A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 21 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo XX

 

Meu pai, vestido com um roupão, estava sentado na sala e escrevia. Compreendi imediatamente, pelo modo como olhou para mim quando entrei que trataríamos de coisas graves. No entanto, abordei-o como se não tivesse percebido nada em seu semblante, e o abracei. — Quando o senhor chegou, meu pai? — Ontem à noite. — Veio para minha casa, como de costume? — Sim. — Lamento muito não ter estado aqui para recebê-lo. Esperava ver surgir após minhas palavras o sermão que prometia a fria fisionomia de meu pai, mas ele não me respondeu nada. Selou a carta que acabara de escrever e entregou-a a Joseph, para que a levasse ao correio. Quando ficamos a sós, meu pai se levantou e, apoiando-se na lareira, disse-me: — Precisamos, meu querido Armand, conversar sobre coisas sérias. — Estou ouvindo, meu pai. — Promete ser franco? — Como é meu costume. — É verdade que está vivendo com uma mulher chamada Marguerite Gautier? — Sim. — Sabe o que era essa mulher? — Uma cortesã. — Foi por causa dela que esqueceu de nos visitar este ano, a sua irmã e a mim?

— Confesso que sim, meu pai.

— Então ama muito essa mulher?

— Como o senhor pode ver, meu pai, uma vez que me fez faltar com um dever sagrado, pelo qual hoje lhe peço perdão humildemente.

Meu pai certamente não esperava respostas assim tão categóricas, pois pareceu refletir um instante, após o que me disse:

— Você já compreendeu, evidentemente, que não poderá viver sempre assim?

— Tive receio disso, meu pai, mas creio que não compreendi.

— Mas deve ter compreendido — continuou meu pai com um tom um pouco mais seco — que eu não aceitaria isso.

— Disse a mim mesmo que, enquanto eu não fizesse nada que fosse contrário ao respeito que devo a seu nome e à tradicional probidade da família, poderia viver como estou vivendo, o que tranquilizou-me um pouco quanto aos temores que eu tinha.

As paixões nos fortalecem frente aos sentimentos. Eu estava pronto para enfrentar qualquer luta, mesmo contra meu pai, para conservar Marguerite.

— Pois bem, o momento de viver de outra maneira chegou.

— Eh! Por que, meu pai?

— Porque você está prestes a fazer coisas que ferem o respeito que acredita ter por sua família.

— Não estou entendendo essas palavras.

— Vou explicá-las. Que tenha uma amante, está muito bem. Que pague para tê-la, como um sedutor deve pagar pelo amor de uma cortesã, não poderia ser melhor. Mas que se esqueça das coisas mais sagradas por causa dela, que permita que os rumores de sua vida escandalosa cheguem aos quatro cantos da minha província e lancem a sombra de uma mancha sobre o honrado nome que lhe dei, eis o que não pode acontecer, eis o que não acontecerá.

— Permita-me dizer-lhe, meu pai, que aqueles que assim o esclareceram a meu respeito estavam mal informados. Sou o amante de Mlle. Gautier, vivo com ela, é a coisa mais simples do mundo. Não dou a Mlle. Gautier o nome que recebi do senhor, gasto com ela o que meus meios me permitem gastar, não fiz uma dívida, enfim, não me encontro em nenhuma dessas situações que autorizam um pai dizer a seu filho o que o senhor acaba de me dizer.

— Um pai está sempre autorizado a afastar seu filho de um mau caminho no qual o vê entrar. Você ainda não fez nada de mau, mas acabará fazendo.

— Pai!

— Rapaz, conheço a vida melhor que você. Não há sentimentos inteiramente puros senão em mulheres inteiramente castas. Toda Manon pode gerar um Des Grieux, e os tempos e os costumes mudaram. Seria inútil que o mundo envelhecesse se não se corrigisse. Você abandonará sua amante.

— Meu pai, me aborrece desobedecê-lo, mas é impossível.

— Terei que obrigá-lo.

— Infelizmente, meu pai, não existem mais ilhas Sainte-Marguerite, para onde mandam as cortesãs, e, caso ainda existissem, eu seguiria Mlle. Gautier até lá, se o senhor conseguisse que para lá fosse enviada. O que quer? Talvez eu esteja errado, mas não posso ser feliz senão continuando como amante dessa mulher.

— Vejamos, Armand, abra os olhos, acredite em seu pai, que sempre o amou e que só quer sua felicidade. É honroso para você ir viver maritalmente com uma moça que já foi de todo mundo?

— Que importa, meu pai, pois ninguém mais a terá! Que importa, uma vez que essa moça me ama, e se regenera pelo amor que tem por mim e pelo amor que tenho por ela! Que importa, enfim, se existe conversão!

— Eh! Então acredita, rapaz, que a missão de um homem de honra seja converter cortesãs? Acredita que Deus tenha dado esse objetivo grotesco à vida, e que o coração não deva ter uma motivação diferente dessa? Qual será o desfecho dessa cura maravilhosa, e o que você pensará do que diz hoje quando tiver quarenta anos? Vai rir do seu amor, se ainda lhe for permitido rir, se ele não tiver deixado marcas demasiado profundas em seu passado. Que seria hoje de você se seu pai tivesse tido ideias como as suas, e houvesse abandonado sua vida a todos esses suspiros de amor, em vez de estabelecê-la inabalavelmente sobre um ideal de honra e de lealdade? Pense bem, Armand, e não diga mais essas bobagens. Vamos, abandone essa mulher, seu pai lhe implora.

Não respondi nada.

— Armand — continuou meu pai —, em nome de sua santa mãe, creia-me, renuncie a essa vida que esquecerá mais depressa do que imagina, e a qual uma teoria impossível o acorrenta. Você tem vinte e quatro anos, pense no futuro. Não pode amar para sempre essa mulher que também não o amará para sempre. Vocês dois estão exagerando o amor que sentem. Você fecha para si todos os caminhos. Um passo a mais e não conseguirá sair da rota em que se encontra, e pelo resto da vida terá remorso pela sua juventude. Parta, vá passar um ou dois meses junto a sua irmã. O repouso e o zeloso amor da família hão de curar rapidamente essa febre, pois não se trata de outra coisa. Durante esse tempo, sua amante irá se consolar e arranjar outro amante, e quando você vir por quem esteve a ponto de se desentender com seu pai e de perder sua afeição, irá me dizer que fiz bem em ter vindo procurá-lo, e irá me agradecer. Vamos, você partirá, não é Armand?

Eu sentia que meu pai estava certo em relação a todas as mulheres, mas estava convencido que ele não tinha razão quanto a Marguerite. No entanto, o tom com que me dissera suas últimas palavras era tão terno, tão suplicante que eu não me atrevia a lhe responder.

— E então? — disse ele com voz emocionada.

— E então, meu pai, não posso lhe prometer nada — eu disse enfim —, o que o senhor me pede está acima de minhas forças. Acredite — continuei, vendo-o fazer um gesto de impaciência —, o senhor exagera os resultados dessa ligação. Marguerite não é a pessoa que o senhor imagina. Esse amor, longe de levar-me para um mau caminho, é capaz, ao contrário, de desenvolver em mim os mais dignos sentimentos. O amor verdadeiro nos torna sempre melhores, seja qual for a mulher que o inspire. Se o senhor conhecesse Marguerite, compreenderia que não me exponho a nada. Ela é nobre como as mais nobres mulheres. Tanto quanto há de cobiça nas outras, nela há de desinteresse.

— O que não a impede de aceitar toda a sua fortuna, pois os sessenta mil francos que você recebe de sua mãe, e que dá a ela, são, lembre-se bem do que lhe digo, sua única fortuna.

Meu pai provavelmente havia guardado esse discurso e essa ameaça como que para me dar um último golpe.

Eu era mais forte diante de suas ameaças que diante de suas súplicas.

— Quem disse ao senhor que eu abriria mão dessa soma? — retorqui.

— Meu tabelião. Um homem honesto teria feito semelhante gesto sem me prevenir? Pois bem, foi para impedir sua ruína em favor dessa moça que vim a Paris. Ao morrer, sua mãe lhe deixou com o que viver honradamente e não algo para empregar em generosidades a suas amantes.

— Juro ao senhor, meu pai, Marguerite não sabia dessa doação.

— E por que então a fez?

— Porque Marguerite, essa mulher que o senhor calunia e que quer que eu abandone, está sacrificando tudo o que possui para viver comigo.

— E aceita esse sacrifício? Que homem é então, rapaz, para permitir a uma Mlle. Marguerite sacrificar por você o que quer que seja? Já chega! Você deixará essa mulher. Há pouco, era um pedido, agora, é uma ordem. Não quero sujeiras como essa em minha família. Faça suas malas, e se apresse em seguir-me.

— Perdoe-me, meu pai, mas não partirei.

— Uma vez que?

— Uma vez que já tenho idade para não mais obedecer a uma ordem.

Meu pai empalideceu ao ouvir essa resposta.

— Está bem, rapaz — continuou ele. — Eu sei o que me resta fazer.

Tocou a sineta.

Joseph apareceu.

— Mande levar minhas malas ao hotel de Paris — disse ele a meu criado. E, ao mesmo tempo, foi para seu quarto, onde acabou de se vestir.

Quando reapareceu, fui até ele e disse-lhe:

— O senhor me promete, meu pai, não fazer nada que possa causar sofrimento a Marguerite?

Meu pai parou, olhou-me com desprezo e contentou-se em responder-me:

— Você está louco, creio.

Depois disso saiu, fechando violentamente a porta atrás de si.

Por minha vez, desci, tomei uma carruagem e parti para Bougival.

Marguerite me esperava à janela.