A Dama das Camélias

Alexandre Dumas Filho · Capítulo 22 de 28

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A Dama das Camélias

Capítulo XXI

 

–Finalmente! — exclamou ela saltando-me ao pescoço. — Você chegou! Como está pálido! Contei-lhe a cena com meu pai. — Ah, meu Deus! Eu desconfiava — disse ela. — Quando Joseph veio nos anunciar a chegada de seu pai, estremeci como à notícia de uma desgraça. Meu pobre amigo! E sou eu quem lhe causa todas essas mágoas. Talvez fosse melhor me deixar a indispor-se com seu pai. Embora eu não tenha feito nada a ele. Nós vivemos bem tranquilos, e vamos viver mais tranquilos ainda. Ele sabe perfeitamente que você precisa ter uma amante, e deveria ficar satisfeito que seja eu, porque o amo e não ambiciono mais do que a sua situação permite. Você lhe disse de que forma arranjamos nosso futuro? — Sim, e foi o que mais o irritou, pois viu nessa determinação a prova de nosso amor mútuo. — O que fazer agora? — Permanecer juntos, minha boa Marguerite, e deixar passar essa tempestade. — Será que vai passar? — Tem que passar. — Mas seu pai não insistirá? — Que quer que ele faça? — Como posso saber tudo o que um pai pode fazer para que seu filho o obedeça? Fará você lembrar de minha vida passada e talvez me dê a honra de inventar alguma nova história para que você me abandone. — Você sabe bem que a amo. — Sim, mas o que você também sabe é que, cedo ou tarde, será preciso obedecer a seu pai, e talvez você acabe por deixar-se convencer.

— Não, Marguerite, eu é que irei convencê-lo. São os mexericos de alguns de seus amigos que causam essa grande cólera. Mas ele é bom, ele é justo, ele reexaminará sua primeira impressão. Mas também, no fim das contas, que me importa!

— Não diga isso, Armand. Prefiro qualquer coisa a que acreditem que o indisponho com sua família. Deixe passar o dia de hoje, e amanhã retorne a Paris. Seu pai terá refletido de um lado, assim como você de outro, e talvez vocês se entendam melhor. Não contrarie os princípios dele, demonstre fazer alguma concessão aos seus desejos. Aparente não importar-se tanto comigo, e ele deixará as coisas como estão. Tenha esperança, meu amigo, e fique bem certo de uma coisa, que, aconteça o que acontecer, sua Marguerite continuará sendo sua.

— Você jura?

— Preciso jurar?

Como é doce deixar-se persuadir por uma voz que amamos! Marguerite e eu passamos o dia todo repetindo sobre nossos planos, como se houvéssemos compreendido a necessidade de realizá-los mais depressa. A cada minuto esperávamos por algum acontecimento, mas felizmente o dia passou sem trazer nenhuma novidade.

No dia seguinte, saí às dez horas, e cheguei ao hotel por volta de meio-dia.

Meu pai já havia saído.

Fui até minha casa, onde esperava que ele talvez tivesse ido. Ninguém aparecera. Fui ao tabelião. Ninguém!

Retornei ao hotel, e o aguardei até às seis horas. M. Duval não apareceu.

Retomei o caminho de Bougival.

Encontrei Marguerite, não mais me esperando como na véspera, mas sentada junto ao fogo, como já o exigia a estação.

Estava tão mergulhada em suas reflexões que me aproximei de sua poltrona sem que me ouvisse e sem que se voltasse para mim. Quando pousei meus lábios em sua testa, estremeceu como se esse beijo a tivesse despertado em sobressalto.

— Você me assustou — disse-me. — E seu pai?

— Não o vi. Não sei o que isso quer dizer. Não o encontrei nem no hotel, nem em qualquer dos locais onde havia a possibilidade de que ele estivesse.

— Vamos, amanhã terá de recomeçar.

— Prefiro esperar que ele me solicite. Já fiz, creio, tudo o que devia fazer.

— Não, meu amigo, não é o bastante, precisa procurar novamente por seu pai, principalmente amanhã.

— Por que amanhã mais do que em outro dia?

— Porque — disse Marguerite, que me pareceu corar um pouco a essa pergunta —, porque uma insistência de sua parte vai parecer mais viva e poderá nos resultar em um perdão mais pronto.

Todo o restante do dia, Marguerite esteve preocupada, distraída, triste. Eu era obrigado a repetir duas vezes o que lhe dizia para obter uma resposta. Ela justificava essa preocupação com os temores que lhe inspiravam em relação ao futuro dos acontecimentos dos dois últimos dias.

Passei a noite tranquilizando-a, e no dia seguinte ela me fez partir com uma persistente inquietação que eu não conseguia entender.

Como na véspera, meu pai estava ausente. Mas, antes de sair, me havia deixado esta mensagem:

 

“Se vier hoje novamente para me encontrar, espere-me até as quatro horas.

Se às quatro horas eu não estiver de volta, retorne amanhã para jantar comigo.

Preciso lhe falar”.

 

Esperei até a hora mencionada. Meu pai não apareceu. Parti.

Na véspera, eu encontrara Marguerite triste, naquele dia a encontrei febril e agitada. Vendo-me entrar, saltou-me ao pescoço, mas chorou longamente em meus braços.

Questionei-a sobre essa dor súbita, cuja progressão me alarmava. Ela não me deu nenhuma razão concreta, alegando tudo o que uma mulher pode alegar quando não quer dizer a verdade.

Quando ficou mais calma, contei-lhe os resultados de minha viagem. Mostrei-lhe a carta de meu pai, fazendo-a enxergar que podíamos esperar disso algum bem.

Em vista dessa carta e da reflexão que fiz, suas lágrimas aumentaram a tal ponto que chamei Nanine e, temendo uma crise nervosa, deitamos a pobre moça, que chorava sem dizer uma sílaba, mas que segurava minhas mãos e as beijava a todo instante.

Perguntei a Nanine se, durante minha ausência, sua patroa havia recebido uma carta ou uma visita que pudesse ter motivado o estado em que se encontrava, mas Nanine respondeu-me que ninguém viera e que nada lhe fora deixado.

No entanto, desde a véspera acontecia algo muito inquietante, que Marguerite escondia de mim.

Pareceu um pouco mais calma à noite, e fazendo-me sentar ao pé de sua cama, renovou-me longamente a certeza de seu amor. Depois sorriu-me, mas com esforço, pois, mesmo contra sua vontade, seus olhos se cobriam de lágrimas.

Empreguei todos os meios para fazê-la confessar a verdadeira causa daquela tristeza, mas obstinou-se em dar-me sempre as vagas razões das quais já lhe falei.

Acabou por dormir em meus braços, mas um desses sonos que mais fatigam do que repousam o corpo. De tempos em tempos, soltava um gemido, despertava em sobressalto, e depois de certificar-se de que eu estava de fato a seu lado, fazia-me jurar que sempre iria amá-la.

Eu não entendia essas intermitências de sofrimento que se prolongaram até a manhã. Então Marguerite entrou numa espécie de letargia. Havia duas noites que não dormia.

Esse repouso não teve uma longa duração.

Por volta de onze horas, Marguerite acordou, e vendo-me de pé, olhou à sua volta e exclamou:

— Já está de saída?

— Não — respondi tomando suas mãos —, mas quis deixá-la dormir; ainda é cedo.

— A que horas vai a Paris?

— Às quatro horas.

— Tão cedo? Mas até lá vai ficar comigo, não vai?

— Claro, não é meu costume?

— Que felicidade! Nós vamos almoçar? — continuou ela parecendo distraída.

— Se você quiser.

— E depois vai me abraçar até o momento de partir?

— Sim, e voltarei o mais cedo possível.

— Voltará? — disse ela, fitando-me com olhos assustados.

— Naturalmente.

— Certo, voltará esta noite, e eu esperarei por você como sempre, e continuará me amando, e seremos felizes como temos sido desde que nos conhecemos.

Todas essas palavras foram ditas em tom tão convulsivo, pareciam esconder um pensamento doloroso tão contínuo, que eu temia a cada instante ver Marguerite entrar em delírio.

— Escute — eu lhe disse —, você está doente, não posso deixá-la assim. Vou escrever a meu pai que não me espere.

— Não! Não! Exclamou ela bruscamente. — Não faça isso. Seu pai ainda me acusaria de impedir que você vá ao seu encontro quando ele quer vê-lo. Não, não, é preciso que você vá, é preciso! Além disso, não estou doente, estou muito bem disposta. É que tive um sonho ruim, e não despertei muito bem.

A partir desse momento, Marguerite tentou parecer mais alegre. Não chorou mais.

Quando chegou a hora em que eu devia partir, beijei-a e perguntei-lhe se queria acompanhar-me até a estação de trem. Esperava que a caminhada a distraísse e que um pouco de ar lhe fizesse bem.

Desejava, acima de tudo, ficar o máximo possível de tempo com ela.

Ela aceitou, colocou um casaco e me acompanhou, junto com Nanine, para não retornar sozinha.

Por vinte vezes estive a ponto de não partir. Mas a esperança de logo regressar e o receio de indispor novamente meu pai contra mim deram-me forças. O trem me levou.

— Até à noite — eu disse a Marguerite ao deixá-la. Ela não respondeu.

Uma vez ela já não me respondera a essas mesmas palavras, e o conde de G…, como se lembra, passou a noite em casa dela. Mas esse tempo ia tão longe que parecia apagado de minha memória, e se eu tinha medo de alguma coisa, certamente não era de que Marguerite me enganasse.

Chegando em Paris, corri à casa de Prudence para pedir-lhe que fosse ver Marguerite, esperando que seu bom humor e sua alegria a distraíssem.

Entrei sem me fazer anunciar, e encontrei Prudence se arrumando.

— Ah! — exclamou ela parecendo apreensiva. — Marguerite veio com você?

— Não.

— Como está ela?

— Não está bem.

— Então ela não virá?

— Ela deveria vir?

Mme. Duvernoy enrubesceu, e me respondeu com certo embaraço:

— Eu quis dizer: já que você veio a Paris, será que ela não virá para encontrá-lo?

— Não.

Olhei para Prudence. Ela baixou os olhos, e em sua fisionomia pensei reconhecer um receio de ver minha visita se prolongar.

— Na verdade vinha lhe pedir, minha cara Prudence, se não tiver nada para fazer, que vá visitar Marguerite esta noite. Você lhe faria companhia, e poderia dormir por lá. Nunca a vi do jeito que estava hoje, e tenho medo de que fique doente.

— Vou jantar fora — respondeu-me Prudence — e não poderei visitar Marguerite esta noite. Mas irei vê-la amanhã.

Despedi-me de Mme. Duvernoy, que me parecia quase tão preocupada quanto Marguerite, e fui encontrar meu pai, cujo primeiro olhar examinou-me com atenção.

Estendeu-me a mão.

— Suas duas visitas me alegraram, Armand — disse-me —, deram-me a esperança de que você teria refletido por seu lado como refleti pelo meu.

— Posso lhe perguntar, meu pai, qual foi o resultado de suas reflexões?

— O resultado foi, meu amigo, que eu dera exagerada importância aos relatos que me haviam feito, e que me prometi ser menos severo com você.

— O que está dizendo, meu pai! — exclamei com alegria.

— Estou dizendo, meu querido filho, que todo rapaz precisa ter uma amante, e que, segundo novas informações, prefiro saber que é amante de Mlle. Gautier que de qualquer outra.

— Meu excelente pai! Como o senhor me deixa feliz!

Conversamos assim por alguns instantes, depois nos sentamos à mesa. Meu pai foi agradável todo o tempo que durou o jantar.

Eu tinha pressa de retornar a Bougival para contar a Marguerite essa maravilhosa mudança. Olhava a todo instante para o relógio.

— Está olhando as horas — dizia-me meu pai —, está ávido para me deixar. Oh, jovens! Vocês sempre sacrificam as afeições sinceras pelas duvidosas?

— Não diga isso, meu pai! Marguerite me ama, tenho certeza.

Meu pai não respondeu nada. Não parecia duvidar nem acreditar.

Insistiu muito para que eu passasse a noite toda com ele, e para que eu partisse apenas no dia seguinte. Mas eu deixara Marguerite indisposta, disse-lhe, e pedia-lhe permissão para ir encontrá-la cedo, prometendo-lhe voltar no dia seguinte.

Fazia tempo bom. Ele quis me acompanhar até a plataforma. Nunca me sentira tão feliz. O futuro me aparecia tal como buscava vê-lo há muito tempo.

Amava meu pai mais do que nunca.

No momento em que eu ia partir, ele insistiu uma última vez para que eu ficasse. Recusei.

— Então você a ama muito? — perguntou-me.

— Como um louco.

— Então vá! — E passou a mão pela minha testa como se quisesse afugentar dali algum pensamento, em seguida abriu a boca como se fosse dizer-me alguma coisa. Mas limitou-se a apertar minha mão, e deixou-me bruscamente gritando:

— Então, até amanhã!