A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 24 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo XXIII

 

Quando todas as coisas da vida haviam retomado seu curso, eu não podia acreditar que o dia que começava não seria para mim semelhante aos que o precederam. Havia momentos em que eu imaginava que alguma circunstância, da qual não me lembrava, me fizera passar a noite fora da casa de Marguerite, mas que, se eu retornasse a Bougival, iria encontrá-la preocupada, como eu estivera, e que ela me perguntaria quem me havia mantido longe dela daquela forma. (Quando a existência adquire um hábito como o daquele amor, parece impossível que tal hábito se perca sem que se percam, ao mesmo tempo, todas as outras forças da vida). Assim, de tempos em tempos eu era obrigado a reler a carta de Marguerite para realmente convencer-me de que eu não havia sonhado. Meu corpo, sucumbindo ao abalo moral, era incapaz de qualquer movimento. A inquietação, o ritmo da noite, a notícia da manhã deixaram-me esgotado. Meu pai aproveitou essa total prostração de minhas forças para pedir-me a promessa formal de partir com ele. Prometi tudo o que ele queria. Sentia-me incapaz de manter uma discussão, e precisava de uma afeição verdadeira que me ajudasse a viver, depois do que acabava de acontecer. Deixava-me muito satisfeito o fato de que meu pai desejasse consolar-me daquela mágoa. Tudo o que me lembro é que, aquele dia, por volta das cinco horas, ele me fez subir numa carruagem. Sem me dizer nada, mandara preparar minhas malas e prendê-las às dele na parte traseira do veículo; e me levava embora. Eu não sabia o que estava fazendo até que a cidade desapareceu, e que a solidão da estrada lembrou-me do vazio em meu coração.

Então as lágrimas voltaram a cair.

Meu pai compreendeu que palavras, mesmo se viessem dele, não me consolariam, e me deixava chorar sem dizer nada, contentando-se às vezes em apertar minha mão, como para me lembrar que eu tinha um amigo ao meu lado.

À noite, dormi pouco. Sonhei com Marguerite.

Despertei sobressaltado, sem entender por que eu estava numa carruagem.

Depois, a realidade voltou à minha mente e deixei minha cabeça pender sobre o peito.

Não ousava conversar com meu pai, receando sempre que ele me dissesse: “Você vê que eu tinha razão quando reprovava o amor daquela mulher”.

Mas ele não se prevaleceu de sua vantagem, e chegamos a C… sem que me tivesse dito qualquer outra coisa que não palavras completamente alheias ao acontecimento que me fizera partir.

Quando abracei minha irmã, lembrei-me das palavras contidas na carta de Marguerite, e que lhe diziam respeito, e compreendi imediatamente que, por melhor pessoa que fosse, minha irmã não conseguiria fazer-me esquecer minha amante.

A temporada de caça estava aberta, meu pai pensou que seria uma distração para mim. Organizou então caçadas com vizinhos e amigos. Eu participava delas sem aversão mas também sem entusiasmo, com uma espécie de apatia que era a característica de todas as minhas ações desde minha partida.

Praticávamos a caça de encontro.[1] Colocavam-me em meu posto. Eu pousava minha arma descarregada ao meu lado, e devaneava.

Olhava as nuvens passando. Deixava meu pensamento errar pelas planícies solitárias e, de tempos em tempos, ouvia algum batedor me chamar, apontando-me uma lebre a dez passos de mim.

Nenhum desses detalhes escapava a meu pai, e ele não se deixava enganar por minha calma exterior. Ele compreendia perfeitamente que, por mais abatido que estivesse, meu coração teria em algum momento uma reação terrível, perigosa talvez, e, evitando dar a impressão de me consolar, fazia o possível para me distrair.

Minha irmã, naturalmente, não estava inteirada de todos os acontecimentos, e não compreendia por que razão eu, tão alegre em outros tempos, me tornara de repente tão pensativo e tão triste.

Às vezes, surpreendido em meio a minha tristeza pelo olhar preocupado de meu pai, eu lhe estendia minha mão e apertava a dele, como que para lhe pedir tacitamente perdão pelo mal que, sem querer, eu lhe causava.

Um mês transcorreu assim, mas foi tudo o que pude suportar.

A lembrança de Marguerite me perseguia sem cessar. Eu havia amado demais e amava ainda demais aquela mulher para que ela pudesse ser-me indiferente assim de súbito. Eu precisava, acima de tudo, tornar a vê-la, o que quer que eu viesse a sentir por ela, e isso imediatamente.

Esse desejo entrou em meu espírito e fixou-se nele com toda a força da vontade, que ressurge enfim num corpo que esteve inerte por muito tempo.

Não era no futuro, em um mês ou em oito dias que eu precisava de Marguerite, era no exato dia seguinte àquele em que eu tivera tal ideia. Então fui dizer a meu pai que ia deixá-lo para tratar de negócios que me chamavam de volta a Paris, mas que regressaria prontamente.

Ele sem dúvida adivinhou o motivo que me fazia partir, pois insistiu para que eu ficasse. Mas vendo que a não realização desse desejo poderia trazer-me consequências fatais, abraçou-me e pediu-me, quase chorando, que eu voltasse brevemente para junto dele.

Não dormi até chegar a Paris.

E depois de chegar, o que fazer? Eu não sabia. Mas era preciso, antes de tudo, que me ocupasse de Marguerite.

Ia até minha casa para trocar-me, mas como o dia estava bonito e ainda era tempo, fui a Champs-Élysées.

Após cerca de meia hora, vi ao longe, vindo da rotatória à Praça da Concórdia, a carruagem de Marguerite.

Ela recuperara os cavalos, pois a carruagem estava como antes, contudo, ela não estava em seu interior.

Mal acabara de notar essa ausência e, olhando ao meu redor, vi Marguerite descendo a pé, acompanhada de uma mulher que eu nunca tinha visto anteriormente.

Ao passar a meu lado, ela empalideceu, e um sorriso nervoso crispou seus lábios. Quanto a mim, violentos batimentos de coração sacudiram meu peito. Mas consegui manter em meu rosto uma expressão fria, e cumprimentei friamente minha antiga amante, que quase imediatamente dirigiu-se a sua carruagem, na qual entrou com sua amiga.

Eu conhecia Marguerite. Esse encontro inesperado deve tê-la abalado. Sem dúvida soubera de minha partida, o que a havia tranquilizado quanto à continuidade do nosso rompimento. Mas, vendo-me de volta, e encontrando-se face a face comigo, pálido como eu estava, percebera que meu retorno tinha um objetivo, e devia estar se perguntando o que iria ocorrer.

Se eu tivesse encontrado Marguerite infeliz, se, para vingar-me dela, pudesse ter vindo em seu socorro, talvez a perdoasse, e certamente não teria pensado em fazer-lhe mal. Porém, a via feliz, ao menos aparentemente. Outro devolvera-lhe o luxo que eu não pudera continuar a lhe oferecer. Nosso rompimento, vindo dela, ganhava em consequência o caráter do mais baixo interesse. Sentia-me humilhado em meu amor-próprio assim como em meu amor, era preciso, necessariamente, que ela pagasse por aquilo que eu havia sofrido.

Eu não conseguia ficar indiferente ao que fazia aquela mulher, portanto, minha indiferença devia ser o que mais lhe faria mal. Era então esse sentimento que eu precisava simular, não apenas a seus olhos, mas aos olhos dos outros.

Tentei aparentar um rosto sorridente e fui à casa de Prudence.

A camareira foi anunciar-me e fez-me esperar alguns instantes na sala.

Madame Duvernoy finalmente apareceu, e levou-me até sua sala íntima. No momento em que me sentava, ouvi a porta da sala se abrir, e passos leves fizeram o piso ranger. Em seguida a porta do vestíbulo foi fechada violentamente.

— Eu a incomodo? — perguntei a Prudence.

— De maneira nenhuma. Marguerite estava aqui. Quando o ouviu anunciar-se, saiu às pressas. Foi ela quem acabou de sair.

— Então agora lhe causo medo?

— Não, porém ela receia que lhe seja desagradável revê-la.

— Por quê? — perguntei, esforçando-me para respirar normalmente, já que a emoção me sufocava. — A pobre moça me deixou para recuperar sua carruagem, seus móveis e seus diamantes, e fez bem, não é por isso que devo me aborrecer com ela. Eu a encontrei hoje — falei negligentemente.

— Onde? — fez Prudence, que me olhava e parecia perguntar-se se este era o mesmo homem que ela conhecera tão apaixonado.

— Na Champs-Élysées, ela estava com outra mulher muito bonita. Quem era aquela mulher?

— Como era ela?

— Loura, magra, longos cachos, olhos azuis. Muito elegante.

— Ah, é Olympe! Uma jovem muito bonita, de fato.

— Com quem ela vive?

— Com ninguém, com todo mundo.

— E onde mora?

— Rua Tronchet, no … Ah! Então quer lhe fazer a corte?

— Nunca se sabe o que pode acontecer.

— E Marguerite?

— Dizer-lhe que não penso mais nela seria mentir, mas sou desses homens a quem a forma de romper importa muito. Ora, Marguerite dispensou-me de uma forma tão leviana que me achei bem tolo por ter sido apaixonado como fui, pois realmente fui muito apaixonado por ela.

Você pode imaginar com que tom eu tentava dizer essas coisas. O suor escorria pela minha testa.

— Ela também o amava, na verdade continua amando-o. A prova é que, após tê-lo encontrado hoje, veio imediatamente contar-me sobre esse encontro. Quando chegou, estava completamente trêmula, prestes a passar mal.

— E então, o que ela lhe disse?

— Disse-me: “Não tenho dúvida de que ele virá visitá-la”, e pediu-me que lhe implorasse seu perdão.

— Eu a perdoei, pode dizer-lhe isso. É uma boa moça, mas é uma cortesã, e eu devia ter esperado que fizesse o que me fez. Sou-lhe reconhecido por sua decisão, porque hoje eu me pergunto a que nos teria levado minha ideia de viver com ela. Era loucura.

— Ela ficará contente de saber que você compreendeu a situação em que se encontrava. Já era tempo de que a deixasse, meu caro. O canalha do negociante a quem ela havia proposto vender seu mobiliário tinha ido procurar seus credores para lhes perguntar quanto ela lhes devia. Estes tiveram medo e iam vender tudo em dois dias.

— E agora, foi tudo pago?

— Quase.

— E quem forneceu os fundos?

— O conde de N… Ah, meu caro! Há homens que foram feitos especialmente para isso. Em resumo, ele deu vinte mil francos, mas conseguiu seus objetivos. Ele sabe perfeitamente que Marguerite não está apaixonada por ele, o que não o impede de ser muito gentil com ela. Como viu, readquiriu seus cavalos, tirou-lhe as joias do penhor e lhe dá a mesma quantia que lhe dava o duque. Se ela quiser viver tranquilamente, esse homem ficará com ela por muito tempo.

— E o que ela tem feito? Está morando em Paris?

— Desde que você partiu, nunca mais quis voltar a Bougival. Eu é que fui buscar todas as coisas dela, e também as suas, Armand, que empacotei e que você deve mandar retirar aqui. Está tudo aí, exceto uma pequena carteira com suas iniciais. Marguerite quis ficar com ela, está em sua casa. Se fizer questão, posso pedir-lhe de volta.

— Que fique com ela — balbuciei, pois sentia as lágrimas subirem do meu coração aos meus olhos à lembrança daquele vilarejo onde eu fora tão feliz, e à ideia de que Marguerite desejava ter alguma coisa que fosse minha e que a fizesse lembrar-se de mim.

Se ela tivesse entrado naquele momento, minhas determinações de vingança teriam desaparecido, e eu cairia a seus pés.

— De resto — continuou Prudence —, nunca a tinha visto como está agora. Quase não dorme, corre os bailes, as ceias, até se embriaga. Ultimamente, após uma dessas ceias, passou oito dias de cama, e quando o médico permitiu que se levantasse, fez tudo de novo, arriscando-se a morrer. Pretende visitá-la?

— A troco de quê? Vim ver você, porque você sempre foi amável comigo, e já a conhecia antes de conhecer Marguerite. É a você que devo o fato de ter sido amante dela, tanto quanto lhe devo o fato de já não o ser, não é mesmo?

— Ah! Claro, fiz tudo o que pude para que ela o deixasse, e creio que, mais tarde, você não ficará aborrecido comigo por causa disso.

— Sou-lhe duplamente reconhecido — acrescentei levantando-me, pois sentia repulsa por essa mulher, vendo-a levar a sério tudo o que eu lhe dizia.

— Já vai embora?

— Sim.

Eu já sabia o suficiente.

— Quando o veremos?

— Em breve. Adeus.

— Adeus.

Prudence conduziu-me até a porta, e voltei para casa com lágrimas de raiva nos olhos e necessidade de vingança no coração.

Assim, decididamente, Marguerite era uma moça como todas as outras. Assim, aquele amor profundo que ela sentia por mim não havia lutado contra o desejo de retomar sua vida pregressa, e contra a necessidade de possuir uma carruagem e de participar de orgias.

Era isso o que eu me dizia durante minhas insônias, enquanto que, se tivesse pensado tão friamente quanto aparentava, teria percebido naquela nova vida agitada de Marguerite uma esperança sua de fazer calar um pensamento constante, uma lembrança incessante.

Infelizmente, uma paixão nefasta me dominava, e não procurei senão meios de torturar a pobre criatura.

Oh, como o homem é pequeno e vil quando uma de suas mesquinhas paixões é ferida!

A tal Olympe, com quem eu vira Marguerite, se não fosse sua amiga, era ao menos a pessoa com quem ela mais se relacionava desde seu retorno a Paris. Olympe ia dar um baile, e como eu supunha que Marguerite lá estaria, procurei conseguir um convite, e o obtive.

Quando, cheio de minhas dolorosas emoções, cheguei a esse baile, ele já estava muito animado. Todos dançavam, até mesmo gritavam, e, numa das quadrilhas, vi Marguerite dançando com o conde de N…, que aparentava muito orgulho em mostrá-la, e parecia dizer a todo mundo: “Essa mulher é minha!”.

Fui encostar-me à lareira, bem em frente a Marguerite, e a observei dançando. Assim que ela me viu, ficou perturbada. Olhei para ela e fiz-lhe uma distraída saudação com a mão e com os olhos.

Quando pensava que, após o baile, não seria mais comigo, mas com aquele rico imbecil que ela iria embora, quando imaginava o que certamente se seguiria ao retorno de ambos à casa dela, o sangue me subia à cabeça, e sentia uma verdadeira necessidade de perturbar seus amores.

Após a contradança, fui cumprimentar a dona da casa, que ostentava aos olhos dos convidados ombros magníficos e metade de um colo fascinante.

Era uma bela moça, e do ponto de vista da forma, mais bonita que Marguerite. Certifiquei-me ainda mais claramente disso por certos olhares que ela lançou sobre Olympe enquanto eu lhe falava.

O homem que se tornasse amante dessa mulher poderia ter tanto orgulho quanto o que mostrava M. de N…, e ela era bastante bela para inspirar uma paixão igual à que Marguerite me havia inspirado.

Naquela época, ela não tinha nenhum amante. Não seria difícil vir a sê-lo. O importante era exibir fortuna suficiente para fazer-me notar.

Minha decisão estava tomada. Aquela mulher seria minha amante.

Dei início ao meu papel de postulante dançando com Olympe.

Meia hora depois, Marguerite, pálida como uma morta, vestia sua capa e deixava o baile.