A democracia inconclusa: um estudo da reforma sanitária brasileira
Conclusão
A escolha teórica dos movimentos sociais em saúde no processo
de reformulação e de implementação das políticas de saúde teve a
pretensão de deslocar o foco de análise da política de saúde,
enquanto política social, da esfera do Estado como lugar privilegiado
para se pensar a política pública.
Situados nessa perspectiva, penetramos na formação, nos
comportamentos políticos e na atuação desses movimentos no
transcurso de um momento da história política do País em que as
tensões e contradições sociais e políticas exacerbadas pelo regime
autoritário, no que se refere às relações Estado/sociedade,
buscaram vazão através da transição à democracia. Foi
precisamente nessa passagem e na redefinição de áreas de política
social, como a da saúde, que se localizaram os novos atores sociais
e os protagonistas da cena democrática, confundindo-se com o
próprio processo de instauração da democracia.
Tal decisão levou a que se trabalhasse com três focos de análise
simultaneamente e a deslocar ou priorizar temporariamente um
sobre os outros: os movimentos sociais em saúde, a construção da
democracia e a política de saúde.
Num enquadramento estritamente teórico do nosso múltiplo
objeto, nos parece necessário estabelecer algumas considerações.
Os movimentos sociais em saúde fazem parte de movimentos
sociais e com eles compartilham as novas formas de associativismo
relacionadas à formação de identidades coletivas. Estas são
sustentadas em laços de solidariedade originados das condições de
vida de populações carentes – seja em moradia, transporte, saúde,
infraestrutura urbana, educação etc. – ou em situações que afetam
as condições e as modalidades de vida da classe média – meio
ambiente, violência urbana, discriminação de minorias,
pauperização de setores profissionais etc.
Neste sentido, os movimentos sociais em saúde, embora não
constituindo fenômeno restrito ou específico do setor da saúde, têm
elemento distintivo que os caracteriza, que é o fato de se originarem numa área específica de política social, situação que não se
verificou com a mesma especificidade e alcance em nenhum outro
setor da política pública.
A área de atuação desses movimentos restringiu-se às questões
relativas à saúde da população e às políticas de saúde. No entanto,
a discussão política ultrapassou essa esfera, questionando as
relações entre Estado e movimento, a política governamental e a
autonomia e a institucionalização dos mesmos.
Constata-se que os movimentos sociais em saúde contribuíram
para a ampliação do exercício da política, levando ao interior do
Estado uma problemática que dele estava ausente, ao mesmo
tempo que aproximou das decisões relativas à política de saúde
tradicionalmente reservadas ao Estado os destinatários da mesma.
Dessa forma, o movimento social exerceu papel protagonista no
encurtamento da distância entre a esfera privada e a ordem pública.
O enfoque teórico pelo qual nos aproximamos da compreensão
do Movimento Social em Saúde incorporou as diversas concepções
relativas à ação coletiva e à formação de identidades políticas que
ajudaram a explicar as motivações que levaram atores coletivos e
individuais a se disporem ou não a agir coletivamente na
reformulação das políticas de saúde, dentro do contexto maior da
transição à democracia.
A idéia defendida em relação ao conceito de movimento social
implica uma novidade talvez sutil, mas nem por isso menos
importante, na medida em que envolve a noção de comportamento
coletivo. Dito de outra maneira, essa categoria refere-se, por um
lado, a uma modalidade particular de associação caracterizada pela
fluidez organizativa, pela falta de institucionalização e,
conseqüentemente, pela ausência de regras formais que definam
hierarquias e vínculos entre os seus membros.
Por outro lado, diz respeito ao modo como viabiliza demandas de
teor político-reivindicativo, através da mobilização ou da ação
coletiva, na qual a disposição para a ação é fortemente marcada
pela presença do ‘coletivo’. Isso complementa o conceito, visto que
ajuda a identificar os movimentos sociais pelo comportamento
político que os agrupamentos sociais desenvolvem.
Enfoques teóricos diversos recebem articulação plena, se olhados
da perspectiva da definição do nosso objeto de pesquisa. Analisar
as políticas sociais da perspectiva dos atores sociais envolvidos nas
decisões políticas e como destinatários das mesmas levaram a
reconstruir um campo teórico que se expandisse para além das
teorias do Estado e do papel das políticas sociais nessa esfera. Ao
mesmo tempo que não podíamos deixar de incluir este campo de
pensamento, éramos obrigados a deslocar o eixo de reflexão da
política social para o âmbito das sociedades.
Recriar uma perspectiva teórica na relação entre atores e política
no contexto histórico delimitado pelo nosso objeto de pesquisa,
tornou figura principal o que era pano de fundo, fazendo com que o
processo de estabelecimento de regime democrático na abordagem
da transição à democracia ganhasse papel fundamental na análise
da relação entre os movimentos sociais em saúde e as políticas de
saúde.
Assim, discutimos a democracia nos seus aspectos constitutivos e
em suas transformações impreteríveis nos pares de relações esfera
pública/privada, indivíduo/sociedade, eqüidade/justiça social, como
condição necessária para o estabelecimento de regime democrático
capaz de assentar as bases de novo padrão das relações
Estado/sociedade, no qual as políticas sociais e em especial as de
saúde – por lidar com a vida e a morte –, em sociedades
profundamente desiguais, exercem papel fundamental para a
constituição da ordem democrática.
A idéia de democracia assinalada ao longo deste livro sustenta-se
na de constituição de sujeitos democráticos capazes de reproduzir
comportamentos e ações políticas que levem em conta a existência
do ‘outro’. Trata-se da promoção de democracias com extensiva
participação social.
Por outro lado, em situações de imensas desigualdades
socioeconômicas, das quais o Brasil é um exemplo, num mundo que
se aproxima cada vez mais da privação e da injustiça social,
verifica-se ilusório ignorar o papel que o Estado tem a desempenhar
na fundação de novo modelo de democracia que vá além da
instalação de um sistema político democrático.
Neste sentido, as políticas sociais, e dentre essas,
particularmente, a Reforma Sanitária, constituem elementos centrais
na democratização do Estado, tendo em vista que veiculam a
participação social em área tradicionalmente restrita – ou seja, a da
implementação de políticas – e promovem a alocação e
redistribuição progressiva de benefícios que contribuem para o
estabelecimento da justiça social progressiva.
De fato, ao discutirmos a Reforma Sanitária na moldura do
processo de formação e implementação de políticas sociais, ao
mesmo tempo que sinalizávamos os constraints estruturais
relacionados ao próprio processo de acumulação no Estado
capitalista, enfatizávamos a presença de ‘nível singular’ de análise
das políticas sociais, onde aspectos de inovação política ampliaram
o espaço social e a luta política na arena estatal, tanto nos
procedimentos burocrático-administrativos como nas relações de
força societária que a implementação da política foi capaz de
desencadear.
No entanto, a questão de importância fundamental, em nossa
opinião, é o papel singular que adquirem as políticas sociais devido
a este ser, precisamente, campo propício à incorporação de
inovações políticas e que, no período estudado, mostrou-se
ameaçado pelas políticas de ajuste econômico das décadas
recentes, o que retraiu as políticas sociais a sua manifestação
mínima.
O papel regulatório do Estado na relação com o mercado e o
setor privado, assim como sua intervenção enquanto promotor do
desenvolvimento econômico e da justiça social, requer Estado forte
– contrariamente à idéia neoliberal do Estado mínimo – e lhe impõe
novas atribuições e exigências. Dentre estas, o desmonte e o
redimensionamento da máquina estatal e a criação de centros de
decisão política em que tenham assento e representação os
diversos interesses sociais em jogo, na sociedade, relacionados a
políticas específicas. E implica, fundamentalmente, sensibilizar o
Estado para experiências locais de gestão, especialmente nas áreas
de política social, de modo que a democracia se confunda cada vez
mais com a eqüidade social e que as mudanças se configurem em
objeto de reflexão, discussão e avaliação contínuas, principalmente no que concerne a resultados e à efetividade obtidos através das
mudanças implementadas.
O conceito de cidadania é central à perspectiva que nos interessa
no processo de constituição de um regime democrático, quando os
processos de reformas abrangentes das políticas sociais constituem
a condição de possibilidade para o estabelecimento de sociedade
mais justa e eqüitativa. Razão pela qual, ao discutir a cidadania,
procuramos denotar o sentido e a compreensão embutidos na
concepção teórica que lhe deu origem e apontar as contradições
que o conceito denunciou a partir do desenvolvimento histórico, já
não do conceito, mas da cidadania no mundo moderno.
Concluímos, assim, que a eqüidade – resultante do percurso
histórico da consecução de direitos de cidadania, como conquista da
sociedade ou mais especificamente da classe operária nas sociais-
democracias dos países de capitalismo avançado – está
estreitamente relacionada à idéia de justiça social enquanto valor
ético-moral impreterível ao estabelecimento da democracia. A
construção da democracia refere-se à construção do que se tem
chamado de “democracia radical” (Mouffe, 1992:238):
A distinção privado (liberdade individual)/público (res publica) tal como a
separação indivíduo/cidadão não correspondem a esferas separadas. Não é
possível dizer onde termina minha obrigação como cidadão e onde começa a
minha liberdade como indivíduo. Estas duas identidades existem em
permanente tensão e não podem ser reconciliadas. Mas esta é precisamente
a tensão entre liberdade e igualdade que caracteriza a democracia moderna.
A essência deste regime e de quaisquer tentativas de trazer a harmonia
completa, ou seja, compreendê-la como democracia ‘verdadeira’ só levaria a
sua destruição. Esta é a razão pela qual o projeto de democracia radical e
plural reconhece a impossibilidade da compreensão de democracia plena e a
realização última da comunidade política. Seu objetivo é usar recursos
simbólicos da tradição democrática liberal para lutar pelo aprofundamento da
revolução democrática, sabendo que este é processo sem fim. Minha tese é
que a cidadania ideal poderia contribuir enormemente para a extensão dos
princípios de liberdade e igualdade. Unindo os direitos ideais e o pluralismo
com as idéias do espírito público e o engajamento político-ético, uma nova
concepção democrática moderna da cidadania poderia restaurar a dignidade
da política e prover o veículo para a construção de uma hegemonia
democrática radical.
A concepção de democracia passa, assim, a denotar um processo
no qual o sentido não é dado pela adscrição e pela procura de
modelo acabado, seja doutrina econômica a implantar ou proposta
de sociedade. Trata-se de condição necessária ou, dito de outra
maneira, da amplitude com que a democracia é capaz de viabilizar
valores ético-morais, isto é: eqüidade e justiça social, enquanto
bastiões da dignidade humana; respeito à pluralidade cultural,
étnica, religiosa, preferências sexuais, de gênero etc. e a liberdade
em todas as manifestações do-que-fazer humano. Porém, os
obstáculos a uma democracia que incorpore tais valores e
comportamentos políticos decorrentes dos mesmos – um regime
democrático societário – afiguram-se intransponíveis.
O conceito de “regimes de democratização parcial” (Schmitter,
1991a) foi de grande importância para pensarmos – considerando
as dificuldades expostas anteriormente – a constituição da
democracia como estabelecimento de estruturas e comportamentos
democráticos em áreas restritas de políticas, nas quais uma
particular configuração sociopolítica as faz portadoras de
maleabilidade que as habilita a veicular transformações num
conjunto de instituições mais sensíveis à participação e à discussão
societária.
Neste sentido, a constituição da democracia é compreendida
como um processo político de partes em movimento, um mix de
regimes parciais de democratização (Schmitter, 1991a) que
atualizam interiormente as dificuldades de mudanças mais
homogêneas e unívocas, e conseqüentemente a democracia como
processo político, porque incompleto, em permanente
transformação.
A formação de regimes de democratização parcial sinaliza,
portanto, um caminho de aproximações sucessivas em que recortes
não completamente estruturados compõem um mosaico inacabado
e em permanente movimento. Definitivamente, por trás da idéia da
formação de ‘regimes de democratização parcial’, o que se tem é
uma abordagem metodológica que renuncia à idéia de totalidade
para ancorar na indeterminação, resgatando uma direcionalidade
progressiva.
O setor da saúde, particularmente a Reforma Sanitária brasileira,
tem se constituído num regime de democratização parcial
caracterizado pelo ressurgimento da sociedade civil e pelo
nascimento dos movimentos sociais em saúde que desempenharam
papel inestimável na política de saúde, até então praticamente
confinada ao espaço exclusivo do Estado.
A análise do Movimento Social em Saúde na sua relação com a
política nacional de saúde mostrou a origem dos movimentos sociais
relacionada à acepção de ‘cidadania’ que os processos de
democratização trouxeram para o centro da cena política. Já a
trajetória desses movimentos religou-se às alternativas que os
protagonistas sociais imprimiram ao processo de transformação da
política de saúde nas diversas esferas implicadas.
O Movimento Social em Saúde, nas duas vertentes analisadas e
na relação com o processo de formulação da política de saúde,
atravessou fases extremamente diversas. A ação coletiva foi, num
crescendo, marcada pela identidade coletiva alcançada pelo
movimento, mas também caracterizou-se por momentos de clara
estagnação, nos quais as dificuldades se evidenciaram,
principalmente ao ter que optar diante de modalidades mais
institucionalizadas no exercício da política.
O período da transição à democracia, marcado pela oposição ao
regime militar com amplos setores da sociedade engajados, foi
propício à formação do Movimento Popular em Saúde. De fato, se
originou sob o calor da discussão crítica das condições de saúde
das populações marginais nas grandes metrópoles. Esse período de
formação iniciado em finais da década de 70 foi influenciado pelas
comunidades eclesiais de base – experiências de organização
popular desenvolvidas pela Igreja com as populações carentes – e
pelas experiências de medicina comunitária, como política de saúde
alternativa ao sistema de saúde do regime autoritário. Teve como
difusores intelectuais e profissionais de saúde engajados numa
prática político-partidária.
Ainda que as políticas de saúde tenham se erigido no eixo que
marcou a atuação do movimento, a relação deste com as políticas
de saúde foi caracterizada pela dinâmica interna do próprio
movimento. Questões relativas à proposta político-organizativa – a autonomia diante do Estado, a institucionalização do movimento e a
relação com os partidos políticos – foram adquirindo significado
decisivo, o que se depreende da trajetória desses movimentos ante
as políticas de saúde.
O que diferenciou o momento de estruturação do movimento
foram as tentativas para conseguir articulação nacional e a oposição
às políticas de saúde do regime militar, que excluíram as
populações carentes do atendimento e dos demais cuidados de
saúde, ao favorecerem o setor privado às custas do setor público. A
proposta alternativa articulada pelo movimento foi a da medicina
comunitária, a ponto de os encontros nacionais do Movimento
Popular em Saúde, nos primeiros anos, denominarem-se ‘encontros
de medicina comunitária’.
A fase de ascensão do movimento coincidiria com mudanças
substantivas no processo político de democratização, quando a
ênfase recaiu na definição de propostas políticas que,
diferentemente da época autoritária, estimulassem os setores da
sociedade excluídos no regime precedente à participação social e
econômica.
Sob esse aspecto, a proposta da Reforma Sanitária foi tomando
forma até alcançar o ponto de maior definição na VIII Conferência
Nacional de Saúde. O Movimento Popular em Saúde amadureceu
neste contexto tanto no que se refere à proposta – localizada na
medicina comunitária para abranger o Sistema Nacional de Saúde –
quanto na articulação política do movimento, com a criação de
federações estaduais e confederações nacionais de bairros e
favelas.
Foi um segundo momento em que o processo definitório da
reformulação do sistema de saúde se confundia com a existência
mesma do Movimento Popular em Saúde. As interferências relativas
à problemática interna do movimento, mencionadas antes, eram
menos notórias, embora já se evidenciassem diferenças a respeito
da estatização do sistema de saúde e da autonomia do movimento
em relação àquela.
Por último, a fase de declínio que se caracterizou mais pelo
agravamento da discussão política interna que por definições claras
do movimento em relação à implementação da Reforma Sanitária. Esta fase pode ser definida como a das resistências e dificuldades
que o movimento enfrentava diante de um processo de
institucionalização que lhe permitisse, talvez, atuação mais decisória
na política de saúde, através de Conselhos Municipais, Estaduais e
Nacional.
Algumas reflexões ou inquietações retomam o enfoque teórico –
‘pela mão’ da trajetória do movimento – agora no que concerne à
dinâmica da relação entre atores e políticas. Quando se constituem
os atores em sujeito e quando deixam de sê-lo? Como consegue, ou
não, esse tipo de movimento transcender suas limitações para se
situar no plano da definição da política?
A dificuldade que o Movimento Popular em Saúde exprime em
sua trajetória é a de se assumir como ‘sujeito autoconstruído’ em
lugar de ‘em oposição a’. Essa passagem é, afinal, evolução em
relação ao Estado. Ao longo do tempo, o lugar ocupado
reiteradamente pelo Estado acaba se configurando em limite estreito
e constrangedor na percepção de ‘si mesmo’, e conseqüentemente,
na sua operacionalidade política.
Isso significa que, não estando resolvido o dilema a respeito de ‘si
mesmo’, este impede a projeção no âmbito político, em atuação
duradoura, ainda que chegue a ser sujeito político ou sujeito na
política diante de situações de crise, de maneira, quando muito,
apenas esporádica.
Esse auto-limitar-se da atuação faz com que o processo a
encaminhe à perda progressiva na capacidade de decisão
estratégica, ao mesmo tempo em que desemboca no objetivo
rejeitado. Seu contorno está configurado de ‘fora para dentro’, não à
maneira da autonomia tal como compreendida pelo movimento, mas
segundo a dimensão com que o Estado vai avultando na atuação do
movimento e nas distorções do discurso ideológico.
Assim, o discurso torna-se realidade enquanto impossibilidade de
construção de espaço próprio. Em tal sentido, não é o Estado que
coopta o movimento, mas é o temor à cooptação que acaba
impondo ao movimento, enquanto este pretende se definir como
organização independente, a disjuntiva entre ser organização sob a
luz do Estado ou desaparecer definitivamente.
De alguma maneira a ‘profecia auto-cumprida’ presente no
imaginário desses movimentos é intrinsecamente estabelecida pela
própria dinâmica constitutiva dos mesmos, até adquirir um peso
decisivo no fiel da balança: a ameaça de cooptação deixa de ser
virtual e se torna fantasmagórica realidade ou simplesmente
realidade.
Já o Movimento Médico e sua atuação face às políticas de saúde
apresentaram uma problemática interna e questões bem diversas
das detectadas no movimento popular. Em primeiro lugar, a
denominação ‘movimento’ esbarra na particular modalidade de
articulação e organização que, no Brasil, os profissionais médicos
têm se dado, na prática, desde a regulamentação da medicina como
profissão. Com efeito, o Movimento Médico é formado por diversas
entidades. Várias delas, originadas no início do século XX,
caracterizam-se por alto grau de institucionalização e presença nos
vários níveis em que se desenvolve a vida do profissional médico.
A mobilização por reivindicações laborais e a oposição às
políticas de saúde dominantes no regime militar levaram os
médicos, do final da década de 70 até meados dos anos 80, a agir
coletivamente sem que a atuação da categoria estivesse atrelada às
instituições médicas. Criou-se um Movimento Médico que, sem
desconhecer a existência das entidades médicas, não as reconhecia
como condutoras efetivas da classe. A categoria agia supra-
instituições médicas, muitas destas tendo passado até mesmo por
intervenções militares. A liderança efetiva da categoria foi assumida
pelo Movimento de Renovação Médica, originado de uma chapa
eleitoral formada para disputar as eleições no Sindicato dos
Médicos.
A condição de possibilidade para que os médicos agissem e se
constituíssem em movimento com identidade coletiva relacionava-se
às peculiaridades da corporação médica, sustentadas mais do que
numa estrutura hierárquica, na força que o ideário da profissão
médica tem para com seus praticantes (Caro, 1969).
Desse modo, a atuação do Movimento Médico caracterizou-se por
forte resistência às políticas de saúde do regime militar e pela
disputa de um papel principal na elaboração, junto a outros
integrantes do Movimento Social em Saúde, de uma proposta de reformulação do sistema, o que culminou na proposta nacional de
Reforma Sanitária por ocasião da VIII Conferência Nacional de
Saúde.
A constituição do Movimento Médico, característica principal da
atuação da categoria na década, mudou substantivamente no final
dos anos 80. Em pleno processo de democratização do País – sem
a oposição aos militares como traço de união do movimento e uma
vez regulamentada a Reforma Sanitária na Constituição Nacional de
1988 –, os médicos passaram a ser representados pelas instituições
médicas. Dentre estas, adquiriu papel central o Sindicato dos
Médicos – em defesa dos interesses econômico-corporativos dos
mesmos – e o Conselho de Medicina – que tentava preservar o
papel político dos médicos na defesa dos princípios da Reforma
Sanitária.
É necessário salientar as diferenças que permearam a categoria
médica relacionadas às transformações no mercado de trabalho, as
quais se refletiram numa atuação política focalizada nas múltiplas
formas de representação dos interesses médicos, segundo a
particular inserção destes no mercado de trabalho. Nessa
contingência, o movimento social se fraturou e a defesa da
implementação da Reforma Sanitária e dos princípios que lhe deram
origem cedeu lugar às diferenças evidenciadas internamente na
categoria e expressas na representação dos interesses da
corporação médica.
No que diz respeito à categoria médica, em face das políticas de
saúde houve o gradual abandono dos princípios da Reforma
Sanitária e os médicos manifestaram, por meio de sucessivas e
intermináveis greves, o inconformismo com a situação salarial e com
as condições de trabalho, eixos principais da atuação da corporação
na década de 90.
A articulação do Movimento Popular em Saúde foi difusa de modo
geral, o que se explica pela especificidade desse tipo de movimento.
Dispõe de uma organização flexível, pouco formalizada
institucionalmente. A mobilização por demandas de saúde ante o
Estado é que desempenha papel principal em sua constituição e
permanência no cenário. Contudo, o Movimento Popular em Saúde e o Movimento Médico chegaram a ter uma dinâmica de atuação
bem articulada em tomo das grandes questões do setor.
Por algum tempo – na primeira fase e até meados da segunda –,
o processo de reformulação do setor, que culminaria com a Reforma
Sanitária na VIII Conferência Nacional de Saúde, assim como com a
formação da Plenária Nacional de Entidades de Saúde para
influenciar o processo constituinte e a regulamentação da
Constituição Nacional, contou com o trabalho conjunto do
movimento popular e do Movimento Médico no apoio à incorporação
da Reforma Sanitária na Constituição.
As dificuldades entre ambos os movimentos se evidenciaram
menos com relação à política que em relação a interesses
divergentes entre usuários e médicos centrados, de um lado, nas
necessidades de atendimento da população e, de outro, nas greves
médicas por melhores salários e condições de trabalho, que desde
1989, de maneira ininterrupta, levaram a uma pronunciada crise de
atendimento do setor público (situação mais notável, aliás, nos
estados com grande rede federal e estadual e os que ofereciam as
piores condições de remuneração e de infra-estrutura hospitalar).
As greves no setor público, já bastante depreciado pelo descaso
dos governos federal e estadual, reforçariam o desmonte deste, o
que afetaria profundamente os usuários do sistema – populações de
baixa renda em geral e que não dispunha de nenhuma outra opção
de atendimento. A situação gerou enfrentamentos, tendo a
população manifestado-se contra os médicos em diversas
oportunidades.71
A atuação dos médicos foi de encontro aos interesses dos
usuários. Mas a resistência do Movimento Popular em Saúde em se
institucionalizar e a ter papel mais decisivo na política deixaram
desprotegidos os usuários, abrindo caminho para o corporativismo
médico.
Cabem aqui algumas reflexões a respeito do peso ou incidência
de cada uma das seguintes questões na atuação do Movimento
Social em Saúde, em face da implementação da Reforma Sanitária:
a articulação política entre os movimentos, a modalidade de atuação
e de organização interna e a própria política de saúde, tal como
implementada na esfera do governo.
Em primeiro lugar, os fatores externos ao movimento – a particular
modalidade governamental na implementação da Reforma Sanitária,
explicável pelas diferenças político-ideológicas do governo com a
Reforma – tiveram grande peso no retrocesso político do Movimento
Social em Saúde. Em segundo lugar, o que se depreende do
tratamento da questão é que os mesmos fatores externos não foram
determinantes no comportamento que esses movimentos
desenvolveram, comportamento este que respondeu à própria
dinâmica interna dos mesmos.
O modo como os movimentos reagiram aos empecilhos opostos
pelo governo à Reforma Sanitária obedeceram, no caso do
movimento popular, à particular modalidade de atuação e às
resistências do movimento a ter participação mais incisiva na
política de saúde através dos Conselhos de Saúde, o que facilitou a
rendição à atuação corporativa dos médicos.
Fatores externos e internos ao movimento interagiram num campo
extremamente conflituoso – o das políticas de saúde –, com forte
conteúdo de reforma, num contexto de democratização do País
extremamente frágil, no que se referia às transformações
substanciais necessárias à concretização do estabelecimento de um
regime democrático.
As dificuldades vieram após o processo de implementação da
Reforma, marcada pelo retrocesso político do Movimento Social em
Saúde, que se caracterizou – caso do movimento popular – pelas
divergências políticas internas que paralisaram sua atuação, pelas
mudanças que afetaram a categoria médica e pela ausência do
papel de liderança política que desempenhara o Movimento
Sanitário nos anos 80.
Enquanto o movimento popular se debatia no dilema de participar
e ser cooptado pelo Estado ou abster-se e evitar a cooptação, o
papel potencial que entidades autônomas poderiam exercer para
forçar a participação social nos Conselhos de Saúde foi inviabilizado
pelos próprios movimentos. A situação, ao contribuir para neutralizar
a questão embutida na concepção da Reforma Sanitária, é que,
paradoxalmente, favoreceu o corporativismo médico e facilitou,
efetivamente, o caminho para a cooptação de representantes de
usuários nos Conselhos de Saúde.
No que se refere ao papel que o Estado deveria preservar para
dar prosseguimento à política, os empecilhos colocados pelo
governo foram decisivos para impedir avanços substantivos do
processo reformador no setor saúde. Os avanços que a Constituição
de 1988 incorporou à própria noção de saúde e ao sistema que viria
a possibilitar a distribuição mais eqüitativa da saúde passou por
tentativas diversas, marcadas pelo desconhecimento da legislação
constitucional e pela modificação das leis, substituídas por decretos
do Executivo que contradiziam a letra, o escrito e o espírito da
Constituição.
Foi o tratamento que recebeu inicialmente a Lei Orgânica da
Saúde, ao ser vetada pelo Presidente da República expressamente
nos tópicos referentes às Conferências Nacionais e aos Conselhos,
à formulação de Plano de Carreiras e Salários, à transferência
automática dos recursos e à restruturação do Ministério de Saúde,
com a extinção e descentralização do Inamps, Sucam e FSESP.
De qualquer maneira, se o governo cedeu nesse ponto específico,
na operacionalização das medidas constitucionais, conseguiu
sistematicamente desrespeitar o estabelecido por lei, como
observado na questão do repasse dos recursos a estados e
municípios, que continuaram com as mesmas dificuldades.
Deduzimos do exame do processo que este tem avançado nas
linhas de menor resistência política – o repasse dos serviços –
enquanto o ‘núcleo duro’ da Reforma correspondente ao
financiamento do sistema de saúde não sofreu as alterações
necessárias para a implementação da política a ser efetivada, com o
que se obteve o estabelecimento apenas de mudanças de caráter
administrativo ou reorganizativo dos serviços no SUS.
Embora o processo de descentralização, com a atuação do
Inamps e de outros órgãos centralizadores da política, tenha
acontecido mais pelo incentivo do Movimento Social em Saúde,
particularmente a partir da realização da IX Conferência Nacional,
consistiu sempre de medidas circunstanciais sobre o desgaste do
governo, pela força ocasional alcançada nesses momentos pelo
Movimento Social em Saúde, sem que as medidas revertessem em
duradouras melhorias quer do funcionamento do sistema quer da administração, de maior bem-estar relativo à saúde para a
população mais necessitada.
Seja como for, o que o processo de descentralização evidenciou
nos municípios analisados foi que a existência de algumas
precondições – governo municipal consubstanciado com a proposta,
a existência de um projeto de saúde municipal elaborado a partir do
quadro sanitário da população, o aumento dos recursos destinados
ao setor, o aumento dos salários dos profissionais de saúde –
facilitarou indiscutivelmente a implementação da Reforma Sanitária
no nível local.
Neste sentido, importantes transformações foram operadas no
setor saúde, ainda que localizadas mais no plano político que em
resultados concretos, considerados estes como melhoras palpáveis
nas condições de saúde da população. Mas o setor tem-se tornado,
como se pode observar em algumas das experiências de
municipalização da política, mais sensível à participação da
população, mais transparente na gestão do sistema e mais plural na
atuação dos diversos atores que o compõem, ainda que seja difícil
esperar transformações mais substanciais no setor.
A Reforma Sanitária, resultado de um movimento originariamente
societário de oposição ao regime militar, cujas lideranças provinham
de partidos políticos da esquerda, foi uma proposta que extrapolou o
setor saúde. É indiscutível que a Reforma Sanitária brasileira
constituiu-se num paradigma político da noção de Reforma no
campo das políticas sociais e, conseqüentemente, num laboratório
privilegiado para a análise da viabilidade na implementação de
transformações nas instituições estatais e a relação entre reforma(s)
e democracia.
Dado o atual estágio e as dificuldades na consolidação do regime
democrático, os impulsos reformadores no setor saúde e a
capacidade de viabilizá-los colaboram para a constituição de um
regime de democratização parcial num setor de políticas específico
e em um determinado momento, fazendo, reitere-se, aportes
relevantes para o (re)estabelecimento de um regime democrático no
Brasil.
A afirmação remete à idéia de a consolidação da democracia
considerar-se mais que um regime, um mix de regimes parciais articulando e governando um conjunto de instituições cuja
consolidação não acontece simultaneamente. No marco do
processo de consolidação da democracia, a Reforma Sanitária
constituiu-se um regime de democratização parcial, apesar das
limitações antepostas pelo governo a sua implementação.
A análise do processo de implementação da política reformadora
é extremamente esclarecedora a respeito das questões teóricas
discutidas no capítulo inicial. Se observarmos até onde houve
avanços no processo de implementação da Reforma, veremos
sustentar-se de maneira conclusiva a idéia de que os limites de
política de reformas substantivas no setor não foram dados por
limitações intrínsecas à democracia, mas pelo caráter que a
democracia adquire em determinados processos nacionais e de
acordo com circunstâncias históricas, sociais e políticas.
Neste sentido, o governo vitorioso primeiras eleições livres para
Presidente da República, após o longo regime autoritário, não teve
por meta dar substância social à democracia política nascente.
Manteve-se, isso sim, muito longe de promover o estabelecimento
de um regime de embasamento democrático.
Cabe reiterar que a relevância da afirmação anterior se apóia no
significado dado à concepção do que seja o estabelecimento de
regime democrático relacionado à reprodução da própria
democracia enquanto maneira de envolver o conjunto atuante das
relações sociais e políticas e capaz de atualizar as diferenças, além
de definir saídas à base de consenso construído em processo
discursivo (Habermas, 1984), ou, dito de outra forma, pela aceitação
da existência do ‘outro’ social e/ou político no campo relacional
específico.
O conceito em que ‘alavancamos’ a compreensão da Reforma
Sanitária – o da formação de ‘regimes de democratização parcial’ –
remete ao estabelecimento de regras e comportamentos
democráticos num campo determinado de políticas e instituições. A
capacidade de expandir a reprodução da democracia por
aproximações sucessivas, com o intuito de conquistar um regime
democrático tanto na sociedade quanto na ordem política, ajudou a
pensar a formulação e a implementação das políticas de saúde
como processo em permanente transformação. A partir disso constatamos o quão profundas foram as mudanças, sobretudo na
formulação e na definição da política alcançada, na medida em que
problemas da mesma intensidade e alcance, em nível
governamental e dos movimentos, dificultaram o andamento
progressivo da Reforma Sanitária.
Assim, a análise da participação social, através da atuação,
organização e articulação dos movimentos sociais em saúde nos
sucessivos momentos diferenciados da trajetória da Reforma
Sanitária, evidencia que ‘regimes de democratização parcial’ são
viáveis quando se leva em consideração o estágio em que os atores
sociais, com inserções diversas na política, se constituem a ‘partir
de’ e se expressam ‘para’ viabilizar ou dificultar o andamento de
dada política.
Por fim, o grau e o alcance da participação social na política, seja
através de sujeitos, indivíduos, movimentos ou atores sociais, define
o direcionamento e a profundidade no estabelecimento de regimes
de democratização parcial.