A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 13 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo XII

 

Às cinco horas da manhã, quando o dia começava a aparecer através das cortinas, Marguerite me disse: — Perdoe-me por expulsá-lo, mas é preciso. O duque vem todas as manhãs. Quando chegar, vão lhe dizer que estou dormindo, e talvez ele espere até que eu acorde. Segurei o rosto de Marguerite em minhas mãos, seus cabelos desalinhados caiam em volta delas, e dei-lhe um último beijo, dizendo-lhe: — Quando tornarei a vê-la? — Escute — respondeu ela —, pegue a pequena chave dourada que está sobre a lareira, vá abrir aquela porta, traga a chave de volta e vá embora. Durante o dia receberá uma carta e minhas ordens, e sabe que deve obedecê-las cegamente. — Sim, mas, e se eu pedisse uma coisa? — O quê? — Que deixasse essa chave comigo? — Nunca fiz por ninguém o que está me pedindo. — Pois então faça por mim, porque juro que não a amo como os outros a amavam. — Bem, fique com ela, mas o previno de que só depende de mim que essa chave lhe sirva para alguma coisa. — Por quê? — Há trincos pelo lado de dentro da porta. — Malvada! — Vou mandar tirá-los. — Então me ama um pouquinho? — Não sei como isso acontece, mas me parece que sim. Agora vá embora. Estou caindo de sono.

Ficamos por alguns segundos nos braços um do outro, e então parti.

As ruas estavam desertas, a grande cidade ainda dormia, um suave frescor percorria aqueles bairros que o ruído dos homens ia invadir horas mais tarde.

Tive a impressão de que essa cidade adormecida me pertencia. Eu procurava na memória os nomes de quem, até então, eu havia invejado a felicidade, mas não me lembrava de ninguém sem que me julgasse mais feliz.

Ser amado por uma jovem casta, ser o primeiro a lhe revelar o estranho mistério do amor é, decerto, uma grande felicidade, mas é a coisa mais simples do mundo. Apoderar-se de um coração que não está acostumado a conquistas é como entrar em uma cidadela aberta e sem defesa. A educação, o sentimento do dever e da família são fortíssimas sentinelas, mas não há sentinelas tão vigilantes que não se deixem enganar por uma jovenzinha de dezesseis anos, a quem, pela voz do homem que ama, a natureza dá os primeiros conselhos de amor, os quais, quanto mais puros parecem, mais ardentes são.

Quanto mais a jovem crê no bem, mais facilmente se abandona, se não ao amante, pelo menos ao amor, pois, não tendo desconfiança, também não tem força, e ser amado por ela é um triunfo que todo homem de vinte e cinco anos poderá conquistar quando quiser. Tanto isso é verdade que basta ver como essas jovens estão rodeadas de vigilância e proteção! Os conventos não têm muros suficientemente altos, as mães, cadeados suficientemente fortes, a religião, deveres suficientemente contínuos para manter todos esses encantadores pássaros presos em suas gaiolas, sobre as quais sequer é dado o trabalho de se lançar flores. Quanto a elas, como devem desejar esse mundo que lhes é escondido! Como devem acreditar que ele seja tentador! Como devem escutar a primeira voz que, por entre as grades, vem lhes revelar os segredos e abençoar a mão que levanta, pela primeira vez, uma ponta do véu misterioso!

Mas ser realmente amado por uma cortesã é uma vitória muito mais difícil. Nessas mulheres, o corpo desgastou a alma, os sentidos queimaram o coração, a devassidão endureceu os sentimentos. As palavras que lhes são ditas há muito tempo já as ouviram. Os meios que são empregados, já os conhecem todos. O próprio amor que inspiram, já o venderam. Elas amam por ofício, não por encantamento. Estão mais protegidas por seus cálculos que uma virgem por sua mãe e seu convento. E inventaram a palavra capricho para designar esses amores sem comércio que se permitem ter de tempos em tempos como descanso, como desculpa ou como consolo. São comparáveis a esses usurários que exploram mil indivíduos e que acreditam se redimir emprestando algum dia vinte francos a um pobre diabo que morre de fome, sem exigir-lhe os juros e sem pedir-lhe recibo.

Depois, quando Deus permite o amor a uma cortesã, esse amor, que em princípio parece um perdão, quase sempre se torna um castigo para ela. Não há absolvição sem penitência. Quando uma criatura, de quem todo o passado é recriminável, vê-se repentinamente tomada por um amor profundo, sincero, irresistível, do qual jamais se julgou capaz, e mais ainda, quando confessou esse amor, como o homem assim amado a domina! Como se sente ele forte com o cruel direito de dizer-lhe: “Não fazes por amor nada além do que já não fizeste por dinheiro”.

Então, elas não sabem que provas dar. Uma criança, diz a fábula, após ter-se divertido por muito tempo a gritar por socorro, só para alarmar os que trabalhavam no campo, um belo dia foi devorada por um urso, pois aqueles que tantas vezes foram por ela enganados não deram crédito quando seus gritos eram verdadeiros. Assim acontece com essas infelizes moças quando amam seriamente. Mentiram tantas vezes que ninguém acredita mais nelas, e são, em meio ao remorso, devoradas por seu amor.

Daí esses grandes devotamentos, esses austeros retiros de que algumas foram exemplo.

Mas quando o homem que inspira esse amor redentor possui uma alma generosa o bastante para aceitá-la sem recordar o passado, quando se abandona a ela, quando, enfim, ama como é amado, esse homem encerra de uma só vez todas as emoções terrestres, e depois desse amor seu coração estará fechado para qualquer outro.

Essas reflexões eu não as fazia na manhã em que eu retornava à minha casa. Ou não poderiam ter sido senão o pressentimento do que ia me acontecer, e, apesar do meu amor por Marguerite, não entrevia semelhantes consequências. Essas reflexões faço-as hoje. Estando tudo irremediavelmente acabado, elas resultam naturalmente daquilo que ocorreu.

Mas, retornemos ao primeiro dia daquela ligação. Quando voltava para casa, sentia uma louca alegria. Sonhando que as barreiras colocadas por minha imaginação entre Marguerite e eu haviam desaparecido, que eu a possuía, que ocupava um pouco de seus pensamentos, que tinha em meu bolso a chave de seu apartamento e ainda o direito de me servir dessa chave, estava feliz da vida, orgulhoso de mim, e amava a Deus por permitir tudo isso.

Um dia, um rapaz caminha por uma rua, passa por uma mulher, olha para ela, vira-se, segue em frente. Essa mulher, que ele não conhece, tem prazeres, mágoas, amores em que ele não toma parte. Ele não existe para ela e se ele lhe falasse, talvez ela risse dele, como Marguerite fizera comigo. Semanas, meses, anos se passam, e de repente, depois de seguirem cada um seu destino de modos diferentes, a lógica do acaso os coloca frente a frente. Essa mulher torna-se amante desse homem e o ama. Como? Por quê? Suas duas existências agora formam apenas uma. A intimidade mal começa a existir, mas lhes parece sempre ter existido, e tudo o que aconteceu antes se apaga da memória dos dois amantes. É curioso, temos que admitir.

Quanto a mim, já não me lembrava de como tinha sido minha vida até a véspera. Todo o meu ser exultava de alegria ao lembrar-me das palavras trocadas durante aquela primeira noite. Ou Marguerite era hábil em enganar, ou tinha por mim uma dessas súbitas paixões que se revelam desde o primeiro beijo, e que às vezes morrem assim como nasceram.

Quanto mais pensava nisso, mais me dizia que Marguerite não tinha razão alguma para fingir um amor que não estivesse sentindo, e me dizia também que as mulheres têm duas maneiras de amar, que podem resultar uma da outra: elas amam com o coração ou com os sentidos. Muitas vezes, uma mulher tem um amante para obedecer apenas à vontade de seus sentidos, e, sem que espere por isso, aprende o mistério do amor imaterial, passando a viver apenas pelo coração. Outras vezes, uma jovem que não procura no casamento mais que a união de duas afeições puras, recebe a imprevista revelação do amor físico, esse vigoroso ápice das mais castas sensações da alma.

Adormeci em meio a esses pensamentos. Fui acordado por uma carta de Marguerite, carta contendo estas palavras:

 

Eis minhas ordens: Esta noite no Vaudeville. Venha durante o terceiro

intervalo.

 

M. G.

Guardei o bilhete em uma gaveta, a fim de ter sempre a realidade à mão caso começasse a duvidar, como me acontecia em alguns momentos.

Não me dizia para visitá-la durante o dia, eu não ousava apresentar-me em sua casa. Mas era tamanho meu desejo de encontrá-la antes da noite que fui a Champs-Élysées onde, como na véspera, a vi passar e passear.

Às sete horas, eu estava no Vaudeville.

Nunca havia entrado tão cedo em um teatro.

Todos os camarotes iam sendo ocupados, um após o outro. Apenas um continuava vazio, aquele ao rés do chão.

No início do terceiro ato, ouvi quando a porta do camarote se abriu, mantinha o olhar constantemente fixo nele. Marguerite apareceu.

Colocou-se imediatamente na poltrona da frente, procurou na plateia, viu-me, e agradeceu-me com o olhar.

Estava maravilhosamente bela naquela noite.

Seria eu a causa daquela elegância? Será que me amaria tanto para acreditar que, quanto mais a achasse bela, mais feliz eu estaria? Eu ainda não sabia. Mas se tivesse sido essa a sua intenção, obtivera êxito, pois quando se mostrou, as cabeças ondularam na mesma direção, e até o ator em cena olhou para aquela que impressionava tanto os espectadores apenas com sua aparição.

E eu tinha a chave do apartamento daquela mulher, e em três ou quatro horas ela seria minha de novo.

Censuramos os que se arruínam por causa de atrizes e de cortesãs. O que me espanta é que não façam por elas vinte vezes mais loucuras. É preciso ter vivido, como eu, esse tipo de vida para saber o quanto as pequenas vaidades de cada dia, que elas concedem a seu amante, se fixam fortemente no coração, pois não há outra palavra que o amor que ele nutre por ela.

Prudence instalou-se em seguida, e um homem, em quem reconheci o conde de G…, sentou-se ao fundo.

Ao vê-lo, um arrepio passou-me pelo coração.

Sem dúvida, Marguerite percebeu a impressão que causava em mim a presença daquele homem em seu camarote, pois sorriu-me outra vez e, dando as costas ao conde, pareceu muito atenta à peça. No terceiro intervalo, virou-se e disse duas palavras; o conde saiu, e Marguerite fez-me sinal para que fosse até ela.

— Boa noite — disse eu dirigindo-me a Marguerite e a Prudence.

— Sente-se.

— Mas vou tomar o lugar de alguém. O senhor conde de G… não vai retornar?

— Sim. Pedi-lhe que comprasse doces, para que pudéssemos conversar um instante. Mme. Duvernoy é de confiança.

— Sim, meus filhos — disse esta —, fiquem tranquilos, não direi nada.

— O que tem esta noite? — disse Marguerite levantando-se e indo para a sombra do camarote beijar-me a testa.

— Estou um pouco indisposto.

— Precisa deitar-se — retrucou ela com aquele ar irônico tão adequado a seu caráter sagaz e espirituoso.

— Onde?

— Em sua casa.

— Sabe que não dormirei lá.

— Então não venha fazer cara feia aqui só porque viu um homem dentro do meu camarote.

— Não é por isso.

— É sim, conheço isso de longe, e não está certo. Portanto não se fala mais nisso. Depois do espetáculo vá à casa de Prudence e espere até que alguém o chame. Entendeu?

— Sim.

E eu poderia desobedecer?

— Ainda me ama? — continuou ela.

— Que pergunta!

— Pensou em mim?

— O dia inteiro.

— Sabe que realmente tenho medo de me apaixonar por você? Pergunte a Prudence.

— Ah! — exclamou a gorda mulher. — Chega a cansar.

— Agora volte para sua poltrona. O conde vai chegar e é inútil que o veja aqui.

— Por quê?

— Porque é desagradável para você ter que encontrá-lo.

— Não. Mas se me tivesse dito que desejava vir ao Vaudeville esta noite, eu poderia, tanto quanto ele, ter-lhe reservado o camarote.

— Infelizmente, ele o fez sem que eu lhe pedisse, oferecendo-se para me acompanhar. Como bem sabe, eu não podia recusar. Tudo o que podia fazer era escrever-lhe dizendo onde eu estaria, para que me visse e porque eu mesma teria prazer em vê-lo mais cedo. Mas já que é assim que me agradece, aproveitarei a lição.

— Estou errado, me perdoe.

— Ainda bem. Volte tranquilamente ao seu lugar e, acima de tudo, não banque o ciumento.

Beijou-me novamente, e eu saí.

No corredor encontrei o conde, que retornava.

Voltei à minha poltrona.

Por fim, a presença do conde de G… no camarote de Marguerite era uma coisa bem simples. Ele havia sido seu amante, reservava-lhe um camarote, acompanhava-a ao espetáculo, tudo isso era bastante natural. E tendo por amante uma jovem como Marguerite, eu devia aceitar seus costumes.

Nem por isso deixei de me sentir muito infeliz pelo resto da noite, e ia embora muito triste após ter visto Prudence, o conde e Marguerite subirem na caleche que os esperava à porta.

Porém, quinze minutos depois eu já estava em casa de Prudence. Ela acabara de chegar.