A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 27 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo XXVI

 

Oque se seguiu àquela noite fatal, você sabe tão bem quanto eu. Mas o que você não sabe, o que você não pode imaginar, é o quanto eu sofri desde a nossa

separação.

Eu soubera que seu pai o havia levado com ele, mas suspeitava de que você

não poderia viver por muito tempo longe de mim, e no dia em que o encontrei

na Champs-Élysées fiquei emocionada, mas não surpresa.

Então começou aquela sequência de dias em que cada um me trazia um novo

insulto de sua parte, insulto que eu recebia quase com alegria, pois, além de ser

a prova de que continuava a me amar, me parecia que quanto mais me

perseguisse, mais eu me engrandeceria a seus olhos no dia em que soubesse a

verdade.

Não se admire desse alegre martírio, Armand, o amor que você havia nutrido

por mim me abrira o coração a nobres entusiasmos.

No entanto, eu não fui tão forte assim desde o princípio. Entre a execução do sacrifício que fizera por você e seu retorno, passou-se

um tempo bastante longo durante o qual tive que recorrer a meios físicos para

não enlouquecer e para anestesiar-me da vida na qual me lançava novamente.

Prudence lhe disse que eu estava em todas as festas, em todos os bailes e em

todas as orgias, não disse?

Eu tinha a esperança de me matar rapidamente, à força de excessos, e, creio,

essa esperança não vai demorar a se realizar. Minha saúde se alterou

inevitavelmente cada vez mais, e no dia em que enviei Mme. Duvernoy para

pedir-lhe perdão, sentia-me esgotada de corpo e alma.

Não vou lembrar-lhe, Armand, de que maneira você recompensou a última

prova de amor que lhe dei, e de que forma ultrajante expulsou de Paris a

mulher que, mesmo estando tão doente, não conseguiu resistir à sua voz

quando lhe pediu uma noite de amor, e que, como uma insensata, acreditou,

por um instante, que poderia voltar a unir o passado e o presente. Você tinha o

direito de fazer o que fez, Armand. Ninguém jamais pagou tão caro pelas

minhas noites!

Então abandonei tudo! Olympe substituiu-me junto a M. de N… e se

encarregou, disseram-me, de informá-lo sobre o motivo de minha partida. O

conde de G… estava em Londres. É um desses homens que, não dando ao amor

com moças como eu mais do que a exata importância de um passatempo

agradável, permanecem amigos das mulheres que tiveram e não guardam ódio,

assim como nunca tiveram ciúme. É, enfim, um desses grandes senhores que

não nos abrem senão um lado do seu coração, mas que nos abrem os dois lados

de sua carteira. Foi nele que pensei imediatamente. Fui encontrá-lo. Recebeu-

me maravilhosamente, mas já era amante de uma mulher da sociedade local, e

temia ficar comprometido expondo-se comigo. Apresentou-me a seus amigos,

que me ofereceram uma ceia, depois da qual um deles me levou.

Que queria que eu fizesse, meu amigo?

Que me matasse? Isso iria encher sua vida, que deve ser feliz, de um remorso

inútil. Além do mais, para que se matar quando se está tão perto de morrer?

Eu passei ao estado de corpo sem alma, de coisa sem pensamento. Vivi

algum tempo uma vida maquinal, depois voltei a Paris e perguntei por você.

Soube que havia partido para uma longa viagem. Nada mais me prendia. Minha

existência voltou ao que era dois anos antes de o conhecer. Tentei reatar com o

duque, mas havia magoado demais aquele homem, e os velhos não são

pacientes, provavelmente porque têm noção de que não são eternos. A doença

se apoderava de mim dia após dia, eu estava pálida, estava triste, mais magra

ainda. Os homens que compram o amor examinam a mercadoria antes de levá-

la. Em Paris havia mulheres mais saudáveis, mais robustas que eu. Esqueceram-

me um pouco. Isso foi o que se passou até ontem.

Agora estou realmente doente. Escrevi ao duque pedindo-lhe dinheiro, pois

não tenho mais nada, e os credores voltaram, cobrando-me com uma insistência

impiedosa. Será que o duque irá me responder? Pena que você não esteja em

Paris, Armand! Viria me ver e suas visitas me consolariam.

 

20 de dezembro

Faz um tempo horrível, neva, estou sozinha em casa. Há três dias tenho tanta

febre que não consegui lhe escrever uma palavra sequer. Nada de novo, meu

amigo, todo dia espero vagamente uma carta sua, contudo, ela não chega e

provavelmente não chegará nunca. Só os homens têm a força de não perdoar. O

duque não me respondeu.

Prudence recomeçou suas viagens à casa de penhor. Não paro de cuspir sangue. Oh, se me visse, sentiria pena! Você é bem feliz

por estar sob um céu quente e de não ter, como eu, todo um inverno gelado

pesando sobre o peito. Hoje levantei-me um pouco, e através das cortinas de

minha janela vi passar essa vida de Paris com a qual acredito ter rompido

completamente. Alguns rostos conhecidos passaram pela rua, ligeiros, alegres,

despreocupados. Nenhum deles levantou os olhos em direção a minhas janelas.

No entanto, alguns jovens vieram pedir notícias minhas. Já uma vez, quando

estive doente, você, que não me conhecia, que não havia conseguido de mim

senão uma insolência no dia em que o vi pela primeira vez, você vinha saber

notícias minhas todas as manhãs. Aqui estou, doente outra vez. Passamos seis

meses juntos, e eu senti por você todo o amor que o coração de uma mulher

pode conter e oferecer, mas você está longe, e você me maldiz, e não me vem

de você uma só palavra de consolo. Mas é só o acaso que motiva esse

abandono, tenho certeza, pois se estivesse em Paris, não sairia de minha

cabeceira e de meu quarto.

 

25 de dezembro

 

Meu médico me proíbe de escrever todos os dias. De fato, minhas

recordações não fazem senão aumentar minha febre, mas, ontem, recebi uma

carta que me fez bem, mais pelos sentimentos nela expressos do que pela ajuda

material que me trazia. Portanto posso lhe escrever hoje. Era uma carta de seu

pai, e eis o que ela continha:

 

Senhora,

Soube a pouco que está doente. Se estivesse em Paris, iria pessoalmente saber

notícias suas. Se meu filho estivesse aqui comigo, diria a ele que fosse obtê-las, mas

não posso ausentar-me de C…, e Armand está a seiscentas ou setecentas léguas

daqui. Permita-me simplesmente dizer-lhe, minha senhora, o quanto estou

penalizado com essa enfermidade, e acredite nos votos sinceros que faço por seu

pronto restabelecimento.

Um de meus bons amigos, M. H…, irá se apresentar em sua casa, queira recebê-

lo. Encarreguei-o de uma missão cujo resultado aguardo impacientemente.

Queira aceitar, minha senhora, a expressão de meus sentimentos mais sinceros.

 

Assim era a carta que recebi. Seu pai é um coração nobre, ame-o muito, meu

amigo, pois há poucos homens no mundo tão dignos de ser amados. Esse papel

assinado com o nome dele me trouxe mais benefícios do que todas as

prescrições do nosso grande médico.

Esta manhã, M. H… esteve aqui. Ele parecia muito embaraçado com a

missão delicada da qual M. Duval o encarregara. Vinha simplesmente trazer-me

mil escudos por parte de seu pai. Em princípio quis recusar, mas M. H… disse-

me que essa recusa ofenderia M. Duval, que o havia autorizado a dar-me essa

soma e a entregar-me tudo mais que ainda me fosse necessário. Aceitei esse

favor que, vindo de seu pai, não poderia ser uma esmola. Se eu estiver morta

quando você regressar, mostre a seu pai o que acabo de escrever para ele, e

diga-lhe que, traçando estas linhas, a pobre moça para quem fez questão de

escrever aquela carta consoladora derramava lágrimas de reconhecimento, e

orava a Deus por ele.

 

4 de janeiro

 

Acabo de passar alguns dias bem dolorosos. Não sabia que o corpo podia nos

fazer sofrer assim. Oh, minha vida passada! Hoje pago em dobro por ela.

Cuidaram de mim todas as noites. Eu não conseguia mais respirar. O delírio e

a tosse compartilhavam o restante da minha pobre existência.

Minha sala de jantar está repleta de doces, de presentes de todo tipo que

meus amigos trouxeram para mim. Entre essas pessoas, sem dúvida há alguns

que esperam ter-me mais tarde como sua amante. Se vissem o que a doença fez

comigo, fugiriam assustados.

Prudence dá de presente os presentes que ganho. O tempo está de congelar, mas o médico me disse que poderei sair em alguns

dias se o tempo continuar bom.

 

8 de janeiro

 

Saí ontem em minha carruagem. O tempo estava magnífico. Havia muita

gente na Champs-Élysées. Parecia o primeiro sorriso da primavera. Tudo ao

meu redor tinha um ar de festa. Eu jamais imaginara que existisse o tanto de

alegria, de doçura e de consolo que ontem descobri num raio de sol.

Encontrei quase todas as pessoas que conheço, sempre alegres, sempre

ocupadas com seus prazeres. Quanta gente é feliz e não sabe disso! Olympe

passou numa elegante carruagem que M. de N… lhe deu. Ela tentou me insultar

com o olhar. Ela não sabe o quanto estou longe de todas essas vaidades. Um

bom rapaz, que conheço há muito tempo, perguntou-me se eu não gostaria de

jantar com ele e com um de seus amigos que, segundo me dizia, deseja muito

me conhecer.

Sorri com tristeza, e lhe estendi minha mão que ardia em febre. Voltei para casa às quatro horas, jantei com muito apetite. Essa saída me fez bem.

Quem dera me curar!

Como a visão da vida e da felicidade dos outros faz desejar viver àqueles que

na véspera, na solidão de suas almas e na sombra de seus quartos de doente,

desejavam morrer depressa!

 

10 de janeiro

 

A esperança de saúde não passava de um sonho. Aqui estou de novo na

cama, o corpo coberto de emplastros que me queimam. Vá oferecer esse corpo

pelo qual antes pagavam tão caro e veja o que agora vão lhe dar por ele!

É preciso que tenhamos feito muito mal antes de nascer, ou que devamos

desfrutar de uma grande felicidade após nossa morte, para que Deus permita

que esta vida contenha todas as torturas da expiação e todas as dores da

provação.

 

12 de janeiro

Continuo doente.

O conde de N… mandou-me algum dinheiro ontem, mas não aceitei. Não

quero nada desse homem. Foi ele a causa de você não estar perto de mim.

Oh, nossos belos dias em Bougival! Onde está você? Se eu sair viva deste quarto, será para fazer uma peregrinação à casa em que

moramos juntos; mas só sairei daqui morta.

Quem sabe lhe escrevo amanhã?

 

25 de janeiro

 

Já são onze noites que não durmo, que sufoco e que a cada instante penso

que vou morrer. O médico ordenou que não me deixassem encostar uma pluma.

Julie Duprat, que cuida de mim, permite ainda que eu lhe escreva essas poucas

linhas. Será que você não vai voltar antes que eu morra? Será então que está

tudo eternamente acabado entre nós? Acho que, se você viesse, eu me curaria.

De que adiantaria me curar?

 

28 de janeiro

 

Esta manhã fui acordada por um grande barulho. Julie, que dormia em meu

quarto, correu à sala de jantar. Ouvi vozes de homens contra as quais a voz dela

lutava em vão. Ela voltou chorando.

Vinham confiscar. Eu disse a ela que os deixasse fazer o que eles chamam de

justiça. O oficial entrou em meu quarto, com o chapéu na cabeça. Abriu as

gavetas, relacionou tudo o que viu, e não pareceu perceber que havia alguém à

beira da morte na cama, que, felizmente, a caridade da lei me deixa.

Ao partir, ele se permitiu dizer-me que eu poderia contestar em até nove

dias, mas deixou um guarda! O que vai ser de mim, meu Deus! Essa cena

deixou-me ainda mais doente. Prudence queria pedir dinheiro ao amigo de seu

pai, mas me opus a isso.

Recebi sua carta esta manhã. Precisava muito recebê-la. Será que minha

resposta chegará a tempo até você? Será que ainda conseguirá me ver? Este é

um dia feliz, que me faz esquecer todos os outros que tenho passado há seis

semanas. Parece que estou melhor, apesar do sentimento de tristeza que me

dominava quando lhe respondi.

No fundo, não se deve estar sempre infeliz.

Quando penso que até pode acontecer de eu não morrer, de você voltar, de

eu tornar a ver a primavera, de você ainda me amar e de recomeçarmos nossa

vida do ano passado!

Que louca eu sou! Mal consigo sustentar a pena com a qual lhe escrevo este

sonho insensato do meu coração.

Aconteça o que acontecer, eu o amava muito, Armand, e já estaria morta há

bastante tempo se não tivesse para me socorrer a lembrança desse amor, e

como que uma vaga esperança de ainda tê-lo perto de mim.

 

4 de fevereiro

 

O conde de G… esteve novamente aqui. Sua amante o traiu. Ele está muito

triste, amava-a muito. Veio contar-me todas essas coisas. O pobre homem vai

mal nos negócios, o que não o impediu de pagar meu oficial de justiça e

dispensar o guarda.

Falei de você para ele, e ele me prometeu falar de mim a você. Como me

esqueci, nesses momentos, de que havia sido sua amante, e como, do mesmo

modo, ele tentou fazer-me esquecer disso também! Tem um bom coração!

Ontem, o duque mandou saber notícias minhas, e veio esta manhã. Não sei o

que ainda faz esse velho viver. Ficou três horas ao meu lado, e não me disse

vinte palavras. Duas lágrimas caíram dos seus olhos quando me viu tão pálida.

Provavelmente era a lembrança da morte de sua filha que o fazia chorar.

Era como se ele a visse morrer duas vezes. Suas costas estão curvadas, sua

cabeça pende em direção ao chão, seu lábio está caído, seu olhar está sem

brilho. A idade e a dor, com seu duplo peso, sobrecarregam seu corpo

extenuado. Não me fez qualquer censura. Parecia até que se alegrava

secretamente com o estrago que a doença havia feito em mim. Aparentava

orgulho por estar de pé, enquanto que eu, jovem ainda, estava arruinada pelo

sofrimento.

O mau tempo voltou. Ninguém vem me ver. Julie fica ao meu lado o máximo

que pode. Prudence, a quem não posso mais dar tanto dinheiro quanto dava

anteriormente, começa a usar dos compromissos como pretexto para se afastar.

Agora, que estou tão próxima da morte, apesar do que me dizem os médicos,

pois tenho vários, o que prova que a doença avança, arrependo-me de ter dado

ouvidos a seu pai. Se eu pudesse saber que só tomaria um ano do seu futuro,

não teria resistido a passar esse ano com você, e pelo menos eu morreria

segurando a mão de um amigo. É verdade que se tivéssemos vivido juntos esse

ano, eu não iria morrer tão cedo.

Que a vontade de Deus seja feita!

 

5 de fevereiro

 

Oh! Venha, Armand, eu sofro horrivelmente, vou morrer, meu Deus. Estava

tão triste ontem que quis passar em qualquer lugar que não fosse a minha casa,

a noite que prometia ser longa como a da véspera. O duque tinha vindo pela

manhã. Parece-me que a visão desse velho esquecido pela morte me faz morrer

com maior rapidez.

Apesar da febre ardente que me queimava, pedi para me vestirem e me

levarem ao Vaudeville. Julie passou-me um batom, sem o que eu pareceria um

cadáver. Ocupei o camarote onde tivemos nosso primeiro encontro. O tempo

todo mantive os olhos fixos na poltrona em que você se sentou aquele dia, e

que ontem era ocupada por um tipo grosseiro, que ria ruidosamente de todas as

bobagens que proferiam os atores. Levaram-me meio morta de volta para casa.

Tossi e cuspi sangue a noite inteira. Hoje não consigo falar, e mal posso mexer

os braços. Meu Deus! Meu Deus! Vou morrer. Esperava por isso, mas não podia

imaginar sofrer mais do que já vinha sofrendo, e se…

 

A partir daí, as poucas letras que Marguerite tentara escrever estavam ilegíveis, e foi Julie Duprat quem continuou.

 

18 de fevereiro

 

Senhor Armand,

Desde o dia em que Marguerite quis ir ao espetáculo, ela ficou cada vez pior.

Perdeu completamente a voz, e em seguida o movimento dos membros. É

impossível dizer o quanto sofre nossa pobre amiga. Não estou habituada a esse

tipo de emoção e vivo constantemente alarmada.

Como eu gostaria que o senhor estivesse junto de nós! Quase sempre ela

delira, mas, delirante ou lúcida, é sempre seu nome que ela pronuncia quando

consegue dizer alguma coisa.

O médico me disse que ela não viveria por muito mais tempo. Desde que ela

está tão mal assim, o velho duque não voltou mais aqui.

Ele disse ao doutor que esse espetáculo lhe fazia muito mal. Mme. Duvernoy não se comporta bem. Essa mulher, que tencionava tirar

mais dinheiro de Marguerite, e às expensas de quem vivia quase totalmente,

assumiu compromissos que ela não pode manter, e, vendo que sua vizinha não

lhe serve mais para nada, não vem sequer visitá-la. Todo mundo a abandona.

M. de G…, pressionado pelas dívidas, foi obrigado a retornar a Londres. Ao

partir, nos enviou algum dinheiro. Ele fez tudo o que pôde, mas voltaram para

fazer as apreensões, e os credores só esperam a morte para realizar o leilão.

Eu quis usar meus últimos recursos para impedir todos esses confiscos, mas o

oficial me disse que era inútil, e que ainda havia outras sentenças a executar.

Como é certo que ela vai morrer, é melhor abandonar tudo a tentar salvar

alguma coisa para a família dela, que nunca a amou e que ela não quis ver. O

senhor não pode imaginar em meio a que impressionante miséria a pobre moça

está morrendo. Ontem estávamos completamente sem dinheiro. Talheres, joias,

caxemiras, tudo está penhorado, o resto foi vendido ou confiscado. Marguerite

ainda tem consciência do que se passa em torno dela, e sofre de corpo, de

espírito e de coração. Grossas lágrimas escorrem por suas faces, tão magras e

tão pálidas que o senhor não reconheceria se pudesse ver o rosto daquela que

tanto amou. Fez-me prometer escrever-lhe quando ela não o conseguisse mais,

então escrevo em frente a ela. Ela dirige os olhos para onde estou, mas não me

vê, seu olhar já está encoberto pela morte que se aproxima. Todavia sorri, e

todo o seu pensamento, toda a sua alma pertencem ao senhor, estou certa disso.

Cada vez que abrem a porta, seus olhos brilham, ela sempre acredita que o

senhor vai entrar. Depois, quando percebe que não é o senhor, seu semblante

retoma aquela expressão dolorosa, se enche de um suor frio, e as maçãs do

rosto se tornam púrpuras.

 

19 de fevereiro, meia-noite

Que triste dia o de hoje, meu pobre senhor Armand! Esta manhã, Marguerite

sufocava, o médico fez-lhe uma sangria, então a voz lhe voltou um pouco. O

doutor aconselhou-a a ver um padre. Ela consentiu, e ele mesmo foi buscar um

padre em Saint-Roch.

Enquanto isso, Marguerite me chamou para perto de sua cama, pediu-me

para abrir seu armário, mostrou-me um singelo chapéu, uma camisa longa toda

coberta de rendas, e me disse com uma voz enfraquecida:

— Vou morrer depois de me confessar, então quero que me vista com essas

coisas. É um capricho de moribunda.

Depois me abraçou chorando e acrescentou:

— Consigo falar, mas sufoco quando falo, estou sufocando, preciso de ar! Eu me desfazia em lágrimas, abri a janela, e instantes depois o padre entrou. Fui ao seu encontro.

Quando soube na casa de quem estava, pareceu temer ser mal acolhido. Disse-lhe para entrar sem medo.

Ficou pouco tempo no quarto da doente, e ao sair disse-me: “Ela viveu como

pecadora, mas morrerá como cristã.”

Instantes depois, retornou acompanhado de um coroinha que trazia um

crucifixo, e de um sacristão que andava à frente deles tocando um sino, para

anunciar que Deus ia à casa da moribunda.

Os três entraram naquele quarto de dormir onde, em outros tempos, soaram

tantas palavras estranhas, mas que naquele momento não era mais que um

templo santo.

Caí de joelhos. Não sei por quanto tempo vai durar a impressão que me

causou aquele espetáculo, mas não acredito que, até que eu mesma chegue

àquele momento, alguma coisa humana possa me impressionar tanto.

O padre ungiu com óleos santos os pés, as mãos e a fronte de Marguerite, fez

uma rápida prece, e ela estava pronta para partir aos céus, para onde sem

dúvida irá se Deus viu as provações de sua vida e a santidade de sua morte.

A partir desse momento ela não disse mais uma palavra e não fez mais

nenhum movimento. Por vinte vezes a julgaria morta, se não tivesse ouvido o

esforço de sua respiração.

 

20 de fevereiro, cinco horas da tarde

Está tudo acabado.

Marguerite entrou em agonia esta noite, por volta das duas horas. Nunca um

martírio passou por semelhantes torturas, a julgar pelos gritos que dava. Duas

ou três vezes colocou-se de pé sobre a cama, como se quisesse recuperar sua

vida que subia em direção a Deus.

Duas ou três vezes ainda pronunciou seu nome, depois tudo se calou, e ela

caiu extenuada sobre a cama. Lágrimas silenciosas correram de seus olhos, e ela

morreu.

Então, aproximei-me dela, chamei-a, e como não respondeu, fechei seus

olhos e beijei sua testa.

Pobre querida Marguerite, eu gostaria de ser uma santa mulher para que esse

beijo a recomendasse a Deus.

Depois, a vesti como me havia pedido que fizesse, fui procurar um padre em

Saint-Roch, acendi duas velas para ela e orei na igreja durante uma hora.

Dei aos pobres algum dinheiro que fora dela.

Não sei muito sobre religião, mas acredito que o bom Deus reconhecerá que

minhas lágrimas eram verdadeiras, minha prece fervorosa, minha caridade

sincera, e que terá piedade daquela que, morta jovem e bela, não teve senão a

mim para fechar-lhe os olhos e sepultá-la.

 

22 de fevereiro

 

Hoje foi o enterro. Muitas das amigas de Marguerite estiveram na igreja.

Algumas choravam com sinceridade. Quando o cortejo tomou o caminho de

Montmartre, apenas dois homens o seguiam, o conde de G…, que retornara

especialmente de Londres, e o duque, que caminhava apoiado por dois criados.

É da casa dela que lhe escrevo todos esses pormenores, em meio a lágrimas e

diante da lamparina que queima tristemente ao lado de um jantar no qual não

toquei, como deve imaginar, mas que Nanine fez para mim, pois estou sem

comer há mais de vinte e quatro horas.

Minha vida não poderá guardar por muito tempo essas tristes impressões,

porque minha vida me pertence tanto quanto a de Marguerite pertencia a ela.

Por isso lhe dou todos esses detalhes, até mesmo sobre os locais em que

ocorreram, pois receio que, se muito tempo se passar entre eles e o seu retorno,

eu não consiga transmiti-los ao senhor em toda a sua triste exatidão.