A democracia inconclusa: um estudo da reforma sanitária brasileira
Prefácio
É relativamente recente o estudo explícito e sistemático da
democratização, ou seja, dos processos pelos quais os regimes
políticos transitam de diferentes formas de autocracia e tentam
consolidar algum tipo de democracia. Tal estudo foi muito
estimulado pelo grande número de mudanças de regime ocorridas
desde 1974, quando Portugal foi o primeiro a derrubar sua
prolongada ditadura. Nas duas décadas e meia seguintes, quase 50
países seguiram esse caminho. Não há um só continente que não
tenha sido afetado por essa onda de democratização e há poucas
autocracias remanescentes que de alguma forma não foram por ela
ameaçadas.
A ditadura militar que governou o Brasil a partir de 1964 foi uma
das primeiras da América Latina a mostrar algum sinal de desejo de
pelo menos liberalizar suas instituições e práticas. Já em 1979 o
novo Presidente do País, general João Baptista de Oliveira
Figueiredo, tinha a intenção de apoiar uma abertura na vida política
brasileira, com o propósito – não acompanhado, porém, de um
calendário específico – de fazer com que o Brasil retornasse à
democracia.
Esse retrospecto revela que a transição brasileira foi uma das
mais proteladas e controladas. Passaram-se mais de dez anos até
que um chefe do Executivo popularmente responsável assumisse o
poder e a perspectiva de uma retomada do poder ditatorial
declinasse significativamente. Durante todo esse período, os
militares e seus aliados civis permaneceram firmemente no poder e
controlaram intimamente tanto o ritmo quanto o conteúdo das
formas políticas.
A abertura permitiu uma substancial mobilização da sociedade
civil, e isso, sem dúvida, teve algum impacto sobre a decisão final
de se aceitarem práticas democráticas. Não obstante, a grande
campanha popular para a realização de eleições diretas para a
Presidência, em 1985, foi facilmente suprimida. Sobre isso, não há
provas de que os governantes militares brasileiros tenham sido compelidos a fazer concessões explícitas, muito menos a se
engajarem em pactos com elementos de oposição.
Isso contrasta fortemente com o caso da Argentina – onde a
derrota na Guerra das Malvinas conduziu a um rápido e
incontrolável colapso do ancien régime – e com o do Uruguai e do
Chile – onde derrotas não previstas em plebiscitos forçaram os
ditadores militares a negociar uma retirada do poder com os partidos
de oposição.
Tudo isso torna a pesquisa de Silvia Gerschman mais
desafiadora. No caso do Brasil, o processo contemporâneo de
democratização foi incomumente gradual e parcial. Não houve
momentos definitivos ou períodos concentrados de ruptura com a
autocracia anterior. Instituições e práticas – assim como as relações
de poder que as cercam – mudaram apenas perifericamente em
ritmos muito diferentes entre si. O tema de sua escolha – política de
saúde – não foi particularmente destacado dentro do processo
global de democratização, embora tenha sido afetado em grande
parte, de modo indireto, pelas transformações que se evidenciaram
nas eleições, nos partidos políticos, na liberdade de associação, na
elaboração da Constituição e na responsabilidade (accountability)
das ações do Executivo.
Contudo, em pelo menos três aspectos a autora foi além dos
limites usuais do que ficou conhecido como ‘transitologia’ e
‘consolidologia’:
pesquisou profundamente numa arena essencial e específica –
a política de saúde – quando virtualmente toda a literatura
existente sobre democratização concentrava-se exclusivamente
em temas referentes a procedimentos e escolhas institucionais
que – supostamente – afetam todas as arenas da política;
desviou o foco de atenção de uma preocupação exclusiva com
mudanças em nível nacional para o impacto dessas mudanças
sobre grupos profissionais específicos sobre unidades
territoriais nacionais, isto é, sobre o ‘Movimento Médico’ e sobre
alguns municípios distribuídos pelo Brasil;
forçou os analistas da transição e consolidação a dar atenção
não apenas à tomada de grandes decisões de política, mas
também à sua implementação em setores e locais específicos,
também chamando atenção para as mudanças de micro e
médio níveis necessárias para tornar a democratização efetiva
para os cidadãos.
O produto final é uma importante contribuição para a
compreensão não apenas da substância da transição
particularmente prolongada e controlada no Brasil, mas também do
processo pelo qual a democratização pode ter impacto sobre
específico setor da política e afetar a vida diária dos cidadãos numa
ampla gama de países. Silvia reuniu três níveis cruciais de análise
para sustentar a explanação de um processo político-social
complexo: o nível de democratização do regime; o nível
intermediário de atores coletivos e dos movimentos sociais; e o nível
diferenciado de uma área de política com implicações de longo
prazo para a estabilidade de uma política democrática, de um
economia produtiva e de uma sociedade justa, ou seja, a saúde de
sua população. Infelizmente, que eu conheça, não há estudos
comparáveis sobre quaisquer dos cerca de 50 países que tentaram
mudanças de regime dessa ordem.
Nós, em Stanford, tivemos o privilégio de ter Silvia Gerschman
conosco por um longo período como pesquisadora convidada. Aqui
e ali, em sua análise, pode-se sentir o impacto de sua estada em
nossa companhia. Em várias ocasiões, em palestras, conferências e
seminários, Silvia discutiu seu projeto com outros pesquisadores do
Centro de Estudos Latino-Americanos (The Center for Latin
American Studies – CLAS) e também nos influenciou por suas
idéias e pelo seu entusiasmo. Pessoalmente, fiquei especialmente
impressionado com o modo pelo qual conseguiu expIorar minha
noção de ‘regimes parciais’ e aplicá-la de forma criativa ao setor de
política de saúde em sua conclusão.
O substancial de seu esforço, porém, foi realizado no Brasil – num
difícil processo de pesquisa de campo. Reuniu dados primários de
uma variedade de fontes documentais; realizou entrevistas com
atores relevantes e, ainda, reconstituiu uma história complexa a
partir de elementos em diversos níveis de agregação no transcorrer
de um longo período. O tempo despendido em Stanford foi construtivamente gasto num esforço de colocar seu estudo de caso
num contexto teórico e comparativo mais amplo, mas o trabalho
realmente difícil dependeu de uma sistemática e longa compilação
anterior de dados relevantes e precisos.
O que a autora descreve como o ‘caminho das pedras’ não teve
início nas reuniões em minha sala; começou muito antes, nos
arquivos e gabinetes de muitas instituições brasileiras públicas e
privadas. Como alguém que, há muito anos, passou pela mesma
experiência de pesquisa de campo, posso testemunhar
pessoalmente quão frustrante e excitante pode ser reunir dados
originais no Brasil. Há poucos países no mundo onde tão pouco está
à disposição dos pesquisadores para a compreensão de processos
políticos e sociais e onde tanto pode ser conseguido com a ajuda
dos atores políticos e sociais envolvidos nestes. Silvia Gerschman
sentiu e explorou esse paradoxo e todos nós temos essa dívida com
ela.
Philippe C. Schmitter
Universidade de Stanford