A democracia inconclusa: um estudo da reforma sanitária brasileira
2. O processo de reformulação do setor saúde: os atores, as estratégias e o papel dos organismos estatais
2. O processo de reformulação
do setor saúde: os atores, as
estratégias e o papel dos
organismos estatais
O processo de transição à democracia trouxe a emergência de
novos atores coletivos. Movimentos sociais proliferaram em todo o
País, juntamente com as novas formas de exercício da política, ao
mesmo tempo em que novos partidos faziam sua entrada na cena
política nacional. Em cada canto do País as demandas por
mudanças de liberalização política e de justiça social tomavam
conta da sociedade.
No conjunto dos partidos de oposição, o ‘resgate da dívida social’
– resultante das políticas econômicas de alta concentração de renda
do regime autoritário – era considerado o leitmotiv da construção da
democracia. Um amplo debate perpassou a sociedade como um
todo, no qual a possibilidade de reverter as enormes desigualdades
sociais e a extrema extensão da pobreza se traduziu em propostas
políticas que se concentraram na redefinição de políticas sociais.
Estas foram vistas pelos partidos políticos de oposição como
iniciadoras de um processo redistributivo de renda, caminho para a
universalização de benefícios sociais para toda a população.
Nesse contexto inscreve-se o processo de reformulação do setor
saúde que culminou com a proposta da Reforma Sanitária brasileira.
Teve início em meados dos anos 70 e trouxe como liderança
intelectual e política o autodenominado Movimento Sanitário.
Tratava-se de um grupo restrito de intelectuais, médicos e
lideranças políticas do setor saúde provenientes em sua maioria do
Partido Comunista Brasileiro (PCB). Este exerceu papel destacado
de oposição ao regime militar, assim como trajetória política própria
na área da saúde.
O grupo influenciou fundamentalmente o âmbito acadêmico e
pode ser considerado o mentor do processo de reformulação do
setor. Recebeu influência do modelo da Reforma Sanitária italiana e
desempenhou, também, importante papel em organismos
internacionais – como a Organização Pan-Americana da Saúde
(OPS) – e em experiências alternativas de saúde implementadas em
alguns municípios brasileiros na década de 70. A partir da abertura
política e no período em que estava bem avançada a transição à
democracia, passou a ocupar importantes espaços nos aparelhos
institucionais de saúde no âmbito do governo federal, assim como
nos governos estaduais e municipais.
A constituição do projeto reformador no âmago do Movimento
Sanitário teve o primeiro impulso na década de 70, com a criação
dos departamentos de medicina preventiva nas faculdades ligadas à
área, a partir dos quais se difundiu o pensamento crítico da saúde.
Vinculado a esse percurso acadêmico, houve também avanços
progressivos na implementação de políticas de saúde alternativas
às impostas pelo regime militar, à medida que a transição à
democracia adquiria um perfil mais nítido. Isso foi feito ou por meio
de programas de extensão universitária, ou a partir das secretarias
municipais de saúde de alguns estados onde se tinha certo controle
político sobre as prefeituras, ou até mesmo por intermédio da
ocupação de cargos técnico-administrativos no Ministério da
Previdência Social.
O projeto reformador sustentou-se sobre uma ampla crítica ao
modelo prevalecente, baseado no crescimento do setor privado à
custa do setor público – o primeiro sendo financiado pelo segundo –,
o que levou à falência, deterioração, ineficiência e crise do sistema
público de saúde (Oliveira & Teixeira, 1986).
Sem pretender refazer a história das propostas reformadoras na
saúde, cabe assinalar alguns de seus principais momentos (Oliveira
& Fleury, 1986). Um deles, o Programa de Ações Integradas de
Saúde, desenvolvido no interior da Previdência Social, propunha
mudanças na relação entre o setor público/ privado, passando a
privilegiar o financiamento do setor público. Pretendia também
alterar o modelo médico-assistencial, promovendo uma relação
integrada interna ao setor público e dando prioridade à assistência ambulatorial, estendendo também a cobertura e melhorando a
qualidade dos serviços.
Ainda que se tratando de experiência parcial, já que seria
implementada apenas em alguns estados e municípios, a assinatura
dos convênios das Ações Integradas de Saúde (AIS), iniciada em
1982, previa de maneira incipiente a existência de instâncias de
participação da população na gestão dos serviços de saúde, o que
se constituiria também numa primeira tentativa de descentralização
do Sistema de Saúde.
A partir de 1983, o Movimento Sanitário ampliou a proposta de
reformulação do sistema de saúde, com a ocupação de espaços nas
instituições estatais de saúde, com objetivo de produzir mudanças
na política de saúde e tendo em vista que o próprio processo de
transição à democracia o permitia. Tal crescimento adquiriu sua
mais acabada expressão com a VIII Conferência Nacional de
Saúde, em 1986, na qual se definiu o projeto da Reforma Sanitária
brasileira, que introduziu mudanças no setor da saúde de forma a
torná-lo democrático, acessível, universal e socialmente eqüitativo.
O projeto da Reforma Sanitária sustentou-se numa
conceitualização da saúde ampliada, relacionada às condições
gerais de vida como moradia, saneamento, alimentação, condições
de trabalho, educação, lazer. A saúde, neste sentido, é definida
como um ‘direito do cidadão’ e, conseqüentemente, um ‘dever do
Estado’. Ou seja, os cuidados à saúde ultrapassam o atendimento à
doença para se estenderem também à prevenção e à melhoria das
condições de vida geradoras de doenças.
Para que isso fosse efetivado, fizeram-se necessárias
transformações nas políticas de saúde, tendo sido encaminhadas
pela proposta os seguintes pontos:
criação de um sistema único de saúde com notável predomínio
do setor público;
descentralização do sistema e hierarquização das unidades de
atenção à saúde;
participação e controle da população na reorganização dos
serviços;
readequação financeira do setor.
O notório retrocesso político após o primeiro ano de governo da
Nova República imprimiu considerável estagnação, em âmbito
governamental, no ritmo da implementação do processo de
reformulação do setor, se comparado com os notáveis avanços
conseguidos na definição da reforma do sistema na VIII Conferência
Nacional de Saúde.
A comissão nacional da Reforma
Sanitária
A partir da aprovação, na VIII Conferência, do projeto da Reforma
Sanitária, dar-se-ia então continuidade às resoluções emanadas
desta por meio da formação da Comissão Nacional da Reforma
Sanitária, que teria em suas mãos o processo de implementação do
projeto na esfera do governo. Paralelamente, criou-se a Plenária
Nacional de Entidades de Saúde, cuja finalidade era dar
continuidade à articulação dos organismos da sociedade civil que
participaram da VIII Conferência e elaborar um projeto constitucional
para ser apresentado no processo constituinte.
A Comissão Nacional da Reforma Sanitária – proposta pelo
Ministério da Saúde como desdobramento da VIII Conferência
Nacional de Saúde – previa uma composição paritária de entidades
do governo e da sociedade. No entanto, sua composição não
correspondeu ao peso real das associações da sociedade civil,
ficando estas em minoria em relação aos organismos estatais e
privados do setor saúde.
A Comissão foi aprovada e constituída por 22 representantes, dos
quais somente seis eram representantes de organismos populares:
a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Confederação Nacional
dos Trabalhadores (CGT), a Confederação dos Trabalhadores da
Agricultura (Contag), a Confederação Nacional dos Médicos (FNM)
e a Confederação Nacional de Associações de Moradores (Conam).
Os outros 16 membros pertenciam a organismos governamentais, a
parlamentares, a centrais patronais e a prestadores privados de
serviços de saúde.
A composição da Comissão atualizou, desde o início, a forma de
preservação do Estado perante políticas oriundas das entidades
organizadas da sociedade, além de alternativas ao modelo
hegemônico no setor saúde. A Comissão Nacional da Reforma
Sanitária pode se constituir em um bom exemplo de como o Estado
filtra demandas da sociedade, por meio do exercício da “seletividade
estrutural” (Offe, 1984). Esse mecanismo não se operou pelo veto
de algumas temáticas e a seleção de outras, mas pelo procedimento
utilizado por organismos estatais para compor a Comissão.
A partir da formação da concessão produziu-se um deslocamento
da luta que acontecia no âmbito social e que culminou com uma
proposta de amplo alcance e consenso social para o interior dos
organismos estatais de saúde. A disputa pela implantação da
Reforma Sanitária passou a se dar no terreno dos enfrentamentos
políticos das diversas facções da tecnoburocracia do setor e a
propósito da execução dos avanços operacionais previstos pelo
projeto.
Os percalços no processo da Reforma
Esses enfrentamentos, ocorridos no Ministério de Saúde e mais
fortemente na Previdência Social, estiveram permeados pelas
próprias lógicas do setor público, portanto, limitados pela relação de
forças no interior dos aparelhos de Estado, afeiçoadas ao
clientelismo político, à política de favores pessoais e às rotinas
burocráticas como uma maneira de impedir a implantação de
políticas inovadoras nas práticas institucionais.
As tentativas de transformação do sistema de saúde mediante a
ocupação de espaços nesses ministérios não conseguiram produzir
avanços continuados na implantação da Reforma. Paulatinamente,
os representantes do Movimento Sanitário foram sendo demitidos
de seus cargos.13
Quanto à efetiva implantação da Reforma, em 1987, aprovou-se o
Decreto pelo qual se criou o Sistema Unificado e Descentralizado de
Saúde (Suds), que contemplava o encurtamento da máquina
previdenciária de nível estadual; a transferência dos serviços de saúde e dos recursos financeiros para os estados e municípios; o
estabelecimento de um gestor único de saúde para cada esfera de
governo e a transferência para os níveis estadual e municipal dos
instrumentos de controle sobre o setor privado (Escorel, 1992). No
entanto, a implementação dos Suds acabou decepada no que tinha
de transformação substantiva do sistema de saúde, tendo ocorrido
apenas algumas mudanças administrativas no setor.
A política de saúde do governo da Nova República acompanhou
os percalços da transição, caracterizando-se por idas e vindas no
processo de descentralização, na integração interinstitucional e no
que diz respeito ao privilegiamento do setor público. Por meio de
mecanismos políticos, contábeis e burocráticos no Inamps e no
Ministério da Saúde, criaram-se obstáculos à implementação dos
SUS, dentre os quais o que mais se notabilizou foi o
desaparecimento dos recursos nos meandros das máquinas
federais, estaduais e municipais. Certamente, as destinatárias finais
do financiamento do setor – as unidades locais de saúde – viveram
em permanente crise por não terem condições de pagar aos
profissionais de saúde, bem como pela falta de instrumental,
manutenção dos equipamentos e dos medicamentos.
Os percalços à implantação da Reforma geraram uma grande
desconfiança na população em relação ao setor público da saúde. A
situação foi muito bem aproveitada pelo setor privado, que cresceu
consideravelmente no período, sobretudo os seguros privados de
saúde. Em 1989, aproximadamente um quarto da população – 32
milhões de pessoas – estava coberto por seguros privados, os quais
movimentavam em torno de 2,5 bilhões de dólares, cerca de 19% do
gasto total com saúde (Revista Conjuntura em Saúde, jul. 1992).
A Plenária Nacional de Entidades de Saúde teve significativos
avanços em termos de articulação de um movimento social de
caráter nacional em torno da questão da saúde, conseguindo
plasmar na Constituição Nacional os princípios da Reforma
Sanitária. A Plenária foi constituída em meados de 1987, alimentada
pelas Plenárias Estaduais criadas imediatamente após a VIII
Conferência Nacional de Saúde. Compunha-se de entidades
representativas das seguintes forças:
Movimento Popular em Saúde – Confederação Nacional de
Associação de Moradores (Conam) e federações estaduais;
movimento sindical – Central Única dos Trabalhadores (CUT),
Confederação Nacional dos Trabalhadores (CGT),
Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag);
partidos políticos de esquerda – Partido Comunista Brasileiro
(PCB), Partido Comunista do Brasil (PC do B), Partido dos
Trabalhadores (PT), Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido
Democrático Trabalhista (PDT);
profissionais de saúde, representantes do Movimento Sanitário
e a academia – Centro Brasileiro de Estudos em Saúde
(Cebes), Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde
Coletiva (Abrasco), União Nacional dos Estudantes (UNE) etc.;
entidades estaduais e municipais da saúde favoráveis à
Reforma – Conselho Nacional dos Secretários de Saúde
(Conass), Conselho Nacional dos Secretários Municipais de
Saúde (Conasems).
De fato, a articulação e organização das forças populares na
Plenária Nacional possibilitou que o capítulo da saúde na
Constituição contemplasse o direito universal à saúde e a criação de
um sistema único de saúde, descentralizado, acessível e
democrático. Incluiu a complementação das necessidades de saúde
da população com serviços preferencialmente filantrópicos e
estabeleceu com o setor privado, em geral, contratos regidos pelas
normas de direito público. Assim, enquanto a Reforma Sanitária era
incorporada à Constituição no capítulo referente à saúde,
paradoxalmente a implementação do Suds atravessava o momento
de maior retrocesso, que, por sua vez, repercutiu fortemente no
Movimento Popular em Saúde, como veremos adiante.
A construção de uma abordagem
conceitual
Ao considerarmos a Reforma Sanitária como uma particular
política de saúde, a estamos incluindo dentro do campo mais amplo
das políticas sociais no contexto de democratização. Neste sentido,
o que nos interessa por ora é discutir as diversas formulações
teóricas sobre política social, de maneira que estas contribuam para
desvendar o processo da Reforma Sanitária brasileira,
especificamente no tocante à sua implementação – iniciada em
1987 com a reforma administrativa do sistema de saúde e a criação
do Suds –, que atravessou grandes empecilhos para se efetivar. A
Reforma Sanitária coloca-nos perante questões que remetem ao
campo teórico das relações entre o cidadão e o Estado no
direcionamento e na implantação de políticas sociais em um contexo
de construção/consolidação da democracia.
No interior da ciência política, desde o século XVIII e sob
diferentes perspectivas a política social constituiu um âmbito de
reflexão no sentido de problematizar se o Estado deveria intervir ou
não para suprir ou remediar as carências ocasionadas pela pobreza;
se a pobreza deveria ser atribuída à incapacidade das pessoas ou
se, pelo contrário, o movimento natural da economia e suas
flutuações é que geravam pobreza.
Já no século XIX vários pensadores se preocuparam em discutir o
papel que caberia ao Estado perante o processo de industrialização
capitalista, que destituiu da proteção social os milhares de
trabalhadores que abandonavam as formas feudais agrárias de
produção para se constituírem trabalhadores livres. No liberalismo
clássico ou no liberalismo conservador de nossos dias, entende-se
que o Estado não deve intervir na economia, nem para corrigir
desigualdades sociais, restringindo-se à sua expressão mínima – as
políticas sociais.
Outras correntes de pensamento que se distanciam do
liberalismo, aproximando-se de propostas social-democratas,
defendem a incorporação, por parte do Estado, de políticas
regulatórias em relação ao mercado para contrabalançar os efeitos
nocivos do mesmo, principalmente o desemprego, e prover de
seguridade social as camadas sociais desprotegidas, eliminando as
grandes desigualdades sociais. Expoentes dessa tendência são a
teoria econômica keynesiana e o Plano Beveridge, enquanto proposta política concreta para o Estado fornecer seguridade social
a todos os cidadãos.
Já no caso do marxismo clássico, nega-se que o Estado
capitalista possa prover bem-estar às classes trabalhadoras ou
avaliar os males que ele mesmo cria, pois isso significaria a
existência de valores contrários frontalmente às instituições
capitalistas. No entanto, é de salientar o reconhecimento da
proteção da mão-de-obra por parte do Estado no tratamento que
Marx dá à diminuição da jornada de trabalho na Inglaterra. 14
Este tem sido o ponto de partida para o pensamento das políticas
sociais, embora diferentes teorias ou abordagens teóricas das
ciências políticas tenham tido apreciações próprias a respeito do
domínio da política social.
Para o pluralismo, as políticas sociais são entendidas como
conseqüência da existência de diversos grupos de interesse
presentes na sociedade, que, por atuarem numa determinada arena
política, influenciam a tomada de decisões a respeito das políticas
sociais. Na concepção ‘elitista’, são os administradores (policy
makers) que interagem no interior do Estado e dão substância
concreta tanto às iniciativas como à implantação das políticas
sociais. A Teoria da Convergência, que constitui uma variante do
modelo funcionalista, entende que as políticas sociais são uma
resultante do desenvolvimento econômico e industrial e que em
torno deste a estrutura social como um todo se integra
funcionalmente.
Nas abordagens mais recentes da teoria marxista há, em alguns
casos, uma preocupação expressa pelas políticas sociais que se
sustentam em estudos sobre a complexidade do Estado capitalista
de nosso tempo. Em outros, a preocupação pela política social não
se manifesta explicitamente como no caso de Poulantzas (1980),
que, no entanto, se refere a elas ainda que de maneira não explícita,
ao analisar o papel atual do Estado.
Diante da diversidade de visões e definições da política social,
procuraremos aqui incorporar a riqueza e os diferentes ângulos de
algumas dessas abordagens teóricas, buscando um marco
conceitual que, sem perder de vista a teoria marxista, possa nos
encaminhar a uma visão mais ampla no que diz respeito às políticas sociais e que evite tanto a pura determinação estrutural quanto o
voluntarismo dos atores.
Denominaremos esse marco conceitual, que integra elementos da
teoria marxista e da teoria weberiana das instituições, de ‘enfoque
integrado das políticas sociais’, identificado com a ótica de Offe
(1984), mas complementado por algumas contribuições da
bibliografia latino-americana sobre o tema.
Para Offe (1984), existem dois planos de análise da política
social, um estrutural e um singular, articulados mediante relações
que se estabelecem no plano específico do político. No plano
estrutural, as políticas sociais estão ligadas ao Estado capitalista e
às suas determinações estruturais. No singular, são consideradas
pelas peculiaridades que as distinguem de outras políticas, e sua
singularidade pode ser captada por meio da pesquisa empírica
concentrada em dois eixos básicos: a evolução, modificações e
inovações de uma política social dada; e a relação entre estratégias
de racionalização administrativa e a implementação de inovações
políticas.
No plano estrutural, a política social cria condições
socioestruturais para que o trabalho assalariado funcione como tal.
Por meio da política social, o Estado vai regulamentar quem
participa ou não do mercado de trabalho. Para isso, precisa
organizar e sancionar as formas de existência externas ao mercado:
pessoas que pela idade avançada não estejam mais em condições
de trabalhar passam a ser atendidas pelo sistema previdenciário;
pessoas que não estejam em boas condições de saúde ficam sob a
responsabilidade do sistema de saúde; crianças e jovens são
atendidos pelo sistema de educação. Neste sentido, a política social
responde às reivindicações da classe operária, mas também a
constitui, na medida em que:
integra a força de trabalho ao mercado;
as diversas instituições de previdência, saúde, educação e
habitacionais exercem o controle da força de trabalho e
socializam os custos do desgaste da mesma;
regulamenta quantitativamente a relação entre oferta e
demanda no mercado de trabalho.
Como se poderia compreender a evolução, as modificações e
inovações no plano singular do estudo das políticas sociais? Diante
de uma visão marxista de cunho estrutural funcionalista, que explica
as políticas sociais ou porque servem ao processo de acumulação
capitalista, ou porque possibilitam que o Estado se legitime junto às
exigências da classe operária organizada, Offe afirma que as
inovações nessa área obedecem à compatibilização de estratégias
que se dão na esfera do político.
Assim, o Estado reage tanto às ‘exigências’ como às
‘necessidades’, de acordo com as instituições políticas (adequando-
as, modernizando-as etc.) e as relações de força existentes na
sociedade, canalizadas por essas instituições. A política social não
está a serviço das necessidades ou exigências de qualquer classe,
mas reage aos problemas estruturais do aparelho estatal de
dominação e de prestação de serviços. Se a afirmação anterior é
verdadeira, as inovações na política social criam condições de
interações conflitivas entre grupos e classes sociais e seus
resultados são imprevisíveis ou ambivalentes.
Os aportes da bibliografia latino-
americana na abordagem conceitual
da Reforma Sanitária
Passamos a destacar algumas contribuições da bibliografia latino-
americana, que, acreditamos, contêm idéias-chave a serem
incorporadas e articuladas nesta análise. Tal incorporação sustenta-
se na necessidade de, em nosso ponto de vista, enfatizar o papel
que a luta política, nas suas diversas formas, e a relação de forças
entre grupos sociais e classes têm nos processos de formulação e
implantação das políticas sociais.
Uma dessas contribuições (Diniz, 1978) destaca na análise das
relações entre Estado e sociedade o papel dos ‘atores sociais’, mas
sem abandonar a perspectiva dos limites dentro dos quais esses
atores agem, as determinações estruturais do Estado capitalista. Aponta o papel predominante que o Estado tem na bibliografia
latino-americana, deixando num lugar subordinado da análise os
fundamentos sociais da política.
Em outras palavras, a primazia atribuída ao Estado no processo
de desenvolvimento capitalista, ainda que esta seja incontestável,
descaracterizou a sociedade civil como geradora também de
processos com dinamismo próprio. Por isso, defende-se a
necessidade de captar essa articulação de interesses, suas
conexões com agências governamentais e técnicos localizados em
pontos estratégicos da burocracia pública. Distingue-se entre uma
fase puramente decisória das políticas e outra de implementação,
chamando atenção para a distância entre a decisão e a aplicação.
É aí precisamente que se faz sentir o peso dos diversos
interesses em jogo. Há medidas que são aprovadas e cuja
execução é bloqueada ou pela burocracia ou pelo poder de veto do
grupo diretamente afetado. Trata-se de “levar em conta a um só
tempo as determinações estruturais e o peso das opções feitas por
atores ou grupos de atores que, ao escolherem uma alternativa ou
outra, atualizam as possibilidades estruturais” (Diniz, 1978:25).
A idéia introduzida por Santos (1979) sobre a complexificação do
social refere-se ao processo de diferenciação social e de
multiplicação organizacional que se operou nas sociedades nas
últimas décadas. Surgem novos grupos com grande
heterogeneidade como resultado de novos papéis, ocupações e
posições sociais, sendo difícil reconhecer nessa diversidade classes
sociais mais homogêneas. Ao mesmo tempo, o processo é
acompanhado também pelo aumento de uma multiplicidade de
organizações que cumprem o papel de mediatizar a ação desses
movimentos e grupos sociais.
Finalmente, Oszlak & O’Donnell (1976) analisam as políticas
sociais a partir de uma perspetiva centrada na recuperação da
‘história dos problemas sociais’ ou demandas políticas e da ‘história
das políticas’. Considerando que as políticas sociais ocorrem no
cerne do Estado, em sua ‘ossatura’ institucional, caberia interrogar
como se retraduzem exigências sociais em problemas e, por sua
vez, estes em resposta do Estado, mediante políticas específicas.
Há uma seletividade das instituições políticas pela qual
determinadas demandas se traduzem em problemas, e
conseqüentemente em políticas, e que opera nos dois planos da
política social. De um lado, a tematização ou exclusão de questões
refere-se ao plano singular da política social; tais procedimentos, de
outro, operam no plano estrutural, não deixando que determinadas
questões possam ameaçar a própria existência do Estado como
Estado capitalista.
Trata-se, para Offe (1984), de uma seletividade estrutural desse
mesmo Estado capitalista. Um sistema de filtros vinculados a
interesses de classes não visíveis faz com que determinadas
questões sejam excluídas pelas instituições do Estado, enquanto
outras são transformadas (de substanciais em menos relevantes), e
algumas outras, ainda, favorecidas.
Hirsch (1977), da mesma forma, trata desse sistema de barreiras
e filtros que opera na órbita do Estado, transformando exigências
políticas em uma agenda viável de problemas e questões.
Acrescenta a esse tratamento quatro modalidades ou formas em
que funciona, na prática, a seletividade:
as determinações fundamentais de desenvolvimento social não
são objeto de decisões políticas;
o limite dos recursos materiais do Estado é dado pelo lucro do
capital;
a seletividade do sistema político se coloca na repressão física
e na integração ideológica.
e, de maneira principal, as exigências que penetram nos
aparelhos de Estado são tratadas de maneira funcional por
burocracias que atuam autonomamente e que têm
competências, clientelas e percepções próprias dos problemas.
Em relação a como se opera essa seleção, Oszlak & O’Donnell
(1976) chamam a atenção para um estudo não só das
transformações do Estado capitalista e suas modalidades de
relacionamento com a sociedade civil, mas, de maneira mais
específica, também de como o Estado opera para transformar
questões sociais em políticas concretas. No caso, se trataria de recuperar o processo histórico tanto dos problemas como das
políticas.
Articulando agora as contribuições discutidas anteriormente com a
proposta elaborada por Offe, as proposições dos autores discutidos
anteriormente, teremos o seguinte quadro sinóptico para a análise
da Reforma Sanitária brasileira.
A complexificação do social, proveniente do enfoque de análise
pluralista, seria articulada no plano de análise estrutural,
possibilitando complexificar a análise marxista de classes sociais,
pois no estágio atual do processo de acumulação capitalista não
podemos localizar com nitidez as duas classes fundamentais e
antagônicas – burguesia e proletariado.
Esse processo de estratificação dificulta tanto a delimitação
objetiva de classe como a própria identidade de classe. Grupos
sociais que se superpõem à estrutura produtiva, assim como
movimentos sociais urbanos que surgem na esfera da reprodução
da força de trabalho, via consumo de bens coletivos proporcionados
pelo Estado por meio de políticas sociais, têm formas organizativas
próprias expressando demandas sociais.
Nessa diversificação social sustentam-se os comportamentos dos
atores políticos, os quais são fundamentais para compreender
inovações políticas. Paralelamente, esses atores podem assumir
interesses diversos – de classe, corporativos, de grupos, individuais
– que podem ou não se exprimir ideologicamente. O procedimento
de adequação de estratégias políticas aos processos de
racionalização administrativa e/ou inovações políticas, assim como o direcionamento das mesmas é gerado pelo desempenho dos atores
políticos.
Por último, incorporar à análise a história das demandas sociais e
das políticas sociais coloca-nos diante da necessidade de realizar
um corte diacrônico (histórico) tanto no plano da análise estrutural
quanto no plano singular das políticas sociais. Isso complementaria
a análise de Offe, na medida em que este autor só fazia referência à
importância de se realizar um corte diacrônico no plano ‘singular’
das políticas sociais que reconstrua a ‘história dos efeitos’ das
políticas sociais.
Observações resultantes do enfoque
metodológico adotado
No marco da discussão teórica, a Reforma Sanitária, como
política social, foi uma proposta surgida de um movimento social
que, no cerne do processo de transição à democracia, teve a
capacidade de se articular.. Ainda que se tenha conseguido uma
proposta acabada de reformulação do sistema de saúde sancionada
na Constituição, há grandes dificuldades para implementá-la.
Diversos interesses presentes tanto na sociedade como no Estado
oferecem resistências, utilizando desde mecanismos de veto à
política até tentativas de modificá-la substancialmente.
Offe (1984) menciona algumas dificuldades, dilemas e possíveis
soluções ao tratar das inovações sociopolíticas e de racionalização
administrativa experimentadas na Alemanha com a crise do Welfare
State, que puderam colaborar para evitar os vetos à Reforma
Sanitária. A Social Democracia alemã não poupou recursos fiscais
destinados a políticas sociais.
No plano das inovações sociopolíticas procurou-se, então,
aumentar a eficiência das políticas sociais; especificamente em
relação à política de saúde, uma das soluções encontradas foi por
intermédio de estratégias preventivas, buscando melhorar as
condições de trabalho e de vida da população.
As dificuldades e resistências assinaladas anteriormente podem
nos servir de referência ao aprofundarmos os problemas concretos
que a implementação da Reforma Sanitária traz no caso do Brasil,
sem significar que seja viável a reprodução das experiências
realizadas nos países com democracias avançadas; estas nos
ajudam a pensar as questões políticas e econômicas relacionadas a
processos de reformas ou inovações sociopolíticas, que passam
então a adquirir importância decisiva na consolidação da
democracia.
Um dos problemas atuais de maior complexidade para o
estabelecimento da democracia é a representação dos interesses
‘subalternos’ nas agendas políticas ou, mais precisamente, a
existência de espaços para que isso aconteça no interior das
políticas sociais. Ainda que, hoje, nos países de capitalismo
avançado, o Estado não possa incorporar demandas sociais como
em décadas anteriores, diversos interesses, de maneira
institucionalizada ou não, se fazem representar.
No meio de uma profunda crise do Welfare State, os sindicatos e
outras organizações sentam-se à mesa de negociações participando
da formulação e implementação de políticas sociais. No Brasil, onde
não houve até recentemente sistema político de corte liberal-
democrata, o reconhecimento de direitos de cidadania e,
especificamente, do direito de usufruir de um mínimo de bem-estar
foi bastante tolido. Tal situação é agravada pela implantação de
políticas econômicas de ajuste à crise, que trouxeram cortes nos
gastos destinados às políticas sociais, intensificando ainda mais o
problema estrutural da miséria. Especificamente no setor saúde, os
mecanismos de ajuste à crise foram: diminuir os recursos do
Tesouro, aumentar as contribuições de empregados e
empregadores e criar novos fundos sociais, que, em lugar de serem
destinados a financiar ações para os setores sociais, se destinaram
a suprir a crise fiscal.
Ao compreender o processo de democratização do setor saúde
como a constituição de um regime de democratização parcial, os
percalços no andamento da Reforma Sanitária remetem a
dificuldades mais gerais, que dizem respeito ao próprio processo de
consolidação da democracia. Desse modo, a Reforma Sanitária tem convivido com uma permanente falta de recursos, o que afetou
profundamente o setor público da saúde, alterando a credibilidade
dos usuários e seus movimentos sociais organizados.