A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 15 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo XIV

 

Chegando em casa, comecei a chorar como uma criança. Não há homem que não tenha sido enganado pelo menos uma vez, e que não saiba o quanto dói. Disse a mim mesmo, sob o peso dessas resoluções febris, as quais sempre acreditamos ter força para manter, que era preciso romper imediatamente com esse amor, e esperei com impaciência o amanhecer, para retomar meu lugar, voltar para perto de meu pai e de minha irmã, duplo amor do qual não tinha dúvidas, e que não me enganaria. No entanto, não queria partir sem que Marguerite soubesse exatamente por que eu partia. Só um homem que realmente não ama mais sua amante a deixa sem lhe escrever. Fiz e refiz vinte cartas em minha cabeça. Havia me relacionado com uma mulher igual a todas as outras mulheres de vida fácil, idealizara-a demais. Ela me tratara como a um moleque, empregando, para me enganar, um artifício de uma simplicidade insultante, estava claro. Meu amor-próprio falou mais alto. Era preciso abandonar aquela mulher sem lhe dar o prazer de saber o quanto essa ruptura me fazia sofrer, e eis o que lhe escrevi com minha caligrafia mais caprichada, e lágrimas de raiva e de sofrimento nos olhos:

 

Minha querida Marguerite,

Espero que sua indisposição de ontem não tenha sido nada. Passei às onze

horas da noite para pedir notícias suas, e disseram-me que ainda não havia

retornado. M. de G… foi mais feliz que eu, porque chegou alguns instantes

depois e às quatro horas da manhã ainda estava em sua casa.

Perdoe-me pelas horas entediantes que a fiz passar, e esteja certa de que

jamais esquecerei os felizes momentos que lhe devo.

Teria ido saber notícias suas hoje, mas conto regressar para junto de meu

pai.

Adeus, minha cara Marguerite. Não sou rico o bastante para que me ame

como eu desejaria, nem pobre o bastante para amá-la como você gostaria.

Portanto, esqueçamos. Você, um nome que lhe deve ser quase indiferente, eu,

uma felicidade que tornou-se impossível para mim.

Mando-lhe de volta sua chave, que a mim nunca serviu e que poderá ser-lhe

útil, caso adoeça outras vezes, como adoeceu ontem.

 

Como vê, não tive a capacidade de terminar a carta sem uma ironia impertinente, o que provava o quanto eu ainda estava apaixonado.

Li e reli a carta dez vezes, e a ideia de que ela faria Marguerite sofrer me acalmou um pouco. Tentei me convencer dos sentimentos ali expressados, e quando, às oito horas, meu criado entrou em minha casa, dei-lhe a carta para que a levasse imediatamente.

— Devo esperar por uma resposta? — perguntou-me Joseph (meu criado se chamava Joseph, como todos os criados).

— Se lhe perguntarem se é o caso de resposta, diga que não sabe, e espere.

Agarrava-me à esperança de que ela me responderia.

Como somos miseráveis e fracos!

Durante todo o tempo em que meu criado esteve fora, fiquei extremamente agitado. Às vezes, lembrando-me de como Marguerite se entregara a mim, me perguntava com que direito lhe escrevia uma carta insolente, quando ela podia responder-me que não era M. de G… quem me enganava, e sim eu quem enganava M. de G… Raciocínio que permite a muitas mulheres manterem vários amantes. Outras vezes, lembrando-me das palavras de Marguerite e querendo convencer-me de que minha carta era ainda afável demais, isenta de expressões suficientemente fortes para punir uma mulher que ria de um amor tão sincero quanto o meu. Em seguida, pensava que melhor teria sido, ao invés de lhe escrever, ir à sua casa durante o dia, pois assim poderia saborear as lágrimas que a faria derramar.

Enfim, perguntava-me o que ela iria me responder, já pronto em acreditar na desculpa que me daria.

Joseph retornou.

— E então? — perguntei-lhe.

— Senhor — respondeu-me —, madame estava deitada, ainda dormia, mas assim que acordar irão entregar-lhe a carta, e se tiver uma resposta, será trazida até aqui.

Ela dormia!

Estive vinte vezes a ponto de mandar buscar aquela carta, mas sempre pensava: “Talvez já lhe tenha sido entregue, e eu daria a impressão de me arrepender”.

Quanto mais parecia aproximar-se a hora em que me responderia, mais eu lamentava haver escrito.

Soaram dez horas, onze horas, meio-dia.

Ao meio-dia quase fui ao encontro combinado, como se nada tivesse acontecido. Por fim, já não sabia o que imaginar para livrar-me do círculo de ferro que me oprimia.

Então, com aquela superstição dos que esperam, pensei que, se saísse um pouco, ao voltar encontraria uma resposta. As respostas esperadas com impaciência sempre chegam quando não estamos em casa.

Saí com o pretexto de almoçar.

Em vez de almoçar no Café Foy, na esquina do bulevar, como tinha o hábito de fazer, preferi almoçar no Palais-Royal e passar pela Rua d’Antin. Cada vez que via de longe uma mulher, acreditava que fosse Nanine trazendo-me uma resposta. Caminhei pela Rua d’Antin sem encontrar sequer um mensageiro. Cheguei ao Palais-Royal e entrei no restaurante Véry.

O garçom me fez comer, ou melhor, serviu-me o que quis, porque nem comi.

Contra minha vontade, meus olhos se fixavam constantemente no relógio.

Voltei para casa, convencido de que iria encontrar uma carta de Marguerite.

O porteiro nada havia recebido. Esperava ainda algo de meu criado, mas este não vira ninguém desde o momento em que eu saíra.

Se Marguerite tivesse que me responder, teria respondido há mais tempo.

Então, comecei a me arrepender dos termos que empreguei na carta. Devia ter-me calado completamente, o que provavelmente lhe provocaria alguma inquietude, pois, vendo que eu não tinha ido ao encontro marcado na véspera, teria me perguntado as razões de minha ausência, e só então é que eu deveria apontá-las. Assim, ela não poderia fazer outra coisa senão se desculpar, e o que eu queria era que ela se desculpasse. Já sentia que, quaisquer que fossem os motivos que alegasse, eu acreditaria, e que qualquer coisa era preferível a não tornar a vê-la.

Cheguei a pensar que viria em pessoa à minha casa, mas as horas se passaram e ela não veio.

Decididamente, Marguerite não era como todas as mulheres, pois são poucas as que, recebendo uma carta semelhante à que eu acabara de escrever, não responderiam alguma coisa.

Às cinco horas, corri até Champs-Élysées.

Se a encontrar, pensei, fingirei um ar de indiferença, e ela ficará convencida de que já não penso mais nela.

Na esquina da Rua Royale a vi passar em sua carruagem. O encontro foi tão brusco que empalideci. Não sei se ela notou minha emoção, mas eu, fiquei tão perturbado que vi apenas a carruagem.

Não continuei a caminhada até Champs-Élysées. Consultei os cartazes dos teatros, pois ainda teria uma oportunidade de vê-la.

Havia uma estreia no Palais-Royal. Marguerite devia certamente ir assisti-la.

Às sete horas eu estava no teatro.

Todos os camarotes foram ocupados, mas Marguerite não apareceu.

Então saí do Palais-Royal e entrei em todos os teatros em que ela costumava ir, o Vaudeville, o Variedades, o Ópera Cômica.

Ela não estava em lugar algum.

Ou minha carta a entristecera demais para que pensasse em espetáculos, ou temia encontrar-se comigo, e queria evitar uma explicação.

Era isso o que minha vaidade me dizia quando encontrei Gaston no bulevar. Perguntou-me de onde eu vinha.

— Do Palais-Royal.

— E eu do Opéra — disse-me. — Pensei tê-lo visto lá.

— Por quê?

— Porque Marguerite estava lá.

— Ah! Ela estava lá?

— Estava.

— Sozinha?

— Não, com uma de suas amigas.

— Só isso?

— O conde de G… esteve um instante em seu camarote, porém ela foi embora com o duque. Várias vezes pensei que você fosse aparecer. Ao meu lado, uma poltrona ficou vazia a noite inteira, e eu tinha certeza de que estava reservada para você.

— Mas por que eu iria aonde vai Marguerite?

— Porque é seu amante, ora essa!

— E quem lhe disse isso?

— Prudence, com quem me encontrei ontem. Felicito-o por isso, meu caro, é uma bela amante, que nem todos que querem, conseguem. Preserve-a, é um privilégio.

Esta simples reflexão de Gaston mostrou-me o quanto minhas suscetibilidades eram ridículas.

Se o houvesse encontrado na véspera e me tivesse dito essas coisas, eu certamente não teria escrito a tola carta da manhã.

Estive a ponto de ir à casa de Prudence e de pedir-lhe para dizer a Marguerite que eu precisava falar com ela, mas temi que, para se vingar, dissesse que não podia me receber. Então voltei para minha casa, depois de passar pela Rua d’Antin.

Perguntei novamente ao porteiro se havia alguma carta para mim.

Nada!

“Ela deve ter desejado ver se eu tomaria alguma nova atitude e se retiraria o que havia dito em minha carta de hoje” pensei ao me deitar. “Mas vendo que não lhe escrevi, me responderá amanhã.”

Naquela noite, especialmente, me arrependi do que havia feito. Estava sozinho em casa, sem conseguir dormir, devorado pela inquietação e pelo ciúme, quando, se tivesse deixado que as coisas seguissem seu rumo natural, poderia estar ao lado de Marguerite, ouvindo palavras amáveis que só tinha ouvido duas vezes e que ardiam-me nos ouvidos em meio àquela solidão.

O que era terrível em minha situação é que o raciocínio me tirava a razão. De fato, tudo me dizia que Marguerite me amava. Primeiro, o plano de passar um verão no campo apenas comigo, depois, a certeza de que nada a forçava a ser minha amante, já que minha fortuna era insuficiente para suas necessidades e mesmo para seus caprichos. Para ela, só houvera a esperança de encontrar em mim uma afeição sincera, capaz de refazê-la dos amores mercenários em meio aos quais vivia, e desde o segundo dia eu destruía essa esperança, e pagava com uma ironia impertinente o amor aceito durante duas noites. O que eu fazia era, portanto, mais que ridículo, era indelicado. Por acaso pagara àquela mulher, para achar-me no direito de censurar sua vida? Retirando-me assim no segundo dia, não dava a impressão de ser um parasita do amor, que receia não receber o cardápio de seu jantar? Como! Há trinta e seis horas conhecia Marguerite. Há vinte e quatro me tornava seu amante, e já me fazia de suscetível. E, em vez de me sentir feliz por ela também estar comigo, queria ter tudo só para mim, e obrigá-la a cortar de uma vez as relações de seu passado, que significavam os ganhos do seu futuro. Que tinha eu a censurar-lhe? Nada. Escreveu-me que estava adoentada, quando poderia ter-me dito cruamente, com a horrível franqueza de certas mulheres, que receberia um amante. Em lugar de dar crédito a sua carta, em lugar de caminhar por todas as ruas de Paris, exceto a Rua d’Antin, em lugar de passar a noite com meus amigos e me apresentar no dia seguinte à hora que ela determinara, eu bancava o Otelo, espionava, e julgava puni-la não indo mais vê-la. Ela, ao contrário, devia estar encantada com essa separação, devia achar-me incrivelmente tolo, e seu silêncio não era nem rancor, era desdém.

Antes eu tivesse enviado a Marguerite um presente que não lhe deixasse dúvida alguma sobre minha generosidade, e que me permitiria acreditar, por tratá-la como a uma cortesã, que não lhe devia nada. Mas, ainda que eu julgasse ofender, com essa mínima aparência de comércio, senão o amor que ela possuía por mim, ao menos o amor que eu tinha por ela, e como esse amor era tão puro que não admitia ser partilhado, ele não podia pagar com um presente, por mais bonito que fosse, a felicidade que lhe fora proporcionada, por mais breve que esta tivesse sido.

Foi o que me repeti durante a noite, e o que, a cada instante, estive prestes a ir dizer a Marguerite.

Quando amanheceu, continuava sem dormir, tinha febre. Era-me impossível pensar em outra coisa além de Marguerite.

Como pode compreender, era preciso tomar uma decisão definitiva, que poria fim ou à mulher ou aos meus escrúpulos, se, todavia, ela ainda quisesse me receber.

Mas, como sabe, sempre adiamos uma decisão. Assim, não conseguindo ficar em casa, e não ousando ir à casa de Marguerite, busquei um meio de me aproximar dela, um meio que meu amor-próprio pudesse colocar na conta do acaso, se viesse a dar certo.

Eram nove horas. Corri à casa de Prudence, que perguntou-me a que devia aquela visita matinal.

Não me atrevi a dizer-lhe com franqueza o que me levava até lá. Respondi-lhe que havia saído bem cedo para reservar um lugar na diligência para C…, onde vivia meu pai.

— Tem muita sorte — disse-me — por poder sair de Paris com este tempo bom.

Olhei para Prudence perguntando-me se estaria zombando de mim.

Mas seu semblante estava sério.

— Vai dizer adeus a Marguerite?

— Não.

— Faz bem.

— Acha mesmo?

— Naturalmente. Já que rompeu com ela, de que serviria encontrá-la?

— Então soube do nosso rompimento.

— Ela me mostrou sua carta.

— E o que lhe disse?

— Disse o seguinte: “Minha cara Prudence, seu protegido não é gentil. Essas cartas, pensam-se, mas não se escrevem”.

— E em que tom lhe disse isso?

— Rindo, e acrescentou: “Ceou duas vezes em minha casa, e não me fez sequer uma visita de digestão”.

Este foi o efeito que minha carta e meus ciúmes produziram. Fui cruelmente humilhado na vaidade do meu amor.

— E o que fez ela ontem à noite?

— Foi ao Ópera.

— Eu sei. E depois?

— Veio cear em casa.

— Sozinha?

— Com o conde de G…, se não me engano.

Dessa forma, meu rompimento não havia mudado em nada os hábitos de Marguerite.

É por circunstâncias como essas que algumas pessoas nos dizem: “Devia parar de pensar nessa mulher que não o amava”.

— Ora, fico muito contente de ver que Marguerite não se aflige por mim — continuei, com um sorriso forçado.

— E ela tem toda razão. O senhor fez o que devia fazer, foi mais racional que ela, porque essa moça o amava, não fazia outra coisa senão falar no senhor, e teria sido capaz de qualquer loucura.

— Por que ela não me respondeu, já que me ama?

— Porque entendeu que estava errada em amá-lo. Além disso, às vezes as mulheres permitem que enganem seu amor, mas nunca que firam seu amor-próprio, e sempre se fere o amor-próprio de uma mulher quando, dois dias depois de se tornar seu amante, se abandona essa mulher, sejam quais forem os motivos para o rompimento. Conheço Marguerite, antes morrer que lhe responder.

— Que devo fazer agora?

— Nada. Ela o esquecerá, o senhor a esquecerá, e não terão nada a se recriminar.

— E se eu lhe escrevesse pedindo perdão?

— Prive-se disso, ela o perdoaria.

Quase saltei ao pescoço de Prudence.

Quinze minutos depois, estava em minha casa e escrevia a Marguerite:

 

Alguém que se arrependeu de uma carta que escreveu ontem, e que partirá

amanhã se não for perdoado, gostaria de saber a que horas poderá depositar

esse arrependimento a seus pés.

Quando estará sozinha? Pois, como sabe, as confissões devem ser feitas sem

testemunhas.

 

Dobrei essa espécie de madrigal em prosa e o enviei por Joseph, que entregou a carta à própria Marguerite. Ela lhe disse que responderia mais tarde.

Não saí por mais que uns instantes para ir jantar, e às onze horas da noite continuava sem resposta.

Resolvi então não sofrer por muito mais tempo e partir no dia seguinte.

Em consequência dessa resolução, convencido de que não dormiria se fosse me deitar, comecei a fazer minhas malas.