A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 12 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo XI

 

Nesse ponto de seu relato, Armand parou. — Poderia fechar a janela? — disse-me. — Começo a sentir frio. Enquanto isso vou me deitar. Fechei a janela. Armand, que estava muito fraco ainda, tirou o roupão e pôs-se na cama, deixando por alguns instantes a cabeça repousar sobre o travesseiro, como um homem que estivesse cansado de uma longa corrida ou agitado por penosas lembranças. — Talvez tenha falado demais — disse-lhe eu —, quer que eu vá embora e o deixe dormir? Outro dia me contará o final dessa história. — Ela o aborrece? — Ao contrário. — Então vou continuar. Se me deixasse sozinho, eu não dormiria. Quando cheguei em casa — continuou ele —, sem precisar me concentrar, de tal forma todos os detalhes estavam ainda presentes em minha mente, comecei a pensar na aventura daquele dia. O encontro, a apresentação, a posição de Marguerite em relação a mim; tudo havia sido tão rápido, tão inesperado, que em alguns momentos eu acreditava ter sonhado. No entanto, não era a primeira vez que uma moça como Marguerite prometia-se a um homem para o dia seguinte ao que ele lhe fizera o pedido. Por mais que eu refletisse, a primeira impressão produzida em mim por minha futura amante tinha sido tão forte que ainda subsistia. Eu teimava em não ver em Marguerite uma moça como as outras, e, com a vaidade própria de todos os homens, eu estava disposto a acreditar que ela sentia irresistivelmente por mim a mesma atração que eu sentia por ela. No entanto, eu tinha sob os olhos exemplos bem contraditórios, e ouvira muitas vezes dizer que o amor de Marguerite se tornara um artigo mais ou menos caro, dependendo da estação.

Além disso, como conciliar, por outro lado, essa reputação com as constantes recusas feitas ao jovem conde que havíamos encontrado em sua casa? Irá argumentar que ele não a agradava e que, considerando que ela era esplendidamente mantida pelo duque, se tivesse que arrumar outro amante, ia preferir um homem que a agradasse. Então, por que ela não queria Gaston, charmoso, espirituoso, rico, e parecia querer a mim, que julgara tão ridículo na primeira vez que nos vimos?

É verdade que há incidentes de um minuto que contam mais do que um ano de galanteio.

Dos que participavam da ceia, fui o único que se preocupou quando ela deixou a mesa. Eu a seguira, ficara comovido a ponto de não conseguir esconder. Havia chorado ao beijar-lhe a mão. Essa circunstância, somada às minhas visitas quotidianas durante os dois meses de sua doença, podem tê-la feito ver em mim um homem diferente dos que ela conhecia até então, e talvez ela tenha pensado que bem poderia fazer por um amor demonstrado daquela maneira o que já havia feito tantas outras vezes, que isso já não trazia consequências para ela.

Todas essas suposições, como pode ver, eram muito plausíveis, mas qualquer que fosse a razão para o seu consentimento, uma coisa era certa, ela havia consentido.

Ora, eu estava apaixonado por Marguerite, ia possuí-la, não podia pedir-lhe mais nada. No entanto, repito, embora fosse o tipo de mulher que era, de tal forma eu imaginara, talvez para idealizá-la, aquele amor um amor sem esperança, que, quanto mais o momento, que eu nem teria mais de esperar, se aproximava, mais eu duvidava.

Não preguei mais os olhos à noite.

Não me reconhecia. Estava meio enlouquecido. Ora não me achava nem suficientemente bonito, nem suficientemente rico, nem suficientemente elegante para possuir uma mulher como aquela; ora me sentia cheio de vaidade com a ideia de tal posse. Então começava a temer que eu não fosse para Marguerite senão um capricho de alguns dias, e pressentindo o infortúnio de uma ruptura repentina, talvez melhor fizesse, dizia a mim mesmo, em não ir à noite à casa dela, e sim em partir, escrevendo-lhe sobre meus temores. Disso, passava às esperanças sem limites, a uma confiança sem fim. Tinha sonhos incríveis para o futuro. Pensava que essa moça deveria sua cura física e moral a mim, que eu passaria toda a minha vida com ela, e que o seu amor me faria mais feliz que os mais virginais dos amores.

Enfim, eu não poderia repetir-lhe agora os mil pensamentos que iam do meu coração à minha mente e que aos poucos desapareceram no sono que me venceu ao amanhecer.

Quando acordei, eram duas horas. O tempo estava magnífico. Não me lembro de que a vida algum dia tenha me parecido tão bela e tão plena. As lembranças da véspera voltavam à minha mente, sem sombras, sem obstáculos e alegremente acompanhadas pelas esperanças da noite. Vesti-me apressadamente. Estava contente e era capaz das melhores ações. De tempos em tempos, meu coração se agitava de alegria e de amor dentro do peito. Uma doce febre me atingia. Não me preocupava mais pelas razões que me haviam preocupado antes de dormir. Eu via apenas o resultado, pensava apenas na hora em que ia reencontrar Marguerite.

Foi-me impossível ficar em casa. Meu quarto parecia pequeno demais para conter minha felicidade. Precisava da natureza inteira para me expandir.

Saí.

Passei pela Rua d’Antin. A carruagem de Marguerite a esperava à porta. Fui para os lados de Champs-Élysées. Eu gostava, mesmo não os conhecendo, de todos que eu encontrava.

Como o amor faz bem!

Ao final de uma hora de passeio, dos cavalos de Marly à rotatória, e da rotatória aos cavalos de Marly, vi ao longe a carruagem de Marguerite; mais que a reconheci, a adivinhei.

No momento de virar a esquina da Champs-Élysées, ela fez a carruagem parar, e um rapaz alto se afastou de um grupo em que conversava para falar com ela.

Conversaram por alguns instantes. O rapaz juntou-se novamente a seus amigos, os cavalos partiram, e eu, que me aproximara do grupo, reconheci naquele que havia falado com Marguerite o conde de G…, de quem eu vira o retrato, e que Prudence me indicara como o homem a quem Marguerite devia sua situação.

Foi para ele que, na véspera, ela recomendara não abrirem sua porta. Supus que era para explicar-lhe o motivo daquela recomendação que fizera parar a carruagem, e torci para que ao mesmo tempo tivesse encontrado algum novo pretexto para não recebê-lo na noite seguinte.

Como se passou o resto do dia, eu não sei. Caminhei, fumei, conversei, mas, do que eu disse, daqueles que eu encontrei, às dez horas da noite já não tinha a mínima lembrança.

Tudo o que me lembro é de que voltei para casa, de que passei três horas me arrumando, de que olhei cem vezes para o relógio de parede e para o de bolso, e ambos, infelizmente, andavam um igual ao outro.

Quando soaram as dez horas e meia, disse a mim mesmo que era hora de ir.

Naquela época, eu morava na Rua de Provence. Segui a Rua Mont-Blanc, atravessei o bulevar, peguei a Rua Louis-le-Grand, a Rua de Port-Mahon, e a Rua d’Antin. Olhei para as janelas de Marguerite.

Havia luzes acesas.

Bati.

Perguntei ao porteiro se Mlle. Gautier estava em casa.

Ele me respondeu que ela nunca voltava antes das onze horas ou das onze e quinze.

Consultei meu relógio.

Pensei ter caminhado lentamente, mas não gastara mais que cinco minutos para vir da Rua de Provence à casa de Marguerite.

Então, andei por aquela rua sem lojas e deserta a uma hora daquelas.

Ao cabo de uma meia hora Marguerite chegou. Ela desceu da carruagem olhando ao redor, como se procurasse alguém.

A carruagem partiu devagar; nem o estábulo nem a garagem ficavam na casa. No momento em que Marguerite ia bater, eu me aproximei e lhe disse:

— Boa noite.

— Ah, está aí? — disse-me ela num tom pouco tranquilizador quanto ao prazer que sentia ao me encontrar ali.

— Não me havia permitido visitá-la hoje?

— Está certo, tinha esquecido.

Essa frase derrubava todas as minhas reflexões da manhã, todas as minhas esperanças do dia. Mas eu começava a me habituar àqueles modos e não fui embora, o que evidentemente teria feito em outros tempos.

Entramos.

Nanine já havia aberto a porta.

— Prudence já voltou? — perguntou Marguerite.

— Não, senhora.

— Vá dizer que, assim que ela estiver de volta, venha até aqui. Antes, apague a luz da sala, e se vier alguém diga que eu não voltei e que não vou voltar.

Ali estava uma mulher preocupada com alguma coisa e talvez inquieta por causa de alguém inoportuno. Eu não sabia o que fazer nem o que dizer. Marguerite foi em direção ao quarto de dormir. Eu fiquei onde estava.

— Venha — disse-me ela.

Ela tirou o chapéu, o casaco de veludo e jogou-os sobre a cama, em seguida deixou-se cair numa grande poltrona, perto do fogo que mandava acender até o início do verão, e me disse, brincando com a corrente do seu relógio:

— E então, que me conta de novo?

— Nada, a não ser que me enganei ao ter vindo esta noite.

— Por quê?

— Porque parece contrariada, e sem dúvida a aborreço.

— Não, não me aborrece. Apenas estou indisposta, passei mal o dia todo, não dormi e tenho uma enxaqueca medonha.

— Quer que eu me retire e que a deixe ir para a cama?

— Oh! Pode ficar, se eu quiser me deitar, posso deitar-me mesmo na sua presença.

Nesse momento, alguém bateu.

— Quem será agora? — disse ela com um gesto de impaciência.

Instantes depois, bateram de novo.

— Não tem ninguém para abrir. É preciso que eu mesma abra.

Com efeito, levantou-se dizendo-me:

— Espere aqui.

Atravessou o apartamento, e ouvi a porta de entrada se abrir. Prestei atenção.

Aquele a quem ela fora abrir a porta parou na sala de jantar. Nas primeiras palavras, reconheci a voz do conde de N…

— Como se sente esta noite? — ele perguntava.

— Mal — respondeu Marguerite secamente.

— Eu a incomodo?

— Talvez.

— É assim que me recebe! O que lhe fiz, minha querida Marguerite?

— Meu caro amigo, não me fez nada. Estou doente, preciso me deitar, então vai me dar o prazer de ir embora. Cansa-me não poder chegar em casa à noite sem vê-lo aparecer cinco minutos depois. O que quer? Que eu seja sua amante? Pois já lhe disse cem vezes que não, que me irrita profundamente, e que pode ir bater em outro lugar. Vou repetir agora, pela última vez, não quero nada com o senhor, está bem entendido? Adeus. Pronto, Nanine está de volta, ela o acompanhará. Boa noite.

E sem acrescentar mais uma palavra, sem ouvir o que balbuciava o rapaz, Marguerite retornou a seu quarto e fechou violentamente a porta, pela qual Nanine, por sua vez, entrou imediatamente.

— Escute — disse-lhe Marguerite —, dirá sempre a esse imbecil que não estou ou que não quero recebê-lo. Estou cansada, até aqui, de ver essas pessoas que vêm me pedir o tempo todo a mesma coisa, que me pagam e pensam estar quites comigo. Se aquelas que começam nessa vergonhosa atividade soubessem como é, iriam ser camareiras. Mas não, a ambição de possuir vestidos, carruagens, diamantes fala mais alto. Acreditamos naquilo que ouvimos, pois a prostituição tem sua fé, e aos poucos consumimos nosso coração, nosso corpo, nossa beleza. Somos temidas como um animal selvagem, desprezadas como um pária, estamos sempre rodeadas de gente que tira de nós mais do que nos dá, e um belo dia morremos feito um cão, depois de sermos a perdição dos outros e a de nós mesmas.

— Pronto, acalme-se — disse Nanine —, a senhora não está bem dos nervos esta noite.

— Este vestido me incomoda — retrucou Marguerite, soltando os fechos de seu corpete —, dê-me um penhoar. E Prudence?

— Ainda não havia chegado, mas virá até aqui assim que chegar.

— Essa é outra — continuou Marguerite, tirando o vestido e colocando um penhoar branco —, essa é outra que sabe muito bem onde me encontrar quando precisa de mim, mas que não pode me fazer um favor de boa vontade. Ela sabe que estou esperando a resposta para esta noite, que preciso dessa resposta, que estou apreensiva, e tenho certeza de que saiu por aí sem se preocupar comigo.

— Alguma coisa deve tê-la retido.

— Diga para nos servirem ponche.

— Assim vai se prejudicar outra vez — disse Nanine.

— Tanto melhor. Traga também umas frutas, patê ou uma asa de frango, alguma coisa rápida, estou com fome.

Dizer que impressão essa cena me causava, é inútil, você pode imaginar, não é?

— Vai jantar comigo — disse-me ela. — Enquanto espera, pegue um livro, estarei por uns instantes em meu quarto de vestir.

Acendeu as velas de um candelabro, abriu uma porta próxima à sua cama e desapareceu.

Quanto a mim, comecei a pensar na vida dessa jovem, e meu amor se acresceu de compaixão.

Andava pelo quarto a passos largos, pensando, quando Prudence entrou.

— Veja só, o senhor aqui? — disse-me ela. — Onde está Marguerite?

— No quarto de vestir.

— Vou esperá-la. Pois então, ela o acha encantador, sabia?

— Não.

— Não lhe demonstrou nada?

— Nada.

— Por que está aqui?

— Vim fazer-lhe uma visita.

— À meia-noite?

— E por que não?

— Mentiroso!

— Ela até me recebeu muito mal.

— Mas vai recebê-lo melhor.

— Acha mesmo?

— Trago uma boa notícia para ela.

— Isso é bom. Quer dizer que lhe falou de mim?

— Ontem à noite, ou melhor, hoje, depois que saiu daqui com seu amigo… Aliás, como vai seu amigo? É Gaston R…, me parece, que ele se chama?

— Sim — disse eu, sem conseguir conter um sorriso ao lembrar-me da confidência que Gaston me fizera, e vendo que Prudence mal sabia seu nome.

— É um rapaz gentil. O que ele faz?

— Tem vinte e cinco mil francos de renda.

— Ah, verdade? Bem, voltando ao senhor, Marguerite quis saber a seu respeito. Perguntou-me quem era, o que fazia, quais tinham sido suas amantes, enfim, tudo o que se pode perguntar sobre um homem da sua idade. Eu lhe disse tudo o que sei, e acrescentei que é um rapaz adorável, é isso.

— Agradeço-lhe. Agora conte-me de que missão ela a encarregou ontem.

— De nenhuma. Era só para fazer o conde ir embora que me falava daquele modo, mas encarregou-me de uma para hoje, e é a resposta que estou trazendo.

Nesse momento Marguerite saiu do quarto de vestir, graciosamente arrumada com uma touca de dormir enfeitada com tufos de fita

amarela, tecnicamente chamados de choux.[1]

Estava maravilhosa daquele jeito.

Tinha os pés nus, calçados em pantufas de cetim, e terminava de cuidar de suas unhas.

— E então — disse ela ao ver Prudence —, esteve com o duque?

— Claro!

— E o que ele lhe disse?

— Deu-me o dinheiro.

— Quanto?

— Seis mil.

— Estão com você?

— Sim.

— Ele pareceu contrariado?

— Não.

— Pobre homem!

Aquele pobre homem foi dito num tom impossível de reproduzir. Marguerite pegou os seis bilhetes de mil francos.

— Veio em boa hora — disse ela. — Minha cara Prudence, está precisando de dinheiro?

— Sabe como é, minha querida, dia 15 é só daqui a dois dias, se pudesse me emprestar trezentos ou quatrocentos francos, me faria um grande favor.

— Mande buscar amanhã cedo, é muito tarde para trocá-los.

— Não se esqueça.

— Fique tranquila. Janta conosco?

— Não. Charles está à minha espera em casa.

— Então continua apaixonada?

— Como uma louca, minha querida! Até amanhã. Adeus, Armand.

Mme. Duvernoy retirou-se.

Marguerite abriu a estante e jogou as notas lá dentro.

— Permite que eu me deite? — disse ela sorrindo enquanto ia até sua cama.

— Não só o permito como lhe peço que o faça.

Ela empurrou para o pé da cama a colcha de renda que a cobria e deitou-se.

— Agora venha sentar-se ao meu lado e vamos conversar.

Prudence estava certa, a resposta que havia trazido animara Marguerite.

— Perdoa-me pelo mau humor desta noite? — disse-me segurando minha mão.

— E estou pronto a perdoar-lhe muitos outros.

— Você me ama?

— Como um louco.

— Apesar do meu mau humor?

— Apesar de qualquer coisa.

— Jura?

— Juro — disse-lhe baixinho.

Nanine entrou trazendo pratos, frango frio, uma garrafa de vinho de Bordeaux, morangos e talheres.

— Não preparei o ponche — disse Nanine —, o vinho lhe cairá melhor. Não acha, senhor?

— Certamente — respondi, ainda emocionado com as últimas palavras de Marguerite, e os olhos ardentemente fixos nela.

— Ótimo — disse ela —, coloque tudo isso na mesa pequena e traga-a para perto da cama; nós mesmos nos serviremos. Já são três noites que não dorme, deve estar querendo descansar, vá se deitar, não preciso de mais nada.

— Devo trancar a porta com duas voltas?

— Seria bom! E o mais importante, diga para não deixarem ninguém entrar amanhã antes do meio-dia.