A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 10 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo IX

 

–Boa noite, meu caro Gaston — disse Marguerite a meu companheiro —, alegro-me em vê-lo. Por que não foram ao meu camarote no Variedades? — Receava ser indiscreto. — Os amigos — Marguerite reforçou estas palavras como se quisesse fazer os que ali estavam compreender que, apesar da maneira familiar com que o acolhia, Gaston não era, e nunca havia sido, mais que um amigo —, os amigos nunca são indiscretos. — Então, permita-me apresentar-lhe M. Armand Duval! — Eu já havia autorizado Prudence a apresentá-lo. — Aliás, minha senhora — disse eu inclinando-me e conseguindo emitir alguns sons quase ininteligíveis —, já tive a honra de ser-lhe apresentado. O olhar encantador de Marguerite pareceu procurar na memória, mas não se recordou, ou simulou não se recordar. — Madame — continuei —, sou-lhe agradecido por ter esquecido aquela primeira apresentação, pois fui ridículo e devo ter-lhe parecido muito desagradável. Foi há dois anos, no Ópera Cômica. Eu estava com Ernest de… — Ah, me lembro! — disse Marguerite sorrindo. — O senhor não foi ridículo, eu é que fui irritante, como sou um pouco ainda, embora menos. O senhor me perdoou? E estendeu-me a mão, que beijei. — É verdade — ela retomou —, imagine que tenho o péssimo costume de querer embaraçar as pessoas que vejo pela primeira vez. Isso é uma grande tolice. Meu médico diz que é porque sou nervosa e estou sempre doente; acredite nele. — Mas parece estar muito bem.

— Oh! Eu estive muito doente.

— Eu sei.

— Quem lhe disse?

— Todo mundo sabia. Vim muitas vezes em busca de notícias suas, e foi com prazer que soube de sua convalescença.

— Nunca me entregaram seu cartão.

— Nunca deixei meu cartão.

— Será que era o senhor o jovem que vinha todos os dias pedir informações a meu respeito enquanto estive doente, e que nunca quis se identificar?

— Era eu.

— Então, o senhor é mais que indulgente, é generoso. Não seria o senhor, conde, que teria feito algo assim — acrescentou ela voltando-se para o conde de N…, após lançar-me um desses olhares com os quais as mulheres completam sua opinião a respeito de um homem.

— Não a conheço senão há dois meses — replicou o conde.

— E este senhor só me conhece há cinco minutos. Conde, o senhor sempre diz bobagens.

As mulheres são impiedosas com aqueles de quem não gostam.

O conde enrubesceu e mordeu os lábios.

Tive pena dele, pois parecia estar apaixonado como eu, e a dura franqueza de Marguerite devia deixá-lo muito infeliz, ainda mais na presença de dois estranhos.

— Mas tocava uma música quando entramos — eu disse então para mudar de assunto —, não poderia dar-me o prazer de tratar-me como um velho conhecido, e de continuar tocando?

— Oh! — exclamou ela, jogando-se no sofá e fazendo um sinal para que sentássemos. — Gaston conhece bem o tipo de música que toco. É bom quando estou sozinha com o conde, mas não gostaria de fazê-los suportar um sacrifício desses.

— Tem tal preferência por mim? — replicou Monsieur de N…, com um sorriso que tentava mostrar altivez e ironia.

— Engana-se ao censurar-me quanto a isso; é a única preferência que tenho.

Estava determinado que o pobre rapaz não diria mais uma palavra. Ele lançou sobre Marguerite um olhar realmente suplicante.

— Então diga-me, Prudence — continuou ela —, fez o que eu lhe havia pedido que fizesse?

— Sim.

— Muito bem, deixe para me contar mais tarde. Precisamos conversar, não vá embora antes de nos falarmos.

— Somos sem dúvida indiscretos — eu disse então —, e agora que conseguimos, ou melhor, que consegui uma segunda apresentação para fazer a primeira ser esquecida, eu e Gaston vamos nos retirar.

— De maneira nenhuma. Não é para os senhores que digo isso. Ao contrário, quero que fiquem.

O conde puxou um relógio muito elegante e olhou as horas.

— É hora de ir ao clube — disse ele.

Marguerite não disse nada.

O conde saiu de perto da lareira e foi até ela.

— Adeus, madame.

Marguerite levantou-se.

— Adeus, meu caro conde, já vai?

— Sim, receio aborrecê-la.

— Não me aborrece hoje mais do que nos outros dias. Quando o veremos?

— Quando a senhorita o permitir.

— Adeus, então.

Aquilo era cruel, você há de convir.

Felizmente, o conde tinha uma excelente educação e um ótimo caráter. Contentou-se em beijar a mão que Marguerite lhe estendia com toda indiferença, e em sair depois de despedir-se de nós.

No momento em que passava pela porta, olhou para Prudence.

Esta levantou os ombros de um jeito que significava: “O que o senhor quer? Fiz tudo o que podia fazer”.

— Nanine! — gritou Marguerite — acompanhe o conde.

Ouvimos a porta abrir e fechar.

— Finalmente se foi! — exclamou Marguerite reaparecendo. — Esse rapaz me irrita profundamente.

— Minha querida — disse Prudence —, você é realmente muito perversa com ele, logo ele que é tão bom e tão atencioso com você. Veja, mais uma vez lhe deixou sobre a lareira um relógio, que custou-lhe pelo menos mil escudos, tenho certeza.

E Mme. Duvernoy, que se aproximara da lareira, brincava com a joia da qual falava, lançando sobre ela olhares de cobiça.

— Minha cara — disse Marguerite sentando-se ao piano —, quando peso, de um lado o que ele me dá, e de outro o que ele me diz, acho que aceito suas visitas por um preço baixo.

— Esse pobre rapaz está apaixonado por você.

— Se eu tivesse que escutar todos os que estão apaixonados por mim, não teria tempo nem para jantar.

Passou os dedos pelo piano e depois, voltando-se, disse-nos:

— Querem alguma coisa? Eu tomaria um pouco de ponche.

— Eu comeria um pouco de frango — disse Prudence. — E se fôssemos cear?

— Isso mesmo, vamos sair para cear — disse Gaston.

— Não, vamos cear aqui.

Tocou a sineta. Nanine apareceu.

— Mande buscar algo para a ceia.

— O que devo pedir?

— O que quiser, mas vá agora mesmo, agora mesmo.

Nanine saiu.

— Pronto! — disse Marguerite, saltando como uma criança. — Nós vamos cear. Como aquele conde imbecil é enfadonho!

Quanto mais eu olhava para aquela mulher, mais ela me encantava. Era admiravelmente bela. Até sua magreza era graciosa.

Eu estava em estado de contemplação.

O que se passava em mim, era-me difícil explicar. Sentia-me repleto de indulgência por sua vida, repleto de admiração por sua beleza. Essa prova de desinteresse que ela dava não aceitando um homem jovem, elegante e rico, pronto a se arruinar por ela, a meus olhos desculpava todas as suas faltas passadas.

Havia naquela mulher algo como certa candura.

Via-se que ainda estava na virgindade do vício. Seu andar firme, seu porte esbelto, suas narinas rosadas e abertas, seus grandes olhos levemente cercados de azul denotavam uma dessas naturezas ardentes, que espalham a seu redor um perfume de volúpia, como certos frascos do Oriente que, por mais que estejam fechados, deixam escapar o perfume do líquido que contêm.

Enfim, fosse por sua natureza, fosse em consequência de seu estado de saúde, de tempos em tempos passavam pelos olhos daquela mulher lampejos de desejos, cuja demonstração teria sido uma revelação do Céu para aquele que ela tivesse amado. Mas os que haviam amado Marguerite não tinham mais conta, e os que ela havia amado ainda não se contavam.

Em suma, reconhecia-se naquela moça a virgem que um nada fizera cortesã, e a cortesã que um nada teria feito a mais amorosa e a mais pura virgem. Ainda havia em Marguerite orgulho e independência, dois sentimentos que, feridos, são capazes de fazer o que faz o pudor. Eu não dizia nada, minha alma parecia estar por completo em meu coração, e meu coração em meus olhos.

— Então — disse ela de repente — era o senhor que vinha saber notícias minhas quando eu estava doente?

— Sim.

— Sabe que é um belo gesto, este! Que posso fazer para agradecê-lo?

— Permitir que eu venha visitá-la de vez em quando.

— Tanto quanto quiser, das cinco às seis, das onze à meia-noite. Pois então, Gaston, toque para mim Convite à valsa.

— Por quê?

— Primeiro para me agradar, depois porque não consigo tocá-la sozinha.

— O que a impede?

— A terceira parte, a passagem em sustenido.

Gaston levantou-se, sentou-se ao piano e começou a tocar essa maravilhosa melodia de Weber, cuja partitura estava aberta sobre o apoio do piano.

Marguerite, a mão apoiada sobre o piano, olhava a partitura, seguia com os olhos cada nota que repetia em voz baixa e, quando Gaston chegou à passagem que ela lhe indicara, cantarolou fazendo os dedos tocarem na tampa do piano:

— Ré, mi, ré, do, ré, fá, mi, ré, é isso que não consigo fazer. Recomece.

Gaston recomeçou, e em seguida Marguerite lhe disse:

— Agora deixe-me tentar.

Tomou o lugar de Gaston e foi sua vez de tocar. Mas seus dedos rebeldes sempre se enganavam em uma das notas que acabo de mencionar.

— É inacreditável — disse ela com uma verdadeira entonação infantil — que eu não consiga tocar essa passagem! Acreditam que às vezes fico tentando até as duas da manhã?

E quando penso que aquele imbecil do conde a toca sem partitura, e admiravelmente, acho que é isso que me deixa furiosa com ele.

E recomeçou, sempre com os mesmos resultados.

— Que o diabo carregue Weber, a música e os pianos! — disse ela arremessando a partitura à outra extremidade da sala. — Como entender que eu não seja capaz de fazer oito sustenidos em seguida?

Cruzou os braços olhando para nós e batendo o pé.

O sangue subiu-lhe às faces, e uma leve tosse entreabriu seus lábios.

— Chega, chega — disse Prudence, que havia tirado o chapéu e esticava suas faixas de cabelo diante do espelho —, vai irritar-se outra vez e passar mal. Melhor cearmos, vamos, estou morrendo de fome.

Marguerite tocou novamente a sineta. Retornou ao piano e começou a cantarolar uma canção libertina, cujo acompanhamento não lhe causou dificuldades.

Gaston conhecia a canção, e os dois fizeram uma espécie de dueto.

— Não cante essas obscenidades — eu disse a Marguerite, com familiaridade, mas em tom de súplica.

— Oh, como o senhor é casto! — disse-me ela sorrindo e estendendo-me a mão.

— Não é por mim, é pela senhora.

Marguerite fez um gesto que queria dizer: “Oh! Há muito tempo não sei o que é castidade”.

Nesse momento Nanine apareceu.

— A ceia está pronta? — perguntou Marguerite.

— Sim, senhora, em um instante.

— A propósito, Prudence disse-me que o senhor não viu o apartamento. Venha, vou mostrá-lo.

Como sabe, a sala era uma maravilha.

Marguerite nos acompanhou um pouco, depois chamou Gaston e foi com ele à sala de jantar para ver se a ceia estava pronta.

— Veja só! — disse Prudence bem alto, olhando para uma estante e tirando dali uma escultura de Saxe. — Eu não conhecia este homenzinho!

— Qual? — perguntou Marguerite.

— Um pastorzinho que segura uma gaiola com um pássaro.

— Fique com ele, se lhe agrada.

— Ah, mas não quero que se prive dele!

— Queria dá-lo à minha camareira, pois o acho medonho. Mas já que gostou, fique com ele.

Prudence importou-se apenas com o presente e não com a maneira como lhe era oferecido. Colocou seu homenzinho de lado e levou-me ao quarto de vestir. Ali, mostrando-me dois retratos semelhantes, disse-me:

— Aqui está o conde de G…, que foi muito apaixonado por Marguerite. Foi ele quem a iniciou. Conhece-o?

— Não. E este aqui? — perguntei, mostrando o outro retrato.

— É o pequeno visconde de L… Ele foi obrigado a partir.

— Por quê?

— Porque estava quase arruinado. Aí está um homem que amava Marguerite!

— E ela, sem dúvida o amava muito?

— É uma moça tão estranha, nunca se sabe o que pensar. Na noite do dia em que ele partiu, ela estava no espetáculo, como sempre, mas havia chorado no momento de sua partida.

Naquele instante, Nanine apareceu, dizendo que a ceia estava servida.

Quando entramos na sala de jantar, Marguerite estava apoiada na parede, Gaston segurava suas mãos e falava-lhe bem baixinho.

— Está louco — respondia-lhe Marguerite —, não quero nada com você. Não é depois de dois anos que se conhece uma mulher como eu que se vem pedir para ser seu amante. Nós, ou nos entregamos imediatamente, ou nunca mais. Vamos, senhores, para a mesa.

E, escapando das mãos de Gaston, Marguerite o fez sentar à sua direita e a mim à sua esquerda. Depois disse a Nanine:

— Antes de sentar, recomende à cozinha não abrir para ninguém, caso venham bater à porta.

Essa recomendação era feita à uma hora da manhã.

Rimos, bebemos e comemos muito durante a ceia. Em pouco tempo, a alegria chegara aos mais baixos limites, e aquelas palavras que em certo meio acham divertidas, mas que sempre sujam a boca de quem as pronuncia, irrompiam de tempos em tempos, sob a aclamação de Nanine, de Prudence e de Marguerite. Gaston divertia-se verdadeiramente. Era um jovem de grande coração, mas seu espírito fora um pouco corrompido pelas primeiras experiências. Por um momento, quis me deixar levar, quis tornar meu coração e meu pensamento indiferentes ao espetáculo que eu presenciava, e tomar parte naquela alegria que parecia um dos pratos da refeição, mas, pouco a pouco, isolei-me daquela algazarra, meu copo continuava cheio, e eu ficara quase triste vendo aquela bela criatura de vinte anos beber, falar como um estivador e rir ainda mais quanto mais escandaloso fosse o que se dizia.

No entanto, aquele regozijo, aquele modo de falar e de beber que, nos outros convivas, pareciam-me os resultados da devassidão, do hábito ou da força, em Marguerite me pareciam uma necessidade de esquecer, uma febre, uma irritabilidade nervosa. A cada copo de champanhe, suas faces se cobriam de um vermelho febril, e uma tosse, leve, no princípio da ceia, tornou-se aos poucos forte o bastante para obrigá-la a apoiar a cabeça no espaldar de sua cadeira, e a comprimir o peito com as mãos a cada vez que tossia.

Eu sofria com o mal que deviam causar àquele frágil organismo tais excessos de todo dia.

Finalmente, aconteceu algo que eu previra e que eu temia. Ao final da ceia, Marguerite teve um acesso de tosse mais forte do que todos os outros que ela tivera desde que eu me encontrava ali. Pareceu-me que seu peito se rasgava interiormente. A pobre moça ficou roxa, fechou os olhos, tamanha era a dor, e levou à boca seu guardanapo, que uma gota de sangue manchou de vermelho. Então, levantou-se e correu até o banheiro.

— O que há com Marguerite? — perguntou Gaston.

— O que há é que ela riu demais e está cuspindo sangue — disse Prudence. — Oh! Mas não há de ser nada, isso lhe acontece todos os dias. Ela vai ficar bem. Vamos deixá-la só, ela prefere assim.

Quanto a mim, não consegui me conter, e para grande espanto de Prudence e de Nanine, que me chamavam de volta, fui atrás de Marguerite.