os inconvenientes da proteção e torna-se de gelo. Hoje,
Luísa fará por Petit-Claud coisas que daqui a seis meses não faria pelo sr. de
Sénonches.
— A sra. condessa já pensou em tudo a que nos obriga o triunfo de nosso
poeta? — disse Petit-Claud. — A sra. condessa deveria receber Luciano
durante a semana que durar o nosso entusiasmo.
A mulher do prefeito fez um sinal de cabeça a fim de despedir Petit-
Claud e ergueu-se para ir conversar com a sra. de Pimentel, que assomou a cabeça à porta do gabinete. Assombrada com a elevação do velho de
Nègrepelisse ao pariato, a marquesa julgara necessário vir festejar uma
mulher bastante hábil para aumentar a sua influência quando praticava
quase uma falta.
— Diga-me, minha querida, por que se deu ao trabalho de colocar a seu
pai na Câmara alta — segredou a marquesa em meio de uma conversa
confidencial, em que quase se ajoelhava ante a superioridade da sua
querida Luísa.
— Minha querida, esse favor me foi concedido facilmente porque meu
pai não tem filhos e há de votar sempre com a Coroa; mas, se eu tiver filhos,
espero que meu primogênito suceda ao avô no título, nos brasões e no
pariato...
A sra. de Pimentel viu com desgosto que não poderia empregar no seu
desejo de elevar o sr. de Pimentel ao pariato uma mãe cuja ambição se
estendia aos filhos vindouros.
— Tenho a mulher do prefeito comigo — dizia Petit-Claud a Cointet, ao
saírem —, e prometo-lhe a sua escritura de sociedade... Daqui a um mês serei
primeiro delegado e o senhor terá Séchard em suas mãos. Trate agora de
conseguir-me um sucessor para o meu cartório; em cinco meses fiz dele o
primeiro de Angoulême...
— Bastava pôr-lhe os pés nos estribos — disse Cointet, quase invejoso da
sua obra.
Todos podem agora compreender a causa do triunfo de Luciano em sua
terra. À maneira desse rei da França que não vingava o duque de Orléans,
Luísa não queria lembrar-se das injúrias recebidas em Paris pela sra. de
Bargeton. Queria patrocinar Luciano, esmagá-lo com a sua proteção e livrar-
se dele decentemente. A par de toda a intriga de Paris pelos mexericos,
Petit-Claud bem adivinhara o ódio vivaz que têm as mulheres ao homem que
não soube amá-las quando elas desejaram ser amadas.
XXIV – UMA DEDICAÇÃO COMO ÀS VEZES SE ENCONTRA NA VIDA
No dia seguinte à ovação que justificava o passado de Luísa de Nègrepelisse, Petit-Claud, para acabar de inebriar a Luciano e dominá-lo, apresentou-se
em casa da sra. Séchard à frente de seis jovens da cidade, todos antigos
camaradas de Luciano no colégio de Angoulême.
Essa delegação era enviada ao autor das Boninas e do Arqueiro de
Carlos ix pelos seus condiscípulos, a fim de lhe pedirem que comparecesse
ao banquete que desejavam oferecer ao grande homem saído dos seus
bancos escolares.
— Oh! tu por aqui, Petit-Claud! — exclamou Luciano.
— O teu regresso — disse-lhe Petit-Claud — estimulou o nosso amor-
próprio; encaprichamo-nos, cotizamo-nos e te preparamos um magnífico
jantar. O nosso diretor e nossos professores comparecerão; e, pela maneira
como vão as coisas, teremos sem dúvida a presença das autoridades.
— E para que dia? — indagou Luciano.
— Domingo próximo.
— Isso me seria impossível — respondeu o poeta —, só posso aceitar para
daqui a dez dias... Mas então será da melhor vontade...
— Pois bem, estamos às tuas ordens — disse Petit-Claud —, seja para
daqui a dez dias.
Luciano mostrou-se muito amável para com seus antigos colegas, que lhe
testemunharam uma admiração quase respeitosa. Conversou durante uma
meia hora com bastante espírito, pois se via sobre um pedestal e queria
justificar a opinião da terra; meteu os dedos nas cavas do colete, falando tal
qual um homem que vê as coisas da altura a que o guindaram os seus
concidadãos. Foi modesto e lhano, como um gênio em chinelas. Mostrou-se
como um atleta farto das lutas em Paris, e principalmente desencantado;
felicitou seus camaradas por não haverem deixado a sua boa província etc.
Deixou-os encantados com ele. Depois tomou Petit-Claud à parte e
perguntou-lhe a verdade sobre os negócios de David, incriminando-o do
estado de sequestro em que se encontrava o cunhado. Luciano queria
plantar os verdes com Petit-Claud. Petit-Claud esforçou-se por incutir em
seu antigo colega a opinião de que ele, Petit-Claud, era um pobre
solicitadorzinho de província, sem lábia alguma. A constituição atual das
sociedades, infinitamente mais complicada em suas engrenagens que a das
sociedades antigas, teve por efeito subdividir as faculdades de homem. Outrora, as pessoas eminentes, forçadas a ser universais, apareciam em
pequeno número e como fanais no meio das nações antigas. Mais tarde, se as
faculdades se especializaram, a qualidade ainda se dirigia ao conjunto das
coisas. Assim, um homem rico em cautela, como se disse de Luís xi, podia
aplicar sua esperteza a tudo; mas hoje a própria qualidade está subdividida.
Por exemplo, tantas profissões, quantas manhas diferentes. Um astuto
diplomata será muito bem engazopado num negócio, no interior de uma
província, por um solicitador medíocre ou um camponês. O mais hábil
jornalista pode ser bastante simplório em matéria de interesses comerciais, e
Luciano devia ser, como foi, um joguete nas mãos de Petit-Claud. O
manhoso advogado era quem havia naturalmente escrito o artigo em que a
cidade de Angoulême, comprometida com o seu bairro do Houmeau, se via
na obrigação de homenagear a Luciano. Os conterrâneos de Luciano que
compareceram à Place du Mûrier eram os operários da tipografia e da
fábrica de papel dos Cointet, acompanhados dos escreventes de Petit-Claud,
de Cachan e de alguns camaradas de colégio. Voltando a ser para o poeta o
camarada do colégio, pensava com razão o solicitador que seu camarada
deixaria escapar, em dado momento, o segredo do retiro de David. E se
David caía por culpa de Luciano, Angoulême não seria mais sustentável para
o poeta. Assim, para melhor garantir a sua influência, apresentou-se como
inferior a Luciano.
— Como não faria eu o máximo possível? — disse Petit-Claud a Luciano.
— Tratava-se da irmã de meu camarada; mas, perante os tribunais, há
posições em que é forçoso capitular. David me pediu, a 1º de junho, que
garantisse a sua tranquilidade durante três meses; só perigou em setembro,
mas ainda assim consegui subtrair todos os seus haveres aos credores; pois
ganharei o processo na Corte real; farei decidir que o privilégio da mulher é
absoluto e que, no caso vigente, não oculta nenhuma fraude... Quanto a ti,
voltas infeliz, mas és um homem de gênio...
Luciano fez o gesto de quem sente chegar-lhe o incenso demasiado
perto do nariz.
— Sim, meu caro — respondeu Petit-Claud —, eu li O arqueiro de
Carlos ix, e é mais que uma obra, é um livro! O prefácio só podia ter sido
escrito por dois homens, Chateaubriand ou tu!
Luciano aceitou o elogio, sem dizer que o prefácio tinha sido escrito por
D’Arthez. Em cem autores franceses, noventa e nove teriam agido da mesma
forma.
— Pois bem, aqui pareciam não te conhecer — continuou Petit-Claud,
fingindo indignação. — Quando vi a indiferença geral, resolvi revolucionar
toda essa gente. Escrevi o artigo que leste...
— Como! foste tu quem?... — exclamou Luciano.
— Eu mesmo!... Angoulême e o Houmeau se viram em pé de rivalidade,
reuni uns jovens, teus antigos camaradas de colégio, e organizei a serenata
de ontem. Depois, dado o primeiro impulso, abrimos a subscrição para o
banquete. “Se David se acha escondido, ao menos que Luciano seja
celebrado!”, disse eu comigo. Fiz ainda melhor — continuou Petit-Claud —,
fui visitar a condessa du Châtelet e dei-lhe a entender que ela se devia a si
mesma o gesto de tirar David da sua situação; ela pode e deve fazê-lo. Se
David realmente encontrou o segredo de que me falaram, o governo não se
arruinará amparando-o, e que glória para um prefeito ter parte na
responsabilidade de tamanha descoberta, pela feliz proteção concedida ao
inventor! Todos falariam dele como de um administrador esclarecido... Tua
irmã assustou-se com a nossa fuzilaria judiciária, teve medo da fumaça... A
guerra nos tribunais sai tão caro como nos campos de batalha; mas David
manteve a sua posição; é senhor do seu segredo; não podem prendê-lo, não
o prenderão!
— Agradeço-te, meu caro, e vejo que posso confiar-te o meu plano e que
me ajudarás a realizá-lo.
Petit-Claud olhou para Luciano, dando a seu nariz em pua o aspecto de
um ponto de interrogação.
— Quero salvar Séchard — disse Luciano, com certo ar de importância
—, fui causador da sua desgraça, repararei tudo... Tenho mais império sobre
Luísa...
— Quem, Luísa?
— A condessa du Châtelet!...
Petit-Claud fez um gesto.
— Tenho sobre ela mais império do que ela própria pensa — continuou
Luciano. — Apenas, meu caro, se tenho poder sobre o governo, falta-me roupa...
Petit-Claud fez outro gesto, como para lhe oferecer a bolsa.
— Obrigado — disse Luciano, apertando a mão de Petit-Claud.
— Daqui a dez dias irei fazer uma visita à senhora primeira-dama, e
pagar a tua.
Separaram-se, apertando-se as mãos como camaradas.
— Ele deve ser poeta — disse Petit-Claud com os seus botões —, pois é
louco.
“Digam o que disserem”, pensava Luciano, voltando para a casa da irmã,
“em matéria de amigos, não há como os amigos de colégio.”
— Meu Luciano — disse Eva —, que te prometeu Petit-Claud para lhe
testemunhares tanta amizade? Cuidado com ele!
— Com ele?! — exclamou Luciano. — Escuta, Eva — continuou,
parecendo obedecer a uma reflexão —, tu não acreditas mais em mim,
desconfias de mim, bem podes desconfiar de Petit-Claud; mas espera uns
dez ou quinze dias, e mudarás de opinião — acrescentou ele, com um
arzinho fátuo.
XXV – LUCIANO TOMA A SÉRIO A SUA GLÓRIA DISTRITAL
Luciano subiu para o quarto, onde escreveu a carta seguinte a Lousteau:
Meu amigo, de nós dois, só eu posso lembrar-me dos mil francos que te
emprestei: mas sei muito bem a situação em que estarás ao receber
minha carta, e assim vou logo dizendo que não tos peço em ouro ou
em prata; não, eu tos peço em crédito, como se poderiam pedir a
Florina em prazer. Temos o mesmo alfaiate; podes, pois, mandar-me
confeccionar o mais depressa possível um vestuário completo. Sem que
esteja precisamente em trajes de Adão, o fato é que não posso aparecer
a ninguém. Aqui, com grande espanto meu, esperavam-me as
honrarias distritais devidas a sumidades parisienses. Sou o herói de um
banquete, nem mais nem menos que um deputado da esquerda;
compreendes a necessidade de uma casaca preta? Promete o
pagamento, encarrega-te dele, movimenta o reclamo; inventa enfim
uma cena inédita de Dom Juan com o sr. Domingos,[411] pois é
preciso endomingar-me a todo custo. Só tenho trapos: parte daí!
Estamos em setembro, faz um tempo magnífico; ergo, trata de fazer
com que eu receba, para o fim desta semana, um belo vestuário
matinal: pequena sobrecasaca verde-bronze carregado, três coletes,
um cor de enxofre, outro de fantasia, gênero escocês, o terceiro
inteiramente branco; e mais, três calças pega-mulher, uma branca de
pano inglês, outra nanquim, a terceira de leve casimira preta; enfim,
uma casaca preta e um colete de cetim preto para a noite. Se tornaste
a encontrar uma Florina qualquer, fio-me nela para a escolha de duas
gravatas de fantasia. Isto não é nada, conto contigo, com a tua
habilidade: o alfaiate pouco me inquieta. Meu caro amigo, muitas
vezes o temos deplorado: a inteligência da miséria, sem dúvida o mais
ativo veneno que pode minar o homem por excelência, o parisiense!,
essa inteligência, cuja atividade surpreenderia a Satã, ainda não
encontrou um meio de conseguir um chapéu a crédito! Quando
pusermos em moda chapéus que valham mil francos, os chapéus serão
acessíveis; mas, até lá, deveremos ter bastante ouro no bolso para
comprar um chapéu. Ah! que mal nos fez a Comédie-Française com
aquele Lafleur, não te esqueças de pôr-me ouro nos bolsos![412]
Sinto pois profundamente todas as dificuldades da execução deste
pedido: junta-me à encomenda do alfaiate um par de botas, um par
de sapatos, um chapéu e seis pares de luvas! É pedir o impossível, bem
o sei. Mas a vida literária não é o impossível explorado com
regularidade?... Só te digo uma coisa: opera esse prodígio fazendo um
grande artigo ou alguma pequena infâmia, que te passo quitação da
tua dívida. E é uma dívida de honra, meu caro, tem doze meses de
assentamento: tu corarias com isso, se ainda pudesses corar. Mas,
deixando de brincadeira, meu caro Lousteau, acho-me em
circunstâncias graves. Avalia por isto: a Espinha engordou, é hoje
esposa do Socó, e o Socó é prefeito de Angoulême. Esse terrível par
pode fazer muito por meu cunhado, a quem pus numa situação
terrível e que está escondido e sob a ação da justiça por causa daquela
letra!... Trata-se de reaparecer aos olhos da senhora primeira-dama e
recuperar algum domínio sobre ela a qualquer preço. Não é horrível
pensar que a sorte de David Séchard depende de um lindo par de
botas, de meias abertas de seda gris (não vás esquecê-las) e de um
chapéu novo?!... Vou fingir-me de doente e indisposto, meter-me na
cama como Duvicquet[413] para dispensar-me de responder à
solicitude de meus concidadãos. Meus concidadãos me deram, meu
caro, uma bela serenata. Começo a perguntar-me quantos tolos serão
precisos para compor esta expressão: meus concidadãos, depois que
soube que o entusiasmo da capital de Angoumois fora provocado por
alguns dos meus camaradas de colégio.
Se pudessem inserir nos “fatos de Paris” algumas linhas sobre a
minha recepção, tu me farias crescer aqui em muitos saltos de botas.
Por outro lado, eu faria sentir à Espinha que tenho, senão amigos, pelo
menos alguma influência na imprensa de Paris. Como não renuncio a
nenhuma das minhas esperanças, hei de retribuir-te tudo isso. Se
precisares de um bom artigo para uma revista qualquer, tenho tempo
de sobra para o meditar. Não te digo mais que uma coisa, meu caro
amigo: conto contigo, como podes contar com aquele que se declara
teu
luciano de r.
P.S. — Manda-me tudo pela diligência, à posta-restante.
Essa carta, em que Luciano reassumia o tom de superioridade que o seu
sucesso lhe dava interiormente, lembrou-lhe Paris. Aprisionado desde seis
dias pela calma absoluta da província, seu pensamento reportou-se às suas
boas misérias, sentiu vagos pesares e ficou toda uma semana preocupado
com a condessa du Châtelet; ligou, enfim, tamanha importância ao seu
reaparecimento que, quando desceu ao Houmeau, ao cair da noite, para procurar no escritório das diligências as encomendas que esperava de Paris,
experimentava todas as angústias da incerteza, como uma mulher que
depositou suas últimas esperanças numa toilette e que desespera de a
conseguir.
— Ah! Lousteau! eu te perdoo todas as tuas traições — disse ele consigo,
ao notar pela forma dos volumes que a encomenda devia conter tudo
quanto ele pedira.
Encontrou a seguinte carta na caixa de chapéu:
Do salão de Florina,
Meu querido filho,
O alfaiate portou-se muito bem; mas, como o teu profundo golpe de
vista retrospectivo te fazia pressentir, as gravatas, o chapéu e as meias
de seda trouxeram grande transtorno a nossos corações, pois nada
havia que transtornar em nossa bolsa. É o que dizíamos com Blondet:
far-se-ia uma fortuna abrindo uma casa onde os jovens encontrassem
artigos baratos. Pois acabamos pagando muito caro o que não pagamos.
Aliás o grande Napoleão, detido no caminho das Índias por falta de
um par de botas, já o dizia: Negócios fáceis não se fazem nunca! De
modo que tudo ia às maravilhas, exceto o teu calçado... Eu via-te
vestido e sem chapéu! de colete e sem sapatos, e pensava em enviar-te
um par de mocassins, que um americano deu como curiosidade a
Florina. Florina ofereceu um maço de quarenta francos para serem
jogados em teu benefício. Nathan, Blondet e eu fomos tão felizes não
jogando mais por nossa conta que ganhamos bastante dinheiro até
para levar a cear a Torpedo,[414] a antiga amiguinha de Des
Lupeaulx. Frascati bem que nos devia isso. Florina encarregou-se das
aquisições; acrescentou três belas camisas. Nathan oferece-te uma
bengala. Blondet, que ganhou trezentos francos, envia-te uma
corrente de ouro. A Torpedo acrescentou-lhe um relógio de ouro, do
tamanho de uma moeda de quarenta francos, que um imbecil lhe deu
e que não funciona: “É pura carregação!”, disse-nos ela. Bixiou, que
veio ter conosco ao Rocher de Cancale, quis entrar com um vidro de
água-de-colônia na remessa que te faz Paris. O nosso primeiro cômico
disse: “Se isso puder fazer a sua felicidade, que assim seja!...” com essa
voz de baixo e essa importância burguesa que ele tão bem imita. Tudo
isso, meu filho, há de provar-te quanto nós gostamos de nossos amigos
na desgraça. Florina, a quem tive a fraqueza de perdoar, pede-te que
nos envies um artigo sobre a última obra de Nathan. Adeus, meu filho!
Não posso deixar de lamentar-te de haveres voltado para o buraco de
onde saías quando te fizeste um velho camarada de teu amigo
estêvão l.
“Pobres rapazes! Foram jogar por mim!”, pensou ele, comovido.
Vêm das terras insalubres, ou daquelas onde mais se sofreu, baforadas
que se assemelham aos perfumes do paraíso. Numa vida quieta, a lembrança
dos sofrimentos é como um indefinível gozo. Eva ficou estupefata quando o
irmão desceu de vestuário novo; não o reconhecia.
— Posso agora ir passear em Beaulieu — exclamou ele. — Não dirão de
mim: “Voltou em farrapos!”. Olha, aqui está um relógio que eu te darei, pois
é bem meu; e de resto se parece comigo: não regula.
— Que criança tu és!... — disse Eva. — Ninguém pode querer-te mal por
coisa alguma.
— Achas então, minha querida filha, que eu tenha mandado buscar
tudo isso com o tolo pensamento de brilhar aos olhos de Angoulême, que me
importa tanto como isto?! — disse ele, fustigando o ar com a sua bengala de
castão de ouro lavrado. — Quero reparar o mal que fiz, e cingi as minhas
armas.
O sucesso de Luciano como elegante constituiu o único sucesso real que
obteve, mas foi imenso. A inveja desata tantas línguas como a admiração as
prende. As mulheres encantaram-se dele, os homens lhe maldisseram, e ele
pôde exclamar como o cançonetista: “Ó roupa minha, quanto te agradeço!”.
Foi deixar dois cartões na prefeitura e fez igualmente uma visita a Petit-
Claud, a quem não encontrou. No dia seguinte, o do banquete, os jornais de Paris continham todos, sob a rubrica de Angoulême, as linhas seguintes:
“angoulême. A volta de um jovem poeta, cuja estreia foi tão brilhante,
autor do Arqueiro de Carlos ix, o único romance histórico escrito em França
sem imitar o gênero de Walter Scott, e cujo prefácio é um acontecimento
literário, foi assinalada por uma consagração tão lisonjeira para a cidade
como para o sr. Luciano de Rubempré. A cidade empenhou-se em oferecer-
lhe um banquete patriótico. O novo prefeito, que acaba de tomar posse,
associou-se à manifestação pública, festejando o autor das Boninas, cujo
talento foi tão vivamente animado em seus primórdios pela sra. condessa du
Châtelet.”
Em França, uma vez dado o impulso, já ninguém pode detê-lo. O
coronel do regimento de guarnição ofereceu a sua banda. O maître d’hôtel
de O Sino, cujas expedições de perus trufados vão até a China, dentro das
mais notáveis porcelanas, o famoso estalajadeiro do Houmeau encarregado
do banquete, decorara a sala de honra com panejamentos sobre os quais as
coroas de louros entremeadas com ramalhetes faziam magnífico efeito. Às
cinco horas, quarenta pessoas ali se achavam reunidas, todas com traje de
cerimônia. Uma multidão de cento e poucos habitantes, atraídos sobretudo
pela presença dos músicos no pátio, representava os concidadãos.
— Angoulême em peso está aqui! — exclamou Petit-Claud, chegando à
janela.
— Não compreendo nada — dizia Postel à mulher, que comparecera
para ouvir a música. — Como! O prefeito, o recebedor-geral, o coronel, o
diretor da fábrica de pólvora, o nosso deputado, o maire, o reitor, o diretor
da fundição de Ruelle, o juiz, o procurador do rei, o sr. Milaud, todas as
autoridades acabam de chegar!...
Ao sentarem-se à mesa, a banda militar principiou por variações sobre o
hino de Viva o rei, viva a França![415] que não conseguiu tornar-se
popular. Eram cinco da tarde. Às oito horas, uma sobremesa de sessenta e
cinco pratos, notável por um Olimpo de merengue encimado por uma
França de chocolate, deu o sinal para os brindes.
— Senhores — disse o prefeito, erguendo-se —, ao rei!... à legitimidade!
Pois não é à paz que nos deram os Bourbon que nós devemos a geração de
poetas e de pensadores que mantém nas mãos da França o cetro da literatura?!...
— Viva o rei! — gritaram os convivas, entre os quais se achavam em
maioria os ministeriais.
O venerável diretor do colégio ergueu-se.
— Ao jovem poeta — disse ele —, ao herói do dia, que soube aliar à graça
e à poesia de Petrarca, num gênero que Boileau declarava tão difícil, o
talento do prosador.
— Bravo! Bravo!
O coronel ergueu-se.
— Meus senhores, ao legitimista!, pois o herói desta festa teve a coragem
de defender os bons princípios!
— Bravo! — disse o prefeito, dando o tom aos aplausos.
Petit-Claud ergueu-se.
— Todos os colegas de Luciano, à glória do liceu de Angoulême, ao
venerável diretor que nos é tão caro e a quem devemos devolver tudo o que
lhe pertence em nossos sucessos!...
O velho diretor, que não esperava por esse brinde, enxugou os olhos.
Luciano ergueu-se: reinou o mais profundo silêncio, e o poeta tornou-se
lívido. Naquele momento, o velho diretor, que se encontrava à sua esquerda,
lhe depôs sobre a fronte uma coroa de louros. Bateram palmas. Luciano teve
lágrimas nos olhos e na voz.
— Ele está embriagado — disse a Petit-Claud o futuro procurador do rei
de Nevers.
— Não foi o vinho que o embriagou — respondeu o solicitador.
— Meus caros compatriotas, meus caros colegas — disse afinal Luciano
—, eu desejaria ter a França inteira como testemunha desta cena. É assim
que se elevam os homens e se obtêm em nossa terra as grandes obras e as
grandes ações. Mas, em vista do pouco que fiz e da grande honra que recebo,
só posso achar-me confuso e entregar ao futuro o cuidado de justificar o
acolhimento de hoje. A lembrança desse momento me dará forças no meio
de novas lutas. Permiti-me indicar às vossas homenagens aquela que foi a
minha primeira musa e a minha protetora e também erguer a taça em honra
da minha cidade natal: brindo, pois, à bela condessa Sixto du Châtelet e à
nobre cidade de Angoulême.
— Ele não se saiu mal — disse o procurador do rei, acenando
afirmativamente com a cabeça —, pois os nossos brindes foram preparados, e
o dele improvisado. Às dez horas os convivas se retiraram por grupos. David
Séchard, ao ouvir aquela música extraordinária, perguntou a Basine:
— Que se passa no Houmeau?
— Dão uma festa ao seu cunhado, Luciano...
— Estou certo de que ele deverá ter lamentado não ver-me entre os
presentes!
À meia-noite, Petit-Claud acompanhou Luciano até a Place du Mûrier.
Disse então Luciano ao solicitador:
— Agora, entre nós, meu caro, é para a vida e para a morte...
— Amanhã — disse o solicitador —, será assinado o meu contrato de
casamento, em casa da sra. de Sénonches, com a srta. Francisca de La Haye,
sua pupila; dá-me o prazer da tua presença; a sra. de Sénonches me pediu
que te levasse, e lá encontrarás a primeira-dama, que estará muito lisonjeada
com o teu brinde, pois sem dúvida lhe vão falar a respeito.
— Eu tinha cá as minhas ideias — disse Luciano.
— Oh! tu hás de salvar David.
— Tenho certeza — respondeu o poeta.
Naquele momento, David apareceu como por encanto. Eis como.
XXVI – HABILIDADES DE CÉRIZET
Achava-se David numa situação assaz difícil: a mulher lhe proibia
terminantemente receber Luciano e comunicar-lhe o local de seu
esconderijo, ao passo que Luciano lhe escrevia as cartas mais afetuosas,
dizendo que dentro em poucos dias teria reparado todo o mal que causara.
Ora, a srta. Clerget entregara a David as duas cartas seguintes, dizendo-lhe o
motivo da festa cuja música lhe chegava aos ouvidos:
Meu amigo,
Faze como se Luciano aqui não estivesse: não te preocupes com coisa
alguma, e grava em tua querida cabeça o seguinte: a nossa segurança
repousa inteiramente na impossibilidade em que estão os teus inimigos
de saber onde te encontras. Sou tão desgraçada, que tenho mais
confiança em Kolb, em Marion e em Basine do que em meu irmão.
Infelizmente, o meu Luciano já não é o cândido e terno poeta que nós
conhecemos. Precisamente por querer meter-se em teus assuntos e ter
a presunção de liquidar as nossas dívidas (por orgulho, meu David!... )
é que eu o temo. Recebeu ele de Paris belas roupas e cinco moedas de
ouro numa bonita bolsa. Colocou-as à minha disposição, e desse
dinheiro nós vivemos. Temos enfim um inimigo a menos: teu pai nos
deixou, e devemos sua partida a Petit-Claud, que destrinçou as
intenções do pai Séchard e logo as anulou, dizendo-lhe que tu não
farias mais nada sem ele, Petit-Claud; que ele não te deixaria ceder
coisa alguma da tua descoberta sem prévia indenização de trinta mil
francos: primeiro quinze mil de liquidação de contas, e mais quinze
mil que receberias em qualquer caso, de sucesso ou insucesso. Para
mim, Petit-Claud é incompreensível. Beijo-te como pode uma mulher
beijar o seu marido na desgraça. O nosso pequeno Luciano vai bem.
Que espetáculo o dessa flor que vai tomando cor e crescendo em meio
de nossas tempestades domésticas! Minha mãe, como sempre, roga a
Deus por ti e abraça-te quase tão carinhosamente como a tua
eva
Petit-Claud e os Cointet, assustados com a esperteza campônia do velho
Séchard, tinham-se descartado dele, como se vê, tanto mais que as vindimas
o chamavam às suas vinhas de Marsac.
A carta de Luciano, inclusa na de Eva, era assim concebida:
Meu caro David,
Tudo vai bem. Estou armado de ponto em branco; hoje entro em
campanha e, dentro em dois dias, já terei avançado bastante. Com que
prazer te abraçarei quando estiveres livre e quite das minhas dívidas!
Mas sinto-me profundamente magoado, e para sempre, com a
desconfiança que minha irmã e minha mãe continuam a
testemunhar-me. Como se eu já não soubesse que te ocultas em casa
de Basine! Todas as vezes em que Basine vem aqui em casa tenho
notícias tuas e resposta às minhas cartas. É aliás evidente que minha
irmã só poderia contar com a sua amiga de atelier. Hoje, estarei bem
perto de ti e cruelmente mortificado por não poder fazer com que
assistas à festa que me oferecem. O amor-próprio de Angoulême valeu-
me um pequeno triunfo que, daqui a alguns dias, estará
completamente esquecido, mas em que a tua alegria teria sido a única
sincera. Enfim, mais alguns dias, e tudo perdoarás àquele que
considera mais que todas as glórias do mundo a de ser teu irmão
luciano
David sentiu o coração vivamente atenazado por aquelas duas forças,
embora fossem desiguais: pois adorava a mulher, e sua amizade a Luciano
perdera um pouco em estima. Mas, na solidão, a força dos sentimentos
muda inteiramente. O homem solitário, e cheio de preocupações como as
que devoravam David, cede a pensamentos contra os quais encontraria
pontos de apoio no meio ordinário da vida. Assim, ao ler a carta de Luciano
entre as fanfarras daquele triunfo inesperado, sentiu-se profundamente
comovido quando viu nela expresso o desgosto com que contava. As almas
extremosas não resistem a esses pequenos choques sentimentais, que julgam
tão poderosos nas outras como em si mesmas. Não é mesmo a gota d’água
que transborda da taça cheia?... Assim, pela meia-noite, nem todas as
súplicas de Basine puderam impedir que David fosse ver Luciano.
— Ninguém passeia a estas horas pelas ruas de Angoulême — disse ele —,
não me verão, não podem prender-me de noite; e, no caso em que me
encontrem, posso servir-me do meio inventado por Kolb para voltar a meu
esconderijo. E, depois, faz tanto tempo que não beijo minha mulher e meu
filho...
Basine cedeu ante todas essas razões, assaz plausíveis, e deixou sair
David, que gritava: “Luciano!” no momento em que Luciano e Petit-Claud se despediam. E os dois irmãos lançaram-se um nos braços do outro, a
chorar.
Não há muitos momentos como esse na vida. Luciano sentia a efusão de
uma dessas amizades incondicionais, com as quais nunca se conta e que a
gente lamenta haver ludibriado. David experimentava a necessidade de
perdoar. O generoso e nobre inventor queria principalmente aconselhar
Luciano e dissipar as nuvens que velavam o afeto da irmã e do irmão. Diante
dessas considerações de sentimento, haviam desaparecido todos os perigos
engendrados pela falta de dinheiro.
Petit-Claud disse a seu cliente:
— Vá até a casa, aproveite ao menos a sua imprudência, beije sua mulher
e seu filho... e tenha cuidado que ninguém o veja!
“Que azar!”, pensou Petit-Claud, quando se viu a sós na Place du
Mûrier. “Ah! se eu tivesse aqui Cérizet...”
No momento em que o solicitador assim falava consigo mesmo ao longo
do cercado de tábua construído em torno da praça onde hoje se ergue
orgulhosamente o edifício do tribunal, ouviu baterem atrás de si numa
tábua, como quando alguém bate com o nó dos dedos numa porta.
— Aqui estou eu — disse Cérizet, cuja voz passava pela frincha de duas
pranchas mal unidas. — Vi David sair do Houmeau. Já começava a suspeitar
do lugar de seu retiro, mas agora tenho certeza, e sei onde agarrá-lo. Mas
para lhe armar a ratoeira, é necessário que eu saiba alguma coisa dos projetos
de Luciano, e o senhor acaba de fazê-los voltar a casa! Ao menos fique por
aqui sob um pretexto qualquer. Quando David e Luciano saírem, traga-os
para perto de mim; eles se julgarão a sós, e ouvirei o que disserem ao
despedir-se.
— És um diabo perfeito! — disse baixinho Petit-Claud.
— Pudera! — exclamou Cérizet —, o que não se faria para apanhar o que
me prometeram!
Petit-Claud afastou-se do cercado e foi passear pela Place du Mûrier,
contemplando as janelas do quarto onde se achava reunida a família e
pensando no seu futuro, para incutir-se coragem; pois a habilidade de
Cérizet lhe permitia desferir o último golpe. Petit-Claud era um desses
homens profundamente astutos e traiçoeiramente falsos, que nunca se deixam levar pelos engodos do presente nem pelos laços de nenhuma
amizade, depois de ter observado as mudanças do coração humano e a
estratégia dos interesses. De modo que a princípio pouco contara com
Cointet. No caso em que a manobra de seu casamento houvesse falhado sem
que ele tivesse o direito de acusar ao Cointet grande de traição, tomara as
devidas cautelas para prejudicá-lo; mas, depois do seu sucesso no palácio de
Bargeton, Petit-Claud jogava jogo franco. Sua trama, agora inútil, era
perigosa para a situação política a que aspirava. Eis as bases em que
pretendia assentar sua importância futura. Gannerac e alguns grandes
comerciantes começavam a formar no Houmeau um comitê liberal que se
ligava pelo lado comercial com os chefes da oposição. O advento do
ministério Villèle, aceito por Luís xviii moribundo, era sinal de mudança de
rumo dos oposicionistas, que, desde a morte de Napoleão, haviam
renunciado ao perigoso recurso das conspirações. O partido liberal
organizava no fundo das províncias o seu sistema de resistência legal:
esforçou-se por assenhorear-se do eleitorado, para chegar a seus fins por
intermédio da doutrinação das massas. Liberal furioso e filho do Houmeau,
Petit-Claud foi o promotor, a alma e o conselho secreto da oposição da
cidade baixa, opressa pela aristocracia da cidade alta. Foi quem primeiro deu
a perceber o perigo de deixar os Cointet se utilizarem sozinhos da imprensa
no departamento de Charente, onde a oposição devia possuir um órgão, a
fim de não ficar atrás das outras cidades.
— Dê cada um de nós quinhentos francos a Gannerac, e ele terá vinte e
poucos mil francos para comprar a tipografia Séchard, de que então seremos
donos, segurando o proprietário por um empréstimo — disse Petit-Claud.
O solicitador fez com que se adotasse essa ideia, a fim de corroborar sua
dupla posição relativamente a Cointet e Séchard, e lançou naturalmente as
vistas para um maroto da força de Cérizet para fazer dele um devotado
servidor do partido.
— Se conseguires descobrir o teu antigo patrão e entregá-lo em minhas
mãos — disse ele ao antigo chefe de oficina de Séchard —, nós te
emprestaremos vinte mil francos para comprares a sua tipografia, e
provavelmente ficarás na direção de um jornal. Mexe-te, pois.
Mais seguro da atividade de um homem como Cérizet do que da de todos os Doublon do mundo, Petit-Claud prometera então ao Cointet grande
a captura de Séchard. Mas, desde que começara a acariciar a esperança de
entrar para a magistratura, previa Petit-Claud a necessidade de voltar as
costas aos liberais. Ele tinha trabalhado de tal modo os ânimos no Houmeau
que logo se reuniram os fundos necessários para a aquisição da tipografia.
Petit-Claud resolveu deixar as coisas seguirem o seu curso natural.
“Ora!”, considerou ele. “Cérizet cometerá algum delito de imprensa, e eu
aproveitarei a ocasião para mostrar os meus talentos...”
Dirigiu-se à porta da tipografia e disse a Kolb, que estava de sentinela:
— Vai avisar a David que aproveite a ocasião para retirar-se, e tenham
cautela. Eu vou andando, que já é uma hora...
Quando Kolb deixou o portal, Marion veio substituí-lo. Luciano e David
desceram; Kolb seguia cem passos à sua frente, e Marion cem passos atrás.
Quando os dois cunhados passavam ao longo do cercado, Luciano dizia
animadamente a David:
— Meu amigo, o meu plano é de uma simplicidade extrema. Mas como
falar nisso diante de Eva, que jamais lhe compreenderia os meios? Estou
certo de que Luísa conserva no fundo do coração um desejo que eu saberei
despertar. Eu a quero unicamente para me vingar daquele imbecil do
prefeito. Se nos amarmos ainda que seja por uma semana, eu farei com que
ela peça ao ministério um auxílio de vinte mil francos para ti. Amanhã,
tornarei a ver aquela criatura no pequeno toucador onde os nossos amores
começaram, e onde, segundo Petit-Claud, nada está mudado: ali