A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 4 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo III

 

No dia 16, à uma hora, dirigi-me à Rua d’Antin. Do portão ouviam-se os oficiais leiloeiros gritando. O apartamento estava repleto de curiosos. Ali estavam todas as celebridades do vício elegante, sorrateiramente examinadas por algumas grandes damas, que mais uma vez usavam o pretexto da venda para poder ver de perto mulheres com quem jamais teriam oportunidade de se encontrar, e de quem talvez invejassem em segredo os prazeres fáceis. Mme. duquesa de F… se acotovelava com Mlle. A…, um dos mais tristes exemplos de nossas cortesãs modernas; Mme. marquesa de T… hesitava em comprar um móvel para o qual também dava seu lance Mme. D…, a mulher adúltera mais elegante e mais conhecida da nossa época; o duque d’Y…, que em Madri passa por arruinado em Paris e em Paris passa por arruinado em Madri, e que, afinal de contas, não gasta sequer o que tem de renda, conversando com Mme. M…, uma das nossas mais espirituosas narradoras, que, de tempos em tempos, escreve o que diz e assina o que escreve, trocava olhares confidenciais com Mme. de N…, essa bela frequentadora de Champs-Élysées, quase sempre vestida de rosa ou azul e cuja carruagem é puxada por dois grandes cavalos negros, que Tony [1] lhe vendeu por dez mil francos e… que ela pagou; enfim, Mlle. R…, que apenas com seu talento consegue o dobro do que as mulheres da sociedade conseguem com seu dote, e o triplo do que as outras conseguem com seus amantes, que viera, apesar do frio, fazer algumas compras, e não era para ela que menos se olhava. Poderíamos ainda citar as iniciais de muitas das pessoas reunidas naquele salão, e bem surpresas por se verem juntas, mas ficaríamos com receio de cansar o leitor.

Digamos somente que todo mundo era de uma alegria louca, e que, entre todas aquelas que ali se encontravam, muitas haviam conhecido a falecida, mas não pareciam lembrar-se disso.

Ria-se alto. Os oficiais leiloeiros gritavam a todo pulmão. Os comerciantes, que haviam invadido os bancos dispostos diante das mesas de venda, tentavam em vão impor silêncio para fazer seus negócios tranquilamente. Nunca uma reunião foi mais variada, mais turbulenta.

Infiltrei-me humildemente no meio daquele triste tumulto, imaginando que havia lugar perto do quarto onde expirara a pobre criatura, de quem se vendiam os móveis para pagar as dívidas. Estando ali mais para observar do que para comprar, eu olhava para os negociantes que organizavam a venda, e suas feições se alegravam cada vez que um objeto alcançava um preço pelo qual não haviam esperado.

Gente honesta que havia especulado sobre a prostituição daquela mulher, que havia lucrado cem por cento em cima dela, que havia perseguido com cobranças os últimos momentos de sua vida, e que, após sua morte, vinha recolher os frutos de seus honrosos cálculos (ao mesmo tempo que os juros de seu crédito vergonhoso).

Quanta razão tinham os antigos que não viam senão um Deus para os negociantes e para os ladrões!

Vestidos, caxemiras, joias eram vendidas com uma rapidez inacreditável. Nada daquilo me convinha, e eu continuava esperando.

De repente, ouvi gritarem:

— Um volume lindamente encadernado, dorso dourado, intitulado

Manon Lescaut.[2]

— Há alguma coisa escrita na primeira página. Dez francos.

— Doze — disse uma voz depois de um longo silêncio.

— Quinze — disse eu.

Por quê? Não faço ideia. Provavelmente pelo “alguma coisa escrita”.

— Quinze — repetiu o leiloeiro.

— Trinta — disse o primeiro interessado, num tom que parecia desafiar que se oferecesse mais.

Aquilo se transformava numa luta.

— Trinta e cinco! — gritei no mesmo tom.

— Quarenta.

— Cinquenta.

— Sessenta.

— Cem.

Confesso que, se eu quisesse impressionar, meu êxito teria sido completo, pois, com esse lance, fez-se um grande silêncio, e olharam em minha direção para saber quem era o senhor que parecia tão decidido a possuir aquele volume.

O acento dado à minha última palavra parece ter convencido meu antagonista. Ele preferiu, portanto, abandonar um combate que não serviu a outra coisa que me fazer pagar dez vezes o valor do tal volume, e, inclinando-se, disse-me muito amavelmente, embora um pouco tarde:

— Eu desisto, meu senhor.

Como ninguém mais se manifestou, o livro me foi vendido.

Como eu temia um novo embate, que meu amor-próprio talvez tivesse sustentado, mas com o qual meu bolso certamente ficaria péssimo, pedi para colocarem meu nome, deixarem o volume de lado, e então desci. Devo ter dado muito o que pensar às pessoas que, testemunhas daquela cena, sem dúvida se perguntavam com que propósito eu pagara cem francos por um livro que eu poderia obter, em qualquer lugar, por no máximo dez ou quinze francos.

Uma hora mais tarde mandei buscar minha aquisição.

Na primeira página fora escrita a pena, e com uma caligrafia elegante, a dedicatória do donatário desse livro. Essa dedicatória continha apenas estas palavras:

 

Manon a Marguerite,

Humildade.

 

Estava assinada: Armand Duval.

Que queria dizer esta palavra: humildade?

Que Manon reconhecia em Marguerite, na opinião desse senhor Armand Duval, uma superioridade em termos de devassidão ou de coração?

A segunda interpretação era a mais verossímil, pois a primeira não teria passado de uma franqueza impertinente, que Marguerite não teria aceitado, apesar do juízo que fazia de si mesma.

Saí novamente e não me ocupei mais do livro senão à noite, quando me deitei.

Manon Lescaut é mesmo uma história tocante, da qual nem um só detalhe me é desconhecido, no entanto, quando esse livro está em minhas mãos, a simpatia que tenho por ele sempre me atrai, eu o abro e, pela centésima vez, me animo com a heroína do abade Prévost. Ora, essa heroína é de tal forma verdadeira que me parece tê-la conhecido. Nas atuais circunstâncias, o tipo de comparação feita entre ela e Marguerite trazia um atrativo inesperado a essa leitura, e minha benevolência se acrescia de piedade, quase de amor, pela pobre jovem a cuja herança eu devia esse volume.

Manon morrera num deserto, é verdade, mas nos braços do homem que a amava com todas as forças da alma, que, morta, cavou-lhe uma sepultura, que ele regou com suas lágrimas e onde enterrou seu coração. Enquanto que Marguerite, pecadora como Manon, e talvez convertida igual a ela, morrera em meio a um luxo suntuoso, se é possível acreditar no que eu vira, no leito de seu passado, mas também em meio a esse deserto do coração, muito mais árido, muito mais vasto, muito mais impiedoso do que aquele em que Manon fora enterrada.

De fato, como assim fui inteirado por alguns amigos que conheciam as últimas circunstâncias de sua vida, Marguerite não vira sentar-se à sua cabeceira ninguém que lhe desse um conforto real durante os dois meses que sua lenta e dolorosa agonia durou.

Depois de Manon e de Marguerite, meu pensamento se voltava àquelas que eu conhecia e que eu via se encaminharem, cantando, em direção a uma morte quase sempre invariável.

Pobres criaturas! Se é um erro amá-las, bem menos errado é lamentá-las. Lamentamos pelo cego que jamais viu a luz do dia, pelo surdo que jamais ouviu os acordes da natureza, pelo mudo que jamais pôde emitir a voz de sua alma, porém, sob um falso pretexto de pudor, não queremos lamentar a cegueira do coração, a surdez da alma, o mutismo da consciência que tornam louca a triste infeliz, fazendo, contra sua vontade, que seja incapaz de ver o bem, de ouvir o Senhor e de falar a língua pura do amor e da fé.

Hugo criou Marion Delorme, Musset criou Bernerette, Alexandre

Dumas criou Fernande,[3] os pensadores e os poetas de todos os tempos levaram à cortesã a oferenda de sua misericórdia, e, algumas vezes, um grande homem as reabilitou com seu amor e até mesmo com seu nome. Se insisto nesse ponto é porque, entre aqueles que irão me ler, muitos talvez já estejam prestes a rejeitar este livro, no qual receiam não ver mais que uma apologia ao vício e à prostituição, e a idade do autor sem dúvida contribui para motivar esse receio. Que aqueles que assim pensam não se enganem, e continuem, se apenas este receio os retém.

Muito simplesmente estou convencido do seguinte princípio: para as mulheres a quem a educação não ensinou o bem, Deus quase sempre abre duas sendas que levam a ele; essas sendas são o sofrimento e o amor. São difíceis, e quem nelas se embrenham ensanguentam os pés, ferem as mãos, mas ao mesmo tempo deixam nos espinheiros do percurso os ornamentos do vício, e chegam ao fim com aquela nudez que não causa rubor diante do Senhor.

Aqueles que encontram essas viajantes audaciosas devem dar-lhes apoio e dizer a todos que as encontraram, pois, tornando público esse fato, eles mostram o caminho.

Não se trata simplesmente de colocar duas colunas na entrada da vida, uma delas sustentando esta inscrição: Caminho do bem, e a outra este aviso: Caminho do mal, e de dizer aos que se apresentam: “Escolham”. É preciso, como o Cristo, mostrar os caminhos que conduzem da segunda via à primeira para aqueles que se deixaram tentar pelos desvios e, principalmente, é preciso que o início desses caminhos não seja demasiado doloroso, nem pareça demasiado impenetrável.

O cristianismo aí está com sua maravilhosa parábola do filho pródigo para nos aconselhar a indulgência e o perdão. Jesus estava cheio de amor por essas almas feridas pelas paixões humanas, e gostava de tratar-lhes os ferimentos retirando desses próprios ferimentos o bálsamo que iria curá-los. Assim, ele dizia a Madalena: “Muito te será perdoado porque muito amaste”, sublime perdão que devia despertar uma fé sublime.

Por que nos faríamos mais rígidos do que o Cristo? Por que, nos apegando obstinadamente às opiniões deste mundo, que se faz duro para que o julguemos forte, rejeitaríamos, juntamente com ele, almas que muitas vezes sangram em feridas por onde escorre o mal de seu passado, como o sangue ruim de um doente, não esperando nada além da mão amiga que venha tratá-las e trazer-lhes a convalescença do coração?

É à minha geração que me dirijo, àqueles para quem as teorias do senhor Voltaire felizmente não existem mais, àqueles que, como eu, compreendem que a humanidade vem passando, há quinze anos, por um de seus mais audaciosos impulsos. A ciência do bem e do mal está para sempre conquistada. A fé se reconstrói, o respeito pelas coisas santas nos é devolvido, e se o mundo não se apresenta completamente bom, ao menos se apresenta melhor. Os esforços de todos os homens inteligentes tendem ao mesmo objetivo, e todas as grandes intenções se atrelam ao mesmo princípio: sejamos bons, sejamos jovens, sejamos verdadeiros! O mal não passa de uma vaidade, tenhamos orgulho do bem e, sobretudo, não nos desesperemos. Não desprezemos a mulher que não é mãe, nem filha, nem esposa. Não limitemos a estima à família, nem a indulgência ao egoísmo. Visto que o céu se contenta mais pelo arrependimento de um pecador do que por cem justos que nunca pecaram, procuremos alegrar o céu. Ele pode nos recompensar com juros. Deixemos no nosso caminho a oferenda do nosso perdão aos perdidos pelos desejos terrestres, a quem uma esperança divina talvez salvará, e, como dizem as boas velhinhas quando recomendam um remédio caseiro, se bem não fizer, mal não há de fazer.

Certamente, deve parecer bem pretensioso de minha parte querer extrair estes grandes resultados do pequeno assunto que trato. Mas sou daqueles que acreditam que o muito está no pouco. A criança é pequena, mas encerra o homem; o cérebro é estreito, mas abriga o pensamento; o olho não passa de um ponto, mas abrange léguas.