A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 11 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo X

 

Oquarto onde ela se refugiara estava iluminado apenas por uma vela colocada sobre a mesa. Jogada sobre um grande sofá, vestido desalinhado, ela mantinha uma das mãos sobre o peito enquanto a outra pendia. Sobre a mesa havia uma bacia de prata com água até a metade; nessa água viam-se filetes de sangue. Marguerite, muito pálida, tinha a boca entreaberta, e tentava recuperar o fôlego. Por instantes, seu peito se enchia com um longo suspiro que, exalado, parecia aliviá-la um pouco, deixando-a por alguns segundos com uma sensação de bem-estar. Aproximei-me, ela não fez nenhum movimento, sentei-me e tomei sua mão que pendia sobre o sofá. — Ah! É o senhor? — disse-me com um sorriso. Parece que eu tinha a fisionomia perturbada, pois ela acrescentou: — Também está doente? — Não, mas, e a senhora, ainda se sente mal? — Um pouco — e enxugou com o lencinho as lágrimas que a tosse fizera brotar em seus olhos —, agora estou habituada a isso. — Está se matando, senhora — disse-lhe eu com a voz embargada. — Gostaria de ser seu amigo, seu parente, para impedi-la de fazer-se tanto mal. — Ah! Não vale a pena se alarmar com isso — replicou em tom amargo. — Veja se os outros se preocupam comigo, eles sabem que não há nada a fazer em relação a esse mal. Depois disso, levantou-se, pegou a vela, colocou-a sobre a lareira e olhou-se no espelho. — Como estou pálida! — disse ajeitando o vestido e passando os dedos pelos cabelos desalinhados. — Ah! Vamos voltar para a mesa. O senhor não vem?

Mas eu estava sentado e não me mexia.

Ela percebeu que aquela cena me comovera, pois se aproximou de mim e, estendendo a mão, disse-me:

— Pronto, venha.

Tomei sua mão e levei-a aos lábios, molhando-a sem querer com duas lágrimas há muito contidas.

— Ora, como está sendo infantil! — disse ela, tornando a sentar-se ao meu lado. — Está chorando! O que acontece?

— Devo parecer-lhe bem tolo, mas o que acabo de ver fez-me um mal terrível.

— Não me diga! O que queria? Não consigo dormir, preciso me distrair um pouco. Além disso, moças como eu, uma a mais, uma a menos, que diferença faz? Os médicos me dizem que o sangue que eu cuspo vem dos brônquios. Finjo acreditar, é tudo o que posso fazer por eles.

— Escute, Marguerite — eu disse então com uma emoção que não pude conter —, não sei que poder exerce sobre a minha vida, mas o que sei é que, neste momento, não há ninguém, nem mesmo minha irmã, por quem eu me interesse como me interesso pela senhora. Tem sido assim desde que a vi. Então, em nome dos céus, cuide-se, não viva mais como o vem fazendo.

— Se eu me cuidasse, eu morreria. O que me mantém é a vida febril que levo. Depois, cuidar-se é bom para as damas da sociedade, que têm uma família e amigos. Mas nós, desde que não possamos mais servir à vaidade ou ao prazer dos nossos amantes, eles nos abandonam, e as longas noites se sucedem aos longos dias. Sei disso muito bem, ora, passei dois meses de cama, e ao final de três semanas ninguém mais vinha me visitar.

— É verdade que não represento nada — continuei —, mas, se quiser, cuidarei da senhora como um irmão, não me afastarei, haverei de curá-la. Depois, quando recuperar as forças, poderá retomar a vida que levava, se assim lhe aprouver. Mas tenho certeza de que preferiria uma existência tranquila, que a faria mais feliz e a conservaria bela.

— Pensa assim esta noite, porque a bebida o deixou triste, mas depois não teria a paciência da qual se vangloria.

— Permita-me dizer-lhe, Marguerite, que esteve doente por dois meses, e que, nesses dois meses, eu vim todos os dias saber notícias suas.

— É verdade, mas por que não entrava?

— Porque não a conhecia.

— Será que alguém pode se constranger em relação a uma moça como eu?

— Sempre há constrangimento em relação a uma mulher; pelo menos é como penso.

— Então, cuidaria de mim?

— Sim.

— Ficaria todos os dias ao meu lado?

— Sim.

— E também todas as noites?

— Por todo o tempo em que eu não lhe causasse tédio.

— Como chama a isso?

— Devoção.

— E de onde vem essa devoção?

— De uma irresistível simpatia que lhe tenho.

— Está apaixonado por mim? Diga logo, é bem mais simples.

— É possível. Mas se um dia tiver que lhe dizer isso, esse dia não é hoje.

— Melhor faria se não o dissesse nunca.

— Por quê?

— Porque apenas duas coisas podem resultar dessa confissão.

— Quais?

— Ou que eu não o aceite, e então me detestaria, ou que eu o aceite, e então teria uma lamentável amante. Uma mulher nervosa, doente, triste, ou alegre, de uma alegria mais triste que a amargura, uma mulher que cospe sangue e que gasta cem mil francos por ano. Isso é bom para um velho ricaço como o duque, mas bem enfadonho para um rapaz como o senhor, e a prova é que todos os jovens amantes que eu tive rapidamente me deixaram.

Eu não respondia nada, apenas escutava. Aquela franqueza, que era quase uma confissão, aquela vida dolorosa que eu entrevia sob o véu dourado que a cobria, e de cuja realidade a pobre moça fugia por meio da devassidão, da embriagues e da insônia, tudo aquilo me impressionava de tal forma que eu não encontrava sequer uma palavra.

— Vamos — continuou Marguerite —, estamos dizendo ingenuidades. Dê-me a mão e voltemos à sala de jantar. Não devem estar entendendo o que nossa ausência significa.

— Volte, se achar melhor, mas peço permissão para ficar aqui.

— Por quê?

— Porque sua alegria me faz muito mal.

— Muito bem, ficarei triste.

— Escute, Marguerite, deixe-me dizer-lhe uma coisa que sem dúvida já lhe disseram muitas vezes, e que o costume de ouvi-la talvez a impeça de acreditar, mas que nem por isso é menos verdadeira, e que jamais tornarei a repetir.

— Que é…? — disse ela com o sorriso típico de uma jovem mãe prestes a ouvir uma tolice de seu filho.

— É que, desde que a vi, não sei como nem por que, ocupa um importante espaço em minha vida. É que, por mais que eu afastasse sua imagem do meu pensamento, ela sempre estava de volta. É que, hoje, quando a reencontrei após dois anos sem vê-la, um fascínio maior ainda se apoderou do meu coração e da minha mente. É que, enfim, agora que me recebeu, que a conheço, que sei tudo o que há de estranho em seu ser, tornou-se indispensável para mim, e enlouquecerei, não só se não me amar, mas se não deixar que eu a ame.

— Mas, como você é infeliz! Vou lhe dizer o que dizia madame D…: então o senhor deve ser muito rico! Ou não sabe que gasto seis ou sete mil francos por mês, e que essa despesa tornou-se necessária à minha vida. Ou não sabe, meu pobre amigo, que o levarei à ruína em pouquíssimo tempo, e que sua família mandaria excomungá-lo como lição por viver com uma criatura como eu? Se quer me amar, que seja como um bom amigo, e não de outra maneira. Venha visitar-me, nós riremos, conversaremos, mas não exagere o meu valor, pois não valho grande coisa. Tem um bom coração, precisa ser amado, é jovem demais e sensível demais para viver neste nosso meio. Arrume uma mulher casada. Entenda que estou sendo uma boa moça e que lhe falo com franqueza.

— Ora essa! Que diabos fazem aí? — gritou Prudence, que não ouvíramos chegar, e que apareceu na porta do quarto com os cabelos um tanto desarrumados e o vestido aberto.

Eu reconhecia naquela desordem a mão de Gaston.

— Tentamos entrar em acordo — disse Marguerite —, esperem um pouco, logo nos juntaremos a vocês.

— Muito bem, muito bem, conversem, crianças — disse Prudence saindo e fechando a porta, como que para enfatizar o tom com que pronunciara essas últimas palavras.

— Então, está combinado — continuou Marguerite quando ficamos a sós —, vai parar de me amar.

— Terei de partir.

— Chega a esse ponto?

Eu já tinha ido longe demais para recuar, e, além disso, aquela moça me transtornava. Aquela mistura de alegria, de tristeza, de candura, de prostituição, a própria doença, que devia despertar nela tanto a sensibilidade emotiva quanto a irritabilidade dos nervos, tudo me fazia entender que, se desde a primeira vez eu não dominasse aquela natureza negligente e leviana, ela estaria perdida para mim.

— Mas então é sério o que está dizendo! — disse ela.

— Muito sério.

— E por que não me disse isso antes?

— Quando deveria ter-lhe dito?

— No dia seguinte ao que me foi apresentado no Ópera Cômica.

— Acredito que teria me recebido muito mal se eu a tivesse procurado.

— Por quê?

— Porque eu tinha sido muito estúpido na véspera.

— Isso é verdade. No entanto, já me amava naquela época.

— Sim.

— O que não o impediu de deitar e dormir tranquilamente após o espetáculo. Nós conhecemos bem esses grandes amores.

— Aí é que se engana. Sabe o que fiz na noite do Ópera Cômica?

— Não.

— Eu a esperei à porta do Café Anglais. Segui a carruagem que tomaram, a senhora e seus três amigos, e quando vi que descia sozinha e entrava em casa sozinha, fiquei muito feliz.

Marguerite começou a rir.

— De que está rindo?

— De nada.

— Diga, eu imploro, senão vou pensar que zomba outra vez de mim.

— Não vai se aborrecer?

— Com que direito me aborreceria?

— Bem, havia uma boa razão para que eu entrasse em casa sozinha.

— Qual?

— Alguém me esperava aqui.

Nem que me tivesse apunhalado poderia ter-me causado mal maior. Levantei-me e, estendendo-lhe a mão, disse-lhe:

— Adeus.

— Sabia que isso o aborreceria — disse ela. — Os homens têm a mania de querer saber a respeito do que pode magoá-los.

— Asseguro — acrescentei num tom frio, como se quisesse provar que estava curado para sempre da minha paixão —, eu lhe asseguro que não me aborreci. Era muito natural que alguém a esperasse, como é bem natural que eu vá embora às três horas da manhã.

— Será que também tem alguém que o espera em casa?

— Não, mas preciso ir.

— Adeus, então.

— Está me mandando embora.

— De maneira nenhuma.

— Por que me magoa?

— Que mágoa lhe causei?

— Disse que alguém a esperava.

— Não pude deixar de rir com a ideia de o senhor ter ficado tão feliz por me ver entrar em casa sozinha, sendo que havia uma ótima razão para isso.

— Em uma infantilidade muitas vezes encontramos uma alegria, e é maldade destruir essa alegria quando, permitindo que subsista, pode-se deixar mais alegre ainda aquele que a encontrou.

— Mas, com quem acredita estar lidando? Não sou nem uma virgem nem uma duquesa. Não o conhecia antes de hoje, e não tenho que prestar-lhe contas das minhas ações. Admitindo-se que um dia eu me torne sua amante, precisa ter consciência de que tive outros amantes. Se já me faz cenas de ciúme antes, como será depois, se é que existirá um depois! Nunca vi um homem assim.

— É que ninguém jamais a amou como eu a amo.

— Vejamos, francamente, então me ama muito?

— Tanto quanto é possível amar, creio.

— E isso acontece desde…?

— Desde um dia em que a vi descer de uma caleche e entrar na Susse, há três anos.

— Sabe que isso é muito bonito? Bem, o que devo fazer para reconhecer esse grande amor?

— Deve me amar um pouco — disse eu, com o coração batendo tão forte que mal podia falar.

Apesar dos sorrisos meio zombeteiros com os quais ela acompanhara toda aquela conversa, parecia-me que Marguerite começava a compartilhar minhas emoções, e que eu me aproximava do momento há tanto esperado.

— E o duque?

— Que duque?

— Meu velho ciumento.

— Não saberá de nada.

— E se ficar sabendo?

— Irá perdoá-la.

— Não! Irá me abandonar, e aí o que será de mim?

— Já se arrisca a ser abandonada por causa de um outro.

— Como sabe?

— Pela recomendação que fez, de não deixarem mais ninguém entrar esta noite.

— É verdade, mas esse é mesmo um amigo.

— Pelo qual não tem consideração, já que lhe fecha a porta a uma hora destas.

— Não lhe cabe censurar-me, uma vez que foi para recebê-los, ao senhor e ao seu amigo.

Aos poucos me havia aproximado de Marguerite, passara minhas mãos em torno de sua cintura e sentia seu corpo delgado pesar levemente sobre minhas mãos juntas.

— Se soubesse o quanto a amo! — eu lhe dizia baixinho.

— É verdade?

— Juro.

— Pois bem, se me prometer fazer todas as minhas vontades sem dizer nada, sem fazer observação alguma, sem me questionar, talvez possa amá-lo.

— Tudo o que quiser!

— Mas já o previno, quero ser livre para fazer o que bem entender, sem lhe dar a menor satisfação sobre minha vida. Há muito tempo procuro um amante jovem, sem reivindicações, apaixonado sem desconfiança, amado sem direitos. Nunca consegui encontrar nenhum. Os homens, ao invés de ficarem satisfeitos quando lhes concedemos por muito tempo o que sequer teriam esperado obter uma vez, pedem à sua amante satisfação do presente, do passado e até do futuro. À medida que se habituam a ela, querem dominá-la, e se tornam tanto mais exigentes quanto mais recebem tudo o que querem. Se me decidir a ter um novo amante agora, quero que tenha três qualidades bem raras: que seja confiante, submisso e discreto.

— Pois então, serei tudo o que quiser.

— Veremos.

— E quando veremos?

— Mais tarde.

— Por quê?

— Porque — disse Marguerite soltando-se dos meus braços, e retirando de um grande buquê de camélias vermelhas trazidas pela manhã, uma camélia que ela colocou em minha lapela —, porque nem sempre se pode cumprir os tratados no dia em que são assinados.

Era fácil de entender.

— E quando tornarei a vê-la? — perguntei pressionando-a em meus braços.

— Quando esta camélia mudar de cor.

— E quando ela mudará de cor?

— Amanhã, das onze horas à meia-noite. Está contente?

— Ainda me pergunta!

— Nem uma palavra de tudo isso nem a seu amigo, nem a Prudence, nem a quem quer que seja.

— Eu lhe prometo.

— Agora me beije, e voltemos à sala de jantar.

Ofereceu-me seus lábios, ajeitou novamente os cabelos, e saímos do quarto, ela cantando, eu um tanto alucinado.

Na sala, parou e disse-me baixinho:

— Deve parecer-lhe estranho que eu tenha demonstrado estar pronta a aceitá-lo assim imediatamente. Sabe de onde vem isso? Vem — continuou ela, pegando minha mão e pousando-a sobre seu coração, do qual pude sentir as violentas e repetidas palpitações —, isso vem de que, devendo viver menos que os outros, prometi a mim mesma viver mais rapidamente.

— Não fale assim, eu lhe suplico.

— Oh! Console-se — continuou ela rindo. — Por menor que seja o tempo que me resta viver, viverei por mais tempo do que irá me amar.

Entrou cantando na sala de jantar.

— Onde está Nanine? — disse ao ver Gaston e Prudence a sós.

— Está dormindo no seu quarto, esperando que você se deite — respondeu Prudence.

— Coitada! Vou matá-la. Vamos, senhores, retirem-se, já é tempo.

Dez minutos depois, Gaston e eu saíamos. Marguerite apertou-me a mão dizendo adeus, e ficou com Prudence.

— E então? — perguntou-me Gaston quando já estávamos fora. — O que diz de Marguerite?

— É um anjo, e sou louco por ela.

— Eu desconfiava. Disse isso a ela?

— Sim.

— E ela prometeu acreditar em você?

— Não.

— Diferente de Prudence.

— Ela prometeu?

— Fez melhor, meu caro! Ninguém diria, mas ainda está muito bem essa gorda Duvernoy!